Mostrando postagens com marcador Interesse Nacional. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Interesse Nacional. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de julho de 2026

Por que a democracia americana importa ao mundo? Gunther Rudzit (Interesse Nacional)

 

Por que a democracia americana importa ao mundo – A construção institucional dos Estados Unidos e sua contribuição para a Ordem Internacional


Gunther Rudzit

Portal Interesse Macional, 13 julho 2026

As crises políticas dos Estados Unidos costumam ser vistas como um tema essencialmente doméstico. O restante do mundo tende a acompanhá-las sobretudo por seus possíveis impactos econômicos ou diplomáticos. Raramente, porém, se faz uma pergunta mais profunda: por que a evolução das instituições políticas americanas deveria interessar à comunidade internacional? A resposta está na relação […]

As crises políticas dos Estados Unidos costumam ser vistas como um tema essencialmente doméstico. O restante do mundo tende a acompanhá-las sobretudo por seus possíveis impactos econômicos ou diplomáticos. Raramente, porém, se faz uma pergunta mais profunda: por que a evolução das instituições políticas americanas deveria interessar à comunidade internacional?

A resposta está na relação entre política doméstica e Ordem Internacional. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a liderança dos Estados Unidos não se apoiou apenas em sua superioridade econômica, militar, tecnológica ou científica. Ela também dependeu da credibilidade de suas instituições. 

A confiança de aliados e parceiros nunca decorreu exclusivamente do poder americano, mas da percepção de que esse poder era exercido dentro de regras relativamente previsíveis e por instituições suficientemente estáveis para limitar a ação de seus próprios governantes.

Essa dimensão institucional costuma receber menos atenção do que merece. Quando se discute a Ordem Internacional construída após 1945, o foco normalmente recai sobre a criação das Nações Unidas, do sistema de Bretton Woods, da OTAN ou, posteriormente, da Organização Mundial do Comércio (OMC). Todas essas instituições foram fundamentais. Mas elas não surgiram no vazio. Em larga medida, refletiam uma experiência institucional que os próprios Estados Unidos haviam desenvolvido ao longo de sua história.

‘Compreender a evolução da democracia americana significa entender como a construção gradual de suas instituições contribuiu para moldar a própria Ordem Internacional’

Por isso, compreender a evolução da democracia americana não significa apenas revisitar a história constitucional de um país. Significa entender como a construção gradual de suas instituições contribuiu para moldar a principal potência do século XX e, por consequência, a própria Ordem Internacional contemporânea.

As instituições americanas permitiram que uma sociedade profundamente dividida construísse, ao longo do tempo, uma compreensão relativamente estável de seu interesse nacional. Foi essa estabilidade — mais do que o poder econômico e militar isoladamente — que deu credibilidade à liderança internacional dos Estados Unidos.

Antes da França, Filadélfia

Quando se fala na origem da democracia representativa moderna, a maioria dos brasileiros pensa imediatamente na Revolução Francesa de 1789. Essa associação é compreensível. A França era uma das grandes potências europeias, e as guerras revolucionárias e, depois, Napoleão, projetaram seus princípios políticos por todo o continente. Os Estados Unidos, ao contrário, eram ainda uma jovem república, distante dos grandes centros de poder e com reduzida influência internacional.

A arquitetura institucional que serviria de referência para grande parte das democracias contemporâneas, porém, começou a ser construída antes. A independência americana foi declarada em 1776, mas somente reconhecida pelo Reino Unido em 1783, ao término da Guerra de Independência. A vitória militar, entretanto, não resolveu imediatamente o problema político. Os novos estados precisavam decidir que tipo de país pretendiam construir.

‘O resultado foi a Constituição que permanece em vigor até hoje, tornando-se a mais antiga constituição escrita ainda vigente’

Após um período inicial marcado pelos Artigos da Confederação, considerados insuficientes para garantir a estabilidade da nova república, representantes dos estados reuniram-se na Convenção da Filadélfia, em 1787. O resultado foi a Constituição que permanece em vigor até hoje, tornando-se a mais antiga constituição escrita ainda vigente.

Foi naquele momento que surgiu um dos debates mais influentes da história constitucional moderna — ainda hoje amplamente estudado por cientistas políticos e constitucionalistas em todo o mundo. 

A questão central era simples, mas decisiva: quanto poder deveria ter o novo governo federal? Dessa discussão nasceu um modelo institucional que buscava equilibrar autoridade e liberdade, preservando um governo nacional suficientemente forte para manter a União, mas limitado por mecanismos destinados a impedir a concentração excessiva de poder. A partir daí, a grande questão deixou de ser a criação do novo Estado e passou a ser a definição dos limites de seu poder.

Quanto poder deveria ter o novo governo?

Na Convenção da Filadélfia, o principal debate não era sobre a forma de governo, mas sobre a distribuição do poder. De um lado, os federalistas, como Alexander Hamilton e James Madison, defendiam um governo nacional suficientemente forte para preservar a União e garantir a estabilidade da nova República. Do outro, os antifederalistas, representados por figuras como Patrick Henry e George Mason, temiam que um governo central excessivamente poderoso reproduzisse as mesmas formas de opressão contra as quais haviam lutado durante a independência.

Toda a discussão convergia para uma pergunta fundamental: quanto poder deveria ter o governo federal?

‘Os Pais Fundadores construíram um compromisso institucional que buscava equilibrar autoridade e liberdade’

A solução encontrada não representou a vitória plena de nenhum dos dois grupos. Os Pais Fundadores construíram um compromisso institucional que buscava equilibrar autoridade e liberdade. O governo federal recebeu poderes suficientes para preservar a União, conduzir a política externa, garantir a defesa nacional e regular questões de interesse comum.

Ao mesmo tempo, esses poderes foram limitados por um amplo sistema de freios e contrapesos (checks and balances). O equilíbrio não existia apenas entre os três Poderes, mas também no interior do próprio Legislativo, organizado em duas Casas com lógicas distintas de representação: uma representando diretamente a população e outra assegurando a igualdade política entre os estados, independentemente de seu tamanho. Somava-se a isso o federalismo, que preservava ampla autonomia para os governos estaduais.

Essa foi, provavelmente, a maior contribuição dos Pais Fundadores para a democracia moderna. Eles não criaram instituições destinadas a eliminar os conflitos políticos, mas instituições capazes de administrá-los e transformá-los em compromissos duradouros dentro da própria ordem constitucional. Ao longo dos mais de dois séculos seguintes, essa arquitetura institucional seria repetidamente colocada à prova pelas profundas transformações da sociedade americana.

Uma democracia em permanente construção

O compromisso institucional construído em 1787 não encerrou a formação da democracia americana. Ao contrário, deixou em aberto questões que continuariam a redefinir os Estados Unidos ao longo dos quase 250 anos seguintes. A própria Constituição convivia com a escravidão, restringia o direito ao voto e excluía da vida política mulheres, indígenas e amplos setores da população. A democracia americana nasceu como um projeto institucional; sua consolidação seria resultado de sucessivas transformações históricas.

‘A história dos Estados Unidos pode ser lida como a história da capacidade de suas instituições de adaptar-se às transformações da sociedade americana sem romper a continuidade constitucional’

A história dos Estados Unidos pode ser lida, em grande medida, como a história da capacidade de suas instituições de adaptar-se às profundas transformações da sociedade americana sem romper a continuidade constitucional estabelecida em 1787. Cada um dos grandes momentos da história americana pode ser entendido como um novo teste dessa capacidade institucional.

A primeira grande prova veio com a Guerra Civil. Mais do que preservar a União ou abolir a escravidão, o conflito definiu o tipo de sociedade que os Estados Unidos pretendiam construir. Consolidou uma economia nacional baseada no trabalho livre, fortaleceu a capacidade de coordenação do governo federal sem descaracterizar o federalismo americano e tornou irreversível a unidade política do país.

A Grande Depressão produziu outro momento decisivo. O New Deal, implementado por Franklin D. Roosevelt, redefiniu radicalmente a relação entre governo, sociedade e economia. Sem alterar a Constituição, ampliou a atuação do Estado, fortaleceu sua capacidade de regular mercados e consolidou a percepção de que o governo federal possuía responsabilidade direta pela estabilidade econômica e pelo bem-estar social.

Poucos anos depois, a Segunda Guerra Mundial projetou os Estados Unidos à condição de principal potência do mundo ocidental e abriu caminho para a política de contenção formulada pelo governo Truman. Pela primeira vez, a estabilidade das instituições americanas passou a constituir também um ativo estratégico para a liderança internacional do país.

‘O movimento pelos direitos civis ampliou novamente o alcance da democracia americana’

O movimento pelos direitos civis ampliou novamente o alcance da democracia americana. A Constituição permaneceu a mesma; foi o significado da expressão “Nós, o povo” que continuou a se expandir, aproximando a realidade institucional dos princípios proclamados na independência.

Nas décadas seguintes, novas transformações recolocariam antigas questões sob perspectivas diferentes. A eleição de Ronald Reagan simbolizou uma mudança na percepção sobre o papel do Estado na economia. Os atentados de 11 de setembro reacenderam o debate sobre o equilíbrio entre liberdade e segurança, ampliando os poderes de vigilância do governo por meio do Patriot Act. Já a crise financeira de 2008 demonstrou que, mesmo após décadas de valorização do mercado, continuava recaindo sobre o Estado a responsabilidade de preservar a estabilidade econômica em momentos de crise.

Cada um desses episódios representou uma resposta diferente à mesma pergunta: como adaptar as instituições às transformações da sociedade sem romper a ordem constitucional. Talvez essa seja a principal singularidade da experiência americana. Ao longo de quase dois séculos e meio, sua democracia transformou-se profundamente sem abandonar a Constituição de 1787. Foi essa capacidade de adaptação que, mais tarde, se transformaria em um dos maiores ativos internacionais dos Estados Unidos.

Uma democracia que se tornou um ativo estratégico

A capacidade de adaptação demonstrada pelas instituições americanas ao longo de sua história produziu efeitos que ultrapassaram suas fronteiras. Ao final da Segunda Guerra Mundial, essas instituições já haviam demonstrado uma capacidade incomum de adaptação e estabilidade.

Naquele momento, os Estados Unidos reuniam condições materiais para exercer a liderança do mundo ocidental. Sua economia era a maior do planeta, seu poder militar havia sido decisivo para a vitória aliada e sua capacidade científica e tecnológica não encontrava paralelo entre as democracias. Esses fatores ajudam a explicar por que Washington assumiu a liderança da reconstrução internacional. Não explicam, porém, por que tantos países aceitaram essa liderança durante as décadas seguintes.

‘Ao longo de mais de dois séculos, as instituições demonstraram uma capacidade pouco comum de transformar conflitos políticos em compromissos institucionais duradouros’

A resposta também se encontra na evolução de suas instituições. Ao longo de mais de dois séculos, elas demonstraram uma capacidade pouco comum de transformar conflitos políticos em compromissos institucionais duradouros. Foi essa característica que permitiu aos Estados Unidos construir uma compreensão relativamente estável de seu interesse nacional, apesar das alternâncias de governo e das profundas transformações econômicas, sociais e internacionais.

Essa continuidade estratégica teve profundas consequências para a política internacional. Aliados e parceiros passaram a confiar menos nas decisões de um governo específico do que na capacidade das instituições americanas de sustentar compromissos internacionais ao longo do tempo. A criação das Nações Unidas, do sistema de Bretton Woods, da Otan, do Gatt e, posteriormente, da Organização Mundial do Comércio (OMC) refletia a liderança dos Estados Unidos, mas também a expectativa de que essa liderança seria exercida por um país capaz de manter compromissos internacionais de longo prazo.

Isso não significa que a política externa americana tenha sido isenta de contradições. Intervenções militares, decisões unilaterais e mudanças de orientação ocorreram ao longo da Guerra Fria e também depois dela. Ainda assim, predominava entre aliados e adversários a percepção de que existia uma continuidade estratégica capaz de sobreviver às disputas partidárias e às sucessivas mudanças de governo.

‘Foi essa capacidade institucional de produzir continuidade estratégica que conferiu aos Estados Unidos um ativo raramente disponível às grandes potências: credibilidade’

Foi essa capacidade institucional de produzir continuidade estratégica que conferiu aos Estados Unidos um ativo raramente disponível às grandes potências: credibilidade. A previsibilidade de sua atuação internacional era consequência dessa continuidade institucional, e não sua causa. Durante décadas, essa combinação entre poder material e instituições capazes de sustentar políticas de Estado relativamente estáveis tornou-se um dos pilares da Ordem Internacional construída após 1945. Essa relação entre estabilidade institucional e liderança internacional ajuda a compreender os desafios enfrentados pelos Estados Unidos na atualidade.

Quando as instituições deixam de produzir consenso

Durante grande parte de sua história, as instituições americanas conseguiram transformar conflitos políticos em compromissos duradouros. Essa estabilidade nunca significou ausência de divergências. Ao contrário, democratas e republicanos frequentemente discordaram sobre prioridades, instrumentos e estratégias. Ainda assim, existia uma compreensão relativamente estável do interesse nacional que conferia continuidade à atuação internacional dos Estados Unidos.

‘A crescente polarização política tornou mais difícil a construção de compromissos sobre questões fundamentais da vida americana’

Nos últimos anos, entretanto, essa capacidade passou a revelar sinais de desgaste. A crescente polarização política tornou mais difícil a construção de compromissos sobre questões fundamentais da vida americana, inclusive sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. Mudanças de governo passaram a produzir alterações mais profundas na política externa, reduzindo a continuidade estratégica que caracterizou boa parte do período do pós-guerra.

Nesse contexto, a atual presidência de Donald Trump representa menos uma ruptura isolada do que a manifestação mais visível de um desgaste institucional mais amplo. Os debates recentes sobre imigração, tarifas comerciais, extensão dos poderes presidenciais e decisões da Suprema Corte revelam que antigas perguntas voltaram ao centro da política americana: quanto poder deve ter o governo federal? Quais são os limites da autoridade presidencial? E como construir compromissos duradouros sobre o interesse nacional em uma sociedade cada vez mais polarizada?

Essas questões dizem respeito, antes de tudo, aos próprios americanos. Seus efeitos, porém, ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos. Se a estabilidade da Ordem Internacional dependeu, durante décadas, da capacidade das instituições americanas de produzir continuidade estratégica, qualquer enfraquecimento dessa capacidade tende a reduzir a previsibilidade da atuação internacional dos Estados Unidos e, consequentemente, aumentar a incerteza do próprio Sistema Internacional.

Talvez esse seja um dos principais desafios do século XXI. O verdadeiro teste das instituições americanas não está apenas em conter excessos ocasionais de um presidente ou de outro, mas em verificar se continuarão capazes de desempenhar a função que exercem desde 1787: transformar conflitos políticos em compromissos institucionais duradouros. Ao longo de quase 250 anos, foi essa capacidade que permitiu aos Estados Unidos construir uma compreensão relativamente estável de seu interesse nacional e, a partir dela, conferir credibilidade internacional ao exercício de seu poder. A questão que permanece em aberto não é apenas se essa capacidade continuará existindo, mas quais serão as consequências para a Ordem Internacional caso ela deixe de cumprir essa função. Talvez seja essa a principal razão pela qual a evolução da democracia americana continua interessando ao mundo.

Gunther Rudzit é professor de relações internacionais da ESPM e professor convidado da Universidade da Força Aérea (UNIFA).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Lula na Casa Branca - Rubens Barbosa (Interesse Nacional)

 Lula na Casa Branca

Rubens Barbosa

Interesse Nacional, 8/06/2026

Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente

Enfim, depois de mais um ano, Lula foi recebido por Trump na Casa Branca. Participaram do encontro os ministros brasileiros do Exterior, da Fazenda, da Justiça, da Indústria e Comércio, das Minas e Energia. O encontro de trabalho foi seguido de almoço entre os dois presidentes. Chamou a atenção a ausência de Marco Rubio do lado norte-americano.

Em nota divulgada por Trump, depois do encontro, a Casa Branca afirmou que a conversa foi produtiva e ressaltou, entre outros assuntos, a discussão em torno do comércio, sobre as tarifas. 

Na entrevista à imprensa, na residência da Embaixada em Washington, Lula, como seria de esperar, ressaltou o clima de entendimento entre os presidentes e suas delegações. 

‘Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, seção 301, pix, crime organizado, minérios estratégicos e geopolítica’

Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, investigação sobre restrições a produtos norte-americanos (seção 301), pix, cooperação contra o crime organizado, minérios estratégicos, além de temas geopolíticos (multilateralismo, organizações internacionais).

Os ministros presentes chamaram a atenção dos principais temas de sua área de atuação: definição de novas regras para o relacionamento econômico bilateral. Volta dos investimentos norte-americanos – compartilhamento informações crime organizado e ampliação da cooperação bilateral – relato   sobre situação econômica brasileira – cooperação no combate ao crime organizado (não foi discutida a  classificação do PCC e do CV como organizações terroristas)– cooperação entre aduanas (informações e operações conjuntas – (apreendidas armas vinda dos EUA meia tonelada de drogas sintéticas dos EUA) – lavagem de dinheiro – minérios críticos (terras raras) transmitida informação sobre o novo marco regulatório aprovado pelo Congresso.

‘Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico’

Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico. Ficou decidido que em 30 dias os diferentes setores deverão negociar posições comuns para serem apresentadas para decisão final dos presidentes. Lula afirmou que o encontro foi um passo importante na consolidação das relações entre o Brasil e os EUA e para reverter a baixa   prioridade dos EUA em relação ao Brasil. 

No tocante à geopolítica, Lula ofereceu estar à disposição para ajudar nas conversas com Cuba, Venezuela, ONU e CSNU. Mesmo no tocante ao Irã, Lula disse estar à disposição para ajudar e entregou cópia do acordo negociado com o Irã pelo Brasil e Turquia em 2010. Lula disse não acreditar na interferência de Trump nas eleições de outubro. 

‘A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda’

O governo brasileiro deu sua versão do encontro. A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda. Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente.

Do lado brasileiro, nada foi adiantado quanto às reivindicações de Washington no tocante à agenda de seu interesse e sobretudo sobre a reintrodução de tarifas em julho, quando a investigação sobre a seção 301 da lei de comércio norte-americana for concluída e anunciada.

Resta agora aguardar pelas informações do lado norte-americano para ver se o otimismo do governo brasileiro vai ser comprovado.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

domingo, 22 de março de 2026

Guerra contra o Irã: O Vietnã de Trump? - Sergio Abreu e Lima Florencio (Interesse Nacional)

Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump?
Sergio Abreu e Lima Florencio
Interesse Nacional, 19/03/2026

A ofensiva contra o país persa nasce da convergência entre a busca de Donald Trump por afirmar a supremacia militar dos EUA e a pressão estratégica de Israel. Embora o conflito represente risco limitado para Tel Aviv, pode se tornar uma nova derrota para Washington: guerra longa, impopular internamente e enfrentando a histórica resistência iraniana, com impactos energéticos, geopolíticos e econômicos globais

A guerra contra o Irã resulta da confluência de duas forças: a obsessão de Trump em demonstrar a supremacia militar dos EUA ao mundo e a crença fundamentalista de Netanyahu de que o regime iraniano é ameaça existencial para Israel. 

A guerra traz riscos limitados para Israel, por sua indiscutível superioridade militar diante de um Irã fragilizado após dois anos de conflagração. 

Ao contrário, para os EUA, o conflito tem potencial para ser um novo Vietnã, dada a histórica resistência da civilização iraniana à dominação das grandes potências. 

‘Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial’

“O tempo é o senhor da razão”.  Essa conhecida máxima  precisa ser adaptada, no caso, para “o tempo é o senhor da guerra”. Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial, pois conta com a oposição de cerca de 70% da população. Também exige vitória antes das eleições de meio de mandato em novembro próximo. 

Ao contrário, o regime teocrático-militar iraniano exibe maior resistência ao tempo. A infraestrutura está sendo devastada pelas forças armadas de Israel e EUA, mas o país conta com três poderosos pilares de defesa e de ataque: 

(i) grande arsenal de mísseis de médio alcance e milhares de drones capazes de destruir parte da infraestrutura física e das instalações petrolíferas dos vizinhos; 
(ii) bloqueio do Estreito de Ormuz, rota de 20% do petróleo do mundo; e 
(iii)  imaginário coletivo moldado tanto pelo espírito de luta e martírio do xiismo, como pela histórica resistência à dominação das grandes potências.
Esses fenômenos eram bem conhecidos por todos. A pergunta relevante é: Por que os EUA decidiram se aventurar numa guerra em que  poderiam se transformar na principal vítima? A resposta tem ao menos três dimensões: geopolítica, regional e o imaginário iraniano. 

Dimensão Geopolítica 
A obsessão de Trump em demonstrar supremacia militar ao mundo é uma tentativa de compensar o declínio relativo dos EUA, em contraste com a ascensão da China. 

Em 1970, os EUA representavam 28% do PIB mundial, e a China, menos de 3%. Em 2025, os indicadores foram, respectivamente, 27% e 17%. 

Nos últimos 15 anos, os EUA cresceram em média 2,5%, e a China, 7%. Desde 1978, com as reformas de Den Xiaoping, a China manteve taxas de crescimento econômico entre 8% e 10%. 

A participação no comércio mundial dos EUA, em 1980, era 13%, e a da China, inferior a 1%. Em 2023, a equação se invertia: EUA com 8% e a China, com 15%. 

‘A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países’

A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países. A China forma por ano cerca de 1,5 milhão de engenheiros, em comparação com 200 mil nos EUA. Em papers científicos, a China responde por 28,5% do total, em contraste com 13% dos EUA.

Apesar desses indicadores de declínio relativo, os EUA são a maior potência militar e a única capaz de atuar em todos os continentes. Para compensar o relativo declínio norte-americano no campo econômico, comercial e tecnológico, Trump tenta demonstrar ao mundo a supremacia militar dos EUA. O intervencionismo é o instrumento dessa estratégia compensatória.

Dimensão regional
Na esfera das Américas, as intervenções foram bem-sucedidas e de baixo custo. No Panamá, obrigou o país a romper contratos firmados com a China para exploração do Canal. Na Venezuela, após o sequestro de Maduro, preservou a ditadura chavista, mas o regime de exploração de petróleo e a política externa passaram a ser ditadas por Washington. 

No Oriente Médio, os resultados foram muito mais controvertidos. Apesar da morte de cerca de 700 mil palestinos, da destruição de mais de 70% da infraestrutura da Faixa de Gaza e da tragédia humanitária, o Hamas ainda sobrevive. Mas esses funestos resultados, produziram saldo militar positivo para Israel, que consolidou indiscutível supremacia na região. O Irã saiu inferiorizado em termos militares, nucleares e com proxies enfraquecidos – Hamas, Hezbollah, Houthis, milícias na Síria e no Iraque. 

Israel reafirmou superioridade com os ataques cirúrgicos, de junho último, contra as instalações nucleares e, sobretudo, com a tímida represália iraniana. 

‘Essa sequência de exitosas intervenções militares convenceu Trump a dobrar a aposta’

Essa sequência de exitosas intervenções militares cirúrgicas (Venezuela e Irã) convenceu Trump – sob decisiva influência de Netanyahu – a dobrar a aposta e se engajar na política de regime change. 

Foi a estrada do fracasso.

A dimensão do imaginário coletivo iraniano
Desde 1979, o Irã é uma república revolucionária cercada por monarquias conservadoras. Essa condição explica muito do radicalismo, consolidado em dois momentos decisivos – a tomada dos reféns na embaixada norte-americana e a guerra Irã-Iraque. 

Apesar desse traço estrutural, o regime viveu diversas fases que sinalizavam abertura econômica, liberalização de costumes e flexibilização política. 

‘O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, o Líder Supremo, e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica’

O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, eleito pelo voto popular; o Líder Supremo, escolhido pela Assembleia de Peritos de 88 clérigos; e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, com cerca de 200 mil membros, que controla a milícia Basij e responde diretamente ao Líder Supremo. 

Ao longo de quase cinco décadas de Revolução, grandes rebeliões populares foram ocorrendo a cada dez anos. Era a resposta indignada da sociedade a um regime que gastava mais com armamento e ajuda financeira aos proxies do que com seu povo. O divórcio entre Estado e sociedade refletia frustração e fadiga com a Revolução.

Esse quadro doméstico, somado à inferioridade militar resultante dos ataques israelenses aos proxies e ao território iraniano na Guerra de 12 dias, fragilizou o país. 

‘Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea’

Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea. O objetivo era derrubar, com bombardeios aéreos cirúrgicos, um regime com meio século de existência, com forte aparato teocrático-militar, contestado pelas classes médias, mas com apoio das camadas mais pobres e de milícias financiadas pelo governo.  

Foi uma sequência de desastrosos erros anunciados. 

Primeiro, ignorar a histórica trajetória iraniana de luta contra grandes potências – Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos. 

Segundo, subestimar a ousadia iraniana de asfixiar o mercado mundial de petróleo com o fechamento do estreito de Ormuz. 

Terceiro, ignorar as advertências das monarquias do Golfo para não atacar o Irã, diante da provável retaliação, com desastrosas consequências para suas dinâmicas mas frágeis economias. 

Daí surgiu o erro fatal – colocar o mundo em crise de muitas dimensões – econômica, militar, energética e geopolítica. Refém de Israel, os EUA insistiram na guerra. 

A Revolução Iraniana derrotou Carter. A guerra contra o Irã poderá ser o Vietnã de Trump.   

Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.

Postagem em destaque

Apenas uma declaração de “defeso eleitoral” - Paulo Roberto de Almeida

Apenas uma declaração de “defeso eleitoral” Paulo Roberto de Almeida Brasilia, 26/07/2026 Quase iniciando o periodo de caça aos votos dos el...