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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Recordacoes de um 11 de Setembro: impossivel esquecer - Paulo Roberto de Almeida


Recordações de um 11 de Setembro: impossível esquecer

Paulo Roberto de Almeida

Todos os americanos, ou praticamente todos, sabem o que estavam exatamente fazendo na manhã do dia 11 de setembro de 2001, quando o primeiro avião, e depois o segundo, foram lançados contra as duas torres gêmeas do World Trade Center, em Manhattan, New York. Todos sabem porque a vida parou naquele instante, e os Estados Unidos, o mundo, nunca mais foram os mesmos. Todos se recordam o que estavam fazendo quando sua atenção foi chamada, na rádio ou na televisão, pelas primeiras imagens do fogo e fumaça saindo das duas torres, e o pânico instantaneamente criado. Todos se recordam, pois que seria impossível não tomar conhecimento, e mesmo hoje, catorze anos depois, é impossível esquecer o que houve, o que estávamos fazendo, o que fizemos em seguida, o que pensamos naquele momento, o que pensamos depois, como reagimos, e como passamos a viver a partir de então, com um pouco de medo, e uma imensa tristeza pela dimensão da tragédia humana, e pelo choque político então criados, e que nunca mais se desfizeram. Todos se recordam, todos se lembram.
Eu me lembro exatamente do que estava fazendo naquela manhã ensolarada, tendo saído de carro, com Pedro Paulo ao lado, para deixa-lo na Universidade de Maryland, em College Park, onde ele cursava arquitetura, para depois voltar a Washington, DC, onde iria direto para a Embaixada do Brasil, na Massachusetts Avenue. Como sempre faço, estava conectado na National Public Radio, ou alguma outra rádio, mas sempre em um programa de notícias, e o mais provável é que fosse a NPR. Tínhamos recém saído de nosso apartamento no norte da Virgínia, bem perto do Aeroporto de Alexandria, e atravessávamos a ponte da 495, que entra em DC, antes de se dirigir a Maryland.
No meio da ponte, o radialista anunciou que um avião havia acabado de se chocar com um prédio em Nova York, e se imaginava naqueles primeiros momentos que pudesse ser algum acidente involuntário, algum erro de pilotagem ou algo do gênero. Eu me lembro de ter comentado com Pedro Paulo: “Não, isso não me parece acidente”, e imediatamente pensei no terrorismo islâmico, pois já estávamos há muito tempo com o Al Qaeda no Afeganistão, sob abrigo dos talibãs. Ficamos sintonizados na rádio, mas continuando em nossa rota, quando a notícia fatídica pipocou novamente na rádio: um segundo avião havia se chocado contra o que já era identificado como a segunda torre gêmea do World Trade Center. Não havia mais dúvida possível: era um ataque terrorista. No intervalo já tínhamos telefonado para Carmen Lícia, para que ela ligasse na CNN, para acompanhar a história. Dessa parte eu não me lembro se consegui falar com ela imediatamente, ou depois, em todo caso, ainda no carro, a caminho da Universidade de Maryland.
Mais alguns minutos, outra fatalidade: um ataque tinha sido feito nas imediações de nosso apartamento, na Virgínia do norte, muito perto de Washington. Carmen Lícia disse, depois, que os vidros do nosso apartamento tremeram, no momento do choque, mas ela não sabia o que era, até tomar conhecimento do terrível ataque ao Pentágono, pelos imensos rolos de fumo que começaram a se elevar, e ficaram imediatamente visíveis da janela do nosso apartamento. O cheiro de incêndio se tornou perceptível, e as sirenas começaram a emitir seus sons lancinantes de todos os lados. E todos os meios de comunicação ficaram absolutamente focados nos dois acidentes, nos dois atentados, nas duas grandes cidades americanas. Não se sabia ainda do quarto avião, que caiu na Pensilvânia, notícia que veio um pouco mais tarde, mas ainda nessa mesma manhã.
Nessa altura, eu já havia deixado Pedro Paulo na universidade, recomendado que não saísse até eu vir novamente busca-lo, mas que provavelmente eles não teriam aula nesse dia. Corri, ou voei, para a Embaixada, liguei a TV e telefonei para casa. Carmen Lícia estava falando com sua mãe, em Porto Alegre. O mundo todo parou para acompanhar o incêndio nas torres gêmeas, e as imagens do Pentágono, imediatamente cercado pela segurança. Todos estávamos atônitos, quando uma das torres começou a cair, levantado aqueles rolos imensos de fumaça e poeira. Logo em seguida a outra. E o Pentágono ainda em chamas, o cheiro de queimado se espalhando paulatinamente pelos arredores, a despeito de toda a água e produtos químicos lançados pelos bombeiros. O cheiro persistiu durante praticamente três dias em casa. Impossível esquecer.
Todo o resto é história, e tudo o que se escreveu, tudo o que se disse, tudo o que se investigou e que se relatou, desde os primeiros dias, tudo isso apenas acrescenta sobre a memória das primeiras horas, daquele dia, daquelas imagens. Na verdade, nunca pudemos ver o Pentágono semidestruído: os militares cobriram o ponto de impacto e imensos painéis de madeira interditavam uma visão adequada daquele imenso prédio horroroso, de estilo stalinista, mas imponente. Assim foi. Impossível esquecer.

Hartford, 11 de setembro de 2015, 2 p.

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