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terça-feira, 12 de outubro de 2021

Sobre os atuais impasses do Brasil - Paulo Roberto de Almeida

 Sobre os atuais impasses do Brasil 

Paulo Roberto de Almeida

Não me surpreende a existência de loucos que se distinguem na paisagem, e que por isso mesmo atraem os demais (parece que são muitos) desequilibrados que andavam dispersos na sociedade. Essa combinação só aparece nas sociedades em crise, quando a classe média— pois é ela quem determina tudo — resolve se agarrar a alguma solução fora dos padrões para ver se isso estanca o mal desatado pela crise. 

O que me surpreende é a existência de tantas pessoas dotadas de educação, de informação e até de padrões razoáveis de vida que se agarram nessa pretensa “boia salvadora” para salvar a si e ao país de ameaças indefinidas que foram exploradas pelo louco oportunista que subiu na onda da revolta contra a situação.

A existência de tantos bolsonaristas — ou seja, pessoas que incensam, seguem e defendem um psicopata mentiroso, medíocre e perverso — é um fenômeno surpreendente para quem achava, como eu, que o Brasil já tinha chegado a um grau razoável de desenvolvimento para não se enredar novamente nessas fraudes políticas que se abatem sobre o país a intervalos regulares.

E parece que o ciclo não acabou: a sociedade está novamente disposta a eleger um demagogo mentiroso que sempre esteve mais para chefe de gangue do que para estadista reformador. É o que deduzo das pesquisas eleitorais.

Será que tenho de chegar à conclusão de que a deseducação estrutural, a ignorância pura e simples e a total falta de senso — o que junta no mesmo saco bolsonaristas e lulistas, explorados pelos oportunistas de plantão—  estão muito mais presentes na sociedade do que se poderia imaginar?

Olhando para cima, é exatamente o que se assiste na maior potência econômica do planeta, praticamente paralisada por antivacinais e trumpistas true believers. Como uma sociedade supostamente desenvolvida pode emburrecer de repente?

No nosso caso, o fenômeno pode também ser atribuído à existência de elites predatórias que se apoiam em mavericks eleitorais para extrairem ainda mais recurso coletivos. Foi exatamente o que sucedeu com a emergência de lulistas e bolsonaristas, sendo que o segundo “salvador” é, na verdade, um destruidor de instituições, como de quaisquer outros padrões civilizatórios. 

Lula pertence à categoria dos populistas tradicionais da AL, que mantêm seus países num atraso que eles não merecem. Já Bolsonaro pertence ao pequeno grupo de psicopatas capazes de destruir um país na perseguição de miragens impossíveis, como foi o caso de um Hitler. Mas o Brasil não é obviamente uma potência econômica para destruir junto outros países: o mal fica contido nas fronteiras nacionais.

Lula é um Perón de botequim. Bolsonaro é apenas uma contrafação medíocre e estúpida de um Hitler de circo. Pena que tantos militares e capitalistas o apoiaram, por puro oportunismo, como também o fazem os politicos profissionais. Essas três categorias de atores políticos são os verdadeiros responsáveis pela desgraça do Brasil atual, e são eles que podem trazer de volta o demagogo mafioso que promete salvar o Brasil da atual desgraça. 

Estou quase aderindo à falsa teoria de Marcel Eliade sobre o “eterno retorno”. Ela é manifestamente equivocada, mas cabe recordar que todas as pessoas nascem exatamente com a mesma dotação primária, ou seja: 0 km em matéria de conhecimento acumulado, tudo precisa ser aprendido a partir de zero. O que significa que todos os pré-conceitos sociais, equívocos políticos e a ignorância consolidada numa sociedade deseducada como a brasileira vão florescer novamente em momentos de crise como os que já vivemos de forma recorrente desde nossa formação como Estado independente.

De fato, não se pode pedir que as pessoas venham ao mundo educadas, inteligentes e sensatas. Elas são o que o seu background familiar e social-ambiental permitiu que elas fossem, e o nosso manifestamente não é conducente a padrões avançados de desenvolvimento econômico e social, a níveis razoáveis de bem-estar material para aqueles membros da sociedade mais desprovidos pela sorte. 

O fato é que o Brasil é, pelo estoque já razoável de acúmulo de riqueza material obtido ao longo do século XX, um país desproporcionalmente dotado de muitos pobres, milhões deles, e de um contingente insuportavelmente alto de miseráveis, de destituídos pela “sorte”. Esse imenso “exército de miseráveis”, de andrajosos e de ignorantes eu atribuo ao egoísmo e à mediocridade das elites, todas elas, que primeiro preservaram o tráfico e o regime escravo, depois a não educação das massas e a não reforma agrária, em seguida o patrimonialismo e a corrupção política e finalmente a estupidez de acreditarem que o monstro metafísico do Estado seria capaz de, no lugar de uma sociedade livre, resolver os problemas da miséria e da desigualdade. 

Atenção: o Brasil não é pobre porque é desigual; ele é desigual porque é pobre, ou porque tem muitos pobres, um excesso de miseráveis. O problema principal do Brasil não é a desigualdade, é a pobreza. E esta vem da não educação.

Este é o crime, imperdoável, das nossas elites, e estas não são apenas os “ricos”. Sindicatos, magistrados, políticos profissionais, até acadêmicos, entram nessa conta. Os pobres não têm culpa pela nossa pobreza material. Esta é produzida pela indigência mental de nossas elites. A miséria é sobretudo intelectual, ou, como gostava de dizer Millor Fernandes, ela é intelequitual.

Que os atuais membros das elites mais dotadas de poder — capitalistas, militares e políticos— sejam incapazes de se colocar de acordo sobre um programa imediato de superação de nossos atuais impasses e, depois, sobre um programa razoável de desenvolvimento econômico e social, é um testemunho flagrante dessa indigência mental e da mediocridade intelequitual que as caracterizam. 

Não vejo nenhum impulso vigoroso no horizonte de possibilidades imediatas, apenas mais estagnação e mediocridade, ou seja, perspectivas exasperantemente lentas de melhorias necessárias. Ricos e classes médias vão continuar se safando da maneira habitual: os primeiros exportando seus capitais e seus filhos para paragens mais amenas e as segundas dando um duro danado para não refluirem para a pobreza das classes subalternas.

Quanto aos pobres e miseráveis, estes continuaram a soçobrar, a perecer nos escombros produzidos pelo egoísmo e mediocridade daquelas elites.

Sorry pelo excesso de realismo.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 12/10/2021

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