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sexta-feira, 19 de junho de 2026

História, Diplomacia e Comércio Internacional: uma aproximação ao pensamento de Rubens Ricupero - projeto de livro Paulo Roberto de Almeida

Em 2012 eu já pensava em fazer um livro em homenagem ao embaixador Rubens Ricupero, e tinha preparado um esquema para organizar um Festschrift. como no esquema abaixo. Demorou um bocado e só saiu em 2025, como relatado nesta postagem: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/vidas-paralelas-rubens-ricupero-e-celso_10.html

2432. “História, Diplomacia e Comércio Internacional: uma aproximação ao pensamento de Rubens Ricupero”, Brasília-Florianópolis, 5 outubro 2012, 3 p. Esquema e explicação de proposta de livro tipo Festschrift, em homenagem a Rubens Ricupero, com organização pessoal e de Gelson Fonseca e convidados selecionados. Em revisão e complementação. Título e estrutura alternativos: “Um Estadista da Nova República: ensaios em homenagem a Rubens Ricupero” (Passo Fundo, 19/10/2012); revisto em Brasília, 18/11/2012. Encaminhado a RR e a diversos correspondentes. 


História, Diplomacia e Comércio Internacional:

ensaios em homenagem a Rubens Ricupero 

 

Paulo Roberto de Almeida

Projeto de obra em homenagem a RR: em preparação

 

Organizadores: Paulo Roberto de Almeida, Gelson Fonseca

 

Esquema tentativo: 

Prefácio: Gelson Fonseca

1. Introdução: Paulo Roberto de Almeida

 

Parte I: História: a mais constante das companhias

2. Leituras de iniciação, de formação e como fontes de reflexão (Rubens Ricupero)

3. Método e reflexão aplicados à diplomacia (José Antonio Macedo Soares)

4. O exercício didático como guia para a ação (Carlos Henrique Cardim)

 

Parte II: Diplomacia: princípios, regras e valores 

5. Valores essenciais do diplomata pensador (Celso Lafer)

6. O entorno regional como circunstância do Brasil (Sérgio Danese)

7. O multilateralismo, suas regras políticas e o Brasil (Marcos Azambuja)

8. O sistema onusiano e a força do direito (Ronaldo Mota Sardenberg)

9. A diplomacia brasileira pelos pensadores e formuladores (Alberto da Costa e Silva)

 

Parte III: Políticas Públicas: formulação e execução

10. A transição para a democracia: a conciliação sem o conciliador (Sérgio Amaral)

11. Conselheiro do Príncipe: a arte de ser invisível (Luiz Felipe Seixas Corrêa)

12. No coração do Império: a relação assimétrica (José Vicente Pimentel)

13. Amazônia e Meio Ambiente (Luiz Filipe Macedo Soares Guimarães)

14. Finança e confiança: a caminho do Plano Real (Marcos Galvão)

 

Parte IV: Comércio e Desenvolvimento nos contextos regional e internacional

15. Uma diplomacia comercial para o Brasil (José Alfredo Graça Lima)

16. O desenvolvimento no plano multilateral (José Estanislau do Amaral)

17. A América Latina no sistema multilateral de comércio (Renato Baumann)

18. A Unctad: eixo conceitual dos países em desenvolvimento (Joseph Marques)

 

Parte V: Globalização: problemas e perspectivas

19. Globalização prêt-à-porter e à la carte (Richard Kozul-Wright)

20. Finanças internacionais e crises financeiras (Yilmaz Akyüz)

21. A perspectiva Norte-Sul (Martin Khor)

22. A visão do Sul (C. Raghavan)

 

23. O professor e o homem público: uma reflexão (Georges D. Landau)

24. Conclusão: vida e pensamento de Rubens Ricupero (Gelson Fonseca)

 

Bibliografia completa de RR (a cargo da FAAP)

Referências bibliográficas (PRA)

 

==============

 

(Nota explicativa)

 

Apresentação ao Festschrift

 

É comum, no ambiente acadêmico, a organização de volumes comemorativos em homenagem àqueles que se distinguiram em carreiras especialmente bem sucedidas na docência e na pesquisa de uma área qualquer; a prática, é verdade, é bem mais usual e frequente nas humanidades do que nas ciências exatas. O objetivo é justamente o de se render tributo, geralmente por parte de colegas, a quem soube exercer-se com talento e dedicação nas diversas vertentes e feituras do magistério e da pesquisa ao longo de todo um itinerário que costuma estender por uma geração inteira, senão mais, alcançando, ano a ano, dezenas de graduações acadêmicas e de cursos complementares, com possível e não rara influência fora do ambiente estritamente universitário.

Esses volumes – que na designação alemã recebem o substantivo combinado de Festschrift, na versão francesa o qualificativo de Mélanges offerts à..., e na inglesa o tradicional Essays in Honor of... – são menos conhecidos fora da academia, isto é, nas corporações de ofício que também possuem no trabalho intelectual a base fundamental de suas reflexões práticas: estas seriam, por exemplo, a magistratura, a advocacia, gestores de políticas públicas (como funcionário dos tesouros nacionais, dos bancos centrais etc.) e outras. Poderiam também merecer tais distinções algumas categorias da burocracia pública que, na maior parte dos casos, possuem instituições próprias de ensino, formação e treinamento, bibliotecas especializadas e, por vezes até um corpo de professores estável, dedicados a instruir e aperfeiçoar, nos ossos do seu ofício, os novos recrutas e os funcionários concursados da profissão em causa. 

Este deveria ser também o caso da diplomacia, uma carreira de Estado altamente intelectualizada, dotada de instituições próprias de seleção, recrutamento e treinamento, com professores designados, dentro e fora da carreira, para o processo de socialização, homogeneização e aperfeiçoamento dos ingressados na carreira. A mais forte razão, os diplomatas são, junto com os soldados e marinheiros, agentes do Estado por excelência, dos quais se exige, justamente a mais alta qualificação técnica e intelectual na defesa dos interesses do país e na consecução dos grandes objetivos nacionais. E, no entanto, não se tem notícia, no caso do Brasil, de que o Instituto Rio Branco, que exerce, desde 1945, o monopólio nessas tarefas, ou o braço editorial do Itamaraty, a Fundação Alexandre de Gusmão, tenham jamais prestado homenagem, sob a forma aqui mencionada, aos mais brilhantes mentores e profissionais da carreira, muito embora se publiquem, ocasionalmente, volumes de compilação de escritos esparsos de um ou outro diplomata que deixaram marcas em algum setor da Casa. 

Volumes comemorativos da entrada em funções, em 1902, do ícone ímpar da diplomacia brasileira, o Barão do Rio Branco, e de sua morte no exercício do cargo, dez anos depois, foram assim publicados pela Funag, em 2002 e em 2012, respectivamente, ao lado de uma série de outras coletâneas de textos esparsos de alguns diplomatas que legaram escritos de cunho meramente burocrático ou de natureza mais testemunhal do que propriamente conceitual. Mas não se trata, obviamente, de algo comparável ao espírito e ao estilo de um Festschrift, com suas características de comemoração na própria presença do homenageado. 

Um exercício vagamente assimilável a esse gênero – mais exercendo-se apenas em direção de personagens falecidos – foi constituído pela obra organizada em 2001 pelo diplomata e acadêmico Alberto da Costa e Silva, em torno da presença de figuras relevantes do “Itamaraty na cultura brasileira”, certamente título ambicioso, mas que permitiu registrar a registrar a trajetória de um número seleto de diplomatas intelectuais que se exerceram com talento nas letras e nas humanidades, em geral. Embora reconhecendo o mérito do empreendimento, foi como se a iniciativa dissesse algo do gênero: “Aos mortos, todas as nossas homenagens; aos vivos, mais um pouco de paciência: contentem-se, por enquanto, com essas medalhinhas, antes que possamos nos ocupar, no devido tempo, de seus despojos literários”. 

Talvez seja uma sábia medida, pois, por um lado, os mortos já não poderão reclamar do que se escrever sobre eles, e caso, por outro lado, os vivos fossem contemplados, correríamos o risco de cair no conjuntural ou, pior, na pressão política para que pessoas do presente, com influência, fossem entronizados como supostos arautos geniais da verdadeira doutrina diplomática e da melhor prática nesse terreno. Não há coisa pior, comparativamente aos exagerados elogios fúnebres aos que, recentemente desaparecidos, possuem todas as virtudes, e nenhum vício, do que algum tipo de panegírico aos poderosos do momento ou a ególatras compulsivos.

Por que, então, decidimos romper com essa sadia precaução e homenagear um colega de carreira ainda em intensa produção intelectual? Poderíamos alinhar parágrafos e mais parágrafos de justificativas e explicações, mas dispensamo-nos da redundância. Bastaria o atestado, informal, de quem conhece o personagem e sua produção. Quem quer que tenha acompanhado a diplomacia brasileira nos últimos cinquenta anos, quem sorveu suas aulas na Universidade de Brasília ou no Instituto Rio Branco, quem assistiu a qualquer uma de suas centenas, talvez milhares, de palestras em algum canto do mundo, quem percorreu, nas últimas décadas, as páginas dos jornais mais importantes do país, nas seções de economia ou de atualidade internacional, quem acompanhou a saga da implementação do Plano Real, ou quem cotidianamente segue a discussão bem informada e responsável, em quaisquer veículos, em torno dos temas do comércio, do meio ambiente, os diplomáticos e, de modo geral, os de relações internacionais, ou de qualquer outro assunto, quem já leu seus artigos e ensaios, ouviu suas opiniões, assistiu a entrevistas de Rubens Ricupero, qualquer um deles pode responder melhor do que os organizadores desta coletânea sobre a razão de um livro como este estar sendo editado e publicado, sendo apenas de se estranhar o atraso na tarefa. Não parece caber, assim, qualquer justificativa para o presente volume: o personagem, e suas produções, constituem sua própria mensagem e apresentação, sem qualquer campanha publicitária.

Esta tardia iniciativa, portanto, deve ser vista no sentido preciso que possui um Festschrift: uma homenagem, singela, mas sincera, de amigos e admiradores de Rubens Ricupero a um dos mais distinguidos diplomatas e homens públicos do Brasil do último meio século. Os textos aqui compilados percorrem alguns dos domínios – certamente não todos – que frequentou nosso personagem: todos os convidados possuem, em relação a ele, aquilo que Goethe chamou de afinidades eletivas; talvez pudéssemos também classificar os textos em sua homenagem, numa pequena inversão goethiana, de escolhas afetivas. Este é o sentido do livro. Desfrutem...

(...)

Paulo Roberto de Almeida

 

[Brasília-Florianópolis, 5/10/2012]

Passo Fundo, 19/10/2012;

Brasília, 18/11/2012]

domingo, 14 de junho de 2026

História, memória... e FHC - Pedro Malan (O Estado de S. Paulo)

História, memória... e FHC

Pedro Malan
O Estado de S. Paulo, 14/06/2026

Este artigo é uma homenagem aos 95 anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e à sua contribuição para a modernização do Brasil. É também um apelo por uma resposta, com visão de futuro, para a situação econômica, social e político-institucional do Brasil nesta quadra difícil e perigosa em que se encontram nosso País e o mundo. Já o fizemos no passado. Será necessário voltar a tentar, e com sentido de urgência.
Em 13 de junho de 1993, menos de um mês depois de FHC ter assumido o Ministério da Fazenda, foi dado a público o Programa de Ação Imediata. Visto em perspectiva histórica, o documento representa um marco importante por razões que guardam relevância para a situação do Brasil de hoje. O programa abre com a seguinte frase: “Somente quatro países do mundo tiveram inflação superior a 1.000% (em 1992): a Rússia, a Ucrânia, o Zaire (Congo) e o Brasil.” O documento deixava claro que o fim da inflação não era objetivo que se esgotasse em si mesmo.
O desafio à frente era assim sintetizado: “1) O Brasil só consolidará sua democracia e reafirmará sua unidade como nação soberana se superar as carências agudas e os desequilíbrios sociais que infernizam o dia a dia da população; 2) A dívida social só será resgatada se houver ao mesmo tempo a retomada do crescimento autossustentado da economia; 3) A economia brasileira só voltará a crescer de forma duradoura se o País derrotar a superinflação que paralisa os investimentos e desorganiza a atividade produtiva; 4) A superinflação só será definitivamente afastada do horizonte quando o governo acertar a desordem das suas contas, tanto na esfera da União como dos Estados e municípios; e 5) E as contas públicas só serão acertadas se as forças políticas decidirem caminhar com firmeza nessa direção, deixando de lado interesses menores”.
Havia sentido de rumo, direção e visão de curto, médio e longo prazos, que foram reafirmados nos meses subsequentes, com a conclusão dos acordos da dívida externa com credores privados. E, fundamentalmente, com a Exposição de Motivos (EM) n.º 395, de dezembro de 1993, intitulada “Programa de Estabilização”.
O importante documento continha “um breve diagnóstico da crise fiscal brasileira e proposições relativas à estabilização da economia em três frentes de atuação: a) equilíbrio orçamentário no biênio 1994-1995; b) sugestões à revisão constitucional; c) reforma monetária”. Esta última consistia na criação da Unidade Real de Valor (URV), a que se seguiria a introdução da nova moeda, que naquele momento ainda não havia sido batizada de Real. Esse conjunto consubstanciou, no dizer preciso de Edmar Bacha, o que se convencionou chamar de Plano Real.
Sugestões à revisão constitucional eram, portanto, parte integrante do Programa de Estabilização. Ao justificar as emendas propostas, em parágrafo escrito pelo próprio ministro Fernando Henrique, que havia participado da Constituinte, a Exposição de Motivos dizia: “Faltou-nos (aos constituintes de 1988) a percepção realista dos mecanismos de financiamento do gasto social e faltou-nos a decisão de efetivamente reconstruir o Estado em bases de competência e eficiência.”
As palavras de FHC continuam expressando no Brasil de hoje, passados mais de 32 anos, necessidade, relevância e urgência. Estamos num desses momentos críticos para tal, no Brasil, como no mundo. Afinal, as três perguntas de Marcos Mendes continuam a reverberar como o “decifra-me ou te devoro” da esfinge milenar: 1) Por que o Brasil cresce pouco?; 2) Por que o Brasil é um país tão desigual?; e 3) Por que é tão difícil fazer reforma no Brasil (para lidar com as duas perguntas anteriores)? Entendamos os desafios, ou seremos vencidos por eles.
Toda sociedade precisa ter algum grau de consciência de seu passado para que, com base em seus acertos e desacertos, orgulho e autoestima, possa vislumbrar seus possíveis futuros. Iniciativas recentes do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), da Casa das Garças e do Movimento Brasil Adiante representam tentativas sérias que espero possam motivar parte relevante da sociedade a pensar o Brasil e seu futuro e melhorar a qualidade do debate público nesses meses que antecedem as eleições deste ano. Foi em outro mês de junho, em 2002, que o então candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva divulgou sua carta-compromisso ao povo brasileiro na qual afirmava que, se eleito fosse: “Faria o esforço fiscal necessário para estabilizar a relação dívida/PIB, comprometia-se a respeitar contratos, a preservar a inflação sob controle”. Quão bom seria se Lula reeditasse os seus compromissos de junho de 2002 neste conturbado junho de 2026.
“O passado não está morto, não é nem mesmo passado”, escreveu William Faulkner em Requiem for a nun. A bela frase lembra Borges, para o qual sempre haveria “o presente do passado, ao qual chamamos memória”. Um presente que sempre contém sonhos, desejos e expectativas – de pessoas e de países – sobre o por vir. E estes, quer se realizem, quer não, constituem o que Borges chamou de Memórias do futuro. O Brasil terá de se erguer à altura dos seus inúmeros desafios. Já o fizemos no passado.

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