Uma crônica extremamente saborosa que me permito reproduzir a partir da newsletter diária do Antagonista, de que Mario Sabino (ex-Veja) é um dos fundadores.
Eu adoraria chamar esse blog de Contrarianista (pois assim ele ele ficaria com o meu perfil, mas talves isso seja narcisismo demais, ou quem sabe autismo).
Nesta crônica, com base em suas lembranças de família, ele discute o papel do Estado, em geral, e o seu pobre e miserável papel aqui no Brasil.
Considerações familiares e filosóficas à parte, concordo inteiramente com sua caracterização do Estado brasileiro atual, capturado por patrimonialistas de direita e de esquerda (os primeiros desde sempre, os segundos desde 2003, e ainda não terminou), mas que eu preferiria traduzir por outros conceitos.
Eu diria, por exemplo, que nosso antigo patrimonialismo tradicional, aquele das elites latifundistas, dos coroneis do interior e dos magistrados da capital, foi transformado por Vargas num patrimonialismo urbano-industrial, das novas elites industriais (que antigamente eram chamadas de "classes produtoras"), foi igualmente modernizado pelos militares, que o converteram num patrimonialismo tecnocrático (e Brasília foi essencial nesse mudança perversa), até chegarmos no patrimonialismo operado pelos companheiros, que o converteram em um patrimonialismo de tipo gangster.
Essa palavra gangster pode parecer exagerada, mas é isso mesmo o que eles fizeram: são mafiosos, e o pior de tudo, como diria Mario Sabino, são uns fascistas (e sequer são de esquerda, pois são eminentemente reacionários).
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 10/06/2016
Sobre o meu avô, o Estado e o “Estado brasileiro"
Por Mario Sabino
O Antagonista, 10 de Junho de 2016
Acho graça quando petistas me xingam de "fascista”. Sou fruto da oposição ao fascismo. Explico: o meu avô materno refugiou-se no Brasil ao receber um ultimato de Benito Mussolini para sair da Itália. Era cair fora ou morrer. Mussolini lhe deu essa oportunidade porque ambos trabalharam juntos no jornal socialista Avanti! e nutriam certa afeição recíproca quando eram colegas de redação.
É impossível que Mussolini tenha odiado o meu avô, no máximo uma minúscula nota de rodapé na sua biografia. Mas o meu avô odiava Mussolini, a ponto de a simples pronúncia do seu nome ser proibida diante dele. Até mesmo falar dos feitos dos antigos romanos -- que os fascistas pateticamente tentaram copiar -- era considerado ofensa grave. Nada podia lembrar Mussolini, o homem que o expulsara da Itália e havia assassinado muitos dos seus amigos.
Meu avô era melhor do que Mussolini? Digamos que não teve a chance de provar. O meu avô era, mais do que socialista, anarco-socialista, amigão de Errico Malatesta, prócer do movimento italiano (os que me chamam de “socialista fabiano” vão adorar saber). Uma vez no poder, talvez mandasse fuzilar Mussolini, sem lhe dar a chance de escapar para a América do Sul. Só estou sendo franco porque a minha mãe morreu e os dois tios maternos que me restam dificilmente lerão esta newsletter.
A minha existência, portanto, se deve ao fato de um anarco-socialista ter sido expelido da Itália por um socialista que se tornou o Duce fascista. Assim sendo, é natural que eu pense no meu avô quando leio a palavra “fascista” ou a expressão “socialista fabiano” associadas a mim. Mas eu também penso nele ao ouvir jovens adeptos do liberalismo em pregação pelo fim do Estado.
O meu avô anarco-socialista pregava o fim do Estado. Ele basicamente queria substituir essa grande conquista da civilização por sindicatos de trabalhadores em assembleia permanente que decidiriam tudo: do preço do leite ao fim das fronteiras nacionais. Troque-se os sindicatos dos trabalhadores em assembleia permanente pelas leis do mercado e a privatização de todas as atividades humanas e eis que temos a profissão de fé desses jovens adeptos do liberalismo que pregam o fim do Estado. O nome de tal profissão de fé é anarco-capitalismo.
A revolta mais do que justificada contra o "Estado brasileiro” deveria nos fazer refletir menos sobre o substantivo e mais sobre o adjetivo. Diminuir o nosso Estado é fácil, difícil é fazer com que ele não seja brasileiro.
O Estado é uma grande conquista da civilização porque, lá na sua origem, impediu que devorássemos uns aos outros. Depois, porque resultou na separação entre o público o privado, sem matar o privado. Mais tarde, porque propiciou a escola gratuita. Em seguida, porque possibilitou a construção de redes de saúde, saneamento básico, iluminação e transporte dignos desses nomes para as massas. Por último, viabilizou a criação de museus e bibliotecas fantásticos.
O Estado da civilização, como se pode ver, é o exato oposto do Estado brasileiro” -- um monstrengo surgido da colusão entre os patrimonialistas da direita e esquerda nacionais, lubrificados por um povo ignorante e abúlico.
Nem “fascista”, nem “socialista fabiano”, nem anarquista de qualquer tipo, sou muito pelo contrário.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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