segunda-feira, 20 de julho de 2026

Estaria a imbecilidade humana aumentando? - Paulo Roberto de Almeida

 

Estaria a imbecilidade humana aumentando?

(uma pergunta que espero não constrangedora...)

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata professor

 

Com o perdão daqueles mais sensíveis à crueza da questão-título, respondo diretamente à pergunta. E a resposta é, ao mesmo tempo: sim e não! Explico um pouco melhor aqui abaixo.

Sim, infelizmente pode-se constatar empiricamente – mas isto poderia ser confirmado por alguma investigação “científica” – que está aumentando, para cifras nunca antes registradas nos meios de comunicação, o número de imbecis, idiotas ou simples energúmenos, cujas opiniões, elocubrações ou meras manifestações de “pensamento” conseguem ser captadas por esses meios de comunicação, encontrando assim um eco mais amplo nos veículos impressos e audiovisuais.

Por outro lado, nunca foi tão volumosa a produção científica ou a simples escolarização de massas antes excluídas do acesso à educação (de qualquer nível e qualidade). Com isso, a cultura científica se dissemina em meios antes entregues às mais variadas influências “culturais”, desde o curandeirismo shamânico até o fundamentalismo religioso pretendidamente “cientista”. Assim, a humanidade “progride”, ainda que isto possa ser descrito como sendo uma “fatalidade natural” do acúmulo do conhecimento científico e que esse saber esteja em muito poucas mãos (e cérebros).

Com esses dois processos se desenvolvendo simultaneamente, a resposta à pergunta central é, portanto, dupla e contraditória: nunca foi tão grande o número de pessoas partilhando de um mesmo conjunto de explicações simplistas – e basicamente erradas, quando não idiotas – sobre as complexidades do mundo e da vida, ao mesmo tempo em que aumenta gradativamente o número daquelas capazes de galgar as escarpas ásperas da ciência e de adotar explicações racionais, a fortiori racionalistas, para esses mesmos problemas. Um coisa não exclui a outra, portanto.

 

Como sabem todos aqueles que lidam com sistemas educativos, quando se amplia o acesso às instituições formais de ensino a uma clientela a mais extensa possível, parte da qual era antes excluída desses meios, é inevitável a queda de qualidade da educação formal, uma vez que se está lidando com os mais despreparados e carentes de toda e qualquer informação. Pessoas que antes eram “educadas” nas superstições e crendices “normais” dos meios populares, na baixa cultura dos estratos inferiores da sociedade, passam, de um momento a outro, a dispor de maior acesso aos canais da sociabilidade e aos meios de comunicação de massa, como revistas, jornais e internet. Alguns até conseguem sucesso nos meios profissionais e se tornam pessoas de renda elevada, detendo capacidade de influir na tomada de decisão de empresas e de governos, e de influenciar, portanto, uma maior número de indivíduos à sua volta. Se essas pessoas conseguiram adquirar, através da escola e dos livros, uma cultura superior, logicamente estruturada e cientificamente embasada, tanto melhor: elas poderão disseminar uma cultura superior àquela que tinham em seus meios de origem e contribuir assim para a elevação espiritual da humanidade. Se, ao contrário, elas passaram impunes pela educação formal e conservaram – até aumentaram, por hipótese pessimista – as mesmas superstições de origem, os mesmos preconceitos primários, as mesmas explicações ingênuas que compõem o lote comum da humanidade desde tempos imemoriais, então só podemos prever o pior: o aumento das opiniões não-fundamentadas, e das respostas equivocadas às questões mais complexas da vida e da sociedade. Pode-se até prever a consolidação da ignorância num verdadeiro “sindicato dos energúmenos”, cujos filiados crescem a olhos vistos.

Isto se aplica, por exemplo aos obcecados pela astrologia e pelas explicações “mágicas” sobre o “sucesso” na vida (no amor, nas finanças, na longevidade) e, sobretudo, em relação ao crescimento do fundamentalismo religioso e de variantes do criacionismo, que só posso explicar como representando a imbecilização congenital de pessoas até medianamente bem dotadas de acesso à educação formal e a meios decentes de vida. De fato, estou cada vez mais surpreendido com o crescimento dessas interpretações literais sobre a origem do universo, da vida na Terra e da criação do homens e dos demais seres vivos, “explicações” que afetam basicamente a história e a biologia (com todas as suas variantes na geologia, na antropologia ou na arqueologia).

Sem querer ofender ninguém em particular – mas possivelmente ofendendo, mas não me desculpando por isso –, só posso atribuir ao triunfo da ignorância o fato de que mais e mais pessoas resolvem aderir a essas versões ingênuas, simplistas e profundamente equivocadas sobre a origem da vida e seu desenvolvimento na face da Terra. Essas mesmas pessoas, obviamente, recusam a teoria da evolução e suas conseqüências práticas, sendo portanto totalmente ineptas para qualquer tipo de carreira científica, pelo menos nas áreas de biologia, de geologia e de outras ciências naturais (para não falar da torturada e tortuosa história da humanidade).

Sem pretender chamar ninguém em particular de idiota – mas possivelmente chamando, e não me desculpando por isso –, surpreende-me, sim, que tantas pessoas resolvam aderir a uma visão do mundo terrivelmente comprometedora de suas chances futuras de progresso numa cultura superior e em carreiras científicas que poderiam contribuir para o seu próprio bem-estar individual e para uma qualidade de vida melhor para toda a humanidade (eventualmente para si próprias, se elas por acaso se encontrassem em uma situação de emergência que requeresse o mínimo de conhecimento especializado, geralmente de tipo científico).

É evidente que, em todas as épocas históricas e em todas as sociedades, a cultura científica sempre foi algo extremamente restrito e profundamente elitista, tocando em poucos membros da comunidade. Com a ampliação e a extensão das instituições escolares, essa cultura se estende progressivamente a um maior número de pessoas, mas seu estabelecimento e desenvolvimento dependem, em última instância, do próprio esforço individual e do empenho pessoal na absorção e compreensão de complexos problemas técnicos que passam então a se disseminar em escala ampliada. Essa cultura científica sempre estará em competição com a cultura ingênua, com as explicações simplistas e desrrazoadas ou até com a ignorância mais completa – que, aliás, não se peja de aparecer –, travestida em “conhecimento popular”, ou em senso comum.

A razão disso é simples: independentemente do seu meio social de nascimento, do nível de renda e do background familiar, as pessoas nascem igualmente dotadas, ou seja, com algumas habilidades inatas e uma mesma ignorância cultural fundamental. A cultura e a educação serão nelas “instaladas” à medida de sua exposição a fontes superiores de cultura e de educação, ou então elas conservarão as mesmas “ferramentas” de saber dos seus meios de origem ou daqueles meios a que foram expostos no curso da vida. É muito duro adquirir uma cultura científica e uma explicação “superior” sobre a vida, uma vez que isto requer estudo constante, leituras aplicadas, raciocínio não-elementar e alguma “transpiração” na busca de instrumentos explicativos de realidades complexas, em todo caso não-óbvias.

Em outros termos, conformando-se às tendências inatas à preguiça e à acomodação, na ausência de perigos ou de estímulos externos à criatividade e à inovação, a maior parte da humanidade adapta-se ao puro senso comum e às explicações elementares, que são obviamente rudimentares, quando não preconceituosas ou francamente equivocadas. Apenas uma pequena parte da humanidade é levada – ou é obrigada – a responder a desafios externos ou à sua própria curiosidade intelectual (que também é inata, mas requer algo mais do que simples ações reativas a estímulos ambientais). Resulta disso a divisão tradicional entre a cultura científica e a cultura popular, já examinada na obra de epistemologistas e de historiadores da ciência, não cabendo aqui qualquer relativismo cultural ou manifestação de “correção política” quanto às virtudes pretensamente igualitárias ou dotadas de alguma “genialidade natural” da segunda em relação à primeira.

Este me parece ser o “molde sociológico” através do qual seria possível analisar a “emergência” e a “disseminação” de explicações equivocadas, francamente deletérias e (por que não dizer?) totalmente idiotas sobre o mundo real, que resultam dessas crenças “criacionistas” ou anti-evolucionistas que, a exemplo dos EUA, também tendem a se propagar no Brasil a um ritmo impressionante. Para onde quer que se olhe, a constatação parece ser a mesma: mais e mais pessoas, incapazes de se alçar a uma cultura superior – que chamamos de científica –, se deleitam, quando não se comprazem com explicações religiosas simplistas ou com meras superstições. O que é pior: dotadas de acesso aos meios de comunicação – hoje em dia, qualquer um tem acesso à internet, e muito cachorro de madame possui webpage –, essas pessoas passam a expor sem maiores restrições sua profunda ignorância, seus preconceitos tradicionais, seus equívocos de senso comum transmitidos desde o berço a um número incontável – e propriamente incontrolável – de outras pessoas.

Como a exploração da credulidade alheia tornou-se, igualmente, uma prática comum em nossos tempos mercantilistas, sobretudo em algumas vertentes da “indústria religiosa” – que baseia sua ação na “teologia da prosperidade”, antes de mais nada, a prosperidade individual dos próprios “ministros” da nova religião –, é evidente que a imbecilidade humana, como explicitado no título deste ensaio, tenha tendência a aumentar. Torna-se inevitável o triunfo de alguns imbecis – nem por isso menos aptos a extrair renda de pessoas ignorantes e ingênuas – que não sofrem nenhum constrangimento em estender o mais possível sua ignorância enciclopédica em todas as longitudes e latitudes abertas ao seu pouco engenho e baixa arte. Trata-se de um aumento relativo e também absoluto, ou seja: mais e mais pessoas, dotadas de “cultura ingênua”, são mobilizadas pelos espertalhões de plantão, nem todos imbecis ou idiotas; longe disso, pois alguns fazem disso uma profissão altamente lucrativa.

Por outro lado, é normal que grande parte da humanidade, agora provista de meios de subsistência relativamente satisfatórios, sobreviva e prospere fisicamente (obviamente graças aos progressos da ciência, que alguns tão alegremente ignoram). Agora são indivíduos arrancados de um estado de letargia intelctual para uma situação de exercício ativo de banalidades de senso comum, quando não de imbecilidades coletivas facilmente disseminadas pelo acesso irrestrito aos meios modernos de comunicação. É o triunfo das nulidades, como queria um sábio brasileiro, é a vitória da ignorância de modo amplo, uma vez que os meios técnicos não distinguem entre a boa e a má “cultura”, entre a verdade e a falsidade, entre a racionalidade e o ilogismo mais absoluto.

Na outra ponta, nunca foi tão grande o conhecimento acumulado pela espécie humana sobre sua própria existência e o meio que a cerca. Como a ciência e o conhecimento são cumulativos e, em princípio, não “extinguíveis” – salvo catástrofes humanas e naturais muito amplas –, a única previsão possível nesse terreno é a expansão e aperfeiçoamento do saber científico, em benefício do conjunto da humanidade, mesmo os mais imbecis. Ou seja, mesmo aqueles fundamentalmente estúpidos a ponto de recusar uma explicação científica para a origem de seus males eventuais, podem ter suas vidas salvas pelos progressos da medicina e assim, num exercício de “darwinismo involuntário”, continuar a disseminar impunemente a sua ignorância e seus preconceitos à sua volta ou a uma geração de idiotas mais à frente. Um exemplo: aqueles que recusam a transfusão de sangue podem ser salvos por injunção legal ou pela mudança temporária de religião – alguns não são idiotas a esse ponto –, a tempo de permitir a operação médica e sobrevivência. (Alguns darwinistas radicais talvez não estejam de acordo com essa sobrevivência dos ineptos, mas a perspectiva humanitária comanda que façamos todo o possível para salvar nossos semelhantes.)

 

Em resumo: a ciência e a racionalidade progridem a olhos vistos, e elas tornam a vida de todos melhor e mais longa. Elas sempre serão restritas a um número relativamente pequeno de seres humanos, em todo caso até que a educação de qualidade e o espírito de pesquisa se tornem mais amplamente disponíveis nas sociedades. A ignorância e o preconceito recuam no conjunto, mas eles continuarão a ser muito comuns, na medida em que também constituem características tradicionais – eu não diria inatas por respeito ao gênero humano – das sociedades.

Concluindo: a imbecilidade humana tem, sim, aumentado, pela força dos números, mas ela comanda cada vez menos os destinos da raça humana, graças aos progressos da ciência. Ou estarei errado?

 

1743: Em vôo Miami-São Paulo, 23 abril 2007.

 

Foreign Policy Reading List: A Ukranian new "Theory" of War

 Foreign Policy Reading List

A Foreign Policy de 19 de julho tem vários artigos sobre a nova "teoria" ucraniana para vencer a guerra de agressão da Rússia, uma combinação de novas estratégias, novos equipamentos e novas concepções sobre o que fazer para derrotar o agressor.
Infelizmente não tenho assinatura –como já tive no passado, trabalhando em Washington – mas espero que almas boas, com acesso aos artigos citados abaixo, possam disponibilizar esses textos: 
 
Foreign Policy Reading List:
JULY 19, 2026
Just a year ago, “despite a few remarkable successes, Kyiv’s overall war effort seemed scattershot and unfocused,” FP’s Christian Caryl writes. “Yet over the past few months, the world has witnessed a dramatic transformation in Kyiv’s ability to take the fight to the Russians.”
In recent weeks, Ukraine has sharply escalated attacks on Russia, striking key energy infrastructure, weapons factories, and shipping sites—and sparking a fuel crisis in the country.
As Foreign Policy contributors discuss, a number of factors have helped bring about Ukraine’s recent battlefield success: a more cohesive military strategy, diplomatic prowess, and a new arsenal of medium- and long-range drones.
But have these developments really changed the trajectory of the entire war? And will they lead to Kyiv regaining Russian-held territories? The articles below consider the nature of Ukraine’s recent military push and where it might be headed.—Chloe Hadavas
1
Ukraine Finally Has a Theory of Victory. Will It Work?
Kyiv has developed a strategy for winning the war. Now all it needs is time.
By Christian Caryl
2
Ukraine’s Drones Have Turned the Tide, but Can They Change the Map?
Mid-range drone strikes may not be enough to regain Ukrainian territory.
By Sam Skove
3
Putin’s War Comes Home to Russia
Ukraine’s attacks have unleashed a crisis—but don’t expect repercussions for the regime.
By Alexey Kovalev
4
Ukraine Isn’t Waiting Around for Patriots
A new European coalition is looking to build quicker and cheaper anti-ballistic missile systems—off Ukrainian technology.
By Rishi Iyengar
5
How Ukraine Figured Out Trump World
Former Ukrainian Foreign Minister Dmytro Kuleba on the White House’s seeming change in tone toward Kyiv.
By Ravi Agrawal
 

O florentino Nicolao Maquiavel e a maldição de seus tradutores para português - Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy (Conjur, Embargos Culturais)

2018ArnaldoEmbargoMaquiavelTraducoes

 

EMBARGOS CULTURAIS

O florentino Nicolao Maquiavel e a maldição de seus tradutores para português

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Conjur, Embargos Culturais, 29 de abril de 2018

https://www.conjur.com.br/2018-abr-29/embargos-culturais-maquiavel-maldicao-tradutores/

 

Spacca

 

Em algum ponto do universo (no céu ou no inferno ou nenhures, a depender do leitor) o florentino Nicolau Maquiavel convive com a descoberta de que passou de Florença para a posterioridade na forma de adjetivo negativo. Nossas hipocrisias transformaram Maquiavel em “maquiavélico”, simbolizando o maligno e significando muito que se crê que Maquiavel teria dito, ainda que não o tenha escrito.

Nessa categoria, uma lista de sentenças não localizadas como “fazei o mal, mas fingi fazer o bem”, “sede bruto e miserável”, “quando apunhalar o inimigo o faça pelas costas”, a par da mais da mais significativa de todas: “Os fins justificam os meios”. Na tradição ocidental Maquiavel é a própria encarnação da astúcia, da hipocrisia, da crueldade; é lugar comum lembrar que o substantivo próprio transformou-se em adjetivo prenhe de antropologia negativa. Mais. Como demonstrarei mais adiante, Maquiavel também sofre nas mãos de seus maiores algozes: seus tradutores traidores; ou, ainda, os faz sofrer.

O florentino também tem seus méritos. Afastou da teorização política a fabulização da realidade. Não nos vendeu nenhuma utopia. Também não nos legou nenhuma premonição de um mundo distópico. O futuro não é sombrio, e nem nirvânico. É apenas o resultado de nossa ação, pautado por nossos cálculos, e também influenciado por eventos externos, que fogem a nosso controle. É bíblico: colhemos na velhice o que semeamos na juventude.

A principal preocupação de Maquiavel consistia no esforço em influenciar a condução dos negócios públicos na cidade-república na qual vivia. Era um prático. Maquiavel defendeu a república florentina, a ordem estabelecida; inspecionava pessoalmente as fortalezas da cidade. Era um homem de costumes simples, de hábitos plebeus e anticonvencionais, gostava da boa conversa e sentava-se com desembaraço com qualquer tipo de gente.

Com a queda da república florentina em 1512 Maquiavel viveu seu inferno. Em 1513 foi preso e torturado. Tinha 44 anos. Retornou aos negócios da cidade de Florença em 1519. Em 1521 teve de abandonar a vida pública. Dedicou-se a literatura. Morreu em 21 de junho de 1527, aos 58 anos. Estava pobre e não exercia nenhuma influência política.

 

Seu legado, tomando-o sem qualquer folclore, consiste no fato de que deixou de fabulizar a realidade política, como o fizeram Platão e Morus, por exemplo, intervindo na vida real, aliás, a única que nos permite algum espaço de ação prática. Menos do que as prosaicas e úteis instruções deixadas no “Príncipe”, talvez o maior legado de Maquiavel seja o próprio exemplo, no sentido de que entendamos que a vida nos exige muita ação e muita energia.

Maquiavel é personagem emblemático do Renascimento, época que se opunha ao misticismo, ao coletivismo, ao antinaturalismo, ao teocentrismo e ao geocentrismo. O Renascimento era marcado por intensa defesa do racionalismo, do individualismo, do antropocentrismo, do heliocentrismo. O humanismo foi também um dos traços definidores daquele tempo, centrado na retomada dos valores greco-romanos, circunstância muito característica na obra de Maquiavel.

Especialmente no “Príncipe”, sua obra mais conhecida, Maquiavel suscita problemas de difícil solução. Trato da questão dos tradutores e me refiro à parte final do Capítulo XXV. Nesse capítulo, Maquiavel acrescenta a sorte (fortuna) à virtude, como indicativos do pleno sucesso e domínio do príncipe. O poder exige qualidades (virtude) mas de algum modo também depende de um contexto pré-determinado (a fortuna, ou a sorte). No original: “perché la fortuna à donna, et è necessario, volendola tenere sotto, batterla er untala”.

Maquiavel equiparou a fortuna à mulher. E afirmou que a sorte seria obtida com força e violência, a exemplo de como mulheres seriam tratadas. Há aqui um tremendo problema que todo tradutor deve enfrentar, especialmente porque não pode passar ao largo para com a dignidade da pessoa humana.

Vejamos o que escreveram os tradutores de Maquiavel para nossa língua. Na prestigiosa tradução da Editora Martins Fontes lemos: “a fortuna é mulher, e é necessário, para submetê-la, bater nela e maltratá-la”[1]. Na tradução da Coleção Os Pensadores, optou-se por “a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la”[2]; essa opção também foi a da Edipro, que manteve a versão da Editora Abril[3], bem como foi a opção da Ediouro[4]. A tradução da Martim Claret foi mais metafórica: “a sorte é uma mulher, sendo necessário, para dominá-la, empregar a força”[5]. Na edição da Golden Books optou-se por; “a sorte é uma mulher e, se quiseres conquista-la, precisas enfrenta-la e subjuga-la”[6].

A tradução da Paz e Terra é das mais agressivas: “a sorte é mulher e é necessário, para subjuga-la, espanca-la e surra-la”[7]. A tradução da Cultrix também é pesada: “a sorte é mulher, e é necessário, para domina-la, bater-lhe e feri-la”[8]. De igual modo, a tradução do Jardim dos Livros: “a fortuna é mulher e convém, se a queremos subjugar, batê-la e humilha-la”[9]. Na tradução da Companhia das Letras (que tem prefácio de Fernando Henrique Cardoso) a passagem também foi traduzida com aspereza: “a fortuna é mulher, e é preciso, case se queira mantê-la submissa, dobrá-la e força-la”[10].

Na tradução da L&PM Pocket tem-se a impressão que o tradutor registrou seu espanto com a passagem, colocando um “sic” em seguida do excerto: “a fortuna é mulher e, para mantê-la submissa, é preciso bater-lhe e maltrata-la [sic]”[11]. Na tradução da Revista dos Tribunais manteve-se o tom pesado: “a sorte é mulher e é necessário, para domina-la, bater-lhe e agredi-la”[12].

As traduções de Portugal mantém o mesmo tom de misoginia infinita. Na edição do Círculo dos Leitores “a fortuna é mulher e é necessário, querendo-a ter debaixo, vergá-la e acomete-la”[13]. Na edição da Europa-America optou-se por “a fortuna é mulher e, para a conservar submissa, é necessário bater-lhe e contrariá-la”[14], tradução também utilizada na edição da Casa Coisas de Ler[15]. Pesadíssima a tradução do Editorial Presença: “a fortuna é mulher e, se quiser mantê-la submissa, há que espanca-la e contraria-la”[16]. Na edição da Casa Guimarães também se optou por uma fórmula forte: “a fortuna é mulher, e é necessário, se se quer domina-la, bater-lhe e feri-la”[17].

Todas as traduções acima indicadas são medonhas e agressivas para com a condição feminina. São inaceitáveis, ainda que registrem o que Maquiavel escreveu. Não há hermenêutica ou teoria da tradução que explique o que Maquiavel tinha em mente quando compôs essa sentença.

Esse excerto é mais um componente, entre tantos outros, que confirmam que não entendemos o passado, que o passado não nos explica e que a possibilidade de compreensão universal é próxima do nada. Persiste o mundo, e as relações humanas, como um perpétuo mal entendido, no qual falamos o que não pensamos e ouvimos apenas o que queremos ouvir. E se a fortuna de alguém dependa de maus tratos para com qualquer ser humano, melhor perecermos na desgraça e na adversidade.

 

Notas: 

[1] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Martins Fontes, 2010, pp. 124-5. Tradução de Maria Júlia Goldwasser.

[2] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 105. Tradução de Lívio Xavier.

[3] Maquiavel, O Príncipe, Bauru: Edipro, 2010, p. 88. Tradução de Lívio Xavier.

[4] Maquiavel, O Príncipe, Rio de Janeiro: Agir-Editouro, 2008, p. 119. Tradução de Lívio Xavier.

[5] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Martin Claret, 2007. Tradução de Pietro Nassetti.

[6] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: DPL-Golden Books, 2008, p. 233. Tradução de Cândida de Sampaio Bastos.

[7] Maquiavel, O Príncipe, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 127. Tradução de Maria Lúcia Cumo.

[8] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Cultriz, 2006, p. 146. Tradução de Antonio D'Elia.

[9] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Jardim dos Livros, 2007, p. 221. Tradução de Ana Paula Pessoa.

[10] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 134. Tradução de Maurício Santana Dias.

[11] Maquiavel, O Príncipe, Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 124. Tradução de Antonio Carucio-Carporale.

[12] Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 151. Tradução de J. Cretella Jr. De Agnes Cretella.

[13] Maquiavel, O Príncipe, Maia: Círculo de Leitores, 2011, p. 234. Tradução de Diogo Pires Aurelio.

[14] Maquiavel, O Príncipe, Mira-Sintra: Europa-America, 2002, p. 157. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

[15] Maquiavel, O Príncipe, Almargem do Bispo: Coisas de Ler Edições, 2007, p. 107. Tradução de Antonio Simões do Paço.

[16] Maquiavel, O Príncipe, Lisboa: Editorial Presença, 2008, p. 186. Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.

[17] Maquiavel, O Príncipe, Lisboa: Guimarães Editores, 2008, p. 112. Tradução de Carlos Eduardo de Soveral.

 

 

é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela USP e doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP. Tem MBA pela FGV-ESAF e pós-doutorados pela Universidade de Boston (Direito Comparado), pela UnB (Teoria Literária) e pela PUC-RS (Direito Constitucional). Professor e pesquisador visitante na Universidade da Califórnia (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

 

 

 

O Holodomor ucraniano, antes e depois; Madame IA analisa o que foi a grande fome na Ucrânia promovida por Stalin e agora por seu seguidor Putin

Madame IA discorre, no texto abaixo, a pedido de nosso gerente comum, Airton Dirceu Lemmertz, sobre o Holodomor, com base em conceitos comumente utilizados por mim no Diplomatizzando, mas ela provavelmente não leu, pois que pouco divulgada, uma nota que elaborei em 2023 sobre o Holodomor do Putin contra o povo ucraniano, inclusive responsabilizando a diplomacia brasileira pelo silêncio em face da mortandade promovida pela guerra de agressão da Rússia contra o povo ucraniano (transcrito in fine). PRA 

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ADL a Madame IA: Apresente um texto sobre "Holodomor" ("A Grande Fome Ucraniana"). O texto deverá ter, no mínimo, 7700 caracteres; deverá usar apenas frases e parágrafos; deverá utilizar, como base (ou seja, como fonte), os textos correlatos em postagens do blog Diplomatizzando; deverá usar o estilo de escrita do diplomata Paulo Roberto de Almeida. 

O fenômeno histórico conhecido como Holodomor, termo derivado das palavras ucranianas para fome e extermínio, representa um dos capítulos mais sombrios e meticulosamente ocultados do século XX. A análise rigorosa desse morticínio deliberado exige o afastamento completo das paixões ideológicas e a adoção de uma perspectiva firmemente ancorada nos fatos documentais, tal como amiúde propugnado nas reflexões analíticas do embaixador e historiador diplomático Paulo Roberto de Almeida em seu espaço de debate intelectual, o blog Diplomatizzando. Longe de constituir um mero acidente climático ou uma disfunção passageira nas forças produtivas da agricultura soviética, a Grande Fome Ucraniana revelou-se um autêntico genocídio planejado, operado e executado por estruturas estatais hipertrofiadas sob o comando direto de Joseph Stalin. Examinar esse episódio crucial à luz da história diplomática e das relações internacionais contemporâneas desvela os mecanismos perversos por meio dos quais regimes totalitários instrumentalizam a escassez alimentar absoluta para subjugar o nacionalismo, erradicar dissidências políticas e reformar compulsoriamente a estrutura socioeconômica de uma nação inteira.
A gênese da catástrofe humanitária remonta diretamente à virada da década de 1920 para a década de 1930, quando o comitê central do partido comunista da União Soviética deliberou pela aceleração brutal dos planos quinquenais de industrialização pesada. O financiamento dessa modernização urbana e fabril dependia crucialmente da capacidade do Estado soviético de extrair excedentes agrícolas do campo para exportação global e abastecimento dos grandes centros urbanos russos. Diante desse imperativo puramente ideológico e centralizador, o regime stalinista desencadeou o programa de coletivização forçada da agricultura em 1929 e 1930, extinguindo sumariamente a propriedade privada rural e empurrando a massa camponesa para as estruturas coletivas dos kolkhozes. A resistência a esse processo foi generalizada e feroz, manifestando-se de forma particularmente intensa na Ucrânia, região historicamente caracterizada por uma sólida tradição de pequenos proprietários agrícolas independentes conhecidos pela alcunha pejorativa de kulaks. A resposta do aparato repressor de Moscou não tardou, inaugurando uma escalada de violência que combinava deportações em massa para o arquipélago do Gulag, execuções sumárias perpetradas pela polícia política e o confisco sistemático de sementes e ferramentas.
À medida que os agricultores ucranianos reagiam à expropriação violenta reduzindo o plantio ou abatendo seus próprios rebanhos para evitar a entrega ao Estado, a liderança bolchevique interpretou essa postura não como uma reação natural à destruição de seus meios de subsistência, mas como uma sabotagem contrarrevolucionária orquestrada por elementos nacionalistas. Em consequência, o governo soviético elevou as cotas obrigatórias de entrega de grãos a patamares matematicamente impossíveis de serem atingidos pela lavoura devastada. No ano fatídico de 1932, a imposição da famigerada lei das cinco espigas criminalizou severamente qualquer indivíduo, inclusive crianças famintas, que recolhesse restos de trigo deixados nos campos coletivizados, aplicando penas que variavam do fuzilamento imediato a longos anos de trabalhos forçados. Brigadas de ativistas urbanos e agentes da polícia secreta foram despachadas para o interior da Ucrânia com ordens expressas de revistar cada residência rústica, confiscando não apenas os grãos remanescentes, mas todo e qualquer alimento estocado, incluindo vegetais domésticos, animais de criação e sementes reservadas para o ciclo de plantio subsequente.
O isolamento geográfico e administrativo da Ucrânia completou o cerco mortífero desenhado pelos planejadores stalinistas na virada para o ano de 1933. Fronteiras internas foram rigidamente bloqueadas por tropas do exército vermelho e agentes de segurança pública para impedir o êxodo da população rural desesperada em direção às grandes cidades ou a outras repúblicas soviéticas menos castigadas pela requisição de víveres. O sistema de passaportes internos, introduzido justamente naquele período de agonia, negou sistematicamente o direito de livre circulação aos camponeses ucranianos, confinando-os a vilarejos transformados em verdadeiros campos de extermínio ao ar livre. O resultado dessa engenharia social punitiva foi uma mortandade em escala industrial, cujas estimativas demográficas mais rigorosas apontam para a perda direta de quase quatro milhões de vidas ucranianas, embora cálculos que computam o colapso na natalidade e as perdas em regiões periféricas sugiram cifras ainda mais assustadoras, alcançando os sete milhões de mortos. Relatos contemporâneos resgatados de arquivos confidenciais descrevem cenas dantescas de inanição extrema, degradação do tecido social elementar, episódios generalizados de loucura coletiva e manifestações esporádicas de canibalismo decorrentes do desespero absoluto.
Para além do horror puramente humano ocorrido no solo ucraniano, o Holodomor constitui um estudo de caso fundamental sobre a cumplicidade internacional e a manipulação deliberada da informação jornalística e diplomática global. Enquanto milhões de seres humanos pereciam silenciosamente na Europa Oriental, o regime soviético montou uma formidável operação de relações públicas e cortinas de fumaça para enganar observadores estrangeiros e preservar a reputação do socialismo real perante as democracias ocidentais. Intelectuais simpáticos à causa bolchevique, diplomatas ocidentais e correspondentes de jornais de prestígio, notadamente Walter Duranty do The New York Times, engajaram-se ativamente na negação da fome, classificando notícias sobre a tragédia como propaganda antissoviética. Essa farsa internacional impediu a mobilização de ajuda humanitária externa que poderia ter atenuado o sofrimento da população civil, demonstrando como o pragmatismo geopolítico e a cegueira ideológica frequentemente conspiram para obscurecer a consumação de crimes contra a humanidade.
O debate contemporâneo em torno do reconhecimento jurídico do Holodomor como genocídio permanece vivo nas chancelarias e academias mundiais, refletindo-se diretamente nas discussões hospedadas por intelectuais no ambiente do Diplomatizzando. Historiadores de renome e juristas alinhados com o legado de Raphael Lemkin, o formulador do conceito de genocídio, sustentam que o Holodomor preenche todos os requisitos estabelecidos pelo direito internacional para tal tipificação. O argumento central repousa na intencionalidade do regime stalinista de destruir, no todo ou em parte, o grupo nacional ucraniano enquanto entidade política e cultural distinta, utilizando a fome como arma biológica seletiva. Em contrapartida, correntes revisionistas e as narrativas oficiais emanadas de Moscou tentam diluir a especificidade da tragédia ucraniana, rotulando o evento como uma infelicidade climática geral que afetou indiscriminadamente outras regiões soviéticas, omitindo o fato de que apenas na Ucrânia o confisco de alimentos foi acompanhado pelo fechamento militarizado de fronteiras e pela decapitação sistemática das elites intelectuais e eclesiásticas locais.
A relevância do Holodomor estende-se para além do mero registro historiográfico, projetando sombras longas sobre a geopolítica europeia contemporânea. A persistente recusa do atual governo russo em admitir o caráter genocida da grande fome stalinista liga-se diretamente à sua tentativa contemporânea de reescrever a história e negar a legitimidade da soberania nacional ucraniana. Como observa de forma perspicaz a melhor literatura de relações internacionais, a guerra travada no campo de batalha é frequentemente precedida e legitimada por uma guerra contra a memória histórica. O resgate da verdade factual sobre o massacre de 1932-1933 converteu-se em pilar fundamental para a consolidação da identidade nacional da Ucrânia independente, servindo como advertência permanente contra os perigos decorrentes do totalitarismo e do messianismo estatal.
Compreender o Holodomor à luz da racionalidade diplomática e econômica expõe a fragilidade dos arranjos internacionais que negligenciam os direitos humanos em nome de imperativos comerciais ou de equilíbrios de poder artificiais. O sacrifício de milhões de camponeses no altar da coletivização agrícola soviética permanece como um monumento trágico à miséria intelectual e moral de regimes que subordinam a dignidade intrínseca da pessoa humana a abstrações ideológicas totalizantes. A leitura atenta das postagens correlatas no blog Diplomatizzando oferece um subsídio indispensável para quem deseja aprofundar-se no exame crítico das ditaduras do século passado, municiando diplomatas, acadêmicos e cidadãos com as ferramentas analíticas necessárias para identificar e combater as novas roupagens do autoritarismo que ameaçam a estabilidade internacional e a convivência democrática entre as nações no presente século.

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Madame IA não relata que o jornalista inglês Gareth Jones percorreu a Ucrânia em pleno Holodomor e fez uma série de relatos sobre as atrocidades que contemplou, gente morrendo de fome, nas ruas e nas casas. Existe uma edição brasileira dos seus textos, pelo jornalista Duda Teixeira: 

Fome na Ucrânia - Os relatos do front do Holodomor: Os relatos do front do Holodomorpor Gareth Jones e Duda Teixeira | 18 out. 2022 (link).

Tem também esta nota: 

4416. “O Holodomor de Putin”, Brasília, 13 junho 2023, 1 p. Nota sobre o morticínio russo contra o povo ucraniano. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/06/o-holodomor-de-putin-paulo-roberto-de.html).

 

O Holodomor de Putin

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre o morticínio russo contra o povo ucraniano.

  

O tirano de Moscou já constatou que ele não poderá mais anexar a Ucrânia pela força.

Ele agora só está empenhado em destruir o país e matar o maior número possível de pessoas, inclusive velhos e crianças. 

A diplomacia brasileira já perdeu qualquer resquício de moralidade?

Se revela incapaz de expressar pelos ucranianos os mesmos cuidados que o governo diz manter em relação aos “povos originários”? 

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia é apenas um detalhe nos planos de Lula para uma “nova ordem mundial”?

O Brics continuará, como no ano passado, absolutamente indiferente ao morticínio deliberado que ocorre na Ucrânia?

E sua Declaração de cúpula ainda terá a petulância (e a ignomínia) de afirmar, como foi o caso em 2022, que todos os países respeitam a Carta da ONU e os DH?

Confesso meu asco em pensar que meus colegas diplomatas possam negociar os termos de um documento final recheado de mentiras escabrosas.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4416, 13 junho 2023, 1 p.

Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/06/o-holodomor-de-putin-paulo-roberto-de.html).

  

 

domingo, 19 de julho de 2026

O Adversário, de Emanuel Carrère - Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy (Embargos Culturais, Consultor Jurídico)

 Embargos Culturais

O Adversário, de Emanuel Carrère 

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Consultor Jurídico, 

19 de julho de 2026, 8h00

https://www.conjur.com.br/2026-jul-19/o-adversario-de-emanuel-carrere/

Emanuel Carrère é um escritor francês que tem se notabilizado por livros que tratam de crimes e outras tragédias da vida. Em Outras Vidas que Não a Minha, narra um tsunami ocorrido em Sri Lanka. Carrère presenciou os fatos. Estava com a família hospedado em um resort.

A tragédia ocorreu em 2004. Em V 13 (na minha opinião seu livro mais arrebatador, resenhado nesta coluna em 2024) Carrère acompanha o julgamento de extremistas do Estado Islâmico responsáveis pela morte de 130 pessoas. São os dolorosos fatos ocorridos em Paris, em 13 de novembro de 2015. Em O Adversário, tema desta semana, o autor acompanha o julgamento de um homem que matou a esposa, dois filhos, o pai e a mãe, que ateou fogo na própria casa e que tentou o suicídio. Que defesa poderia haver?

Nos livros de Carrère o que liga as narrativas é a compaixão com a qual o autor trata vítimas e assassinos. Na impressão de Carrère, vítimas e assassinos são vítimas dos fatos da vida. Do ponto de vista criminológico, uma inusitada vitimologia, que escapa aos cânones da vitimologia tradicional. A vitimologia é um ramo da criminologia que estuda a figura da vítima, analisando sua personalidade, vulnerabilidades, o papel que desempenha na ocorrência do crime e o impacto da violência em sua vida. 

Spacca

Carrère amplia o escopo da definição e insere o criminoso no campo da vítima. É o que incomoda muita gente. Nas entrelinhas, o leitor percebe uma obcecada tentativa de compreensão do criminoso, que de algum modo (na percepção de Carrère) é vítima de sua trajetória e de suas escolhas. Tem-se a impressão de que o autor questiona os dogmas do livre-arbítrio, inferindo do mundo um determinismo mefistofélico que ronda todas as tragédias. Um livro que provoca.

 

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 Nota inicial PRA: dificuldades para identificar o exato autor do longo texto abaixo, recuperado numa das inúmeras listas sobre a Ucrânia qu...