quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Está difícil esse Prêmio Nobel da Paz? Lula e o segundo Fome Zero Universal

 Lula tenta pela segunda vez o seu Fome Zero Universal (já que o primeiro, no Brasil, em 2003, foi um fracasso completo). O primeiro Fome Zero Universal tampouco saiu do papel, pois que Lula insistia com a ONU em criar o SEU programa, com a sua logomarca de "pai dos pobres", e a ONU dizia que seria duplicar os esforços do programa já montando a muitos anos entre a FAO e o Pnud, "Programa Mundial de Alimentos". Como não deu certo com o seu nome, Lula desistiu da ideia e foi se ocupar de outras glórias (como a paz entre israelenses e palestinos e o programa nuclear iraniano; nenhum deles sequer decolou).

Agora, no G20 do RJ, ele conseguiu fazer uma Aliança Mundial Contra a Fome e a Pobreza. Quem poderia ser contra?
Adivinhem onde vai ser o Secretariado desse "novo" programa da ONU?
Em Roma, onde já funciona o PMA da FAO-Pnud.
Ou seja, a Aliança será um escritório burocrático do PMA, que já existe, mas Lula acha que com isso conseguirá seu ambicionado Prêmio Nobel da Paz, já que no caso da guerra Hamas/Hezbollah-Isreal e no da paz na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia a coisa é mais dificil.

Paulo Roberto de Almeida
Bras´ˆlia, 20/11/2024

G20 Rio de Janeiro Leaders’ Declaration - Full text

G20 Rio de Janeiro Leaders’ Declaration - Full text

"We, the Leaders of the G20, met in Rio de Janeiro on 18-19 November 2024 to address major global challenges and crises and promote strong, sustainable, balanced, and inclusive growth. We gather in the birthplace of the Sustainable Development Agenda to reaffirm our commitment to building a just world and a sustainable planet, while leaving no one behind."

Follow the link or download below the full text of the G20 Rio de Janeiro Leaders’ Declaration.

https://lnkd.in/dWwHCmha

Prêmio Jabuti, Câmara Brasileira do Livro: Rosa Freire d'Aguiar e Marina Colassanti

 

Panorama Editorial CBL

A 66ª edição do Prêmio Jabuti, a mais aguardada cerimônia de premiação do livro brasileiro, foi realizada nesta noite, dia 19 de novembro, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a cerimônia consagrou "Sempre Paris: crônica de uma cidade, seus escritores e artistas ", de Rosa Freire d’Aguiar, como o Livro do Ano de 2024.  

Este ano, o prêmio contou com 4.170 obras inscritas, distribuídas em 22 categorias nos eixos de Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Confira aqui a lista completa dos vencedores.  

Além de receber a estatueta dourada, Rosa Freire d’Aguiar foi contemplada com o valor de R$ 70 mil e uma viagem com hospedagem para participar da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, uma das maiores feiras literárias do mundo e onde terá uma agenda com editores e agentes literários.  

Abrindo a cerimônia de entrega das estatuetas, Bel Santos Mayer recebeu o prêmio para o projeto vencedor na categoria Fomento à Leitura: IBEAC Literatura: os caminhos literários das bibliotecas comunitárias de Parelheiros.  

Outro momento marcante foi a apresentação de Luiza Romão, vencedora em Poesia e Livro do Ano em 2022. Ela emocionou o público com uma performance que reuniu música e poesia, antecedendo a entrega das estatuetas do Eixo Literatura. 

A edição do Jabuti de 2024 trouxe inovações importantes, como a inclusão da categoria Escritor Estreante - Poesia, no Eixo Inovação, destinada a autores que lançaram seu primeiro livro em português no Brasil em 2023. No Eixo Não Ficção, foram criadas as categorias Saúde e Bem-Estar, Educação e Negócios, refletindo temas emergentes no universo editorial.  

Desde 1959, quando consagrou “Gabriela, Cravo e Canela” de Jorge Amado, o Prêmio Jabuti vem se consolidando como um patrimônio cultural do país, reconhecendo e promovendo a rica produção literária nacional. A premiação valoriza todos os aspectos do setor editorial, dialogando com diversos públicos e adaptando-se às transformações sociais.  

A mestre de cerimônia deste ano foi Adriana Lessa, com sua presença cativante e carreira artística consolidada no teatro, cinema e televisão, abrilhantou o evento, tornando a celebração ainda mais especial. 

Homenagem do Ano 

Marina Colasanti foi a escolhida como a Personalidade Literária da 66ª edição do Prêmio Jabuti. A escritora recebeu a homenagem por sua significativa contribuição à literatura brasileira, abordando temas universais com simplicidade e lirismo, conquistando leitores de todas as idades.  

Sua filha, Alessandra Colassanti, recebeu a homenagem representando a escritora. “É muito emocionante estar aqui hoje representando minha mãe.  Quero expressar nossa gratidão por esta homenagem, que a reconhece com quase 60 anos de trabalho, dedicação e paixão por sua escrita. Como filha, sempre tive a imagem dela trabalhando intensamente, sentada à mesa, com uma movimentação interna impressionante, criando mundos e histórias que encantam leitores de todas as idades. Gostaria de agradecer também a todos os leitores que acompanharam sua trajetória ao longo desses anos. Essa homenagem é um reflexo do impacto profundo de sua obra”, disse Alessandra. 

Sevani Matos, presidente da CBL, expressou entusiasmo com a realização de mais uma edição do prêmio: “Em suas décadas de existência, o Prêmio Jabuti passou por muitas transformações, consolidando-se como uma poderosa vitrine da produção literária em nosso país. É com grande alegria que realizamos este momento para celebrar a riqueza e a pluralidade da literatura nacional, destacando todos os envolvidos no processo criativo e na produção de uma obra literária”, afirmou.  

Hubert Alquéres, curador do Prêmio, falou sobre a realização desta edição: “Ao longo dos anos, o Jabuti tem se consolidado como um marco da literatura brasileira, valorizando a liberdade de expressão. Nesta edição, recebemos um grande volume de inscrição de obras, um reflexo não apenas da longevidade do prêmio, mas de sua capacidade de se reinventar e dialogar com diferentes gerações de escritores e leitores. As inovações desta edição mostram que a premiação permanece atenta às transformações do mercado editorial e às demandas contemporâneas”. 

A cerimônia, transmitida ao vivo pelo canal do YouTube da CBL, está disponível no link.  

Este ano, o Prêmio Jabuti contou com o patrocínio da Urbia, empresa especializada na gestão e preservação de patrimônios históricos e ambientais, e, pela segunda vez consecutiva, com o apoio da Indústria Gráfica Santa Marta.  

Sobre o Autora do Livro do Ano 2024 

Rosa Freire d’Aguiar nasceu no Rio de Janeiro. Jornalista nos anos 1970 e 1980, foi correspondente em Paris das revistas Manchete e IstoÉ. Voltou ao Brasil em 1986 e desde então trabalha como editora e tradutora literária. Entre os prêmios que recebeu por suas traduções estão o da União Latina de Tradução Científica e Técnica por O universo, os deuses, os homens, de Jean-Pierre Vernant; o Jabuti por A elegância do ouriço, de Muriel Barbery; e o Biblioteca Nacional por Bússola, de Mathias Enard.  

Rosa Freire d’Aguiar é agora, desta vez na categoria Livro do Ano, reconhecida pelo Prêmio Jabuti.  

Sinopse de “Sempre Paris: crônica de uma cidade, seus escritores e artistas”. 

Ao combinar memórias e entrevistas, Rosa Freire d'Aguiar oferece um registro extraordinário de um lugar e de uma época pulsantes. Sempre Paris não é apenas um livro sobre a cidade; é uma jornada pelo tempo e pela cultura que ela representa. A autora oferece ao leitor conhecimento e uma experiência estética e sensorial. É uma leitura indispensável para aqueles que amam literatura, arte e, claro, tudo o que neles há de universal. 

Durante os anos 1970 e 1980, Rosa Freire d'Aguiar trabalhou como correspondente internacional em Paris. Os restaurantes mais badalados da época, a chegada do primeiro avião comercial supersônico, a devolução do deserto do Sinai ao Egito, tudo que dizia respeito a cultura e política internacional virava notícia, que era rapidamente despachada por telex para o Brasil. E, claro, as longas entrevistas, que marcaram a era de ouro das publicações impressas. 

Com um texto saboroso, na melhor tradição do jornalismo literário, a autora reconstitui a atmosfera fervilhante que dominava a cidade - dos cafés e livrarias até os embates sociais e políticos que permeavam o dia a dia dos franceses.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Chantagem nuclear 2.0: não haverá guerra global: Putin blefa - ‘That Means World War III’ (Foreign Policy)

 Chantagem nuclear 2.0: não haverá guerra global: Putin blefa...


‘That Means World War III’
Foreign Policy, Nov 19, 2024

Russian President Vladimir Putin formally lowered Moscow’s nuclear threshold on Tuesday in response to U.S. President Joe Biden authorizing Ukraine to use long-range Army Tactical Missile Systems (known as ATACMS) to strike limited targets inside Russia. Putin first proposed such changes to the doctrine in September, when he warned NATO that the use of Western-supplied long-range weapons against Russia would mean that Moscow is at war with the military alliance.

The new doctrine says any attack against Moscow by a nonnuclear actor with the “participation or support of a nuclear power” will be seen as a “joint attack on the Russian Federation.” The policy also outlined that any aggression against the Kremlin by a member of a military bloc will be viewed as “an aggression by the entire bloc,” signaling a thinly veiled threat against NATO.

Moscow “reserves the right” to use nuclear weapons to respond to a conventional weapons attack that threatens Russia’s “sovereignty and territorial integrity,” Kremlin spokesperson Dmitri Peskov said on Tuesday. He affirmed that a Ukrainian attack using long-range U.S. missiles could trigger such a response, though the doctrine remains broad enough to allow Putin to avoid committing to nuclear engagement.

“Russia’s new nuclear doctrine means NATO missiles fired against our country could be deemed an attack by the bloc on Russia. Russia could retaliate with [weapons of mass destruction] against Kiev and key NATO facilities, wherever they’re located,” former Russian President Dmitry Medvedev posted on X. “That means World War III.”

Early Tuesday, Ukrainian troops fired six U.S.-made ATACMS missiles at a military facility in Russia’s Bryansk region, which borders Ukraine. According to Ukrainian defense official Andrii Kovalenko, the strike hit warehouses holding “artillery ammunition, including North Korean ammunition for their systems; guided aerial bombs; antiaircraft missiles; and ammunition for multiple-launch rocket systems.” Russian authorities said Moscow’s air defenses intercepted five of the missiles and damaged one more, reporting no casualties. Russia largely uses S-400 and the newer S-500 missile systems to counter ballistic missiles.

This was the first time that U.S.-supplied ATAMCS were used to hit targets inside Russia; previously, they have only been used to strike locations in Russian-occupied parts of Ukraine, including Crimea. Russian Foreign Minister Sergey Lavrov called their usage in the Bryansk region “a signal that they want escalation,” referring to the United States and its Western allies.

Washington first supplied Kyiv with a version of ATACMS in October 2023 that had the capability of hitting targets roughly 100 miles away; in April 2024, it began supplying longer-range versions with the ability to travel 190 miles with the restriction that they only be used to hit targets in Russian-occupied areas of Ukraine. Biden was reportedly reluctant to expand their usage into Russia proper for fear of escalation. However, that changed when intelligence officials learned that North Korea had deployed thousands of troops to Russia to help retake the Kursk region. As the war hit its 1,000th day on Tuesday, analysts argue that Putin’s altered nuclear doctrine indicates his readiness to force the West to back down.

Uma visão menos laudatória da cúpula do G20 no Rio de Janeiro: Flavia Krause-Jackson Bloomberg: Balance of Power

Uma visão menos laudatória da cúpula do G20 no Rio de Janeiro:


Bloomberg: Balance of Power
Flavia Krause-Jackson
November 19, 2024

As the caipirinhas flowed and samba dancers swayed for VIP guests gathered for the Group of 20 summit in Rio de Janiero, the party mood suddenly turned sour.

The summit communique popped up online after the impatient host, Brazil’s President Luiz Inacio Lula da Silva, abruptly shut down behind-the-scenes squabbling among G-20 leaders over language characterizing wars in Ukraine and the Middle East.

That left a bitter taste, particularly among the US and its allies, at a summit characterized by disorganization and division among the leaders of the world’s largest economies.

What had been billed as a moment for “the West and the Rest” to show unity only served to display how quickly the guardrails are coming off the international rules-based order.

North Koreans are fighting in Europe for the first time. Israel is resisting US efforts to halt fighting with Hezbollah and Hamas. China regularly conducts military exercises surrounding Taiwan. Nuclear war is suddenly a risk amid surging tensions over Russia’s invasion of Ukraine.

And that’s even before Donald Trump returns to the White House.

The sense of global disorder played out vividly in the traditional “family photo.” US President Joe Biden, Canadian Prime Minister Justin Trudeau and Italian premier Giorgia Meloni were missing when the picture was taken on the summit’s first day, so Lula called a re-shoot today.

They were in the picture this time, though the fake background in lieu of Rio’s stunning Sugarloaf Mountain in the first shot only reinforced the impression that summit unity was a facade.

Trump’s looming return hung over the proceedings, amid speculation about what kind of role the US would play in world affairs in his presidency.

Most comfortable were leaders of the Global South. India’s Narendra Modi and China’s Xi Jinping smiled and chatted with ease.

With Trump threatening tariffs on them, though, it felt a bit like the calm before the storm.

200 anos de constituições e regimes políticos no Brasil, 1824-2024

Esta tabela faz parte deste meu livro: 

4791. Constituições brasileiras: ensaios de sociologia política, Brasília, 18 novembro 2024, 187 p. Livro completo com nove ensaios sobre as constituições e suas implicações para o Brasil, em especial no terreno econômico. ISBN: 978-65-01-23460-1. Em preparação para publicação. Índice e trecho da apresentação divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/novo-livro-preparado-para-publicacao.html). 



Os agradecimentos de um "natural reservoso" por um natalício discreto - Paulo Roberto de Almeida

Os agradecimentos de um "natural reservoso" por um natalício discreto

Paulo Roberto de Almeida 

Sempre apreciei o romance de José Cândido de Carvalho, "O Coronel e o Lobisomem", no qual o personagem principal, o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, dos Campos de Goitacazes, no Rio de Janeiro, se descrevia a si mesmo como sendo de um "natural reservoso". 

Sempre me identifiquei com essa autodescrição, que se encaixa bastante bem no meu modo de ser: fugidio às exibições públicas, normalmente enterrado em alguma biblioteca, dedicado às leituras, reflexões e escritas, só não consegui encontrar algum lobisomem, como o herói de Cândido de Carvalho – aliás, pai de um colega diplomata, que era apropriadamente chamado, nos velhos tempos, de "Ricardo Lobisomem", tal o sucesso do romance do pai –, mas continuei, ao longo das décadas, minha trajetória de produtor silencioso de trabalhos de sociologia política e histórica aborrecidamente acadêmicos, ou seja, reservados a um público restrito.

Não, nunca consegui escrever um romance, embora tenha tentado, uma ou outra vez, e ainda penso cometer alguma novela em tempos ainda mais reservosos, inevitavelmente vinculados a livros e reflexões sobre minha trajetória intelectual.

Sem pretender falar publicamente de meu natalício, usei de um subterfúgio sobre a passagem do tempo, aqui mesmo postado nesta madrugada: 

4792. “Três quartos de século, três gerações”, Brasília, 19 novembro 2024, 3 p. Nota sobre a passagem do tempo, o meu próprio. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/tres-quartos-de-seculo-tres-geracoes.html).

Era uma maneira de marcar minha trajetória, sem pretender falar de qualquer data, mas nesta era de invasão da privacidade, pelos instrumentos de busca e de informação na internet, é quase impossível manter encoberto qualquer detalhe da vida particular de um funcionário público e professor de milhares de alunos ao longo de muitas décadas (ainda superiores, em tempo, ao da carreira diplomática).

Logo em seguida, levando em conta os fusos horários ao redor do mundo, já recebi cumprimentos de uma pessoa atenta a essas passagens do tempo, o que me levou a fazer uma outra postagem, sobre o mais gosto de fazer: 

    “Tudo o que fiz na vida, desde tenra idade, tudo o que fiz na carreira diplomática, tudo o que continuo fazendo, se resume a poucas palavras: ler, anotar, refletir, observar a realidade em volta, no Brasil e no mundo, escrever o que penso, expressar essas ideias, sobretudo sobre o Brasil, sua economia, a situação social, a educação, a diplomacia, a cultura, prioridades minhas em qualquer ordem, e divulgar livremente essas ideias, sem incomodar ninguém, tentando fazer o bem e preservando a honestidade intelectual e a dignidade pessoal. Acho que é isso.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 19/11/2024”

Bem, faço esta nova postagem para agradecer a todos os que se manifestaram, nos diversos espaços e canais abertos ao engenho e arte de meus amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos, talvez alguns opositores também (uma vez que não deixo de manifestar minha opinião sobre temas fundamentalmente políticos), enfim tutti quanti reagiram ou à data, ou à minha mensagem, talvez pouco discreta, ao falar de três quartos de século, um número que não é redondo, mas que costuma marcar certas marcas comemorativas. Como não espero ser centenário, creio que se trata da última oportunidade para olhar para trás, fazer um balanço do que já fiz e montar uma lista das tarefas mais urgentes, sobre o que ainda falta fazer (começando por arrumar minha caótica biblioteca).

Espero que todos se sintam incorporados a um agradecimento coletivo e a uma nota de gratidão pela atenção com que possam ter sido recebidas minhas mal traçadas linhas ao longo da minha do tempo intelectual, que aliás começou tarde. Acho que avancei razoavelmente bem desde o primeiro livro publicado, agora já ocupando duas estantes completas na minha biblioteca (a única parte organizada).

Meu abraço a todos, prometendo continuar discreto nos próximos anos...

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 19/11/2024


Um resumo do que fui, do que sou - Paulo Roberto de Almeida

Um resumo do que fui, do que sou

Paulo Roberto de Almeida  

Tudo o que fiz na vida, desde tenra idade, tudo o que fiz na carreira diplomática, tudo o que continuo fazendo, se resume a poucas palavras: ler, anotar, refletir, observar a realidade em volta, no Brasil e no mundo, escrever o que penso, expressar essas ideias, sobretudo sobre o Brasil, sua economia, a situação social, a educação, a diplomacia, a cultura, prioridades minhas em qualquer ordem, e divulgar livremente essas ideias, sem incomodar ninguém, tentando fazer o bem e preservando a honestidade intelectual e a dignidade pessoal. Acho que é isso.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasilia, 19/11/2024

Quem escreve discursos para o Lula?

 Aparentemente, Lula (ou quem escreveu o discurso para ele) considera que Rússia e China são duas grandes potências neoliberais, que provocaram o fracasso da globalização, pois que se meteram em disputas hegemônicas. Quem nos empurra para a tragédia é, sem dúvida, a ordem liberal ocidental. É o que se conclui do trecho abaixo. Quem escreve discurso para o Lula tem a cabeça no lugar? (PRA)

““A globalização neoliberal fracassou. Em meio a crescentes turbulências, a comunidade internacional parece resignada a navegar sem rumo em disputas hegemônicas. Permanecemos à deriva, arrastados por uma torrente que nos empurra para uma tragédia.” (Lula)

Três quartos de século, três gerações - Paulo Roberto de Almeida

 Três quartos de século, três gerações  

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre a passagem do tempo, dedicada a Carmen Lícia Palazzo, que me acompanhou pela maior parte desta trajetória de vida, tendo lido muito mais livros do que eu, sendo bem mais inteligente do que eu, e que me confortou, assim como a todos da família, em todos os momentos de uma vida nômade e repleta de boas surpresas intelectuais.

 


A demografia histórica tem uma função precisa: medir e analisar dados populacionais ao longo do tempo em comunidades definidas; é ela quem nos diz quais países ou sociedades estão registrando crescimento demográfico e quais já entraram na direção da redução da natalidade e diminuição progressiva da população. Ela faz, digamos, o lado macro da evolução demográfica dos países e, cumulativamente, do mundo, no decorrer do tempo. Ao nível micro, a demografia tem de ser vista pelo tempo de vida de cada indivíduo, o que normalmente se estende por três gerações, ou aproximadamente 75 anos: pais, filhos e netos, mais frequentemente agora bisnetos, mas é bem mais raro, sobretudo nos países de esperança de vida reduzida.

A vida das pessoas é, portanto, medida geralmente pelo ciclo da infância, da maturidade (seguida pela maternidade e paternidade) e pela continuidade dessa geração nos filhos dos seus filhos. A realização pessoal de cada individuo de uma geração se faz pelos estudos na infância e na adolescência, pelo trabalho na vida adulta e depois pela ajuda na administração da família que segue na geração seguinte, filhos já adultos e os netos. Esse é, via de regra, o itinerário de uma vida humana que fica geralmente limitada a três quartos de século, considerando-se uma trajetória “normal”, com boa alimentação e cuidados de saúde.

No que me concerne, pessoalmente, minha infância e adolescência foram ocupadas simultaneamente por estudos e trabalhos, aliás praticamente a vida inteira, pois que nunca deixei de estudar e de dar aulas, mesmo quando profissionalmente dedicado à carreira diplomática já na idade adulta. Mas comecei a dar aulas para preparação de ingresso na universidade, antes mesmo de ingressar eu mesmo nos estudos superiores, dada a minha precocidade nas leituras e nos estudos desde que aprendi a ler, na idade tardia de sete anos (sempre achei que perdi dois ou três anos de leituras, por pertencer a uma família de avós analfabetos, completamente, e de pais saídos da escola primária para começar a trabalhar). Leituras, estudos, docência fizeram parte de minha vida muito mais, provavelmente, do que as mais de quatro décadas voltadas para o desempenho na diplomacia profissional. 

Aliás, a diplomacia foi a profissão ideal para quem se destinava a uma carreira puramente acadêmica, voltada para minha primeira profissão, que foi a de professor, continuada ao longo dos anos. A diplomacia é a mais intelectual das profissões na burocracia estatal, pois que obriga e combina atividades de pesquisa, de informação, de reflexão, de produção de soluções e de respostas aos desafios das relações exteriores do país, levando em conta um conhecimento preciso das características e necessidades do seu próprio país. 

Entrei agora no quarto final de minha trajetória pessoal, ocupacional (pois que ainda sou professor) e intelectual, uma vez que continuo produzindo trabalhos acadêmicos e livros-síntese de minhas leituras, pesquisas e conhecimentos adquiridos em outros livros e no contato com a realidade, pela mídia, pelas visitas e viagens, participação em encontros e seminários, pela docência, pela convivência com familiares e amigos. Espero continuar produtivo pelo tempo que me resta de trajetória neste planeta confuso, agitado, por vezes calmo, mas atualmente tão agitado quanto em certas épocas passadas. A esses desafios do presente, respondo com algum mergulho no passado, leituras de história e memórias de quem participou da vida ativa em épocas pretéritas e alguma especulação quanto ao futuro.

Nos dois últimos anos, tenho ficado muito preocupado com um certo retorno ao imperialismo brutal de duas ou três gerações atrás, ao expansionismo militarista de tiranos e ditadores arrogantes, aos perigos que pensávamos superados depois do final de uma Guerra Fria que por vezes arriscou os limites de uma nova confrontação global, agora novamente à espreita. Volto minhas reflexões, leituras e pesquisas para os novos perigos que rondam a humanidade, e tento oferecer ao meu país, aos meus colegas diplomatas observações que retiro da experiência profissional passada e das constantes leituras que continuo fazendo, mas agora sem qualquer obrigação de trabalho. Ou seja, apenas devoção intelectual pelo estudo, reflexão e escrita sobre os problemas do país e da humanidade.

Persistirei nesse empenho e dedicação ao conhecimento e sua transmissão racional aos mais jovens, geralmente estudantes, muitos que eu sequer conheço, pois que coloco a quase totalidade de minha produção intelectual à livre disposição dos interessados, dos que me seguem, de eventuais curiosos que frequentam meus canais de informação, de passantes ao acaso, que também demonstram interesse por minhas afinidades de leitura e de escrita.

A todos os que se beneficiaram de minhas aulas, de meus trabalhos, direta ou indiretamente, a todos os meus colegas de trabalho, atuais e aposentados, como é agora o meu caso, minhas melhores saudações e cumprimentos, na certeza de partilharmos do mesmo objetivo básico: fazer do presente mundo, e do seu futuro de curto prazo, um mundo melhor do que aquele que encontramos quando nascemos, aquele que nos foi legado por nossos avós, nossos país. Que as gerações seguintes, meus netos, talvez futuros bisnetos possam encontrar no meu patrimônio intelectual algum motivo de satisfação pessoal, tanto quanto eu tive ao produzir certa massa de conhecimento que considero ser de alguma utilidade para a melhoria do país, talvez de alguma parte da humanidade.

Despeço-me do terceiro quarto de século, e espero ainda contribuir com mais algum conhecimento no tempo que ainda me resta como pessoa ativa e pensante. Salut!


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4792, 19 novembro 2024, 3 p.



Postagem em destaque

O BRICS é um Frankestein de um inexistente Sul Global - Paulo Roberto de Almeida

 Pensando fora da caixinha (como é meu hábito desde que ingressei no Itamaraty): O BRICS é uma espécie de Frankenstein de um inexistente Sul...