sexta-feira, 17 de julho de 2026

Uma Madame IA caipira comenta certos causos do presente, fazendo troças de todos…

Meu tutor em Inteligência Artificial, Airton Dirceu Lemmertz, faz com qyue Madame IA reproduzisse meus argumentos, mas em estilo caipira, contra os dois opostos na presidência, cada um provocando o outro como adversário político. PRA

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Apresente um resumo para cada resposta (dada pela Gemini AI) nesta linha de interações. O resumo deverá ser escrito em linguagem popular/coloquial do interior do Brasil (mas tenha cuidado para não exagerar na caricatura do linguajar). Mostre cada resumo na ordem que cada resposta foi dada. Cada resumo deverá ter, no máximo, 1100 caracteres. 

Capítulo I: O Balaio de Gato da Política e do Itamaraty
No primeiro causo, o diplomata Paulo Roberto de Almeida lavou a roupa suja da nossa política. Ele desceu a lenha sem dó nem piedade no governo passado de Jair Bolsonaro e no atual de Lula. Sobre o home do PL, o homem disse que o negócio foi feio, uma ruína só, com fanatismo na internet, desmonte da natureza e aquele isolamento do Brasil no estrangeiro, virando as costas para os parceiros de peso. Do outro lado, o diplomata puxou a orelha do Lula, dizendo que o governo dele vive com a cabeça no passado, gastando o que não tem e inventando imposto. Criticou demais a amizade com as ditaduras de fora e o bate-boca com os americanos, que só faz o nosso agronegócio perder e a lavoura amargar o prejuízo.
Capítulo II: A Briga do Pix com os Americanos
Depois, o assunto foi a encrenca do Pix com o governo do Donald Trump. Os americanos cismaram com o nosso sistema de pagamento, dizendo que a ferramenta é injusta porque dá rasteira nas bandeiras de cartão de lá, como a Visa e a Mastercard. O tal do relatório deles chamou o Pix de discriminatório. No meio dessa confusão, o Lula bateu no peito falando em soberania nacional, enquanto o Flávio Bolsonaro foi até os Estados Unidos prosear com o Trump para tentar adiar o prejuízo das taxas comerciais na nossa cabeça, já de olho na eleição que está chegando. No fim das contas, quem paga o pato da briga de ego desses grandões é o povo trabalhador e as empresas daqui.
Capítulo III: O Tarifaço de Trump e a Resposta de Brasília
Nesse trecho, o embaixador Rubens Barbosa explicou o tamanho do prejuízo do novo tarifaço de 25% que os americanos socaram nas nossas exportações, sumindo com uns 11 bilhões de dólares do nosso comércio. O governo Lula soltou uma nota braba contra os tecno-oligarcas e ameaçou dar o troco na mesma moeda usando a Lei de Reciprocidade do Congresso. A Fiesp achou ruim a prosa do governo e levou uma invertida do Planalto. O embaixador avisou que o Brasil não tem esse cacife todo para brigar com os Estados Unidos no comércio e que revidar pode piorar a empanada, trazendo mais taxas e fazendo as fábricas nacionais chorarem as pitangas.
Capítulo IV: O Rombo da Previdência e a Pauta-Bomba
Aqui a prosa foi sobre a conta que não fecha de jeito nenhum: a Previdência Social. O Ricardo Bergamini mostrou que o sistema é uma injustiça danada, dividindo o povo em dois. De um lado, os trabalhadores comuns da iniciativa privada, que dão um duro danado e geram um prejuízo menor por cabeça. Do outro, os servidores públicos, os trabalhadores de primeira classe, com um rombo per capita que é um acinte, sete vezes maior. E para cobrir essa festança, o governo cobra imposto no consumo até de quem está desempregado. Para acabar de empenar a carroça, o Senado ainda aprovou uma pauta-bomba de 27 bilhões de reais para o futuro.
Capítulo V: A Saga de Roberto Campos na Academia
Este causo contou as cabeçadas de Roberto Campos, o Bob Fields, para conseguir uma cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras. O homem era um economista liberal de primeira, trabalhou com o Getúlio, com o Juscelino e no regime militar. Por causa desse passado com os quartéis, a turma da cultura torcia o nariz para ele e o Rouanet acabou ganhando a primeira disputa. Roberto Campos ficou na bronca, escreveu um livrão de memórias e, depois de muita peleja e da morte trágica do dramaturgo Dias Gomes num acidente de táxi, ele finalmente conseguiu entrar na Academia, debaixo de muito protesto e confusão com a viúva do falecido.
Capítulo VI: A Vigilância sobre as Bets e as Casas de Jogo
O Oscar Filho fez uma crônica caustica sobre as novas regras que o governo arrumou para as bets, aquelas plataformas de aposta na internet. Agora, os anúncios são obrigados a vir com alertas avisando que o jogo vicia e não é investimento, bem parecido com o que fazem nas carteiras de cigarro. O jornalista achou uma tremenda hipocrisia, porque o governo mete a mão na grana dos impostos dessas apostas para fechar as contas públicas. Além disso, as regras novas só apertam o calo de quem está legalizado e paga imposto certinho, enquanto mais da metade do mercado continua na ilegalidade, pulando a cerca sem ninguém fiscalizar.
Capítulo VII: O PL de Valdemar no Jogo de Compadrio
Este resumo tratou do nó cego da política partidária. O site Não É Imprensa revelou o pragmatismo de Valdemar Costa Neto, o chefe do PL, partido do Bolsonaro. O homem proibiu alianças oficiais com o PT nas cidades, mas vive rasgando elogios para o ministro Fernando Haddad e para o passado do governo Lula. O artigo relembrou que a amizade de Valdemar com os petistas é antiga, do tempo do Mensalão e do impeachment da Dilma. A análise concluiu que, no tabuleiro de 2026, o PL pode ter empurrado o Flávio Bolsonaro para a disputa presidencial justamente por ser o adversário perfeito que o Lula queria enfrentar para manter o país polarizado.
Capítulo VIII: O Autoritarismo Líquido e a Censura Digital
No último causo, o escritor Renato Corrêa fez uma mea culpa por ter errado feio na sua profecia política e usou o tropeço para defender o direito de as pessoas estarem erradas sem serem canceladas ou processadas. Ele denunciou o autoritarismo líquido, uma censura moderna e invisível comandada pelo STF, pelas plataformas e pelos algoritmos de internet. O autor criticou a mudança no Marco Civil e a punição contra comediantes, dizendo que isso assusta o povo e cria o tal do chilling effect, que é quando as pessoas se calam por medo do chicote da justiça, rasgando o que está garantido na nossa Constituição.

Mini reflexão sobre uma crise comercial e diplomática alimentada politicamente - Paulo Roberto de Almeida

Mini reflexão sobre uma crise comercial e diplomática alimentada politicamente

Paulo Roberto de Almeida

Relações diplomáticas e comerciais entre dois paises soberanos deveriam ser conduzidas nos termos previstos no Direito Internacional e nas regras aplicáveis previstas nos instrumentos específicos que regem essas relações. Estamos falando da Carta da ONU (1945), da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961) e nos acordos de Marrakesh (1993) que criaram a Organização Mundial do Comércio e outras ferramentas conexas a esse ambiente, inclusive sobre solução de controvérsias entre partes contratantes ao Gatt.

Infelizmente não é o que ocorre atualmente entre os Estados Unidos do governo Trump e o Brasil do governo Lula e, em cada lado dos atuais conflitos, grupos politicos e interesses pessoais envolvidos não exatamente numa condução serena das mais diversas interações entre os dois mais importantes Estados do hemisfério americano, mas num enfrentamento político-eleitoral em vista dos pleitos eleitorais que ocorrerão nos dois países em outubro (eleições presidenciais no Brasil) e em novembro (eleições congressuais nos EUA).

A responsabilidade maior pela emergência dos conflitos e pelo agravamento e recrudescimento de medidas e opiniões emitidas desde 2025 (talvez até antes) entre lideranças e figuras representativas dos dois paises incumbe, em primeiro d mais importante lugar, ao governo Trump, ao presidente e seus principais assessores na diplomacia e no comércio, por terem deliberadamente passado à ofensiva unilateral, de forma truculenta e ilegal, não só contra o Brasil, mas praticamente contra o mundo inteiro — à exceção de Israel do premiê Netanyahu e à Rússia do ditador Putin —, segundo o modus operandi brutal e desrespeitoso normalmente exibido pela personagem claramente desequilibrada do presidente americano (o que é apenas uma constatação objetiva).

Do lado brasileiro não se pode deixar de notar uma postura mais politizada do que diplomática adotada pelo presidente Lula contra Trump, aliás desde a campanha presidencial americana de 2024, quando declarou abertamente sua simpatia pela candidata Democrata, numa clara derrogação da cláusula constitucional e das regras diplomáticas aplicáveis, a não intervenção nos assuntos internos de outros Estados (o que sempre ocorreu, deve ser dito, em outras ocasiões anteriores no caso de eleições nos paises vizinhos, quando o presidente Lula, em seus dois primeiros mandatos, e até como figura politica fora deles, em apoio a candidatos de esquerda).

Infelizmente, dois personagens relevantes na liderança dos dois Estados acabam agindo politicamente, segundo suas inclinações pessoais e ideológicas, em detrimento dos interesses objetivos de milhares de empresas e dos de milhões de trabalhadores envolvidos nas relações comerciais e em todos os outros tipos de transações bilaterais dos dois países (e até em escala mais ampla, afetando o próprio equilibrio das relações diplomáticas mais gerais, hemisféricas e mundiais, como nessa luta insana por uma mirífica e inviável “nova ordem global multipolar”, impossível de ser implementada num ambiente dominado por egos extremados e não por estadistas responsáveis).

Lamento pessoalmente, não como diplomata, mas como simples cidadão brasileiro, que se tenha chegado a tal nível e intensidade de desentendimentos politicos e pesdoais entre as duas lideranças, o que redunda em retaliações indesejáveis e prejudiciais aos interesses concretis de milhões de agentes econômicos, empresas e trabalhadores, simples turistas, educadores, cidadãos dos dois países. É deplorável que se tenha chegado a uma situação de enfrentamento e não de cooperação e de entendimento entre dois grandes paises, afetando a vida de centenas de milhões de pessoas desprovidas de cargos politicos servindo não ao bem-estar dos povos respectivos, mas às idiossincrasias de duas personalidades desprovidas das qualidades experadas de estadistas.


Confrontação política e econômica com os EUA - Rubens Barbosa (Portal Interesse Nacional)

 O embaixador Rubens Barbosa, no portal Interesse Nacional, apresenta uma síntese objetiva dos fatos e opiniões envolvidos na mais grave crise político-diplomática entre os governos de Trump dos EUA e Lula do Brasil em mais de dois séculos de relações bilaterais. Os embates politicos e comerciais podem escalar de forma ainda mais grave no plano econômico e diplomático caso o governo Lula adote retaliações contra os EUA baseadas na Lei de Reciprocidade já adotada no Congresso brasileiro, ou caso o governo Trump resolva acrescemtar novas restrições às exportações brasileiras, inclusive mediante novas sobretaxas baseadas na Seção 301 de sua Lei Comercial, que prevê retaliações unilaterais. PRA


Confrontação política e econômica com os EUA

Rubens Barbosa 

Portal Interesse Nacional, 17/07/2026


O novo pacote tarifário dos EUA ameaça reduzir exportações brasileiras em até US$ 11 bilhões e inaugura uma fase inédita de confronto político entre Brasília e Washington, em meio à campanha eleitoral e ao debate sobre uma eventual retaliação comercial do Brasil. 


Como era esperado, o governo de Washington confirmou o novo tarifaço de 25% sobre produtos exportados para os EUA por práticas desleais a partir de 22 próximo. Ainda deverão ser anunciados mais 12,5% relacionados com a importação de produtos de países com trabalho forçado. 


Essas tarifas se aplicam em mais de 80 países que não têm acordo comercial com os EUA, em substituição às tarifas que tiveram de ser suspensas em função da decisão da Suprema Corte que considerou ilegal a base legislativa (IEEPA) que as respaldavam.


‘Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados’


O tarifaço vai afetar cerca de 2.900 produtos, especialmente industriais, vai prejudicar muitas empresas nacionais e vai reduzir ainda mais o intercâmbio bilateral. Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados.


Foram mantidas as exceções para café em grão, carne bovina, suco de laranja, produtos aeronáuticos, petróleo, castanhas e algumas frutas. A lista de exceções foi ampliada (2.100) com relação àquela proposta em 1º de junho. Essas exceções foram consideradas “insumos essenciais para a economia americana”; “produtos cuja taxação poderia gerar interrupções de abastecimento” e “bens sem fontes alternativas adequadas de fornecimento”.


Segundo cálculos preliminares, o número de linhas tarifárias passou de 1.698 em junho para 2.126. Foram incluídos diversos produtos de interesse dos exportadores brasileiros na lista de exceções. Destacam-se, entre eles, mel orgânico, ferro-gusa e café solúvel; mel orgânico; ferro-gusa; café solúvel sem sabor; ⁠alguns tipos de pescado (tilápia e atum); hidróxido de alumínio; antiguidades, itens de colecionador e arte; cinzas contendo metais preciosos ou compostos de metais preciosos; certas peles de animais, peles com pelo e couros – certos produtos de frutos do mar; certos produtos de madeira adicionais; resíduos e sucatas de ferro e aço; roupas usadas.


Logo em seguida o Palácio do Planalto circulou nota dura em que afirma que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável. O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais. O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”.


Os dois lados dizem que não houve empenho da outra parte em uma efetiva negociação para superar as dificuldades. 


É compreensível a politização interna dessa questão pelo envolvimento do senador Flávio Bolsonaro, acusado de traição à Pátria, quando se inicia a campanha para as eleições de outubro. 


‘É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro’


É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros. 


A Fiesp, em nota, critica fortemente o Governo Lula afirmando que “em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários e críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamentos políticos com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”. A posição da Fiesp foi considerada “vergonhosa e estarrecedora” pelo Planalto.


A grande novidade está no ataque político de Washington ao governo de Brasília. Depois de 62 ataques de Lula a Trump nos últimos três anos, a Nota de Rubio dá início ao ataque político de Washington ao presidente brasileiro. Essa novidade deve continuar com crescente interferência norte-americana durante a campanha eleitoral. 


Chama a atenção a ênfase política que essa decisão está ensejando e o eventual confronto político entre os dois países. Ao anunciar a decisão, a Casa Branca divulgou nota de Marco Rubio em que afirma que o presidente Trump decidiu impor 25% em muitos produtos importados do Brasil, mas, “não deve haver confusão nas razões dessa decisão: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA em boa fé. Suas políticas econômicas são contrárias aos interesses norte-americanos e brasileiros. Desde o ano passado, Lula colocou seu ego à frente dos entendimentos para benefício do povo brasileiro e essas tarifas são o preço por isso”. 


A resposta de Mauro Vieira escala a crise política ao chamar o pronunciamento de Rubio de “grosseiro e arrogante” e “inaceitável e ofensivo ao povo e ao governo brasileiro”. “O que incomoda ao governo dos EUA é o fato do Brasil não ter se curvado às demandas irrazoáveis”.


A questão mais grave e preocupante é a possibilidade de retaliação comercial contra os EUA anunciada pelo Planalto. Haverá um período de 30 dias para a confirmação da medida. Nenhum outro país no mundo (com exceção da China por curto período, logo corrigido) ameaçou retaliar os EUA. O governo de Washington divulgou que nas negociações as tarifas sobre os produtos brasileiros poderão subir ou descer, dependendo da reação do governo brasileiro. 


O custo para o Brasil e para as empresas brasileiras pode ser enorme. A retaliação de Washington pode ocorrer em qualquer outra área, prejudicando setores econômicos inteiros. 


O Brasil não tem cacife para enfrentar comercialmente os EUA. Nenhuma retaliação contra produtos norte-americanos exportados para o Brasil afetará significativamente os interesses do governo Trump. Uma decisão nessa direção poderá trazer ganhos políticos internos, mas será certamente contra o interesse nacional, a médio e longo prazo. O programa de apoio às empresas afetadas, prometido pelo governo, vai ser muito importante nesse momento.


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Rubens Barbosa

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

A imortalidade de Roberto Campos - Daniel Afonso da Silva (Jornal da USP)

 

A imortalidade de Roberto Campos

Por Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP

  Publicado: 14/07/2026 às 19:25
Angústia e aflição inundavam a cobertura daquele conhecido edifício à rua Francisco Otaviano em Copacabana onde residia a família Campos, Roberto e Stella. Era quinta-feira, fim de tarde, dia bom. 23 de setembro de 1999. O imponente deputado e seus convivas aguardavam apreensivos as novidades da Academia Brasileira de Letras. Pela terceira vez, Roberto Campos apresentara a sua candidatura. Queria, a todo custo, virar imortal. Não por vaidade nem por precisão.

Sua vaidade – como a de Santo Agostinho – era não ter vaidade. A sua vida e a sua obra diziam por si. A Lanterna na Popa realçava a perenidade de seus feitos. Saíra mais que traço de vida. Mais que confissão e memórias. Chegou bem perto de testamento. Impedindo a indiferença do público e impondo o seu protagonista fato consumado incontornável. Por amor ou ódio. Amizade ou desafeição. Encontros e despedidas. Restando a Academia como derradeira consagração.

Em 1991, ao lado de Celso Lafer, ele havia aplicado para a imortalidade acadêmica ante João de Scantimburgo, conhecido professor e jornalista paulista. Era uma disputa complexa. Os acadêmicos eram, em maioria, declarados por João de Scantimburgo. Inibindo quaisquer concorrentes. Levando, assim, Lafer e Campos a abdicar da disputa.

Meses depois, a vaga de Francisco de Assis Barbosa vagou e Roberto Campos voltou a aplicar. Desta vez ante Sérgio Paulo Rouanet, seu colega de Itamaraty. A refrega retornou em desafio. Rouanet era ministro da Cultura e havia lançado uma Lei de Incentivos Fiscais que levava seu nome. Era – não só por isso, mas também por isso – muito querido em todos os círculos. Especialmente entre os culturais. Era quase vinte anos mais moço que Roberto Campos, mas centenas de anos mais límpido de contratempos, cabeçadas, polêmicas e mal-estares que seu concorrente. Antonio Houaiss, também diplomata, era o seu “padrinho” na Academia e oposição latente a Roberto Campos. Primeiro pelo estilo. Depois pela ojeriza ao regime militar que o antigo seminarista vindo do Mato Grosso havia servido e exonerado Houaiss.

O país vinha recém-redemocratizado. A Constituição de 1988 tinha pouquíssimos anos. A primeira presidência civil após os militares reunia poucos pares de meses. Queria-se tudo menos o passado. Exigia-se tudo menos conivência com os militares. Roberto Campos foi expoente do período Castelo Branco. Impôs modernizações determinantes para o aperfeiçoamento do país. Mas, agora, todos preferiam esquecer. Tudo e todos relacionados aos militares eram jogados no mesmo saco. Na mesma vala comum. Colocando Roberto Campos em franca desvantagem frente a Rouanet. Levando-o, assim, sans merci, à derrota.

Foi por pouco. Cinco votos. Mas o suficiente para retirar o embaixador-deputado dos trilhos da imortalidade acadêmica e lançá-lo aos braços da desilusão. Contrição profunda. Apenas superada na composição de A Lanterna na Popa. Livro memorial testamento. Com mais de mil páginas. Concluído e lançado em 1994.

1994 teve de tudo: Plano Real, Copa do Mundo, eleições, vitória de Fernando Henrique Cardoso e a publicação de A Lanterna na Popa.

A Lanterna na Popa surgiu despretensioso, mas transformou-se num acontecimento cultural no país. Roberto Campos conseguiu o impensável: humanizar Bob Fields. Ou vice-e-versa. Levando o público ao delírio.

Era imensa – e não se sabia – a curiosidade geral sobre aquela personagem eternamente cuiabana tornada diplomata, embaixador, ministro de estado, senador, deputado, professor, provocador, construtor do Brasil. Não necessariamente nessa ordem.

Os mais moços poderiam não saber, mas os mais vividos facilmente conseguiam se lembrar que Roberto Campos representara o Brasil em Bretton Woods. Participara da criação do BNDE – depois, BNDES – sob Getúlio e do Plano de Metas sob Juscelino. Fora decisivo nas reformas institucionais e bancárias do primeiro ciclo dos militares, além de reputadíssimo embaixador do Brasil em Washington e Londres.

Autodeclarado discípulo de Eugênio Gudin e de Otávio Gouveia de Bulhões e segunda face de José Guilherme Merquior e Mário Henrique Simonsen, ele, Roberto Campos, Bob Fields, nutria o prazer de ser impopular. E, agora, depois dos temporais da redemocratização, mais que nunca seguia longe da unanimidade.

Quando eleito presidente, Fernando Collor convocou-o para uma conversa em Brasília. Ambos cultivavam o pensamento liberal que Roberto Campos era dos maiores expoentes no país. Collor queria o apoio de Campos. E conseguiu. O nobre embaixador ficou entusiasmado com o rapaz das Alagoas. Acreditava que o Brasil com ele, enfim, poderia começar a assemelhar-se aos seus livros, ideias e ideais.

Tudo ia bem até que veio o confisco da poupança que reverteu todas as expectativas e humores. Roberto Campos caiu irritado, irritadíssimo. Não sabia o que pensar nem dizer.

Almoçava em casa à sós com dona Stella quando o telefone tocou. Era de Brasília. Do outro lado, Fernando Collor querendo explicar o inexplicável. Campos resistiu muito antes de ceder e ir conversar com o presidente. Deixou, assim, a mesa e foi ao aparelho. Disse “alô” com rudeza. Collor começou a explicar a essência do plano. Campos não queria ouvir. O silêncio reinava. Suas feições eram só grimaces. Como pinturas de Breton. Até que Campos rompeu a monotonia com a expressão “E bota improviso nisso!, p…”.

Reconectou o aparelho. Lançou ao ar outra expressão precisa, forte e usual como síntese de rejeição. Lia-se em seu semblante. Ele estava irado. Conseguintemente, deu por encerrado o seu apoio ao governo. Reconhecia nele méritos. Sabia que Collor e os seus tinham se empenhado na modernização da economia brasileira. Mas estava convencido que aquele confisco fora longe demais. Corroera as frentes de governabilidade do antigo governador de Alagoas. Destruindo a sua credibilidade. Restando o impeachment como antídoto. Dilúvio ou caos. Melhor dilúvio. A entropia era sem fim. Nada conseguiria conter a sangria.

Às vésperas da votação do impeachment, Roberto Campos caiu em desarranjo. Sucumbira a uma intoxicação alimentar e seguia internado em clínica do Rio de Janeiro. O seu quadro era grave. O seu semblante ficou frio. O seu corpo, trêmulo. A sua aparência, frágil. Os seus movimentos, sem ação. Mesmo assim, num momento de suspiro, mandou dizer ao líder do PMDB, Ulysses Guimarães, que iria, a qualquer custo, votar e ajudar a derrubar o presidente. E foi. Em cadeira de rodas. Chegando ao Congresso naquele 29 de setembro de 1992 simplesmente para dizer “voto com o relator”. Quatro palavras. Imenso gesto. Quatro estações. E retorno às pressas para o Rio. Ele seguia febril e sua condição demandava atenção.

Superado, sem Collor nem a Academia, restou-lhe, então, dedicar-se à sua obra-fim, A Lanterna na Popa.

Demorou poucos meses. De inícios de 1993 a meados de 1994. Escrevia rápido e com convicção.

Dez meses depois, a publicação recebeu o prêmio José Ermírio de Morais da Academia. Um prêmio relevante e de alto reconhecimento. Que chegou em bom momento e caiu como bálsamo. Levando o embaixador a reconquistar ânimo para voltar a sonhar com a Academia.

Seus eternos incentivadores – Raquel de Queiroz, Jorge Amado e Antonio Olinto – reforçaram o ímpeto para Roberto Campos voltar a novamente se candidatar.

Aguardava-se apenas uma vaga vagar. Esperava-se apenas um imortal partir. O que aconteceu em 1999. Quando Alfredo Dias Gomes nos deixou.

Foi num dia ameno e feliz em São Paulo. 18 de maio de 1999. Uma terça-feira. O dramaturgo e sua nova mulher nova tinham vindo do Rio para acompanhar um espetáculo na capital paulista. Contemplaram a obra e foram jantar em restaurante popular na região central. Tudo ia bem e tranquilo. O autor de Bandeira DoisSaramandaia, Roque SanteiroBem-Amado era só risos. Estava nitidamente no melhor de sua vida e arte. Completava 76 anos de idade e 60 anos de composições. Fora precoce. O seu primeiro escrito foi gestado quando ele tinha apenas 15 anos. O Pagador de Promessas seguia o seu trunfo mais memorável. Mas o seu próximo texto prometia superar todos os demais.

Ele acabou de jantar e tinha pressa de ir embora. Queria voltar logo para a hospedagem. Um hotel nas imediações da avenida Paulista. A sua cabeça também estava no Rio, para onde queria voltar logo. Regressaria na manhã seguinte. Não quis, assim, após aquele jantar, aguardar o táxi credenciado do restaurante. Pediu um qualquer por conta própria. Queria colocar no papel outra crônica e novos escritos. Sempre sonhando o futuro. Entrou no carro e pediu para o motorista acelerar. O motorista respeitou.

Numa travessa da 9 de julho, sugeriu um atalho. O motorista também anuiu. Era uma conversão arriscada e proibida. Passava da meia-noite. O motorista aceitou a contravenção. Queria por tudo agradar o criador de Senhorzinho Malta. Tornou à esquerda sem notar o perigo. Cruzou à frente de um ônibus. Não conseguiu frear nem avançar. Colidiu forte. Foi lançado bem longe. O dramaturgo nada viu. Foi tudo muito rápido. Dias Gomes estava sem cinto de segurança. Bateu cabeça e membros.

Morreu ali mesmo. Subitamente. Sem suspirar nem de ninguém se despedir. Foi o seu fim. Triste fim de Dias Gomes. Notável baiano e brasileiro. Ocupante da cadeira 21.
Retornou ao Rio apenas para seus funerais. Sóbrios funerais que anunciaram o início de sua sucessão.

Roberto Campos estava na fila. Arnaldo Niskier, Tarcísio Padilha e Antonio Olinto somaram-se a Raquel de Queiroz e Jorge Amado para incentivar.

Roberto Campos superava os 80 anos. Seguia aguerrido, mas frágil. Seu coração já não era o mesmo. Infartos sucessivos insistiam em conclamar o seu retorno ao Pai. Vivia um dia ante o outro. A todo vapor. Com e sem sobressaltos. Era indiferente a tudo e todos. Vivia como quem não tem mais nada a perder. Lançou-se nesse espírito à vaga de Dias Gomes. Queria ser imortal.

Tornado candidato, surpreendeu-se. A resistência ao seu nome foi imensa. A virulência foi sem paralelos. Jamais se vira algo similar. Setores da imprensa e da Cultura consideravam um escárnio a sua intenção. Bernadeth Lyzio, viúva de Dias Gomes, prometeu retirar os restos mortais do marido do mausoléu da Academia caso Roberto Campos fosse eleito. Os filhos do dramaturgo seguiram em linha com a madrasta. A situação inflamou-se. A diatribe monopolizou o noticiário. Roberto Campos hesitou em manter a candidatura. O constrangimento tomou dimensões gigantescas. Roberto Campos foi, então, parlamentar com o presidente da Casa de Machado de Assis, Arnaldo Niskier. Pretendia abandonar a candidatura. Arnaldo Niskier convenceu-o a mantê-la. Roberto Campos aquiesceu. Seguiu na disputa e terminou eleito. Ingressou, enfim, nessa imortalidade. Para o bem da Academia, para o bem da Cultura e para o bem do Brasil. Morreria meses depois. No 9 de outubro de 2001. Mas conseguiria, antes, ser empossado.

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PS: agradeço ao embaixador Paulo Roberto de Almeida pela leitura atenta e generosa da versão inicial deste texto.

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