Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº732
Recife, 09 de outubro de 2026
Caro leitor,
A Revista Será? não poderia passar incólume aos efeitos nefastos da polarização. Entretanto, como nossa essência é a busca da verdade por meio da controvérsia e da troca de ideias, não fugimos dessa missão. Nesta edição, o leitor encontrará reflexões inspiradas por correntes de pensamento distintas, umas mais à esquerda, outras um pouco mais distantes dela.
Todas, porém, situadas no ambiente democrático, próprio à solução civilizada dos conflitos. A diferença reside no fato de que essas reflexões estão fundamentadas em argumentos sólidos sobre uma mesma realidade, que insiste em nos inquietar e desafiar. Temos a profunda convicção de que é no ambiente democrático, e somente nele, que os naturais conflitos sociais encontram caminhos civilizados de resolução.
É dessa convivência entre diferenças, mediada pelo diálogo, pela tolerância e pelo respeito às instituições, que emerge um sentido civilizatório. É com esse espírito que convidamos nossos leitores a percorrer as reflexões desta edição.
Em “O Brasil numa encruzilhada”, nosso Editorial situa a democracia no centro da escolha eleitoral. Ao distinguir as trajetórias de Lula e Flávio Bolsonaro, alertamos para os riscos de erosão democrática associados à candidatura deste último, particularmente pela possibilidade de enfraquecimento das instituições a partir de seu próprio interior.
A complexidade do momento ganha novas dimensões em “As eleições e o futuro como desafio”. Marco Aurélio Nogueira examina o avanço da extrema direita, os equívocos estratégicos do PT e as transformações sociais produzidas pela revolução digital. Sua reflexão aponta para a necessidade de reconstruir o diálogo entre as forças democráticas.
Em “Eleições e a Incerteza”, João Rego propõe uma reflexão político-filosófica sobre a democracia como conquista civilizatória. Ao afirmar que “a incerteza é prima legítima da tolerância”, sustenta que reconhecer a legitimidade da vontade do outro é condição essencial à convivência democrática. O voto surge como gesto de renovação da legitimidade do poder.
Sob outro ângulo, Helga Hoffmann, em “A eleição e a alta tolerância ao risco”, questiona a disposição dos brasileiros para escolhas cujas consequências nem sempre são devidamente avaliadas. Sua análise alcança tanto o comportamento do eleitorado quanto a decisão de Lula de disputar um quarto mandato sem preparar adequadamente sua sucessão.
Nosso correspondente Rui Martins, em “Estudantes na França e a Dinastia Bolsonaro”, aproxima dois cenários distintos. Compara as manifestações estudantis francesas de 2026 à rebelião de Maio de 1968 e, voltando-se ao Brasil, questiona as pesquisas eleitorais e alerta para possíveis retrocessos sociais e riscos à soberania nacional.
Com sua ironia característica, José Paulo Cavalcanti Filho apresenta “Restos Das Eleições”, uma crônica sobre derrotas de personagens conhecidos da política brasileira. Contrariando a célebre advertência de Ulysses Guimarães, considera a possibilidade de que o novo Congresso seja melhor que o atual.
A questão da liderança política ganha profundidade sociológica em “Lulopetismo: entre o carisma e a institucionalização”. Sérgio Alves recorre a Max Weber para examinar um paradoxo: o carisma de Lula, principal elemento de coesão do movimento, constitui também seu maior desafio sucessório. Sua continuidade dependerá da construção de mecanismos institucionais capazes de sobreviver ao líder.
Em “Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar”, Paulo Roberto de Almeida percorre, com erudição e ironia, a história brasileira para identificar a persistência de ideias autoritárias. Do integralismo ao bolsonarismo, sua reflexão alcança também a degradação partidária, o domínio das oligarquias e as fragilidades da representação política.
Mudando o registro, mas permanecendo no terreno da convivência humana, Paulo Gustavo nos oferece “A Conversa na Contramão”. Inspirado em Montaigne e em estudos contemporâneos da neurociência e da sociologia, reflete sobre um paradoxo de nosso tempo: multiplicam-se as conexões digitais enquanto empobrecem os encontros humanos. Afinal, conectividade não é sociabilidade.
Fechamos a edição com “Última Página”, a charge de Elson.
Em tempos nos quais a polarização frequentemente transforma divergências em hostilidades, reafirmamos nossa disposição de acolher o pensamento plural. A democracia não exige unanimidade, mas a capacidade de conviver com diferenças, reconhecer incertezas e sustentar argumentos. É nessa perspectiva que a Revista Será? continuará participando do debate público.
Boa leitura.
Os Editores
Índice
- O Brasil Numa Encruzilhada - Editorial
- As eleições e o futuro como desafio - Marco Aurélio Nogueira
- Eleições e a Incerteza - João Rego
- A eleição e a alta tolerância ao risco - Helga Hoffmann
- Estudantes na França e a Dinastia Bolsonaro - Rui Martins
- Restos das Eleições - José Paulo Cavalcanti Filho
- Lulopetismo: entre o carisma e a institucionalização - Sérgio Alves
- Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar - Paulo Roberto de Almeida
- A Conversa na Contramão - Paulo Gustavo
- Última Página, a charge de Elson
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