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domingo, 4 de outubro de 2026

Um voto mais que assustador, um voto que indica uma saída pelo abismo - Paulo Roberto de Almeida, Marcelo Guterman (sem qualquer combinação)

Avant-propos ex-post: 
 
        Agrego comentários preliminares à postagem abaixo, de um economista anti-petista, depois de ter lido ou ouvido críticas acerbas, tanto em relação ao que diz o seu autor, quanto em relação à minha postura de ter decidido colocar o seu texto em meu espaço nesta ferramente de comunicação social e, imagino, também de debate.
        Segundo os críticos, eu NÃO DEVERIA ter repostado esse texto, pois ele confronta posturas bem fundamentadas dos que estão concretamente posicionados contra a DIREITA, ou seja, contra o candidato da família miliciana, a pior coisa que já aconteceu no país DESDE 2018 e que continua na batalha para conquistar corações e mentes de brasileiros neste ano de 2026 e mais além.
        Pois bem, quero sustentar minha escolha de colocar tal texto em função de minha postura sempre aberta ao debate, de qualquer tipo que seja, e também por razões práticas. Elas são as seguintes:
        O Brasil se encontra em face das eleições talvez mais decisivas de sua história política, como possa ter sido talvez 1989, ou em 2014, ou em poucas outras oportunidades, quando os resultados se estreitaram entre a esquerda e a direita. 
        Qualquer que seja o resultado que o Brasil terá de enfrentar HOJE, ou no dia 25/10, ele vai encontrar o país profundamente dividido, e os ânimos exaltados.
        Ora, se as pessoas, de um lado ou de outro, desejam apenas ler e refletir sobre argumentos com os quais elas concordam, isso significa que os ânimos continuaram e continuarão exaltados em face de resultados que refletem numericamente a maioria – e isso é da competência da Justiça Eleitoral –, mas que continuarão a confirmar que o país está dividido em dois grandes grupos que se consideram inimigos. A convivência, e as políticas do Estado, continuarão exaltadas, confrontacionistas. Eu prefiro refletir sobre tudo isso, e por isso leio TODAS as posições, penso a respeito e expresso minha oponião, mas entendo que se deva aceitar resultados democraticamente expostos e defendidos.
        Não me levanto em armas contra a extrema-direita, que pode efetivamente desgraçar o país – pensemos apenas no aborto em casos de estupro, ou na subordinação de nossa política externa a uma potência estrangeira –, mas acredito que se deva refletir sobre TODAS as posições legitimamente expostas e votadas, e a partir daí continuar a luta pelas vias democráticas.
 
Brasília, 4 de outubro de 2026, 12hs, ANTES de votar...
 
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Texto escrito na madrugada de 4/10, em torno de 02hs:

Apenas transcrevo, sem comentário substantivo no momento, PRA:

Um "voto" assustador, esse do Marcelo Guterman, mas é um voto guardado na gaveta e agora retirado. Não concordo com tudo o que ele disse, aliás posso não concordar com nada do que ele disse. Mas reconheço que existem argumentos que nos obrigam a refletir, e esperar o menos pior. Não sei se o menos pior é o déjà vu all over again, travestido de defesa da soberania nacional, ou se é a descida para a incerteza do abismo, a submissão ao "Escudo das Américas", a mediocridade muito burra de volta, depois de quatro anos esperando a sua vingança.
Deixo registrado esse texto apenas para pensar, não para induzir qualquer pessoa a seguir o voto desse economista. Espero que o céu não nos caia sobre a cabeça, como diria um chefe gaulês, mas nem isso posso garantir. Apenas leio e reflito, e não vou expressar minha opinião agora.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4/10/2026

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Voto com o fígado
Blog do Marcelo Guterman
OUT 3, 2026

Esse post foi escrito, mais ou menos como está a seguir, no dia 15/09, após aquele espetáculo circense que presenciamos no STF. Decidi não publica-lo no dia, deixando-o dormir na gaveta para amadurecer a ideia ou, quem sabe, esquecê-la. O gol de mão do STF/TSE no caso do debate da Globo, no entanto, foi a gota d’água que me fez, finalmente, tomar a decisão de publicá-lo. Aí está, portanto. Divirtam-se.

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Na véspera do 2o turno de 2022, escrevi um post explicando o meu voto em Jair Bolsonaro (havia votado em Luis Felipe D’Ávila (Novo) no 1o turno). A minha linha de argumentação, à época, foi puramente econômica: dos dois modelos em disputa, minha avaliação pessoal é que a agenda do então presidente, por mais falhas que tivesse, era superior ao do desafiante. Já tínhamos experimentado o desastre petista na economia com a Dilma, e nunca caí no canto da sereia do pragmatismo de Lula.

Esta eleição de 2026, no entanto, é diferente. Se eu havia investido tempo e energia para desenvolver um racional para o meu voto, dessa vez o voto será com base em outro órgão do corpo humano que não o cérebro: o fígado. Meu voto, ainda no primeiro turno, será para Flavio Bolsonaro.

Deixe-me explicar não o racional do voto, mas a sua trajetória, do meu cérebro para o meu fígado, ao longo desses meses.

Tudo começou em dezembro do ano passado, quando Bolsonaro pai escolheu o 01 como seu candidato. Pensei: não vou ser refém dessa pantomima. Quem Jair Bolsonaro pensa que é, ao apontar um desqualificado como o seu filho, e achar que vou atrás sem pensar. Pela primeira vez na vida, pensei, vou anular meu voto para presidente no 2o turno.

E fiquei com essa escolha durante meses. Até que os episódios envolvendo os ministros do STF começaram a provocar em mim uma sensação dolorosa de impotência. Como pode ministros com as canetas mais poderosas do país fazerem o diabo e continuar tudo como dantes no quartel de Abrantes? É isso então? São inimputáveis? Podem fazer o diabo, inclusive mudando regras na mão peluda, só para se protegerem e favorecerem o seu campo político?

Foi daí que, no início envergonhadamente, e depois descaradamente, uma ideia começou a tomar forma no meu fígado: não, não sou impotente. Tenho um instrumento que pode, se não dar um jeito, pelo menos dar uma lição nesse pessoal. E esse instrumento é o voto. É pouco, é quase nada, mas é melhor do que nada.

Eu sei que isso que eu vou falar agora é xadrez 4D, mas não deixa de ser divertido pensar que, talvez, Jair Bolsonaro tenha sido mais esperto do que pareceu a princípio ao escolher seu filho. Ele o escolheu não somente por ser da família, mas também por ser uma completa nulidade. Se Flávio ganha a eleição, a humilhação para Lula e sua trupe será completa. Imagine o incumbente, com a caneta de presidente na mão, com o apoio tácito do STF, ser derrotado pelo filho inepto de um cara que está na prisão? Impagável.

Fosse Tarcísio o candidato, a derrota de Lula faria parte do jogo. Tarcísio é extremamente inteligente, excelente administrador, teria o apoio maciço do Centrão a zero de jogo, enfim, seria um adversário à altura. Já Flávio, bem, a sua única credencial é ter o sobrenome Bolsonaro. Lembrando a antológica definição do general Mourão, se o sobrenome do Flávio fosse bananinha, provavelmente estaria agora em algum emprego obscuro por aí. Toda a sua carreira política foi feita na cola do pai, e sua performance no Senado foi pífia, para dizer o mínimo. Mas é justamente a sua desqualificação que o credencia não para ser presidente, mas para aplicar um corretivo em toda essa gente. É a própria definição do Cacareco.

Alguns dirão que é uma irresponsabilidade eleger alguém para o mais alto cargo da República justamente pela sua desqualificação. Ao que eu respondo: ultimamente, quando eu ouço a palavra “República”, tenho uma mistura de ataque de risos e náuseas. A República Brasileira já foi devidamente avacalhada, não será a eleição de um Bolsonaro que piorará o que não dá para ser pior. (Eu avisei no início que a decisão foi feita com o fígado).

Não vou pedir compreensão de ninguém para o meu voto.

Antibolsonaristas soltarão fogo pelas ventas, pois Bolsonaro é o diabo na terra. Para estes, só digo que quero mais é ver o parquinho pegando fogo.

Bolsonaristas soltarão rojões, cumprimentando-me pela minha escolha. Para estes, digo que estou escolhendo o candidato deles não porque seja o melhor, ou mesmo o menos pior, mas porque é o pior. Quanto mais ruim, mais feia e ridícula será a derrota desse sistema em torno de Lula.

Isentões, meus companheiros de jornada política, lamentarão, pois ambos os candidatos são péssimos, no que eu concordo e, racionalmente, o voto nulo seria mais adequado. Mas, lembrem-se, minha decisão foi feita com o fígado, não com o cérebro.

E se Lula ganhar? Bem, se Lula ganhar, ganhou. Sinceramente, I couldn’t care less. Eu terei feito a minha parte em tornar a sua vitória mais difícil e, de certa forma, humilhante, porque, lembre-se sempre, do outro lado está Flávio Bolsonaro, um nada. Uma vitória apertada já será uma derrota, muito pior que em 2022, quando do outro lado da disputa estava o presidente da República.

Não tenho a mínima ilusão de que Flávio fará um “bom governo” se eleito, ou que trabalhará para termos um Supremo decente. No final do dia, ele comerá na mão do sistema, como fez o seu pai. Mas não peçam coerência para o meu fígado. Meu voto visa tão somente a pequena satisfação de imaginar a cara de bunda do Gilmar Mendes no dia da apuração. Só isso.

Blog do Marcelo Guterman is a reader-supported publication.
 

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