O imenso curral eleitoral em que se converteu o Bolsa-Familia vai ficar como a principal herança maldita da era Lula, um legado que vai pesar como maldição sobre o itinerário presente e futuro do Brasil.
O pior é que políticos demagogos -- ou políticos, tout court, já que o resto, todo o resto é implícito -- não se levantam contra a anomalia, fazendo uma disputa de benesses com o dinheiro alheio, prometendo sempre reforçar, ampliar, estender e garantir essa grande esmola pública.
Vamos pagar caro por isso, muito mais do que o valor nominal, financeiro, desse fantástico empreendimento de irresponsabilidade política.
Paulo Roberto de Almeida
Transferir ou criar riqueza?
Paulo Guedes
O Globo, 19/07/2010
"Cem milhões de brasileiros vivem com o dinheiro público", estampou O GLOBO em sua primeira página da edição deste domingo. A matéria é de Gilberto Scofield Jr., com base em estudo de Raul Velloso, veterano especialista em nossas contas públicas.
"Metade da população do país depende hoje de recursos repassados pelo governo federal. São servidores públicos, pensionistas e pessoas beneficiadas por programas sociais, transformando o orçamento federal em uma grande folha de pagamentos", prossegue a reportagem.
São compreensíveis as pressões de uma democracia emergente sobre os gastos sociais. Orçamentos públicos refletem essas exigências. A preocupação da matéria é a degeneração do processo político. "O poder de influência eleitoral é muito grande quando o gover no tem tanta gente dependendo dele", dispara o economista.
Isso explica em boa parte a feroz disputa intestina da social-democracia brasileira e as acusações recíprocas de corrupção. Os tucanos mexeram na Constituição para garantir a reeleição de FHC. E acusam agora os petistas de aparelhamento do Estado e de assistencialismo para garantir sua permanência no poder.
Mas outra importante preocupação é com a dimensão econômica. O que esses 48,8 milhões de núcleos familiares, envolvendo 100 milhões de brasileiros, transmitirão a seus filhos como perspectiva de futuro? Devem buscar um emprego industrial no ABC paulista? Ou entrar para os sindicatos, onde o futuro parece mais brilhante? Devem ser empreendedores e criar postos de trabalho, enfrentando o cipoal de impostos, ou se candidatar à política, onde os recursos parecem não faltar?
E o jovem no campo, deve frequentar uma escola técnica e buscar uma especialidade no ag ronegócio ou entrar no subterrâneo da política através do MST, com o colorido dos bonés e das camisas vermelhas, a força da enxada e da foice nas mãos, a "fúria dos justos" no olhar e toda a ignorância quanto à complexidade do organismo econômico moderno e à sofisticação política de uma sociedade aberta? E a classe média, o contribuinte, deve apenas recomendar a seus filhos a aprovação em concursos públicos?
Se o futuro do militante, do sindicalista e do político parece bem melhor que o do estudante, do trabalhador e do empreendedor, a perspectiva é de baixa produtividade e lenta melhoria no padrão de vida dos brasileiros.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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2 comentários:
Professor,
Chamo-me Felipe Xavier, freqüentador bastante assíduo de seu blog, e estudante de Relações Internacionais.
Gostaria muito que você desse sua opinião sobre um assunto (como dizem os chineses, não existe tortura maior do que uma dúvida na alma). Realmente fico perdido sem saber como entender o grande embate entre neoliberais e os defensores do Welfare State. Vários livros afirmam categoricamente que o neoliberalismo foi altamente pernicioso para a América Latina durante a década de 1990, provocando, inclusive, o aumento da distância entre ricos e pobres (Isso é mentira? Há desonestidade intelectual aqui?). Por outro lado, como você já afirmou diversas vezes, um estudo rápido dos manuais de economia revela, sem grandes mistérios, os grandes benefícios advindos de um mercado livre, com menor participação do Estado.
Como explicar a tão bem sucedida expansão da economia soviética (com os planos quinquenais) durante os anos da Grande Depressão e a debilidade da economia norte-americana e de vários outros países com economias liberais? Por outro lado, economias liberais como Hong Kong, Coréia, Taiwan e Cingapura prosperaram bastante “sob o signo neoliberal” durante os anos 1980, enquanto outras, a exemplo da brasileira, languesceram brutalmente
Essas dúvidas, para mim, são instigadoras e frustrantes ao mesmo tempo. O senhor poderia respondê-las diretamente? Ou, caso esteja muito atarefado, poderia recomendar leituras de ensaios que o senhor tenha escrito sobre o assunto (ou de outros autores) e que possam lançar alguma luz sobre minhas indagações.
Muito obrigado pela atenção!
Abraço,
Felipe Xavier
Felipe Xavier,
Desculpe se não respondi antes, mas estava em viagem e participando de dois congressos.
Suas questões são extremamente relevantes, e não podem ser comentadas neste espaço.
Vou preparar um artigo ou post especial tratando de todas elas.
So posso dizer que os que dizem que a economia sovietica teve expansao bem sucedida, ou que as economias "liberais" estao condenadas à estagnaçao estao completamente equivocados, ou entao nao agem de boa fe. Voltarei ao assunto.
Paulo R Almeida
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