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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida

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domingo, 17 de março de 2019

Fim da guerra comercial entre China e EUA? Efeitos possiveis sobre o Brasil - Marcos Jank

Se persistir a política anti-China do chanceler, ou mesmo se, por milagre, nossa política externa for totalmente pró-China, ainda assim poderemos ter consequências nefastas de um acordo de conveniência entre a China e o governo Trump. 
Nós sofreremos as consequências, como alerta Marcos Jank...
Transcrevo o trecho final: 
"Enfim, se esse acordo se concretizar, poderemos estar entrando numa era de “comércio administrado” caso a caso, sob a égide de interesses geopolíticos, que pode reduzir o nosso acesso à China, ao Brics e a outros mercados emergentes. Aí sim, estaríamos entregando a nossa alma."
Paulo Roberto de Almeida

Impacto do Acordo EUA-China no agro brasileiro

Jornal “Folha de São Paulo”, Caderno Mercado, 16/03/2019

Marcos S. Jank (*)
André Soares (**)


O encontro entre Jair Bolsonaro e Donald Trump no dia 19 se dará às vésperas da conclusão de um acordo histórico entre EUA e China que pode ser altamente disruptivo para o agronegócio mundial, afetando principalmente o Brasil.

O acordo pode representar o fim de uma era em que o comércio se expandia baseado essencialmente na competitividade dos países, sem grande esforço.

Ele traz novos elementos para a equação: pressionados por imenso déficit comercial de US$ 420 bilhões, os EUA deram início a uma guerra mercantilista com a China impondo elevadas tarifas sobre US$ 250 bilhões em importações. O gigante asiático retrucou impondo tarifas sobre US$ 110 bilhões dos EUA, o que atingiu em cheio a soja americana. A disputa trouxe US$ 8 bilhões adicionais às nossas exportações de soja para a China, levando os incautos a inclusive “comemorar” a guerra comercial.

Tudo indica que os EUA vão forçar a China a ampliar as suas compras de produtos agropecuários americanos em absurdos US$ 30 bilhões anuais, que, na melhor das hipóteses, se somariam aos US$ 14 bilhões que foram adquiridos em 2018. Previsões mais sombrias dizem que as importações chinesas vindas dos EUA poderiam ultrapassar US$ 50 bilhões anuais, se somadas ao valor de 2017, que foi de US$ 22 bilhões.

Acreditamos que as exportações mundiais de soja voltarão ao seu curso normal pré-2017, com os chineses se beneficiando plenamente da alternância das safras americana (EUA) e sul-americana (Brasil e Argentina), que ocorrem em diferentes momentos do ano. Essa complementariedade garante estabilidade de oferta e menor risco para a China.

Ocorre, porém, que, para chegar aos US$ 30 bilhões adicionais, a China teria de oferecer acesso privilegiado aos EUA em outros produtos.

Dois casos com forte impacto sobre o Brasil são o milho e o algodão. O consumo de milho da China é gigante (280 milhões de toneladas), porém as suas importações têm sido muito reduzidas —apenas 3,5 milhões de toneladas em 2018. Os EUA pressionarão a China a importar muito mais milho, flexibilizando o seu regime restritivo de cotas de importação e facilitando o ingresso de milho transgênico.

Outros produtos americanos que seriam beneficiados pelo acordo são o etanol de milho, o DDG (subproduto da produção de etanol usado em alimentação animal) e as carnes. No caso do etanol, a importação viria da obrigatoriedade de mistura de 10% de etanol na gasolina da China (E10), que foi mandatada no passado, mas jamais cumprida.

Estimamos que, entre produtos e subprodutos de milho, etanol e algodão, a China poderia ampliar suas importações dos EUA em mais de US$ 10 bilhões adicionais por ano.

Nas carnes, se a China retirar as restrições técnicas e sanitárias que foram impostas aos americanos nos últimos anos, certamente seremos prejudicados em todas as proteínas animais —aves, suínos e bovinos—, com destaque para as perdas de mercado em pés e coxas de frango.

A China certamente tem meios para atender à forte pressão dos EUA, ampliando o acesso de soja e de outros produtos agropecuários. Resta saber se isso será feito à luz das regras da OMC, se ela vai “forçar a barra” na flexibilização das barreiras técnicas e sanitárias e se usará a sua estrutura estatal (estoques estratégicos e empresas públicas) para operacionalizar o acordo.

Enfim, se esse acordo se concretizar, poderemos estar entrando numa era de “comércio administrado” caso a caso, sob a égide de interesses geopolíticos, que pode reduzir o nosso acesso à China, ao Brics e a outros mercados emergentes. Aí sim, estaríamos entregando a nossa alma.

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.
(**) André Soares é Senior Fellow do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).

quarta-feira, 13 de março de 2019

US-China Trade War - Forbes (2018)

The Threat of a Trade War with China That Nobody Is Talking About

By Patrick W. Watson

Trade and tariffs are all over the news because President Trump is going after China.
The president’s tweets and public statements tell us he doesn’t like trade deficits, particularly the one with China. He seems to view it as a win-or-lose proposition.
That’s not exactly right.
For one, a trade deficit between two nations isn’t unusual. Precise balance would be strange. Countries have different needs, so some import more than others.
Also, it’s not like the side with the deficit loses anything.
In this case, China gets our dollars and we get Chinese-made goods. Your house is probably stuffed with little pieces of the U.S.-China trade deficit.
Is that bad? As an economic matter, it’s just reality.
  • Americans want Chinese goods more than we want the dollars spent on them.
  • Chinese want those dollars more than they want the goods.
It’s not about winning or losing. Everybody gets what they want.

The Real Threat

There’s a catch, though. I said, “The Chinese want those dollars,” but they’d prefer to use their own currency. Eventually they will, too, but for now we still settle our trade in dollars.
Just as our homes hold Chinese goods, Chinese bank accounts hold trillions of greenbacks. That’s the other side of the trade deficit President Trump hates so much. It’s the same money.
What do the Chinese do with those excess dollars?
Well, they invest many of them in U.S. Treasury securities — to the point that China is our government’s largest foreign lender.
Some people see this as ominous, fearing China will dump this paper and cause a crisis. But doing so would probably require Beijing to take a big loss, and that’s not its style.
The bigger danger is that China may simply buy fewer Treasury bonds. This is simple math. Chinese investors can’t buy our T-bonds unless they have excess dollars — and they won’t if the president succeeds in reducing the trade deficit.
See the problem?
  • The U.S. government spends way more than it collects in taxes.
  • Treasury must finance the difference by selling bonds.
  • Someone with dollars must buy those bonds.
  • China’s dollar surplus makes it a natural buyer.
If China doesn’t buy our bonds, somebody else will… but probably at higher interest rates. Prices rise when an external force constrains supply. This will raise Washington’s interest costs and further enlarge the debt.
And when Treasury rates rise, other long-term interest rates (like mortgage rates) rise too. That could make home purchases more expensive, reducing other consumer spending and maybe hurting the housing industry.
So attacking this trade deficit problem — which isn’t really a problem — risks making some actual problems even worse. That’s not “winning.”

Burning Bridges

Now, some say all of this is a negotiating tactic… that the president’s unpredictable tough talk leaves opponents off guard and sets up a “win.”
Such tactics worked for Trump in private business. In fact, the president’s business skill is why many folks voted for him. He promised to negotiate great deals and had a track record for doing it.
The problem: Governing isn’t a business.
In a transactional business like real estate, you probably won’t deal with the same counterparty again. Burning bridges behind you can make sense if you have thousands more unburned bridges in front of you.
In politics, both domestic and international, you must negotiate with the same people repeatedly on different topics. If you’re unreasonable on Item A, it also affects Item B.
Trade negotiations are particularly hard because so many groups have a stake in the outcome. Overt threats rarely help. They might even hurt, by sparking opposition that prevents the other leader from offering concessions.

On the Brink of a Global Trade War

Trump is right that China hasn’t always played fair. Many other nations feel the same way. That’s a negotiating tool the U.S. could use to our advantage.
As China’s biggest export market, the U.S. has plenty of leverage. We could have even more leverage by working with China’s other top customers, primarily Western Europe.
But Trump isn’t doing that. He is doing the opposite by openly threatening Canada, the EU, Japan and other developed countries with tariffs as well.
This makes it hard to ask for their help against China — and even gives China an opening to seek EU support against the U.S.
Consequently, the chance of getting significant reforms from China is lower, and the risk of a negative outcome like trade war is higher.
Maybe President Trump sees that as a risk worth taking. But it highlights another key difference between business and government negotiations.
In his real estate deals, the people at risk were Trump himself and the business partners who willingly joined him. As president, he’s generating risk for everyone. No one gets to opt out.
Financial markets see this and don’t like it at all — nor should they. Events could easily spiral out of control, with harsh economic consequences.
China’s response so far is to threaten its own tariffs on U.S. agriculture and other Trump-friendly sectors. They think penalizing the president’s supporters will make him back down.
I’m not so sure, for two reasons:
  • First, those same business groups failed to stop the president’s earlier trade actions. Their influence on the White House appears to have waned.
  • Second, being punished by China might make the president’s supporters moreloyal, not less. Outside attacks often unify people who might otherwise split.
If so, the trade fight is likely to get worse before it gets better. So get ready for a long siege.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Otaviano Canuto analisa a guerra comercial Trump-China, sim, Trump-China...

Desculpem o título inusitado, mas se trata exatamente disso: Trump vs China, ou Trump vs o resto do mundo.
Paulo Roberto de Almeida

Trégua entre EUA e China deve ser avaliada por 3 ângulos, diz Otaviano Canuto


Donald Trump preza pelo bilateralismo
Quer deslocar produção para os EUA
China tem rebalanceado a economia
Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, reuniram-se na Cúpula do G20 Reprodução/Twitter/Casa Branca - 2.dez.2018
Poder 360, 06.dez.2018 (quinta-feira) 


A trégua comercial entre os Estados Unidos e a China, anunciada após o jantar dos presidentes dos dois países em Buenos Aires no sábado, depois da reunião do G20, deve ser avaliada a partir de três diferentes motivações que podem ser atribuídas ao Presidente Trump para iniciar a guerra.
Embora atenção especial tenha sido dada às implicações imediatas positivas da trégua para a conjuntura macroeconômica mundial e seus reflexos sobre mercados financeiros, cabe não perder de vista o que mais está em jogo.

Desde logo, a trégua e o confronto comercial bilateral EUA-China em que se inscreve representam um momento crucial da transição do multilateralismo para o bilateralismo nas relações externas dos EUA a partir da chegada de Presidente Trump ao poder.
O multilateralismo pleno enfrentou grandes dificuldades durante a rodada Doha de negociações comerciais, nas quais processos complexos de negociação necessitavam unanimidade para aprovação e ficavam vulneráveis a travas estabelecidas por alguns poucos países.
O governo Obama iniciou, com suporte de países envolvidos, sua substituição por um plurilateralismo, conforme proposto na Parceria Trans-Pacífico e num possível acordo posterior com países europeus. Presidente Trump enterrou tal iniciativa e vem argumentando haver vantagens para seu país negociar em bases bilaterais.
Nesse contexto pode-se colocar a revisão do NAFTA assinada pelos presidentes dos EUA e México e o primeiro-ministro do Canadá na sexta-feira, também em Buenos Aires, cujo processo de negociação foi marcado justamente por iniciativas bilaterais pelo Presidente Trump.
Da mesma forma, o comunicado oficial da reunião do G20 fez referência a reformar a OMC. Esta já não tem ocupado papel proeminente em negociações e presume-se que a reforma poderá circunscrever inclusive seu papel na resolução de disputas comerciais.
A segunda motivação declarada para os movimentos comerciais pelo governo Trump é deslocar produção do exterior para os EUA em alguns setores, ao mesmo tempo encolhendo o déficit comercial do país com o resto do mundo. Como na elevação de tarifas sobre importações de aço e alumínio –inclusive sobre parceiros do NAFTA–, células solares e outros.
O resultado provável da revisão do NAFTA –USMCA ou T-MEC– será uma transferência parcial da participação mexicana na cadeia de produção automobilística para os EUA –e um pouco para o Canadá– além de abertura do mercado de laticínios deste último.
Na mesma linha, conforme comunicado emitido pelo governo dos Estados Unidos, a suspensão do aumento de tarifas dos EUA sobre US$ 200 bilhões de importações da China de 10% para 25%, previsto para 1º de janeiro de 2019, teve como contrapartida uma promessa chinesa de aumento substancial de compras de produtos agrícolas, energéticos e manufatureiros dos EUA.
Em que medida presidente Trump poderá anunciar tais resultados como evidência de acerto de sua opção por bilateralismo, de seu estilo de combinação de tarifas e acenos de acordos em troca de concessões pelo outro lado? Afinal, sua campanha prometeu o retorno de empregos manufatureiros aos EUA a partir de tal reposicionamento da política comercial do país.
Os resultados imediatos em termos de exportações e importações dos Estados Unidos podem dar a impressão de sucesso. Contudo, a privilegiada posição negociadora do país no âmbito bilateral e a correspondente obtenção de concessões não garantem a consecução daquelas promessas.
A imediata elevação doméstica da produção e do emprego em atividades manufatureiras e outros beneficiários da proteção se dará com elevação de custos e preços locais dos correspondentes bens. Mesmo supondo-se que a perda de competitividade nesses setores seja compensada por outras medidas, inclusive as promessas de compras embutidas em acordos comerciais, há duas razões para questionar aquele sucesso.
Primeiro, a destruição relativa de empregos manufatureiros na história norte-americana recente é mais resultado de mudanças tecnológicas que de importações da China ou de outros países. Adicionalmente, os déficits em conta corrente do país refletem um descompasso entre poupança doméstica e investimentos.
Nesse caso, um sucesso do protecionismo na redução de déficits externos só ocorreria na hipótese de aumento da poupança no país como um todo, por conta de queda de poder de compra dos que dependem de salários como contrapartida da rentabilidade do capital nos setores protegidos. Esse não seria bem o resultado prometido em campanha.
Para além do bilateralismo mercantilista, há um terceiro componente na guerra comercial EUA-China. O re-balanceamento da economia chinesa em curso vem incluindo sua presença crescente em etapas de maior valor agregado em cadeias globais de valor, para o que tem recorrido a utilizar a baixo custo fontes tecnológicas externas.
Para tal tem recorrido a transferências de tecnologia forçadas sobre investidores estrangeiros interessados em seus mercados, não reconhecimento de propriedade intelectual, subsídios a empresas estatais, barreiras não-tarifárias e similares.
Em grande medida, forçar a China a mudar tais práticas havia sido uma motivação chave para os acordos plurilaterais com sua exclusão liderados por Obama, como forma de impor-lhe uma adaptação regulatória como requisito para integração com países signatários.
Na opção bilateral de Trump, não admira que a trégua de 90 dias para o aumento de tarifas concedida em Buenos Aires tenha como condição para sua extensão, segundo o comunicado do governo dos EUA, a obtenção de acordo sobre “mudanças estruturais” na China naquelas áreas.
Excluída como irrealista a hipótese de motivações simplórias tais como “deter o avanço da China”, a guerra comercial poderá arrefecer caso os chineses estejam preparados para oferecer algo significativo a respeito.
Um cálculo custo-benefício chinês favorável a buscar formas alternativas de suporte tecnológico local, permitindo-lhe focar em seus desafios domésticos de re-balanceamento sem o ônus adicional do confronto comercial, pode muito bem ser uma opção racional dos governantes daquele país.
Dos desdobramentos nesse terceiro componente dependerá a longevidade da trégua anunciada após o jantar de Buenos Aires. Pessoalmente, confesso ter ficado com água na boca pensando na combinação de filé argentino, vinho Malbec e ricota de cabra lá servida.

domingo, 16 de setembro de 2018

China-EUA: a guerra comercial continua, tanks to Mr. Trump - The Washington Post

Trump has decided to impose tariffs on $200 billion in Chinese goods in dramatic escalation of trade battle

President Trump has decided to impose tariffs on $200 billion in Chinese goods, two people briefed on the decision said, one of the most severe economic restrictions ever imposed by a U.S. president.
An announcement is expected to come within days, the people said, speaking on the condition of anonymity because they weren’t authorized to discuss internal plans.
The new tariffs would apply to more than 1,000 products, including refrigerators, air conditioners, furniture, televisions and toys. These penalties could drive up the cost of a range of products ahead of the holiday shopping season, though it’s unclear how much.
Apple said recently its Apple Watch, AirPods, MacMini and a variety of chargers and adapters would be caught in the tariff war. “Our concern with these tariffs is that the U.S. will be hardest hit, and that will result in lower U.S. growth and competitiveness and higher prices for U.S. consumers,” the company said in a letter to the U. S. Trade representative. “The burden of the proposed tariffs will fall much more heavily on the United States than on China.”
Trump has ordered aides to set the tariffs at 10 percent, likely leading to higher prices for American consumers. These tariffs are paid by U.S. companies that import the products, though they often pass the costs along to U.S. consumers in the form of higher prices.
The U.S. imports roughly $500 billion in Chinese goods each year, and — combined with existing tariffs — these new penalties would cover half of all goods sent to the U.S. from China each year.
The 10 percent tariff is scaled back from Trump’s initial plan to impose 25 percent penalties on all of these imports. But the impact will still likely be felt by millions of American consumers.
A White House spokesman didn’t immediately respond to a request for comment on Saturday afternoon.
On Friday, White House spokeswoman Lindsay Walters said: “The President has been clear that he and his administration will continue to take action to address China’s unfair trade practices. We encourage China to address the long standing concerns raised by the United States. ”
Trump’s top advisers have been united behind his effort to push China to change its economic practices, but they have been split on his tactics. Some have advocated a more cautious, diplomatic approach.
But Trump has signaled that he believes only the threat of real economic pain will push Beijing into major changes. He has recently boasted that he believes China’s economy is suffering because of his hard-charging style.
Trump has accused China of a number of unfair trade practices. He wants China to buy more American products, open up China to more U.S. investment, and stop stealing U.S. intellectual property, among other things.
The tariffs come as a number of top White House advisers have been trying to de-escalate tensions between Trump and Chinese leader Xi Jinping. Treasury Secretary Steven Mnuchin was planning to restart talks with China soon.
Chinese leaders have vowed to retaliate to any escalation of the trade battle with punitive steps of their own, and Trump’s move could further push Beijing to retaliate.
The decision was first reported by the Wall Street Journal.
Trump has tried to use tariffs to penalize a number of countries this year, including Mexico, Japan, Canada, and members of the European Union, hoping that the threat of driving up costs on their products will make them more open to his demands. The tactic has had mixed success.
Trump first imposed tariffs on roughly $50 billion in Chinese products this summer. The list of products mostly included industrial equipment to avoid directly impacting consumers.
China responded by imposing tariffs on U.S. products like beef and soybeans, a response that spooked the U.S. agriculture industry and angered Trump and other White House officials. Trump responded this summer by ordering his advisers to come up with a list of $200 billion in other Chinese products to penalize, a package of products that includes many consumer products.
And two weeks ago he said he is preparing a third package of penalties on what he said would be $267 billion in additional items, a list that likely encompasses all remaining goods produced in China.
“For the near term, this combination of tactics seems to signal that unless and until China comes to the table with significant actions on the issues the U.S. is hammering, the U.S. will keep tariff pressure going,” said Claire Reade, a former U.S. trade negotiator. “Talks without action won’t do the trick. The open question, of course, is how much action is enough and can China find a way to move that will be seen as being in its own interest, not kowtowing to the U.S.
The U.S. ran a $233.5 billion deficit in goods trade with China during the first seven months of the year, an 8 percent increase compared with the same period in 2017.

Corporate executives increasingly believe the trade dispute can only be resolved by direct talks between Trump and Xi. The two leaders may see each other at the United Nations General Assembly in New York later this month and are scheduled to meet on the sidelines of the G-20 summit in Buenos Aires in November.

sábado, 4 de agosto de 2018

O Brasil na guerra comercial EUA-China - Marcos Jank

O Brasil na guerra comercial EUA-China

Jornal “Folha de São Paulo”, Caderno Mercado, 04/08/2018

Marcos Sawaya Jank (*)

Está oficialmente aberta a primeira guerra hegemônica do século 21. Até aqui os problemas tem sido bem maiores que as oportunidades.

A disputa EUA-China se agravou no mês de julho. Cada país decidiu impor sobre o outro tarifas adicionais sobre volumes de comércio da ordem de US$ 34 bilhões, acompanhadas de contenciosos na OMC e ameaças em outras áreas, como investimentos, alta tecnologia e propriedade intelectual.
Está oficialmente aberta a primeira guerra hegemônica do século 21. Resta saber em que mundo viveremos daqui para a frente e como o Brasil se sairá nessa confusão.
Sabemos que uma guerra comercial generalizada não terá vencedores. O problema não está no aumento das tarifas entre EUA e China, mas na ruptura potencial de várias cadeias de suprimento pelo mundo, que resultaria na quebra de confiança no processo de globalização que vem desde o pós-guerra.
O FMI já estima uma queda de 0,5 ponto percentual no PIB mundial em razão da guerra comercial. Bancos falam em até dois pontos, se a guerra se estender a outros países.
Para o Brasil o único ganho até aqui apontado, erroneamente, na minha opinião, seria o aumento das exportações de soja em grãos, produto que responde por incríveis 43% das nossas exportações totais para a China (US$ 21 bilhões em 2017). Se a China se fechar para os EUA, certamente ganharemos mercado naquele país, mas perderemos espaço em outros destinos. É por isso que Trump já colocou a soja no centro das conversas sobre os impasses dos Estados Unidos com a União Europeia.
Nossa pauta com a China ficaria ainda mais "primarizada" e dependente de apenas três produtos: soja, minério de ferro e petróleo.
Muito antes dessa guerra comercial, a China já impunha ao Brasil elevadas barreiras para a diversificação da nossa pauta no agro. Não conseguimos vender farelo e óleo, que são os principais derivados da soja em grãos. Enfrentamos barreiras sanitárias e burocráticas para exportar carnes de aves, suínos e bovinos —apenas 62 unidades industriais, num universo de 4.800 unidades, estão habilitadas a exportar para a China. Somem-se a isso restrições inadmissíveis para exportar genética animal, lácteos, milho, arroz, frutas, açúcar e etanol.
Pior, se o prêmio pago pela soja brasileira (Paranaguá) subir ainda mais em relação ao preço da Bolsa de Chicago, o Brasil ganhará mercado nos grãos, mas perderá competitividade nos derivados (farelo e óleo) e na exportação de carnes de aves e suínos. Não há nada de errado em ser fornecedor de matéria-prima para ração animal, mas não podemos aceitar que a estrutura tarifária dos países discrimine frontalmente contra a diversificação e a adição de valor das nossas exportações.
Em carnes e açúcar, já ficamos para trás dos nossos concorrentes —EUA, UE, Austrália, Canadá e Tailândia—, que negociaram dezenas de acordos que lhes garantem acesso privilegiado com tarifas mais baixas. Seria um erro deixar que a guerra comercial EUA-China gere ainda mais discriminação.
Para complicar, a China impôs uma salvaguarda sobre o açúcar em 2017 e direitos antidumping sobre a carne de frango do Brasil em junho último, processos que já dificultam bastante as nossas exportações. Por isso, a Camex agiu corretamente ao autorizar consultas à China na OMC em relação às medidas de defesa comercial impostas sobre frangos e açúcar. Os dois casos são fracos e não se sustentam sob as regras da OMC. Além disso, Michel Temer fez bem em colocar esses dois temas na reunião que teve com o Presidente Xi Jinping durante o encontro do Brics na África do Sul.
Nosso peso específico é pequeno diante do confronto aberto dos grandes. Mas em setores como o agronegócio tornamo-nos grandes e temos agora de lutar duramente para não perder o espaço conquistado.

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

sábado, 28 de abril de 2018

Incerteza global: Como uma guerra comercial entre EUA e China pode afetar a economia do Brasil e do mundo? - Marcos Troyjo, Paulo Roberto de Almeida e Sérvulo Dias (Instituto Millenium)

Incerteza global: Como uma guerra comercial entre EUA e China pode afetar a economia do Brasil e do mundo?

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: responder a questões colocadas por jonalista; finalidade: Hangout do Instituto Millenium]
Link disponível para a entrevista: https://youtu.be/wuQZokgpOV4.

Introdução
Fui convidado, em meados de abril, para uma entrevista conjunta com o economista Marcos Troyjo em torno da chamada “guerra comercial China-EUA”, um título jornalístico legítimo, pois é isso o que aparece nas chamadas da mídia, mas pouco apropriado à verdadeira natureza do problema, que deriva dos posicionamentos irrefletidos, absolutamente esquizofrênicos, do atual presidente dos EUA, que pretende governar a sua grande nação, e instruir o mundo, através de tweets, um meio original, certamente espetaculoso, mas totalmente inadequado a uma governança responsável. Esse hangout realizou-se em 26 de abril, sob a coordenação do jornalista Sérvulo Dias.
O ponto de partida foi dado pelo anúncio de salvaguardas à importação de aço e alumínio nos EUA, adotadas em nome de uma suposta “segurança nacional” americana, o que é totalmente falso, no plano objetivo, e que representa uma distorção completa das regras do GATT e da OMC na boa condução do sistema multilateral de comércio. A tal “guerra comercial”, mais propalada do que efetivamente implementada até o momento, consiste na seleção da China como alvo principal dessas medidas, e no anúncio, por representantes chineses, de contramedidas retaliatórias, sob a forma de diversas salvaguardas – ou seja, sobretaxas a importações de diferentes linhas tarifárias – a serem eventualmente aplicadas a produtos de origem americana (mas que podem vir de quaisquer outros países). Ou seja, a insanidade de Trump consegue provocar um imenso distúrbio em fluxos de importações e exportações ao redor do mundo, podendo inclusive prejudicar o Brasil. 
Depois de uma introdução feita pelo jornalista Sérvulo Dias, que já foi postada por mim no meu blog Diplomatizzando(neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2018/04/guerra-comercial-eua-china-hangout-do_26.html), fui levado a responder às seguintes perguntas: 
1) Essa guerra comercial seria majoritariamente uma guerra bilateral entre China e EUA ou a tendência é que se espalhe por todos os continentes? Quais as consequências?
2) O parlamento chinês aprovou em Março uma emenda constitucional que elimina os limites do mandato presidencial, permitindo que o presidente Xi Jinping permaneça no cargo por tempo indefinido, num modelo de mandato vitalício. Tal ampliação no poder do presidente parece indicar total respaldo do Partido Comunista para poder retaliar comercialmente os Estados Unidos à altura. Esse poder ampliado do lado chinês não configura um elemento adicional de preocupação? A China estaria disposta a levar a retaliação comercial às últimas consequências?

O programa todo, incluindo a apresentação do jornalista e as perguntas respondidas por meu amigo Marcos Troyjo, encontra-se agora livremente disponível no site do Instituto Millenium (neste link: https://www.institutomillenium.org.br/recentes/imil-promove-hangout-incerteza-global-nesta-quinta/), sendo que o vídeo gravado aparece imediatamente (link: https://youtu.be/wuQZokgpOV4).
Espero que apreciem...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 28 de maio de 2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Guerra comercial EUA-China: hangout do Instituto Millenium - Marcos Troyjo, Paulo Roberto de Almeida

Participei, em 26 de abril de 2018, de um hangout com meu amigo Marcos Troyjo, animado por Sérvulo Dias, jornalista, organizado pelo Instituto Millenium, sobre a propalada "guerra comercial" entre os EUA e a China (que não vai ocorrer, a despeito das escaramuças). Foi bastante animado, e sobretudo sem controvérsias, pois ambos aprofundamos os argumentos um do outro.
Não vou dizer o que eu teria dito em particular sobre o iniciador dessa guerra comercial, mais retórica do que efetiva, pois em público não caberia expressar certas ideias "íntimas", digamos assim...
Abaixo, o excelente roteiro preparado pelo Sérvulo Dias para ordenar as questões entre nós, mas, dada a limitação de tempo, não foi possível abordar todas os temas em profundidade.
Em breve postarei o link da conversa a três.
Paulo Roberto de Almeida

Addendum com os links anunciados, mas não deixem de ler a matéria do jornalista abaixo.

Site do Instituto Millenium com a matéria sobre a "guerra comercial" (neste link: https://www.institutomillenium.org.br/recentes/imil-promove-hangout-incerteza-global-nesta-quinta/), aqui para o vídeo gravado (link: https://youtu.be/wuQZokgpOV4).

Hangout do Instituto Millenium: "Incerteza global: Como uma guerra comercial entre EUA e China pode afetar a economia do Brasil e do mundo?"

Orientações gerais para o hangout:
- O evento será aberto ao público e transmitido ao vivo através de nosso canal no Youtube, Facebook, site e redes sociais; 

Biografia dos participantes:
Marcos Troyjo
É graduado em ciência política e economia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em sociologia das relações internacionais pela USP e diplomata. É integrante do Conselho Consultivo do Fórum Econômico Mundial, diretor do BRICLab da Universidade Columbia, pesquisador do Centre d´Études sur l´Actuel et le Quotidien (CEAQ) da Universidade Paris-Descartes (Sorbonne), fundador do Centro de Diplomacia Empresarial e conselheiro do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). É colunista do jornal "Folha de S.Paulo".

Paulo Roberto de Almeida
É doutor em Ciências Sociais (Université Libre de Bruxelles), mestre em Planejamento Econômico (Universidade de Antuérpia), licenciado em Ciências Sociais pela Université Libre de Bruxelles) e diplomata. Serviu em diversos postos no exterior e exerceu funções na Secretaria de Estado, geralmente nas áreas de comércio, integração, finanças e investimentos. Foi professor de Sociologia Política no Instituto Rio Branco e na Universidade de Brasília (1986-87) e atualmente leciona no Centro Universitário de Brasília (Uniceub). 

Sérvulo Dias
E economista formado pela FEA/USP, administrador de empresas e especialista em marketing de serviços pela FIA. Ocupou posições executivas na área comercial e de desenvolvimento de novos negócios em empresas nacionais e multinacionais de grande porte. Atuou em projetos de inovação e redefinição de modelos de negócio na indústria química, embalagens, papel e celulose e fotografia/varejo. 

Alguns pontos no hangout:

1) Nessa retórica protecionista do presidente Trump, que tem alicerce num conjunto de políticas agrupadas sob o mantra "America First", quem são os perdedores e ganhadores de uma eventual guerra comercial?

2) O presidente Trump tem capital político para de fato executar essa política comercial protecionista, dado que parte do seu eleitorado poderia ser altamente prejudicado caso a China decida retaliar, notadamente os grandes exportadores de grãos do "yellow belt" americano?

3) E no caso brasileiro, quais são as oportunidades e ameaças numa iminente guerra comercial?

4) Essa guerra comercial seria majoritariamente uma guerra bilateral entre China e EUA ou a tendência é que se espalhe por todos os continentes?

5) Na semana passada o presidente anunciou sua "disposição" em rever o tema da saída dos EUA da aliança Tratado Transpacífico, numa clara tentativa de "negociar" termos mais favoráveis mas não deixar de vez o tratado. Não seria mais uma vez o estilo de Trump, que sempre "marca" posições radicais e extremas no início das negociações e depois abranda o diálogo para posições mais moderadas? 

6) O primeiro-ministro chinês agora passa a ter mandato vitalício, o que parece indicar total respaldo do Partido Comunista para poder retaliar os EUA à altura. Esse poder ampliado não configura um elemento adicional de preocupação?

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS DO JORNALISTA SÉRVULO DIAS

O Presidente Trump começou sua retórica polêmica antes mesmo de ser eleito presidente dos Estados Unidos. Já na campanha eleitoral, o então candidato republicano lançou o slogan “America First”, que indicava um conjunto de medidas que sempre colocaria os interesses dos Estados Unidos à frente de qualquer outro interesse. 

No primeiro ano de governo, muitos foram os assuntos polêmicos nos quais o presidente Trump se envolveu, sendo os principais:
·      a demissão de James Comey, então diretor do FBI, sob a alegação de que houve mal condução no caso da investigação sobre o uso de um servidor pessoal por parte da ex-candidata democrata Hillary Clinton
·      o apoio declarado aos supremacistas brancos depois dos enfrentamentos violentos em Charlottesville (Virginia), evento no qual foram mortos 3 manifestantes e outros 34 foram feridos 
·      em Setembro de 2017, o insulto aos atletas da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano) que se recusavam a permanecer de pé durante a execução do hino nacional em uma forma de protesto às políticas racistas de Washington
·      todo o imbróglio que rodeia o caso da interferência russa nas eleições americanas, o possível conflito de interesses entre Trump e seus aliados em negócios escusos com oligarcas russos, o que gerou a investigação independente coordenada pelo então nomeado conselheiro especial Robert Mueller, que pode ter um desfecho inesperado para o presidente Trump
·      além de todos os escândalos sexuais envolvendo o presidente Trump, desde as acusações de assédio até os casos mais graves que envolvem a atriz pornô Stormy Daniels e a ex-modelo da Playboy Karen McDougal

Do lado das relações internacionais, podemos citar:
·      a promessa de construção de um muro que separaria o México dos Estados Unidos
·      a rejeição ao tema do aquecimento global e o descaso total com o Acordo de Paris
·      os temas ligados às leis anti-imigração americanas, com uma crescente tendência ao fechamento e o desejo de abortar programas tradicionais, como é o caso do DACA
·      todo o tema da troca de ameaças contra a Coréia do Norte e o líder Kim Jong-um, o qual Trump chegou a chamar de “homem-foguete” pelo Twitter
·      o desejo de alterar o Acordo Nuclear com o Irã, firmado ainda no governo de Barak Obama
·      a questão da participação americana na guerra civil da Síria e o potencial escalonamento do conflito, já que adiciona elementos à já complicada geopolítica do Oriente Médio

Especificamente do lado do comércio internacional, podemos citar:
·      a exigência pela renegociação dos termos do NAFTA, o qual o presidente Trump classificou como uma “catástrofe”
·       assinou o decreto que retira os Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP)
·      por fim, e o que mais nos interessa para a discussão de hoje, a declaração aberta de uma guerra comercial contra a China, com o anúncio de medidas protecionistas que geram uma sobretaxa de US$ 153 bilhões a uma lista de 1.300 produtos chineses, dentre os quais ferro, alumínio e bens de capital
·      do lado Chinês, já foi anunciado um pacote retaliatório que impactaria as exportações americanas no montante de US$ 50 bilhões, sendo que a sobretaxa impacta 234 produtos americanos exportados aos chineses (soja, algodão, carne bovina e alguns ícones americanos tais como as motocicletas da marca Harley Davidson) 

Nesse contexto, gostaria então de dar início ao debate com a primeira pergunta, que dirijo ao nosso convidado Marcos Troyjo:

1) Nessa retórica protecionista do presidente Trump, que tem alicerce num conjunto de políticas agrupadas sob o slogan "America First", quem são os perdedores e ganhadores de uma eventual guerra comercial com a China?

Passemos então para a segunda pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Paulo Roberto de Almeida:

2) Essa guerra comercial seria majoritariamente uma guerra bilateral entre China e EUA ou a tendência é que se espalhe por todos os continentes? Quais as consequências?

Passemos então para a terceira pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Marcos Troyjo:

3) O presidente Trump tem capital político para de fato executar essa política comercial protecionista, dado que parte do seu eleitorado poderia ser altamente prejudicado caso a China decida retaliar, notadamente os grandes exportadores de grãos do "yellow belt" americano assim como os grandes produtores e exportadores de proteína animal? A título de curiosidade, a China compra dos Estados Unidos aproximadamente ¼ da safra de grãos de soja. Vale lembrar também que as medidas anti-imigratórias anunciadas por Donald Trump no início do seu mandato irritaram o setor agrícola americano, ainda dependente da mão-de-obra de imigrantes para o plantio e colheita de algumas culturas. Os críticos afirmavam que as medidas causariam uma redução na oferta de mão-de-obra e o consequente aumento dos salários médios no setor agrícola. O presidente Trump inclusive já foi advertido das consequências políticas que podem resultar das suas medidas protecionistas: a retaliação chinesa sobretaxando as importações de soja provenientes dos Estados Unidos afetaria fortemente a economia de estados tais como Iowa, Kansas, Missouri, Minnesota, Indiana e Dakota do Norte, estados nos quais haverá uma corrida eleitoral altamente competitiva entre Republicanos e Democratas para as cadeiras no Senado. Sendo assim, você acredita que o presidente Donald Trump vai manter a retórica da guerra comercial com a China e assim arriscar apoio político doméstico?  

Passemos então para a quarta pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Paulo Roberto de Almeida:

4) O parlamento chinês aprovou em Março uma emenda constitucional que elimina os limites do mandato presidencial, permitindo que o presidente Xi Jinping permaneça no cargo por tempo indefinido, num modelo de mandato vitalício. Tal ampliação no poder do presidente parece indicar total respaldo do Partido Comunista para poder retaliar comercialmente os Estados Unidos à altura. Esse poder ampliado do lado chinês não configura um elemento adicional de preocupação? A China estaria disposta a levar a retaliação comercial às últimas consequências?

Passemos então para a quinta pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Marcos Troyjo:

5) E no caso brasileiro, quais são as oportunidades e ameaças numa iminente guerra comercial entre Estados Unidos e China? Seria essa uma oportunidade de maior aproximação com o bloco comercial da União Européia, por exemplo? Seria também uma chance de estreitar ainda mais as relações comerciais com a China?
Passemos então para a sexta pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Paulo Roberto de Almeida:

6) No dia 16 de Abril, nosso colega Júlio Netto do Instituto Millenium escreveu um artigo muito interessante com o título “Guerra Comercial ou Jogo de Cena?”. No artigo, Júlio Netto relembra dois fatos recentes interessantes sobre a postura do presidente americano Donald Trump sobre o tema da Guerra Comercial. No primeiro desses fatos, datado de 23 de Março, o presidente americano Donald Trump colocou o mundo em suspense ao anunciar a sobretaxação de 25% para as importações de aço e 10% para as de alumínio. Muitos foram os protestos, com os países mais afetados ameaçando com represálias ou mesmo apelando à OMC. Passados alguns dias, Trump foi “amaciando” seu discurso e anunciou que países como os da União Europeia, México, Canadá, Japão e inclusive o Brasil estariam isentos desta taxação, pelo menos temporariamente. Depois disso, em outra evidência de “amaciamento” no seu discurso, o presidente Trump anunciou, no início de Abril, sua "disposição" em rever o tema da saída dos Estados Unidos da Parceria Transpacífica, numa clara tentativa de "negociar" termos mais favoráveis mas não deixar de vez o tratado. Não seria mais uma vez o estilo de Trump, que sempre "marca" posições radicais e extremas no início das negociações e depois abranda o diálogo para posições mais moderadas?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É sempre bom retomar a história e aprender com os erros e acertos do passado. Entre Republicanos e Democratas dos estados que compõem o cinturão agrícola americano, há um consenso de que a política comercial de Trump vai ser um replay do fracassado embargo à União Soviética imposto pelo presidente Jimmy Carter em 1980, como retaliação pela invasão dos russos no Afeganistão. Na ocasião, o então presidente americano Jimmy Carter limitou as exportações de grãos para a União Soviética e conclamou que outros países tomassem as mesmas medidas. Na época, o então candidato à presidência da Casa Branca, o republicano Ronald Reagan, criticou severamente o embargo com base no argumento de que o mesmo fazia com que os agricultores americanos arcassem injustamente com o fardo da política externa dos Estados Unidos. Vale lembrar que os Democratas sofreram perdas massivas nas eleições daquele ano. Trump parece agora correr o mesmo risco, quase quarenta anos depois. Para piorar a situação, tudo isso acontece no mesmo ano em que o presidente Trump aprovou cortes profundos no orçamento do Departamento de Agricultura, aguçando ainda mais o sentimento de que as medidas de Trump contra os chineses tem o potencial de causar fortes impactos econômicos em sua própria base política.


A série de barreiras comerciais anunciadas pelo presidente americano Donald Trump têm o potencial de causar grandes danos à economia americana e mundial. Em cadeias produtivas globalizadas e interconectadas ao extremo, especialmente no caso dos países desenvolvidos, barreiras comerciais costumam traduzir-se em custos mais elevados para as empresas domésticas, gerando ainda mais pressão inflacionária (de custos). Pior do que isso, a guerra comercial iniciada por Trump tem o potencial de criar um clima de total incerteza nos mercados. Robert Shiller, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2013, advertiu em Março que a guerra comercial em curso pode criar uma atitude de “esperar pra ver” nos agentes econômicos. Tal atitude pode ser potencialmente ainda mais danosa do que as próprias tarifas comerciais, pois impactaria a confiança para a tomada das decisões de investimento, acentuando ainda mais a recessão.

LINKS PARA O PROGRAMA: 

Site do Instituto Millenium com a matéria sobre a "guerra comercial" (neste link: https://www.institutomillenium.org.br/recentes/imil-promove-hangout-incerteza-global-nesta-quinta/), aqui para o vídeo gravado (link: https://youtu.be/wuQZokgpOV4).