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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Carreira Diplomática: respondendo a um questionário - Paulo Roberto de Almeida

  

2007. “Carreira Diplomática: respondendo a um questionário”, Brasília, 21 maio 2009, 8 p. Respostas a questões colocadas por graduanda em administração na UFSC. Postado no blog Diplomatizzando (21.05.2009; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2009/05/1112-carreira-diplomatica-respondendo.html). Postado novamente no blog Diplomatizzando em 8/01/2016 (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/01/um-questionario-sobre-carreira.html).

 

Carreira Diplomática: respondendo a um questionário

 

Paulo Roberto de Almeida (www.pralmeida.org)

Respostas a questões colocadas por:

graduanda em administração na UFSC.

 

1. Como você se sente por ter escolhido essa profissão (área de atuação)?

PRA: Bastante bem: de certa forma, a profissão me escolheu, posto que desde muito cedo comecei a viajar, primeiro pelo Brasil, depois pela América do Sul e, finalmente, ao completar 21 anos, decidi estudar na Europa, por meus próprios meios e obtendo meus próprios recursos. Foi uma escolha que me preparou para uma vida nômade e aventureira e nunca me arrependi de ter-me lançado ao mundo em fase ainda precoce e sem sequer ter terminado o segundo ano da graduação. Como minha intenção era estudar fora do Brasil, pode-se dizer que realizei meu intento. Quando regressei ao Brasil, depois de quase sete anos na Europa, eu já estava preparado, digamos assim, para tornar-me diplomata. Mas, antes, não tinha pensado: “tropecei” com a carreira, se ouso dizer. Até então, eu só queria derrubar o governo militar.

 

2. Como você descreveria a sua profissão?

PRA: Uma burocracia de alto nível de qualificação técnica com ampla abertura para as humanidades e o conhecimento especializado. Trata-se, simplesmente, da mais intelectualizada carreira na burocracia federal, combinando aspectos da carreira acadêmica, da pesquisa aplicada e da elaboração de decisões em ambiente altamente competitivo, tanto interna, quanto externamente. Uma elite, como se costuma dizer.

 

3. Qual sua formação acadêmica? Você considera que ela foi fundamental para o sucesso profissional?

PRA: Ciências Sociais, ou humanidades, no sentido lato, e acredito que ela foi fundamental no ingresso e sucesso na carreira escolhida. Desde muito cedo inclinei-me para os estudos sociais, com forte ênfase na história, na política e na economia, complementados por uma dedicação similar a geografia, antropologia, línguas e cultura refinada, de uma maneira geral. Sou basicamente um autodidata e creio que isso facilitou-me enormemente o ingresso na carreira, pois quase não necessitei de muito estudo para os exames de ingresso. Aliás, entre a decisão de fazer o concurso (direto, no meu caso) e o ingresso efetivo, decorreram pouquíssimos meses (três).

 

4. Quais as principais dificuldades enfrentadas para conseguir passar no concurso?

PRA: Direito e Inglês, posto que eu havia estudado amplamente todas as demais matérias, mas não Direito, e todos os meus estudos foram feitos em Francês, que eu dominava amplamente. Mas, meu Inglês era muito elementar, servindo tão somente para leituras. Acho que passei raspando nessas duas matérias, nas outras fui bem.

 

5. Quando você iniciou sua carreira você tinha definido alguns objetivos e metas de onde queria chegar?

PRA: Não especialmente: nunca fui carreirista, no sentido tradicional do termo, e não me preocupava em ser embaixador ou ocupar qualquer posto de distinção. O que me seduzia era a profissão em si, a mobilidade geográfica, o conhecimento de novos países, a possibilidade de estar sempre aprendendo, estudando, viajando. Sou basicamente um estudioso, um observador da realidade, um “compilador” de informações e análises e um escritor improvisado. Todo o resto me é secundário.

 

6. Como você integra as diversas esferas de sua vida (trabalho, família, lazer, esporte, cursos, etc.)? Está satisfeito?

PRA: Imenso sacrifício para consegui fazer tudo aquilo que tenho vontade, pela simples razão que eu tenho vontade de ler tudo, o tempo todo, em qualquer circunstância, assim como tenho vontade de viajar, de participar de atividades acadêmicas e intelectuais, tendo ao mesmo tempo de me desempenhar em funções atribuídas pela burocracia no meio de tudo isso. Ora, é praticamente impossível conciliar tantas vontades, e ainda ser um marido perfeito, um pai de família perfeito e outras coisas da vida social e relacional. Em síntese, esses outros aspectos foram de certa forma sacrificados no empenho pessoal em ler, estudar e escrever. Reconheço essas imperfeições, mas não se pode ter tudo na vida: escolhas são inevitáveis, e as minhas estão do lado da leitura, do saber e da escrita. São atividades nas quais eu me realizo plenamente. Em outros termos, ninguém consegue integrar todos os seus interesses perfeitamente, e algum aspecto (ou vários) acaba sempre sendo sacrificado; no meu caso, são horas de sono, de lazer, de simples far niente, e também certa negligência familiar, reconheço. Não pratico esportes, a não ser caminhadas moderadas, já em idade madura. Pratico leituras, com alguma intensidade, eu diria intensíssima, e sobretudo o gosto da escrita. No mais, sou um pouco eremita...

 

7. Quais os períodos de sua carreira que você mais gostou?

PRA: Todos, pois em todos e em cada um eu fiz aquilo que mais gosto: viajar, muito, intensamente, ler, também intensamente, escrever, observar, aprender, em toda e qualquer circunstância, mesmo em situações difíceis de abastecimento, conforto, restrições monetárias ou outras. Toda a minha carreira me trouxe algo de bom, mesmo em situações temporariamente de sacrifício. Nunca deixei de fazer aquilo que mais gosto, e que já foi descrito anteriormente.

 

8. Quais os períodos de sua carreira que você menos gostou?

PRA: Numa ou noutra situação, alguns postos apresentam dificuldades materiais, desconfortos psicológicos, desafios razoáveis: por pequenos momentos, chega-se a desejar voltar ao Brasil e retornar à rotina burocrática do cerrado central, onde os atrativos são menores, mas também as surpresas. De toda forma, sempre aproveitei os momentos de dificuldade para refletir e escrever, como sempre, aliás.

 

9. Dentro da perspectiva de sua carreira tem alguma coisa que você gostaria especialmente de evitar?

PRA: Sim, talvez eu devesse ter dedicado menos atenção aos livros e mais às pessoas, mas essas são escolhas que fazemos deliberadamente, por opções próprias, pensadas ou não. Quem tem a compulsão pela leitura e pela escrita, não consegue acalmar-se a menos de satisfazer o seu “vicio”, daí o sacrifício de outros aspectos da vida social que muita gente valoriza em primeiro lugar. Por outro lado, nunca, na carreira, fui obrigado a assumir obrigações que eu mesmo não desejasse assumir, como por exemplo trabalhar em áreas para as quais eu não me sinto talhado nem tenho a mínima vontade de experimentar: administração, por exemplo, ou cerimonial, ou talvez ainda consular. São áreas nas quais eu provavelmente me sentiria infeliz, pois o meu terreno natural são os estudos, de qualquer tipo: geográfico, político, econômico, cultura, antropológico, no sentido amplo. Todas as áreas funcionais de caráter geográfico, político ou sobretudo econômico me servem perfeitamente. Aliás, nunca me pediram para trabalhar em áreas nas quais eu não gosto, e se me pedissem eu não teria nenhuma hesitação em recusar, mesmo podendo incorrer em alguma falta funcional ou ser sancionado por isto. Sou um pouco anarquista, e não gosto de fazer o que me mandam e sim o que eu decido e gosto de fazer.

Por outro lado, jamais me pediram para escrever ou dizer algo que violentasse minha consciência, e eu não hesitaria um segundo em recusar-me terminantemente, como algumas vezes me recusei a defender determinados pontos de vista, que não eram os meus. Por outro lado, jamais enfrentei a obrigação de escrever naquele estilo clássico, ou chatérrimo, que é o diplomatês habitual, cheio de adjetivos hipócritas e de pura formalidade vazia: não tenho espírito, paciência nem disposição para esse tipo de enrolação. Costumo escrever o que penso, sem qualquer concessão a formalismos. Sobretudo, não costumo produzir bullshits, muito freqüentes nesta profissão...

 

10. Você tem objetivo em longo prazo na sua carreira? Você tem uma visão de futuro profissional?

PRA: Acredito que o diplomata deve servir antes à Nação do que a governos, deve defender valores, e não se subordinar a teses momentaneamente vitoriosas que por alguma eventualidade confrontem esses valores. Já escrevi algo a esse respeito, e remeto a meu trabalho: “Dez Regras Modernas de Diplomacia” (Chicago, 22 jul. 2001; São Paulo-Miami-Washington 12 ago. 2001, 6 p., n. 800; ensaio breve sobre novas regras da diplomacia; revista eletrônica Espaço Acadêmico, a. 1, n. 4, setembro de 2001; link: http://www.espacoacademico.com.br/004/04almeida.htm).

 

11. Você se considera realmente bom em quê? Quais são seus pontos fortes? E como você aproveita seus pontos fortes no seu trabalho?

PRA: Creio que sou capaz de fazer análises contextuais que envolvam conhecimento histórico, embasamento econômico e situação política, ou seja, tenho instrumentos analíticos e amplos conhecimentos que me permitem situar qualquer problema (ou quase) em um contexto mais amplo, e daí extrair alguns elementos de informação para a instrução de um processo decisório que tenha em conta o interesse nacional. Toda a minha vida eu estudei o Brasil e o mundo, visando tornar o primeiro melhor, num mundo que nem sempre é cooperativo. Registre-se que eu não pretendo tornar o Brasil melhor para si mesmo, ou seja, uma grande potência ou qualquer pretensão desse gênero, que encontro simplesmente ridícula. Eu pretendo tornar o Brasil melhor para os brasileiros, ponto. Contento-me apenas com isso. Minha perspectiva, a despeito de ser um funcionário de Estado, não é a do Estado. Não pretendo trabalhar no Estado, para o Estado, com o Estado: minha perspectiva é a dos indivíduos concretos, e meus objetivos são promover os indivíduos, se preciso for contra o Estado. Não tenho nenhum culto ao Estado e nem pretendo torná-lo maior ou mais poderoso, apenas mais eficiente para servir aos indivíduos, não a si mesmo. Desespera-me essas pretensões nacionalistas estatizantes, pois elas se fazem, em geral, em detrimento do bem-estar individual da maior parte dos cidadãos.

Por outro lado, não me considero patriota, no sentido corriqueiro do termo. Sou brasileiro por puro acidente geográfico, pois poderia ter nascido em qualquer outro país ou em qualquer outra época, por puro acaso. Gostaria de reiterar esse ponto, com toda a ênfase que me é permitida. Não sou dado a patriotismos, nem a chauvinismos ultrapassados e ridículos. A nacionalidade, repito, é um acidente geográfico, ou talvez seja a naturalidade, da qual decorre a primeira. Parto do pressuposto da unidade fundamental e universal da espécie humana. Sou brasileiro, como poderia ter sido esquimó, hotentote ou pigmeu, e ninguém seria responsável por esses acasos demográficos, nem mesmo meus pais, posto que ninguém “fabrica” uma pessoa com base em especificações pré-determinadas. Somos em parte o resultado da herança genética (em grande medida, talvez mais do que o indicado ou desejável, mas talvez não a parte mais decisiva de nossas personalidades); em parte o resultado do meio social e cultural no qual crescemos, e das influências que experimentamos involuntariamente em diversas etapas formativas de nosso caráter; e em parte ainda (o que espero mais substancial ou importante), somos o produto de nossa própria formação ativa, dos estudos empreendidos e dos esforços que fazemos nós mesmos para moldar nossas vidas, nosso estilo de comportamento e nossa maneira de pensar, com base em escolhas e preferências que adotamos ao longo da vida. Devemos sempre assumir responsabilidade pelo que somos, e jamais atribuir ao meio ou a qualquer herança genética determinados traços que podem eventualmente revelar-se menos funcionais para nosso desempenho profissional ou intelectual.

Meus pontos fortes, portanto, são minha capacidade analítica, meus conhecimentos acumulados e meu devotamento à causa dos indivíduos, não dos Estados, e sempre tento passar esses pontos à frente de qualquer outra consideração. Não hesito em defender meus pontos de vista, mesmo contra meus interesses imediatos, que poderiam recomendar uma acomodação com a situação presente – a lei da inércia é uma das mais disseminadas na humanidade – ou com autoridades de qualquer tipo. Não costumo fazer concessões a autoridades apenas para obter vantagens pessoais, e acho essa atitude basicamente correta (ainda que a um custo por vezes enorme no plano pessoal). Talvez seja teimosia de minha parte, mas considero isso antes uma virtude, do que um defeito. Enfim, tendo concepções fortes sobre determinados temas, me é muito mais fácil preparar e expor posições do interesse do Brasil, com base em conhecimentos previamente acumulados, o que me dispensa de longas pesquisas ou buscas em arquivos.

 

12. Quais são seus pontos fracos?

PRA: Devo ter (e tenho) vários, sendo os mais evidentes essa introversão habitual, essa preferência ao convívio com os livros, mais do que a convivência com pessoas, uma certa arrogância intelectual (que reconheço plenamente), derivada de leituras intensas e de uma imensa acumulação de conhecimentos e informações – que em excesso podem ser prejudiciais, dizem alguns – essa pretensão a saber mais do que os outros (o que em parte é verdade, pela simples intensidade de leituras, mas os outros não gostam que se lhes confronte os argumentos, obviamente). Por outro lado, não tenho nenhum respeito pela hierarquia ou pela autoridade, o que muitos consideram um defeito (mas não eu, dado meu anarquismo particular). Não sou de respeitar o argumento da autoridade, mas apenas a autoridade do argumento, a lógica impecável, e a decisão bem formulada, posto que empiricamente embasada, tecnicamente sólida, com menor custo-oportunidade ou a melhor relação custo-benefício. Enfim, sou um racionalista, e detesto impressionismos e subjetivismos, o que é muito fácil de encontrar em quaisquer meios. Daí choques inevitáveis com determinadas pessoas que pretendem mandar a partir de sua vontade exclusiva, não de um estudo aprofundado de situação. Enfim, ser rebelde assim deve ser um defeito...

 

13. O que você mais deseja na sua carreira?

PRA: Todos somos egocêntricos ou narcisistas em certa medida. Todos queremos reconhecimento e prestígio, por mais que se diga o contrário. Todos queremos ser elogiados e premiados (no meu caso não monetariamente ou em qualquer aspecto material). Assim, desejo ser reconhecido não necessariamente como um bom diplomata, mas simplesmente como um bom cidadão, alguém que cumpre seus deveres e atua conscienciosamente em benefício da maioria (que calha de ser o povo brasileiro, mas poderia ser qualquer outro, pois como disse, eu me coloco do ponto de vista dos indivíduos, não do Estado). Gostaria de ser reconhecido como estudioso, como esforçado e, sobretudo, como alguém comprometido com o bem comum. Pode ser vaidade, mas é assim que vejo minha carreira, que para mim não é uma simples carreira de Estado, mas sim uma atividade que me coloca no centro (ou pelo menos numa das agências) do Estado, ali colocado para servir a pessoas, não a instituições abstratas.

Gostaria que se dissesse de mim, em algum momento futuro: foi um funcionário dedicado, foi um homem bom, esforçado, devotado ao bem comum, sobretudo foi correto consigo mesmo e com todas as instâncias de interação social ou profissional. Praticou a honestidade intelectual e se esforçou para fazer do Brasil e do mundo lugares melhores do que aqueles que encontrou em sua etapa inicial de vida.

 

14. O que você pensa que acontecerá à sua carreira nos próximos dez anos?

PRA: Nada de muito relevante, posto que não sou carreirista e não faço da carreira o centro de minhas preocupações intelectuais ou sequer materiais. Estou na carreira diplomática, como poderia estar na academia ou em alguma outra atividade que tenha a ver com o estudo, o esforço intelectual, a análise e a elaboração de propostas. Sou basicamente um intelectual e a carreira para mim é secundária. Provavelmente vou me aposentar nos próximos dez anos, e aí dispor de todo o meu tempo livre para me dedicar àquilo de que mais gosto: leitura, redação, um pouco de aulas e palestras, viagens, alguns prazeres materiais (como a gastronomia, ou a gourmandise, por exemplo) e espero ter condições físicas de continuar escrevendo, ensinando e colaborando com a elevação intelectual da sociedade pelo maior tempo possível. Se me sobrar tempo gostaria de consertar algumas coisas que encontro muito erradas no Brasil, como por exemplo: a corrupção (generalizada em todas as esferas), a desonestidade intelectual nas academias, a miséria material de grande parte da população (que decorre, em minha opinião, de políticas erradas e do excesso de poderes conferidos ao Estado), enfim, tudo aquilo que sabemos errado em nosso País.

 

15. O que você aconselharia para alguém que estivesse iniciando na mesma área?

PRA: Seja estudioso, dedicado, honesto intelectualmente, esforçado no trabalho, um pouco (mas apenas um pouco) obediente, inovador, curioso, questionador – mas ostentando um ceticismo sadio, não uma desconfiança doentia –, tente aprender com as adversidades, trate todo mundo bem (e, para mim, da mesma forma, um porteiro e um presidente), não seja preguiçoso (embora dormir seja sumamente agradável), cultive as pessoas, mais do que os livros (o que eu mesmo não faço), seja amado e ame alguém, ou mais de um... Enfim, seja um pouco rebelde, também, pois a humanidade só avança com aqueles que contestam as situações estabelecidas, desafiam o status quo, tomam novos caminhos, propõem novas soluções a velhos problemas (alguns novos também). No meio de tudo isso, não se leve muito a sério, pois a vida é uma só – sim, sou absolutamente irreligioso – e vale a pena se divertir um pouco. Tudo o que eu falei ou escrevi acima, parece sério demais. Não se leve muito a sério, tenha tempo de se divertir, de contentar a si mesmo e os que o cercam.

 

Brasília, 21 de maio de 2009.

 

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Msg de 24.04.2009:

Boa tarde!

Sou acadêmica da última fase de graduação em administração na UFSC, e tenho interesse em seguir a carreira diplomática.

Como trabalho da disciplina de planejamento de carreira preciso fazer uma entrevista com profissional da área que pretendo atuar.

Se houver disponibilidade, eu tenho interesse que o entrevistado seja o sr., para tanto solicito que responda as perguntas abaixo.

 

1. Como você se sente por ter escolhido essa profissão (área de atuação)?

2. Como você descreveria a sua profissão?

3. Qual sua formação acadêmica? Você considera que ela foi fundamental para o sucesso profissional?

4. Quais as principais dificuldades enfrentadas para conseguir passar no concurso?

5. Quando você iniciou sua carreira você tinha definido alguns objetivos e metas de onde queria chegar?

6. Como você integra as diversas esferas de sua vida (trabalho, família, lazer, esporte, cursos, etc.)? Está satisfeito?

7. Quais os períodos de sua carreira que você mais gostou?

8. Quais os períodos de sua carreira que você menos gostou?

9. Dentro da perspectiva de sua carreira tem alguma coisa que você gostaria especialmente de evitar?

10. Você tem objetivo em longo prazo na sua carreira? Você tem uma visão de futuro profissional?

11. Você se considera realmente bom (boa) em quê? Quais são seus pontos fortes? E como você aproveita seus pontos fortes no seu trabalho?

12. Quais são seus pontos fracos?

13. O que você mais deseja na sua carreira?

14. O que você pensa que acontecerá à sua carreira nos próximos dez anos?

15. O que você aconselharia para alguém que estivesse iniciando na mesma área?

 

 

 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Carreira diplomática: uma trajetória - Paulo Roberto de Almeida

 Um texto antigo, mas que ainda pode exemplificar a preparação para a carreira diplomática:

1739. “Carreira diplomática: uma trajetória”, Brasília, 27 março 2007, 5 p. Respostas a perguntas colocadas pela Carta Forense, para caderno especial sobre concursos, sobre diplomacia. Publicado, sob o título “Minha trajetória como concursando”, na revista Carta Forense (ano 5, n. 47, abril 2007, Caderno de Concursos, p. C2-C3). Postado no blog Diplomatizzando (12/07/2010; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/07/como-no-caso-de-textos-anteriores-que.html).


Carreira diplomática: uma trajetória

 

Respostas fornecidas à Carta Forense por 

Paulo Roberto de Almeida

 

Carta Forense – Em que momento decidiu se enveredar pela carreira diplomática?

PRA: A decisão foi tomada de maneira inopinada, com base num anúncio publicado nos jornais, no primeiro semestre de 1997, anunciando a abertura de dois concursos de entrada na carreira diplomática: o primeiro pela via tradicional do Instituto Rio Branco, ou seja, o vestibular para admissão no Curso Preparatório à Carreira Diplomática (à época requerendo apenas e tão somente dois anos, ou quatro semestres, de qualquer graduação universitária), o segundo consistindo num exame direto (com maior número de provas eliminatórias, inclusive orais, e exigindo curso superior completo), dando acesso imediato ao primeiro escalão da carreira, isto é, Terceiro Secretário.

Nessa ocasião, eu acabava de voltar ao Brasil, depois de um longo exílio autoimposto (quase sete anos) por causa da ditadura militar. Passei seis anos e meio na Bélgica, tendo completado minha graduação em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas (1974), defendido minha dissertação de mestrado em planejamento econômico e economia internacional pela Universidade do Estado de Antuérpia (1976) e iniciado um doutoramento, que ficou esperando meu primeiro posto diplomático para ser finalizado. Como eu já possuía mestrado e encontrava-me em meio ao doutoramento, optei pelo concurso direto e ingressei, portanto, na carreira, no final do ano de 1977. 

Como disse, tratou-se de uma decisão repentina, uma forma de reinserir-me na vida brasileira, depois de longos anos no exterior, e já possuindo certa vivência prática de temas de política internacional, alguma experiência na análise de questões de política externa e conhecimento de línguas.

 

CF – Como o senhor se preparou para este concurso? 

PRA: devo confessar que quase não me preparei, inclusive porque estava trabalhando em São Paulo, dando aulas em duas faculdades, atuando em programas de assessoria em formação de recursos humanos para a Unicamp e também porque o intervalo entre, de um lado, o conhecimento e a decisão de participar do concurso, e, de outro, a realização das provas foi muito curto, não me permitindo cobrir toda a bibliografia recomendada ou frequentar algum cursinho preparatório (que de toda forma não estava em minhas intenções ou necessidades).

Como eu posso dizer, sem medo de errar, que passei quase metade da minha vida em bibliotecas, ou lendo de forma compulsiva, meu conhecimento acumulado – pelo menos nas áreas tradicionais das ciências sociais aplicadas – já era bastante grande, bastando-me completar o conhecimento de direito, onde estavam minhas lacunas mais notórias. Li os livros de que dispunha, não comprei nenhum em especial para o concurso e fui muito bem-sucedido, ingressando em segundo lugar e fazendo jus ao prêmio Lafayette Carvalho e Silva.

 

CF – Quais são os requisitos para se candidatar a este cargo?

PRA: É preciso ser brasileiro nato, estar em dia com as obrigações eleitorais e de serviço militar, ter a ficha limpa na polícia e ser formado em um curso superior reconhecido no Brasil pelo Ministério da Educação (MEC). Qualquer curso superior. Apesar de mais ou menos metade dos aprovados no concurso serem, via de regra, formados em direito, e muitos outros em relações internacionais, conheço diplomatas formados em engenharia, medicina, letras e ciência da computação. Diplomas estrangeiros, só se reconhecidos pelo MEC.

 

CF – Quem tem dupla nacionalidade é aceito na carreira?

PRA: Desde que sejam brasileiros natos sim. A Constituição reza que, exceto as exceções, quem pede para ser naturalizado como nacional de outro país perde a identidade brasileira. No entanto, já ficou estabelecido que, em boa parte dos casos em que um brasileiro tem uma nacionalidade estrangeira, não foi ele que pediu uma outra nacionalidade — a dupla nacionalidade é apenas reconhecida, segundo as leis próprias do país estrangeiro e, portanto, não há perda da nacionalidade brasileira. Assim sendo, não há obstáculos ao ingresso desses seres cosmopolitas no concurso. E não, não vão suspeitar que você é um agente duplo trabalhando para vender o Brasil para a Itália, por exemplo. Só tem uma coisa: a Lei do Serviço Exterior afirma que, para casar-se com estrangeiros, os diplomatas precisam da autorização do Ministro de Estado.

 

CF – Como é o processo seletivo?

PRA: Em uma primeira etapa, realiza-se um Teste de Pré-Seleção (TPS), composto de uma seleção de questões de múltipla escolha ou de opções certo ou errado, com base numa amostragem do conjunto de provas setoriais aplicadas na terceira fase (Português, Inglês, História Mundial e do Brasil, questões de relações internacionais). Em seguida, os candidatos aprovados no TPS fazem a prova de Português (segunda fase). Na terceira fase, os candidatos aprovados nas fases anteriores realizam 6 provas: Questões Internacionais Contemporâneas, Inglês, História, Geografia, Noções de Direito e Noções de Economia. Adicionalmente, eles têm de escolher entre Francês ou Espanhol para uma prova classificatória numa dessas duas línguas.

 

CF – Há alguma disciplina que deve ser priorizada?

PRA: È recomendável que em todas as disciplinas o candidato tenha um bom conhecimento, mas acredito que o domínio da língua inglesa é fundamental, embora não seja mais eliminatório na prova.  O nível da prova é altíssimo, a exigência é que se escreva um inglês correto de verdade, um inglês que um norte-americano médio provavelmente não alcançaria.

A prova de Português é extremamente rigorosa, exigindo que o candidato tenha um domínio quase perfeito da língua. Adicionalmente, a amplitude dos conhecimentos exigidos nas provas de história (mundial e do Brasil) leva muito gente à desclassificação.

 

CF - É verdade que os bacharéis em Direito têm mais facilidade para ser aprovados?

PRA: Não necessariamente os bacharéis em Direito apresentam maior facilidade intrínseca, tanto porque os conteúdos de história, de economia e de relações internacionais (lato sensu) vêm sendo reforçados relativamente em relação às anteriores exigências prioritárias em direito e línguas. Mas é certo que grande parte dos diplomatas tem formação jurídica na graduação. 

 

CF - Depois de aprovado, qual o plano de carreira?

PRA: Ingressa-se como terceiro Secretário, embora ainda aluno do Instituto Rio Branco. Depois, a intervalos de mais ou menos 4 a 6 anos, vai se galgando os demais escalões da carreira: segundo e primeiro Secretário, Conselheiro (que necessita submeter-se a uma espécie de doutoramento, o Curso de Altos Estudos, para habilitar-se à próxima etapa: Ministro de segunda classe e finalmente, Ministro de primeira classe, vulgarmente chamado de Embaixador. 

Exceto em casos especiais, apenas um diplomata que alcança o grau de Ministro de Primeira Classe pode servir como embaixador do Brasil em algum país estrangeiro, daí esse grau ser chamado, por comodidade, de “Embaixador”. Em países pequenos, com embaixadas menores, um Ministro de Segunda Classe pode eventualmente servir como Embaixador. Há também indicações políticas, normalmente raras, em que o Presidente da República designa alguém de fora da carreira como Embaixador. Foi o caso, por exemplo, do ex-presidente Itamar Franco, na Itália. Nesses casos, o embaixador “civil” poderá contar como seus assessores com diplomatas de carreira experientes.

 

CF – Com a globalização e a inserção cada vez mais frequente do Brasil no mercado internacional, o senhor acredita que cada vez abrirá mais vagas nesta carreira?

PRA: Certamente que o aumento da interface externa do Brasil vai contribuir para a expansão das oportunidades nas “carreiras internacionalistas”, entre as quais se situa a de diplomata. Isto pode implicar num aumento gradativo de “vagas” na carreira diplomática, ainda que essa expansão se dê aos “saltos”, consoante as características do serviço público. As duas ampliações de vagas no serviço exterior foram conduzidas com aproximadamente 30 anos de intervalo, em 1975 e em 2006, respectivamente.

 

CF – É verdade que o curso de formação diplomática vale como mestrado?

PRA: Desde 2002 o curso do Instituto Rio Branco tem valor de mestrado, o que requer, como sua atividade principal, o preparo pelo aluno de uma dissertação acadêmica. Esta pode versar sobre temas ligado às relações internacionais do Brasil, ao direito internacional, à economia internacional ou à questões de identidade nacional. Como vê, a margem é ampla. O aluno escolhe seu orientador acadêmico dentre uma lista de nomes fornecida pelo Instituto. Nem todos são professores do Rio Branco.

O curso do Rio Branco é reconhecido pela CAPES como Mestrado Profissional, avaliado com conceito 4 em uma escala de 1 a 7.

 

CF – Quais são as dicas que o senhor dá aos candidatos?

PRA: Não pensar que se pode aceder à carreira com algum cursinho rápido e leituras superficiais em pouco tempo de preparação. Os exames de entrada são reconhecidamente difíceis e isso requer uma preparação metódica e sistemática, estudos de larga duração e amplo espectro, nos quais a cultura humanística é essencial, mas também o conhecimento corrente sobre as mais importantes questões da atualidade internacional, em especial dos processos negociadores externos nos quais esteja inserido o Brasil. A redação precisa ser impecável, o conhecimento de inglês excelente e uma grande cultura geral também ajuda. 

De maneira geral, ler com atenção a bibliografia recomendada no Guia de Estudos do IRBr, mas preparar-se também de maneira autodidata, com leituras extensas nos mais diversos campos das ciências humanas e sociais. 

 

Brasília, 27 março 2007

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Relações internacionais, política externa do Brasil e carreira diplomática, Aula Inaugural 2021, Paulo Roberto de Almeida

Relações internacionais, política externa do Brasil e carreira diplomática

Paulo Roberto de Almeida

Notas para aula inaugural no quadro do curso do Ibmec Global Affairs, em 20/08/2021.

      Residente que fui nos Estados Unidos, por duas vezes, ademais de diversas outras viagens de trabalho, acadêmicas ou de simples lazer naquele país continente, que atravessei duas vezes costa a costa, do Atlântico ao Pacífico, e várias outras vezes no sentido Norte-Sul ou em diagonal, percorrendo a quase totalidade dos seus estados federados – faltou o Dakota do Norte, no território continental, o Alaska e o Havaí, no Pacífico, e o estado associado de Porto Rico, para completar toda a nação – posso dizer que conheço razoavelmente aquela grande nação.

 (...)

Pois, num dos boletins eletrônicos que recebo regularmente, este, da New Yorker, a irreverente revista mensal de uma das melhores cidades do mundo, trazia a seguinte manchete provocadora: “Does the Great Retreat from Afghanistan Mark the End of the American Era?”, (16/08/2021; link para a minha postagem no blog Diplomatizzando: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/08/does-great-retreat-from-afghanistan.html), por Robin Wright, uma das melhores colunistas da revista desde 1988. Repito, em português: “A Grande Retirada do Afeganistão marca o fim da Era Americana?”, interrogação, pois o colunista tem dúvidas sobre se isso representa uma fatalidade ou um processo reversível. Vamos, pois, examinar os dados da questão, e depois tentar ver como se situa o Brasil e a nossa política externa em face dessas questões. Finalmente, tratarei muito brevemente sobre os impactos disso tudo sobre a minha profissão e sobre a de muitos dos que me leem ou assistem minha exposição.

(...)

Ler a íntegra desta aula inagural neste link.

 

 


sábado, 21 de setembro de 2024

Carreira diplomática: respostas a questões de candidatos - Paulo Roberto de Almeida

 Ao longo da carreira, diplomática e acadêmica, tenho respondido a dezenas, centenas de perguntas de alunos, de candidatos à carreira diplomática, assim como de jornalistas ou simples curiosos. A todas as questões tenho procurado responder da maneira mais honesta possível, ainda que não da maneira mais ortodoxa, como talvez recomendariam certos cânones do corpo diplomático profissional.

Algumas dessas respostas foram condensadas numa relação que pode satisfazer a curiosidade dos curiosos, se tiverem paciência de ler:

4331) Lista de trabalhos sobre a carreira diplomatica e a diplomacia (2023)

    https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/03/lista-de-trabalhos-sobre-carreira.html

Mais recentemente recebi mais algumas perguntas, cujas respostas seguem abaixo,

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 21 de setembro de 2024


Perguntas formuladas por candidatos à carreira diplomática

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. 

 

1) Qual o primeiro passo você indicaria para quem gostaria de seguir a carreira diplomática no Brasil atualmente?

PRA: Antes do primeiro passo, que é obviamente o planejamento da preparação, uma reflexão sincera sobre quais suas reais motivações: muitos fazem o concurso do Itamaraty à procura de um bom emprego, com muitas viagens ao exterior, estadas em países avançados – e outras em países muito piores do que o Brasil – e uma vida que se imagina de charme, beleza e, sobretudo, para alguns, estabilidade garantida pela maior parte da vida adulta. Outros respondem a conceito mais subjetivo de “ calling”, ou vocação, que é o interesse e o fascínio concreto por coisas internacionais, pela cultura, conhecimento, experiências diversas que nunca serão obtidas numa profissão do setor privado ou na burocracia interna do Estado.

Creio que essa primeira reflexão sobre suas reais propensões, não exatamente de um emprego, mas de vida, de dedicação a causas outras do que o egotismo pessoal, de busca de uma elevação ainda maior na satisfação pessoal, de empatia a tudo o que é diferente do vivido no ambiente local, e qualquer ambiente estrangeiro desperta reflexões e reações, nem todas as melhores possíveis, mas por vezes com desafios realmente relevantes, inclusive do ponto de vista familiar, quando não se tem o conforto e ajuda dos pais, amigos, vizinhos.

Feita essa reflexão, que não significa a simples preparação concurseira, cabe então iniciar o planejamento da preparação para os exames. A primeiríssima coisa, uma vez consultado o Edital e os requerimentos das provas, fazer uma tabela, um balanço, avaliação, descrição detalhada de todas as suas “fortalezas” e fraquezas, isto é, quem é bom em Português e Inglês (que são requisitos essenciais), em história e relações internacionais, e quem é fraco em economia, direito e nas demais provas. Feito esse quadro, é preciso planejar meticulosamente uma dedicação intensa aos estudos, não apenas acadêmicos, baseados nos text books, nos livros de referencias, nos grandes manuais de cada matéria, mas sobretudo práticos, com base naquilo que o Brasil fez, vem fazendo, pretende fazer, no plano regional, bilateral, multilateral, dos condicionamentos domésticos (constitucionais e infra) e do registro efetivo da experiência brasileira em cada um dos desafios externos.

Como regra geral, o conhecimento perfeito das posições brasileiras em cada um dos itens da agenda externa – e eles são milhares – é um elemento estratégico em qualquer prova que se tenha de fazer; por isso um seguimento das matérias postadas pelo Itamaraty, pela presidência, e por alguns outros órgãos do executivo federal, é quase tão importante, talvez até mais, do que o conhecimento das teorias e dos livros conceituais em cada área. Na preparação das provas do ano não entram apenas professores versados nas matérias com base em conceitos abstratos e posições principistas, mas também diplomatas enfronhados nos assuntos que escolhem para perguntas, com perguntas cabeludas, algumas até maldosas, pois que representam pegadinhas por uma palavra estranha embutida num argumento ate correto, mas inviabilizado justamente por uma adversativa que não é válida, a não ser por que cuida do assunto na ONU, na OMC, no Mercosul, etc.

Eu considero esse detalhismo exacerbado em determinadas questões algo impróprio e até injusto com candidatos que não acompanham em minúcias determinados posicionamentos da diplomacia brasileira, que podem até mudar de um governo a outro (pois o que era correto, globalista, numa fase, passa a ser impróprio, neoliberal, em outra). Daí a necessidade de seguir com atenção todos os pronunciamentos e informações emanados do Itamaraty.

Resumo. Primeiro passo, identificar seus pontos fortes e fracos e depois dividir o tempo entre reforço e revisão de questões relevantes. Uma consulta às provas já feitas nos últimos anos pode ajudar a medir o grau de dificuldade intrínseca a todas as questões.

 

2) Se o Dr. fosse ingressar na carreira diplomática hoje, como se prepararia? E, ao ingressar, qual rumo pensa que tomaria dentro do Itamaraty, tendo em vista a diversidade de funções que compreende a carreira?

PRA: Já descarto a segunda questão, pois muitas vezes o recém ingressado já se defronta com escolhas determinadas pelas necessidades do serviço exterior, não pelas suas preferencias intelectuais. Eu tenho preferencia por questões de desenvolvimento econômico, mas não foi isso que me foi sempre “ oferecido”  no trabalho. Ao longo da carreira, o diplomata vai construindo suas afinidades eletivas de acordo a suas possibilidades concretas e no contato com as chefias da Casa, que podem fazer convite para os “ especialistas”  num determinado ramo; eu por exemplo, tinha poucas afinidades com Direito ou Administração e nunca trabalhei nessas áreas, mas assumi também funções consulares, o que nunca tinha sido objeto de minhas primeiras preferências de área.

Quanto à primeira questão, confesso que não tenho uma mínima ideia, pois jamais fiz vestibular para o Rio Branco e nunca cursei o instituto. Entrei por um direto, exigências maiores, provas orais e discursivas, com mais liberdade ao meu estilo próprio de exames. Se eu tivesse de concorrer atualmente, provavelmente não seria aprovado, pois o formato das provas é infinitamente mais complicado do que discorrer sobre assuntos nos quais você pode expressar seu pensamento com maior latitude. Hoje em dia se exige precisão absoluta nas respostas, o que requer um amplo conhecimento das menores questões da agenda.

Como no caso da questão anterior, o “primeiro passo”, os concursos do Itamaraty requerem uma longa e exigente preparação, com estudos se estendendo durante tempo mais largo do que os 12 meses de um ano. Persistência e empenho no estudo duro são necessários, o que não foi o meu caso no concurso direto. Mas, cabe registrar que eu sempre fui um rato de biblioteca e já tinha passado longos anos em bibliotecas, lendo jornais, sabendo muito sobre uma enorme variedade de assuntos de meu interesse: eu já estava preparado, sem nenhum estudo prévio, para praticamente todas as provas, com exceção de Direito e Inglês.

 

3) Nota-se que o senhor faz uso de lições históricas para analisar as crises contemporâneas, aprecio muito isso. Há erros históricos da diplomacia brasileira que o senhor acredita que poderíamos evitar no cenário atual, especialmente frente aos desafios globais mais recentes, como a questão da Palestina?

PRA: Com oito anos eu já estava lendo história, e assim fiz durante toda a minha vida, assim que me é fácil recorrer aos ensinamentos do passado ao discorrer sobre o presente (embora eu seja contra o uso de analogias históricas, que são quase todas sempre falsas).

A diplomacia brasileira tem uma parte boa, que é a excelente preparação intelectual dos diplomatas – o que não quer dizer que eles sejam isentos de preconceitos e de desvios de formação, dadas as características da educação brasileira, deficiente em várias áreas, sobretudo história econômica e política econômica tout court – e uma parte que pode ser muito ruim, que é sua dependência de lideranças políticas que podem ser medíocres ou tisnadas ou comprometidas com posições ideológicas e partidárias bastante nefastas para fazer as boas escolhas nas alianças externas e na adoção de políticas voltadas para os mais relevantes interesses da nação como um todo.

O caso da Palestina nem é o mais grave, ainda que preocupante, pois a tragédia dos enfrentamentos na região é um problema para TODOS os serviços diplomáticos, dada a complexidade dos vários imbróglios com todos aqueles povos, vítimas do colonialismo e dos seus próprios erros políticos e deficiências culturais, educacionais, religiosas. O mais grave, na verdade, é que já poderíamos ser um país, não digo avançado, mas mais desenvolvido, e só perdemos oportunidades nas últimas décadas, dada a incompetência e mediocridade das lideranças políticas, oligarquias extratoras e um mandarinato estatal comprometido apenas com o seu próprio bem-estar. Digo isto, porque em 1960 a Coreia do Sul tinha exatamente a metade da nossa renda per capita e hoje está quatro ou cinco vezes acima; ou seja, algo, ou várias coisas, eles fizeram de correto e nós erramos muito, exageradamente, em políticas macro e setoriais, na parte fiscal, na introversão nacionalisteira, na não-educação. A diplomacia carrega uma parte das responsabilidades por esse atraso, por aderir acriticamente ao receituário desenvolvimentista e estatizante, o que nos deixou isolados das melhores tendências em matéria de políticas econômicas, como é o padrão OCDE de políticas.

Leia, por exemplo, este meu texto: “O outro lado da glória: o reverso da medalha da diplomacia brasileira (17/10/2020: link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2020/10/o-outro-lado-da-gloria-o-reverso-da.html), que remete ao integral:

Sumário: 

1. Tropeços na independência e durante o império

2. Os fracassos da primeira diplomacia republicana

3. A difícil construção de uma diplomacia autônoma, e consciente de sê-lo

4. A diplomacia profissional, como base da diplomacia presidencial

5. A deformação da política externa sob a diplomacia bolsolavista

Referências bibliográficas

Texto integral disponível na plataforma Academia.edu: link: https://www.academia.edu/44317668/3772_O_outro_lado_da_gloria_o_reverso_da_medalha_da_diplomacia_brasileira_2020_).

 

4) Com essa aderência à nova ordem global e a aproximação aos regimes ditatoriais, quais são as principais habilidades diplomáticas que um jovem aspirante a diplomata deveria desenvolver para lidar com um cenário como esse? Me parece que é distintivo a necessidade de raciocínio lógico-crítico, claro, mas um tanto de sangue frio, por assim dizer, parece ser preciso conciliar a posição do Brasil pela neutralidade e diálogo a todo custo.

PRA: Confesso que me é difícil de responder, pois já ingressei no serviço diplomático com 27 anos, sem ter sido domado, ou socializado, pelo IRBr, nunca respeitei os dogmas sacrossantos da carreira – hierarquia e disciplina, mais próprio para soldados do que para nós, diplomatas – e sempre me guiei pela minha consciência e discernimento, pouco por ordens superiores. Mas não recomendo a ninguém ser um “anarco-diplomata” como eu fui, pois pode-se pagar um alto preço por isso. Por exemplo, eu fiquei 13,5 anos sem nenhum cargo na Secretaria de Estado durante toda a vigência do reinado companheiro no poder, isso por ter escrito artigos críticos à diplomacia partidária lulopetista. Isso inviabilizou minha promoção e desempenho em certos cargos no Itamaraty, o que não me angustiou muito, pois sempre valorizei bem mais minha produção acadêmica do que o trabalho certinho na burocracia bem comportada do Itamaraty.

Mais concretamente, considero a diplomacia companheira de amizade  e conluio com ditaduras execráveis um horror e um desprestígio para a diplomacia e para o próprio Brasil, e nunca me eximi de expressar minha opinião, tendo sofrido retaliações a partir do alto. Um diplomata que não queira prejudicar sua carreira precisa engolir em seco e “ seguir as instruções” que vêm de cima, procurando não se angustiar muito com o besteirol de certos pronunciamentos oficiais e com os evidentes equívocos diplomáticos dos amadores. 

 

5) Durante sua carreira, houve alguma situação em que você precisou tomar uma decisão difícil ou controversa em uma negociação diplomática? Como você lidou com isso? Quais habilidades interpessoais você considera mais importantes para um diplomata no ambiente atual, e como um jovem aspirante pode aprimorá-las?

PRA: Sim, ocorreu diversas vezes, sobretudo nas negociações comerciais da Rodada Uruguai em Genebra, quando insistíamos na postura tipicamente desenvolvimentista, ou seja, introvertida e mercantilista, quando os asiáticos e outros (o Chile, por exemplo) já estavam caminhando por outras sendas globalizantes e interdependente (estilo OCDE, por exemplo). Mas isso ocorreu quando eu tinha de me guiar por instruções de Brasília, e sabia que as posições restritivas do Brasil seriam derrotadas na prática, ou seja, ficaríamos atrasados, como de hábito. Numa conferência diplomática eu me revoltei contra as instruções medíocres de Brasília e fui excluído da delegação: como sempre faço, fui ler e me informar melhor sobre os assuntos, e me certifiquei que o Brasil, como dizia Roberto Campos, não perde uma oportunidade de perder oportunidades. Acho que tem raízes similares nosso atraso, que não é tanto material, quanto intelectual.

O jovem diplomata pode se conformar com esse tipo de situação, e conviver com ela, ou procurar estudar mais o assunto para responder com argumentos mais elaborados para uma posição que ele possa encontrar como equivocada, mas tendo fundamentos para isso.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4739, 21 setembro 2024, 5 p.

 

Addendum: 

Uma carreira muito exigente:

Diplomatas trabalham o tempo todo, pois requerimentos de reuniões internacionais impõem viagens de fins de semana, reuniões sem hora para terminar, o que pode causar stress no plano familiar e geralmente dificulta a carreira para mulheres.

Desde o Instituto Rio Branco, os jovens são apresentados aos dois dogmas da profissão: hierarquia e disciplina.

A competição por promoções, postos e funções pode ser extenuante, ocorrendo o pistolão, o “ quem indica” e outros expedientes, mas o trabalho competente é em geral reconhecido.

 

Uma trajetória refletida nos livros e trabalhos publicados:

Trajetória de Paulo Roberto de Almeida nas relações internacionais (2024)

Paulo Roberto de Almeida: capitulos em obras coletivas, 1987-2024

4655) Lista de trabalhos sobre Mercosul, integracao e processos correlatos (2024)

4538) Relação de livros de Paulo Roberto de Almeida, linkados (1993 a 2023)

    4421) BRIC-BRICS: da pré-história à situação atual (2023)


 

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