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5342. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/ ). Relação de Publicados n. 1652.
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente
Paulo Roberto de Almeida
Revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026)
No episódio anterior de minha autobiografia – 3: do nascimento a tempos incertos, aqui: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/ –, eu falei de minhas agruras iniciais: do parto por legitimação papal, do crescimento, enfrentando os pretendentes à ocupação, os mouros ao sul e os visigodos de Leão e Castela a oeste, assim como dos meus próprios desbravadores, saindo ousadamente por mares nunca de antes navegados, chegando a me brindar com novas terras prometedoras, aonde, como me informou um dos primeiros escribas que por ali arribaram, “em se plantando tudo dá!” Era uma terra de bugres, assim que eu a deixei quieta por alguns anos, até que pretendentes de outros reinos começassem a frequentá-la, sem a minha permissão. Tratei, portanto, de me instalar, dando terras para que fidalgos remediados a ocupassem.
Não é que deu certo? Primeiro começaram a retirar uma madeira cor de brasa – que acabou dando o nome ao meu segundo lar –, depois plantando uma doce gramínea que fiz vir dos Açores, depois encontrando aquela “relíquia bárbara”, da qual falou um economista de tempos mais recentes, que enriqueceu meu Real Tesouro e permitiu construir alguns palácios suntuosos na velha terrinha e várias igrejas nas novas terras. Para lá mandei um primeiro governador-geral e depois um vice-rei, que logo teve de garantir que toda aquela riqueza mineral fosse carreada sob minha guarda, mas que também ordenou devassas e algumas condenações bem-merecidas. Os rapaces ingleses se apropriaram de umas partes do ouro, a pretexto de me proteger de meus inimigos na velha Europa.
O fato é que essa velha Europa não me dava sossego. Não é que um corso metido a maioral, no reino dos antigos Capetos, resolveu atacar todas as monarquias estabelecidas e avançou ardilosamente contra os reinos estabelecidos à direita e à esquerda da França revolucionária e seu exército popular? Para se vingar dos irredutíveis ingleses, Napoleão, já convertido em imperador, mandou um dos seus generais investir contra o meu pequeno reino, que vivia à sombra do Leão britânico, depois de ter destronado um primo meu na Espanha, Fernando VII. Foi o que finalmente me “convenceu” a partir para minhas imensas terras no Novo Mundo. Foi, posso dizer, o meu segundo nascimento.
Tive de me transladar rapidamente, com meus livros e apetrechos, ajudado inclusive pela Royal Navy, carregando em todos os barcos requisitados o que havia de fidalguia no reino, sem saber ao certo o que eu encontraria na nova capital do meu imenso império marítimo, escapando assim do triste destino do meu colega espanhol, confinado na França, seu reino dado na bandeja a um irmão do usurpador. Meu Estado foi preservado, embora em novo endereço e sob a guarda dos intrometidos ingleses. Era o que dava para fazer naquele momento de angústia e incertezas. De passagem para a nova capital do vice-reinado, parei na antiga, São Salvador da Bahia de Todos os Santos, onde tive o auxílio de um funcionário local das alfândegas, José da Silva Lisboa (ah, minha perdida capital), para assinar um decreto de abertura dos portos, que na verdade só beneficiava aos comerciantes ingleses. Estes passaram a enviar todos os tipos de trastes para aquelas terras desconhecidas para eles (mas não de seus corsários), chegando inclusive a termos nas docas do Rio de Janeiro patins de gelo, vejam que absurdo!
O problema é que não tínhamos onde acomodar todos aqueles inúteis nobres do meu reinado europeu, e começamos a expropriar as melhores casas disponíveis, chegando até a aproveitar uma cadeia pública. Como meus súditos palacianos passassem a pintar nas casas requisitadas o indicativo PR, que elas estavam doravante ao serviço do Príncipe Real, os locais, conhecidos por suas zombarias, interpretavam com o impositivo “Ponha-se na Rua!” Não foram poucas as troças e rebeldias que meus súditos brasilienses protagonizaram contra a minha Regência – sim, esqueci de mencionar que a Rainha legítima, Dona Maria I, minha querida mãe, estava afastada das funções por algumas fraquezas da mente – e eu só tive a glória de ser entronizado como o novo rei de Portugal e domínio dez anos depois da chegada à maior e mais rica colônia de meu magnífico e imenso império ultramarino.
A essa altura, por imposições da paz enfim negociada em Viena depois da segunda derrota do usurpador francês, meu domínio americano foi elevado à categoria de Reino Unido ao do meu próprio Portugal, com o que ganhei nova personalidade e também novas pretensões a ser eu mesmo, finalmente, dono do meu próprio Estado. Eu até queria ficar na nova sede do Império, que seria uma espécie de “imenso Portugal”, mas os comerciantes do Porto, numa revolução inspirada nas ideias liberais que reivindicavam monarquias adeptas da recente moda constitucional – baseadas em doutrinas francesas mais uma vez, Montesquieu e um tal de Benjamin Constant, um hugenote franco-suíço além de tudo –, passaram a exigir que eu voltasse à terrinha. Eu não queria, mas as Cortes constituídas em Lisboa ameaçaram me destituir, assim que eu tive de deixar o meu novo grande Estado aos cuidados do meu primogênito Pedro, um rapaz muito afoito e dado a aventuras de duvidosa reputação.
A sorte foi que ele escolheu para auxiliá-lo um inteligente súdito nascido naquelas paragens, no porto de Santos se não me falha a memória, que tinha passado longos anos estudando na Europa, chegando a fazer parte das mais famosas academias de ciências. José Bonifácio, esse era o seu nome, foi o mais atilado ministro do último gabinete português no Rio de Janeiro, último não por minha decisão, ou do meu filho regente, mas por imposição das circunstâncias, que foram ingratas para meu glorioso Império. As Cortes, atuando por ganância dos comerciantes e de cortesãos desejosos de retornar ao Ancien Régime de corte absolutista, acabaram por impor ao Brasil uma volta aos tempos coloniais, com o que os meus súditos d’além-mar se decidiram pela separação, aliás por impulso do Bonifácio e da esposa de Pedro, a austríaca Leopoldina, que deve ter atuado sob influência de um astuto autocrata dos Habsburgos, um tal de Metternich.
Finalmente, eu me encontrava naquela situação relativamente inédita na vida dos povos do mundo, a oportunidade de construir um novo Estado, só para mim, a partir do zero, ou de quase nada, a não ser o pouco que tinha sido deixado pelos antigos colonizadores: nenhuma fábrica que prestasse, nenhuma escola para os antigos súditos, agora convertidos em cidadãos conscientes e orgulhosos de dar início a uma nova etapa num imenso domínio muito mais rico do que o da mais velha monarquia europeia, ainda que dominada por uma segunda dinastia, depois do interlúdio castelhano, a dos Braganças, iniciada de 1640. Agora, sim, eu poderia partir de um Estado só meu, sem precisar conquistar nenhum território (o que ficou me bastava, com alguns ajustes aqui e ali), nem fazer qualquer revolução – só poucas escaramuças contra tropas lusitanas que tardaram em reconhecer que havia um novo Senhor naquelas terras –, até que enfim eu não mais precisaria receber ordens de algum rei distante, nem me inclinar para aqueles ingleses arrogantes (ainda que eu precisasse do dinheiro deles).
Mas o fato é que eu fiquei logo na penúria, pois meu augusto pai presumido me deixou algumas dívidas não declaradas – sobretudo a que ele mesmo havia contraído com os gananciosos banqueiros da City –, além de exigir que eu lhe pagasse umas propriedades que havia adquirido nas proximidades, coisas construídas pelos escravos que os seus aduladores continuava a trazer das costas d’África, a despeito da recomendação do Bonifácio para que se extinguisse imediatamente o tráfico e se substituísse a escravidão pelo trabalho livre, em médio prazo. O Bonifácio, José, e seus irmãos, sobretudo o Antonio Carlos, que se meteu a jurista, depois de andar a perturbar nas Cortes de Lisboa, começaram justamente a me causar alguns problemas, querendo, por exemplo, fazer uma Constituição de base excessivamente parlamentar, não me deixando muitos poderes, com o que eu tive de mandar fechar aquela nova bagunça, banir os Andradas do Brasil e ordenar que se fizesse uma Carta constitucional ao meu feitio, dando me “poderes moderadores” para poder controlar novos pretendentes a exercer o seu próprio arbítrio, não o meu, muito mais esclarecido.
Os reinos europeus tardaram a reconhecer a minha independência, não antes que o fizessem aqueles caipiras da América do Norte, uma república alegadamente democrática, mas separada em estados dotados de muita autonomia, o que não exatamente me convinha, pois poderia vir a ser a semente de alguma guerra civil no futuro. Ainda tive de pagar pelo reconhecimento diplomático da parte daqueles que primeiro mandaram nestas terras, o que abriu o caminho para que outros reinos, coalizados na Santa Aliança, também consentissem na formalidade, o que muito me custou em críticas de alguns recalcitrantes vocais, certamente republicanos enraivecidos, por não se ter adotado o seu regime favorito. Houve até um frade nas bandas do Nordeste que tentou uma confederação com outros tresloucados da região, o que teve de ser reprimido pouco meses depois que outorguei uma nova Carta do Império.
Se não bastassem os ruídos internos, causados por jornalistas muito abusados – aos quais eu tinha de aplicar uns corretivos volta e meia –, começou uma guerrilha lá pelos lados da Cisplatina, herança antiga dos tempos coloniais, que logo se transformou em guerra dos argentinos contra nós, uma das piores coisas na vida de um Império satisfeito de si mesmo. Os ingleses, metidos como de sempre, logo arranjaram para fazer daquela nossa província um “algodão entre cristais”, um Estadinho novo, pequeno, mas justo no caminho entre nós e os hermanos do outro lado do Prata. Os ingleses, aliás, continuavam a fazer exigências, com os seus tratados desiguais no comércio e nos privilégios de extraterritorialidade para os seus súditos, querendo que terminássemos de pronto com um comércio vital para a nossa vida e economia: os dos trabalhadores que comprávamos legalmente nas costas da África.
Nós até fizemos um “tratado para inglês ver”, mas eles não acreditaram na bazófia. Enfim, as querelas externas e domésticas foram tantas, que lá pelas tantas resolvi mandar de volta o rapazito importado com a família dos Braganças fugidos de Portugal, tanto mais que ele tinha umas pendências a resolver contra o irmão, metido a autocrata e usurpador. E foi assim que terminou, aos oito anos da autonomia conquistada, aquele meu primeiro reinado, passando o meu Império a viver sob constantes revoltas e regências das mais inconstantes, até que eu tratei de fazer um novo arranjo para governar por mais algum tempo, muito tempo. Mas isso é uma história que vou contar com mais vagar, assim que recompor meus poderes…
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5342, 6 junho 2026, 4 p.
