sábado, 23 de abril de 2011

Politica Externa Brasileira: antecipando as mudancas (um texto de 2010)

O texto que segue abaixo foi elaborado em Shanghai, em setembro de 2010, sob solicitação externa, e nele tentei ser moderado em relação aos absurdos visíveis que se cometiam na política t do Brasil nessa época: amizades e intimidades com ditadores e violadores dos direitos humanos, intervenção nos assuntos internos de outros países, desejos megalomaníacos de grandeza, enfim, toda sorte de despautérios que necessitavam de correção.
Minha única virtude foi a de anunciar que essas mudanças viriam...
Paulo Roberto de Almeida

O legado de Lula em política externa: corrigir as amizades bizarras
Paulo Roberto de Almeida
Shanghai, 16 setembro 2010

Ao cabo dos dois mandatos de Lula, a posição do Brasil no cenário internacional se encontra realçada. Saber quanto desse prestígio é devido à sua diplomacia, qual é o efeito da ascensão geral dos emergentes, ou quanto pode ser atribuído ao próprio país, enquanto economia estabilizada com base na política econômica do governo anterior de FHC, são dúvidas legítimas na avaliação desse legado na frente externa.
Numa linguagem coloquial, pode-se dizer que a diplomacia de Lula teve bem mais transpiração do que inspiração, registrando-se a preeminência da forma – o hiperativismo presidencial, feito de incontáveis viagens ao exterior – sobre a substância, ou seja, resultados efetivos da agitação. Olhando-se por esse lado, a constatação que se faz é a de muitos dossiês abertos e poucos sucessos alcançados.
As prioridades externas de Lula podem ser alinhadas em três conjuntos de objetivos: (a) a conquista de um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas; (b) o reforço, a consolidação e ampliação do Mercosul; (c) a conclusão da Rodada Doha da OMC e a “correção de rumo” nas negociações do projeto americano da Alca.
Ora, com exceção da “implosão da Alca” – que era, digamos, uma meta “negativa” – nenhum dos demais objetivos foi alcançado, sequer de modo parcial. É certo que o prestígio internacional do Brasil e sua audiência internacional cresceram no período, mas isso se deu sobretudo em função da preservação da estabilidade macroeconômica e da ausência dos equívocos econômicos de tipo populista cometidos por outros governos na região.
Algo dos fracassos pode ser atribuído às concepções partidárias, equivocadas, do PT, e impostas ao Itamaraty, sobretudo no caso, inexplicável, dos recuos em direitos humanos, das estranhas amizades com personagens de regimes pouco freqüentáveis no plano internacional ou da prevalência de critérios ideológicos nas preferências políticas externas. Em diversas ocasiões, o próprio presidente manifestou seu apoio político a candidatos de esquerda em eleições na região, o que rompe com a tradição brasileira de não ingerência nos assuntos internos de outros países. Outra manifestação indevida da mesma tendência foi a clara tomada de posição no caso da crise política em Honduras, quando o Brasil ficou caudatário das posições chavistas no imbróglio. O próximo governo, qualquer que seja ele, precisaria restabelecer os fundamentos profissionais, e não partidários, da diplomacia brasileira.

Shanghai, 16 setembro 2010

Publicado como “Corrigir amizades bizarras internacionais é desafio”, no portal iG, Último Segundo, “Era Lula e os Desafios de Dilma” (2/12/2010; link: http://ultimosegundo.ig.com.br/governolula/artigo+corrigir+amizades+bizarras+internacionais+e+desafio/n1237826574910.html).

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Academicos escrevem sobre politica externa (grande bocejo...)

Sempre me pergunto o que pensam os acadêmicos. Acho que pensam muito e mas sua reflexão é sempre carente de algum elemento mais consistente. Aliás, como as próprias políticas brasileiras, internas e externa. Improvisação é o nosso forte, ao contrário do que pensam muitos vizinhos.
Não creio, por exemplo, que o Itamaraty está à deriva. O governo certamente sim, mas o Itamaraty é profissional. Apenas que ele necessita refletir os "impulsos" -- este é o conceito -- de um governo que não sabe bem o que quer, ou se sabe, não pensou ainda em como obter.
Nossos principais problemas estão aqui no Brasil, não lá fora. Mas isso, nem o governo, nem os acadêmicos parecem ter percebido.
Um dia chega, talvez tarde...
Paulo Roberto de Almeida

TENDÊNCIAS/DEBATES
Itamaraty não pode ficar à deriva
MARCELO COUTINHO
Folha de São Paulo, sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Itamaraty já entendeu que estamos em uma transição de poder no mundo, mas se enganou quanto ao estágio dessa transição e seus efeitos

Virou lugar-comum no governo classificar a atual fase da política externa de "consolidação". Ideia sem sentido. Afinal, em matéria de direitos humanos houve sensíveis mudanças, felizmente para o bem.
O governo Lula aproximou-se de ditadores que Dilma agora censura.
Mesmo com essa modificação, parte do mundo passou a olhar com desconfiança para o Brasil nessa matéria, levando inclusive a OEA a interferir em assuntos internos, como a construção de Belo Monte, e com isso estabelecer uma crise.
Se, por um lado, o elemento de descontinuidade na diplomacia é motivo de comemoração, por outro, não apaga marcas e salienta um aspecto variável preocupante da política externa brasileira. Tais mudanças indicam que o Itamaraty nem sempre dispõe de bons cenários de referência.
No mundo árabe, por exemplo, o governo buscou identificação com velhos regimes autoritários. Investimos anos em relações acríticas, chegando mal a uma região em fim de ciclo político. Mais uma vez atrás dos acontecimentos, Brasília assistiu o desenrolar do maior processo histórico dos últimos 20 anos.
As alterações periódicas em nosso relacionamento internacional, mesmo as que corrigem erros, retiram força da política externa brasileira. Leva-se menos a sério um país que oscila a cada troca presidencial e apresenta uma política de interregno, ziguezagueando entre "realpolitik" e liberalismo.
O Itamaraty já entendeu que estamos em uma transição de poder no mundo. Mas se enganou quanto ao estágio dessa transição e seus efeitos. Além disso, confundiu uma interessante posição de centro flexível no espectro político com um vaivém improdutivo.
Estressamos relações com os EUA para apaziguá-las sobre bases indefinidas. A China é concorrente industrial e, simultaneamente, a maior parceira. Depois dos Rafales franceses, piscamos para os caças americanos, não nos dando conta de que ambos são da Otan, de cujas pretensões no Atlântico Sul o próprio governo suspeita. Os russos são dos Brics, mas, por algum motivo, não podemos cogitar seus aviões de combate.
Embora tenha perdido importância, a visita de Obama serviu para restabelecer um canal mais aberto de diálogo entre a Casa Branca e o Palácio do Planalto. Foi uma massagem ao ego brasileiro. Insuficiente, mas não desprezível.
Obama cedeu um meio apoio ao Brasil para a vaga fixa no Conselho de Segurança da ONU. Menos do que o necessário. "Apreço pela aspiração brasileira" pode significar apenas que os EUA admiram a vontade do país em assumir responsabilidades. O pronunciamento chinês de apoio foi quase tão vago.
Ninguém imagina que uma reforma que amplie o principal foro de decisões mundiais poderá deixar o Brasil de fora. A governança global precisará refletir o novo conjunto de forças internacionais também nas questões de guerra e paz.
Cabe a nós mantermos firmeza.
Sem maiores conflitos no Pacífico, Washington segue como ator-chave no sistema internacional.
Sua influência hemisférica é grande e representa, até certo ponto, desafio à ascensão brasileira, cuja perícia diplomática consistirá em abrir condições políticas à acomodação externa do nosso crescimento. Para o país que deseja ser tratado como igual pelos EUA, a inconstância não é bom negócio.
O Itamaraty vive pressões pendulares, ora para o Ocidente rico, ora para os países em desenvolvimento. Nós não podemos ficar à deriva, levados por correntes para o Norte e para o Sul.

MARCELO COUTINHO, professor de relações internacionais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro ) e do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), é coordenador do Laboratório de Estudos da América Latina (Leal).

Terceira carta aos leitores do blog Diplomatizzando (uau: 355!)

Terceira carta aos leitores do blog Diplomatizzando
Paulo Roberto de Almeida

Meus caros leitores (agora em número de 355 seguidores),

Escrevo muito, eu sei. Nem sempre dirigido a alguém em particular, geralmente textos de caráter impessoal, de cunho acadêmico, de análises políticas ou econômicas, frequentemente críticas, algumas ácidas, em face do que observo no Brasil (e no resto do mundo). Sim, sou um leitor compulsivo, o que é um vício adquirido na primeira infância e do qual não consigo me redimir (nem quero). Sei que por vezes isto é um incômodo (quando estou dirigindo, por exemplo, fica difícil continuar as leituras, mas aí estou com as notícias no rádio), mas carrego esta sina com bom humor e ótima disposição.
Sempre estou pensando em algo (obviamente), quero dizer, em coisas novas, diferentes, sobretudo quanto não tenho nada para fazer, o que é raro, como vocês podem adivinhar, mas também acontece: quando estou embaixo da ducha (alguns minutos apenas, hélas, mas confesso que gostaria de ficar mais), quando estou passeando com os cachorros (quase uma hora, noite adentro), ou quando vou dormir (e o sono pode durar uma infinidade para me abater, dependendo justamente do que estou “pensando”, ou arquitetando).
Quando não estou lendo, me deslocando, trabalhando, fazendo compras, ou comendo, estou escrevendo, invariavelmente, ou num dos meus dois caderninhos de bolso (um pequeno para o bolso da camisa, outro médio, no bolso do paletó), ou num dos três ou quatro computadores nos quais trabalho alternadamente (sim, preciso reduzir o número, pois a bagunça nos arquivos tende a crescer). Depois que escrevo, publico, e cada vez mais – não por decisão minha, mas por demandas externas – publico sob encomenda, em colunas regulares, o que não é, esclareço, minha preferência pessoal (como não sei dizer não, acabam abusando da minha boa vontade). Gosto mesmo de escrever ao léu, por impulso do momento, os temas que decido, na perspectiva que prefiro, com os argumentos que defendo.

Como já escrevi em outros trabalhos, meu único critério na escrita, ou na argumentação oral, é o da honestidade intelectual, que significa mais ou menos o seguinte: procure coletar todas as fontes de informação sobre um determinado assunto a que você pode ter acesso pelas vias normais (e elas são infinitas, hoje em dia); leia tudo cuidadosamente; coloque todas essas informações nos seus devidos contextos (histórico, ambiental, geopolítico, econômico, relacional, etc.); reflita seriamente sobre as implicações de tudo isso para o Brasil, para o mundo, para você mesmo; ordene seus pensamentos segundo prioridades muito simples, que o ajudem a oferecer soluções para determinados problemas da sociedade, do Brasil e do mundo, em função daquilo que é relevante em nosso mundinho meio desconjuntado: economia de meios, boa relação de custos e benefícios, utilidade para o maior número, melhoria das condições de vida (material ou espiritual) das “populações” implicadas (que, por vezes, podem ser uma só pessoa); por fim, tente antecipar as consequências de seus atos, pois que sempre existem efeitos (por ação ou omissão) daquilo que fazemos ou deixamos de fazer.
Estes são meus critérios – aqui um pouco mais elaborados ou racionalizados do que o que de verdade acontece na vida prática, sempre mais bagunçada, claro – e é em função deles que escrevo e publico o que penso, sem pensar em agradar ninguém, e sem esconder de ninguém o que realmente penso. Confesso que tenho certa alergia à burrice – deve ser um defeito de quem leu muito e continua a ler exageradamente, e que acha que ninguém tem do direito de ser ignorante, já que as informações estão livremente disponíveis, mas também sei que a maior parte da humanidade tem preguiça e não lê quase nada, assumindo passivamente o que entra pela televisão aberta – mas confesso que também tenho, e em grau infinitamente maior, desprezo pela desonestidade intelectual, o que infelizmente encontro sempre pela frente: geralmente nos políticos, mas também entre colegas de academia, que não teriam o “direito” (penso eu) de ignorar os dados da realidade para defender ideias idiotas e propostas nocivas para a sociedade.
Sou intolerante, apenas nesses casos, tolerando na maior parte das vezes erros e equívocos que emergem da falta de estudos e de reflexões (já que, afinal de contas, ninguém tem a obrigação de ser intelectual). Mas, e aqui creio fazer a minha parte, sempre procuro diminuir o quantum de equívocos que existe na humanidade (e ele é enorme, obviamente), contribuindo da melhor forma possível para o que eu chamo de obra de “elevação espiritual da humanidade” – pelo menos neste cantinho de mundo que é o meu – escrevendo e divulgando o que é fruto de minhas leituras e experiências de vida. Este é o sentido deste blog e por isso creio que tenho o dever e prestar contas aos meus leitores, que são vocês aqui presentes, e aos quais sou grato pela vigilância demonstrada nos muitos comentários que recebi, direta e indiretamente (nem todos publicados), nos pedidos de ajuda para estudo ou trabalhos, nas simples mensagens de solidariedade, de cumprimentos, de críticas. Sem leitores, não existiriam escritores, e eu sou devedor, em primeiro lugar a todos os que me lêem.

Escrevi uma primeira carta aos leitores deste blog em Shanghai, em setembro de 2010, quando eles eram apenas pouco mais de duas centenas, para dizer-lhes, justamente, de meus deveres para com eles (vejam aqui, neste link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/09/aos-leitores-deste-blog-conversa-tete.html). Pouco depois, em Kyoto, em outubro do mesmo ano, eu dava continuidade ao diálogo com os seguidores e leitores deste blog, discutindo as reações de alguns comentaristas, e prometendo escrever mais (vejam este link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/10/segunda-carta-aos-leitores-do-blog.html). Não o fiz, pois viajei, me reinstalei, e só agora acabei recebendo minha mudança da China – duas enormes burocracias no meio – e pude retomar algumas leituras interrompidas então.

Enfim, esta terceira carta não tem muito a ver com as duas primeiras, embora represente uma continuidade do diálogo, num momento em que “meus” leitores aparentemente chegaram à marca dos 355 seguidores (talvez mais, talvez menos, dependendo de quem acesso, quem repassa, quem lê e como lê). Não creio que eles me devam qualquer explicação sobre os motivos pelos quais seguem este blog (alguns por razões talvez inconfessáveis, a maior parte por real interesse, suponho), mas esse simples fato, objetivo, me faz refletir que também tenho certas responsabilidades para com todos esses leitores, curiosos, passantes, navegantes, interessados e críticos de ocasião.
A minha primeira responsabilidade seria a de não decepcionar os leitores, entregando-lhes gato por lebre, como se diz. A segunda é a de preservar o padrão e os princípios que me motivam a ler, estudar, refletir, escrever e publicar, entre esses princípios o primordial e já referido da honestidade intelectual. O blog representa para mim uma espécie de divertissement intelectual, ou seja, nada de muito sério que me distrai de minhas ocupações principais – no plano profissional e acadêmico – e que se refletem em meus trabalhos mais “sérios” – geralmente coletados em meu site pessoal, www.pralmeida.org, salvo copyright de algum editor comercial – mas ainda assim material sério de informação e alguma coisa para divertir, no meio de tanta tragédia e misérias humanas.
Como disse, leio muito – praticamente todos os grandes jornais diários de maior importância internacional, as principais revistas, e dezenas de outros sites, blogs e arquivos que, remetidos por entidades ou correspondentes pessoais, ocorrem de cair sob a minha lupa implacável – e procuro socializar minhas leituras mais interessantes (algum besteirol também, que ninguém é de ferro) com meus leitores e passantes ocasionais. O resultado deve ser satisfatório, pois o número de “assinantes” deste serviço não pago (mas que me dá muito trabalho) tem aumentado regularmente. Amigos já me recomendaram deixar tudo isto de lado, para me concentrar no que é essencial: terminar dois ou três livros de pesquisa que estão no meu pipeline há algum tempo, e fazer coisas mais sérias do que responder a aluninhos em busca de alguma “facilidade universitária”.
Talvez faça isso, no que certamente vou decepcionar alguns leitores, mas de fato preciso me concentrar no que é essencial, e naquilo que apenas eu poderia fazer, que é produzir trabalhos originais com a profundidade que meus estudos e pesquisas me permitem fazer, exclusivamente. Fazer blog, divulgar matérias de imprensa, precedidos, ou não, de comentários inteligentes, isso qualquer um pode fazer, o que me leva às recomendações smithnianas sobre a divisão social do trabalho: eu deveria me concentrar naquilo que apenas eu posso fazer, usando todas as minhas vantagens absolutas e relativas, estas ricardianas...
Que seja!

Em todo caso, gostaria de desejar boa Páscoa a todos os meus leitores – uma oportunidade para se empanturrar de chocolate e para mergulhar em mais leituras e escritos – e dizer que vou tentar moderar minha frequência neste espaço, para liberar mais tempo para coisas um pouco mais profundas e que exigem maior dedicação e empenho redacional.
Quero agradecer a todos e a cada um pela confiança demonstrada – que se revela nos comentários publicados – e dizer-lhes que tentarei cumprir meus objetivos de vida, sempre de forma honesta e dedicada: ler com paixão, escrever com reflexão, viver a vida com emoção, sempre distribuindo o que temos de melhor a oferecer aos que nos cercam e um pouco a todos os demais membros da imensa família humana. O mundo ainda é o que é, e que todos reconhecemos não ser o ideal – muito menos o Brasil – mas já melhoramos bastante em relação a um passado não muito distante (a geração de meus pais e avós, por exemplo, atravessou duas guerras devastadoras, e outras catástrofes “magníficas”), e esperamos melhorar ainda mais nos anos à frente.
Espero continuar dando minha contribuição para esses pequenos progressos da humanidade em direção a melhores materiais e elevação espiritual.
Vale.

Paulo Roberto de Almeida
(Brasília, 22 de abril de 2011)


Cartas anteriores:

2194. “Aos leitores deste blog Diplomatizzando”, Shanghai, 28 setembro 2010, 2 p. Conversa com os seguidores do blog, e seus leitores eventuais, em torno do espírito do blog, seus objetivos e as responsabilidades e princípios do autor. Postado no blog (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/09/aos-leitores-deste-blog-conversa-tete.html).

2209. “Segunda carta aos leitores do blog Diplomatizzando”, Kyoto, 22 outubro 2010, 2 p. Continuidade do trabalho 2194, sob a forma de diálogo com os seguidores e leitores do blog, discutindo as reações de alguns comentaristas. Postado no blog (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/10/segunda-carta-aos-leitores-do-blog.html).

Diplomacia lulista: desenterrando velhos escritos... (PRA)

Parece incrível, mas acontece.
Escrevo tanto (deve ser uma mania, talvez uma compulsão, mais provavelmente um vício e uma loucura terminal, mas que ainda não me matou...), e publico tanto (e nem sempre me avisam quando alguma coisa minha saiu em algum lugar), que por vezes me escapa um artigo ou outro publicado em algum veículo menos relevante.
Mas, neste caso, não se trata de um veículo "irrelevante" e sim da revista da qual sou editor adjunto, para a qual faço pareceres (rigorosos, como devem ser) e com a qual colaboro desde seu segundo nascimento em Brasília, em 1993 (um renascimento ou uma reencarnação que tem muito a ver com meu ativismo acadêmico).
Pois bem, acabei não registrando a publicação do artigo abaixo, o que só vim a constatar porque um amigo me mandou um trabalho sobre temas relativamente similares, quais sejam: as interpretações sobre a diplomacia do "nunca antes" (e espera-se que "nunca mais", ou em todo caso, "não mais agora, ou daqui por diante"). Acabei me lembrando deste, fui buscar e, êpa!, ai aparece este arquivo de um texto publicado, mas não devidamente registrado.
Agora corrigi minha lista de publicados, incluindo a posteriori o registro abaixo, e deixo o artigo à disposição dos eventuais interessados. Esclareço que ele foi foi concebido no final de 2005 e preparado e elaborado no começo de 2006, com os registros de publicações até os primeiros meses desse último ano. Minha bibliografia -- sobretudo de artigos de imprensa -- era muito maior, mas tive de deixar de lado por imposições de espaço editorial.
Creio que caberia uma atualização, ou um novo artigo, enfatizando talvez novas tendências entre apoiadores e críticos da diplomacia lulista e fazendo um balanço de seus resultados (if any). Aliás, já fiz isso em outros escritos. Vou preparar uma lista atualizada desses trabalhos sobre diplomacia brasileira e política externa do governo Lula (não são a mesma coisa, para os entendidos).
Por enquanto fiquem com este registro:

Uma nova ‘arquitetura’ diplomática?: Interpretações divergentes sobre a política externa do Governo Lula (2003-2006)
Brasília, 19 maio 2006, 24 p. Artigo de revisão bibliográfica sobre a diplomacia do governo Lula. Relação de Originais n. 1603; Publicados n. 739bis.
Revista Brasileira de Política Internacional (ano 49, n. 1, 2006, ISSN 003U-7329; p. 95-116; link: http://www.scielo.br/pdf/rbpi/v49n1/a05v49n1.pdf).

E por falar em balanço dos resultados, deixo este registro de um artigo ainda não suficientemente divulgado, mas que está em Francês:

La diplomatie de Lula (2003-2010): une analyse des résultats
In: Denis Rolland, Antonio Carlos Lessa (coords.), Relations Internationales du Brésil: Les Chemins de La Puissance; Brazil’s International Relations: Paths to Power (Paris: L’Harmattan, 2010, 2 vols; vol. I: Représentations Globales – Global Representations, p. 249-259; ISBN: 978-2-296-13543-7).
Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/10/relations-internationales-du-bresil.html).
Relação de Originais n. 2184; Publicados n. 998.

Preciso colocar em ordem meus escritos, meus arquivos inacabados, meus livros, minhas bibliotecas, minha vida...
Ufa!

Siglas: do BRIC ao BRICS, ao BRIS, a BRISA: volare... dipinto di blu...

Quando se usam siglas emprestadas, e quando se bota tudo num caldeirão, ou num moedor de carne, para atender a desejos inconfessáveis e a ambições não reveladas, corre-se o risco de ver emergir siglas ainda mais confusas, e situações curiosas, no limite do risível.

Pois este parece o destino do novo animal político na fauna geopolítica planetária: o BRIC, ou BRICS, ou talvez BRIS, quem sabe BRISA, como acaba de sugerir um leitor deste blog, e que pode acabar em alguma outra coisa ainda não definida.

Vejam o que me escreveu um correspondente a propósito deste meu post:

Dos BRICS ao BRIS?: ilusoes anti-hegemonicas (inclusive do Brasil)
(21 de Abril de 2011)

Anônimo disse...
Sugerimos no lugar de BRICS o acrônimo BRISA!(...se a intenção é viver dela..!)
Vale!

Sexta-feira, Abril 22, 2011 10:24:00 AM

Concordo inteiramente. O BRIC surgiu porque a Rússia se sentia desconfortável no G8 (que na verdade continuava a se reunir sob o formato de G7 para as questões "sérias", como as financeiras, e guardava para o formato G8 apenas as questões amenas, suscetíveis de acomodar as posições de uma ex-superpotência em declínio) e porque o Brasil, ou melhor, certo presidente queria porque queria aparecer na liga das grandes potências, na companhia dos grandes, enfim essas megalomanias de declinantes e ascendentes, muito comuns em adolescentes e senis...
A inclusão (indesejada para os demais) da África do Sul pelas mãos da China não parece ter resolvido muitos dos problemas internos do grupo (ou bloco, ou fórum, whatever...) e deve complicar ainda mais as suas possibilidades de coerência e de coordenação internas, para uma instância que já não tinha muitos pontos em comum de uma agenda que era mais do contra do que a favor de algo: contra a arrogância imperial, contra o unilateralismo, contra o congelamento do poder mundial, etc., etc., etc...

De fato, como sugere meu anônimo correspondente, o nome BRISA é muito mais condizente com o espírito e a letra desse grupo que carrega nas tintas para não precisar explicar substância, e pode ir assim levando na maciota dos ventos alísios, até surgirem desafios reais (que, espera-se, eles resolvam).
A questão da Líbia, por exemplo, era uma excelente oportunidade para uma postura conjunta dos BRICS, ou da BRISA: eles resolveram se abster, o que pode até ser considerado uma posição: uma posição pela não posição, pelo atentismo, pela lavagem de mãos, pelo muro...

Boa sorte ao BRISA... ou ao BRICS, whoever, whatever...

Paulo Roberto de Almeida

Pausa para... alguns pensamentos cristaos a proposito da Pascoa

Não tenho certeza de que tudo esteja conforme ao original, já que recebi por uma dessas infindáveis correntes de internet, na qual tudo se transforma, nada se mantém igual, e tudo é reciclado (sem pagar os devidos direitos autorais ao autor).
Publico como recebi, creditando a autoria do texto a Luiz Fernando Veríssimo, que já foi mais engraçado, quando ele não apoiava ditaduras como a de Fidel Castro -- o que suponho que só faça por anti-imperialismo primário e anti-americanismo infantil -- e quando ele não apoiava governos corruptos e mistificadores como o que acaba de passar.
Não que tudo isso mude minha opinião positiva sobre este texto deveras engraçado, mas pelo menos me oferece a oportunidade de manifestar minha opinião sobre um dos nossos melhores escritores (e humorista eventual). Mesmo os melhores escritores (como Saramago, por exemplo) podem ser singularmente idiotas quando se trata de questões políticas e econômicas.
Deixando de lado esta longa (e chata) introdução, vamos ao que interessa.
Paulo Roberto de Almeida

Por favor resolva essa confusão

-Papai, o que é Páscoa?
-Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?
-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição.

-Ressurreição?
-É, ressurreição. Marta , vem cá !

-Sim?
-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?

-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos.

Até parece que não lhe demos uma educação cristã ! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? Deus me perdoe ! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?
-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

-O Espírito Santo também é Deus?
-É sim.

-E Minas Gerais?
-Sacrilégio!!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a
professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?
-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

-Coelho bota ovo ?
-Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?
-Era... era melhor,sim... ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ? Que dia ele morreu ?
-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?
- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sabado de Aleluia.

-Um dia depois!
-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.
-Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde ! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois!

-Como ?
- Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua ?
-É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O Judas traiu Jesus no Sábado ?
-Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?
-Ai...

-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
-Cristo. Jesus Cristo.

-Só ?
-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?

-Ai coitada!
-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!

Texto de Luiz Fernando Verissimo

Diplomatizzando: Dos BRICS ao BRIS?: ilusoes anti-hegemonicas (inclusive do Brasil)

Diplomatizzando: Dos BRICS ao BRIS?: ilusoes anti-hegemonicas (inclusive do Brasil)

Paraninfo nao apareceu na formatura: ficou constrangido pelos direitos humanos?

Gesto incompreensível esse de, sendo paraninfo escolhido pela turma de formandos, sequer aparecer para cumprimentar os diplomados, limitando-se a enviar uma mensagem (certamente preparada por outros), dizendo o que pensa de si mesmo...
Deve ser constrangimento pelas diferenças apontadas pela imprensa -- aliás constatadas por todos os que lêem -- no sentido de haver uma diferença marcante entre sua política externa -- de amizade com ditadores e violadores dos direitos humanos -- e a da sua sucessora, de comprometimento firme com a defesa dos direitos humanos.
Paulo Roberto de Almeida

Dilma atrela diplomacia a direitos humanos
Lisandra Paraguassu
O Estado de S. Paulo, 20 de abril de 2011

Em discurso no Itamaraty, presidente diz que tema será defendido ‘sem concessões’

BRASÍLIA - Em contraste com o tom contemporizador com países violadores dos direitos humanos adotado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff mostrou nesta quarta-feira, 20, que o tema está no centro da política externa brasileira.

Apesar das preocupações com as reformas das instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas, ou com a sempre presente necessidade de atrair investimento e tecnologia para o País, Dilma declarou, no primeiro discurso sobre relações internacionais de seu governo, que o tema será promovido e defendido "em todas as instâncias internacionais sem concessões, sem discriminações e sem seletividade".

O discurso foi dirigido a uma plateia de formandos do Instituto Rio Branco e diplomatas, na cerimônia de conclusão de curso da turma de 2010 do instituto. Pela primeira vez, a presidente falou claramente sobre o que considera objetivos da política externa brasileira no seu governo. E afirmou que, apesar de ver a preocupação com os direitos humanos como algo que já existia no governo Lula, o assunto será, "mais ainda agora", uma preocupação do governo brasileiro.

Lula, escolhido paraninfo da turma, mandou um texto de apenas uma página, que foi lido pelo assessor para Assuntos Internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia. Nele, o ex-presidente louvou as ações do Itamaraty durante seus dois mandatos e definiu como mera "continuidade" de seu governo a gestão Dilma no campo da política externa.

A presidente deixou clara, também, a importância que dá à reforma das Nações Unidas, especialmente ao seu Conselho de Segurança - tema de interesse especial do Brasil, que espera, com essa reforma, obter uma vaga permanente no conselho. "No momento em que debatemos como serão a economia, o clima e a política internacional no século 21, fica patente também que, do ponto de vista da segurança, a ONU também envelheceu", sustentou a presidente.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sera que o Brasil aguenta mais 4 ou 8 anos de Republica Sindical?

Não sei se aguenta, provavelmente sim, embora tenha de locupletar a chamada "nova burguesia do capital alheio". Mas assim vai crescer pouco e continuar a ser arrastar penosamente em direção à modernidade.
Do que eu tenho certeza é de uma coisa: a mediocridade intelectual continuará pujante e desfilando nos salões da República com cada vez mais vigor.
Avançando para trás, parece ser o destino do Brasil nos próximos anos.
Paulo Roberto de Almeida

Companheiro de toga
DIEGO ESCOSTEGUY E MURILO RAMOS
Revista Época, 21/04/201

O governo nomeia para o STJ Antônio Ferreira, advogado sem currículo – mas ligado ao PT

APARELHAMENTO
A carreira de Antônio Carlos Ferreira, advogado próximo ao PT e ao Sindicato dos Bancários, deslanchou quando Lula assumiu a Presidência. Agora, essa proximidade o levou ao STJ
O advogado Antônio Carlos Ferreira formou-se numa faculdade que nem sequer consta da lista das 87 recomendadas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Não fez mestrado. Em 30 anos de carreira, nunca publicou um artigo jurídico. Só teve um grande cliente: a Caixa Econômica Federal, onde entrou há mais de 25 anos. Nas poucas e magras linhas de seu currículo oficial, porém, não há menção ao dado mais relevante de sua trajetória: desde 1989, ele é filiado ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, entidade alinhada com o Partido dos Trabalhadores. Militante informal do partido, Antônio Carlos fez carreira na Caixa com a ajuda dos companheiros. Em 2000, a pedido do atual tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, tornou-se chefe do setor jurídico do banco no Estado de São Paulo. Quando Lula assumiu a Presidência, três anos depois, o PT emplacou Antônio Carlos no comando da Diretoria Jurídica da Caixa – uma posição para lá de poderosa, da qual dependem todos os grandes negócios do banco.

Antônio Carlos, um companheiro discreto e disciplinado, nunca criou problemas para o partido. Deu aval a contratos tidos como ilícitos pelo Ministério Público Federal, como no caso da multinacional de loterias Gtech, e testemunhou silenciosamente ações ilegais, como a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo. No caso da Gtech, acusada pelo MP de pagar propina ao PT para renovar por R$ 650 milhões um contrato com a Caixa, Antônio Carlos e sua equipe mudaram o entendimento jurídico sobre o assunto – o que permitiu a renovação exatamente nos termos pedidos pela multinacional, ainda no começo do governo Lula.

Anos depois, em 2006, ele jantava com o então presidente da Caixa, Jorge Mattoso, quando um assessor do banco entregou a Mattoso um envelope com os extratos bancários do caseiro que denunciara malfeitorias do ministro Antonio Palocci. O misterioso perdão milionário concedido pela Caixa ao grupo Bozano e ao Banco Santander, revelado por ÉPOCA na semana passada, também passou, sem nenhum questionamento, pelo crivo da turma de Antônio Carlos. (Por meio de sua assessoria, ele negou participação nos casos que passaram por sua área e disse não ter visto o conteúdo do envelope com os extratos bancários do caseiro.)

Antônio Carlos permaneceu na diretoria da Caixa até agosto do ano passado. Na última terça-feira, a presidente Dilma Rousseff o nomeou para uma vaga no Superior Tribunal de Justiça, o STJ, a segunda corte mais importante do país. Para ocupar esse cargo, a Constituição exige que o candidato detenha “notório saber jurídico” e “reputação ilibada”. Caberá agora ao Senado sabatiná-lo. A reputação foi colocada em xeque por sua atuação na Caixa. Com relação ao notório saber jurídico, é difícil encontrar lentes para enxergar esse atributo em Antônio Carlos – a não ser lentes vermelhas, partidariamente embaçadas.

Na Caixa, o novo ministro do STJ aprovou contratos irregulares, como o da multinacional Gtech
Ao comparar-se seu currículo ao dos demais 29 ministros da corte ou aos de seus concorrentes ao posto, as credenciais de Antônio Carlos parecem frágeis. Todos exibem cursos de pós-graduação ou, no mínimo, longa carreira no Judiciário. Foi, portanto, preciso muito lobby para que o nome de Antônio Carlos chegasse à mesa da presidente Dilma – lobby do PT e de ministros que foram ligados ao partido, como Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foi uma espécie de retribuição. Como sempre tratou muito bem o poder, pelo poder também foi muito bem tratado. Quando Antônio Carlos era diretor jurídico da Caixa, o banco concedia generosos patrocínios para eventos do Judiciário. O banco deu R$ 40 mil para financiar a festa promovida para Dias Toffoli, quando ele conseguiu ser nomeado para o STF, em outubro de 2009. Antônio Carlos foi à festa, claro.

A indicação de Antônio Carlos veio de uma lista sêxtupla da OAB. Na votação entre seus pares, ele ficou em sexto. Encaminhou-se essa lista ao STJ. Antônio Carlos pulou para o primeiro lugar na lista enviada ao governo. Os dois competidores finais de Antônio Carlos apresentavam cursos de pós-graduação – mas pouca simpatia político-partidária. Em Brasília, é essa a linha que conta mais no currículo.

Cuba: tentando renovar o socialismo com "jovens" de 80 anos...

Maravilha de renovação: o dirigente que acaba de ser nomeado tem 84 anos...
Mais vigor impossível...
Interessante que o novo dirigente, que tem 80, disse que o socialismo vai continuar, que capitalismo nunca voltará a Cuba.
Assim seja...
Paulo Roberto de Almeida

Cuba muda para ficar igual
Editorial - O Estado de S.Paulo
21 de abril de 2011

Uma economia tentando sobreviver - ou melhor, existir - mediante lenta e limitada abertura para o mercado - que, por sinal, não existe - sob o comando da mão de ferro da velha-guarda de Sierra Maestra. Na política, nenhuma perspectiva imediata de liberalização. Esta é a Cuba que emerge do 6.º Congresso do Partido Comunista Cubano (PCC), encerrado na terça-feira em Havana, que aprovou um documento programático, Linhas da Política Econômica e Social, contendo mais de 300 pontos que deverão orientar os ajustes a serem feitos no modelo econômico da ilha que nunca funcionou.

O 6.º Congresso do PCC, convocado depois de 14 anos, também elegeu oficialmente Raúl Castro para as funções que já vinha exercendo desde 2006, de secretário-geral do Comitê Central do partido. Contrariando a expectativa de que a oportunidade poderia ser aproveitada para iniciar a renovação do comando do país, para a segunda secretaria, antes ocupada por Raúl, foi nomeado o general José Ramon Machado, de 84 anos, que também é o primeiro vice-presidente. No mesmo dia foi divulgado documento por meio do qual o ex-presidente Fidel Castro renunciou formalmente à chefia suprema do PCC - da qual estava afastado, bem como da presidência, por motivos de saúde, desde 2006 -, anunciou que não mais ocupará cargos no partido ou no governo e conclamou a juventude cubana a continuar "construindo o socialismo".

Desde que substituiu o irmão, Raúl Castro tem anunciado medidas destinadas a enfrentar o estado de catalepsia econômica, em que o país mergulhou desde que, com o fim da União Soviética, 20 anos atrás, Havana parou de receber regularmente os generosos recursos com que Moscou mantinha sua cabeça de ponte comunista na América Latina. Mas, mais uma vez se evidencia que, pelo menos enquanto os Castros e a velha-guarda de 1959 continuarem no poder, o que certamente acontecerá enquanto viverem, está afastada qualquer possibilidade de uma economia de mercado na ilha. Raúl Castro foi categórico em seu pronunciamento no encerramento do congresso: "Assumo minha última tarefa com a firme convicção e compromisso de honra, que o primeiro-secretário do comitê central do Partido Comunista de Cuba tem como sua principal missão defender, preservar e prosseguir aperfeiçoando o socialismo e não permitir jamais o retorno do regime capitalista". Assim, o sistema econômico cubano continuará se baseando na planificação e "na propriedade socialista dos meios fundamentais de produção", mesmo que se venha a levar em conta "as tendências do mercado". O que se pode esperar, segundo o presidente, é a "atualização do modelo" com maior autonomia às empresas estatais e maior estímulo à entrada de capital estrangeiro no país.

O isolamento de Cuba pós-URSS ajuda a entender, mas não é suficiente para explicar a paralisia econômica das duas últimas décadas. O maior problema é que a radicalização do modelo comunista, durante os mais de 30 anos em que o que restou da diáspora da economia cubana para a Flórida após a vitória da revolução sobreviveu praticamente às expensas de Moscou, acabou deixando o país inabilitado para a tarefa de produzir ele próprio a riqueza de que necessita para prosperar. Ainda hoje, a maior parte dos bens de produção e de consumo, principalmente alimentos, de que a ilha necessita é importada.

Não obstante, timidamente, Havana começa a adotar medidas liberalizantes elementares como a permissão para que a população compre e venda imóveis residenciais, da mesma forma como foi autorizada, há pouco tempo, a adquirir telefones celulares e computadores pessoais, etc. Resta saber com o que os cubanos, que ganham em média, US$ 20 por mês, poderão comprar mais do que podem comprar hoje.

Além do mais, esse "poder de compra" ainda será afetado pelas medidas de contenção de despesas que o governo já anunciou, como a demissão de 500 mil funcionários públicos ociosos ou a distribuição dos cartões de racionamento apenas para os mais necessitados. Sem falar, é claro, num mínimo de liberdade política, de respeito aos direitos humanos. Tudo isso certamente terá que esperar pela era pós-Castros.

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Meus blogs em eleições presidenciais Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. Primeira informação sobre meus blogs eleitorais. Destin...