Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Leonardo Padura: El país de las últimas cosas - El País
terça-feira, 25 de junho de 2024
Assassinato no Comitê Central? Pois é! Manuel Vasquez Montalbán o perpetrou, e Leonardo Padura conta seu fascínio por ele
Que foi também o meu, justamente desde esse assassinato em plena reunião do Comitê Central do PCE, à época dirigido pelo stalinista Santiago Carrillo (sobreviveu).
Introdução de Mauricio David:
Como se deu meu encontro (ficcional, é claro) com o escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán
Foi na editora Paz e Terra, do saudoso Fernando Gasparian, que, fuxicando na prateleira de livros recebidos pela editora no escritório aqui do Rio, me deparei, pela primeira vez, com um livro do criador do célebre detetive Pepe Carvalho. Lá pelos anos de 86 ou 87, não me lembro bem (afinal, já se passaram quase 4 décadas do episódio). O livro intitulava-se “Asesinato en el Comité Central” e me chamou a atenção pelo inusitado título. Foi uma paixão a primeira vista. Fui seguindo depois pelo mundo afora, aqui e acolá, os exemplares que conseguia da vasta produção de Vázquez Montalbán, de quem me tornei fã e admirador. Livro maravilhoso, divertido e encantador, o “Assassinato no Comité Central”. Encontrei hoje na internet este texto do célebre escritor cubano Leonardo Padura que fala sobre o mestre espanhol do romance noir. É uma boa introdução à obra do criador do detetive Pepe Carvalho, em especial para os que gostam de um bom romance policial. Leiam o texto de Padura (escrito em 2018, há seis anos atrás, portanto) e encontrarão os motivos para passar a admirar também a escrita do autor catalão/espanhol.
Bom proveito !
MD
LITERATURA
O falcão barcelonês
Autor cubano rememora seus primeiros contatos com a obra e a vida de Manuel Vázquez Montalbán, mestre espanhol do romance noir
Revista 451, 01 NOV 2018 - 02H51 | EDIÇÃO #18 NOV.2018
Caro leitor, se este é seu primeiro contato com a obra narrativa de Manuel Vázquez Montalbán, você terá um privilégio considerável: entrar na literatura deste mestre do noir pela melhor porta possível. Digo isso com pleno conhecimento de causa, avalizado pela experiência do meu primeiro encontrão com a literatura de Montalbán, um choque traumático e equivocado.
Corria o ano de 1987 e eu havia acabado de voltar a Cuba depois de uma infindável temporada em Angola, para onde havia sido enviado como redator de uma revista voltada a colaboradores civis cubanos que lá moravam. Durante aquele ano, vivido fora do país e quase que fora do tempo, via-me obrigado a ler, sem método nem finalidade, o que encontrasse pela frente, tomado pelo lamentável estado de ânimo que me acompanhou durante essa experiência internacionalista em um país em guerra. Ao voltar para Cuba e me reencontrar comigo mesmo, recebi a agradável notícia de que a então jovem Fundação Alejo Carpentier, dedicada à obra do autor e à promoção da literatura cubana, havia aberto uma atraente biblioteca circulante, composta só por livros editados fora do país. A nova biblioteca fora financiada com recursos (diziam) doados por Gabriel García Márquez, que por sua vez os teria obtido com editoras espanholas com as quais mantinha relações de trabalho ou amizade.
Se alguma vez eu escrevesse um policial, teria que escrever como escrevia aquele espanhol, e o protagonista ser tão vital como Pepe Carvalho
Como o único lugar para o qual eu tinha viajado até então era Angola, e em Cuba só se publicavam, naquela época — e menos agora —, novidades de autores contemporâneos, e não se importavam livros impressos na Espanha ou no México — e sim os editados na União Soviética, por uma editora horrível chamada Progresso, mas que deveria ter sido batizada de Retrocesso —, foi graças àquela biblioteca singular que pude entrar em contato com autores como Gore Vidal, Kurt Vonnegut, o Mailer pós-Os nus e os mortos, o Vargas Llosa mais recente, entre muitos outros aos quais me atirava com voracidade. Entre eles, um romancista policial espanhol, chamado Manuel Vázquez Montalbán.
Quando soube da existência desse romancista, policial, espanhol, senti curiosidade e receio. Um romancista policial e espanhol? A experiência que eu acumulava à época como leitor implacável e crítico mordaz da literatura do gênero tinha como base o que era acessível aos cubanos comuns: clássicos anglo-saxões e franceses, as quase sempre decepcionantes obras dos autores do chamado “romance policial revolucionário cubano” (escola na qual, em geral, faltava o “romance”) e as histórias de espionagem chegadas da irmã União Soviética (Yulián Semionov, Vladimir Bogomolov). Havia também um ou outro livro infiltrado, quase nunca recente, de escritores como os italianos Leonardo Sciascia e Mario Puzo (com O poderoso chefão) e o argentino Rodolfo Walsh, de Operação massacre (antecessor digno e direto de A sangue frio, de Truman Capote, também publicado em Cuba). E pouco mais.
Encontrão
Movido por um interesse mais antropológico do que literário, peguei emprestado da biblioteca o único romance do suposto romancista policial espanhol disponível no catálogo. Chamava-se As termas e havia sido publicado em 1986, pela Planeta. E assim se deu o encontrão traumático.
As termas é o oitavo romance de Montalbán protagonizado pelo detetive Pepe Carvalho, catalão filho de galegos, ex-militante comunista e ex-agente da CIA. A trama se passa em um balneário em Marbella, no sul da Espanha, para onde Carvalho vai com o intuito de se desintoxicar, seguindo a recomendação de um tal Isidro Planas, empresário catalão. Durante duas semanas, fica internado numa clínica gerenciada por médicos alemães, que o submetem a uma dieta rigorosa e a uma série interminável de lavagens estomacais, com as quais castiga e purifica seu organismo, habituado a todos os excessos etílicos e gastronômicos que se possa conceber. E, nesse balneário, tão distante de Barcelona, onde vive e trabalha como detetive, Carvalho se vê compelido a investigar uma trama que conecta o presente com os tempos do Terceiro Reich alemão e os conhecidos fascistas de sempre. E elucida um mistério.
Não posso dizer que a leitura tenha sido uma experiência decepcionante. É um romance bem escrito, narrado com mão firme, com peripécias bem concebidas e um nível de linguagem acima da média das melhores obras do gênero. Mas nada mais do que isso. Nele, Pepe Carvalho não come nem bebe vinho branco, não briga com a namorada prostituta, não fala com os amigos de Barcelona nem percorre a cidade, não se mistura com as tramas de uma sociedade marcada pelo passado franquista e pelos primeiros passos de sua transição democrática, nem sequer queima os livros de sua biblioteca particular para acender a lareira.
A escolha obrigatória daquele romance específico (na verdade não uma escolha, já que não havia outro livro do autor) me apresentou traços totalmente incompreensíveis da identidade do personagem e de seu criador; mais ainda, equivocados ou, melhor dizendo, mutilados, tendo em conta a minha condição de neófito no universo do escritor. E, sem mais, condenei ao esquecimento aquele romancista, policial e espanhol, mais do que correto em sua escrita, mas de nenhuma forma extraordinário, segundo meu desinformado juízo.
Por sorte, pouco mais de um ano depois pude fazer a minha primeira viagem à Espanha, convidado a participar (como jornalista) do que seria a 1ª Semana Negra de Gijón, nas Astúrias. E foi nos dias que precederam o encontro, quando estávamos em Madri, que o escritor mexicano Paco Ignacio Taibo me presenteou um romance que recomendou com todos os elogios, comprado por cem pesetas numa banca de rua: Os mares do sul, escrito, é claro, por aquele mesmo Manuel Vázquez Montalbán, considerado (eu descobria naquela instante) o guru da literatura noir espanhola e, mais do que isso, um dos intelectuais mais corrosivos e ativos do momento.
Durante a Semana Negra, sempre na função de jornalista, tive o atrevimento e a sorte de poder entrevistar muito rapidamente Manuel Vázquez Montalbán, que esteve naquele encontro maravilhoso por alguns poucos dias. A conversa, que obviamente não poderia ser sobre a obra dele, teve como objetivo informar a mim e aos desinformados leitores cubanos sobre a origem e as características do romance policial na Espanha. Além de uma análise saborosa em primeira mão, saí da entrevista com um ganho importante: a certeza de que aquele romancista policial e espanhol era um homem de uma coerência intelectual assombrosa e de um mau humor proverbial.
Vital
Quando voltei a Cuba, em pleno verão de 1988, li Os mares do sul, vencedor do prestigiado Prêmio Planeta nove anos antes. A comoção que me tomou ao ler o romance de Montalbán que eu devia ter lido antes de As termas, para me armar das chaves de um universo literário aberto e em desenvolvimento, foi tão profunda que saí dele com a respiração entrecortada, a boca seca e uma convicção alarmante: se eu fosse escrever um romance policial, teria que escrevê-lo como aquele espanhol escreveu Os mares do sul, e se fosse escrever esse romance e criasse um investigador, o meu teria que ser tão vital como aquele Carvalho, cético e cínico, que andava à vontade pelas páginas de Os mares do sul, e então retraçava as ruas da sua Barcelona e as rotas do seu próprio tempo histórico e humano.
Encontrar aquele romance foi uma cura radical para o meu trauma inicial e, então, foi o ponto de partida de uma dependência crônica pela literatura de Montalbán, cujos romances, policiais ou não, persegui desde então, comprando-os durante minhas viagens à Espanha numa época em que não podia me dar esse luxo. Também foi o caminho por onde comecei a buscar uma proximidade inclusive física com aquele escritor, um contato que chegaria a se converter numa amizade peculiar — pois com Manolo, como pude chamá-lo mais tarde, tudo era peculiar. Até a forma como morreu, em 2003, num lugar tão inapropriado: o aeroporto de Bangcoc, cidade onde desenvolveu o enredo de um de seus romances.
De bairros operários degradados a ilustres salões burgueses, Barcelona torna-se o mapa de um universo alterado pelas possibilidades surgidas após a morte de Franco
Assim, durante anos, tivemos vários encontros em Barcelona e Havana, a ponto de me atrever a pedir-lhe que escrevesse a apresentação do meu primeiro romance publicado na Espanha — Máscaras (1997) —, e de ele se atrever a me pedir que o ciceroneasse pelos caminhos mais intrincados de Havana, na investigação que fez do mundo cubano antes da visita do papa João Paulo 2º à ilha, materializada na extensa reportagem Y Diós entró em La Habana, de 1999.
Enigma Espanha
Depois de dizer tudo isso, acho que é hora de eu começar a me explicar… Talvez já esteja claro que, para mim, Os mares do sul é, com toda a propriedade, um excelente romance policial, com uma trama bem armada e resolvida, como se requer nas boas obras do gênero. Porém, também deveria ser evidente que Os mares do sul é, antes de tudo, um excelente romance, e que o fato de ser um policial só serve para duplicar sua transcendência e influência.
Até a chegada de Manuel Vázquez Montalbán com Tatuaje, de 1974 — a segunda obra protagonizada por Pepe Carvalho —, o romance policial espanhol buscava obter seu documento de identidade, próprio e intransferível. Vários autores, desde a década de 1920 e, depois, a partir da década de 1950 (passada a Guerra Civil e os anos mais duros do pós-Guerra), haviam escrito obras do gênero com êxito parcial, mas sem capacidade suficiente para criar uma escola ou, ao menos, sem a certeza de que era possível traçar e seguir caminho próprio.
A chegada desse novo romancista, todavia, conseguia unir duas premissas: uma identidade nacional para o gênero e um plano estético pelo qual ele continuaria se movendo, logo em companhia de outros autores notáveis: Andreu Martín, Juan Madrid e Francisco González Ledesma, entre outros.
Se as qualidades literárias desse escritor já eram patentes em Tatuaje e em La soledad del mánager (1977), elas são forjadas no seu máximo nível estético e conceitual em Os mares do sul. O pretexto do enredo, a busca pelo lugar onde estivera durante um ano o riquíssimo empresário catalão encontrado morto nas primeiras páginas do romance, serve a Montalbán para dissecar cruamente a sociedade espanhola dos anos imediatamente posteriores à morte do ditador Francisco Franco e o estabelecimento de uma nova democracia, ainda titubeante, ameaçada e receosa de si mesma.
A galeria de personagens através dos quais Carvalho descobre as diferentes facetas do empresário Stuart Pedrell serve ao escritor para traçar, por sua vez, as diferentes facetas de uma sociedade pulsante, em que os debates ideológicos, os oportunismos, as frustrações políticas e econômicas, o presente democrático e o passado franquista tratam de expressar a dinâmica de um momento histórico que até hoje está em definição. A cidade, enquanto isso, percorrida desde os bairros operários mais degradados até os salões burgueses mais ilustres, passando pela Barcelona histórica e íntima das Ramblas, do porto e do Bairro Chinês, torna-se, muito mais do que um cenário oportuno, um mapa de todo um universo alterado pelas novas possibilidades e marcado pelos enormes obstáculos de um passado de capitalismo ditatorial. Carvalho, por sua vez, um desiludido e irremediável ideológico, abre com a sua personalidade, as suas fobias e os seus amores as portas para a compreensão de uma frustração política e para o desfrute de uma festa dos sentidos através de seus jogos gastronômicos e etílicos.
Por esses caminhos e muitos outros atributos — incluindo uma linguagem vibrante —, Os mares do sul supera com segurança os seus desafios estéticos e a sua condição de romance noir, propondo-se a ser, sobretudo, um inflamado romance social, do qual surgem perguntas e algumas respostas — algo inevitável à lucidez ideológica de seu autor.
Bússola
Não foi por acaso que, mal tendo concluído Os mares do sul, engatei as leituras de Tatuaje, La soledad del mánager, Assassinato no Comitê Central (1981), Los pájaros de Bangkok (1983) e A rosa de Alexandria (1984) — revisitei, inclusive, As termas. Tampouco foi fortuito que, meses depois da comovente descoberta daquelas qualidades do gênero policial, um dos nortes que me guiou no romance ao qual eu enfim tinha tempo para me dedicar, após seis anos de trabalho intenso num jornal diário, foi o que me haviam mostrado Manuel Vázquez Montalbán e seu irreverente detetive Pepe Carvalho.
O outro caminho, é claro, levava a marca de Raymond Chandler e Philip Marlowe. Porque, em ambos os casos, o romance policial exibia as potencialidades que eu buscava no meu projeto: eram esforços altamente literários de, por meio da revelação de ambientes, personalidades, traumas sociais e conflitos individuais e de época, proporcionar buscas capazes de se impor ao simples e inteligente jogo da criação de enigmas.
‘Os mares do sul’ supera a condição de romance noir para ser, sobretudo, um inflamado romance social
Como você terá se dado conta, caro leitor, Os mares do sul é muito mais do que um romance. É, para a língua espanhola, o que foi para o inglês A chave de vidro (1931), de Dashiell Hammett. Só que, ao contrário do vaso de porcelana chinesa que Hammett atirou no meio da rua — nas palavras de Chandler, seu discípulo —, o mestre Manuel Vázquez Montalbán projetou a bússola que conduz à Literatura (com maiúscula), por meio da qual nós, escritores, temos nos orientado em romances mais ou menos policiais, nas nossas tentativas de praticar o difícil exercício de matar com as palavras. A arte de escrever um romance policial. E de fazê-lo em língua espanhola.
Espero que Manolo, inconformista e lúcido como sempre, esteja de acordo comigo, esteja onde estiver. Seja no céu de Bangcoc, seja, como sem dúvida teria preferido, no Bairro Chinês de Barcelona, num céu materialista e vivo, aonde talvez chegue o inconfundível cheiro da cozinha da Casa Leopoldo, seu restaurante favorito. [Tradução de Antonio Mammi]
QUEM ESCREVEU ESSE TEXTO
Leonardo Padura
Escritor cubano, escreveu A transparência do tempo (Boitempo).
Matéria publicada na edição impressa #18 nov.2018 em novembro de 2018.
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
El hombre que amaba a los perros, por Leonardo Padura - Helga Hoffmann
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PRA: Em sua nota final de agradecimento, Leonardo Padura informa que começou a escrever a seu relato histórico "no mês de outubro de 1989, enquanto, sem que muita gente ainda o suspeitasse, o Muro de Berlim se inclinava perigosamente, até que começou a se precipitar e se desfez, apenas umas semanas depois". (p. 763 de minha edição do livro, a 15a edição da editora MaxiTusquets)
Ele indica que foi a visita que fez à residência de Trotsky no México, naquela época, que o fez decidir escrever a respeito. Mas demorou muito para a obra emergir. Escreve então:
"Al enfrentarme a su concepción, más de quince años después, ya en el siglo XXI, muerta y enterrada la URSS, quise utilizar la historia del asesinato de Trotski para reflexionar sobre la perversión de la gran utopía del siglo XX, ese proceso en el que muchos invirtieron sus esperanzas y tantos hemos perdido sueños, años y hasta sangre y vida."
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Resenha de livro: O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura - Olavo de Carvalho
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 31/03/2015
A Editora Boitempo publicou em tradução o romance de Leonardo Padura, “El Hombre que Amaba a los Perros”, com o título de “O Homem que Amava os Cachorros”. Eu teria preferido “Cães”, porque, ao lidar com uma língua irmã da sua própria, o tradutor deve ter o bom gosto e bom senso de escolher, seja palavras de igual raiz com significado idêntico nas duas línguas, seja palavras que inexistem no idioma original, jamais palavras idênticas com significado diverso. “Cachorro”, em espanhol, é “filhote”. Talvez o tradutor achasse que “cão” é termo do vocabulário “burguês”.
Mas o problema maior não é esse. Dedicada eminentemente à promoção de idéias e autores comunistas, a equipe da Boitempo mostrou que é capaz de traduzir e divulgar um dos grandes romances do século, ganhando algum dinheiro com ele, sem se deixar afetar pelo seu conteúdo no mais mínimo que seja. É um caso de insensibilidade literária que raia a psicastenia. Pois raramente, no mundo, o comunismo, não nos detalhes do imensurável horror físico que produziu, mas nas profundezas da deformidade psicopática que o inspira, foi descrito em termos tão cruamente realistas como nesse livro: é uma imagem do inferno ou, para usar as palavras do autor, algo que se parece “antes a um castigo divino do que a uma obra de homens”.
Com base em farta documentação, só complementando-a com a especulação imaginativa nos pontos onde isso é indispensável, o livro conta a história dos últimos anos de vida de Leon Trotski e do seu assassino, Ramon Mercader, paralelamente à do narrador, um escritor cubano reduzido à impotência criadora pelas imposições da burocracia castrista empenhada em tudo rebaixar e mediocrizar. Os três são homens que apostaram tudo no socialismo e aos quais só resta, no fim da história, a consciência amarga da “vida inteira que poderia ter sido e que não foi”.
Embora a maior parte do enredo se passe no tempo de Stalin, o romancista não apela ao expediente costumeiro de trocar “comunismo” por “stalinismo”, usado para branquear a imagem do regime nas épocas subseqüentes, mas mostra com muita clareza que, de um modo ou de outro, a mistura de violência assassina e mendacidade alucinante que caracterizou o stalinismo se conservou em ação em todos os países comunistas muitas décadas depois da morte do ditador. Padura, que nasceu e ainda mora em Cuba, publicando seus livros no México, viveu tudo isso de perto e colocou no personagem do narrador de “El Hombre que Amaba a los Perros” muito da sua experiência pessoal.
Hoje os brasileiros se espantam ante um governo que lhes rouba bilhões de reais enquanto, com a maior cara dura, continua posando de paladino da moralidade, e, rejeitado por noventa por cento da população, ainda se faz de porta-voz do “povo” contra a “elite”. Se conhecessem algo da história do comunismo, como a trama urdida por Stalin para dar cabo de Trotski, entenderiam que a mendacidade psicopática, em proporções tão vastas que raiam o diabolismo puro e simples, não é uma invenção do PT: é inerente à mentalidade comunista em todas as épocas e lugares.
Os capítulos finais deste livro mostram o próprio assassino de Trotski, Ramon Mercader, consciente de haver jogado sua vida fora numa farsa demoníaca, concebida para fazer de Trotski, então um exilado sem dinheiro e quase sem seguidores, chutado de cá para lá por todos os governos do mundo, o todo-poderoso líder de uma conspiração global para derrubar o governo soviético com a ajuda simultânea – porca miséria! -- dos nazistas e dos americanos. Durante décadas, Mercader foi adestrado para odiar Trotski com todas as suas forças, só para descobrir, depois, que na realidade nada sabia contra ele além de balelas e invencionices absurdas e antinaturais, injetadas em sua cabeça com violência comparável à do golpe de picareta no crânio com que ele deu fim à existência da sua vítima.
Após ter ido parar na cadeia num dos muitos expurgos que eram rotina na política soviética, o próprio agente secreto que treinou e disciplinou a mão assassina de Mercader tem, na velhice, a mesma consciência de ter servido apenas aos caprichos insensatos de um ditador enlouquecido pelo medo, que não se acalmaria antes de haver eliminado da face da Terra todos os seus inimigos reais, hipotéticos, virtuais ou totalmente imaginários.
Especialmente significativa é uma personagem secundária, a mãe de Mercader, Caridad. Mulher frígida que o marido burguês corrompe para ver se desperta nela o desejo sexual, ela se entrega então a uma vida devassa e ao consumo de drogas, chegando a uma tentativa de suicídio. Só emerge da depressão quando encontra uma saída existencial no comunismo e reestrutura sua personalidade com base nos valores da militância, tornando-se uma combatente fanática, odiando o marido e o capitalismo como se fossem uma só entidade e contribuindo decisivamente para fazer do filho um assassino a soldo de Stalin. Eu não poderia ter encontrado melhor ilustração para o conceito do outsider como militante, que descrevi em artigo recente neste mesmo jornal (http://www.dcomercio.com.br/categoria/opiniao/os_desajustados).
No fim, o desencanto de Caridad é o mesmo de Ramón e de seu instrutor, com a diferença de que ela não tem nem mesmo a força deles para meditar sobre a insensatez do seu passado.
O vazio, a secura, a tristeza vã e desesperançada que são tudo o que resta a esses homens quando compreendem a pantomima tola e sangrenta da qual se fizeram servidores e agentes, são a mensagem derradeira legada pelo século XX à presente geração, aí incluídos os editores brasileiros incapazes de ouvi-la.
Não é preciso dizer que perseguições em massa, cruéis e insensatas, no mais puro modelo stalinista, aconteceram também na China comunista, em Cuba, no Vietnã, no Camboja, em todos os países-satélites da URSS e por toda parte onde a opinião comunista tenha saído do subsolo psicopático que lhe é natural e conquistado um lugar de respeito na sociedade. O modelo universalizou-se. A única coisa que varia é a dosagem respectiva da violência e da mendacidade que a fórmula da loucura comunista assume em distintos lugares do mundo. Nos países onde não tem força bastante para tomar o poder pelas armas, o comunismo apela à estratégia gramsciana do engodo geral e, por isso mesmo, como aconteceu no Brasil, rouba mais do que mata, pelo menos até que o produto do roubo, crescendo até dimensões oceânicas, lhe assegure a posse dos meios de matar.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Trotsky: seu assassinato continua a ser um grande tema para historiadores e romancistas
Escritor cubano reabre o debate sobre o assassinato de Trótski
| Divulgação |
| Autor trata de uma história coberta por inúmeras mistificações |
Autor: Leonardo Padura
Tradução: Helena Pitta
Editora: Boitempo
Páginas: 600
Quanto: R$ 59,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
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