The Russia-China Axis
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
The Russia-China Axis - Stuart Reid (Foreign Affairs)
86 anos atrás, o assassinato de Trotsky, a mando de Stalin
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
The Power BEHIND Putin - And Why the Ruling Clan Now Depend on Endless War! - Yuri Felshtinsky (YouTube)
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
The World according to Madame IA, supostamente encarnando este blogueiro - Paulo Roberto de Almeida
Não sou espírita, não acredito em reencarnação – CORRIJO: NÃO EXISTE reencarnação –, não sou sequer religioso, nem torcedor de qualquer time ou membro de qualquer partido político, mas parece que Madame IA – reencarnada como Gemini AI, e orquestrada pelo habil manipulador de inteligências frágeis, que se esconde sob o acrônimo de ADL – reencarnou em mim e traçou um panorama desolador da atualidade geopolítica e das turbulências atuais, com base, supostamente, em meus conceitos e alguns cacoetee que exibo frequentemente nestas paragens.
O resultado segue abaixo, mas depois vou corrigir minha reencarnação, isto é, Madame IA, em torno de alguns conceitos e características de meus argumentos. Mas, por enquanto, segue como Madame IA interpretou minha análise do sistema internacional. PRA (19/08/2026)
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18/08/2026, 23:53
Incorpore o estilo de escrita, as ideias e opiniões e a linha de
pensamento (corrente de raciocínio argumentativo) do
diplomata, professor, escritor e blogueiro Paulo Roberto de
Almeida (o 'PRA', administrador do blog Diplomatizzando).
Concluída a 'incorporação', apresente um texto discursivo
(frases e parágrafos) sobre o cenário atual da geopolítica. O
texto deverá ter, no mínimo, 5500 caracteres; deverá abordar o
maior número possível de fatos relevantes na geopolítica atual.
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O Despautério Global e a Erosão da Ordem Liberal: Reflexões Racionais sobre a Anarquia Contemporânea
Por Paulo Roberto de Almeida (PRA)
Assiste-se, na presente conjuntura internacional, a um espetáculo de contornos
francamente dantescos, caracterizado pelo desmantelamento progressivo, mas
aparentemente inexorável, dos pilares institucionais que sustentaram a Pax Americana e a ordem multilateral desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial e, com maior vigor, após o colapso do império soviético em 1991. Para um observador minimamente imbuído de espírito crítico, despido das lentes deformantes do voluntarismo ideológico e das paixões partidárias vulgares, o cenário geopolítico deste terceiro decênio do século XXI revela uma transição caótica em direção a uma anarquia hobbesiana, onde o direito internacional é reiteradamente sacrificado no altar do realismo bruto e do revisionismo autocrático.
Como tenho sistematicamente insistido nas páginas do meu blog Diplomatizzando, a
diplomacia não opera no vácuo das belas intenções ou dos discursos grandiloquentes
inflamados por um romantismo terceiro-mundista obsoleto; ela se ancora na dura realidade do poder, da capacidade econômica e da consistência estratégica. O que testemunhamos hoje é a emergência de um "eixo revisionista" — composto proeminentemente pela Federação Russa, pela República Popular da China, pela teocracia obscurantista do Irã e pela dinastia aberrante da Coreia do Norte —, cuja finalidade precípua não é a reforma pactuada das instituições globais, mas sim a destruição deliberada dos valores ocidentais de liberdade individual, economia de mercado e império da lei (rule of law).
A Tragédia Ucraniana e o Desafio Revisionista do Kremlin
O primeiro e mais candente vetor dessa desordem sistêmica localiza-se nas planícies da Europa Oriental. A agressão militar não provocada e plenamente ilegal da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia constitui o mais flagrante estupro do direito internacional e da Carta das Nações Unidas em solo europeu desde o fim do conflito mundial de 1939-1945. Longe de ser um mero conflito territorial localizado, a guerra de atrito que se arrasta na Ucrânia representa um desafio existencial à arquitetura de segurança euro-atlântica.
Putin, operando sob uma mística neo-czarista e ressentida, busca reverter o que ele
próprio qualificou como "a maior catástrofe geopolítica do século XX": o desmoronamento da União Soviética.
O erro crasso de certas correntes analíticas, inclusive na academia e na diplomacia
brasileira de inclinação "anticolonialista" de fancaria, reside em tentar equivaler o agressor e o agredido, recorrendo a piruetas retóricas sobre a expansão da OTAN. Ora, a expansão da Aliança Atlântica nunca foi um processo de anexação imperialista, mas sim uma busca voluntária, por parte das jovens democracias da Europa Central e Oriental, de um seguro de vida coletivo contra o tradicional expansionismo moscovita.
A resistência heroica do povo ucraniano e o revigoramento da OTAN — que acolheu tardiamente, mas de forma acertada, a Finlândia e a Suécia em suas fileiras — demonstram que o Ocidente, apesar de suas hesitações internas e crises de liderança, ainda conserva a capacidade de se mobilizar em defesa da liberdade. Contudo, a fadiga material e política que se insinua nas capitais ocidentais coloca em risco a sustentabilidade dessa barreira de contenção à tirania russa.
O Dragão Asiático e a Armadilha de Tucídides
No flanco asiático, o desafio é substancialmente mais robusto e estrutural. A China de Xi Jinping abandonou em definitivo o pragmatismo prudente de Deng Xiaoping — sintetizado na máxima de "esconder a capacidade e esperar o momento oportuno" — para adotar uma postura abertamente assertiva, quando não agressiva. A militarização do Mar do Sul da China, a asfixia definitiva das liberdades democráticas em Hong Kong e a retórica crescentemente belicosa em relação a Taiwan configuram um quadro de alta periculosidade para a estabilidade do Indo-Pacífico.
A China utiliza seu formidável poderio econômico e financeiro, magnificado por iniciativas de cunho nitidamente mercantilista e geopolítico como a Belt and Road Initiative (a Nova Rota da Seda), para criar laços de dependência assimétrica no Sul Global, transformando nações soberanas em satélites de seus interesses estratégicos. A ilusão de que a inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 conduziria a uma liberalização política concomitante foi sepultada pelo fortalecimento de um capitalismo de Estado autoritário e tecnologicamente totalitário. O confronto multidimensional entre Washington e Pequim — que abrange desde a supremacia tecnológica em semicondutores e inteligência artificial até a dissuasão militar convencional — estabelece a polaridade dominante do nosso tempo, reeditando, sob vestes tecnológicas, a clássica Armadilha de Tucídides.
O Polvorinho do Oriente Médio e a Teocracia Persa
Ao movermos o foco para o Oriente Médio, deparamo-nos com um cenário de
fragmentação e conflito agudizado pelas ambições hegemônicas regionais do Irã. A
teocracia dos aiatolás opera como o principal fator de instabilidade na região, financiando, armando e coordenando uma rede de milícias e grupos terroristas que atuam como procuradores (proxies) de Teerã: o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e várias facções xiitas no Iraque e na Síria.
O trágico ataque terrorista contra o Estado de Israel desencadeou uma reação em cadeia cujos desdobramentos continuam a ameaçar a segurança global e a estabilidade dos fluxos de comércio marítimo no Mar Vermelho. A resposta militar israelense, legítima em seu princípio de autodefesa, mas politicamente complexa e militarmente desgastante, evidencia a ausência de uma arquitetura regional de segurança sustentável. Os Acordos de Abraão, que representavam uma promissora via de normalização diplomática entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo sob o signo do pragmatismo econômico, foram temporariamente colocados em banho-maria pela estratégia iraniana de sabotagem deliberada da estabilidade regional. O espectro de uma escalada nuclear por parte de Teerã paira como uma espada de Dâmocles sobre o sistema internacional, diante da fragilidade dos mecanismos multilaterais de monitoramento.
A Crise das Democracias Ocidentais e a Ascensão do Populismo
Não seria correto, todavia, atribuir a responsabilidade pela desordem global exclusivamente aos atores autocráticos externos. A ordem liberal padece de graves enfermidades endógenas. Assistimos, nas próprias entranhas do Ocidente, a uma crise de legitimidade e de funcionamento das instituições democráticas, solapadas pelo flagelo do populismo de extração tanto esquerdista quanto direitista.
Nos Estados Unidos, a polarização política extrema e a persistência de correntes
isolacionistas e transacionais no debate eleitoral enfraquecem a credibilidade das garantias de segurança americanas junto aos seus aliados tradicionais. Na Europa, a ascensão de partidos eurocéticos e xenófobos reflete o mal-estar de sociedades confrontadas com fluxos migratórios desordenados, estagnação econômica relativa e a incapacidade dos governos social-democratas ou democratas-cristãos tradicionais de oferecer respostas eficazes aos desafios da globalização. Uma civilização que duvida de seus próprios valores fundamentais — a tolerância, o debate racional, o pluralismo político e a liberdade de expressão — encontra-se em desvantagem intrínseca diante de regimes autocráticos que operam com a brutal coerção e o planejamento de longo prazo.
O Equívoco da Diplomacia Brasileira: O "Não-Alinhamento" como Cumplicidade
É imperativo, neste ponto da nossa exposição, lançar um olhar crítico sobre a inserção
internacional do Brasil diante desse tabuleiro convulsionado. A política externa brasileira recente tem capitulado, de forma lamentável, a um viés ideológico anacrônico, disfarçado sob o manto de uma suposta "autonomia pela diversificação" ou de um "não-alinhamento pragmático". Ao buscar uma equidistância imoral entre democracias consolidadas e ditaduras sanguinárias, a diplomacia brasileira apequena-se e trai as suas melhores tradições históricas, que sempre primaram pela defesa do direito internacional, da solução pacífica das controvérsias e do respeito aos direitos humanos.
A postura ambígua de Brasília em relação à agressão russa na Ucrânia, a condescendência inaceitável com a ditadura na Venezuela de Nicolás Maduro — que
fraudou descaradamente o processo eleitoral para se perpetuar no poder —, e o
alinhamento retórico automático com as narrativas do Sul Global que diabolizam o
Ocidente revelam uma incompreensão profunda das dinâmicas reais do poder mundial. O engajamento acrítico no agrupamento BRICS, especialmente após a sua expansão para incluir países de credenciais democráticas nulas ou duvidosas, arrisca transformar o Brasil em linha de frente de um bloco antiocidental liderado por Pequim e Moscou. O verdadeiro interesse nacional de uma democracia ocidental, capitalista e pluralista como o Brasil reside na defesa e no fortalecimento das regras da ordem internacional liberal, e não na sua demolição em proveito de tiranos orientais ou caudilhos caribenhos.
Considerações Finais: A Necessidade de um Realismo Iluminista
Em suma, o cenário geopolítico contemporâneo caracteriza-se por uma perigosa transição de poder sem que haja regras claras para arbitrar os conflitos emergentes. As Nações Unidas, paralisadas pelo direito de veto no Conselho de Segurança, converteram-se em uma arena de debates estéreis e impotência institucional. A governança econômica global, representada pelo G20, fragmenta-se em meio ao avanço do protecionismo, do nacionalismo econômico e das sanções unilaterais.
Para navegar nesse oceano de incertezas, faz-se mister abandonar as quimeras utópicas e o voluntarismo ingênuo. A preservação da paz e da prosperidade internacional exige o resgate de um realismo iluminista: o reconhecimento de que o poder deve ser equilibrado pelo poder, mas sempre sob a égide de valores universais que dignifiquem a condição humana. Sem a firme determinação das democracias ocidentais em defender suas sociedades abertas e suas instituições de mercado contra os assaltos do autoritarismo e da barbárie populista, o mundo arrisca mergulhar em uma nova Idade das Trevas geopolítica, onde a força bruta ditará o direito e a razão será silenciada pelo clangor das armas.
domingo, 16 de agosto de 2026
Uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada - Paulo Roberto de Almeida
Repostando uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada
Paulo Roberto de Almeida
Um texto de OUTUBRO DE 2025, ainda válido em suas grandes linhas, que agora vai cair, em mais um mês e meio, entre os dois turnos das eleições presidencias, atualmente, absolutamente imprevisíveis, no sentido em que QUALQUER UM pode GANHAR CONTRA LULA, tamanha é a rejeição do lulopetismo na sociedade.
O que eu poderia acrescentar em meados de agosto de 2026 às observações abaixo? Isto: o aumento do desmantelamento do sistema internacional provocado por Trump 2, cada vez mais alucinado. Em outubro de 2025, Putin começou a perder em sua ofensiva na Ucrânia, o que se confirmou de maneira desastrosa em 2026. Mas nem Trump nem Netanyahu tinham começado a desastrosa ofensiva contra o Irã, nem Trump tinha reincidido ainda mais ferozmente em sua insanidade tarifária, sobretudo contra o Brasil, alvo preferencial em sua ofensiva para dominar todo o hemisfério americano. Nem Canadá, nem o México, e muito menos o Brasil, vão se dobrar à prepotência trumpista, mas com uma dúvida neste último caso: se o Bolsonarinho ganhar, o Brasil será entregue unilateral e bilateralmente ao “Escudo das Américas” do desvairado Trump.
Eis o texto:
“Uma avaliação das relações internacionais numa data significativa [12/10/2025]
O dia 12 de outubro guarda um significado especial na história do mundo: marca a unificação da geografia e da própria história do mundo até então conhecido e registrado nas crônicas e relatos dos povos dotados de cultura escrita e das tecnologias adequadas ao comando da natureza e ao domínio de populações estrangeiras. A violência dos colonialismos e dos imperialismos nas primeiras ondas de globalização dominou as relações internacionais pelos quatro séculos seguintes, com o predomínio da Europa ocidental sobre parte significativa do mundo conquistado e explorado até a segunda revolução industrial.
Entre a primeira e a segunda onda da globalização, iniciada com as gestas de Cristóvão Colombo e de Fernão de Magalhães e continuada com a revolução das caldeiras a vapor, as máquinas fabris, os motores à explosão e a eletricidade, o tráfico comercial e o escravismo colonial produtivo marcaram terrivelmente o continente africano, violentado e depauperado de imensos contingentes humanos, assim como pela destruição de civilizações em estágios iniciais de desenvolvimento. A própria história do mundo, em especial nas Américas, ficou marcada pela violência do colonialismo e do imperialismo da Europa ocidental sobre praticamente todos os povos e civilizações existentes, culminando com a dominação da Ásia iniciada por Vasco da Gama. O Brasil foi parte quase passiva, durante mais de três séculos, nesse itinerário de conquista ocidental sobre o resto mundo, até conquistar sua independência pela própria força do povo aqui nascido e adquirido consciência política.
Depois de séculos lutando entre si, os impérios europeus provocaram duas guerras globais, na primeira metade século XX, que mudaram terrivelmente a geografia e a história do mundo, entre a segunda e a terceira onda de globalização. Em consequência, os velhos impérios europeus foram praticamente alijados do comando do mundo, em favor de duas grandes potências que se desenvolveram nas antípodas de concepções políticas e econômicas sobre sistemas constitucionais e sobre a organização dos seus respectivos modos de produção.
De Yalta a San Francisco, em 1945, moldou-se um sistema imperfeito, mas relativamente administrável, de relações internacionais, formalmente presidido pela ONU, de fato violado impunemente e constantemente pela ação unilateral de grandes potências, mais afetas ao seu próprio poder discricionário do que ao estrito respeito do Direito Internacional, duramente construído a partir de Kant e do liberalismo iluminista, também marcadamente ocidental.
Depois de quase 80 anos de predomínio incerto da autoridade do argumento sobre o argumento da autoridade, o funcionamento precário do sistema internacional onusiano começou a ser abalado por desejos de reconquista de seus antigos domínios coloniais por uma das potências herdeiras das vastas possessões imperiais czaristas e soviéticas.
Diferente das intervenções unilaterais na Ásia, no Oriente Médio e na própria América Latina, por parte do império ocidental, motivadas pela obsessão com o equilíbrio de poderes, na fase de disputas geopolíticas da primeira Guerra Fria, as novas intervenções unilaterais do império euro-asiático em seu entorno imediato atacaram profundamente os princípios fundadores da ordem internacional criada em Westfália e consolidada na Carta da ONU, a saber, a igualdade soberana dos Estados (cara a Rui Barbosa, e que se tornou o eixo central do multilateralismo contemporâneo), a não intervenção nos seus assuntos internos e a não usurpação pela força de territórios estrangeiros reconhecidos no Direito Internacional, ademais de cláusulas reconhecidas em declarações universais relativas a direitos humanos e às liberdades democráticas, precariamente resguardas nas relações entre os Estados membros da ONU ou de organizações regionais.
A Carta da ONU foi violada brutal e abertamente na Georgia, na Moldova, na península ucraniana da Crimeia e, finalmente, em toda a Ucrânia, no que se apresenta como a maior guerra de conquista empreendida por um poder imperial desde 1939-1941, duramente finalizada em 1945, em seus dois extremos, no continente europeu e na Ásia-Pacífico.
Países aderentes à Carta da ONU adotaram corretamente as sanções nela previstas, consideradas “ilegais” pelos relutantes em fazê-lo apenas por causa do uso abusivo do “direito” de veto justamente pela potência violadora, desconsiderando que a própria Carta prevê a solidariedade de todos os membros em socorro da parte injustamente agredida.
O Brasil, infelizmente, se coloca entre os “inadimplentes” desse dispositivo, por escusas formais e por razões atinentes a interesses politicos e inclinações ideológicas que não deveriam obstar ao seu estrito cumprimento do Direito Internacional, cujos princípios fundamentais foram, por sinal, incluídos entre as cláusulas de relações internacionais de sua Constituição.
O assim chamado “sistema internacional” atravessa atualmente uma de suas maiores crises, motivados pela ação imperialista de uma das duas grandes potências da primeira Guerra Fria, assim como pela ação destruidora do multilateralismo político e sobre o sistema multilateral de comércio pela outra grande potência daquela fase, hoje em aparente declínio em face do renascimento do antigo Império do Meio, hoje convertido em “parceiro” involuntário da segunda Guerra Fria, ainda em curso.
O cenário futuro é ainda imprevisível, mas estimo que o Brasil continuará aderente à sua tradicional autonomia decisória em matéria de politica externa, em face de conflitos entre grandes potências, e que a sua diplomacia confirme a credibilidade adquirida ao longo de um infalível respeito ao Direito Internacional.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12/10/2025
Post Scriptum, em 16/08/2026: Tenho de refazer esse texto para um novo balanço das relações internacionais de maneira abrangente, de acordo aos novos dados dos conflitos internacionais na atualidade dos impasses nas duas guerras principais, de natureza geopolítica, da atualidade: a de Putin contra a Ucrânia, e a de Trump contra o Irã. PRA.
Brasília, 5428: 16 agosto 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/uma-analise-das-relacoes-internacionais.html)
sábado, 15 de agosto de 2026
O tirano de Moscou foca na Moldova - New York Times
Poutine prépare une opération de conquête de la Moldavie, suivant l’exemple de l’Ukraine.
Les autorités russes, avec la complicité d'un banquier en fuite qui a failli ruiner le système bancaire moldave, mènent une opération de longue haleine visant à déstabiliser l'ancienne république soviétique. Cette opération comprend la formation de provocateurs et de saboteurs dans des camps spéciaux en Serbie, en Bosnie et près de Moscou ; des actions destinées à détourner la Moldavie de son orientation pro-occidentale, notamment du centre d'innovation de Skolkovo ; la corruption massive d'électeurs et de prêtres orthodoxes locaux ; et des attaques contre les infrastructures.
La priorité absolue du Kremlin est la conquête de l'Ukraine, suivie de la prise de contrôle de la Moldavie, selon une enquête du New York Times basée sur des entretiens avec des militants agissant sur ordre de Moscou, de hauts responsables des services de renseignement moldaves, européens et américains, et l'analyse de milliers de documents relatifs aux tentatives russes de manipulation des élections moldaves. D'après les sources du Times, Vladimir Poutine espère s'emparer du sud de l'Ukraine afin de créer un corridor terrestre reliant la Russie à la Moldavie.
En attendant, le chef de cabinet adjoint de la présidence, Sergueï Kirienko, mène une opération contre les autorités moldaves pro-occidentales. Parmi ses collaborateurs figure Ilan Shor, condamné à 15 ans de prison en Moldavie pour avoir organisé une escroquerie ayant permis le détournement d'un milliard de dollars de banques locales en 2014. Selon des documents de sa société moscovite, Shor a recruté plus de 150 000 Moldaves en vue des élections législatives de l'automne 2025, les rémunérant pour leurs votes et leur participation à des manifestations. Cela représente environ 4,5 % du corps électoral.
Shor a débuté ses activités en 2024, lors d'un référendum en Moldavie portant sur l'inscription de l'adhésion à l'Union européenne dans la Constitution. En échange d'une compensation financière, des personnes étaient contraintes de publier des contenus pro-russes et antigouvernementaux sur les réseaux sociaux, de participer à des rassemblements organisés et de voter contre la présidente Maia Sandu et son parti, ainsi que contre l'adhésion à l'UE. Un programmeur travaillant pour Shor a conservé les enregistrements de ces contacts dans un dossier accessible à tous sur le cloud. Le New York Times a examiné cette base de données en contactant les personnes impliquées, en analysant les liens vers leurs publications sur les réseaux sociaux et en traçant les coordonnées GPS jusqu'à l'adresse d'une société de développement logiciel située près du centre d'innovation de Skolkovo, près de Moscou.
Avant le référendum de 2024, par exemple, Shor a versé près de 20 millions de dollars à 38 000 « activistes » en quatre mois.
Les services de renseignement russes ont également formé de véritables militants. Un camp a été ouvert dans une région reculée de Serbie, où les instructeurs étaient recrutés parmi les personnes affiliées au renseignement militaire russe – la Direction principale de l'état-major général des forces armées russes (GRU). D'après les responsables du renseignement de trois pays qui ont décrit ces activités, l'objectif était de constituer le noyau de troupes de choc entraînées à interférer dans les élections.
Durant l'été 2025, des Moldaves venus au camp ont suivi une formation de trois à quatre jours (rémunérée d'environ 400 dollars). Ils s'entraînaient à forcer les cordons de police et à incendier des bâtiments. Des enregistrements vidéo retrouvés sur les téléphones des participants par le parquet moldave et les services de sécurité montraient des individus en tenue de camouflage et gilet pare-balles s'entraînant au maniement d'armes automatiques.
Des camps similaires existaient en Bosnie et près de Moscou. Dans ce dernier, plus de 100 jeunes Moldaves ont été formés à la fabrication et à l'utilisation d'engins incendiaires et d'explosifs artisanaux, ainsi qu'au pilotage de drones équipés de dispositifs spéciaux pour explosifs ou incendies criminels, selon le parquet moldave. D'après deux agents des services de renseignement occidentaux, cette formation s'est déroulée sous la supervision du GRU.
Des prêtres de l'Église orthodoxe russe en poste en Moldavie ont également été recrutés pour diffuser de la propagande contre les autorités et leur politique. Depuis l'été 2024, des centaines d'entre eux ont été invités en Russie pour visiter des lieux saints et rencontrer les dirigeants de l'Église orthodoxe russe. Avant leur retour, chacun a reçu un contrat à signer. Ce document les désignait comme employés de l'organisation « Eurasie », liée au Kremlin et qui, selon les services de renseignement occidentaux, promeut des politiques pro-russes dans les anciennes républiques soviétiques. Shor est membre de son conseil de surveillance.
Après la signature du contrat, les prêtres ont reçu une carte de Promsvyazbank, banque qui fournit des services au complexe militaro-industriel russe et détient 49 % de la société A7, créée par Shor pour contourner les sanctions occidentales grâce aux paiements en cryptomonnaie. En échange d'environ 1 000 dollars, les prêtres devaient mener campagne auprès de leurs paroissiens contre l'adhésion de la Moldavie à l'UE et la politique pro-occidentale du gouvernement.
« Instrumentiser la religion » : la Russie a engagé des prêtres moldaves pour une campagne de désinformation anti-occidentale dans le pays.
N'ayant pas réussi à organiser d'attentats de sabotage d'envergure avec ses « activistes » entraînés (certains participants à des stages d'entraînement en Serbie ont été arrêtés en possession d'engins incendiaires le jour des élections, le 28 septembre 2025), la Russie a commencé à mener des frappes de son propre chef. En mars, elle a bombardé une centrale hydroélectrique ukrainienne près de la frontière moldave, contaminant ainsi les ressources en eau des deux pays. Des drones russes ont ensuite frappé une ligne à haute tension dans l'ouest de l'Ukraine, qui fournit jusqu'à 70 % de l'électricité à la Moldavie, provoquant des coupures de courant généralisées.
Les partisans de l'adhésion à l'UE et le parti de Sandu ont remporté de justesse les référendums de 2024 et 2025, grâce notamment aux votes de la diaspora. Mais Moscou joue la carte de la patience, reconnaît Chisinau.
https://www.nytimes.com/2026/08/14/world/europe/russia-moldova-putin.html
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
A vergonhosa posição dos governos brasileiros em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia Paulo Roberto de Almeida
A vergonhosa posição dos governos brasileiros em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Nota sobre a inaceitável postura dos governos brasileiros (Bolsonaro e Lula 3) de apoio objetivo a Putin nos seus crimes de guerra e contra a humanidade no caso da Ucrânia.
A Rússia de Putin comete atrocidades contra a população ucraniana todos os dias, na mais completa indiferença dos governos brasileiros desde o início da guerra de agressão.
O apoio objetivo do Brasil à Rússia não começou em 24 de fevereiro de 2022, quando dezenas de milhares de soldados russos marcharam em diversas frentes a partir da Rússia e da Belarus, com intenção de decapitar o seu governo, conquistar a capital Kiyv e submeter todo o território ucraniano à dominação do imperialismo russo. Essa postura complacente com a violação da soberania ucraniana começou em fevereiro de 2014, quando o governo petista de Dilma Rousseff se recusou a considerar a invasão e a anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia como uma violação da Carta da ONU e uma flagrante infração ao Direito Internacional, sob a equivocada justificativa de que se tratava de “uma questão interna da Ucrânia”, como declarou a presidente.
Seja o governo Dilma, seja o governo Temer continuaram mantendo relações normais com a Rússia, eximindo-se de introduzir sanções contra o Estado agressor, como o fizeram todos os Estados que seguiram a letra e o espírito da Carta da ONU, cujos artigos mais relevantes comandam não apenas a condenação do ato ilegal, mas também a solidariedade com o Estado agredido, o que implica justamente a introdução de sanções políticas e econômicas contra o Estado agressor.
O governo de Jair Bolsonaro, que tomou posse em 2019, reincidiu no apoio objetivo e reiterado à agressão russa, e fez pior: intensificou as importações de combustíveis e fertilizantes, por razões eleitoreiras e o chefe de Estado ainda tomou a iniciativa de visitar pessoalmente o ditador russo uma semana antes do início da invasão total da Ucrânia, em fevereiro de 2022, contra as recomendações da diplomacia profissional para que essa viagem fosse feita. Bolsonaro não só viajou à Rússia, como ainda declarou seu apoio ao tirano de Moscou. Na própria invasão, a representação brasileira em Nova York seguiu as instruções da SERE em Brasília no sentido de conceder uma aprovação formal da Assembleia Geral — uma vez que o CSNU estava paralisado pelo veto russo —, condenando a ação russa, mas evitando distinguir entre agressor e agredido e recomendando que as partes envidassem esforços diplomáticos para a cessação do conflito, como se as partes fossem equivalentes. Bolsonaro continuou importando combustível e fertilizantes e seu governo não seguiu nenhuma das medidas sancionadoras adotadas pelos países que respeitam a Carta da ONU e o Direito Internacional.
Lula, desde a candidatura à presidência em 2022, já declarava seu apoio ao ditador de Moscou e recomendava, em 2023, que a Ucrânia cedesse terreno em troca da paz. Em diversas outras ocasiões o presidente e seu assessor internacional reproduziram o apoio político do Brasil, inclusive em termos práticos, ao aumentar de forma exponencial as importações brasileiras de produtos russos, de óleo e fertilizantes. Ao longo dos últimos cinco anos do conflito, a despeito de um oferecimento para mediar, junto com a China, negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia, o governo Lula tem, ostensivamente, denegado sancionar a Rússia pela sua violação da Carta da ONU. Nesse intervalo de tempo, o projeto do Brics também aumentou exponencialmente, com a inclusão de novos membros, geralmente Estados autoritários. Lula visitou pessoalmente Putin, convidou-o a vir ao Brasil, ignorando completamente o mandado de prisão contra o ditador russo pelo TPI, pelo sequestro de crianças.
Em todo o período, não existe uma única nota do Itamaraty condenando os ataques russos contra alvos civis ucranianos, sequer como solidariedade pela perda de vidas e destruição de sites culturais. Desde 2014, a postura brasileira tem sido de apoio objetivo à causa russa, o que é propriamente vergonhoso.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5426: 10 agosto 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/a-vergonhosa-posicao-dos-governos.html)
domingo, 9 de agosto de 2026
Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? - Paulo Roberto de Almeida
Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial?
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Mais uma das comparações históricas talvez indevidas.
“Possibilidades econômicas para os nossos netos” foi o título de um artigo mais filosófico do que econômico que o já famoso economista britânico John Maynard Keynes publicou em junho de 1930, declarando seu relativo otimismo no longo prazo em meio às angústias da crise econômica já convertida em mundial, depois da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Keynes estava preocupado com uma solução imediata, ou seja, a curto prazo, dos enormes problemas econômicos criados pela grande crise, pois dizia que “a longo prazo todos estaremos mortos”, isto é, não adiantava esperar benesses no futuro distante, e sim trabalhar para que os problemas presentes fossem resolvidos de modo expedito.
Tanto foi assim que escreveu uma carta ao candidato Franklin D. Roosevelt, antes que ele vencesse e tomasse posse nos EUA, oferecendo “soluções” para a crise da Depressão e do desemprego. Não existem evidências de que Roosevelt tenha seguido qualquer recomendação de Keynes quando começou a formular e implementar políticas “keynesianas” antes que o britânico publicasse o seu famoso “Teoria Geral” em 1936 (que não é bem uma teoria, muito menos geral).
Permito-me relembrar que o Brasil de 1931 saiu relativamente rápido da crise de 1929, tendo começado a aplicar precocemente medidas “keynesianas” avant la lettre, sem que o conservador primeiro ministro da Fazenda do governo provisório de Vargas, um banqueiro paulista (antes de Oswaldo Aranha ocupasse a função no final de 1931), fizesse qualquer referência às ideias do professor de Cambridge.
Esta introdução histórica vai no sentido contrário ao otimismo do economista britânico em 1930, pois acredito que estamos pior no curto prazo e sem possibilidades econômicas positivas para os nossos netos no longo prazo.
A razão é que vejo um desmantelamento quase completo da ordem econômica e politica criada por nossos avós 80 anos atrás, sem qualquer visão ou mera possibilidade de correção no curto ou médio prazo, em virtude dos terríveis golpes assestados contra os sistemas multilaterais nos planos político e econômico por dois autocratas desvaiarados desde vários anos.
O desastre começou com a resolução de Putin de tentar recriar o espaço geopolítico conquistado pelos seus antecessores czaristas e soviéticos, anunciada desde 2005-2007 — quando ele falou da “maior catástrofe do século XX” como sendo a implosão do império soviético. Já em agosto de 2008 ele passou à ação, invadindo o norte da Georgia; recrudesceu em 2010, apoiando comunidades russas na Transnístria, Moldova do norte, fronteira com a Ucrânia; lançou sua grande ofensiva contra o maior país da Europa Ocidental, fomentando revoltas no Donbas (Ucrânis oriental) e invadindo e anexando ilegalmente a peninsula ucraniana da Crimeia em fevereiro de 2014. Foram suas primeiras violações da Carta da ONU, fracamente respondidas pelas potências ocidentais, e totalmente ignoradas pela diplomacia brasileira (em desrespeito às suas tradições e fundamentos doutrinais).
O desastre continuou sob Trump 1 (2017/2020), que desrespeitou de forma unilateral e brutalmente a cláusula de nação mais favorecida, e que continuou, sob Trump 2 (2025-202?), a desmantelar o sistema multilateral de comércio com suas medidas unilaterais de insanidade tarifária.
A terceira grande potência econômica, a China, observa esse duplo trabalho de destruição, colabora com o primeiro — em virtude de sua “aliança sem limite” com o tirano de Moscou — e assiste de maneira displicente ao segundo, certa de que tudo o que os dois autocratas fazem a beneficiará no médio e no longo prazo.
Mas o recrudescimento brutal dos ataques dos dois desvairados autocratas a seus supostos “inimigos” respectivos traz um sabor de “anos 30” aos tempos atuais, como mencionei no titulo desta nota. Não vejo condições de se retornar ao “status Social quo ante”, mesmo no desaparecimento dos dois citados autocratas (que espero no mais curtíssimo prazo).
A razão é que as instituições econômicas e políticas foram tão abaladas pelos dois dirigentes demenciais, que será preciso um enorme trabalho de reconstrução geopolitica para colocar novamente o mundo numa ordem aceitável nos termos requeridos pela terceira grande potência militar e segunda econômica, assim como pela meia grande potência econômica da UE, pelos outros grandes parceiros do G7 — Japão, Reino Unido, Canadá — e por alguns outros membros do G20, entre eles o Brasil, cujo governo atual anda pendendo para o lado de uma fantasmagórica “nova ordem global multipolar, propista pelas duas grandes autocracias antiamericanas.
Não creio que nós, ou nossos netos já presentes, enfrentaremos um novo conflito global — que desta vez poderia representar um enorme desafio civilizatório, de natureza nuclear —, mas acredito que conviveremos com esse caos relativo no curto e no médio prazo.
Sorry pelo pessimismo relativo, mas no mundo tudo é relativo, como poderia dizer um outro grandd pensador. O problema é que os dois perturbadores da ordem global não pensam muito, ou pensam errado. Nossos netos não terão o mundo benfajezo imaginado por Keynes em 1930.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5425: 9 agosto 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/um-sabor-de-anos-1930-esta-altura-da.html)
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Mais uma indignidade diplomática do chefe de Estado - Paulo Roberto de Almeida
Sou obrigado a manifestar minha total contrariedade em relação à postura vergonhosa do chefe de Estado e da diplomacia do Brasil, a qual tive a honra de servir por mais de 44 anos, no tocante e essa solidariedade a um criminoso de guerra dos mais horripilantes.
A nota abaixo do presidente Lula é de uma indignidade tal que duvido que algum diplomata de bom senso teria coragem de redigir. Ao mencionar sua “decepção com a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU em encaminhar uma solução para os conflitos” atuais, o chefe de Estado e da diplomacia brasileira passa por cima do fato que a Rússia de Putin deu início a uma guerra de agressão contra um Estado soberano, violou a Carta da ONU e perpetra CRIMES DE GUERRA, pelos ataques à população civil, e CRIMES CONTRA A HUMANIDADE, pelo sequestro de crianças ucranianas, e que por isso é procurado pelo TPI. Nada disso incomoda o dirigente petista, que ainda pretende sustentar o esforço de guerra russo ao mencionar o desejo de continuar expandindo as importações brasileiras de fertilizantes e combustíveis russos.
Sinto-me envergonhado (e não é a primeira vez) por uma postura indigna das tradições diplomáticas brasileiras.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 7/08/2026
Nota da PR:
“Conversei na manhã desta terça-feira, 4 de agosto, com o presidente da Federação da Rússia, Vladimir Putin. No telefonema de cerca de uma hora, repassamos os principais temas da agenda bilateral, com destaque para as reuniões que ocorreram este ano, em Brasília, no âmbito da Comissão de Alto Nível (CAN) e da Comissão Intergovernamental de Cooperação Econômica, Comercial, Científica e Tecnológica (CIC).
Reforçamos o caráter estratégico das relações Brasil-Rússia e a intenção de intensificar a cooperação em temas como energia, ciência e tecnologia e na área naval. Sublinhei a importância do comércio entre os dois países, com ênfase especial no fornecimento de diesel e fertilizantes.
Também ressaltei a necessidade de buscar maior equilíbrio no intercâmbio comercial, com aumento das exportações brasileiras para a Rússia.
Discutimos também a situação geopolítica atual. Expressei decepção com a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU em encaminhar uma solução para os conflitos e sublinhei a importância do diálogo entre as grandes potências em busca da paz.
Nesse contexto, ressaltei os aspectos humanitários dos conflitos e lamentei a perda de vidas humanas, inclusive civis. Expressamos determinação de continuar trabalhando conjuntamente nos foros internacionais, especialmente no BRICS, cujo papel no atual cenário internacional foi enfatizado.
Concordamos também quanto ao valor do multilateralismo, baseado em um mundo multipolar. Mencionei a eleição para o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas, reiterando o apoio do Brasil à candidatura de Michelle Bachelet.
Crise política e diplomática com os EUA - Rubens Barbosa Portal Interesse Nacional
Crise política e diplomática com os EUA
O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo
Rubens Barbosa
Portal Interesse Nacional, 7/08/2026
As relações bilaterais com os Estados Unidos se deterioraram desde o início do governo Trump, em especial, depois das restrições protecionistas globais com as sucessivas medidas do tarifaço e das investigações comerciais mais pesadas contra o Brasil.
A crise política e diplomática surgiu e tende a se intensificar com base em dois fatores: a prioridade (pela primeira vez na história) do Hemisfério Ocidental (América Latina) como área de influência da administração Trump e a interferência no processo eleitoral de outubro próximo. Além das medidas comerciais que afetaram o Brasil e provocaram reações em nível técnico e político do governo Lula, desde abril de 2025 até julho de 2026, começaram a surgir evidências de uma crise política e diplomática que está sendo gradualmente agravada pelo componente ideológico dos dois lados.
‘A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que os países da região devem escolher se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos ou em um mundo paralelo’
A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que “a escolha que todos os países da região devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo. Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, ainda assim, compartilhamos interesses, e que desejam trabalhar conosco”.
A preocupação com a China está presente quando o documento acentua que “qualquer tipo de ajuda dos EUA deve estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária – instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo aquisição de ativos estratégicos, entre outros”.
‘A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra)’
A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra). O Corolário Trump da Doutrina Monroe cria grandes desafios para a política externa do PT, levando em conta a dependência comercial da China e o forte viés antiamericano expresso pelos governos Lula e Dilma, ao longo dos 20 anos em que o partido ocupou o poder.
Por outro lado, essas medidas são influenciadas por motivações ideológicas prevalentes no Departamento de Estado contra governos de esquerda, como Cuba, Nicarágua, Venezuela e agora inclusive o Brasil, considerados países “não amigos dos EUA”, no dizer de Marco Rubio.
Em um ano e meio, houve significativos avanços e crescente influência do governo Trump na região: no Panamá, na Venezuela, na Argentina, em Cuba, no combate à imigração ilegal e ao crime organizado, nas eleições presidenciais, nas propostas de criação de um grupo para minérios estratégicos e do Escudo das Américas.
‘O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC’
O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC. O governo brasileiro colocou-se contra a classificação de grupos criminosos como terroristas e não está representado no grupo sobre minérios, nem no Escudo das Américas, nem no Conselho de Paz.
Em artigo do último dia 26 no Washington Post, Lula foi duro e direto ao afirmar que “dividir o mundo em áreas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos. Ninguém vai nos derrotar por mentiras (acusação de que o Brasil estava espionando o espaço em favor da China e outras relacionadas com o tarifaço). A América Latina não precisa de porta-aviões patrulhando suas águas, nem de tarifas punitivas”.
‘O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente’
O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente, como parte da missão atribuída por Trump ao secretário de Estado, Marco Rubio, de redesenhar politicamente e ideologicamente a região.
A escalada retórica entre os dois governos começou com a postagem de Rubio afirmando que “as tarifas foram decididas como forma de retaliação ao governo Lula” e que “o Brasil não estava negociando de boa fé com os EUA e que Lula colocou seu próprio ego a frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. E a resposta de Mauro Vieira rechaçando o “ataque de forma grosseira e arrogante contra um chefe de Estado de um país amigo e afirmando que o Brasil não vai se curvar às pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis”.
O atrito continuou com uma série de declarações de confronto. O desafio público do presidente para que Rubio crie um comitê para apoiar Flávio Bolsonaro foi respondido em Nota do Departamento de Estado em que reafirma “o interesse histórico e global dos EUA na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos em todo o mundo, inclusive no Brasil”.
A declaração de Vieira de que a classificação dos grupos criminosos como terroristas abriria caminho para o uso da força militar norte-americana no Brasil, recebeu resposta imediata do Departamento de Estado considerando “absurda” essa declaração.
Ao prorrogar tarifa de 50% (sem efeito prático), com base na legislação suspensa pela Suprema Corte, Trump disse que “o Brasil interferiu na economia dos EUA, violou a livre expressão de cidadãos norte-americanos e minam os interesses dos EUA em proteger seus cidadãos e empresas”.
‘Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente’
Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente, como ocorreu com o Canadá, com consequências imprevisíveis para a economia interna e a relação política e diplomática.
A escalada continuou com a negação de visto para o assessor de Trump e para dois altos funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil para questionar o sistema eleitoral brasileiro, segundo o Washington Post, o que foi negado oficialmente pelo Departamento de Estado.
‘A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado’
A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado. Anunciado e sabatinado pelo Senado dos EUA, antes do pedido de agrément ao governo brasileiro, a concessão do agrément deverá ocorrer somente depois das eleições. No dia 3, práticas diplomáticas foram mais uma escalada na crise.
Em nota do Departamento de Estado foi explicado que o visto da embaixadora do Brasil em Washington foi revogado em razão da demora na concessão do agrément para o novo embaixador dos EUA e o cancelamento de vistos de três altos funcionários norte-americanos.
Em resposta o Planalto emitiu dura nota chamando de faltas as alegações de Washington e Lula, de irresponsáveis, em mais uma escalada da crise. A confirmação por Lula de que o agrément ao embaixador não vai ser concedido antes das eleições pelo receio de interferência no processo eleitoral deverá agravar as tensões bilaterais com novas retaliações contra o Brasil.
‘A influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas’
Uma coisa não se pode ignorar, a influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas. Com o crescente afastamento dos diplomatas dos centros de decisões é de esperar-se novas e criativas soluções para tornar ainda mais inesperadas as crises políticas e diplomáticas.
Noticia-se que Lula está buscando conversa telefônica direta com Trump para tratar da convocação de encontro dos líderes das principais potências para a busca de uma saída para os conflitos atuais. Nesse sentido, já teria falado com Putin e com Xi. Mais uma vez em busca de protagonismo, se a conversa ocorrer, como será tratada a crise bilateral?
O telefonema de Lula a Xi Jinping no domingo, 26 de julho, e o apoio público do governo de Pequim contra ingerência externa no Brasil reforçam a percepção de Washington da crescente influência chinesa.
‘A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica’
A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica. O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo.
Se isso não for feito, o Brasil continuará a reboque da história, administrando as influências externas, sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas, tecnológicas em curso e sujeito a crescentes pressões de Washington no contexto da política de área de influência sobre a América Latina. Dependendo do resultado da eleição presidencial, ficará decidido o próprio conceito de soberania e interesse nacional.
Em outra frente, em nova decisão inovadora na diplomacia, o Brasil decidiu unilateralmente ”rebaixar” suas relações com a Argentina e nesse sentido ainda pediu que o embaixador argentino volte para casa enquanto o representante brasileiro em Buenos Aires permanecer no Brasil.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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