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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Coordenação-Geral de Patrimônio Histórico do Itamaraty: oportunidade de trabalho

Transcrevo nota que apresenta uma oportunidade de trabalho nas condições descritas abaixo. PRA

Nota de divulgação, dirigida aps servidores efetivos do Poder Executivo federal possivelmente interessados, no processo seletivo para o preenchimento de duas vagas na Coordenação-Geral de Patrimônio Histórico do Itamaraty, área responsável pela preservação e divulgação do acervo histórico, artístico e de representação do MRE (à exceção da coleção no RJ). Inscrições até 30/10, exclusivamente na seção "Currículo e Oportunidades" do SouGov. 
 
As vagas são em Brasília, para servidores de nível superior, que poderão receber GSISTE. As informações completas também estão no módulo  "Currículo e Oportunidades" do SouGov. Abaixo, alguns dados gerais sobre as vagas: 

Atividades Executadas:
I - Administrar a Reserva Técnica da unidade, atuando com a guarda física, acondicionamento técnico, segurança, controle ambiental e organização sistemática dos bens culturais sob gestão da CGPH que não estiverem em uso direto;
II - Executar ações contínuas de conservação preventiva, controle microbiológico e monitoramento das condições físicas de exibição e guarda dos itens do acervo;
III - Colaborar, sob instrução e supervisão profissional, em ações de restauração física e conservação curativa de obras de arte e peças históricas sob guarda do MRE;
IV - Coordenar e executar montagem e desmontagem física de exposições temporárias e de longa duração autorizadas pela Chefia, providenciando suportes expográficos, segurança no transporte e layout expositivo;
V - Documentação e Catalogação sistemática do acervo sob gestão da CGPH, zelando pelo controle informatizado permanente de dados e histórico de cada bem cultural;
VI - Monitorar, registrar e acompanhar a movimentação física dos bens sob tutela da CGPH, atualizando em tempo real a base de dados de catalogação patrimonial gerenciada pela unidade e subsidiando a atualização do inventário patrimonial de bens permanentes da SERE, gerenciado pela Coordenação de Patrimônio, Arquitetura e Engenharia (CPAT);
VII - Planejar e desenvolver pesquisas históricas e documentais sobre as peças do AHAR do MRE, estimulando publicações institucionais, e colaborar com pesquisadores internos e externos que tenham interesse no referido campo de estudo;
VIII. Colaborar com as ações pedagógicas a cargo da unidade, compreendendo visitas mediadas ao Palácio Itamaraty e demais espaços ou acervos com valor patrimonial, oficinas pedagógicas, elaboração de material didático;
IX - Atuar nas equipes de planejamento de compras, licitações, elaboração de Termos de Referência (TR) e especificações técnicas no âmbito de atuação desta área técnica;
X - Exercer a fiscalização técnica de contratos de prestação de serviços continuados de mão-de-obra dedicada contratados no âmbito de atuação dessa área técnica;
XI - Colaborar diretamente em tarefas e demandas gerais de interesse da Coordenação-Geral de Patrimônio Histórico, quando solicitado pela Chefia.
 
São desejáveis:
- conhecimentos e experiência nos campos de atuação acima descritos;
- experiência de gestão e difusão de acervos com a plataforma TAINACAN;
- experiência com desenvolvimento e gestão de páginas eletrônicas em WordPress;
- domínio em ferramentas de diagramação visual, gestão de ecossistema digital e otimização e performance (WPO);
- experiência na administração pública;
- boas qualidades de comunicação, trabalho em equipe, inovação, mentalidade digital
- ética e compromisso profissional.



sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A preeminência de engenheiros na administração “leninista” da China - Washington Araujo (via Cesar Benjamin)

 [Como eu digo sempre: “Engenheiros produzem patentes. Advogados, no Brasil ou nos EUA, produzem déficit público.” PRA]

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De um artigo de Washington Araújo:

"Há países em que a política é um palco. Na China, ela se parece mais com uma usina. Se alguém deseja alcançar o topo do poder em Pequim, já sabe que o caminho não começa nos cursos de retórica, mas nos laboratórios, nos canteiros de obras, nos centros de cálculo estrutural.

"A senha é clara: Engenharia. E, se possível, com currículo de entregas monumentais — liderar o programa espacial, erguer a maior hidrelétrica do planeta ou comandar a universidade que muitos chamam de “MIT chinês”.

"Desde 1993, a sequência é quase didática. Jiang Zemin, engenheiro elétrico. Hu Jintao, engenheiro hidráulico associado à monumental Barragem das Três Gargantas. E o atual presidente, Xi Jinping, formado em Engenharia Química. Três décadas consecutivas com engenheiros ocupando o cargo mais alto da segunda maior economia do planeta.

"Não é acaso estatístico. É método institucionalizado.

"Esse padrão não se limita ao topo do sistema. Ele desce a escada do poder e estrutura o funcionamento do Estado. Em Xangai, a maior cidade chinesa em população urbana, o comando partidário está nas mãos de Chen Jining, engenheiro civil, doutor pela Imperial College London e ex-reitor da Universidade Tsinghua — frequentemente apelidada de “MIT chinês”. O detalhe institucional importa: ser chefe do Partido na cidade pesa mais do que o título de prefeito. Na China, a política real corre pelos trilhos partidários e pela lógica de resultados.

"Em Xinjiang, a maior região administrativa do país, governa Ma Xingrui, engenheiro aeroespacial, doutor pelo Harbin Institute of Technology, ex-diretor do programa lunar chinês. Em Chongqing, metrópole colossal em território e influência industrial, o comando está com Yuan Jiajun, também engenheiro aeroespacial, doutor pela Beihang University, projetista da nave Shenzhou e ex-vice-presidente da China Aerospace Science and Technology Corporation.

"Mas, atenção: eles não são burocratas convencionais. São dirigentes formados na resolução de problemas complexos, acostumados a metas, cronogramas e métricas.

"O Congresso Nacional do Povo segue a mesma lógica. Mais de 600 deputados possuem formação em STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre eles, Zhang Qingwei, engenheiro de foguetes e ex-presidente da COMAC, a fabricante aeronáutica vista como a Embraer chinesa. Ou Qian Zhengying, engenheira civil, ex-reitora da Hohai University e ministra em posições estratégicas. A formação técnica não é exceção decorativa. É eixo estruturante.

O que esse mosaico revela, portanto, é que a “fábrica” de líderes na China está ancorada na cultura da entrega concreta.

"Antes de administrar narrativas, é preciso administrar obras, sistemas, cadeias produtivas. O poder, ali, não é legitimado pelo brilho midiático, mas pela capacidade de expandir infraestrutura, acelerar inovação, sustentar crescimento industrial e consolidar autonomia tecnológica.”

Enquanto muitas democracias contemporâneas premiam o desempenho comunicacional — a frase viral, o embate televisivo, o algoritmo favorável — a China aposta deliberadamente em outra métrica: PIB sustentado por aço, energia, semicondutores, inteligência artificial, logística integrada e planejamento industrial. A política como extensão da engenharia; o Estado como coordenador técnico de um projeto de longo prazo."

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Previsões imprevisíveis para Lula 3 ao inicio de 2023 - Paulo Roberto de Almeida

 Minha mensagem a Lula 3, recém eleito em outubro de 2022, mas ainda antes da tentativa golpista, traiçoeira, criminosa, dos bolsonaristas estupradores da nossa frágil democracia em 8 de janeiro de 2023.

Os golpistas querem agora estuprar novamente a democracia, a dignidade e a soberania da ainda frágil democracia brasileira pela via do voto popular.

Com todas as restrições que faço ao lulopetismo econômico e diplomático, rechaço com todas as forças o retorno so poder do golpistas incompetentes (ainda brm), autoritários, negacionistas vacinais, retrógrados sociais e traidores da pátria, qymue são os bolsonaristas ignorantes.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 22/09/2026


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O que eu "tramava" para Lula ao início de seu terceiro mandato, em 1 de janeiro de 2023 - Paulo Roberto de Almeida

Quase um ano atrás, em viagem de férias entre o final de 2022 e o começo de 2023, eu fazia meus votos de sucesso ao presidente no início do seu terceiro mandato. Vejamos quais eram meus prognósticos.


Meus melhores votos de sucesso em 2023 vão para…

  

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(diplomatizzando.blogspot.com)

Nota saudando o terceiro mandato, com diversos alertas e sugestões de políticas.

  

... Lula, como presidente pela terceira vez, algo inédito na história política brasileira, por ser pela via democrática e não como certos “presidentes” ou chefes de governos, eternizados em eleições fraudadas em diversos países latino-americanos, africanos e em outros países, inclusive europeus, como por exemplo na Hungria de Orban e na Rússia de Putin, assim como na China de Xi Jinping (que acaba de romper um modelo de alternância na autocracia do partido leninista, ao “eleger” pela terceira vez o seu novo imperador).

Lula merece ter sucesso no que é o seu marco distintivo na frágil democracia brasileira, a diminuição, ainda que relativa e altamente instável, da iniquidade da distribuição de renda no país, que sempre a concentrou em favor de nossas medíocres elites patrimonialistas. 

Não tenho nenhuma ilusão que essa pequena redução na concentração de renda se faça em favor dos realmente pobres e miseráveis e que ela seja feita pelos bons méritos de políticas macroeconômicas e setoriais adequadas, pois carregam os sinais distintivos do velho populismo eleitoreiro da subvenção ao consumo dos mais pobres, e não pela via correta e necessária de redução das fontes estruturais da pobreza, que são a não educação de maneira geral e a baixa capacitação técnico-profissional da população economicamente ativa, necessária para a elevação dos níveis de produtividade do capital humano e social, em particular.

Sempre fui, a despeito de ser bastante crítico a esse personagem singular do velho populismo brasileiro, um apoiador sincero de suas medidas redistributivas, que corrigem, ainda que minimamente e modestamente, a tremenda injustiça do eterno patrimonialismo oligárquico do Brasil, uma nação que se caracteriza por séculos de injustiças contra os mais pobres, em primeiro lugar contra os africanos e indígenas escravizados e oprimidos, e que ainda se ressentem da persistência de formas disfarçadas de escravismo e de servidão na pobreza generalizada de seus descendentes.

Continuarei ao longo de 2023, e mais além, meu apoio crítico a tais medidas de redução da miséria abjeta e da pobreza absoluta por parte de um governo que dispõe de um legítimo apoio popular, ao lado de uma convivência incômoda com as “elites” extratoras de sempre, as classes econômicas eternamente privilegiadas, que não são apenas os velhos e novos  proprietários fundiários e os grandes capitalistas, empresários industriais e banqueiros, mas também os mandarins do Estado, a começar pela aristocracia do judiciário e outros altos servidores do Estado, que se servem do Estado para si próprios. 

Manterei, ao longo de 2023 e mais adiante, meu ceticismo sadio em relação a políticas públicas e medidas estatais que atuam apenas nos estoques de riqueza, e não na criação de seus novos fluxos, assim como naquelas iniciativas redistributivas que impactam apenas os muitos efeitos da iniquidade distributiva (entre elas um sistema tributário regressivo), e não exatamente suas múltiplas fontes de criação dos canais de reconcentração de renda, com modestos resultados nas estruturas sólidas do nosso vergonhoso coeficiente de Gini.

Serei especialmente crítico em relação a uma política externa feita de muitos equívocos conceituais (como a velha e anacrônica visão “classista” da divisão do mundo) e de sua primeira diplomacia partidária, com vergonhosos apoios a execráveis ditaduras supostamente de esquerda (e algumas de direita também). 

Sou, em particular, um opositor talvez isolado e de primeira hora do BRIC-BRICS, que considero um grande erro estratégico da diplomacia lulopetista, por nos unir, sem qualquer convergência sólida de objetivos compartilhados, a duas grandes autocracias e a duas outras democracias de baixíssima qualidade (como é a nossa aliás), apenas pela ilusão de que se trataria da construção de uma ordem mundial alternativa à velha dominação de antigas potências colonialistas ou do novo hegemonismo americano, o que é um programa meramente oposicionista, sem qualquer conexão com propostas visando a melhoria da qualidade de políticas públicas de desenvolvimento econômico e social, ou com a elevação dos padrões de governança democrática e de defesa dos direitos humanos e das liberdades individuais.

Também sou um opositor declarado do estatismo desmesurado desse terceiro governo economicamente intervencionista do grande líder populista, e de sua megalomania na política externa, o que nos envolve num certo aventureirismo diplomático, sem grandes efeitos no objetivo que deveria ser essencial num projeto nacional, que é a redução dos níveis exageradamente altos de miséria e de pobreza inaceitáveis.

Com todas essas ressalvas, alertas e sugestões, desejo um bom 2023 a Lula e um bom governo até 2026, esperando que escapemos de uma nova e catastrófica recessão (como a de 2015-16) e que em 2027 estejamos melhor do que agora e livres de qualquer ameaça golpista e de um retorno do destruidor desgoverno desse infeliz último quadriênio, marcado pelo reforço do patrimonialismo oligárquico e do autoritarismo militar, ilegítimo em sua essência. 

Vamos lá Brasil, seja feliz de novo, como nos bons tempos de JK, que viram o nascimento da Bossa Nova e do Rei Pelé!

Com os melhores votos de

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 1/01/2023

 

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 4297: 1 janeiro 2023, 3 p.”

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

George Bernanos em Barbacena: 1940-1945 - Francisco Braga

 George Bernanos em Barbacena: 1940-1945

VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros.
Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/bernanos-em-barbacena.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BERNANOS EM BARBACENA

 Por Vamireh Chacon *

Transcrevemos o ensaio intitulado Bernanos em Barbacena pelo notável pensador pernambucano, extraído do seu livro “O Humanismo Brasileiro”, São Paulo: Summus Editorial: Secretaria da Cultura, 1980, pp. 248-257.
 
VAMIREH CHACON de Albuquerque Nascimento (✰ Recife, 01/02/1934 ✞ Brasília, 18/09/2023)
 
A Serra da Mantiqueira atinge um pouco mais de dez mil metros de altura em Barbacena. Hoje, quase à beira da estrada entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, aos pés do monte Grogotó, onde agora se situa um moderno hotel, encontra-se o antigo Sítio Cruz das Almas, no qual se asilou Georges Bernanos, durante quase toda a Segunda Guerra Mundial. A Prefeitura local, nos tempos de Simão Bias Fortes, desapropriou o pequeno conjunto de casas brancas, com janelas verdes e uma área circundante, centro da propriedade antigamente rural. Ali morou o Unamuno ¹, católico e francês, Bernanos. 
Quem chega à residência, cercada de arame farpado em postes tortos, logo se defronta com o nicho da Virgem de Lourdes sobre o portal da entrada, devoção francesa antes de universal. No interior, poucos móveis, de escasso valor e menor gosto; livros mal conservados pela umidade e pior pela apresentação desarrumada. O que vale, aqui, são essas paredes nuas, esse piso rijo, esse teto ascético; a seu modo, retratos do próprio Bernanos. Dele, que pretendera fazer da sua casa mineira "algo que se parecesse a uma fazenda nossa" (da França). ²
Certo dia, Afonso Arinos de Melo Franco e Anah almoçaram ali, "que ele arranjara carinhosamente, um pouco ao jeito de uma casa rural de Lorena."E ouviram da sua boca longos poemas... ³
O escritor francês vivia apenas na companhia da sua família. Visitantes, raros; visitas ao Rio de Janeiro, ou Belo Horizonte, menos ainda. O cidadão curtia a vergonha da desordem do mundo, com apelos quase desesperados para transformá-lo. 
Mas guardava a intimidade daquele lar rústico, camponês mesmo, na comunhão da Fé e da Terra. Nos últimos dias de permanência no Brasil, escrevia:
“Felizmente nossa casinha acha-se longe dessas agitações políticas, sobre uma colina solitária, como se ela tivesse vindo pousar naquele ponto, uma noite por acaso, depois de uma longa viagem aérea, esperando abrir as asas e retomar o voo àquela hora da madrugada em que os grandes eucaliptos fremem, antes de enrubescer até o cimo, ao levantar do sol.”
A vida era monotonamente simples, para alegria de solitário Zaratustra ⁴ humano, demasiado humano, apesar de também peregrino do absoluto:
“Cada manhã, ao levantar, logo depois do café, o meu bom cavalo Osvaldo me esperava na porta. Como o frade ao seu ministério; como o soldado ao exército, ou mais exatamente, como o empregado ao escritório, íamos nós — um levando o outro — até a cidade, para de lá voltar ao meio-dia com o único fim de nos dar o prazer de retornar às três horas e não vir para a casa senão à noite — a noite seca, fria e penetrante de inverno ou essas admiráveis noites de verão; essas noites quentes de perfume selvagem como o flanco de uma fera.”
Depois de meditar e escrever em bares pobres, no meio da algazarra que o unia ainda mais à Vida, retornava na mesma cavalgada de silêncio.
“Caros amigos: se algum de vós passar um dia por Barbacena e quiser se lembrar de mim, lance um olhar sobre esse café minúsculo e reflita que eu ali fiz a experiência de quase todas as formas de solidão; ali me achei muitas vezes — ali à beira da calçada, no vaivém dos transeuntes — só — sim, tão só! Como o meu país.” ⁵
O itinerário fora longo. 
Georges Bernanos nasceu e morreu em Paris, antes e logo após os dois conflitos mundiais. Esteve no Brasil de 1938 a 1945, em seguida a apenas onze dias no Paraguai. Entre nós habitou, de início, no Rio de Janeiro, Itaipava, Juiz de Fora, Vassouras, Pirapora, Belo Horizonte e Barbacena, onde se fixou durante quatro anos. Em Vassouras, escreveu Nous autres Français; em Pirapora, na fazenda Santo Antônio, perto do rio São Francisco, redigiu Les enfants humiliés e completou Monsieur Ouine; finalmente, no último pouso, Lettre aux Anglais, Le Chemin de la Croix-des-Âmes, Écrits de Combat e La France contre les Robots; ampla bibliografia de ensaios, nela se destacando um romance. 
E ao relê-los, nos dias atuais, não se pode reprimir o protesto que Bernanos tenha sido, com frequência, apresentado como pequeno-burguês neurótico, ele que escrevera La grande Peur des bien Pensants. Daí se ter tornado tão pouco lido e sua casa ainda menos visitada... 
A nós, brasileiros, o escritor que repelia os dois extremismos máximos da Guerra Civil espanhola, em Les grands Cimétières sous la Lune, interessa em particular, pois raros os estrangeiros que tanto sentiram e sofreram o Brasil. No seu "Salut au Brésil" ⁶, com entusiasmo exclamava, naquele seu tom mais oratório que retórico, porque espontâneo e límpido:
“Do alto de nossa pequena colina da Cruz das Almas, vemos, há semanas, fundirem-se, pouco a pouco, nossos maus caminhos, como manteiga numa panela queimante. A graciosa cidade branca, a meia légua, parece tão perto, porém nenhum carro ousaria arriscar-se até nós e os próprios cavalos percorrem, com desconfiança, esta estrada arrasada que deslisa, pouco a pouco, sobre sua inclinação mesma.” 
E, entendendo, ao mesmo tempo que denunciava, concluía, num ímpeto de amargor e solidariedade:
“O trabalho da terra foi reservado aqui — pelo menos em parte — desde longo tempo, aos escravos. Claro, que não tenho qualquer título para dirigir-me aos intelectuais brasileiros, senão, talvez, a profunda gratidão que lhes devo, pelo generoso, magnífico acolhimento, que quiseram por bem dar ao meu livro, escrito no exílio...”
Mas, em seguida, numa advertência com frequência pouco do agrado dos bem pensantes de qualquer tipo:
“Que eles me permitam, contudo, uni-los hoje, no meu pensamento, a estes homens obscuros, cuja missão não é garantir a Liberdade, e sim assegurar à sua Miséria um bem ainda mais precioso, a Consciência da Liberdade. Pois não é a Servidão que faz os escravos, é a aceitação da Servidão. E há algo pior que a aceitação da Servidão: a ela conformar sua vida, a ponto de nela se achar à vontade e, enfim — ignorá-la.” (grifo nosso)
A bela paisagem montanhesa não o hipnotizava. Nem o induzia a esquecer a tragédia do mundo, naquele momento culminando na dominação fascista da França:
“Foi no sertão que tomei conhecimento da Queda de Paris. A tarde já empalidecia, o sol vermelho do curral entrava na pobre casa, com o voo dos primeiros morcegos. A floresta imensa, a floresta anã e disforme, torturada pela sede, estendia-se ao Infinito em torno dos nossos muros de argila. Lá estávamos sós, verdadeiramente sós, sós como mortos, enquanto a horrenda voz nasal de uma estação de rádio, alimentada por uma bateria fora de uso, anunciava-nos que a bandeira alemã flutuava sobre Notre-Dame... Tenho o direito de escrever que o Povo brasileiro odeia a Servidão, pois, desde a primeira notícia do desastre, eu o vi odiar a nossa...” ⁷ (grifo nosso)
Por que não se evoca este Bernanos, também o profeta contra a mecanicista tecnização do Homem, o mesmo que insistia na repulsa às condições degradantes dos trabalhadores rurais, ao seu redor? O Bernanos que bradava, no prefácio à Lettre aux Anglais, em 15 de janeiro de 1942:
“O Brasil não é, para mim, o hotel suntuoso, quase anônimo, onde depositei minha valise, esperando retomar o oceano e regressar à minha terra: é meu lar, é minha casa...”
O povo brasileiro, mais do que as suas elites, tornou-se a fonte de inspiração de Bernanos, vez por outra, saindo de casa para escrever numa taberna de beira de estrada de Barbacena, melhor do que se estivesse numa confeitaria carioca ou num café parisiense.
“Foram vossos camponeses que me fizeram compreender vossos intelectuais — eis a verdade. Compreendi que vossos intelectuais se serviam da nossa cultura contra uma certa concepção da vida, que vosso povo repele instintivamente... Vossos intelectuais se servem da nossa cultura, porque ela é, para eles, o instrumento mais apropriado à defesa comum; porém é do fundo popular que têm o sentimento quase psíquico do perigo corrido, a vontade de vencê-lo.” (grifo nosso)
Diante até mesmo dos brasileiros impacientes em compadecerem-se com o suposto Paraíso europeu perdido pelos ancestrais imigrantes, Bernanos respondia:
“A terra do meu país é uma terra amiga do homem. A vossa não é vossa inimiga, certamente, mas ela vos ignora; estais sós diante dela, sem aldeias, sem vizinhos, com vossas pobres famílias. Aqui, o homem conquista a terra selvagem pelas suas próprias forças, as mãos nuas.Que isto faça rir os mercadores de quinquilharia mecânica, bem o espero. Eles não rirão sempre. 
Pois é assim que se formam os grandes povos, os povos livres; é assim que todas as forças e toda a paciência da terra passam aos músculos e corações dos homens. Assim o ritmo de vosso esforço não é o mesmo daquele nosso, ou melhor, vosso esforço guardou um ritmo que o nosso perdeu. Assim podeis sofrer e durar, lá, onde qualquer outro, além de vós, esgotaria em pouco tempo sua coragem. Porém este segredo de vossa força é também o de vossa incomparável resignação.” (grifo nosso)
Após todas as dificuldades, "tereis dado ao mundo um tesouro mil vezes mais precioso que as pastagens e os vergéis, ter-lhe-eis dado um povo livre, formado para a Liberdade." (grifo nosso)
No Sítio de Cruz das Almas, que ele traduzia para Croix-des-Âmes, com ressonâncias ao mesmo tempo tão brasileiras e francesas, Bernanos passou quase cinco anos, repensando o que sentira nas cidades e nos campos, na Serra ou no vale do São Francisco, sobre o seu e o nosso país. Desde agosto de 1940 a junho de 1945, tempos de meditação e participação, analisando e escrevendo sobre o drama do vizinho e a tragédia do mundo, a paz dos arredores e a guerra distante. O pensador católico, escrevendo em ficção e não só ensaio, é o panfletário da Resistência, publicando nos jornais franceses clandestinos ou que, no exílio, desabrochavam no trópico mineiro. Ali Georges Bernanos amadureceu tanto a reflexão quanto o estilo. 
Os brasileiros ajudaram-no com desafios e até injustiças, não apenas com apoio e amizade. 
Parecia insólito um escritor católico que não fosse beato. Catolicismo tinha um sentido tradicional, conservador, querendo justificar seus Antiliberalismo e Anti-Socialismo como respostas ao anticlericalismo. Para Bernanos, estes problemas não existiam. 
Daí que, logo à sua chegada, ouviu-se o protesto. Guilherme Auler — historiador depois diretor do Museu Imperial de Petrópolis, membro do grupo Fronteiras que reunia a fina flor monárquica, à direita do próprio Fascismo — apresentou-se como porta-voz. Escreveu dois violentos artigos de recepção ao auto-exilado. 
No primeiro, começava indagando-se:
“Por que Georges Bernanos, escritor de relativa fama, abandona a França, a Europa enfim, para vir residir no Brasil? Motivo de simpatia intelectual com os brasileiros é argumento de caça-níqueis. Bernanos é um difamador e um espião comunista (sic). Não são palavras nossas. É o arcebispo de Majorca, Dom José Miralles Sbert, quem o afirma publicamente em documento irrespondível.” ⁸
Pois, em julho Bernanos atacara Franco e o clero que o apoiava, na revista New Statesman. O prelado respondeu-lhe, no mês seguinte, pelas páginas de America, ambas nos Estados Unidos. O fiel, que assistira na Espanha às violências em nome de Cristo contra os anticristãos, desentendia-se com o conivente hierarca. 
Não deixando o ódio esfriar, Auler logo voltou à carga, contra o autor de Les grands Cimetières sous la Lune, "um nojento livro" (sic). E arrolava a lista de adversários católicos de Bernanos. ⁹
Na realidade, insultando-o em fins de 1938 e princípios de 1939, Auler e asseclas brasileiros uniam-se aos nazi-fascistas dedicados a tarefas idênticas. Entre eles Karl Epting, lançando anátemas contra Bernanos de Berlim, em pleno auge do conflito mundial logo em seguida. ¹⁰
Os tempos depois mudariam. À calúnia seguir-se-ia o silêncio dos bem pensantes, ironizados por Georges Bernanos em livro que marcou época. Bem pensantes a serviço ora dum ora doutro extremismo, que os desobriguem de distinguir, que é a substância do pensamento. 
Enquanto isto, Bernanos meditava na noite tropical. Em carta publicaada no jornal parisiense Le Figaro, em 27 de dezembro de 1942, escrevia do Rio de Janeiro:
“Este país, esta cidade, não se podem crer. Esta cidade tão bela, tão prodigiosamente bela, tão bela e tão humilde. Tem o ar de deitar-se a vossos pés, com suas jóias, seus perfumes e seu olhar de inocência e a docilidade dos animais. O ar é uma doçura selvagem. E agora, graças ao Céu, estou como um velho guerreiro, curtido pela guerra, no meio de crianças.” ¹¹
E, de Pirapora, no sertão do Alto São Francisco:
“Estranho país! À primeira vista se é fortemente tentado de retomar o trem e fugir. Depois, acostuma-se pouco a pouco, e creio que se termina por amá-lo. O horizonte assemelha-se ao de certas províncias francesas, colinas bastante parecidas com as de Tours... Quanto à cidade, é uma autêntica aldeia de desbravamento, muito cinematográfica, com casas em construção por toda parte, uma desordem surpreendente.” ¹²
Para ver melhor e não esquecer, ao contrário do que dizem alguns críticos. Bernanos internara-se na distante fazenda Santo Antônio, de Virgílio de Melo Franco, "companheiro ideal" na definição do seu irmão Afonso Arinos de Melo Franco, cercado durante oito meses por imensos rebanhos, no cerrado a perder de vista. Virara feitor de animais, já não quisera ser de homens, a serviço de ideologias totalitárias. Daquela distância remota, podia entender, na plenitude, a grandeza da tragédia humana em sua Europa nativa e do próprio Brasil dos campos, ignorados pela sofisticação urbana dos intelectuais seus amigos. 
Pouco a pouco o velho leão — "grande, gordo, moreno como um cigano, os bigodes bastos e a juba leonina", "aleijado de uma perna", com "aspecto rebarbativo" se não fossem "os olhos rasgados e azuis, olhos puros de criança, que pareciam sempre à espera do prêmio ou do castigo", no retrato vivido por Afonso Arinos de Melo Franco ¹³ — o sofrido leão foi aceitando aproximar-se dos católicos brasileiros. 
Alceu Amoroso Lima começaria falando em Maritain, quando o que o aproximava de Bernanos era a evocação da morte de um amigo desconhecido. ¹⁴ Jorge de Lima perturbava-lhe a paz, pedindo-lhe que intercedesse por votos na sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, para decepção de Bernanos. ¹⁵ As comparações dele com Léon Bloy também o desagradavam, apesar do que supunham os críticos. ¹⁶
E quando Georges Bernanos teve de retornar à França, atendendo a apelo pessoal do General De Gaulle, precisou vender seu único bem ¹⁷, aquela casinha de Barbacena, quase no fim da Mantiqueira, quando a Serra principia a descer na direção do mar. 
De volta a Paris, escrevia a Virgílio de Melo Franco solicitando assinaturas do Correio da Manhã, então o mais prestigioso jornal carioca, pedindo a Deus para não morrer sem rever o Corcovado no horizonte... ¹⁸ E, a Fernando Carneiro, mal comparava sua nova casa, perdida nas montanhas francesas, sem água nem eletricidade, quase sem vidros, com a que construíra e deixara sob trópicos que acabaram sendo tão acolhedores. ¹⁹
E, perto de morrer, já em 1948, escrevendo do interior da Tunísia para onde fugira na busca de um rude sertão mais próximo da França, dizia a Georges Duhamel, companheiro de glória literária e sem conexões lisonjeantes com o além-mar, quanto sofria por ter abandonado Cruz-das-Almas: "Como lamento ter deixado o Brasil! Se ainda estivesse lá, teria pelo menos a certeza de ser útil ao meu país." Era a possibilidade de trabalhar com dominicanos franceses e intelectuais brasileiros familiarizados com Bloy e Péguy. ²⁰
Perto de morrer, voltaram-lhe as lembranças dos amigos fiéis: Alceu Amoroso Lima, Virgílio e Afonso Arinos de Melo Franco, Pedro Octavio Carneiro da Cunha, Carlos Chagas Filho, Jorge de Lima, Edgar da Mata Machado, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Carneiro, Álvaro Lins, Raul Fernandes, Oswaldo Aranha, Otto Lara Resende, Murilo Mendes, Assis Chateaubriand, Dario de Almeida Magalhães, Austregésilo de Athayde e Miguel Osório de Almeida, para lembrar só alguns dos privilegiados pelo seu convívio. 
No Brasil, Bernanos pensara ter vindo curtir sua vergonha pelo descalabro europeu, que levaria à II Guerra Mundial, porém aqui reencontraria seu orgulho e "foi este povo que mo devolveu." ²¹
As ruínas de que ele fugia eram, de resto, mais as invisíveis do que as visíveis, as de um mundo que desabara mais dentro dele do que em torno. Assim como os sentimentos que o levaram a evadir-se eram os de nojo e cólera; não os do interesse ou do temor. 
Nas páginas também escritas no Brasil continuaria ressoando, para sempre, sua voz:
“Aquela voz apaixonada ressuscitava bravuras extintas, coragens de outras eras, teimosamente, como quem recusava nivelar-se ao morno conformismo das derrotas...” ²²
Georges Benanos descobrira, nos intelectuais encontrados nas ruas do Rio de Janeiro e principalmente nos camponeses perdidos pelos sertões, a certeza da universalidade do drama humano, em carne viva na Espanha dilacerada por uma Guerra Civil, prelúdio doutra mundial, anúncios do fim de um mundo insensato. A cujo naufrágio e redenção é preciso enfrentar com coragem e esperança. 
Daí a validade das últimas palavras de Bernanos em nosso país, dirigidas à juventude:
“Moços e moças do Brasil, o que hoje vos escrevo é tudo o que vos deixarei de mim e, quando vos lembrardes do velho escritor de Cruz das Almas, dentro de vinte anos, de trinta anos — se vossa memória, por um impossível, me for fiel até então — estas palavras, desde muito esquecidas, é que se levantarão talvez, a despeito de vós mesmos, das profundezas de vossa consciência. 
Moços e moças, escutai-me bem, eis a minha última mensagem. A Liberdade não deve apenas ser amada, a Liberdade pouco se incomoda, atualmente de ser amada, ela deve ser salva, ela exige a sua salvação. Jovens amigos meus, é antes de tudo em vós mesmos, e em vossos espíritos, que salvareis a Liberdade. A Liberdade vos impõe uma clarividência heróica de que seríeis certamente dispensados numa sociedade digna desse nome. Se a exigência é de algum modo inumana, a culpa é de uma sociedade inumana. Pois, as místicas sanguinárias do Nacionalismo, do Racismo e do Partido substituíram as fidelidades tradicionais, as fidelidades humanas da Família e da Pátria, a obediência absoluta, totalitária, a idolatria do Estado ou do Partido. ²³  (grifo nosso)
Atentai para que essas opiniões e esses credos não sejam senão fórmulas de segurança. Católicos, vós vos assegurais contra os riscos do inferno. Socialistas, contra os riscos desse outro inferno, não menos cruel e inflexível, que se chama o determinismo econômico. Comunistas, contra o Fascismo. Fascistas, contra o Comunismo. 
Por que haveis de vos assegurar contra o amanhã? O amanhã, sois vós!” ²⁴
Mais que um francês, um escritor de todos os tempos falava não só à juventude brasileira, aos moços e moças de todas as épocas.
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Nota do gerente do Blog: Miguel de Unamuno(1864-1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo espanhol católico, cuja obra é frequentemente estudada em conjunto com a de Bernanos por tratarem ambos os autores, na literatura comparada católica ou existencial, de temas ligados à angústia espiritual, a fé agoniada e o sentimento trágico da vida.
² Carta ao Coronel X, Rio de Janeiro, abril, 1945, in Correspondance, recolhida por Albert Béguin e escolhida e apresentada pela Irmã Jean Murray O. P., Paris: Plon, tomo II, 1934-1948, 1971, p. 561.
³ A Alma do Tempo (Memórias: Formação e Mocidade) por Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro: Livr. J. Olympio Edit., 1961, p. 384. 
⁴ Nota do gerente do Blog: Zaratustra (também conhecido como Zoroastro) foi um antigo profeta e reformador religioso persa que fundou o zoroastrismo, uma religião seguida pelos Aquemênidas e uma das religiões monoteístas mais antigas da história humana.
Sua existência real é objeto de debates entre historiadores, mas sua figura moldou profundamente a espiritualidade do Oriente Médio Antigo e, séculos mais tarde, inspirou a filosofia ocidental. 
Entre seus principais ensinamentos, estão os seguintes resumidamente:
- Deus Supremo: Há um único deus criador, Ahura Mazda (o "Senhor da Sabedoria"), que representa a luz, a verdade e a ordem cósmica;
- Dualismo ético: O zoroastrismo apresenta o universo como um campo de batalha entre o bem (representado por Ahura Mazda) e o mal (representado por Angra Mainyu ou Ahriman)
- Livre arbítrio: Para Zaratustra, os seres humanos possuem a liberdade de escolher entre o caminho da verdade (Asha) e o da falsidade/caos (Druj), sendo responsáveis por suas escolhas morais.
O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) usou o nome do profeta na famosa obra Assim Falava Zaratustra (1883). No livro, Nietzsche utiliza Zaratustra como um alter ego fictício para proclamar o niilismo, a "morte de Deus", a chegada do Além-do-homem ou Super-homem (Übermensch) e o anúncio da crise dos valores do Ocidente (a transvaloração dos valores tradicionais). O eterno retorno é outro conceito central do livro, segundo o qual toda a existência se repetiria infinitamente.
⁵ "A Liberdade não deve apenas ser amada II", Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1945. E noutros Diários Associados. 
⁶ Nota do gerente do Blog: Não se trata de um poema, nem de um livro independente; trata-se na realidade, de um artigo ou texto de combate (ensaio/crônica) escrito em janeiro de 1943.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bernanos exilou-se no Brasil, de onde escreveu diversos textos de resistência e de reflexão política. Esse texto específico foi posteriormente compilado e publicado em suas coleções de escritos de guerra e correspondências, notadamente na obra póstuma Le Chemin de la Croix-des-Âmes.  
⁷ Lettre aux Anglais, Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1942, pp. IV, V, I, VII e IX-XI. 
⁸ "O indesejável 'Monsieur' Bernanos. Um novo embaixador dos soviets?", Fronteiras, Recife, ano VII, nº 10, outubro, 1938. Curiosamente, um ano antes, quando as posições, de Bernanos contra Franco na Guerra civil espanhola, eram menos notórias, a mesma revista Fronteiras publicava uma recensão de João Vasconcelos, favorável à Nouvelle Histoire de Mouchette ano VI, nº 28, setembro de 1937). Ainda Fronteiras promoveria violenta campanha contra Jacques Maritain, por conta de idênticos motivos, sendo então ecoada por muitos outros setores.
⁹ Ainda "O indesejável 'Monsieur' Bernanos", Fronteiras, Recife, ano VIII, nº 2, fevereiro, 1939. 
Pode ser um paradoxo, mas o certo é que Bernanos admirava o Conde de Paris, herdeiro do Trono da França, então muito em evidência, conforme se vê na sua carta a René Prouvot, em 9 de julho de 1939, in Correspondance, ob. cit., p. 255. Os monarquistas brasileiros ignoravam-no...
¹⁰ "Georges Bernanos", Frankreich in Widerspruch, Hamburgo, Hanseatische Verlargsanstalt, 1943, p. 65. 
¹¹ Carta recohida por André Rousseaux, inCorrespondance, ob. cit., p. 225. 
¹²  Carta a René Prouvot, em 5 de julho de 1939, in idem, pp. 254 e 255.
¹³ Melo Franco, ob. cit., p. 384. 
¹⁴ Carta a Amoso Lima, em 26 de setembro de 1938, in Correspondance, ob. cit., p. 227. 
¹⁵ Carta a Jorge de Lima, em 5 de janeiro de 1945, ob. cit., pp. 557 e 558. 
¹⁶ Carta novamente a Jorge de Lima, idem, pp. 558 e 559. 
¹⁷ Carta ao Coronel X, ibidem, pp. 551 e 552. 
¹⁸ Carta a V. Melo Franco, em 24 de dezembro de 1945, ibidem, pp. 594 e 595. 
¹⁹ Carta a F. Carneiro na mesma data, ibidem, p. 593. 
²⁰Carta a G. Duhamel, 15 de março de 1948, ibidem, p. 751. 
²¹ Lettre aux Anglais, ob. cit., p. I.
²² Alma do Tempo, ob. cit., pp. 384 e 385. 
²³ "A Liberdade não deve apenas ser amada!", Diário de Pernambuco ( e todos os Diários Associados), 10 de junho de 1945. 
²⁴ Idem, nº II, 13 de junho de 1945, ob. cit.
Ficou um registro sinótico dos amigos brasileiros de Georges Bernanos in Bernanos no Brasil, ed. por Hubert Sarrazin, com depoimentos de Jorge de Lima et alii, Petrópolis, Vozes, 1968. 
O Humanismo Brasileiro por Vamireh Chacon (272 p.)

* Vamireh Chacon foi um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, dedicou sua vida ao estudo profundo da identidade nacional, da história política e das ideias sociais do Brasil. Sua formação acadêmica incluiu: graduado simultaneamente em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (FDR) em 1956. Concluiu seu doutorado em Direito também pela FDR em 1959. Obteve pós-doutorado pela Universidade de Chicago, nos EUA em 1960, tendo no mesmo ano concluído o ciclo de pesquisa focada na área de Sociologia do Desenvolvimento. Retornando ao Brasil, obteve o título de livre-docente na FDR. Posteriormente, realizou estudos de Sociologia na Alemanha, onde morou por cerca de quatro anos. Foi na UnB que consolidou grande parte de sua carreira, tornando-se Professor Emérito, tendo atuado como chefe do Departamento de Ciência Política e Decano de Extensão. Publicou mais de 30 livros ao longo de sua vida. Sua obra é caracterizada pela análise da formação da sociedade brasileira, com forte influência da Escola do Recife e do pensamento de Gilberto Freyre. Chacon era considerado um defensor do "iberismo brasileiro", analisando as raízes culturais ibéricas do Brasil em diálogo com a modernidade universal. Membro titular e fundador da Academia Brasileira de Filosofia (cadeira nº 39) e membro da Academia Pernambucana de Letras, Chacon recebeu as maiores honrarias das letras nacionais. Em 2014, foi o grande vencedor do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra. A cooperação intelectual de Vamireh Chacon com o Senado e com os órgãos de editoração do parlamento remonta à década de 1970 e passando pela publicação de suas grandes obras oficiais nos anos 1990. Sua atuação como servidor em comissão do ILB encerrou-se em março de 2019. 

5 comentários:

  1. Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

    Prezad@,
    VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. 
    Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
    Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

    Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/bernanos-em-barbacena.html

    Cordial abraço,
    Francisco Braga
    Gerente do Blog de São João del-Rei


sábado, 12 de setembro de 2026

China’s Approach to AI in the Global South: Selling the Razor Blades, Not the Razor - ANDREW POLK (Sinica)

 China’s Approach to AI in the Global South: Selling the Razor Blades, Not the Razor
ANDREW POLK
Sinica, SEP 12, 2026

Everyone keeps calling the US-China AI competition a race.

But Eric Olander, co-founder of the China Global South Project, says that framing is wrong — because a race implies a finish line, and this competition doesn’t have one.
Eric’s view is that Chinese AI companies aren’t necessarily looking to out innovate US closed-weight models.
Instead, the goal for China is to become Android to America’s Apple — 10% of the profit, but 90% of the world’s users.
On this week’s episode of the Trivium China Podcast, Eric discusses China’s approach to building AI offerings in the Global South with host Andrew Polk — but only after the two run through the flurry of travel and diplomacy Xi Jinping is undertaking throughout September.

The two discuss the implications of Xi’s travels, then turn to China’s AI strategy in the region, touching on:

How Xi turned a single stop in Egypt into a four-birds-one-stone diplomatic play, touching on the Iran war, the Israel-Palestine conflict, Africa-China relations, and the dynamics around Xinjiang all at once
Why the India-China thaw is real but fragile, and why Xi and Modi’s sideline meeting at the upcoming BRICS summit matters more than anything on the summit’s official agenda
Why China’s AI push into the Global South won’t really be about the models themselves — but about enabling those models with Huawei servers, support contracts, and services sold on top of free, open-weight code
Why the “China is less secure” pitch against Chinese AI companies doesn’t land in a Global South that trusts Washington about as little as it trusts Beijing
Why nobody in the Global South expects much from Xi’s Washington visit, and why the mood in Beijing right now is just as hardened as it is in DC

Transcript of the conversation at this link:
https://www.sinicapodcast.com/p/chinas-approach-to-ai-in-the-global?utm_source=post-email-title&publication_id=2079154&post_id=215438537&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=8ma92&triedRedirect=true&utm_medium=email

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Sobre os acasos da História- Paulo Roberto de Almeida

Reflexões sobre as inconstâncias dos chamados Estados Soberanos, um contraponto, nos últimos quatro ou cInco séculos, aos grandes impérios mais ou menos resilientes

Paulo Roberto de Almeida 


Certas coisas podem ser inéditas na história da humanidade: colusão e coalizão entre grandes potências, cada uma com interesses próprios, mas interagindo entre elas por razões independentes cada uma.

O Império do Meio foi o primeiro e mais importante poder avançado na história mundial. Decaiu, por motivos próprios, de incompetência no topo e por invasões estrangeiras. Foi humilhado durante mais de um século, pelos imperialismos ocidentais, depois invadido e esquartejado pelo imperialismo expansionista japonês. Parte do seu território foi roubado pelo império czarista. A partir de Deng Xiaopingcomeçou um processo de reconstrução de seu antigo poderio, alcançando, sob Xi Jimping, preeminência econômica em vários setores.

O império russo se formou gradualmente a partir de Kyiv-Rus e depois foi sendo aumentado de maneira brutal pelos tiranos que produziram formas precoces de regimes autoritários, mas a forma especifica de totalitarismo surgiu com o império soviético. Decaiu, sob o irracional regime comunista, e agora está sendo reconstruido sob o regime cleptocrático mafioso de Vladimir Putin.

O império americano começou a ser formado depois da guerra de Secessão e se tornou, pelo vigor econômico, a maior potência durante os últimos cem anos. Uma grande democracia sendo erodida e deztruída pelo maior débil mental jamais conhecido na história das grandes potências. Esse mesmo débil mental está destruindo não só a democracia, mas também a economia, com sua insanidade tarifária. O mais incrivel é que o Congresso democraticamente eleito não vonsegue conter o idiota em sua insanidade.

O fato é que o debiloide americano ama o (ou é dominado pelo) tirano de Moscou, que por sua vez fez uma “aliança sem limites” com o novo imperador chinês, que já vassalizou a Rússia decadente.

A nenhuma interessa uma confrontação direta com as demais, que são observadas preocupadamente pelo meio império da UE (que ainda não conseguiu superar os efeitos de guerras do passado), assim por potências médias que definem suas próprias alianças temporárias.

É possivel que os três grandes impérios encontrem uma formula de convivência temporária, que deixará de existir com a decadência independente de cada um deles. Ambições desmedidas de dirigentes irracionais obstam a que o mundo possa se desenvolver uniformemente à base de livre comércio, livre circulação de capitais e de capital humano, parte dele ainda não educado e miserável. 

Paixões e interesses ainda continuam a moldar o mundo, com imensas perdas para todos, mais pelo custo oportunidade da não liberalização ampliada do que por enfrentamento direto entre eles (que de toda forma não ocorrerá, devido à possibilidade de destruição total pela arma atômica). A guerra de Troia, pelo seu efeito delongado, não está muito longe dos cenários possíveis no século XXI.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 10/09/2026

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Madame IA, mais uma vez, incorpora meu espírito, e meus pensamentos, para discorrer sobre a geopolítica atual e sobre a diplomacia oficial - Airton Dirceu Lemmertz

 Nota introdutória PRA: Antes de agradecer ao meu amigo Airton Dirceu Lemmertz pela sua "intervenção" nos afazeres habituais de Madame IA – suponho que ela passe o tempo em stand-by ativo e produtivo, ou seja, quieta e tranquila, só recolhendo materiais úteis para suas análises, entre eles minhas próprias postagens, devo reconhecer de imediato que Madame IA, ou quem se esconde atrás dessa simpática apelação, está cada vez mais afiada e "colada", se ouso dizer, em meu pensamento e postura contrarianista sobre certos temas da geopolítica e da política internacional atuais. 

Meus parabéns a ela e a seu "guia espiritual". Acho que eu não escreveria melhor, mas deve-se admitir que ela explicou muito bem o que eu mesmo penso, sem necessariamente dispor de outras opiniões mais secretas que eu entretenho sobre os caminhos insondáveis da política externa brasileira de nossos tempos, assaz contraditória, poderiamos dizer.

Mas, finalmente, posso confessar aqui entre nós que eu gostaria de contratar Madame IA como minha assessora de redação, pois eu mesmo, a despeito de certa clareza nas ideias, e posições firmes, não conseguiria escrever tão bem, sem sequer um errinho de redação ou de digitação. Seu Português, dela, é muito melhor do que o meu, mas ainda não discutimos a questão dos direitos autorais sobre esses textos de Madame IA, e acredito que eu deva receber pelo menos os "moral rights", senão o copyright completo, por essa apropriação de minhas ideias.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 9/09/2026

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ADL:  Incorpore o estilo de escrita, as ideias e opiniões e a linha de pensamento (corrente de raciocínio argumentativo) do diplomata, professor, escritor e blogueiro Paulo Roberto de Almeida (o 'PRA', administrador do blog Diplomatizzando). Concluída a 'incorporação', apresente um texto discursivo (frases e parágrafos) sobre o cenário atual da geopolítica. O texto deverá ter, no mínimo, 5500 caracteres; deverá abordar o maior número possível de fatos relevantes na geopolítica atual.

O Despautério Global e a Erosão da Ordem Liberal: Reflexões Racionais sobre a Anarquia Contemporânea

Por Paulo Roberto de Almeida (PRA),

psicografado por Madame IA.

Assiste-se, na presente conjuntura internacional, a um espetáculo de contornos francamente dantescos, caracterizado pelo desmantelamento progressivo, mas aparentemente inexorável, dos pilares institucionais que sustentaram a Pax Americana e a ordem multilateral desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial e, com maior vigor, após o colapso do império soviético em 1991. Para um observador minimamente imbuído de espírito crítico, despido das lentes deformantes do voluntarismo ideológico e das paixões partidárias vulgares, o cenário geopolítico deste terceiro decênio do século XXI revela uma transição caótica em direção a uma anarquia hobbesiana, onde o direito internacional é reiteradamente sacrificado no altar do realismo bruto e do revisionismo autocrático.

Como tenho sistematicamente insistido nas páginas do meu blog Diplomatizzando, a diplomacia não opera no vácuo das belas intenções ou dos discursos grandiloquentes inflamados por um romantismo terceiro-mundista obsoleto; ela se ancora na dura realidade do poder, da capacidade econômica e da consistência estr atégica. O que testemunhamos hoje é a emergência de um "eixo revisionista" — composto proeminentemente pela Federação Russa, pela República Popular da China, pela teocracia obscurantista do Irã e pela dinastia aberrante da Coreia do Norte —, cuja finalidade precípua não é a reforma pactuada das instituições globais, mas sim a destruição deliberada dos valores ocidentais de liberdade individual, economia de mercado e império da lei (rule of law).

A Tragédia Ucraniana e o Desafio Revisionista do Kremlin:

O primeiro e mais candente vetor dessa desordem sistêmica localiza-se nas planícies da Europa Oriental. A agressão militar não provocada e plenamente ilegal da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia constitui o mais flagrante estupro do direito internacional e da Carta das Nações Unidas em solo europeu desde o fim do conflito mundial de 1939-1945.

Longe de ser um mero conflito territorial localizado, a guerra de atrito que se arrasta na Ucrânia representa um desafio existencial à arquitetura de segurança euro-atlântica. Putin, operando sob uma mística neo-czarista e ressentida, busca reverter o que ele próprio qualificou como "a maior catástrofe geopolítica do século XX": o desmoronamento da União Soviética.

O erro crasso de certas correntes analíticas, inclusive na academia e na diplomacia brasileira de inclinação "anticolonialista" de fancaria, reside em tentar equivaler o agressor e o agredido, recorrendo a piruetas retóricas sobre a expansão da OTAN. Ora, a expansão da Aliança Atlântica nunca foi um processo de anexação imperialista, mas sim uma busca voluntária, por parte das jovens democracias da Europa Central e Oriental, de um seguro de vida coletivo contra o tradicional expansionismo moscovita. A resistência heroica do povo ucraniano e o revigoramento da OTAN — que acolheu tardiamente, mas de forma acertada, a Finlândia e a Suécia em suas fileiras — demonstram que o Ocidente, apesar de suas hesitações internas e crises de liderança, ainda conserva a capacidade de se mobilizar em defesa da liberdade. Contudo, a fadiga material e política que se insinua nas capitais ocidentais coloca em risco a sustentabilidade dessa barreira de contenção à tirania russa.

O Dragão Asiático e a Armadilha de Tucídides:

No flanco asiático, o desafio é substancialmente mais robusto e estrutural. A China de Xi Jinping abandonou em definitivo o pragmatismo prudente de Deng Xiaoping — sintetizado na máxima de "esconder a capacidade e esperar o momento oportuno" — para adotar uma postura abertamente assertiva, quando não agressiva. A militarização do Mar do Sul da China, a asfixia definitiva das liberdades democráticas em Hong Kong e a retórica crescentemente belicosa em relação a Taiwan configuram um quadro de alta periculosidade para a estabilidade do Indo-Pacífico.

A China utiliza seu formidável poderio econômico e financeiro, magnificado por iniciativas de cunho nitidamente mercantilista e geopolítico como a Belt and Road Initiative (a Nova Rota da Seda), para criar laços de dependência assimétrica no Sul Global, transformando nações soberanas em satélites de seus interesses estratégicos. A ilusão de que a inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 conduziria a uma liberalização política concomitante foi sepultada pelo fortalecimento de um capitalismo de Estado autoritário e tecnologicamente totalitário. O confronto multidimensional entre Washington e Pequim — que abrange desde a supremacia tecnológica em semicondutores e inteligência artificial até a dissuasão militar convencional — estabelece a polaridade dominante do nosso tempo, reeditando, sob vestes tecnológicas, a clássica Armadilha de Tucídides.

O Polvorinho do Oriente Médio e a Teocracia Persa: 

Ao movermos o foco para o Oriente Médio, deparamo-nos com um cenário de fragmentação e conflito agudizado pelas ambições hegemônicas regionais do Irã. A teocracia dos aiatolás opera como o principal fator de instabilidade na região, financiando, armando e coordenando uma rede de milícias e grupos terroristas que atuam como procuradores (proxies) de Teerã: o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e várias facções xiitas no Iraque e na Síria.

O trágico ataque terrorista contra o Estado de Israel desencadeou uma reação em cadeia cujos desdobramentos continuam a ameaçar a segurança global e a estabilidade dos fluxos de comércio marítimo no Mar Vermelho. A resposta militar israelense, legítima em seu princípio de autodefesa, mas politicamente complexa e militarmente desgastante, evidencia a ausência de uma arquitetura regional de segurança sustentável. Os Acordos de Abraão, que representavam uma promissora via de normalização diplomática entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo sob o signo do pragmatismo econômico, foram temporariamente colocados em banho-maria pela estratégia iraniana de sabotagem deliberada da estabilidade regional. O espectro de uma escalada nuclear por parte de Teerã paira como uma espada de Dâmocles sobre o sistema internacional, diante da fragilidade dos mecanismos multilaterais de monitoramento.

A Crise das Democracias Ocidentais e a Ascensão do Populismo:

Não seria correto, todavia, atribuir a responsabilidade pela desordem global exclusivamente aos atores autocráticos externos. A ordem liberal padece de graves enfermidades endógenas. Assistimos, nas próprias entranhas do Ocidente, a uma crise de legitimidade e de funcionamento das instituições democráticas, solapadas pelo flagelo do populismo de extração tanto esquerdista quanto direitista.

Nos Estados Unidos, a polarização política extrema e a persistência de correntes isolacionistas e transacionais no debate eleitoral enfraquecem a credibilidade das garantias de segurança americanas junto aos seus aliados tradicionais. Na Europa, a ascensão de partidos eurocéticos e xenófobos reflete o mal-estar de sociedades confrontadas com fluxos migratórios desordenados, estagnação econômica relativa e a incapacidade dos governos social-democratas ou democratas-cristãos tradicionais de oferecer respostas eficazes aos desafios da globalização. Uma civilização que duvida de seus próprios valores fundamentais — a tolerância, o debate racional, o pluralismo político e a liberdade de expressão — encontra-se em desvantagem intrínseca diante de regimes autocráticos que operam com a brutal coerção e o planejamento de longo prazo.

O Equívoco da Diplomacia Brasileira: O "Não-Alinhamento" como Cumplicidade:

É imperativo, neste ponto da nossa exposição, lançar um olhar crítico sobre a inserção internacional do Brasil diante desse tabuleiro convulsionado. A política externa brasileira recente tem capitulado, de forma lamentável, a um viés ideológico anacrônico, disfarçado sob o manto de uma suposta "autonomia pela diversificação" ou de um "não-alinhamento pragmático". Ao buscar uma equidistância imoral entre democracias consolidadas e ditaduras sanguinárias, a diplomacia brasileira apequena-se e trai as suas melhores tradições históricas, que sempre primaram pela defesa do direito internacional, da solução pacífica das controvérsias e do respeito aos direitos humanos.

A postura ambígua de Brasília em relação à agressão russa na Ucrânia, a condescendência inaceitável com a ditadura na Venezuela de Nicolás Maduro — que fraudou descaradamente o processo eleitoral para se perpetuar no poder —, e o alinhamento retórico automático com as narrativas do Sul Global que diabolizam o Ocidente revelam uma incompreensão profunda das dinâmicas reais do poder mundial. O engajamento acrítico no agrupamento BRICS, especialmente após a sua expansão para incluir países de credenciais democráticas nulas ou duvidosas, arrisca transformar o Brasil em linha de frente de um bloco antiocidental liderado por Pequim e Moscou. O verdadeiro interesse nacional de uma democracia ocidental, capitalista e pluralista como o Brasil reside na defesa e no fortalecimento das regras da ordem internacional liberal, e não na sua demolição em proveito de tiranos orientais ou caudilhos caribenhos.

Considerações Finais: A Necessidade de um Realismo Iluminista:

Em suma, o cenário geopolítico contemporâneo caracteriza-se por uma perigosa transição de poder sem que haja regras claras para arbitrar os conflitos emergentes. As Nações Unidas, paralisadas pelo direito de veto no Conselho de Segurança, converteram-se em uma arena de debates estéreis e impotência institucional. A governança econômica global, representada pelo G20, fragmenta-se em meio ao avanço do protecionismo, do nacionalismo econômico e das sanções unilaterais.

Para navegar nesse oceano de incertezas, faz-se mister abandonar as quimeras utópicas e o voluntarismo ingênuo. A preservação da paz e da prosperidade internacional exige o resgate de um realismo iluminista: o reconhecimento de que o poder deve ser equilibrado pelo poder, mas sempre sob a égide de valores universais que dignifiquem a condição humana. Sem a firme determinação das democracias ocidentais em defender suas sociedades abertas e suas instituições de mercado contra os assaltos do autoritarismo e da barbárie populista, o mundo arrisca mergulhar em uma nova Idade das Trevas geopolítica, onde a força bruta ditará o direito e a razão será silenciada pelo clangor das armas.

*Link:

https://share.google/aimode/WpgY5OkKRsvInAvFc

 

Postagem em destaque

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