Edmar Bacha revisa dois supostos de longa data sobre o desenvolvimento econômico brasileiro: um de que o século XIX teria sido de completa estagnação do crescimento per capita, ou outro de que os primeiros 80 anos do século XX teriam sido de um crescimento espetacular. Ambas suposições erradas, segundo ele:
Brasil: dois séculos de crescimento revisitados
Adaptado de palestra no EPEP — Estudos Políticos em Pauta, na USP, em 18 de junho de 2026, baseada em pesquisa conjunta com Guilherme Tombolo e Flávio Versiani (BTV)
EDMAR BACHA
JUL 1,2026
Duas afirmativas sobre o crescimento brasileiro circulam há décadas com força de verdade estabelecida. A primeira: a economia teria estagnado no século 19, com crescimento zero do PIB per capita — é o que registra o Projeto Maddison, a referência internacional para comparações históricas de renda. A segunda: o crescimento do PIB per capita brasileiro entre 1900 e 1980 teria sido o segundo mais rápido do mundo. Em dois artigos, BTV (2023) e BTV (2025), contestamos ambas. O século 19 brasileiro não foi de estagnação; e o milagre do século 20, embora real, foi menor do que se acreditava.
## O suposto século perdido
Comecemos pela primeira metade do século 19, onde as estimativas existentes são mais frágeis. Os números do Projeto Maddison para 1800–1850 vêm de Prados de la Escosura (2009), que por sua vez os atribui a Leff (1982), que de fato fez estimativas a partir da oferta real de moeda, mas somente referidas ao período 1800-1913, não à primeira metade do século 19. Já Furtado (1959) e, mais recentemente, Abreu, Lago e Villela (2022) estimaram crescimento zero com base em dados de exportação. Ocorre que esses dados foram revistos substancialmente para cima por Absell e Tena-Junguito (2018), o que mina a premissa do cálculo.
Ademais, a evidência histórica aponta na direção contrária à estagnação. A abertura dos portos e a liberação das atividades econômicas em 1808; a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, com a expansão do mercado interno e a especialização regional que ela induziu; o avanço do café, mais produtivo, em substituição ao açúcar; e o enorme aumento na entrada de escravizados africanos, inclusive para atender ao mercado interno — tudo isso é difícil de conciliar com uma economia parada.
Para a segunda metade do século, a controvérsia é menor. A fonte do Maddison é Goldsmith (1986), que obteve o PIB dividindo uma série nominal por uma soma de quatro índices de preços. Sua série mostra crescimento positivo em 1850–1870, mas queda a partir de 1870 — resultado que decorre de um índice de preços imperfeito; a série nominal parece adequada. Furtado já supunha crescimento significativo no período, e Tombolo (2013) o confirmou com metodologia mais elaborada, em estimativas depois adotadas por Abreu et al. (2022). Afora Leff, há razoável consenso quanto ao crescimento em 1850–1900 — e a evidência histórica é abundante: fim da escravidão, expansão das ferrovias, imigração europeia, auge do café, melhoria das relações de troca, industrialização incipiente.
## Nossa reestimação
Partindo de Tombolo (2013), reconstruímos o PIB per capita do século 19 com metodologia similar à série nominal de Goldsmith, mas com novos dados e métodos de agregação. Para os preços, partimos da nova série de Catão (1992), que se inicia em 1870; para 1820–1870, recorremos aos dois melhores índices anteriores, Lobo et al. (1971) e Buescu (1973).
O resultado: uma tendência de crescimento do PIB per capita de 0,9% ao ano para todo o século 19.
Posto em perspectiva internacional, o Brasil deixa de ser uma anomalia. Crescemos a taxas similares às da Europa Ocidental e do resto da América Latina — exceto na última década do século, quando a crise do Encilhamento e seus desdobramentos nos fizeram destoar.
Dois estudos recentes, com metodologias inteiramente independentes, confirmam nossos achados. Pereira (2026) propõe números mais baixos para a inflação no Império e, com base na série nominal de Goldsmith, estima crescimento do PIB per capita de 1,2% ao ano entre 1850 e 1889. Lambais e Palma (2026), em ampla pesquisa de arquivos históricos, constroem séries de salários reais para o Brasil de 1574 a 1920 e estimam crescimento de 0,7% ao ano entre 1822 e 1889. Nossos 0,9% estão confortavelmente entre os dois.
Por que, então, a comunidade acadêmica abraçou por tanto tempo a tese da estagnação secular? Vejo três razões. Primeiro, o argumento de autoridade: o Projeto Maddison é a referência canônica, e poucos se deram ao trabalho de rastrear a origem de seus números. Segundo, a tese se encaixava numa narrativa, em larga medida ultrapassada pela historiografia moderna, de três males — monarquia antinegócios, escravidão improdutiva, maldição dos recursos naturais — que pareciam exigir um século perdido como corolário. Terceiro, a renda per capita de 1900 no Maddison (USD 874) estava tão próxima da subsistência mínima estimada (USD 700) que qualquer crescimento anterior parecia aritmeticamente impossível.
## O século 20 foi menos milagroso
A segunda afirmativa corrente, sobre o milagre no século 20, exigiu outro tipo de cirurgia. As contas nacionais brasileiras existem desde 1947, pela Fundação Getúlio Vargas; Haddad (1980) estendeu a série de 1900 a 1947. Tanto a FGV quanto Haddad, porém, excluíram das contas os serviços de baixo crescimento, supondo implicitamente que eles avançaram tanto quanto os setores incluídos, de crescimento mais rápido. Os dados disponíveis para 1947–1966 e 1980–1990 mostram que não: os serviços excluídos cresceram pouco mais que a população.
Nossa correção reincluiu esses serviços em quatro subperíodos entre 1900 e 1980. Para 1947–1966, por exemplo: ΔPIB revisado = 0,7 × ΔPIB original + 0,3 × Δserviços excluídos. O efeito sobre as taxas é substancial:
| Período | PIB (Ipeadata) | PIB (BTV) | PIB pc (Ipeadata) | PIB pc (BTV)
1900–1980 5,7 4,9 3,3 2,5
1900–1947 4,4 4,0 2,4 2,0
1947–1980 7,4 6,2 4,5 3,3
## Consequências
Juntando as duas pontas, o retrato dos dois séculos muda de figura. O período 1820–1900 não foi de estagnação: em termos de tendência, o PIB per capita cresceu a taxas similares às da Europa e da América Latina, 0,9% ao ano. A diferença entre os dois séculos é, portanto, metade do que se acreditava — não 3,3 menos 0,0, mas 2,5 menos 0,9: 1,6 ponto percentual ao ano. O PIB do período de substituição de importações (1919–1980) cresceu menos do que se pensava: 5,3% em vez de 6,2% ao ano. Ainda assim, mesmo após nossos cortes o crescimento brasileiro de 1900–1980 foi de 4,9% ao ano, bem acima dos 3,2% da economia mundial segundo o próprio Maddison. O milagre encolheu, mas não desapareceu.
O contraste com o que veio depois é o que mais incomoda. Desde 1980, o crescimento do PIB per capita foi muito fraco, com divergência em relação aos Estados Unidos. O comportamento do IDH desde 1990 foi melhor — avançamos em saúde e educação mais do que em renda —, mas mesmo aí a convergência aos EUA vem desacelerando.
A revisão dos dois séculos não é exercício de antiquário. Ela muda a pergunta que a história econômica brasileira nos coloca. Se o século 19 não foi de estagnação e o século 20 foi menos excepcional, o Brasil aparece menos como um país de extremos — ora condenado, ora milagroso — e mais como uma economia de desempenho persistentemente mediano, pontuada por um surto industrializante que não se sustentou. A mediocridade, porém, era evitável. Continua sendo. Tema de Bacha (2026).
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**Referências principais**
“O Brasil Real e a mediocridade evitável”. Revista Será – Projeto Brasil, abril 2026. https://revistasera.info/projeto-brasil-integracao-competitiva-na-economia-globalizada/
Bacha, E., G. Tombolo e F. Versiani (2025). “Secular stagnation? A new view on Brazil’s growth in the 19th century.” *Journal of Iberian and Latin American Economic History* 43(2): 279–308.
Bacha, E., G. Tombolo e F. Versiani (2023). “Reestimating Brazil’s GDP Growth from 1900 to 1980.” *Revista Brasileira de Economia* 77(3): e132023.
Bacha, E., G. Tombolo e F. Versiani (2024). “A note on Brazil’s historical GDP per capita growth rates.” *Revista Brasileira de Economia* 78(3): e182024.
Lambais, G. e N. Palma (2026). “How a Nation was Born: Brazilian Economic Growth, 1574–1920.” CEPR Discussion Paper No. 21341.
Pereira, T.Z. (2026). “Inflation and Economic Growth in Imperial Brazil (1824–1889).” *European Review of Economic History*, heag013.