Duas matérias sobre assuntos paralelos, falando de moribundos, e de pelo menos um cadáver insepulto.
Desculpem ser tão macabro.
Paulo Roberto de Almeida
O desespero petista
Editorial O Estado de S. Paulo, segunda-feira, 6 de junho de 2016
Uma pesquisa interna do PT, obtida pelo Estado, mostra uma perspectiva desastrosa para o partido nas eleições municipais de outubro. A avaliação indica que os petistas conseguirão se reeleger em apenas 7% das prefeituras que a legenda conquistou no Sul e no Sudeste no pleito de 2012. Já no Nordeste, que se tornou o principal reduto eleitoral do PT graças a seu populismo rasteiro, há chances de vitória em somente 8%. É esse horizonte sombrio que norteia a estratégia petista de jogar todas as suas fichas na histeria do “golpe”, transformando-a em mote de sua campanha eleitoral, pois foi somente isso o que restou ao partido, rejeitado em todo o País pelo imenso dissabor que causou em sua desastrosa passagem pela Presidência. Não há o que defender num legado de roubalheira, irresponsabilidade e mentiras.
Se tivesse um mínimo de apreço pela democracia e pelas instituições, o PT já teria reconhecido seus inúmeros erros e oferecido alguma forma de compromisso com as demais forças políticas para que o País pudesse sair o mais breve possível da barafunda em que a presidente afastada Dilma Rousseff o meteu. Mas o espírito autoritário do partido, que se julga portador da verdade histórica, torna legítimo, aos olhos dos petistas, o falseamento da realidade e o insulto à inteligência na expectativa de criar confusão moral e, assim, tentar salvar a todo custo seu projeto de poder.
Foi esse espírito que presidiu a mais recente resolução da Comissão Executiva Nacional do PT. Com base nas conversas gravadas do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, o partido diz ter ficado claro que “a deposição da presidente Dilma tem entre seus objetivos o estancamento das investigações no âmbito da Operação Lava Jato relacionadas aos partidos que engendraram o golpe”.
Não custa refrescar a memória da tigrada. Em primeiro lugar, o PT parece ter-se esquecido de suas ferozes críticas ao vazamento de gravações quando estas comprometiam correligionários. “Eu não respeito delator”, Dilma chegou a dizer. Mas agora parece que os vazamentos se tornaram úteis para denunciar o tal “golpe”. Em relação à tentativa de “estancar” a Lava Jato, também é bom lembrar que, por pressão do comando petista, Dilma foi obrigada a demitir da Justiça seu fiel escudeiro, José Eduardo Cardozo, acusado de não “controlar” a Polícia Federal, que não parava de investigar petistas. Além disso, pululam depoimentos que indicam que a própria Dilma pode ter agido para tentar livrar empreiteiros enrolados na Lava Jato e para obstruir a Justiça, sem falar na tentativa de blindar Lula, seu encalacrado padrinho, nomeando-o para a Casa Civil.
A resolução petista procura também desqualificar o atual Ministério pelo fato de ser “composto por inúmeros investigados por corrupção, com perfil conservador e de baixa qualidade técnica”. A tentativa soa como piada, quando se têm em mente os ministros que Dilma nomeou ao longo de seu governo, muitos deles demitidos em sucessivas “faxinas”, e principalmente às vésperas de seu afastamento, na agonia da compra de votos contra o impeachment.
Seria ingenuidade esperar coerência de um partido que cresceu com o discurso da pureza, mas que, uma vez no poder, adotou a corrupção e a desfaçatez como métodos de governo. O PT imagina estar numa luta pela sobrevivência, razão pela qual nenhuma estratégia, por mais suja que pareça, será descartada. Nesse vale-tudo, até o desemprego de 11,2% registrado no trimestre terminado em abril – quando Dilma estava na Presidência – foi atribuído pelos petistas ao governo de Temer. “Mas não era só tirar a Dilma que acabava a crise?”, perguntou, com a maior caradura, o senador petista Lindbergh Farias em seu Facebook.
Assim, os petistas, a título de salvar o partido, parecem na verdade empenhados em assegurar-lhe um fim melancólico. Em discurso recente, a propósito das dificuldades eleitorais do PT, o presidente da legenda, Rui Falcão, disse: “Acabou a era da militância paga. Nós teremos que fazer uma campanha com muitos voluntários e voluntárias e, para isso, é fundamental que a gente tenha ideias a oferecer”. Pelo jeito, a única “ideia” que o PT tem hoje para oferecer é a de que, para o partido, só a derrota é imoral.
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Obituário de um farsante
Paulo Roberto de Almeida
Não existe muita glória,
apenas temeridade, em publicar um necrológio antes da morte física do personagem
em vista, embora esse pecado já tenha sido cometido mais de uma vez na história
da imprensa mundial. Desde Mark Twain se sabe que rumores sobre certas mortes
são grandemente exagerados. Em todo caso, quero falar da morte política de um
dos mais nefastos personagens da política brasileira, esse mesmo que muitos
esperam ver preso numa das próximas fases da Operação Lava Jato, a qual
proponho desde já que se intitule “Rapa Tudo”.
Pois bem: morreu, em
algum momento entre 2015 e 2016, de causas ainda não identificadas, o maior
farsante da história política brasileira. Antes se acreditava que esse título
pertencesse a uma outra grande fraude política, àquele que tinha prometido
acabar com a inflação no Brasil de um golpe de caratê, mas que começou tungando
a população brasileira de seus ativos, e que acabou abatido pelos movimentos de
rua e pelo Congresso, no primeiro processo de impeachment bem sucedido de nossa
história. Tinha havido uma tentativa em 1954, contra o ex-ditador Vargas, mas
ela não conseguiu ultrapassar a barreira da aprovação na Câmara, embora o
acusado tenha deixado o poder para entrar na história, como alguém escreveu
numa carta pré-fabricada, feita para confundir seus adversários políticos, que
ficaram abatidos pela reação popular. Em nossos dias, porém, um valor mais alto
apareceu nos porões da pátria.
Haverá reação popular
quando o farsante tiver de abandonar definitivamente as réstias de poder de que
ainda goza para entrar, enfim, na lata de lixo da história? Difícil dizer, uma
vez que “popular”, no Brasil, há muito deixou de significar manifestações espontâneas
da cidadania, para transformar-se em “agit-prop” de grupos manipulados pelo
partido neobolchevique. É sabido, desde muito tempo, que os tais “movimentos
sociais” – e vários sindicatos que também possuem alguma presença nas ruas
(aliás ilegalmente) – constituem meras “correias de transmissão” do mesmo
partido totalitário que empolgou, no pior sentido da palavra, largas frações de
eleitorado urbano no seu caminho para a conquista do poder, partindo ele então
para a consolidação de um formidável curral eleitoral, em larga medida rural, e
muito parecido com os redutos amestrados dos antigos coronéis do interior.
Para contrapor-se à mais
formidável fraude política assim criada, mas financiada por todos nós – por
meio dos cofres públicos –, emergiram, a partir de 2013 e sobretudo em 2014 e
2015, movimentos legítimos da cidadania consciente e ativa, que lograram
sucesso ao mobilizar largas frações da classe média – nós, os “coxinhas” – nas
maiores manifestações políticas jamais vistas na história do Brasil. Eles são
os verdadeiros movimentos de rua, em contraposição aos mercenários do partido
totalitário, os tais “mortadelas” de patéticas mobilizações “de massa”, apoiados
pelo maior exército de blogueiros “sujos” de que se tem notícia nas comunicações
mundiais, todos ilegalmente pagos com o meu, com o seu, com o nosso dinheiro. Tal
distinção, entre velhos e novos “movimentos de rua”, deve ser feita, porque são
os novos que estão na origem do atual processo de impeachment, e são eles que
explicam o vigor com que a Operação Lava Jato tem trabalhado para desmantelar os
tentáculos da cleptocracia de estado criada e expandida enormemente sob os neobolcheviques
caboclos.
Que a corrupção não
tenha sido criada por eles, isso é óbvio. Mas, para usar uma linguagem
marxista, ela sempre existiu naquele estágio do modo de produção artesanal, sob
o qual políticos roubavam individualmente, em pequena escala, de acordo com as
condições e oportunidades: uma emenda orçamentária aqui, uma ONG familiar
acolá, um projeto de quadra esportiva em Cabrobró da Serra, uma compra
governamental em Tiririca do Monte, e superfaturamentos ocasionais nas estatais
penetradas. A partir dos companheiros, a corrupção passou a uma etapa superior,
como diria Lênin, ao modo de produção industrial da roubalheira, à sua fase
sistêmica, disseminada, indiscriminada. Os órgãos estatais foram devidamente
aparelhados, ajustados para o assalto organizado, e até desorganizado, como
testemunham os depoimentos de alguns varões do empresariado nacional (os tais
que foram chamados por um apparatchik
a pagar o percentual de 1% mesmo retroativamente, ou seja, desde que se iniciou
a era do Nunca Antes). Desfaçatez igual nunca se viu nos bandidos políticos
tradicionais.
Na origem de tudo isso,
uma mudança importante, do antigo patrimonialismo político para sua modalidade
peculiar sob o reino dos neobolcheviques, como estudado em inúmeros artigos e
até num livro inteiro – A Grande Mentira
– por Ricardo Vélez-Rodríguez: essa modalidade, da mesma forma como certas
vertentes do peronismo, pode ser chamada da patrimonialismo gangsterista, que é
quando uma quadrilha de meliantes se apossa de várias vertentes da máquina
pública – como ocorreu em certas regiões da Itália em determinados momentos de
sua história política – para dela fazer o mesmo uso que fazem chefes de máfias em
atividades ligadas ao submundo do crime.
Foi assim que o Brasil
chegou à era da Grande Destruição, ao afundamento de sua economia e ao
desmantelamento de certo número de instituições públicas. Algumas, felizmente, não
foram aparelhadas, e o espírito da cidadania crítica conseguiu emergir, na chamada
República de Curitiba, para começar a golpear, dentro das regras do jogo, as
trapaças mais sórdidas da quadrilha mafiosa que parecia ter se apossado totalmente
do Brasil. É esse renascimento da consciência cívica em largos extratos da
população que me habilita a, preventivamente, declarar a morte de um farsante. Como
escrevi num artigo anterior, já não era sem tempo...
[Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 30 de maio de 2016]
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