domingo, 22 de março de 2026

Postura anti-OCDE do governo Lula prejudica o Brasil - Transparência Internacional

 O governo atual deixou claro que não pleiteará o ingresso do Brasil na OCDE. Considerando o que temos visto ultimamente nos planos econômico e institucional entre nós, talvez nem a OCDE ainda tenha interesse nesse ingresso.

Link: https://x.com/TI_InterBr/status/2035105032090395053?s=20


Brasil é denunciado na OCDE por descumprimento da Convenção contra o Suborno Transnacional
  • Relatório da Transparência Internacional – Brasil foi apresentado ao Grupo de Trabalho Antissuborno da OCDE, que se reuniu esta semana em Paris.
  • O governo brasileiro teve que explicar o descumprimento de seus compromissos internacionais anticorrupção, especialmente os impactos da decisão do min. Toffoli que anulou, em 2023, todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht.
  • A Transparência Internacional – Brasil denunciou que, passados dois anos e meio, os recursos apresentados contra a decisão monocrática sequer foram analisados, causando impunidade generalizada no Brasil e em pelo menos 8 países.
PARIS, 20 de março de 2026 - A denunciou o Brasil, junto ao Grupo de Trabalho Antissuborno (Working Group on Bribery, WGB) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), pelo reiterado descumprimento da Convenção contra o Suborno Transnacional.
Terminou na última quarta-feira (18/mar), na sede da OCDE em Paris, a reunião plenária do WGB, na qual foi pautada uma inquirição, ao governo brasileiro, sobre pontos identificados como pendentes de cumprimento pelo país. Na última avaliação do Brasil — a chamada “”, que ocorreu em 2023 — foram destacados diversos pontos de inconformidade com a Convenção, que foram submetidos a monitoramento pelo WGB. O primeiro e mais grave deles foi a decisão monocrática do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF) que, naquele ano, havia anulado todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht.
Em um detalhado relatório sobre violações pelo Brasil de seus compromissos junto à Convenção, a Transparência Internacional - Brasil alertou que, passados dois anos e meio, os três recursos contra a decisão monocrática do ministro Dias Toffoli sequer foram analisados, o que já provocou anulação generalizada de processos e beneficiou mais de 100 réus no Brasil e 28 réus em, pelo menos, 8 jurisdições estrangeiras.
A denúncia acrescenta que decisões posteriores do ministro Toffoli têm, também, impedido que autoridades brasileiras cooperem com suas contrapartes estrangeiras, em investigações relacionadas à corrupção da Odebrecht no exterior. Este impedimento caracteriza flagrante violação do artigo 9 da Convenção, que compromete os países signatário a prestarem cooperação internacional.
O relatório da Transparência Internacional - Brasil também chamou atenção para o conflito de interesses que envolve a decisão, já que o próprio ministro Toffoli foi citado pelo principal delator do caso, Marcelo Odebrecht, como o “amigo do amigo de meu pai” em e-mail com tratativas sobre suposto suborno. Portanto, o juiz anulou provas que poderiam, potencialmente, servir a uma investigação contra ele próprio.
Na prática, a decisão monocrática de Toffoli desmontou integralmente, no âmbito penal, a investigação sobre o maior e mais bem documentado caso de suborno transnacional da história.
“Depois das empresas brasileiras exportarem corrupção, as instituições brasileiras estão exportando impunidade. A decisão monocrática do ministro Toffoli, que anulou todas as provas da Odebrecht, lançou uma bomba atômica de impunidade no mundo. Se o STF não fez nada diante disso e ignora, por mais de dois anos, os recursos contra a decisão, esperamos que a comunidade internacional faça algo a respeito, que os países signatários adotem medidas e não permitam que um juiz sozinho desmoralize a Convenção contra o Suborno Transnacional da OCDE” BRUNO BRANDÃO, diretor-executivo da Transparência Internacional - Brasil, que apresentou pessoalmente o relatório a delegações de diversos países junto ao Grupo de Trabalho Antissuborno em Paris.
Além do desmonte da responsabilização penal do caso Odebrecht, que levou à impunidade de mais de uma centena de criminosos, inclusive confessos, o relatório da Transparência Internacional - Brasil também denunciou que as empresas tampouco pagaram as multas. O Brasil havia reportado ao WGB/OCDE que havia sancionado três empresas por suborno transnacional: Odebrecht, OAS e Engevix. Contudo, o relatório demonstrou que, oito anos após a assinatura dos acordos, nenhuma das empresas pagou mais que 6% da multa devida, conforme demonstrado pelo Painel de Acordos de Leniência da própria CGU. Além disso, essas empresas serão beneficiadas por descontos extraordinários na negociação conduzida pela CGU. Neste processo de negociação, as empresas invocam um “jabuti” inserido em uma lei sobre financiamento estudantil aprovada em 2022 no Congresso, que lhes permite utilizar créditos tributários para reduzir significativamente — cerca de 50% — o valor de suas punições pecuniárias.
Por fim, o relatório também chamou atenção para o assédio contra juízes, procuradores, policiais e auditores fiscais trabalhando em casos de suposta corrupção de poderosos, destacando o caso recente dos auditores da Receita Federal investigados no STF e do presidente da Unafisco, Kleber Cabral, incluído no inquérito das fake news. A Transparência Internacional – Brasil relembrou no documento seu próprio histórico, submetida a assédio judicial sistemático no país.

A Controladoria-Geral da União (CGU), que lidera a delegação brasileira e esteve representada em Paris pelo ministro Vinícius Carvalho, publicou um documento em resposta ao relatório da Transparência Internacional - Brasil. A CGU argumenta que o governo está cumprindo seu papel e que o órgão possui as provas preservadas da Odebrecht, pois as recebeu diretamente da empresa (incluindo os arquivos digitais dos sistemas “Drousys” e “My Web Day”, que registravam as comunicações e transações do departamento de suborno da companhia) e que, portanto, a decisão do ministro Toffoli não afetaria seu uso.
O relatório do governo, no entanto, não rechaça o fato da dimensão criminal do caso ter sido desmontada e tampouco comenta sobre os descontos extraordinários concedidos às multas das empresas corruptas. Mais importante, não explica por quê, se o Executivo mantém consigo as provas válidas, com cadeia de custódia preservada, não foram simplesmente compartilhadas com o Judiciário, evitando o desmonte completo da maior investigação sobre corrupção transnacional da história.

O resultado oficial da reunião do WGB deve ser publicado pela OCDE nos próximos dias, descrevendo as medidas adotadas.



Guerra contra o Irã: O Vietnã de Trump? - Sergio Abreu e Lima Florencio (Interesse Nacional)

Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump?
Sergio Abreu e Lima Florencio
Interesse Nacional, 19/03/2026

A ofensiva contra o país persa nasce da convergência entre a busca de Donald Trump por afirmar a supremacia militar dos EUA e a pressão estratégica de Israel. Embora o conflito represente risco limitado para Tel Aviv, pode se tornar uma nova derrota para Washington: guerra longa, impopular internamente e enfrentando a histórica resistência iraniana, com impactos energéticos, geopolíticos e econômicos globais

A guerra contra o Irã resulta da confluência de duas forças: a obsessão de Trump em demonstrar a supremacia militar dos EUA ao mundo e a crença fundamentalista de Netanyahu de que o regime iraniano é ameaça existencial para Israel. 

A guerra traz riscos limitados para Israel, por sua indiscutível superioridade militar diante de um Irã fragilizado após dois anos de conflagração. 

Ao contrário, para os EUA, o conflito tem potencial para ser um novo Vietnã, dada a histórica resistência da civilização iraniana à dominação das grandes potências. 

‘Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial’

“O tempo é o senhor da razão”.  Essa conhecida máxima  precisa ser adaptada, no caso, para “o tempo é o senhor da guerra”. Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial, pois conta com a oposição de cerca de 70% da população. Também exige vitória antes das eleições de meio de mandato em novembro próximo. 

Ao contrário, o regime teocrático-militar iraniano exibe maior resistência ao tempo. A infraestrutura está sendo devastada pelas forças armadas de Israel e EUA, mas o país conta com três poderosos pilares de defesa e de ataque: 

(i) grande arsenal de mísseis de médio alcance e milhares de drones capazes de destruir parte da infraestrutura física e das instalações petrolíferas dos vizinhos; 
(ii) bloqueio do Estreito de Ormuz, rota de 20% do petróleo do mundo; e 
(iii)  imaginário coletivo moldado tanto pelo espírito de luta e martírio do xiismo, como pela histórica resistência à dominação das grandes potências.
Esses fenômenos eram bem conhecidos por todos. A pergunta relevante é: Por que os EUA decidiram se aventurar numa guerra em que  poderiam se transformar na principal vítima? A resposta tem ao menos três dimensões: geopolítica, regional e o imaginário iraniano. 

Dimensão Geopolítica 
A obsessão de Trump em demonstrar supremacia militar ao mundo é uma tentativa de compensar o declínio relativo dos EUA, em contraste com a ascensão da China. 

Em 1970, os EUA representavam 28% do PIB mundial, e a China, menos de 3%. Em 2025, os indicadores foram, respectivamente, 27% e 17%. 

Nos últimos 15 anos, os EUA cresceram em média 2,5%, e a China, 7%. Desde 1978, com as reformas de Den Xiaoping, a China manteve taxas de crescimento econômico entre 8% e 10%. 

A participação no comércio mundial dos EUA, em 1980, era 13%, e a da China, inferior a 1%. Em 2023, a equação se invertia: EUA com 8% e a China, com 15%. 

‘A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países’

A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países. A China forma por ano cerca de 1,5 milhão de engenheiros, em comparação com 200 mil nos EUA. Em papers científicos, a China responde por 28,5% do total, em contraste com 13% dos EUA.

Apesar desses indicadores de declínio relativo, os EUA são a maior potência militar e a única capaz de atuar em todos os continentes. Para compensar o relativo declínio norte-americano no campo econômico, comercial e tecnológico, Trump tenta demonstrar ao mundo a supremacia militar dos EUA. O intervencionismo é o instrumento dessa estratégia compensatória.

Dimensão regional
Na esfera das Américas, as intervenções foram bem-sucedidas e de baixo custo. No Panamá, obrigou o país a romper contratos firmados com a China para exploração do Canal. Na Venezuela, após o sequestro de Maduro, preservou a ditadura chavista, mas o regime de exploração de petróleo e a política externa passaram a ser ditadas por Washington. 

No Oriente Médio, os resultados foram muito mais controvertidos. Apesar da morte de cerca de 700 mil palestinos, da destruição de mais de 70% da infraestrutura da Faixa de Gaza e da tragédia humanitária, o Hamas ainda sobrevive. Mas esses funestos resultados, produziram saldo militar positivo para Israel, que consolidou indiscutível supremacia na região. O Irã saiu inferiorizado em termos militares, nucleares e com proxies enfraquecidos – Hamas, Hezbollah, Houthis, milícias na Síria e no Iraque. 

Israel reafirmou superioridade com os ataques cirúrgicos, de junho último, contra as instalações nucleares e, sobretudo, com a tímida represália iraniana. 

‘Essa sequência de exitosas intervenções militares convenceu Trump a dobrar a aposta’

Essa sequência de exitosas intervenções militares cirúrgicas (Venezuela e Irã) convenceu Trump – sob decisiva influência de Netanyahu – a dobrar a aposta e se engajar na política de regime change. 

Foi a estrada do fracasso.

A dimensão do imaginário coletivo iraniano
Desde 1979, o Irã é uma república revolucionária cercada por monarquias conservadoras. Essa condição explica muito do radicalismo, consolidado em dois momentos decisivos – a tomada dos reféns na embaixada norte-americana e a guerra Irã-Iraque. 

Apesar desse traço estrutural, o regime viveu diversas fases que sinalizavam abertura econômica, liberalização de costumes e flexibilização política. 

‘O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, o Líder Supremo, e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica’

O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, eleito pelo voto popular; o Líder Supremo, escolhido pela Assembleia de Peritos de 88 clérigos; e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, com cerca de 200 mil membros, que controla a milícia Basij e responde diretamente ao Líder Supremo. 

Ao longo de quase cinco décadas de Revolução, grandes rebeliões populares foram ocorrendo a cada dez anos. Era a resposta indignada da sociedade a um regime que gastava mais com armamento e ajuda financeira aos proxies do que com seu povo. O divórcio entre Estado e sociedade refletia frustração e fadiga com a Revolução.

Esse quadro doméstico, somado à inferioridade militar resultante dos ataques israelenses aos proxies e ao território iraniano na Guerra de 12 dias, fragilizou o país. 

‘Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea’

Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea. O objetivo era derrubar, com bombardeios aéreos cirúrgicos, um regime com meio século de existência, com forte aparato teocrático-militar, contestado pelas classes médias, mas com apoio das camadas mais pobres e de milícias financiadas pelo governo.  

Foi uma sequência de desastrosos erros anunciados. 

Primeiro, ignorar a histórica trajetória iraniana de luta contra grandes potências – Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos. 

Segundo, subestimar a ousadia iraniana de asfixiar o mercado mundial de petróleo com o fechamento do estreito de Ormuz. 

Terceiro, ignorar as advertências das monarquias do Golfo para não atacar o Irã, diante da provável retaliação, com desastrosas consequências para suas dinâmicas mas frágeis economias. 

Daí surgiu o erro fatal – colocar o mundo em crise de muitas dimensões – econômica, militar, energética e geopolítica. Refém de Israel, os EUA insistiram na guerra. 

A Revolução Iraniana derrotou Carter. A guerra contra o Irã poderá ser o Vietnã de Trump.   

Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.

Por que a Ucrânia é tão importante para a Rússia? - ISW

 Por que a Ucrânia é tão importante para a Rússia?

É só ver dois tipos de mapas: um puramente geográfico, outro decisivamente importante para a origem histórica da Rússia não só como Estado, mas sobretudo como nação com uma cultura e identidade coletiva distintivas.

Repare bem na situação da Ucrânia em relação à Rússia e vice-versa.

1 - A Ucrânia ocupa toda a fronteira sul da Rússia.

2 - O litoral ucraniano é logo ali colado ao estreito litoral que a Rússia tem no Mar Negro e lhe dá acesso ao Mediterrâneo (mesmo excluindo dessa conta agora a península da Crimeia, que já é de fato russa depois da anexação efetuada em 2014, embora ainda tenha status oficial indefinido).

O grande calcanhar-de-Aquiles da Rússia para se projetar no mundo globalizado sempre foi e continua sendo o limitado acesso da Rússia Europeia (onde vivem 75% dos residentes da Rússia) ao litoral realmente útil, pois ela tem uma costa gigantesca (tão gigantesca quanto gelada) voltada para o Mar Ártico e praticamente no Polo Norte, muito pouco utilizada (as mudanças climáticas podem vir a mudar isso daqui a umas gerações, mas estamos no presente).

3 - Toda a fronteira leste da Ucrânia com a Rússia consiste em planícies de estepes e florestas-estepes (ou seja, nada de desertos potencialmente mortais ou vegetação muito densa, difícil de atravessar) ou planaltos baixos com no máximo uns 500 metros de altitude, de modo que basicamente não existe nenhuma fronteira natural bem delineada e, menos ainda, alguma barreira geográfica entre a Ucrânia e a Rússia. Transferir gente, equipamentos e veículos para lá e para cá é simplíssimo.

4 - A partir da Ucrânia, é bem fácil alcançar várias das cidades mais importantes da Rússia, como Rostov-do-Don, Krasnodar, Kursk, Voronej, Volgogrado, Saratov e, sim, até mesmo Moscou.

5 - Ao norte da Ucrânia, Belarus é um aliado quase incondicional da Rússia, então não é um problema no curto a médio prazo, enquanto os 3 países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), que praticamente "fecham" o parco acesso da Rússia ao Mar Báltico e ao Mar do Norte, já são, infelizmente para os russos, uma derrota mais do que consolidada para os esforços diplomáticos e militares russos, definitivamente "puxados" para o lado da OTAN (mapa abaixo).

Numa eventual guerra futura, com certeza seria bem difícil a Rússia conseguir abastecimentos por via marítima nessa parte do seu litoral. Basicamente, exceto pela Ucrânia, que é o ponto de interrogação altamente disputado, a Rússia está hoje rodeada de potenciais rivais da OTAN, aliança sob o controle dos EUA, a oeste e ao sul (Bálcãs, Turquia), bem como por aliados quase certos dos EUA a leste (Japão, Coreia do Sul).

A Ucrânia é para a Rússia, em termos geoestratégicos e políticos, o que o México ou o Canadá é para os EUA. Imaginem só o escarcéu que seria se um dos dois decidisse fazer parte dum tratado de aliança militar mútua com a China ou a Rússia!

Ademais, existe um fator digamos mais "emocional", e não só puramente racional, que é o fato de que:

A Rússia e a Ucrânia são ambas herdeiras dos Rus' de Kiev, a imensa confederação de principados eslavos com suas origens no domínio e centralização de tribos eslavas por uma elite político-militar minoritária de varangianos (um subgrupo dos nórdicos germânicos vindo da Suécia oriental).

Os russos e ucranianos são dois povos eslavos orientais que não só têm uma origem comum e vários aspectos culturais e linguísticos bem semelhantes, mas também trajetórias políticas que, até certo período, foram umbilicalmente interligadas. A partir de fins da Idade Média, uma identidade mais distintamente ucraniana começou a aparecer, muito ligada à emergência do modo de vida cossaco, bem como sob influência bem mais forte de potências mais ao oeste, como a Confederação Polaco-Lituana.

Muito mais tarde, a Ucrânia voltou a estar junto com os russos sob o domínio do Império Russo, uma derivação expansionista do Grão-Ducado de Moscou, um dos fragmentos do antigo Rus' de Kiev, e essa posição subalterna para com Moscou foi passando de dinastia em dinastia e regime em regime por séculos (tempo bastante para, sem dúvidas, muitos russos começarem a ver a Ucrânia como um território tradicionalmente russo).

Isso continuou até que a Ucrânia, após começar a entrar na onda do nacionalismo que encorajou múltiplos separatismos Europa afora no século XIX, foi posta sob o domínio soviético, sucessor direto do Império Russo. Em 1917, sob a Revolução Socialista, foi declarada pela primeira vez uma república com o nome de Ucrânia e com fronteiras parecidas com as de hoje, e em 1922 a Ucrânia tornou-se uma república (suposta e teoricamente autônoma) da URSS, embora fosse óbvio que os russos é que continuavam sendo a força hegemônica no império soviético.

Assim, a Rússia e a Ucrânia são, mais ou menos, comparáveis a Portugal em relação à Galiza, a Inglaterra em relação à Escócia ou mesmo à Áustria em relação à Alemanha (não fosse ter havido uma uniformização linguística e, um tanto menos, convergência cultural bem mais intensas entre as duas regiões e respectivos povos, nesses dois últimos casos).

Com a industrialização e urbanização aceleradíssimas da União Soviética, processo já começado ainda nos tempos da dinastia Romanov, após meados de 1860–1870, houve uma migração gigantesca de russos para o território ucraniano, sobretudo a metade oriental do país e a península da Crimeia. A Ucrânia, por ter litoral para o Mar Negro, proximidade com o resto da Europa, terras muito férteis e enormes depósitos de carvão mineral (essencial para o início da industrialização), era muito atrativa para a nascente indústria e o comércio internacional.

Consequentemente, o porcentual de russos étnicos e de ucranianos falantes de russo (isto é, não de origem russa, mas preferencialmente usuários do russo como idioma do cotidiano) cresceu muito entre meados do século XIX e fins do século XX, de modo que hoje a Ucrânia é um país na prática bilíngue e com uma vasta minoria que se considera etnicamente russa e quer que esse caráter nacional hoje parcialmente russo, e não só ucraniano, seja reconhecido oficialmente pelo Estado ucraniano.

É natural que, com tantas semelhanças nas raízes culturais, genéticas e sociopolíticas e dezenas de gerações sob as mesmas estruturas governamentais, bem como muitos laços reforçados nos últimos séculos em migrações maciças entre Ucrânia e Rússia, muitos russos tenham passado a ver a Ucrânia como um "país especial", um "aliado natural" ou mesmo uma extensa da civilização da Grande Mãe Rússia, e não como uma nação soberana que é exatamente como qualquer outra nação estrangeira.


O Livro Vermelho do Lula, por Duda Teixeira - Resenha de Paulo Roberto de Almeida

Acabo de ler este livro:

O Livro Vermelho do Lula, por Duda Teixeira
Recomendo enfaticamente. Acabo também de fazer uma resenha, que divulgo abaixo.

5251. “O Livro Vermelho do Lula, de Duda Teixeira”, Brasília, 21 março 2026, 3 p. Resenha do livro do jornalista Duda Teixeira. Publicada, sob o título de “As pérolas do pequeno Timoneiro” na revista Crusoé (23/03/2026; link: https://crusoe.com.br/diario/as-perolas-do-pequeno-timoneiro-lula/); divulgada no blog Diplomatizzando (23/03/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/as-perolas-do-pequeno-timoneiro-lula.html). Relação de Publicados n 1630.

O Livro Vermelho do Lula, por Duda Teixeira

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.


Para quem, como eu, que cresceu politicamente nos anos 1960, quando a principal “novidade” literária no cenário mundial era o Livro Vermelho do Presidente Mao, animador das hordas estudantis chinesas a serviço do Grande Timoneiro – então em luta contra os seus opositores do PCC pelos desastres causados no Grande Salto Para a Frente de 1959-61, que causou a morte, por inanição, de dezenas de milhões de chineses –, a publicação desta coletânea feita pelo jornalista Duda Teixeira de 171 frases do presidente Lula (também do sindicalista, do deputado, do candidato múltiplo) apresenta duas virtudes. A primeira é que o livro não é tão mortífero quanto o livrinho do Mao Tsé-Tung, a segunda é que ela nos fornece 130 páginas de riso, de raiva, de surpresa e até de estupefação, graças ao verdadeiro trabalho de “arqueologia literária” feita por Duda Teixeira, garimpando estas “preciosidades políticas” desde as primeiras “pérolas” de meados dos anos 1970 até este terceiro (talvez não o último) mandato do grande personagem político e social, já em 2026.
O “livro vermelho” de Mao era uma assemblagem de frases retiradas de toda carreira a do antigo guerrilheiro comunista, nos anos 1920, até sua condição de virtual imperador da China do início dos anos 1960, quando elas foram usadas para esvaziar escolas, universidades e sedes locais do PCC, enviando alunos, professores e funcionários para trabalhar nas aldeias mais isoladas e pobres do imenso país asiático, afundando ainda mais um país já debilitado por anos de invasões estrangeiras e uma guerra civil que já tinha eliminado milhões de vítimas inocentes. Já o livro de Duda Teixeira tem qualidades mais desopilantes do que combatentes, pela assemblagem verdadeiramente surpreendente de frases contraditórias, já que se estendem por um período tão longo quanto o livrinho de Mao, mas combinando as afirmações mais antigas, do período sindicalista, às mais recentes, dos seus três (até aqui) mandatos presidenciais.
O exímio trabalho de Duda Teixeira foi justamente o de permitir essa confrontação, na mesma página, de frases perfeitamente opostas em intenção e significado, ainda que por vezes separadas por décadas (outras bem mais próximas). O trabalho de seleção, organização e alinhamento das frases do “Nosso Grande Timoneiro” (introdução em uma página e meia, na qual já constam algumas delas), constando das 128 páginas da seleta feita por Duda é o resultado de um meticuloso esforço de pesquisa e compilação de mais de três centenas de afirmações próprias, respostas em entrevistas, pensamentos expressos voluntariamente e declarações oficiais (discursos gravados pela Imprensa Nacional, cuja fontes constam das duas últimas páginas do livro. Contei 30 veículos da imprensa (grande e pequena, nacional e estrangeira), oito programas de TV, discursos presidenciais, depoimentos para a Lava Jato e a Comissão de Ética do PT, site do TSE e mais seis livros de autores conhecidos, respeitáveis pela sua credibilidade.
A relação de Lula com o dinheiro – a miséria própria na origem, o salário exíguo como torneiro mecânico, os ganhos obtidos como dirigente sindical, a ascensão como como deputado constituinte, como “dono monopolista” do PT e como presidente – vem realçada em muitas páginas, e não me surpreenderia se Lula tentasse obter novas vantagens do jornalista como verdadeiro detentor dos “direitos autorais” sobre a parte principal do livro. Outro aspecto a ser enfatizado é uma característica que ele partilha com um outro grande personagem da história mundial: Lula, como De Gaulle, fala dele na terceira pessoa, o que evidencia um irrecusável orgulho e entusiasmo com si próprio. O próprio Lula não se considera uma pessoa como todas as outras: “Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês”, aqui confirmando uma outra de suas características, já com copyright alheio, quando se afirma uma “metamorfose ambulante”.
Duda Teixeira traça outras comparações: “Se o chinês Mao Tsé-Tung ganhou o seu Livro Vermelho, o líbio Muamar Kadafi publicou o Livro Verde e o norte-coreano Kim Jong Il escreveu o Sobre a Filosofia Juche, chegou a hora de Lula ganhar uma obra com seus principais pensamentos”.
Alguns desses “pensamentos” revelam um conhecimento ingênuo, ou primário, da história e da geografia mundiais – como inventar uma visita de Napoleão à China (2003), ou desejar um Mercosul que se estendesse da “Terra do Fogo à Patagônia” (2006) –, ao passo que outros são mais preocupantes, como sua admiração, no início da carreira política, por Hitler (pela sua “disposição, força, dedicação”, 1979), ou desejar trazer Putin ao Brasil, a despeito de um mandado de prisão pelo TPI por crimes de guerra e contra a humanidade (2023), tendo ainda visitado Putin em 2025, indiferente à guerra de agressão à Ucrânia.
Algumas declarações são apenas risíveis, como desconhecer “homossexualismo na classe operária” (1979), outras simploriamente sinceras, revelando uma apreciação etílica das mais evidentes: “Política é como uma boa cachaça. Você toma a primeira dose e não tem como parar mais. Só quando termina a garrafa” (2016). Fui pessoalmente testemunha, quando trabalhei na Presidência da República ao início do primeiro mandato, de sua tentativa raivosa de expulsar o correspondente do New York Times no Brasil, por revelar, em matéria publicada no suplemento dominical do jornal, um fato notório, o gosto imoderado de Lula por bebidas fortes: lembro-me que o governo ficou praticamente paralisado durante uma semana inteira entre expulsar ou não o jornalista Larry Rother, um grande amigo do Brasil.
O público brasileiro bem-informado conhece, ou vai relembrar, graças à garimpagem de Duda Teixeira, as frases mais impactantes de Lula, ao passo que os interessados em política externa, ou diplomatas como eu mesmo, estamos redescobrindo as afirmações mais controversas que ele já fez nessa área, algumas das quais contradizem diretamente várias cláusulas de relações internacionais inscritas em nossa Constituição, como a não interferência nos assuntos internos de outros Estados – Lula sempre apoiou, publicamente, os candidatos de esquerda na América Latina – ou o respeito aos direitos humanos, violados em quase todas as ditaduras que sempre contaram com sua “solidariedade”. A seleção de Duda Teixeira traz os exemplos mais eloquentes – e mais chocantes – dessa identidade de Lula com regimes autoritários (inclusive de direita, como é o caso da Rússia ou do Irã, apenas porque partilham do antiamericanismo anacrônico de Lula e do PT).
O livro talvez possa ter novas edições, pois como disse o próprio Lula, “Eu ainda preciso disputar umas dez eleições, mais uns 20 anos. O Lula de bengala disputando eleição”, isso depois de ter dito, na campanha presidencial de 2022 que seria “um presidente de um mandato só”. Pode-se espantar, divertir ou discordar de Lula, mas o que não se pode esperar é coerência. Numa nova e mais completa edição deste livro poderemos ter a confirmação dessa qualidade mais cristalina do político que pretende superar Getúlio Vargas em anos de poder, este, 19 ao todo, dos quais 8 como ditador. Lula não vai precisar recorrer à modalidade, mas certamente não vai se furtar de continuar ilustrando um novo Livro Vermelho...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5251, 21 março 2026, 3 p.



sábado, 21 de março de 2026

Master e JBS pagaram R$ 18 milhões a empresa que contratou filho de Nunes Marques, do STF (O Tempo)

Ricardo Bergamini escreveu:

A fraude do Banco Master é prova cabal e irrefutável do estado de putrefação do poder público brasileiro, colocando os membros do PCC e CV como pivetes e trombadinhas (Ricardo Bergamini)

Prezados Senhores,

Com o atual estado de insegurança jurídica do STF, o Brasil terá dificuldades em rolar a sua dívida de R$ 11,5 trilhões (89,83% d0 PIB).
Devido ao volume de escândalos diários, o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar, ou seja: o Brasil desmoralizou o escândalo.
Somente os canalhas, pulhas e vigaristas irão tentar politizar o assunto. O Brasil entrou em uma estrada sem retornos.
Cabe lembrar aos incautos que a liquidação dessa fraude de pirâmide financeira não abalou o mercado, mas sim a interferência política de um problema técnico.
Com a minha experiência no mercado financeiro garanto que todas as fontes que abastecem de informações os jornalistas são do mercado financeiro, que irão demolir esse bando refece de demônios soltos no poder público brasileiro, visto que não existe mercado financeiro sem segurança jurídica.
Mercado Financeiro é composto de milhões de pequenos poupadores, com poupança média per capita de R$ 1.500,00. Com isso, vamos apoiar os pequenos poupadores. Expulsando os demônios encastelados no poder público brasileiro corrupto.
O chamado Comitê Consultivo e Estratégico do Banco Master — estrutura formada para assessorar a instituição — contou com nomes de grande relevância no cenário jurídico e econômico brasileiro.
Entre os integrantes estavam:
Ricardo Lewandowski, ministro aposentado do STF e atual ministro da Justiça e Segurança Pública;
Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula e Temer;
Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda;
Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.
Michel Temer contratado para negociar a venda do Banco Master para o BRB
Para quem usa o argumento de precipitação do BCB, cabe informar que esse delinquente está sendo investigado desde abril de 2024.
Se essa putaria não for resolvida, em breve, o Brasil corre risco sistêmico de confiança: em dezembro de 2025, o volume de operações de crédito foi de R$ 7.122,6 bilhões (55,9% do PIB), Sempre lembrando que essa montanha de dinheiro é de milhões de pequenos poupadores.

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Master e JBS pagaram R$ 18 milhões a empresa que contratou filho de Nunes Marques, do STF

Kevin de Carvalho Marques, que é advogado e tem 25 anos, é o único dono do escritório que faturou com serviços prestados à Consult

O Tempo, 19 de março de 2026

Além dos pagamentos do Master ao filho, o telefone celular de Vorcaro apreendido pela PF também traz registros de conversas dele com o próprio Kassio Nunes Marques

BRASÍLIA - Uma empresa de consultoria recebeu ao menos R$ 18 milhões do Banco Master e da JBS. Parte dos valores foi repassado ao filho do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre agosto de 2024 e julho de 2025, conforme relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações da instituição bancária de Daniel Vorcaro, apontado como líder de uma série de fraudes financeiras.

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Carlos Andreazza: O escudo Gilmar O Estado de S. Paulo

O escudo Gilmar

Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo, sábado, 21 de março de 2026

O acordo sério que se urde não é o de delação. É o de empastelamento. Para que nunca saibamos o que se comprou quando comprada aquela parte do hotel. Para que nunca saibamos o que se contratou quando contratado aquele escritório de advocacia. (Ou aquela consultoria.) Para que nunca saibamos do que tratavam quando tratavam sobre bloquear algo.

O caso Master bateu no teto – nas togas – das possibilidades investigativas deste país. E a história nos ensina que aqui paramos. O caso Master chegou ao Supremo e o Brasil voltou ao lugar em que decidirá pela acomodação; o que significa asfixiar a investigação. Chegamos de novo – a história se repete – a Dias Toffoli, vários “os amigos dos amigos” de alguém que precisa ter a ação contra si bloqueada. Vários agora os que precisam ter as ações contra si bloqueadas.

Não é a história que se repete. A história nos ensina. Não saímos do lugar. Desse lugar tendo saído – por Dias Toffoli, para Dias Toffoli – o inquérito xandônico onipresente e infinito. Desde esse lugar tendo se procedido – por Dias Toffoli – à destruição de provas sobre corrupção. Dias Toffoli é a fachada. Expressão de que o limite se aproxima.

Chegou-se ao momento em que advogado de provável delator precisa garantir que a colaboração do cliente será “séria”. Garantia necessária porque o banqueiro passara a testar mercados sobre a hipótese de uma delação seletiva, poupados ministros do Supremo. Não há mesmo estímulos para que fale de suas relações com Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, membros do tribunal que homologará o seu acordo e que o julgará. Os dois primeiros ainda membros do clube do uísque londrino de Vorcaro, em cuja mesa também se sentaram Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, chefes das instituições portas-de-entrada à delação.

Não voltamos ao mesmo lugar. Nunca saímos do lugar. Não há razões para crer em que seja séria a delação. Estão aí as gestões de Gilmar Mendes – baixado o escudo Gilmar – para evidenciar a impossibilidade de que ministros do STF sejam investigados. Ele tranca a Corte e manda recados. Não se pode saber nem quanto nem de quem a empresa de Dias Toffoli recebeu em suas transações com a teia vorcárica. Tampouco se pode saber quanto e a quem o fundo sócio da empresa de Dias Toffoli pagou – fundo que nos levará à Reag, enredada na Operação Carbono Oculto, sobre trânsitos entre PCC e mercado financeiro.

Mendes criou uma prevenção-puxadinho para si – relatorblindador de tudo quanto se refira à busca por dados sobre relações de ministros-empresários com Vorcaro. Dias Toffoli – a proteção a Dias Toffoli – sendo apenas objeto de partida. O cerceamento à prerrogativa investigatória das CPI, apenas parte do projeto. O recado é também ao banqueiro. Não valerá o esforço.

Entregar políticos do centrão bolsonarista, governadores ferrados, o PT baiano e burocratas do Banco Central é fácil – e o acordo que se tece poderia fazer ser suficiente. A delação de Vorcaro só será séria se detalhar também suas relações e de seus zetteis com ministros do STF. Não será.

Trumpismo em Cuba - Rubens Barbosa (Editorial Interesse Nacional)

 Trumpismo em Cuba

Rubens Barbosa
Editorial Interesse Nacional, 20/03/2026

As consequências da mudança do governo na Venezuela em Cuba foram devastadoras pelo fim do fornecimento do petróleo (60% importado) subsidiado para o regime de Havana, forçado pelo governo de Washington. O colapso energético levou ao crescimento das dificuldades econômicas, apagões com efeitos diários na vida das pessoas, inclusive na suspensão de serviços em hospitais, […]

As consequências da mudança do governo na Venezuela em Cuba foram devastadoras pelo fim do fornecimento do petróleo (60% importado) subsidiado para o regime de Havana, forçado pelo governo de Washington. O colapso energético levou ao crescimento das dificuldades econômicas, apagões com efeitos diários na vida das pessoas, inclusive na suspensão de serviços em hospitais, falta de combustível nos postos de gasolina, manifestações públicas contra o regime foram alguns dos efeitos negativos.

O governo de Washington apressou-se a anunciar que Cuba seria o próximo alvo, depois do fim da guerra no Irã.

‘O asfixiamento econômico foi justificado por Trump pela “ameaça excepcional” aos EUA, que a Ilha representa’

O asfixiamento econômico pelo bloqueio de petróleo da Venezuela, do México e de outras fontes, pelos EUA, foi justificado por Trump pela “ameaça excepcional” aos EUA, que a Ilha representa, principalmente por suas ligações com a China, a Rússia e o Irã.

Na semana passada, a Casa Branca anunciou que Cuba poderia ser alvo de uma tomada amigável de poder, se as negociações não avançarem.

Cuba (assim como Israel) é uma questão de política interna nos EUA pelo grande número de imigrantes cubanos, especialmente em Miami, e pelo apoio financeiro nas eleições. Liderados por Marco Rubio, a intervenção norte-americana é apoiada pela quase totalidade dos eleitores de Trump.

‘Poucas vozes se fazem ouvir contra mais um exemplo da agressiva política externa de Washington’

Poucas vozes se fazem ouvir contra mais um exemplo da agressiva política externa de Washington. O senador Democrata, Tim Kaine, apresentou proposta legislativa, baseada no War Power Act para impedir que Trump realize operações militares ou bloqueio naval contra Cuba, sem autorização do Congresso. Nesta semana, Trump declarou acreditar que “terei a honra de tomar Cuba, de alguma forma, libertando-a. Posso fazer o que quiser com ela”.

A decapitação do regime chavista na Venezuela pelos EUA com a permanência do regime ideológico, autoritário e corrupto no poder, parece ser o modelo que o governo Trump vai utilizar em Cuba, sem necessidade de violência, mas pela negociação.

‘Essa situação levou o regime cubano a aceitar conversar com os EUA’

Essa situação levou o regime cubano a aceitar conversar com os EUA. O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, anunciou ter mantido conversações com membros do governo norte-americano após três meses do embargo de petróleo a ilha. As conversas foram orientadas para “buscar soluções por meio do diálogo, para as diferenças que temos”.

O México, que também suspendeu o fornecimento de petróleo a Cuba, criticou o bloqueio norte-americano e afirmou que seu governo atuou na promoção do diálogo entre os dois países. Já como resultado dessas conversações, a exemplo da Venezuela, o governo de Havana anunciou na semana passada “a libertação de presos políticos nos próximos dias”, como demonstração de boa vontade em relação ao Vaticano, mediador histórico entre Havana e Washington.

Marco Rubio negou que os EUA querem destituir Díaz-Canel e alguns funcionários mais antigos, mas que sejam afastados pelos próprios cubanos, para permitir reformas políticas e econômicas, com a gradual abertura da economia para empresas americanas, o que a atual direção política não aceitaria. Díaz-Canel prometeu ações concretas de resistência, caso o governo de Washington tente controlar o país.

Em vista da precária situação econômica de Cuba e da decisão política de Washington de intervir naquele país, é possível prever que um acordo político e econômico seja negociado, envolvendo o relaxamento das restrições de viagem e remessas de recursos para a ilha e liberação de presos políticos, além de concessões sobre participação de empresas norte americanas de portos, energia e turismo.

‘Havana, porém, traz desafios específicos. Um deles é o fato de não haver, por enquanto, uma figura como Delcy Rodrigues no regime cubano’

Havana, porém, traz desafios específicos. Um deles é o fato de não haver, por enquanto, uma figura como Delcy Rodrigues no regime cubano, em grande parte pela ainda forte presença política de Raul Castro. A impopularidade do atual presidente Diaz-Canel poderá levar a sua substituição negociada. Resta saber que poderá ocupar seu lugar. Uma possibilidade é o neto de Raul Castro, Raul Guillermo Rodrigues Castro, que iniciou os primeiros contatos com Marco Rubio.

Para Trump, a mudança do regime cubano representaria uma façanha histórica visto que, desde 1960, todos os presidentes norte-americanos tentaram, mas não conseguiram, promover uma transição política e econômica negociada, sem recorrer a intervenção armada.

Enquanto isso, o governo brasileiro discretamente está enviando alimentos e produtos farmacêuticos para Havana, mas o presidente Lula, ao longo de todo processo negociador entre Cuba e EUA, continua em um silêncio ensurdecedor.


Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

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