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sábado, 10 de outubro de 2026

Quo Vadis, Itamaraty? - Paulo Roberto de Almeida

  

Quo Vadis, Itamaraty?

 

 

Paulo Roberto de Almeida, professor, diplomata

Interrogações sobre uma conjuntura histórica de mudança.

 

 

“Apesar de você” foi uma famosa música, de um dos mais famosos bardos da música popular brasileira, feita em plena ditadura militar, e que sobreviveu graças à distração dos censores do regime. Pois foi apesar da ditadura que o Itamaraty retomou suas melhores tradições doutrinais, concebendo uma política externa razoável (dentro do que era possível) e uma das diplomacias de melhor qualidade substantiva, e que sobreviveu à ditadura e se expandiu na redemocratização, ao ponto de construir uma credibilidade internacional que se manteve nas décadas seguintes.

Tivemos contratempos, é verdade, mas a essência de nossas qualidades diplomáticas conseguiu se manter, a despeito de algumas loucuras feitas na política externa por um ou outro de nossos presidentes eleitos ocasionalmente, naquele estilo do populismo velho de guerra tão conhecido e usual em nossa história política. “Contra ventos e marés” conseguimos manter a qualidade e o sabor da nossa pizza diplomática, mesmo se um ou outro dos dirigentes políticos acrescentassem um ou outro ingrediente novo na pizza, que não figurava exatamente no nosso receituário de uma boa pizza diplomática, e menos ainda no visual completo de uma política externa que concebíamos como relevante para um país em desenvolvimento, como era persistentemente o Brasil.

Pois “a gente foi levando”, como rezava uma outra canção popular, pelo menos enquanto os dirigentes aceitavam receber conselhos dos nossos melhores quadros, eventualmente deslocados para dar uma ajudinha no Planalto com certas coisas da política externa que demandavam alguns bons conselhos diplomáticos, como ocorreu, por exemplo, com o projeto estratégico da integração regional – começando pelo Cone Sul – , muito estimulada pelas ideias dos “itamaratecas”, mas nem sempre bem aceitas por certos populistas no poder, ou pelos industriais protecionistas que, no país e no parceiro vizinho, relutavam em aceitar, um pouquinho que fosse, qualquer abertura mais ousada em nossas respectivas fortalezas industriais, inexpugnáveis até os dias que correm.

Houve até um desses acadêmicos distinguidos nas elaborações teóricas sobre uma suposta dependência estrutural – uma dessas invenções elegantes que volta e meia pululam nas academias – que aceitou muitas de nossas elaborações práticas, e daí passamos a cultivar nossa circunstância orteguiana na América do Sul, o que prometia grandes resultados a médio prazo, na diplomacia e na política externa, mas que não frutificou o suficiente para superar tanto as resistências internas, quanto certas loucuras externas que vinham lá da cozinha do império hemisférico. Foi o tempo das “relações carnais” aqui perto, o que dificultou o fortalecimento do Mercosul, nos tempos em que ele ainda usava fraldas e dependia da mamadeira integracionista para crescer belo e forte. Crises inflacionistas internas e crédito mais caro no exterior não facilitaram as coisas, e voltamos a enfrentar algumas borrascas, que não ajudaram muito na consecução de todos os objetivos diplomáticos que figuravam em nosso “cahier de charges” itamaratiano.

Vieram então os tempos da “ativa e altiva”, quando o entusiasmo exagerado com algumas promessas irrealistas superou nossa racionalidade estrito senso, e quando alguns amadores metidos a diplomatas andaram exacerbando certas improvisações mal pensadas de uma política externa já marcada por excesso de personalismo e de saltos maiores do que a perna (sobretudo na escolha de algumas companhias problemáticas, na região e fora dela). Pela primeira vez em nossa história tivemos de engolir, de cima para baixo, ideias que jamais passaram por nossas oficinas sofisticadas de elaboração de novas iniciativas diplomáticas, as quais sempre eram previamente submetidas a cuidadosas análises de custo-benefício e de custo-oportunidade, antes de serem convertidas em propostas efetivas na frente da política externa (regional ou outra).

Foi assim que, pela primeira vez em nossa história, aderimos ao tal de “nunca antes”, e embarcamos em aventuras de consistência duvidosa, sem que todo o manual de boas práticas itamaratianas pudesse ser seguido, na tentativa de exercer algum esforço de contenção daquele personalismo exagerado já mencionado no parágrafo anterior. Veio então uma primeira reação da sociedade, não tanto em razão de erros diplomáticos, mas mais em função de equívocos repetidos nas políticas econômicas e de alguns outros exageros na trajetória da tradicional corrupção nos meios político-partidários, o que acabou precipitando a maior crise econômica de nossa história, ainda maior do que a famosa crise dos anos 1929-1931. A corrupção tinha atingido, é verdade, proporções amazônicas, com derivas externas nunca antes vistas nos anais das patifarias políticas e empresariais: pela primeira vez, políticos e executivos passaram algum tempo em celas normalmente só frequentadas por delinquentes comuns.

Atravessamos alguns anos difíceis, num momento em que alguns amigos da Ásia Pacífico conheciam uma projeção internacional excepcional, tanto pelo lado do crescimento econômico e da diminuição da pobreza excessiva, quanto no plano do fortalecimento da presença diplomática na agenda internacional. A despeito desses contratempos, a consistência das boas qualidades da nossa Casa no campo das formulações diplomáticas voltou a se fazer presente nos escalões mais elevados da política externa presidencial, um tanto dada, é verdade, a trejeitos linguísticos bizarros.

O pior veio logo depois, com o crescimento da reação popular à estagnação relativa no campo econômico e a impulsão de novas ideias supostamente avançadas, tudo isso facilitado pelo surgimento de novas ferramentas de informação e de comunicação, o que se somou, paradoxalmente, a velhas ideias diretamente saídas dos tempos mais sombrios da ditadura militar. Parte da reação foi empurrada pelo ressentimento de milicos ressabiados pelos resultados de uma tal Comissão da Verdade, que pesou bem mais nos crimes cometidos pela tropa de tigres fardados do que na responsabilidade dos resistentes dos anos de chumbo na deterioração do jogo político normal em situações democráticas.

O resultado foi uma caída no abismo do fanatismo antiglobalista da franja lunática do extremismo direitista americano, que se abateu com especial furor justamente no Itamaraty, onde um chanceler acidental, cheio de ideias malucas, não se importava em que nos transformássemos em “párias internacionais”. Durou pouco, é verdade, só metade do mandato do tresloucado dirigente saído diretamente das catacumbas do regime militar, o que, se serviu para acalmar os ardores mais lunáticos contra a Casa de Rio Branco, não melhorou muito na qualidade mesma da política externa, que continuou aderente à esquizofrênica invenção do antiglobalismo, anti diplomática por excelência.

O balanço deplorável do capitão potencialmente golpista foi tão arrasador, sobretudo no campo da proteção às vidas humanas durante a pandemia da Covid – que resultou num número mais elevado de vítimas no Brasil do que nossa proporção de afligidos em escala mundial –, que, nas eleições de 2022, o representante do “nunca antes em nossa história” voltou triunfalmente a ocupar a cúpula do poder político, depois de amargar algum tempo uma detenção politicamente motivada num processo eivado de inovações jurídicas. Até liberais comprometidos com uma visão moderada das políticas econômicas se juntaram à massa dos que rejeitavam a reeleição do autocrata ignorante: foi o que permitiu uma curta vitória eleitoral, mas não impediu uma aventura golpista que tentou reproduzir, no Brasil, o assalto ao poder já visto dois anos antes na capital do império hemisférico.

Mas, o fato é que o entusiasmo da frente ampla política que obstou a volta do antiglobalismo mais histriônico já conhecido em nossa história diplomática não resultou igualmente abrangente ao ponto de renovar certas diretrizes na política externa que teimavam em retomar as opções preferenciais da primeira década do século. A aliança com os bolivarianos logo se deteriorou, por exageros autoritários no país andino, o que afetou igualmente alguns movimentos táticos no âmbito daquele monstro metafísico criado entre o primeiro e o segundo mandato do carismático presidente, que já era um Frankenstein na origem, e que passou a incorporar mais partes e peças saídas de um BRIC original a quatro, acrescido de mais um pedaço no BRICS a cinco e que decidiu, depois, extravasar num BRICS+, repleto de novos frequentadores de reputação duvidosa.

A condução normal da diplomacia profissional se viu afetada pela fragmentação do sistema multilateral, tanto na frente propriamente política – dada a violação flagrante da Carta da ONU por um saudosista dos tempos soviéticos –, quanto no plano econômico e comercial pelo retorno do impetuoso imperador hemisférico, que pretendia impor sua insanidade tarifária ao resto do mundo, a antigos aliados e a supostos adversários. A política externa “ativa e altiva”, por sua vez, confirmou várias vezes sua adesão à duvidosa tese de uma “nova ordem global multipolar”, jamais referendada em sua consistência intrínseca e possibilidades extrínsecas pela diplomacia profissional. O fato é que o mundo, ao Norte, se aproxima de um recrudescimento de turbulências geopolíticas já conhecidas, sob outras formas, no século precedente, ao passo que um fantasmagórico “Sul Global” entretém ideias inexequíveis de uma reforma das instituições multilaterais que seus principais países, inclusive o Brasil, não têm condições de implementar.

Do lado do Brasil, justamente, um novo embate eleitoral coloca a nação entre dois opostos aparentemente rejeitados pela maioria dos cidadãos, mas que teimam em dividir a cidadania nos dois polos que disputam acirradamente, mas não substantivamente, os corações e mentes dos eleitores convocados a um segundo turno ainda imprevisível. A diplomacia profissional assiste a esse cenário de confrontação, temendo ser engolfada num novo ciclo de impasses políticos e diplomáticos, sem que a governança a ser escolhida nas urnas tenha condições de enfrentar adequadamente os desafios atualmente existentes no âmbito regional, em escala hemisférica e no plano do sistema mundial (hoje praticamente estraçalhado).

A pergunta do título talvez não seja exatamente “para onde vai o Itamaraty”, mas, mais precisamente, a que grau de turbulências internas seremos conduzidos, em nossa condição de diplomatas profissionais, num ambiente de enorme divisão nacional entre projetos políticos talvez não fundamentalmente opostos na área econômica – inclusive em virtude de vários constrangimentos objetivos e inadiáveis nessa frente –, e sim no campo de valores e princípios de cunho social e cultural e, dramaticamente, principalmente, no plano das opções externas, no qual nosso potencial de escolhas próprias pode ser reduzido pelo resultado do pleito iminente.

“Nunca antes” na história deste país, é o caso de se dizer, a autonomia decisória no domínio da política externa se apresentou tão concretamente ameaçada por embates internos na frente política, a ponto de colocar em dúvida a preservação integral das cláusulas de relações internacionais previstas em nossa Carta constitucional. Para onde vamos ainda não sabemos, mas adivinhamos, ou tememos, que as previsões de momento são especialmente difíceis em face da primeira eleição presidencial na qual a política externa e a diplomacia assumiram um papel de “reféns” de escolhas nas antípodas, um cenário que jamais conhecemos no registro de nossos embates eleitorais anteriores. Não é o “fim da História”, mas pode ser o fim de um consenso que imaginávamos existir do lado das nossas relações exteriores.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5486: 10/10/2026.

 

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