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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 5474. "Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar”, Brasília, 28 setembro 2026, 4 p. A recorrência de uma ideia, mais por instinto do que por deriva genética. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 732, 9/10/2026, link:  https://revistasera.info/2026/10/autobiografia-de-um-fora-da-lei-11-nosso-fascismo-eterno-tao-familiar/ 

Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

A recorrência de uma ideia, mais por instinto do que por deriva genética.

 

Meus antigos súditos, aqueles da época imperial, meus caros concidadãos, já vivendo – teoricamente pelo menos – num regime republicano, se acostumaram a importar ideias de outros sistemas políticos e outras experiências exógenas de governo, tanto porque a reflexão própria sobre a governança, na época colonial e mesmo na fase independente, não eram, por assim dizer, espécies acostumadas ao rústico ambiente que era o nosso, inclusive porque tais ideais nunca conseguiram se manter dignamente por aqui. O chamado “patriarca da Independência”, que viveu longos anos entre acadêmicos europeus, enfrentou imensas dificuldades ao tentar criar um projeto de país perfeitamente alinhado com aqueles modelos que ele vira florescer no contexto do imaginário constitucional iluminista, ainda que não perfeitamente kantiano. Não deu muito certo, desde a partida.

O novo encarregado dos meus assuntos domésticos, tanto enquanto príncipe regente, quanto já imperador coroado, causou-lhe os maiores dissabores, ainda que atraído para uma das lojas maçônicas que trabalharam pela independência, ademais do bando de republicanos alucinados que alimentavam os ardores da plebe, exigindo todos os direitos imediatamente. Bonifácio teve de mandar aplicar-lhes alguns cacetes no momento certo, para evitar novos percalços na construção do meu legítimo Estado. Ainda assim, o fogoso imperador mandou fechar a Constituinte que eu esperava ver triunfante, ao estilo de um parlamentarismo quase inglês, e mandou-o para um exílio naquelas mesmas paragens onde ele já vira a guilhotina sedenta de sangue decepar alguns recalcitrantes mais afoitos. Anos depois, ele chamou-o de volta, para ser o preceptor daquele que seria o seu sucessor natural no Império do Brasil, um menino de cinco anos, que lhe pareceu muito tímido, ainda que prometedor.

A essa altura, a governança já tinha sido conquistada pelas oligarquias escravocratas, e o seu projeto de abolição imediata do tráfico e de fim a escravatura a médio prazo, enviado de Paris, não causou nenhum efeito nos negócios do primeiro reinado. As regências foram uma outra confusão dos diabos: rebeliões espoucaram em diversas partes, inclusive uma republicana que me causou muitos prejuízos lá pelos pagos do Sul. Depois a modorra se instalou no mais longo regime político com que já fui contemplado por estas terras, regido por uma constituição especialíssima, que dava ao segundo imperador o poder de decepar politicamente algumas cabeças, sempre quando julgasse necessário e adequado. Em todo caso, essa carta durou mais tempo do que as seis ou sete que se seguiram, em número menor, em compensação, do que as muitas moedas que a República inventou e se pôs a desfigurar.

A república que foi moldada começou americanizada, tanto que inventaram para mim o pomposo, mas enganoso, título de Estados Unidos do Brasil, estados que podiam ser tudo, menos unidos. Cada um tinha poderes quase soberanos, começando pela faculdade de contrair empréstimos no exterior, sem o meu antigo poder imperial de conceder aval, o que provocou inadimplência geral desses entes irresponsáveis logo nas primeiras décadas do novo regime (tristemente militarizado desde o início). Se atravessamos a Grande Guerra sem novos empréstimos do exterior, depois retomamos o vício infernal do bônus externos, que duraram até uma nova grande crise, desta vez provocada pelos tais americanos quase imperiais. Os milicos me pouparam de uma nova guerra civil, demitindo e mandando para o exterior um desses presidentes paulistas que pretendia manter a clique dos barões do café no poder.

Começou por aí um longo período ditatorial, o primeiro de um dos muitos regimes truculentos que passaram a tisnar a minha imagem e reputação nas décadas seguintes, durante o qual foram educados e treinados os mesmos militares que mais tarde se arrogariam o direito de não apenas a perpetrar mais um golpe, mas a ficar no comando do meu Estado por mais de vinte anos seguidos. Com uma peculiaridade, porém: as ideias de governança já não eram as mesmas, mas alimentadas por uma assemblagem de marxismo vulgar, de um corporativismo embrionário e de um futurismo doentio, de um tal de Marinetti, que, junto com a violência de Nietzsche, produziram a versão direitista do bolchevismo leninista: um sargentão socialista, decepcionado com a humilhação da Itália na Grande Guerra, criou os fasci di combattimenti, e com eles conseguiu convencer um rei idiota a lhe atribuir o cargo de primeiro-ministro, depois de uma marcha sobre Roma, em 1922, quando eu comemorava o meu centenário.

Um outro soi-disant filósofo, Giovanni Gentile, foi o principal elaborador da doutrina fascista. Um dos seus primeiros escritos nessa vertente foi o Manifesto dos Intelectuais Fascistas (1925), seguido, no mesmo ano, por O que é o fascismo, depois por algo mais elaborado: Origens e doutrina do fascismo (1929). As doutrinas políticas de corte fascista tiveram ampla repercussão no meu Brasil, em especial entre intelectuais, muitos dos quais se converteriam, mais tarde, em progressistas avançados ou até em fiéis adeptos do socialismo.

Mas, poucos sabem, por exemplo, que um dos principais tribunos democráticos da República de 1946, grande estadista da Política Externa Independente, San Tiago Dantas, foi fortemente atraído, na juventude, pela mensagem do fascismo mussoliniano e chegou mesmo a escrever, em 1930, um estatuto para um partido fascista do Brasil. Ainda no terceiro ano de Direito, Dantas redigiu, de seu próprio punho, o esboço da estrutura de um Partido Nacional Fascista, o mesmo nome do partido fundado na Itália por Mussolini. Em 1932, Giovanni Gentile assinou, com Mussolini, um verbete na Enciclopedia Italiana, “A Doutrina do Fascismo”, dividido em “Ideias Fundamentais”, por ele mesmo, e “Doutrina Política e Social”, por Mussolini.

O panfleto foi imediatamente traduzido e publicado no Brasil, com várias edições posteriores. Logo após, em outubro, Plínio Salgado e Miguel Reale redigiram um manifesto-programa, dando nascimento a um partido, a Ação Integralista Brasileira, cujo lema era “Deus, Pátria e Família”, por acaso o mesmo slogan que, em 1964, seria usado na “Marcha com Deus, pela Família e pela Propriedade” que antecedeu o golpe militar, e que, em nossos dias, seria utilizado centenas de vezes nos meios bolsonaristas, durante toda a presidência do capitão, e mais amplamente nas correntes que se abrigaram nesse fenômeno que se tornou um verdadeiro movimento a partir dessa conjuntura histórica de involução mental no meu Brasil.

Em 1933, Plínio Salgado publicou O que é o Integralismo, a base de sua filosofia política, num molde já especificamente fascista mussoliniano; adotou, logo após, as “camisas verdes” para os seus seguidores, militarizadas ao estilo dos fasci di combattimenti italianos. No ano seguinte passa a se considerar o Führer brasileiro, sem aderir, contudo, ao racismo e ao antissemitismo de outros integralistas brasileiros (como Gustavo Barroso), uma vez que tinha iniciado sua trajetória literária por um romance de fortes tinturas nacionalistas e indianistas. Era tido como o virtual vencedor das eleições de 1938, mas apoia, ao início, a decretação do Estado Novo por Getúlio Vargas, em novembro de 1937, para se dissociar logo em seguida, já que esperava ser designado ministro da educação nacional, como tinha sido o caso de Giovanni Gentile com Mussolini.

Plínio Salgado tenta um golpe, fracassado, em maio de 1938, o que o leva a um exílio de sete anos em Portugal (onde se afeiçoa ao Estado Novo salazarista). O Partido de Representação Popular, que ele fundou em seu retorno ao Brasil, obteve certo apelo popular, sem, contudo, ser suficientemente forte para elegê-lo presidente em 1955, embora com muito apoio nos meios militares. Plínio Salgado aderiu em 1965 ao partido da ditadura militar, a Arena, mas encerrou a sua carreira em 1974. Independentemente dos caminhos erráticos do fascismo brasileiro, as sementes existentes nos anos 1930 deixaram fortes raízes que continuaram a moldar a ideologia de muitos militares e civis nas décadas seguintes, cujos frutos amadureceram em nosso século. O fascismo eterno continua presente entre nós.

Se o itinerário político deste meu país foi uma contínua sucessão de oligarquias conservadoras ao longo da história – primeiro os senhores de escravos, depois os barões do café, seguidos pelos industriais e banqueiros –, neste primeiro quarto do século XXI tivemos, finalmente, um partido saído das chamadas classes populares conquistando o poder político e imprimindo sua própria marca na proposição e execução de políticas, que inverteram, muito modestamente, o curso político da governança. Grosso modo, assistimos no Brasil a uma polarização sui generis que corresponde, aparentemente, à luta entre esquerda e direita pelo domínio do Estado, situação bem conhecida nas democracias ocidentais que, desde a segunda metade do século passado, oscilam entre partidos socialdemocratas e partidos conservadores.

A esquerda conquista o poder com promessas otimistas de distribuição social da renda e de valorização da classe trabalhadora, mas pode incorrer num excesso de gastança estatal, que produz inflação e possível crise no balanço de pagamentos. A direita conservadora retorna ao poder com o intuito de promover um ajuste fiscal e um novo equilíbrio nas contas públicas, o que passa a ser atacado pelos socialdemocratas como sendo um excesso de austeridade. Tem sido assim nos dois lados do Atlântico Norte no último meio século. O meu Brasil chegou tarde nesse tipo de jogo, mas é possível que a oposição entre esquerda e direita, temporariamente representadas pelos lulopetistas e pelos bolsonaristas, tenha esgotado suas possibilidades de seduzir a maioria da população, tendo em vista suas taxas de rejeição.

Mas, o fato é que o meu país não mais possui partidos políticos de verdade, apenas aglomerações predatórias integradas por castas (e dinastias) de políticos profissionais, dirigidos por caciques sôfregos por recursos do Estado, que administram os dois fundos ilegítimos – o Partidário e o Eleitoral – e que passaram a perpetrar o exercício do estupro orçamentário pela via das emendas compulsórias, a via mais fácil para a disseminação da corrupção; esta decuplicou em poucos anos, horizontal e verticalmente, representando várias vezes os investimentos em ciência e tecnologia. O fato é que deputados e senadores se tornaram “vereadores federais”, capturando recursos para suas bases, o que praticamente destruiu qualquer sentido de grandes investimentos estratégicos.

Gilberto Amado dizia, na República Velha, que “as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira”. Nos dias que correm as eleições são verdadeiras, pela fiabilidade do maquinário eletrônico, mas a representação pode não mais ser verdadeira, contemplando-se o plantel de velhos e de novos eleitos que vão determinar o que será a política e a governança no Brasil nos próximos quatro anos, e talvez um pouco mais. Confesso sentir calafrios ao constatar a desesperança ascender por entre o meu povo...

 

Brasília, 5474: 28 de setembro de 2026, 4 p.

1670. “Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar”, Brasília, 28 setembro 2026, 4 p. A recorrência de uma ideia, mais por instinto do que por deriva genética. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 732, 9/10/2026, link: https://revistasera.info/2026/10/autobiografia-de-um-fora-da-lei-11-nosso-fascismo-eterno-tao-familiar/). Relação de Originais n. 5474.

 


domingo, 4 de outubro de 2026

Um voto mais que assustador, um voto que indica uma saída pelo abismo - Paulo Roberto de Almeida, Marcelo Guterman (sem qualquer combinação)

Avant-propos ex-post: 
 
        Agrego comentários preliminares à postagem abaixo, de um economista anti-petista, depois de ter lido ou ouvido críticas acerbas, tanto em relação ao que diz o seu autor, quanto em relação à minha postura de ter decidido colocar o seu texto em meu espaço nesta ferramente de comunicação social e, imagino, também de debate.
        Segundo os críticos, eu NÃO DEVERIA ter repostado esse texto, pois ele confronta posturas bem fundamentadas dos que estão concretamente posicionados contra a DIREITA, ou seja, contra o candidato da família miliciana, a pior coisa que já aconteceu no país DESDE 2018 e que continua na batalha para conquistar corações e mentes de brasileiros neste ano de 2026 e mais além.
        Pois bem, quero sustentar minha escolha de colocar tal texto em função de minha postura sempre aberta ao debate, de qualquer tipo que seja, e também por razões práticas. Elas são as seguintes:
        O Brasil se encontra em face das eleições talvez mais decisivas de sua história política, como possa ter sido talvez 1989, ou em 2014, ou em poucas outras oportunidades, quando os resultados se estreitaram entre a esquerda e a direita. 
        Qualquer que seja o resultado que o Brasil terá de enfrentar HOJE, ou no dia 25/10, ele vai encontrar o país profundamente dividido, e os ânimos exaltados.
        Ora, se as pessoas, de um lado ou de outro, desejam apenas ler e refletir sobre argumentos com os quais elas concordam, isso significa que os ânimos continuaram e continuarão exaltados em face de resultados que refletem numericamente a maioria – e isso é da competência da Justiça Eleitoral –, mas que continuarão a confirmar que o país está dividido em dois grandes grupos que se consideram inimigos. A convivência, e as políticas do Estado, continuarão exaltadas, confrontacionistas. Eu prefiro refletir sobre tudo isso, e por isso leio TODAS as posições, penso a respeito e expresso minha oponião, mas entendo que se deva aceitar resultados democraticamente expostos e defendidos.
        Não me levanto em armas contra a extrema-direita, que pode efetivamente desgraçar o país – pensemos apenas no aborto em casos de estupro, ou na subordinação de nossa política externa a uma potência estrangeira –, mas acredito que se deva refletir sobre TODAS as posições legitimamente expostas e votadas, e a partir daí continuar a luta pelas vias democráticas.
 
Brasília, 4 de outubro de 2026, 12hs, ANTES de votar...
 
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Texto escrito na madrugada de 4/10, em torno de 02hs:

Apenas transcrevo, sem comentário substantivo no momento, PRA:

Um "voto" assustador, esse do Marcelo Guterman, mas é um voto guardado na gaveta e agora retirado. Não concordo com tudo o que ele disse, aliás posso não concordar com nada do que ele disse. Mas reconheço que existem argumentos que nos obrigam a refletir, e esperar o menos pior. Não sei se o menos pior é o déjà vu all over again, travestido de defesa da soberania nacional, ou se é a descida para a incerteza do abismo, a submissão ao "Escudo das Américas", a mediocridade muito burra de volta, depois de quatro anos esperando a sua vingança.
Deixo registrado esse texto apenas para pensar, não para induzir qualquer pessoa a seguir o voto desse economista. Espero que o céu não nos caia sobre a cabeça, como diria um chefe gaulês, mas nem isso posso garantir. Apenas leio e reflito, e não vou expressar minha opinião agora.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4/10/2026

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Voto com o fígado
Blog do Marcelo Guterman
OUT 3, 2026

Esse post foi escrito, mais ou menos como está a seguir, no dia 15/09, após aquele espetáculo circense que presenciamos no STF. Decidi não publica-lo no dia, deixando-o dormir na gaveta para amadurecer a ideia ou, quem sabe, esquecê-la. O gol de mão do STF/TSE no caso do debate da Globo, no entanto, foi a gota d’água que me fez, finalmente, tomar a decisão de publicá-lo. Aí está, portanto. Divirtam-se.

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Na véspera do 2o turno de 2022, escrevi um post explicando o meu voto em Jair Bolsonaro (havia votado em Luis Felipe D’Ávila (Novo) no 1o turno). A minha linha de argumentação, à época, foi puramente econômica: dos dois modelos em disputa, minha avaliação pessoal é que a agenda do então presidente, por mais falhas que tivesse, era superior ao do desafiante. Já tínhamos experimentado o desastre petista na economia com a Dilma, e nunca caí no canto da sereia do pragmatismo de Lula.

Esta eleição de 2026, no entanto, é diferente. Se eu havia investido tempo e energia para desenvolver um racional para o meu voto, dessa vez o voto será com base em outro órgão do corpo humano que não o cérebro: o fígado. Meu voto, ainda no primeiro turno, será para Flavio Bolsonaro.

Deixe-me explicar não o racional do voto, mas a sua trajetória, do meu cérebro para o meu fígado, ao longo desses meses.

Tudo começou em dezembro do ano passado, quando Bolsonaro pai escolheu o 01 como seu candidato. Pensei: não vou ser refém dessa pantomima. Quem Jair Bolsonaro pensa que é, ao apontar um desqualificado como o seu filho, e achar que vou atrás sem pensar. Pela primeira vez na vida, pensei, vou anular meu voto para presidente no 2o turno.

E fiquei com essa escolha durante meses. Até que os episódios envolvendo os ministros do STF começaram a provocar em mim uma sensação dolorosa de impotência. Como pode ministros com as canetas mais poderosas do país fazerem o diabo e continuar tudo como dantes no quartel de Abrantes? É isso então? São inimputáveis? Podem fazer o diabo, inclusive mudando regras na mão peluda, só para se protegerem e favorecerem o seu campo político?

Foi daí que, no início envergonhadamente, e depois descaradamente, uma ideia começou a tomar forma no meu fígado: não, não sou impotente. Tenho um instrumento que pode, se não dar um jeito, pelo menos dar uma lição nesse pessoal. E esse instrumento é o voto. É pouco, é quase nada, mas é melhor do que nada.

Eu sei que isso que eu vou falar agora é xadrez 4D, mas não deixa de ser divertido pensar que, talvez, Jair Bolsonaro tenha sido mais esperto do que pareceu a princípio ao escolher seu filho. Ele o escolheu não somente por ser da família, mas também por ser uma completa nulidade. Se Flávio ganha a eleição, a humilhação para Lula e sua trupe será completa. Imagine o incumbente, com a caneta de presidente na mão, com o apoio tácito do STF, ser derrotado pelo filho inepto de um cara que está na prisão? Impagável.

Fosse Tarcísio o candidato, a derrota de Lula faria parte do jogo. Tarcísio é extremamente inteligente, excelente administrador, teria o apoio maciço do Centrão a zero de jogo, enfim, seria um adversário à altura. Já Flávio, bem, a sua única credencial é ter o sobrenome Bolsonaro. Lembrando a antológica definição do general Mourão, se o sobrenome do Flávio fosse bananinha, provavelmente estaria agora em algum emprego obscuro por aí. Toda a sua carreira política foi feita na cola do pai, e sua performance no Senado foi pífia, para dizer o mínimo. Mas é justamente a sua desqualificação que o credencia não para ser presidente, mas para aplicar um corretivo em toda essa gente. É a própria definição do Cacareco.

Alguns dirão que é uma irresponsabilidade eleger alguém para o mais alto cargo da República justamente pela sua desqualificação. Ao que eu respondo: ultimamente, quando eu ouço a palavra “República”, tenho uma mistura de ataque de risos e náuseas. A República Brasileira já foi devidamente avacalhada, não será a eleição de um Bolsonaro que piorará o que não dá para ser pior. (Eu avisei no início que a decisão foi feita com o fígado).

Não vou pedir compreensão de ninguém para o meu voto.

Antibolsonaristas soltarão fogo pelas ventas, pois Bolsonaro é o diabo na terra. Para estes, só digo que quero mais é ver o parquinho pegando fogo.

Bolsonaristas soltarão rojões, cumprimentando-me pela minha escolha. Para estes, digo que estou escolhendo o candidato deles não porque seja o melhor, ou mesmo o menos pior, mas porque é o pior. Quanto mais ruim, mais feia e ridícula será a derrota desse sistema em torno de Lula.

Isentões, meus companheiros de jornada política, lamentarão, pois ambos os candidatos são péssimos, no que eu concordo e, racionalmente, o voto nulo seria mais adequado. Mas, lembrem-se, minha decisão foi feita com o fígado, não com o cérebro.

E se Lula ganhar? Bem, se Lula ganhar, ganhou. Sinceramente, I couldn’t care less. Eu terei feito a minha parte em tornar a sua vitória mais difícil e, de certa forma, humilhante, porque, lembre-se sempre, do outro lado está Flávio Bolsonaro, um nada. Uma vitória apertada já será uma derrota, muito pior que em 2022, quando do outro lado da disputa estava o presidente da República.

Não tenho a mínima ilusão de que Flávio fará um “bom governo” se eleito, ou que trabalhará para termos um Supremo decente. No final do dia, ele comerá na mão do sistema, como fez o seu pai. Mas não peçam coerência para o meu fígado. Meu voto visa tão somente a pequena satisfação de imaginar a cara de bunda do Gilmar Mendes no dia da apuração. Só isso.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

“Ameaças terroristas” nas eleições brasileiras - Paulo Roberto de Almeida

 Minha percepção sobre as “ameaças” de terrorismo nas eleições do Brasil de 2026. 

 1) Bananinha 03 e Paulo Figueiredo induziram os seus contatos no Departamento de Estado a empreender algum “anúncio” sobre essas “ameaças terroristas” no Brasil, mas Washington não podia agir sem alguma indução externa; 

2) Os verdadeiros terroristas bolsonaristas no Brasil a partir daí fizeram, sim, ameaças, às embaixadas dos EUA, da Austrâlia, do Reino Unido, talvez do Canadá, e algumas outras, alertando contra possíveis “atentados”, o que fortaleceu a demanda oficial às autoridades brasileiras para investigarem essas “ameaças”. 

3) Os trumpistas nos EUA tinham mesmo vontade de fazer algo a respeito das eleições, para favorecer o seu candidato sabujo e submisso, mas não queriam aparecer como alarmistas, assim ocorreu esse “feliz casamento” entre supostas ameaças, no Brasil e em Washington. 

 Não tenho nenhuma evidência concreta sobre o que afirmo, mas tenho experiência suficiente sobre essas trapaças políticas para afirmar o que expus acima.
O KGB-FSB, a CIA agiriam exatamente assim, para criar uma "false flag operation”.
Quem já leu a história real, ou até romances de espionagem, à la Graham Greene, ou John Le Carré, sabe como essas coisas se passam.
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Paulo Roberto de Almeida

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

As ciências humanas na defesa da democracia brasileira - Paulo Roberto de Almeida

  

As ciências humanas na defesa da democracia brasileira

 

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Alocução no encerramento do I Congresso da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e o II Congresso do Fórum de Ciências Humanas do Estado do Mato Grosso do Sul, dia 25/09/2026.

  

Minhas primeiras palavras são de cumprimentos ao debatedor nesta mesa, professor Gustavo Santiago Torrecilha Cancio, diretor da Aginter da UFMS, assim como ao professor Vinicius Carvalho da Silva, do Grupo de Pesquisa Physikós, da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS, meu agradecimento a este meu novo amigo acadêmico, quem me formulou este distinguido convite para participar da sessão de encerramento do vosso duplo Congresso, numa área que sempre foi a minha, ao lado de minha profissão de quase meio século como diplomata de carreira, na qual ingressei quando, provavelmente, mais da metade do auditório ainda não havia nascido. O segundo agradecimento vai a meu amigo virtual, professor Daniel Afonso da Silva, quem articulou, ou confabulou, este convite a um colega também acadêmico, mas apenas virtual, online, pelos últimos 20 anos.

Não pretendo fazer uma conferência erudita, estilo ex cathedra, em torno do título desta minha alocução: “As ciências humanas na defesa da democracia brasileira”; coloquei tudo em letras minúsculas, como para sinalizar a situação periclitante, na atual conjuntura, de todos os termos aqui retidos. Não será erudita, para não ter virtudes “dormitivas”, se eu decidisse adotar uma revisão enciclopédica desse vasto campo, que é também o meu, como sociólogo de formação. E usei letras minúsculas, para justamente chamar a atenção para a gravidade da hora que vivemos, não só nas ciências humanas, mas sobretudo na esfera política, pois são grandes os perigos que ameaçam a preservação de nossas virtudes republicanas, se por acaso elas existem.

Ela não poderia ser erudita, esta minha alocução, pela vastidão do campo de estudos atinente às ciências humanas, ou seja, humanidades, no sentido estrito, mais as ciências sociais aplicadas, que podem incluir também a economia política, que é uma outra área de minha predileção, tendo feito um mestrado em desenvolvimento econômico. Depois eu voltei para um doutoramento em sociologia histórica, tratando, aliás, de um objeto “florestânico” absolutamente frustrado em nossa história, a impossível, jamais realizada, “revolução burguesa no Brasil”.

Nossa compreensão da história, da filosofia, da política, das ciências humanas em geral, deriva, em todas essas disciplinas, da Grécia antiga, à diferença da astronomia, que veio dos babilônios, da matemática, que veio da Índia antiga, mas isso já faz parte de outras ciências, digamos assim. Mas, os gregos também nos legaram conhecimento nas ciências naturais, um pouco na medicina, outro tanto na biologia, e muita confusão em matéria de religião, uma mixórdia, tanto que temos hoje duas Igrejas gregas, em duas vertentes do cristianismo.

O Brasil herdou todas essas áreas de pesquisa e de estudo via Portugal, o que talvez não tenha sido a melhor fonte para dar início às humanidades – por causa da Contrarreforma –, assim como à ciência e tecnologia, às quais também chegamos relativamente atrasados, pelas limitações educacionais e científicas de nossa pátria de origem. Mas o Brasil se fez sobretudo pela mistura de raças, algumas já instaladas aqui, conquistadas pelos desbravadores portugueses, outras importadas compulsoriamente, para trabalhar para os novos donos das terras, mais adiante pelos aportes voluntários ou importados de quase todos os povos do mundo. De uns tempos para cá, estamos exportando gente, antes braços pouco instruídos, agora cérebros diplomados.

Olhando de perto, basta consultar o diretório dos professores desta universidade, como de todas as outras, compulsar os nomes de todos os trabalhadores, empresários, cientistas, os dos burocratas servindo as instituições públicas, dos cidadãos em geral, para constatar que somos um verdadeiro microcosmo mundial, uma amostra das possibilidades étnicas, raciais, culturais, religiosas e linguísticas, todas elas num sincretismo originalíssimo, aliás muito cobiçado pelos traficantes de passaportes em todas as partes, pelos malfeitores internacionais em geral.

No que me concerne, eu cheguei às ciências humanas pela irrupção de uma experiência prática: o golpe militar de 1964 que derrocou o último governo democraticamente eleito da República de 1946, a quarta ou a quinta desde o golpe que desbancou o regime monárquico em 1889. Até então, vindo de uma família muito modesta, meu destino teria sido fazer um curso técnico no Sesi ou Senac, para me tornar marceneiro ou qualquer outra profissão manual, que era o destino de um filho de pais semiletrados, com primário incompleto, neto de avós imigrantes totalmente analfabetos, que tinha vindo ao Brasil para substituir os escravos nas fazendas de café de São Paulo e Minas Gerais. Os militares me desviaram para a sociologia, que é, segundo Mário de Andrade, a “arte de fazer revoluções”.

O golpe de 1964 me despertou para a política, e na sua sequência eu passei a ler toda a literatura de ciências humanas e sociais, dos professores da USP, vários anos antes de ingressar no curso de Ciências Sociais da Fefelech, em 1969, na primeira turma dos barracões da Cidade Universitária, depois da batalha da rua Maria Antônia, contra os direitistas do Mackenzie, quando eu prestava vestibular. Como, logo no primeiro semestre, metade dos meus professores foram compulsoriamente aposentados pelo AI-5 – entre eles Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso – e que, na sequência, forças do Exército invadiam a USP seguidamente, para prender estudantes subversivos, entre os quais eu me incluía, resolvi sair do país para evitar uma possível prisão.

Minha formação em Ciências Humanas e Sociais continuou, então, na Europa, primeiro no socialismo real, onde eu esperava estudar gratuitamente, depois num país do capitalismo ideal, que foi a Bélgica, para onde fui depois de constatar, em Praga, invadida dois anos antes pelas forças soviéticas, que o socialismo real não era apenas uma miséria material, evidente nas prateleiras vazias dos armazéns, mas sobretudo uma miséria moral, pelo clima de repressão, de delação, de controle absoluto sobre os meios de informação. Aqui chegamos, então, ao segundo elemento de minha alocução, ao lado das Ciências Humanas, a democracia, e os perigos que a rondam, como em outras épocas no socialismo real, mas também no Brasil, em diversas etapas de nosso itinerário político passado, ainda ameaçadoramente presentes, em nossos dias.

Tivemos, uma experiência relativamente recente, nessas tentativas recorrentes de ruptura com a democracia de baixa qualidade que sempre tivemos desde a independência, que foi, sob o horrendo bolsonarismo, a tentativa de golpe planejada por um militar incompetente até para dar um golpe comme il faut. Quando digo horrendo não é apenas pela tentativa de um golpe ao estilo do filme Bananas do jovem Woody Allen, um dos piores que ele fez numa brilhante carreira. Eu me refiro especialmente às centenas de milhares de mortos excedentários durante a pandemia, ou seja, em número desproporcional ao volume da população brasileira: 3% dos habitantes da Terra, mas 11% das vítimas da epidemia em todo o planeta. Isso foi horrendo, o descaso com a saúde da população, o desprezo contra as universidades, os atentados aos povos indígenas, a destruição do meio ambiente, enfim, tudo aquilo que prezamos numa sociedade minimamente civilizada.

Durante a era bolsonarista, que ameaça voltar, ciências humanas e democracia não apenas se escreviam em letras minúsculas, como estavam reduzidas à sua menor extensão possível, a uma profundidade igual à das canelas de uma formiguinha atravessando um regato. Não estou exagerando tão somente quanto ao perigo de um retorno a essa era de tentações autoritárias, mas sobretudo em relação a uma inevitável subordinação diplomática – o que me toca pessoalmente – ao chamado “imperador hemisférico”, o dirigente demencial que pretende tutelar todos os países da América Latina por meio do “Escudo das Américas” e do seu equivocado “corolário Trump” à Doutrina Monroe.

Até nessa designação, ele e seus serviçais revelam toda a ignorância histórica e estupidez política de uma equivalência totalmente anti-histórica e absurda. Eles se referem, na verdade, ao chamado “corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe, que, diferentemente da declaração de 1823, dirigida à Santa Aliança e suas ameaças de recolonização das repúblicas hispano-americanas recentemente independentes, a de 1904 proclamava o direito arrogante do jovem imperialismo americano de interferir nos assuntos internos de países podendo representar alguma ameaça aos interesses e propriedades de americanos e suas empresas, no entorno imediato do Caribe e da América Central, podendo até chegar à Venezuela, que havia recém descoberto jazidas de óleo, rapidamente explorado por companhias petrolíferas americanas.

Além dessa ameaça de neocolonialismo trumpista, a ameaça à democracia no Brasil não se faria pelos velhos métodos golpistas do passado, pois se alguma coisa melhorou aqui, depois da tentativa canhestra, bananeira, de golpe bolsonarista, foi o alheamento, talvez temporário, dos militares de qualquer nova intervenção em nossa precária democracia. Com as visitas de altos enviados de Biden nos dois últimos anos do governo do capitão, o chefe da CIA, o conselheiro de Segurança Nacional e o próprio Secretário da Defesa, nossos chefes militares foram alertados pelos americanos que, à diferença de 1964, eles não apoiariam qualquer interrupção do regime democrático no Brasil, e que não interfeririam nas eleições, como em 1962.

A eventual autocratização do Brasil, sob um rebento corrupto do golpista incompetente, se faria num molde conhecido em outras democracias de baixa qualidade, como o autoritarismo à la Erdogan da Turquia, a derrocada gradual da democracia no modelo chavista da Venezuela bolivariana – hoje reduzida a um protetorado trumpista – ou o regime dito iliberal do derrocado Viktor Orban da Hungria. Existem muitas formas de reduzir os espaços democráticos abertos à sociedade civil, não só no Brasil como em vários outros países, mas o fato é que, pelos critérios do V-Dem, nosso país está classificado, não no grupo das democracias liberais, como o pequeno Uruguai, mas no segundo time, o das democracias simplesmente eleitorais.

Pois é no domínio da organização política-eleitoral do Brasil que as Ciências Humanas, desta vez em maiúsculas, podem ser chamadas a colaborar no oferecimento de melhorias, de tipo institucional ou de cunho político-administrativo, para que nossa frágil democracia possa galgar patamares mais elevados de qualidade formal e substantiva. Não sou especialista em organização do Estado, ou em reformas eleitorais, mas acredito que nossos colegas da Ciência Política e do Direito Administrativo e Constitucional possuem ampla capacidade para propor reformas num sentido de construir uma governança de qualidade no Brasil, nas diferentes instâncias do Estado.

Esse processo deveria começar por importantes reformas no Judiciário, não apenas em função da mais grave crise jamais conhecida em toda a sua história, em vista da disseminação da corrupção em todos os seus escalões, mas também e principalmente em seus aspectos de tipo operacional, como, por exemplo a revisão dos códigos processuais, dado o surgimento de novos tipos de infrações e crimes de um novo tipo. Penso igualmente numa revisão radical dos enormes abusos pecuniários, que infestam os vários níveis da magistratura, no topo da qual existe uma nova aristocracia do Judiciário, extraindo, com outros altos mandarins do poder, os recursos duramente amealhados da população pagadora de impostos. Penso também na supressão total e completa da Justiça do Trabalho, uma aberração corporativista dos tempos do Estado Novo, com a atribuição de suas competências a varas especializadas e o recurso amplo a soluções arbitrais, com o objetivo mais geral de diminuir o peso do Estado sobre a regulação do trabalho. A Justiça do Trabalho produz, na verdade, mais conflitos trabalhistas do que ela os resolve, e o seu custo puramente burocrático ultrapassa em muito os valores somados das indenizações atribuídas.

Uma reforma administrativa geral no Estado brasileiro é missão complexa demais para ser descrita neste momento, mas constitui igualmente tarefa básica no sentido da diminuição geral do peso do Estado na vida social. O Legislativo, nesse mesmo terreno, é fonte notória de distorções, não apenas orçamentárias – pois custa muito mais caro do que congêneres em outros países – mas também em sua administração e funcionamento, com um inchaço inaceitável em todos os níveis em que ele existe na federação. O debate sobre a redução dos legislativos, a diminuição de seus custos, a redução da dispersão e da fragmentação partidária e a correção das deformações eleitorais e de representação proporcional, deveria começar de imediato, com vistas à adoção de um sistema distrital adequado às peculiaridades regionais e demográficas do país.

Para além do trabalho prático na defesa da democracia brasileira, essa missão reformista das Ciências Humanas deve ter igualmente a compreensão de que estamos enfrentando uma ameaça bem mais grave do que a não consecução dessas reformas, ou a introdução de outras, menos democráticas, no próximo mandato presidencial. Quero me referir à possibilidade de um retorno altamente indesejável aos instintos primitivos daquela visão do mundo que Umberto Eco chamava de fascismo eterno. Essa não é uma possibilidade teórica, mas sim uma e(in)volução possível, dado o nosso histórico de experimentos e organizações fascistas num passado não muito distante, há menos de três gerações, como cabe rememorar agora. Aqui já entramos num outro ramo das Humanidades, o da História.

O surgimento do Partido Nacional Fascista na Itália do pós-guerra, em 1919, por um egresso das correntes marxistas, Benito Mussolini, teve, ademais de seu impacto relevante na crise larvar da democracia burguesa do Risorgimento, repercussões em outros países, entre eles no próprio Brasil, onde existiam, por sinal, jornais em italiano circulando na comunidade dos trabalhadores emigrados, muitos adeptos das ideias socialistas, anarquistas, até comunistas, na década seguinte. O fascismo cresceu com a adesão do futurismo de Marinetti à doutrina, a ela agregando o culto à guerra e à violência. O filósofo Giovanni Gentile foi o principal elaborador da doutrina fascista, desde a Marcha sobre Roma, em 1922, o que levou o fraquíssimo rei Vitor Emanuel III a entregar o cargo de primeiro-ministro a Mussolini, quando Gentile se torna então ministro da Instrução Pública. Um dos seus primeiros escritos nessa vertente foi o Manifesto dos Intelectuais Fascistas (1925), seguido logo depois por O que é o fascismo (do mesmo ano), de Fascismo e Cultura (1928) e de algo mais elaborado: Origens e doutrina do fascismo (1929).

As doutrinas políticas de corte fascista tiveram ampla repercussão no Brasil, em especial entre intelectuais, muitos dos quais se converteriam, mais tarde, em progressistas avançados ou até em fiéis adeptos do socialismo. Poucos sabem, por exemplo, que um dos principais tribunos democráticos da República de 1946, grande estadista da Política Externa Independente, San Tiago Dantas, foi fortemente atraído, na juventude, pela mensagem do fascismo mussoliniano e chegou mesmo a escrever um estatuto para um Partido Fascista do Brasil em 1930. O relato está na grande biografia de Pedro Dutra: San Tiago Dantas, cujo primeiro volume, A razão vencida (2014), informa, no capítulo “IX – O Jovem Ideólogo”, que o jovem terceiro-anista de Direito, escreveu, de seu próprio punho, no segundo semestre de 1930, “o esboço da estrutura de um Partido Nacional Fascista – o mesmo nome do partido fundado em 1922 na Itália por Mussolini” (p. 205 e 581). Pedro Dutra informa ainda sobre o que resultou dessa iniciativa:

A idealização de um partido fascista era sugestiva e contemporânea à constatação a que San Tiago chegara de que, àquela altura, os principais elementos do regime fascista, implantado no Itália havia sete anos – e os quais ele havia estudado –, poderiam servir à formulação de uma linha de ação política no Brasil e, portanto, um partido fascista que os promovesse entre nós deveria ser criado. A criação de um Partido Nacional Fascista não encontrou, porém, ambiente no Brasil. (p. 206)

 

San Tiago Dantas continuou associado a Plínio Salgado, o principal ideólogo do integralismo, a versão brasileira do fascismo italiano, mas, a partir do golpe do Estado Novo, em 1937, se dissociou de Francisco Campos, o autor da constituição “polaca”, e enveredou por um caminho que o levou a defender uma doutrina baseada no trabalhismo inglês, tendo se distanciado de Plínio Salgado em 1942; mais adiante, no retorno à democratização, San Tiago passou a ser eleito pelo PTB nos anos 1950.

Em 1932, Giovanni Gentile assina, com Benito Mussolini, um verbete na Enciclopedia Italiana, “A Doutrina do Fascismo”, dividido em “Ideias Fundamentais”, por ele mesmo, e “Doutrina Política e Social”, por Mussolini. O texto foi imediatamente traduzido e publicado no Brasil, com várias edições posteriores. Logo após, em outubro, Plínio Salgado e Miguel Reale assinam um manifesto-programa, dando nascimento a um partido, a Ação Integralista Brasileira, cujo lema era “Deus, Pátria e Família”, por acaso o mesmo slogan que, em nossos dias, seria utilizado centenas de vezes nos meios bolsonaristas, durante toda a presidência do capitão, e mais amplamente nas correntes que se abrigaram nesse fenômeno que se tornou um verdadeiro movimento a partir dessa conjuntura histórica de involução mental.

Em 1933, Plínio Salgado publicou O que é o Integralismo, a nova base de sua filosofia política, num molde já especificamente fascista mussoliniano; adotou, logo após, as “camisas verdes” para os seus seguidores, militarizadas ao estilo dos fasci di combattimento italianos. No ano seguinte passa a se considerar o Führer brasileiro, sem aderir, contudo, ao racismo e ao antissemitismo de outros integralistas brasileiros (como Gustavo Barroso), uma vez que tinha iniciado sua trajetória literária por um romance de fortes tinturas nacionalistas e indianistas. Era tido como o virtual vencedor das eleições de 1938, mas apoia, ao início, a decretação do Estado Novo por Getúlio Vargas, em novembro de 1937, para se dissociar logo em seguida, já que esperava ser designado ministro da educação nacional, como tinha sido o caso de Giovanni Gentile com Mussolini.

Plínio Salgado tenta um golpe, fracassado, em maio de 1938, o que o leva a um exílio de sete anos em Portugal (onde se afeiçoa ao Estado Novo salazarista). O Partido de Representação Popular, que fundou em seu retorno ao Brasil, obteve certo apelo popular, sem, contudo, ser suficientemente forte para elegê-lo presidente em 1955, embora com forte apoio em alguns meios militares. Plínio Salgado aderiu em 1965 ao partido do regime militar, a Arena, mas encerrou a sua carreira em 1974. Independentemente dos caminhos erráticos do fascismo brasileiro, as sementes existentes nos anos 1930 deixaram fortes raízes que continuaram a moldar a ideologia de muitos militares e civis nas décadas seguintes, cujos frutos amadureceram ainda em nosso século.

Mas, vamos agora deixar a História um pouco de lado, para debruçarmo-nos sobre a questão-título desta alocução, o papel das ciências humanas na defesa da democracia brasileira. O Brasil, como disse uma vez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não é um país pobre, mas é um país com muitos pobres, em número certamente muito elevado para o grau já alcançado na industrialização de sua economia e na modernização de seu tecido social. No entanto, os indicadores de IDH, as desigualdades distributivas e a persistência de inúmeros bolsões de pobreza, e mesmo de miséria, no ambiente rural e em muitas aglomerações urbanas comprovam o grau anormalmente elevado de iniquidades sociais.

A questão da miséria e da pobreza pode ser um problema econômico, mas ela é, sobretudo uma questão social, expressamente vinculada à questão da educação, ou melhor, à falta de oportunidades e de condições adequadas para que a população socialmente marginal tenha acesso a uma educação de qualidade, de forma a capacitá-la tecnicamente para empregos de produtividade superior e de remuneração mais elevada. Capital humano é provavelmente o handicap mais eloquente da dificuldade do Brasil em ascender na escala da competitividade internacional, e assim inserir-se nas cadeias globais de valor.

Não tenho certeza do quê, exatamente, nosso pequeno nicho de inteligência acadêmica, o das Ciências Humanas, poderia fazer para elevar o nível da dotação de fatores do Brasil em prol de um processo de desenvolvimento econômico sustentado. Adam Smith, conhecido como pai da Economia Política, ao descrever, logo no primeiro capítulo da sua grandiosa obra de 1776, os fatores de produção, falava, na verdade, de skilled labour, ou seja, mão-de-obra qualificada, o que foi mais tarde identificado por seu discípulo brasileiro, José Maria Lisboa, como sendo um quarto fator de produção, a inteligência.

Deixo, em todo caso, a recomendação para que nossos trabalhadores intelectuais das Ciências Humanas se dediquem às principais causas que obstaram, até hoje, a que o Brasil ascendesse, via qualificação do capital humano, a níveis mais altos de desenvolvimento econômico e social. Tenho para mim que a razão principal reside em que a governança política no Brasil sempre foi o monopólio das oligarquias, de diversos tipos, os donos do poder, como dizia Raymundo Faoro, um fenômeno sociologicamente conhecido como patrimonialismo. Essas oligarquias nunca atribuíram à educação da população subalterna o valor que ela precisa ter em qualquer processo de formação de capital humano.

Se o itinerário político do Brasil foi uma contínua sucessão de oligarquias conservadoras ao longo da história – primeiro os senhores de escravos, depois os barões do café, seguidos pelos industriais e banqueiros –, neste primeiro quarto do século XXI tivemos, finalmente, um partido saído das chamadas classes populares conquistando o poder político e imprimindo sua própria marca na proposição e execução de políticas públicas, que inverteram, modestamente, o curso político da governança. Grosso modo, assistimos no Brasil a uma polarização sui generis que corresponde, aparentemente, à luta entre esquerda e direita pelo domínio do Estado, situação bem conhecida nas democracias ocidentais que, desde a segunda metade do século passado, oscilam entre partidos socialdemocratas e partidos conservadores, se alternando no poder.

A esquerda conquista o poder com promessas otimistas de distribuição social da renda e de valorização da classe trabalhadora, mas pode incorrer num excesso de gastança estatal, que produz inflação e possível crise no balanço de pagamentos. A direita conservadora retorna ao poder com o intuito de promover um ajuste fiscal e um novo equilíbrio nas contas públicas, o que passa a ser atacado pelos socialdemocratas como sendo um excesso de austeridade. Tem sido assim nos dois lados do Atlântico Norte no último meio século. O Brasil chegou tarde nesse tipo de jogo, mas é possível que a oposição entre esquerda e direita, temporariamente representados pelos lulopetistas e pelos bolsonaristas, tenha esgotado suas possibilidades de seduzir a maioria da população votante, tendo em vista as taxas de rejeição de ambos os extremos. Entre os dois polos do jogo político existem simetrias e antagonismos, como talvez possamos identificar.

Nas políticas econômicas, macro e setoriais, não existem, finalmente, diferenças radicais entre os dois opostos. O PT, pela adesão talvez inconsciente ao desenvolvimentismo estatizante da era Vargas, prolongado no período da ditadura militar, demonstrou sua aquiescência a um tipo de política econômica, centralizadora, intervencionista e protecionista, que não se distanciou muito, em última instância, do modelo de condução econômica preferido pelas oligarquias mais tradicionais, dado o peso dessas elites econômicas na vida nacional. As diferenças são maiores, evidentemente, nas políticas sociais e humanitárias, dada a preferência da esquerda por políticas distributivas, promotoras de benefícios para os setores subalternos da sociedade, sem, contudo, alterar de modo mais afirmado as bases fundamentais da iniquidade social estrutural, objetivo que só poderia ser alcançado pela via da qualificação radical do capital humano nos setores subalternos, vale dizer, um programa radical de educação de qualidade para os mais pobres.

A correção de rumos nas políticas promotoras de maior igualdade social é possível de ser feita numa democracia fundamentada em sólidos partidos políticos, dotados de programas identificados com os desejos e interesses de camadas mais amplas da população. Daí a tendência da direita, ou seja, dos partidos conservadores, de favorecer regimes autoritários, com o objetivo de defender privilégios e mecanismos concentradores de renda, tendentes a afirmar as consignas de defesa da lei e da ordem, em contraposição a programas do tipo distributivista. O Brasil pode ter chegado a esse impasse entre esquerda e direita, um equilíbrio altamente instável que parece estar perto de produzir uma nova fratura política nas bases de uma governança aceitável, vista como legítima por cada um dos polos. Vejamos a alternância nas similitudes e nos antagonismos.

Poderia ser uma reprodução da alternância entre socialdemocratas e conservadores como observado no Atlântico Norte, com a diferença que não temos partidos representativos, realmente dotados de programas políticos claros, numa linha ou noutra, numa conjuntura da vida política da nação na qual o famoso “presidencialismo de coalizão” já não mais produz as bases de uma governança estável, uma vez que as maiorias conservadoras do Parlamento (que está fracionado ao extremo) conseguem se impor em face de um presidente eleito pelo voto majoritário direto, mas sem a correspondente base congressual que forneça o apoio necessário à implementação de suas políticas executivas. A emenda das reeleições majoritárias piorou, e muito, as coisas.

Esse tipo de confronto, que sempre esteve na origem das crises que agitaram de forma recorrente a política nacional, desde a República de 1946 – ignorando aqui o bipartidarismo artificial da ditadura militar –, poderia significar tão somente a necessidade de uma barganha recíproca e inevitável entre os dois poderes saídos do voto popular. Mas, o fato é que o Brasil não mais possui partidos políticos de verdade, apenas aglomerações predatórias integradas por castas (e dinastias) de políticos profissionais, dirigidos por caciques sôfregos por recursos do Estado, que administram os dois fundos ilegítimos – o Partidário e o Eleitoral – e que, desde o governo de Dilma Rousseff, passaram a perpetrar o exercício anual do estupro orçamentário pela via das emendas compulsórias, a via mais fácil para a disseminação da corrupção; ela decuplicou em poucos anos, passado a representar várias vezes investimentos em projetos científicos. O fato é que deputados e senadores se tornaram “vereadores federais”, capturando recursos para suas bases, o que praticamente destruiu qualquer sentido de grandes investimentos estratégicos.

Essa involução do sistema político-partidário brasileiro começou na década passada, se tornou mais aguda com a radicalização da direita, mas isso não se deu pelo aprofundamento do populismo de esquerda no âmbito nacional apenas, pois correspondeu, mutatis mutandis, ao crescimento, na Europa e nos Estados Unidos, de uma nova direita xenófoba, antiglobalista, racista (supremacista nos EUA), ainda assim relativamente contida nos espaços nacionais, pelo menos até o aparecimento de Trump 1, com um extraordinário recrudescimento sob Trump 2. É certo que o ambiente internacional, desde a agressão de Putin contra a Crimeia em 2014, que extravasou em fevereiro de 2022 contra toda a Ucrânia, é certo que desde as primeiras agressões de Trump 1 contra o Nafta, contra alguns parceiros comerciais dos EUA, como o Canadá, a China, a União Europeia, o próprio Brasil, agora com a exacerbação da insanidade tarifária de Trump 2 contra absolutamente todos os parceiros comerciais dos EUA, sua ofensiva político-diplomática contra os ainda incontrolados regimes progressistas do hemisfério, como o Canadá, o México e o Brasil, o afã dos trumpistas em controlar todo o hemisfério pela proposta de um fabuloso “Escudo das Américas” – que já conseguiu a adesão de muitos governos latino-americanos –, uma invenção tão bizarra quanto o seu fantástico simulacro de um novo Conselho de Paz, no lugar da ONU, para tentar controlar os ardores guerreiros no Oriente Médio, no qual os “aliados” precisam pagar alguns bilhões de dólares para ter o privilégio de se sentar ao lado de Trump para “promover a paz” na região, e abri-la a lucrativos negócios promovidos por familiares e amigos, é certo que tudo isso agrega ao potencial de confusão externa introduzida no Brasil pelos aliados trumpistas congregados na candidatura bolsonarista contra a recondução de Lula, Lula 4, ao poder no Brasil, todos esses elementos do ambiente regional ou internacional não possuem o poder, não têm a capacidade de influenciar decisivamente as eleições no Brasil.

Mas, ao lado da propaganda agressiva dessa direita extrema contra o ambiente globalista, supostamente progressista, woke na linguagem da nova direita, que dificulta extraordinariamente a projeção internacional do Brasil, tal como desejada pela “diplomacia ativa e altiva” do governo Lula, ao lado de todos esses fatores independentes do que possam pensar, ou, fazer, os defensores de um governo minimamente comprometido com a democracia no Brasil, existe uma outra percepção, de grande parte da população, do público eleitor, que não é captada pelas mídias tradicionais, existe uma sensação diferente no país que ultrapassa essa noção, da maior parte dos “trabalhadores das Ciências Humanas” do Brasil, que pode se contrapor aos nossos instintos simplesmente humanitários e democráticos deste nosso público, nossa audiência, uma outra percepção difusa, mas que se dá num outro ambiente mental que talvez não seja captado de maneira adequada por jornalistas, colunistas sociais, intérpretes sofisticados da “mentalidade brasileira”, uma sensação do povinho miúdo que trabalha e que “chacoalha no trem da Central”, como rezava uma antiga canção de Chico Buarque, um povinho que frequenta alguns dos 150 mil templos evangélicos, das mais diferentes denominações, nos 5.570 municípios espalhados por todo o Brasil – ou seja, quase 27 templos em cada um, ou bem mais do que isso nas principais aglomerações urbanas – existe essa outra percepção de que a democracia, como a existente no Brasil atual, não mais interessa, não mais favorece os interesses desse povo quase desconhecido, que não tem um compromisso maior com a democracia que os “trabalhadores das Ciências Humanas” defendem, com uma democracia que não representa muito para eles.

Ao contemplar o espetáculo promovido pelo STF na sua fatídica sessão do dia 16 de setembro, pode ser que esse grande povo desconhecido não tenha mais interesse em defender a nossa democracia, pode ser que ele já tenha chegado à conclusão de que o que está aí não serve mais, e que cabe agora experimentar outra coisa, ainda um pouco desconhecida, mas talvez já solidificada na consciência daqueles que defendiam o capitão e que ainda o defendem. Pode ser que a percepção dos “integrados” na realidade brasileira, que é basicamente a nossa, a deste ambiente social, talvez não seja a mesma dos “desintegrados”, daqueles que não possuem as mesmas ferramentas analíticas que os “trabalhadores das Ciências Humanas”, e que pode resultar numa grande surpresa no próximo dia 4 de outubro, uma jornada dominical que pode nos levar a um ambiente ainda desconhecido, mas provavelmente muito incerto.

Acredito que havia uma percepção similar de mudança, de transformação, que poderia ter ocorrido em 1989, mas que não ocorreu, que talvez tenha sido frustrada pela Rede Globo e por certo debate televisionado; uma sensação de conforto com uma esperança renovada em 1994 e depois em 1998, com a eleição de um presidente duas vezes em primeiro turno, pelas benesses do Plano Real, mas que depois se frustrou; uma sensação que finalmente se fez presente novamente em 2002, dessa vez com sucesso, que se renovou em 2006, e até em 2010, mas que depois afundou num mar de decepções com a crise fatídica de 2014-2015, a maior da história econômica do Brasil, maior do que a esquecida crise de 1929-1930, e que se manifestou em 2018, mas que falhou em 2022, pelas misérias da pandemia e do descalabro em muitas áreas sociais, inclusive a universitária, a ambiental, a das minorias, inclusive porque houve aquela precipitação dos radicais na preparação de um golpe mais ao estilo do filme Bananas do Woody Allen, do que os antigos golpes militares, desta vez por uma intervenção externa democrática da principal potência planetária, enfim, uma sensação que perpassa amplas camadas sociais e que talvez precipite uma nova mudança em 2026, dessas mudanças que exigirão muito esforço de explicação da parte dos “trabalhadores das Ciências Humanas” que somos nós. A ver...

Nossa percepção é a de que existem duas opções políticas ao alcance dos brasileiros nas próximas urnas, eletrônicas, confiáveis, mas imprevisíveis. Gilberto Amado, um crítico de poesia que iniciou sua vida política matando um suposto adversário de sua poesia debutante, dizia que, na República Velha, que “as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira”. Nos dias que correm as eleições são perfeitamente verdadeiras, pela fiabilidade do maquinário eletrônico, mas a representação pode não mais ser verdadeira, contemplando-se o plantel de velhos e de novos eleitos que vão determinar, de verdade, o que será a política e a governança no Brasil nos próximos quatro anos, e talvez um pouco mais. Essas duas opções estão teoricamente alinhadas com o que prometem os seus promotores na propaganda política, mas também com as ações já conduzidas desde o último quarto de século, e que podem estar sofrendo certo desgaste agora.

De um lado, um projeto imaginado, ou promovido, de desenvolvimento social, cientificamente sustentável, inclusivo, mais ou menos identificado com a socialdemocracia ocidental e até brasileira, que possui um caráter civilizatório moderado, prometendo mudanças favoráveis às melhorias progressivas no Brasil, mas num sentido dito progressista, e certamente não conservador ou reacionário. De outro lado, uma candidatura saída das milícias do Rio de Janeiro, a cidade que parece ser uma mistura de Palermo com Medellin, dos tempos terríveis e mais sombrios dessas duas metrópoles, uma tropa que já trabalhou para o golpe nos anos 1950, contra o governo democrático de JK, que trabalhou ativamente pelo golpe a partir de 1962, e que o obteve em 1964, um público que se sentia confortável com a visão do “Brasil grande potência”, uma tropa que usou de todas as faculdades do regime democrático para lutar contra ele, que conspirou ativamente contra ele, que recusou vacinas na pandemia, que nunca hesitou em promover uma outra tropa, a dos garimpeiros e dos desmatadores, contra os habitantes das florestas amazônicas, e até disseminou coisas absurdas como o terraplanismo, que se sentiu confortável com a intromissão da grande potência planetária em nossos assuntos internos, e que até o promove continuamente, pretendendo a subordinação de nossa política externa e de nossa diplomacia aos ditames do aloprado imperador hemisférico, enfim, os representantes daquele “fascismo eterno” de que falava Umberto Eco, contra as causas progressistas, a inclusão social, a simples igualdade de gêneros ou a liberdade sexual ou marital, a favor do armamentismo de justiça expedita, se possível a cargo da polícia diretamente, por último, a completa falta de ética, como uma ética própria e exclusiva da sua tropa.

Eu me pergunto, para terminar, se não estamos próximos de algum momento decisivo na história do Brasil, no qual pequenos, indistintos gestos, não percebidos pelos “trabalhadores das Ciências Humanas” que somos nós, e que venha a nos cair sobre nossas cabeças, como temia aquele chefe da irredutível aldeia dos gauleses, e que poderia sinalizar algum desastre não percebido pelo nosso modesto senso comum, e que talvez não corresponda ao “senso comum” de uma outra parte dos brasileiros. Deixo aqui este desafio, esta dúvida a todos os meus colegas das Ciências Humanas, esperando que tenhamos, um pouco mais adiante, alguma resposta a esta pletora de indefinições que eu acabo de transmitir a vocês.

Muito obrigado, vamos ficar atentos nos próximos dez dias...

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5460: 17 setembro 2026, 14 p. Disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/as-ciencias-humanas-na-defesa-da.html)

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Previsões imprevisíveis para Lula 3 ao inicio de 2023 - Paulo Roberto de Almeida

 Minha mensagem a Lula 3, recém eleito em outubro de 2022, mas ainda antes da tentativa golpista, traiçoeira, criminosa, dos bolsonaristas estupradores da nossa frágil democracia em 8 de janeiro de 2023.

Os golpistas querem agora estuprar novamente a democracia, a dignidade e a soberania da ainda frágil democracia brasileira pela via do voto popular.

Com todas as restrições que faço ao lulopetismo econômico e diplomático, rechaço com todas as forças o retorno so poder do golpistas incompetentes (ainda brm), autoritários, negacionistas vacinais, retrógrados sociais e traidores da pátria, qymue são os bolsonaristas ignorantes.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 22/09/2026


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O que eu "tramava" para Lula ao início de seu terceiro mandato, em 1 de janeiro de 2023 - Paulo Roberto de Almeida

Quase um ano atrás, em viagem de férias entre o final de 2022 e o começo de 2023, eu fazia meus votos de sucesso ao presidente no início do seu terceiro mandato. Vejamos quais eram meus prognósticos.


Meus melhores votos de sucesso em 2023 vão para…

  

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(diplomatizzando.blogspot.com)

Nota saudando o terceiro mandato, com diversos alertas e sugestões de políticas.

  

... Lula, como presidente pela terceira vez, algo inédito na história política brasileira, por ser pela via democrática e não como certos “presidentes” ou chefes de governos, eternizados em eleições fraudadas em diversos países latino-americanos, africanos e em outros países, inclusive europeus, como por exemplo na Hungria de Orban e na Rússia de Putin, assim como na China de Xi Jinping (que acaba de romper um modelo de alternância na autocracia do partido leninista, ao “eleger” pela terceira vez o seu novo imperador).

Lula merece ter sucesso no que é o seu marco distintivo na frágil democracia brasileira, a diminuição, ainda que relativa e altamente instável, da iniquidade da distribuição de renda no país, que sempre a concentrou em favor de nossas medíocres elites patrimonialistas. 

Não tenho nenhuma ilusão que essa pequena redução na concentração de renda se faça em favor dos realmente pobres e miseráveis e que ela seja feita pelos bons méritos de políticas macroeconômicas e setoriais adequadas, pois carregam os sinais distintivos do velho populismo eleitoreiro da subvenção ao consumo dos mais pobres, e não pela via correta e necessária de redução das fontes estruturais da pobreza, que são a não educação de maneira geral e a baixa capacitação técnico-profissional da população economicamente ativa, necessária para a elevação dos níveis de produtividade do capital humano e social, em particular.

Sempre fui, a despeito de ser bastante crítico a esse personagem singular do velho populismo brasileiro, um apoiador sincero de suas medidas redistributivas, que corrigem, ainda que minimamente e modestamente, a tremenda injustiça do eterno patrimonialismo oligárquico do Brasil, uma nação que se caracteriza por séculos de injustiças contra os mais pobres, em primeiro lugar contra os africanos e indígenas escravizados e oprimidos, e que ainda se ressentem da persistência de formas disfarçadas de escravismo e de servidão na pobreza generalizada de seus descendentes.

Continuarei ao longo de 2023, e mais além, meu apoio crítico a tais medidas de redução da miséria abjeta e da pobreza absoluta por parte de um governo que dispõe de um legítimo apoio popular, ao lado de uma convivência incômoda com as “elites” extratoras de sempre, as classes econômicas eternamente privilegiadas, que não são apenas os velhos e novos  proprietários fundiários e os grandes capitalistas, empresários industriais e banqueiros, mas também os mandarins do Estado, a começar pela aristocracia do judiciário e outros altos servidores do Estado, que se servem do Estado para si próprios. 

Manterei, ao longo de 2023 e mais adiante, meu ceticismo sadio em relação a políticas públicas e medidas estatais que atuam apenas nos estoques de riqueza, e não na criação de seus novos fluxos, assim como naquelas iniciativas redistributivas que impactam apenas os muitos efeitos da iniquidade distributiva (entre elas um sistema tributário regressivo), e não exatamente suas múltiplas fontes de criação dos canais de reconcentração de renda, com modestos resultados nas estruturas sólidas do nosso vergonhoso coeficiente de Gini.

Serei especialmente crítico em relação a uma política externa feita de muitos equívocos conceituais (como a velha e anacrônica visão “classista” da divisão do mundo) e de sua primeira diplomacia partidária, com vergonhosos apoios a execráveis ditaduras supostamente de esquerda (e algumas de direita também). 

Sou, em particular, um opositor talvez isolado e de primeira hora do BRIC-BRICS, que considero um grande erro estratégico da diplomacia lulopetista, por nos unir, sem qualquer convergência sólida de objetivos compartilhados, a duas grandes autocracias e a duas outras democracias de baixíssima qualidade (como é a nossa aliás), apenas pela ilusão de que se trataria da construção de uma ordem mundial alternativa à velha dominação de antigas potências colonialistas ou do novo hegemonismo americano, o que é um programa meramente oposicionista, sem qualquer conexão com propostas visando a melhoria da qualidade de políticas públicas de desenvolvimento econômico e social, ou com a elevação dos padrões de governança democrática e de defesa dos direitos humanos e das liberdades individuais.

Também sou um opositor declarado do estatismo desmesurado desse terceiro governo economicamente intervencionista do grande líder populista, e de sua megalomania na política externa, o que nos envolve num certo aventureirismo diplomático, sem grandes efeitos no objetivo que deveria ser essencial num projeto nacional, que é a redução dos níveis exageradamente altos de miséria e de pobreza inaceitáveis.

Com todas essas ressalvas, alertas e sugestões, desejo um bom 2023 a Lula e um bom governo até 2026, esperando que escapemos de uma nova e catastrófica recessão (como a de 2015-16) e que em 2027 estejamos melhor do que agora e livres de qualquer ameaça golpista e de um retorno do destruidor desgoverno desse infeliz último quadriênio, marcado pelo reforço do patrimonialismo oligárquico e do autoritarismo militar, ilegítimo em sua essência. 

Vamos lá Brasil, seja feliz de novo, como nos bons tempos de JK, que viram o nascimento da Bossa Nova e do Rei Pelé!

Com os melhores votos de

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 1/01/2023

 

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 4297: 1 janeiro 2023, 3 p.”

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