sábado, 21 de março de 2026

Livro: Dependência & socialismo no Brasil e na América Latina hoje - Flávio Magalhães Piotto Santos & Rodrigo Nagem de Aragão (orgs.)

Permito-me transcrever esta introdução a um livro que recolhe um debate acadêmico nascido e enterrado no século XX; o que não significa que ele tenha perdido interesse acadêmico no seculo XXI, independentemente de todos os desmentidos a essa visão alienada do mundo.

Paulo Roberto de Almeida 

Dependência & socialismo no Brasil e na América Latina hoje

Preben Wölck, Homens da Terra, 1958-1959
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Por FLÁVIO MAGALHÃES PIOTTO SANTOS & RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO*

Introdução dos organizadores da coletânea recém-lançada

1.

O título do livro que agora apresentamos ao leitor resgata uma forma de colocar o debate que foi muito profícua nas décadas de 1960 e 1970. Seja nas obras de André Gunder Frank (Subdesenvolvimento ou Revolução), Ruy Mauro Marini (Subdesenvolvimento e Revolução) ou Theotônio dos Santos (Socialismo ou fascismo), o par de palavras indicava uma proposição teórico-política. É precisamente nesse sentido que colocamos as palavras “dependência” e “socialismo” no título.

Curiosamente, ambas ideias parecem ter sido esquecidas no cenário político brasileiro, tanto por organizações de esquerda, quanto por intelectuais e teóricos da realidade brasileira, apagando, portanto, qual é o sistema econômico existente no Brasil atualmente. Vejamos esse problema um pouco mais detidamente.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, houve um processo de integração da economia mundial liderado pela hegemonia dos EUA. Essa integração, que se deu através da formação de monopólios, teve grande impacto sobre a América Latina, pois cada vez mais houve uma entrada de capitais estrangeiros, especialmente no setor manufatureiro. Essa grande entrada de capitais foi conformando uma nova situação de dependência econômica dos países periféricos, entre eles o Brasil, em relação aos países centrais. Essa nova natureza da dependência fez, progressivamente, cair por terra todas as ilusões que a burguesia industrial tinha.

Essas ilusões haviam sido fomentadas pela ideologia do desenvolvimento disseminada precisamente pelos EUA após a vitória na segunda grande guerra mundial. Para se contrapor ao polo socialista, liderado pela URSS, os Estados Unidos difundiram a ideia do desenvolvimento, isto é, que seria possível para os diferentes países da periferia capitalista se desenvolverem e chegarem ao mesmo patamar dos países centrais.

Essa ideologia teve vasta repercussão no Brasil, porque, desde o governo de Getúlio Vargas de 1930, a burguesia industrial brasileira havia tido uma grande expansão, não só por incentivo do próprio Getúlio Vargas, mas também devido à situação mundial (crise de 1929 e a Segunda Guerra Mundial), que possibilitou com que se iniciasse um modelo de substituição de importações. Havia, portanto, dentro dessa ideologia do desenvolvimento, as nações centrais desenvolvidas e as nações periféricas subdesenvolvidas.

Assim, o subdesenvolvimento seria uma etapa do desenvolvimento e essa etapa seria passível de superação através de um guia de receitas de intervenção na política econômica. Dessa forma, o objetivo era disseminar a ideia do desenvolvimento econômico como sendo o ideal a se alcançar. Só não se mencionava que esse desenvolvimento era o desenvolvimento capitalista e a quem ele beneficiava.

2.

A ideologia do desenvolvimento deu origem a diferentes teorias do desenvolvimento. No Brasil, elas ficaram mais conhecidas através do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado em 1955. O ISEB aglutinou diversos pensadores que inclusive tinham muitas vezes ideias divergentes. Para a América Latina, mas também com influência no Brasil, foi criado um braço da ONU: a Comissão Econômica para a América Latina (depois o Caribe foi incluído no nome), dando origem à CEPAL.

A CEPAL é fruto daquela expansão da ideologia do desenvolvimento defendida pelos EUA, mas, ao mesmo tempo, ela também trouxe novos elementos a partir de conceitos, pesquisas e propostas que eram parte do contexto histórico-social da América Latina. A CEPAL defendia que o subdesenvolvimento dos países latino-americanos era produto de sua especialização na exportação de produtos primários, o que caracterizava uma dependência externa dos países periféricos em relação aos países centrais.

Essa dependência era indicada empiricamente através da deterioração dos termos de intercâmbio, ou seja, os produtos vendidos pelos países periféricos tinham um preço menor do que os produtos que esses países importavam dos países centrais. Esse problema de fato existia e foi um grande avanço da CEPAL conseguir localizá-lo, apesar de não o compreender totalmente, nem tirar dele as devidas conclusões políticas.

Essa dependência externa identificada poderia ser superada, de acordo com a CEPAL, através de um processo de industrialização. Daí que se buscavam justamente as burguesias nacionais industriais para levar a cabo o projeto de desenvolvimento nacional autônomo.

As teses da CEPAL adquiriram grande repercussão na década de 1950 representando o auge do pensamento burguês nacionalista na periferia do capitalismo. Em nenhum país da América Latina essa teoria do desenvolvimento se disseminou com tanta força como no Brasil, pois foi aqui que houve um maior avanço das forças produtivas exatamente nesse período. Contudo, a crise do começo da década de 1960 apontou para o fim desse ideal desenvolvimentista e iniciou uma nova fase de pensamento que buscava responder às novas determinações sócio-econômicas da época.

Essa nova teoria foi a teoria da dependência. Portanto, é possível afirmar que a teoria da dependência surgiu da necessidade de superar a teoria do desenvolvimento, ao mesmo tempo que buscava compreender essa nova integração monopólica liderada pelos EUA e fornecer as bases para uma ação tático-estratégica. Ela também representava uma tentativa da “nova esquerda” de confrontar as teses do Partido Comunista à época, que defendia que havia resquícios feudais no Brasil e que, portanto, seria necessário realizar uma aliança com as burguesias nacionais industriais para se fazer um revolução democrático-burguesa, anti-feudal e anti-imperialista.

O capital nacional, para conseguir fazer frente ao capital estrangeiro que chegava ao país, teria que fazer transformações tão radicais na sociedade que se correria o risco de não somente se questionar o capital estrangeiro, mas também o próprio capital nacional. É claro que a burguesia brasileira não iria assumir esse risco. Ocorreu, então, a entrada de capitais estrangeiros, que eram maiores em dinheiro e melhores em maquinário, além de terem um alto desenvolvimento tecnológico.

Só restou, portanto, à burguesia brasileira se tornar sócia minoritária do capital estrangeiro, dando origem a uma progressiva desnacionalização dos meios de produção. A situação da burguesia nacional foi denominada por Vânia Bambirra como de classes dominante-dominadas.

3.

 Nesse sentido, o pioneiro na crítica ao Partido Comunista PC e que permitiu a abertura da discussão sobre a teoria da dependência foi Andre Gunder Frank. Gunder Frank foi um alemão, radicado na escola econômica de Chicago, mas que rompeu com as concepções dessa escola quando se mudou para o Brasil, a convite de Darcy Ribeiro, para dar aulas na recém-criada Universidade de Brasília. Gunder Frank tem uma vasta obra sobre a questão econômica da América Latina.

Apesar de muito próximo ao marxismo, Andre Gunder Frank sempre fez questão de não se autointitular marxista. Sua crítica à ideia de um feudalismo na América-Latina, em especial no Brasil, pode ser vista no livro América latina: subdesenvolvimento ou revolução. Lá ele estabelece como falsa a oposição arcaico/moderno como correspondente aos países periféricos e países centrais respectivamente. O subdesenvolvimento latino-americano não se daria por características feudais, mas sim como resultado necessário do próprio desenvolvimento do capitalismo mundial.

Subdesenvolvimento e desenvolvimento não seriam, assim, fenômenos quantitativamente diferentes (como propagam as teorias do desenvolvimento), mas, ao contrário, fenômenos qualitativamente diferentes. Em sua teoria, Andre Gunder Frank aponta que existem metrópoles e satélites e ambos estão conectados pelo desenvolvimento do capitalismo. Dessa forma, o subdesenvolvimento dos satélites é uma consequência do desenvolvimento das metrópoles. A partir disso, Gunder Frank chega em sua célebre frase (considerada “impecável” por Ruy Mauro Marini) do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”.

4.

Em Brasília, Andre Gunder Frank terá contato com outros pensadores brasileiros, entre eles três mineiros: Vânia Bambirra, Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini. Serão estes três brasileiros que, a partir do intercâmbio intelectual com Andre Gunder Frank, irão expandir e aprofundar a teoria da dependência, dando origem à sua versão marxista. Cada um dos três se encarregou de diferentes tarefas acerca das pesquisas.

Cabe ressaltar que suas análises sobre o desenvolvimento do capitalismo na América-Latina e no Brasil não eram puramente acadêmicas, mas tinham objetivos políticos claros. Vânia Bambirra escreveu livros fundamentais como Capitalismo dependente latino-americano e Teoría de la dependencia: una anticrítica (ainda sem tradução ao português). Theotônio dos Santos tem também um conjunto substancial de obras, entre elas Socialismo ou fascismo. O novo caráter da dependência e o dilema latino-americanoImperialismo y dependencia (ainda sem tradução também) e A teoria da dependência: balanço e perspectivas.

Mas quem alcançou a mais precisa e rigorosa elaboração teórica acerca da dependência foi certamente Ruy Mauro Marini e seus fundamentais Dialética da dependência e Subdesenvolvimento e revolução. Ruy Mauro Marini aponta a transferência de valor dos países periféricos para os centrais como elemento fundamental do capitalismo dependente e, como forma de compensar esse valor que não é apropriado internamente pelas burguesias nacionais, ocorre uma superexploração da força de trabalho.

Essa superexploração pode-se dar de três formas: aumento da jornada de trabalho, aumento da intensidade (não da produtividade) do trabalho e apropriação do fundo de consumo dos trabalhadores, isto é, de seu salário. Essas três formas podem agir separadamente, ou como é mais comum, conjuntamente. Esses dois elementos do capitalismo dependente (transferência de valor e superexploração da força de trabalho) vão dar origem a outros problemas que farão com que os países periféricos jamais possam encontrar uma solução para o seu subdesenvolvimento dentro do sistema, mas apenas com uma transformação social radical, ou seja, a revolução socialista.

Ao contrário da CEPAL, Marini, dos Santos e Bambirra apontam que a dependência não pode ser somente externa, mas ela também se internaliza de acordo com cada país, suas relações de produção e suas classes sociais. Portanto, ao mesmo tempo que existe uma dependência externa, existe uma internalização dessa dependência, que reorganiza as forças produtivas e conforma a luta de classes.

Pois bem, a teoria da dependência surge para entender esse novo momento da acumulação capitalista, além de orientar a estratégia e a tática da esquerda. Outro fator de estímulo foi a Revolução Cubana de 1959, que marcou o início de uma nova reflexão sobre a realidade latino-americana.A teoria da dependência não nasce como uma teoria onde todos pensadores vinculados a ela têm o mesmo enfoque, a mesma abordagem e até as mesmas conclusões. Por isso é possível afirmar que não existiu apenas uma teoria da dependência, mas sim várias teorias da dependência.

Como essas teorias da dependência queriam se desprender das teorias do desenvolvimento, inicialmente não é possível identificar claramente suas diferenças. Foi apenas com o amadurecimento do debate, tendo seu auge em meados da década de 1970, que se pode ver as diferenças teórico-metodológicas e também políticas de cada vertente da teoria da dependência.

5.

Pois bem, a teoria da dependência em sua vertente marxista ficou conhecida como Teoria Marxista da Dependência (TMD). Logo que ela começou a se desenvolver, houve o golpe militar no Brasil em 1964, que acelerou ainda mais a entrada de capitais estrangeiros no país, contribuindo para o desenvolvimento do capitalismo dependente. Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos foram demitidos da UnB e precisaram fugir do país. Todos vão se reencontrar posteriormente no Chile, onde haverá um grande aprofundamento dos estudos sobre a dependência, especialmente no Centro de Estudos Socioeconômicos (CESO) da Universidade do Chile.

Lá, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos irão reencontrar Andre Gunder Frank, além de outros pesquisadores como Orlando Caputo e Roberto Pizarro, mas também Fernando Henrique Cardoso. Foi um período de grandes avanços para a teoria da dependência, tanto empíricos, quanto teórico-metodológicos. Contudo, o golpe militar brasileiro também representou uma derrota política (não teórica) da Teoria marxista da dependência, pois ela havia sido vencida pela força reacionária dos militares, bem como pelo capital nacional em associação ao capital estrangeiro.

Assim, a Teoria marxista da dependência perdeu uma batalha política importante e viu sua possibilidade de disseminação no Brasil ser interrompida abruptamente. Curiosamente, a vertente da teoria da dependência de extração weberiana, representada por Fernando Henrique Cardoso, não teve o mesmo destino. Enquanto as obras de Marini, Dos Santos e Bambirra não conheceram tradução ao português senão no começo dos anos 1990, as obras de Cardoso foram traduzidas rapidamente, inclusive no auge do período repressivo militar.

Ou seja, havia uma livre circulação dessa vertente da teoria da dependência. Ao mesmo tempo, FH Cardoso começou uma série de deturpações sobre a Teoria marxista da dependência, em especial em relação à obra de Ruy Mauro Marini, alterando as ideias deste pensador para melhor criticá-las. Assim, a teoria da dependência que aparecia como a representante de todas as teorias da dependência era a vertente de FH Cardoso e suas “críticas” (deturpações para conseguir realizar uma suposta crítica) à Teoria marxista da dependência foram sendo tomadas como a verdade absoluta.

Se originou, portanto, um “pensamento único”, como aponta Prado, sobre a teoria da dependência: o pensamento de Fernando Henrique Cardoso. Esse pensamento único foi tão poderoso que inclusive economistas que escreveram seus livros posteriormente na década de 1980 (ou seja, com amplo acesso aos livros de Ruy Mauro Marini) continuaram reproduzindo as falsas críticas feitas por FH Cardoso. Maria da Conceição Tavares, Guido Mantega, João Manuel Cardoso de Mello, Luiz Carlos Bresser-Pereira disseminaram as mesmas deturpações originadas por FH Cardoso em suas obras.

6.

Portanto, três autores brasileiros que tinham grande prestígio na América Latina e em outras partes do mundo e representavam o melhor da teoria da dependência eram sistematicamente ignorados no Brasil e isso mesmo após o fim da ditadura civil-militar em 1985. Foi somente nos últimos 20 anos que a Teoria marxista da dependência começou a ser redescoberta no Brasil e diversas obras de Marini, Dos Santos e Bambirra foram traduzidas finalmente para o português.

Além disso, diversos pesquisadores brasileiros escreveram livros, artigos, capítulos de livros, dissertações e teses sobre o tema, recuperando-o de seu esquecimento (para onde jamais deveria ter ido). Ora, isto indica precisamente que há uma recuperação dessa teoria fundamental, auge da tentativa de compreensão da realidade latino-americana e suas especificidades.

Após esse longo percurso histórico que buscou, resumidamente, situar o contexto sócio-histórico do surgimento da teoria marxista da dependência e algumas de suas principais ideias, voltemos novamente ao título do livro.

A dependência a que aludimos é justamente para o resgate da Teoria marxista da dependência e as grandes possibilidades que ela apresenta para a compreensão da situação dependente na qual o Brasil se encontra. A Teoria marxista da dependência nos permite compreender criticamente o capitalismo dependente brasileiro, suas contradições e a impossibilidade de resolução de seus graves problemas dentro do marco desenvolvimentista, isto é, dentro do próprio modo de produção capitalista.

Dessa forma, é possível fazer a crítica ao “novo-neodesenvolvimentismo” existente atualmente. A Teoria marxista da dependência foi um esforço de Dos Santos, Bambirra e principalmente de Marini para essa tarefa. E como toda teoria que provém de Karl Marx, ela é um trabalho aberto, pois a realidade está em constante mutação. O capital, de Marx, é uma tentativa de sistematização das principais leis de funcionamento do modo de produção capitalista em um determinado nível de abstração.

A Teoria marxista da dependência parte desse nível de abstração para atingir as formas concretas de funcionamento do capitalismo a nível das formações econômico-sociais específicas, como o Brasil, por exemplo. Assim, as leis do capitalismo dependente são parte das leis gerais do modo de produção capitalista, mas que adquirem uma forma particular de funcionamento justamente porque estão em um nível de concretude maior, isto é, estão na especificidade de cada formação econômico-social.

7.

Mas deve-se advertir: a Teoria marxista da dependência não teve, e agora tampouco pode ter, um caráter meramente acadêmico. Ela é antes de tudo uma “teoria-militante”, como aponta Luce. Não poderia deixar de ser, pois ela vem da tradição inaugurada por Marx. E a famosa décima primeira tese sobre Feuerbach de Marx afirma justamente que “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo.” E assim chegamos à segunda palavra deste livro: socialismo.

O socialismo, no Brasil, parece uma palavra esquecida e os principais partidos de esquerda, claro que com algumas poucas exceções, sequer pautam a transformação radical da sociedade, mas, antes, defendem seu desenvolvimento dentro do próprio capitalismo. O sistema capitalista não oferece saídas nem nos países que constituem seu centro, muito menos pode oferecer uma alternativa para países dependentes e periféricos.

Aqui só resta a superexploração da força de trabalho e o subdesenvolvimento, que acarreta uma pobreza enorme, uma desigualdade social cada vez mais acentuada, violência, destruição da natureza e impossibilidade de garantir às amplas massas saúde, educação, segurança.

É por isso que a Teoria marxista da dependência não é uma teoria sem proposição política, mas é justamente porque identifica corretamente os limites do capitalismo dependente que ela aponta para a única saída possível: o socialismo. O socialismo é uma possibilidade, pois ele é uma necessidade. O debate em torno dessa transição teve seu ápice precisamente nas décadas de 1950 e 1960 (até o golpe militar) onde se cristalizou através das diferentes teorias da revolução brasileira.

Diferentes autores tematizaram essa questão, mas ela foi barrada em 1964 e somente agora está, progressivamente, retornando à pauta, ainda que de forma minoritária. A revolução brasileira deve ser uma revolução socialista. Somente a transformação radical da realidade brasileira (e também latino-americana) pode apresentar uma alternativa política coerente para o vale de lágrimas no qual nos encontramos. E é nesse sentido que a Teoria marxista da dependência apreende os fundamentos do capitalismo dependente, bem como coloca a relação interno/externo (classes sociais internas/imperialismo) em seu devido lugar.

Superar a brutal condição de vida da imensa população brasileira, dando-lhe condições não só dignas de vida, mas de efetivamente existir em toda sua plenitude e capacidade é uma necessidade da mais extrema importância. A dependência é somente uma situação e por isso deverá encontrar também seu fim. Esse fim é a transição para o socialismo.

Falar em socialismo e em revolução brasileira parece algo longínquo, irreal e até impossível. Mas diante da exploração, opressão, racismo, violência e marginalização que grande parcela da população brasileira convive diuturnamente, esta é a única possibilidade de sucesso que existe para dar fim às consequências tão desumanas que o capitalismo dependente produz. Há que ter tenacidade e coragem, além de uma dose de otimismo, pois os tempos não são fáceis.

Contudo, a partir das bases teórico-metodológicas estabelecidas pela Teoria marxista da dependência temos um caminho por onde trilhar esse longo e sinuoso percurso que será a revolução brasileira. É hora de teorizar para agir na prática política de forma coerente, estabelecendo, assim, uma nova práxis política que remeta ao que há de mais radical e, por isso, de mais humano, na sociedade brasileira, tal como Karl Marx continuamente nos ensina.

*Flávio Magalhães Piotto Santos é doutorando em história econômica na Universidade de São Paulo (USP).

*Rodrigo Nagem de Aragão é mestre em história pela Universidade de São Paulo (USP).

Referência


Flávio Magalhães Piotto Santos & Rodrigo Nagem de Aragão (orgs.). Dependência & socialismo no Brasil e na América Latina hoje. Florianópolis, Editora Insular, 2026, 224 págs. [https://shrtlink.ai/RnlM]


Comparações não comparativas sobre o fim dos impérios - Paulo Roberto de Almeida

Comparações não comparativas sobre o fim dos impérios 

Paulo Roberto de Almeida

        Suez 1956, quando França, Reino Unido e Israel impuseram uma derrota ao Egito que tinha nacionalizado o canal, representou o fim do imperialismo franco-britânico sobre boa parte do Oriente Médio (e sobre a África quatro anos depois).

        O estreito de Ormuz não será um novo Suez para o imperialismo americano no Oriente Médio (e para o seu subsidiário israelense). Tampouco será um novo Vietnã ou Iraque para Trump, mas representará uma semi-demolição da prepotência americana sobre toda a região, sobretudo seus “aliados”, que não mais confiarão nos EUA, como tampouco os europeus o fazem agora.

        Trump conseguiu prejudicar o mundo inteiro e sobretudo o seu próprio país.

        Trump não tem antecessores, tampouco terá sucessores, pois nenhum político americano conseguiria ser tão ignorante e tão arrogante quanto ele, um marco extraordinário na escala da estupidez humana.

        Não busquem comparações: Trump é único no gênero e suas “guerras” envergonhariam Sun Tzu, Maquiavel e Clausewitz. Confesso sentir uma certa pena dos seus generais — sobretudo dos soldados e pilotos, que estão morrendo em vão —, mas ele deveriam ter coragem de repudiar ordens loucas emitidas por incompetentes, como Trump e Hegseth.

RIP American Century

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 21/03/2026

Uma sensação de lassitude - Paulo Roberto de Almeida

Uma sensação de lassitude

Paulo Roberto de Almeida

        Dizer que o mundo é ou está turbulento é uma platitude. A turbulência é coisa dos homens, certos homens, e suas ambições desmedidas. Sabemos quais são eles: P, T, N, mas cada um tem seus motivos, embora não todos os meios.

        P quer reparar, corrigir a “maior catástrofe geopolítica do século XX”, por pura ambição pessoal. Começou toda a bagunça atual, mas já não possui todos os meios que imaginava possuir em sua ambição desmedida. Vai decair, não sem antes produzir mais destruição.

        T quer satisfazer seu narcisismo maligno, sua psicopatia, seu sadismo, mas é tão desequilibrado e ignorante que não tem a menor ideia do que fazer com todo o poder acumulado no país que seus antenati escolheram para emigrar, mas ele decide que todos os emigrantes são criminosos violentos, o que é exatamente o seu caso. Será afastado, não sem antes causar mais destruição e sofrimentos a terceiros.

        N, finalmente, está tão enrolado em suas próprias trapaças que precisa viver de guerras para sobreviver, guerras que possuem, sim, um sentido existencial, cujas origens estão um pouco mais adiante, onde estão outros homens que decidiram que esse país não tem o direito de existir. Em algum momento será afastado, não sem antes conseguir destruir um pouco mais os supostos responsáveis pelas ameaças ao seu país e tendo imposto mais destruições e muitas mortes em seu próprio país.

        Outros homens, e algumas mulheres, assistem a todas essas loucuras, entre incrédulos e preocupados, mas não possuem os meios e a unidade para atuar decisivamente para tentar conter todos esses homens turbulentos.

        A turbulência vai continuar, até que faltem os meios, por esgotados, que os turbulentos empregam para atingir seus insanos objetivos. Mas não sem antes produzir um rastro de destruição, de milhares de mortes, de sofrimentos indizíveis a outros e a seus próprios concidadãos e súditos, coisas já vistas anteriormente numa Humanidade ainda guiada mais por emoções do que por reflexões. 

        Desde a guerra de Troia, a Humanidade não avançou substantivamente. Mas ainda nos falta um Homero para colocar todas essas loucuras no registro poético ou histórico novamente. Não sabemos se virá ou haverá tal registro. O que por certo sabemos é que as loucuras dos homens continuarão existindo. Essa é a única realidade previsível no momento atual, e nos momentos e anos que virão.

        Sorry pelo pessimismo. Deve ser lassitude…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 21/03/2026

Isso é coisa dos homens, isso é o Brasil - Cesar Queiroz Benjamin, Paulo Roberto de Almeida, Wilson Yu

 Copio abaixo postagem de Cesar Queiroz Benjamim, apenas copio, sem saber ao certo que, ou se, o que ele escreve é correto ou fiel à realidade. Acredito que seja, por saber que, acima da Constituição, bem acima das instituições, estão os homems e deles tudo se pode esperar. Isso me traz à lembrança uma velha música (na verdade, a letra) de Aldir Blanc que dizia uma coisa certa: “isso é coisa dos homens…”.

Acredito nisso: isso é coisa dos homens, e assim ficará enterrado, muito bem enterrado. Assim é o Brasil!

Transcrevo, apenas transcrevo, sem qualquer esperança de que algo certo se faça. Não será feito.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 21/03/2026

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“Nós já sabíamos que Dias Toffoli recebeu R$ 35 milhões do Banco Master por uma transação obscura, envolvendo ações de um Resort. Toffoli era "sócio oculto" da empresa beneficiada.

Também sabíamos que Alexandre de Moraes estava recebendo mais de R$ 3 milhões por mês, durante três anos, por "consultorias" prestadas por sua esposa ao mesmo Banco Master.

Agora sai a notícia de que o filho de Nunes Marques recebeu R$ 18 milhões do mesmíssimo Banco Master, também por "consultoria". O menino tem 25 anos. É praticamente recém-formado.

Se não me engano, o Código Penal define que a associação de três pessoas para o cometimento de crime já é formação de quadrilha.”

Depois dessa postagem, sobre a qual ele também refletiu, como eu, Wilson Yu escreveu, e eu apenas transcrevo:

“Uma coisa certeira é que Vorcaro fez negócios jurídicos com parentes dos ministros do STF com segundas intenções, que é uma matéria com grande impacto jurídico-político para a grande imprensa vai explorar com muita intensidade, gerando vendas de muitos exemplares para imprensa escrita e discussões acaloradas na grande mídia, nas redes sociais e nos parlamentos sobre ética e gestão de coisa pública e imparcialidade do juiz natural nas questões de corrupção e de crimes corporativos. Isso é apenas uma digressão.”

Isso também é certo: haverá muita turbulência na mídia, mas os homens seguirão impassíveis. Vida que segue. Isso é o Brasil! PRA

 

Brasil entre blocos: como o divórcio transatlântico pode redefinir o lugar do país na nova ordem mundial - Armando Alvare Garcia Junior (The Conversation)

 Brasil entre blocos: como o divórcio transatlântico pode redefinir o lugar do país na nova ordem mundia

A atual guerra no Irã funciona menos como “capítulo final” de um conflito regional e mais como gatilho de uma reconfiguração profunda da arquitetura de poder construída desde 1945, centrada na aliança transatlânticae no papel dos Estados Unidos como garantidor de segurança e de liquidez em dólares para o sistema energético global.

recusa de grandes capitais europeias em participar diretamente da campanha militar liderada por Washington contra Teerã, somada às ameaças reiteradas de Donald Trump de que a OTAN se tornou uma “rua de mão única”, revela um divórcio transatlântico qualitativo, mais profundo do que as crises do Iraque em 2003 ou da Líbia em 2011.

No discurso presidencial norte‑americano, a mensagem é explícita: os EUA “nunca precisaram” da OTAN e já não desejam assumir o custo político e financeiro de proteger aliados que se recusam a seguir sua estratégia para o Irã, ao mesmo tempo em que insinuam que a própria permanência na Aliança Atlântica está em debate.

A ruptura com a Europa, porém, não significa isolacionismo, mas um reposicionamento: Washington desloca o centro de gravidade de sua política externa para o Golfo, aprofundando laços com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidosem torno de arranjos transacionais que combinam segurança de regime, fluxos de armamentos e, sobretudo, a preservação — ou reconfiguração em seu favor — do sistema dos petrodólares.

Nesse contexto, a hipótese de uma normalização diplomática entre Israel e Arábia Saudita, se vier a concretizar‑se após a neutralização da ameaça iraniana, funcionaria como peça simbólica e operacional de um novo arranjo regional: uma “OTAN informal” do Oriente Médio, ancorada em Washington e nos principais produtores de energia, com impacto direto sobre o preço e a denominação das exportações de petróleo.

A Europa aparece, nesse cenário, como a principal perdedora de curto prazo: depois de romper, por necessidade e por sanções, sua dependência do gás russo, o continente assiste ao enfraquecimento do “guarda‑chuva” norte‑americano ao mesmo tempo em que se vê pressionado por custos energéticos elevados, incertezas na guerra da Ucrânia e divisões internas sobre investimento em defesa.

Brasil ocupa hoje uma posição singular no mercado energético global

Ao mesmo tempo, o Brasil ocupa hoje uma posição singular no mercado energético global: graças ao pré‑sal, o país tornou‑se exportador líquido de petróleo e viu o óleo cru ascender ao topo de sua pauta exportadora, com produção crescente, alto teor de qualidade e custos competitivos em comparação a outros produtores.

Esse novo ciclo petrolífero ocorre em paralelo à consolidação do Brasil como grande fornecedor de alimentos e fertilizantes processados, o que o coloca num lugar estratégico em meio a choques de oferta provocados pela guerra na Ucrânia, pelas sanções à Rússia e por eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz

Do ponto de vista geopolítico, o Brasil combina três ativos raros: participa de arranjos com o Ocidente (acordos com a União Europeiainterlocução com os EUA), integra o núcleo dos BRICS e dialoga com potências energéticas do Sul Global, o que lhe permite circular entre blocos e, em tese, capitalizar a fragmentação da ordem internacional.

Se o “divórcio transatlântico” e o pivô norte‑americano para o Oriente Médio abrem oportunidades para o Brasil diversificar mercados, ganhar poder de barganha em energia e alimentos e reforçar seu discurso de liderança do Sul Global, eles também trazem riscos: maior volatilidade de preços, pressão para alinhamentos automáticos e erosão de espaços multilaterais onde o país tradicionalmente projeta influência.

A médio prazo, o redesenho da segurança energética pode reposicionar o Brasil nas disputas regulatórias e ambientais globais: um país que combina grande produção de petróleo com liderança em biocombustíveise matriz elétrica majoritariamente renovável tende a ter mais voz em debates sobre transição energética justa, taxonomia verde e financiamento climático.

Esse capital normativo, porém, só se converterá em influência se for articulado de forma consistente com a política externa e com as posições brasileiras em fóruns como a COP, a OMC e o G20.

Outro vetor decisivo será a capacidade do Brasil de usar o momento para fortalecer cadeias industriais e tecnológicas, em vez de se limitar ao papel de exportador de commodities. Ganhos extraordinários com petróleo, grãos e fertilizantes podem financiar infraestrutura, inovação e reindustrialização verde, mas também podem alimentar a “doença holandesa”(dependência de exportações que desindustrializa) e aprofundar dependênciasse não forem ancorados em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

Articulação com restante resto do Sul Global

Por fim, a margem de manobra brasileira dependerá de como outros atores do Sul Global – em especial Índia, África do Sul, Indonésia e países do Golfo – se posicionarem diante do “divórcio transatlântico”. Se convergirem para agendas comuns em temas como reforma das instituições de Bretton Woods e regras de comércio de bens verdes, o Brasil poderá atuar como articulador de coalizões flexíveis; se prevalecerem agendas fragmentadas, sua capacidade de “surfar” a fragmentação da ordem será bem mais limitada.

Em última instância, o futuro do Brasil nesse cenário dependerá sobretudo das escolhas internas: transformar vantagens materiais em autonomia estratégica exige coordenação entre política externa, energética, industrial e ambiental, além de uma leitura realista dos limites de sua influência. A questão central é se o país tem projeto próprio para negociar, resistir e, quando possível, moldar as novas regras do jogo internacional.


Três livros publicados pela Appris: Nunca Antes na Diplomacia, Contra a Corrente, Apogeu e Demolição da Politica Externa - Paulo Roberto de Almeida

Três livros publicados pela Appris: Nunca Antes na Diplomacia, Contra a Corrente, Apogeu e Demolição da Politica Externa

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Apresentação dos três dos meus livros publicados pela Appris

Apresentação (prefácios, sumários) de três dos meus livros sobre a política externa e a diplomacia do Brasil ainda disponíveis na Editora Appris, mas que também podem ser encomendados via Amazon ou outros comerciantes online.

Sumários completos neste link:

Apogeu e demolição da política externa: itinerários da diplomacia brasileira (Curitiba: Editora Appris, 2021)
 


Contra a Corrente: Ensaios contrarianistas sobre as relações internacionais no Brasil, 2014-2018 (Curitiba: Editora Appris, 2019)



Nunca Antes na Diplomacia: A política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Editora Appris, 2014)


Trabalhos mais acessados de Paulo Roberto de Almeida - Academia.edu

Trabalhos mais acessados de Paulo Roberto de Almeida
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A Constituicao Contra o Brasil: Ensaios de Roberto Campos
6,229 1,600
14) O Estudo das Relações Internacionais do Brasil (2006)
3,003 1,529
Marxismo e Socialismo (2019)
3,351 1,449
16) O Moderno Príncipe: Maquiavel revisitado (2010)
7,532 1,403
1297) Contra a antiglobalização: Contradições, insuficiências e impasses do movimento antiglobalizador (2004)
6,253 1,281
2258) O desenvolvimento do Mercosul: progressos e limitações (2011)
1,985 1,134
19) Integração Regional: uma introdução (2013)
4,935 996
22) Prata da Casa: os livros dos diplomatas (Edição de Autor, 2014)
15,978 841
1462) O Brasil e a nanotecnologia: rumo à quarta revolução industrial (2005)
4,571 812
Paulo R. Almeida: O Mercosul no Contexto Regional e Internacional (1993)
889 703
Politica externa brasileira em debate (Ipea-Funag, 2018)
1,292 675
Um Ornitorrinco no Itamaraty: cronicas do Itamaraty bolsolavista - Ereto da Brocha (2020)
4,070 645
Política externa brasileira em debate: dimensoes e estratégias de inserçao internacional no pós-crise de 2008
1,177 644
QUINZE ANOS DE POLITICA EXTERNA ENSAIOS SOBRE A DIPLOMACIA BRASILEIRA, 2002-2017
1,111 624
O Itamaraty na Cultura Brasileira (2001)
1,795 544
Miseria da diplomacia: a destruicao da inteligencia no Itamaraty (Ed. UFRR, 2019)
1,110 521
As duas ultimas decadas do seculo XX: fim do socialismo e retomada da globalizacao (2006)
861 501
24) Codex Diplomaticus Brasiliensis: livros de diplomatas brasileiros (2014)
3,983 499
039) Enciclopédia de Guerras e Revoluções do Século XX (2004)
4,078 488
047) O Brasil e o processo de formação de blocos econômicos: conceito e história, com aplicação aos casos do Mercosul e da Alca (2005)
661 477
056) Planejamento no Brasil: memória histórica (2006)
2,145 472
102) Oswaldo Aranha: na continuidade do estadismo de Rio Branco (2013)
1,648 462
2306) A economia política da velha Guerra Fria e a nova “guerra fria” econômica da atualidade: o que mudou, o que ficou? (2011)
1,755 454
094) A economia do Brasil nos tempos do Barão do Rio Branco (2012)
2,111 445
031) O Brasil e o sistema de Bretton Woods: instituições e políticas em perspectiva histórica, 1944-2002 (2003)
854 438
A Destruicao da Inteligencia no Itamaraty (Edição do Autor, 2019)
1,560 437
O Estudo das Relacoes internacionais do Brasil: um dialogo entre a diplomacia e a academia (2006)
856 427
Jose Guilherme Merquior: um Intelectual Brasileiro (2021)
1,245 404
054) As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização (2006)
8,005 404
O estudo das relacoes internacionais do Brasil (1999)
701 402

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 21/03/2026

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