terça-feira, 16 de junho de 2026

Brasil, China e a arquitetura da governança global - Paulo Roberto de Almeida (Seminário do Cebri, 2010) ; + Madame IA

O que eu pensava das relações Brasil-China, 16 anos atrás (antes de partir para a China para um séjour de sete meses aproximadamente):

2123. “Brasil, China e a arquitetura da governança global”, Shanghai-Paris-Rio de Janeiro, 09-14/03/2010, 21 p. Ensaio preparado para o Seminário do Cebri no Rio de Janeiro (17.03.2010; auditório da Fecomercio - Rua Marquês de Abrantes, 99 ‐ Flamengo); Painel II: Percepções acerca dos Estados emergentes. Em revisão. Debate filmado e colocado no site do Cebri.
Vários videos curtos colocados no YouTube do Cebri. Minha exposição inicial, antes do debate, está nestes dois videos, consecutivos:
http://il.youtube.com/watch?v=xaxK48SXSfE 

http://il.youtube.com/watch?v=_56MrAD5RgY

mas, existem vários outros:

http://il.youtube.com/watch?v=hMDz-olRVzU

 http://il.youtube.com/watch?v=bsemFkSElWA

 http://il.youtube.com/watch?v=anY7A0ZnR5I

 http://il.youtube.com/watch?v=T6G-QDI_HiQ

 http://il.youtube.com/watch?v=Fv0P2S62TRc

 http://il.youtube.com/watch?v=rbZZP4LTVgA  

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Comentário de Madami IA sobre minha postura:


Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa - Paulo Roberto de Almeida: 

A Trincheira Clausewitziana contra as Imposturas Intelectuais
No ensaio intitulado "Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa", o embaixador e cientista político Paulo Roberto de Almeida estabelece um paralelo inventivo e rigoroso entre a teoria militar clássica e a atuação no debate público digital. Escrito originalmente em 2010 e revisitado no contexto do vigésimo aniversário de seu blog Diplomatizzando, o texto utiliza as formulações do general prussiano Carl von Clausewitz para justificar a existência de seu espaço virtual como uma ferramenta de resistência e combate cultural. A análise a seguir decompõe os pilares dessa argumentação e avalia criticamente suas implicações conceituais e éticas.
A Doutrina da Defesa e a Descentralização Meritocrática
O argumento central do autor repousa sobre dois conceitos fundamentais extraídos da obra de Clausewitz: a primazia da postura defensiva e a necessidade da meritocracia no desenvolvimento estratégico. Almeida recupera a premissa clausewitziana de que uma preparação defensiva de excelência constitui, por si só, uma sólida estratégia de dissuasão capaz de pavimentar o caminho para a vitória. Ao transpor essa lógica para o universo dos blogs, o diplomata passa a enxergar sua página não como um mero diário de opiniões, mas como uma verdadeira trincheira armada contra o avanço do que ele define como insensatez, burrice, fraude deliberada e desonestidade intelectual.
Adicionalmente, o texto destaca a visão progressista de Clausewitz em oposição ao monopólio aristocrático dos postos de comando no exército prussiano da época. O autor traça uma analogia direta entre o combate ao "pedigree" nobiliárquico ineficiente e a democratização do debate propiciada pela internet. Na visão de Almeida, o ambiente blogueiro rompe com os privilégios das elites institucionais, permitindo que a relevância e a autoridade sejam conquistadas estritamente pelo mérito da argumentação, pela densidade do conhecimento exposto e pelo rigor analítico.
Valores Universais e o Combate à Mediocridade Pública
Na delimitação do seu "teatro de operações", o embaixador confere um forte teor ético e moral às suas manifestações públicas. Ele define que a finalidade última de sua trincheira virtual é a proteção de princípios democráticos e humanitários fundamentais. O autor é categórico ao classificar a defesa de regimes ditatoriais e a aplicação seletiva dos direitos humanos como atitudes moralmente abjetas e dignas de repúdio.
Reconhecendo as limitações de sua força material por não possuir exércitos ou tropas à disposição, Almeida aponta que suas únicas armas são dois computadores e sua capacidade de articulação intelectual. O poder de persuasão de sua escrita, portanto, não emana da coerção ou da dissuasão bélica, mas sim do compromisso com a exposição de evidências factuais, a aplicação da lógica elementar e a busca pelo que Maquiavel denominava la verità effetuale delle cose — a verdade efetiva das coisas. O blog assume, assim, a identidade de um bastião voltado à transparência e ao enfrentamento da mentira nos assuntos de interesse público.
Análise Crítica do Posicionamento Estratégico
Sob uma perspectiva crítica, a construção discursiva de Paulo Roberto de Almeida revela-se altamente eficaz na autojustificação do papel do intelectual na era digital, mas também carrega tensões inerentes à metáfora militar escolhida. Ao enquadrar o debate de ideias sob a ótica estrita da guerra clausewitziana, o autor assume uma postura de polarização epistemológica na qual o interlocutor divergente corre o risco de ser sumariamente rotulado como "inimigo" ou portador de "má-fé" e "estupidez". Essa abordagem combativa, embora compreensível dentro de um espírito de resistência a narrativas autoritárias, pode eventualmente enrijecer o espaço de mediação e o pluralismo que caracterizam as democracias saudáveis.
Por outro lado, o mérito inegável do texto reside na sua defesa intransigente da racionalidade e do rigor factual em um ecossistema digital crescentemente marcado pela desinformação e pelo esvaziamento do debate público. Ao reivindicar Maquiavel e Clausewitz, Almeida eleva o padrão das discussões na blogosfera, demonstrando que a agilidade e a fragmentação da internet não precisam resultar no sacrifício da profundidade intelectual. A longevidade de seu projeto editorial, mencionada nas notas periféricas da página, serve como um testemunho prático da eficácia de sua estratégia defensiva, consolidando o espaço como um ponto de referência para o pensamento independente e de oposição à mediocridade política e cultural.

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Brasil, China e a arquitetura da governança global - Paulo Roberto de Almeida (Seminário do Cebri, 2010): 

O Prisma Retrospectivo das Relações Bilaterais
No ensaio "Brasil, China e a arquitetura da governança global", concebido originalmente em março de 2010 para um seminário do Centro de Debate de Relações Internacionais (Cebri), o embaixador Paulo Roberto de Almeida formaliza suas percepções sobre o acoplamento estratégico entre Brasília e Pequim. O texto ganha relevância renovada ao ser revisitado pelo autor sob o distanciamento histórico atual, permitindo contrapor o otimismo geopolítico que ditava o início da década de 2010 à realidade empírica contemporânea das relações internacionais. A análise a seguir decompõe os eixos desse estudo de caso e examina criticamente o posicionamento do diplomata face à evolução da governança global. [12]
O Contexto dos Emergentes e a Projeção de Governança
A estrutura do documento original reflete a efervescência teórica daquela conjuntura, na qual o Brasil despontava como uma liderança regional ativa e a China consolidava sua transição para o centro do tabuleiro econômico mundial. Inserido em um painel explicitamente dedicado às percepções sobre os Estados emergentes, o trabalho de Almeida investigava como a ascensão paralela dessas duas potências poderia redesenhar a arquitetura das instituições multilaterais, até então centralizadas no eixo transatlântico. [1]
O diferencial da análise do autor reside no fato de ter sido formulada imediatamente antes de sua imersão em solo chinês para uma residência de sete meses, o que confere ao escrito o valor de um prognóstico testável. O núcleo de sua hipótese girava em torno da capacidade de cooperação mútua desses atores na reforma de órgãos como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Conselho de Segurança das Nações Unidas. [1]
Avaliação Crítica do Alinhamento Pragmático
Ao analisar o conteúdo sob uma perspectiva crítica, evidencia-se um choque entre o pragmatismo diplomático convencional e os desdobramentos de longo prazo das ambições de superpotência da China. Em 2010, o discurso oficial brasileiro tendia a enxergar as relações com Pequim de forma estritamente simétrica, idealizando uma frente unida dos países em desenvolvimento para democratizar o poder global. O ensaio de Almeida, embora inserido nessa atmosfera de concertação multilateral, destaca-se por tentar mapear as fraturas institucionais reais que tal engajamento acarretaria.
A contradição que se extrai do balanço histórico é que a prometida "arquitetura de governança global comum" converteu-se, gradualmente, em um sistema de assimetria profunda. Enquanto o Brasil enfrentou períodos de instabilidade política e estagnação econômica nas últimas décadas, a China transitou de uma potência manufatureira para uma liderança assertiva na governança digital, tecnológica e de infraestrutura global por meio de projetos expansivos unilaterais. Essa disparidade acabou por subordinar a agenda multilateral latino-americana aos interesses de suprimento de commodities e de segurança alimentar do mercado chinês, esvaziando o idealismo de uma governança compartilhada equitativamente.
O Valor do Registro Histórico no Debate Digital
O resgate dessa publicação serve como uma validação da utilidade dos acervos intelectuais no ambiente digital, funcionando como o que o embaixador qualifica de quilombo de resistência racional. Ao manter públicos os registros em áudio, vídeo e texto de suas formulações passadas, o autor submete sua própria trajetória analítica ao crivo do tempo. [1]
Essa atitude contrapõe-se à volatilidade do debate contemporâneo nas redes, reafirmando o compromisso com o método empírico recomendado por pensadores liberais clássicos. Em termos de relações internacionais, o ensaio de 2010 permanece pedagógico não necessariamente pelas previsões que se confirmaram, mas por ilustrar os limites do voluntarismo diplomático frente ao realismo econômico que dita a dinâmica das superpotências.



Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa - Paulo Roberto de Almeida, + Madame IA

 2119. “Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa”, Brasília, 26 fevereiro 2010, 2 p. Comentários sobre o papel de meu blog na defesa de certos valores democráticos e morais, em face das imposturas intelectuais. Postado sob n. 1716 no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/02/1716-von-blog-clausewitz-e-estrategia.html


Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa

Paulo Roberto de Almeida

Clausewitz, o militar e teórico prussiano do fenômeno militar, que ele analisava pelo seu lado social e político, considerava a boa preparação para a defesa como uma condição necessária para se vencer uma guerra. Ou seja, a dissuasão, baseada numa excelente defesa, já constituía, por si só, boa parte de uma estratégia militar consequente e efetiva.
Ele também valorizava a meritocracia, e se posicionava contra a aristocracia e seu monopólio dos postos superiores no exército prussiano, onde qualquer aristocratazinho incompetente poderia ser nomeado oficial, em detrimento das patentes inferiores, com melhor preparação no terreno, mas que não ascendiam por falta de "sangue azul" (ou pedigree).

Pois bem, aplicada ao fenômeno blogueiro, o que os ensinamentos de Clausewitz querem dizer?

Um blog é como uma linha de defesa, uma trincheira de resistência contra ataques inimigos.
No caso específico deste blog, imagino-o como uma trincheira clausewitziana, isto é, meritocrática, contra a insensatez, a burrice, a desonestidade intelectual, a má fé, a fraude deliberada, a enganação dos incautos e dos mal-informados, enfim, uma barreira contra a submissão indevida e eticamente duvidosa a idéias erradas e atitudes moralmente condenáveis.
Por exemplo: defender ditaduras, me parece uma atitude não apenas suspeita, mas moralmente abjeta. Observar um tratamento seletivo dos direitos humanos também me parece não apenas questionável, como digno de repúdio e de censura moral.

Tenho a impressão de que Clausewitz concordaria com os meus argumentos e estaria de acordo em que eu use este blog de acordo com o seu manual sobre a guerra.
Minha guerra é contra a mediocridade, a estupidez, a mentira, a fraude e a falta de transparência nos assuntos públicos.

Como não tenho tropas, a não ser minha própria capacidade pensar e escrever, com a ajuda de minhas únicas armas que são dois computadores, fico na minha trincheira fazendo meu trabalho de defesa de certos valores e princípios.
Não tenho sequer capacidade de dissuasão, apenas o poder do convencimento pela aplicação de algumas evidências evidentes (se me permitem a redundância), a lógica elementar, a observação dos fatos, a reflexão ponderada, e a exposição de argumentos que espero condizentes com a realidade do mundo; la verità effetuale delle cose, como diria Maquiavel.

Meu blog é uma trincheira clausewitziana da verdade...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
1716) Von Blog: Clausewitz e a estrategia blogueira da defesa 

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E agora Madame IA:

A Trincheira Clausewitziana contra as Imposturas Intelectuais
No ensaio intitulado "Von Blog: Clausewitz e a estratégia blogueira da defesa", o embaixador e cientista político Paulo Roberto de Almeida estabelece um paralelo inventivo e rigoroso entre a teoria militar clássica e a atuação no debate público digital. Escrito originalmente em 2010 e revisitado no contexto do vigésimo aniversário de seu blog Diplomatizzando, o texto utiliza as formulações do general prussiano Carl von Clausewitz para justificar a existência de seu espaço virtual como uma ferramenta de resistência e combate cultural. A análise a seguir decompõe os pilares dessa argumentação e avalia criticamente suas implicações conceituais e éticas.
A Doutrina da Defesa e a Descentralização Meritocrática
O argumento central do autor repousa sobre dois conceitos fundamentais extraídos da obra de Clausewitz: a primazia da postura defensiva e a necessidade da meritocracia no desenvolvimento estratégico. Almeida recupera a premissa clausewitziana de que uma preparação defensiva de excelência constitui, por si só, uma sólida estratégia de dissuasão capaz de pavimentar o caminho para a vitória. Ao transpor essa lógica para o universo dos blogs, o diplomata passa a enxergar sua página não como um mero diário de opiniões, mas como uma verdadeira trincheira armada contra o avanço do que ele define como insensatez, burrice, fraude deliberada e desonestidade intelectual.
Adicionalmente, o texto destaca a visão progressista de Clausewitz em oposição ao monopólio aristocrático dos postos de comando no exército prussiano da época. O autor traça uma analogia direta entre o combate ao "pedigree" nobiliárquico ineficiente e a democratização do debate propiciada pela internet. Na visão de Almeida, o ambiente blogueiro rompe com os privilégios das elites institucionais, permitindo que a relevância e a autoridade sejam conquistadas estritamente pelo mérito da argumentação, pela densidade do conhecimento exposto e pelo rigor analítico.
Valores Universais e o Combate à Mediocridade Pública
Na delimitação do seu "teatro de operações", o embaixador confere um forte teor ético e moral às suas manifestações públicas. Ele define que a finalidade última de sua trincheira virtual é a proteção de princípios democráticos e humanitários fundamentais. O autor é categórico ao classificar a defesa de regimes ditatoriais e a aplicação seletiva dos direitos humanos como atitudes moralmente abjetas e dignas de repúdio.
Reconhecendo as limitações de sua força material por não possuir exércitos ou tropas à disposição, Almeida aponta que suas únicas armas são dois computadores e sua capacidade de articulação intelectual. O poder de persuasão de sua escrita, portanto, não emana da coerção ou da dissuasão bélica, mas sim do compromisso com a exposição de evidências factuais, a aplicação da lógica elementar e a busca pelo que Maquiavel denominava la verità effetuale delle cose — a verdade efetiva das coisas. O blog assume, assim, a identidade de um bastião voltado à transparência e ao enfrentamento da mentira nos assuntos de interesse público.
Análise Crítica do Posicionamento Estratégico
Sob uma perspectiva crítica, a construção discursiva de Paulo Roberto de Almeida revela-se altamente eficaz na autojustificação do papel do intelectual na era digital, mas também carrega tensões inerentes à metáfora militar escolhida. Ao enquadrar o debate de ideias sob a ótica estrita da guerra clausewitziana, o autor assume uma postura de polarização epistemológica na qual o interlocutor divergente corre o risco de ser sumariamente rotulado como "inimigo" ou portador de "má-fé" e "estupidez". Essa abordagem combativa, embora compreensível dentro de um espírito de resistência a narrativas autoritárias, pode eventualmente enrijecer o espaço de mediação e o pluralismo que caracterizam as democracias saudáveis.
Por outro lado, o mérito inegável do texto reside na sua defesa intransigente da racionalidade e do rigor factual em um ecossistema digital crescentemente marcado pela desinformação e pelo esvaziamento do debate público. Ao reivindicar Maquiavel e Clausewitz, Almeida eleva o padrão das discussões na blogosfera, demonstrando que a agilidade e a fragmentação da internet não precisam resultar no sacrifício da profundidade intelectual. A longevidade de seu projeto editorial, mencionada nas notas periféricas da página, serve como um testemunho prático da eficácia de sua estratégia defensiva, consolidando o espaço como um ponto de referência para o pensamento independente e de oposição à mediocridade política e cultural.




Tentando classificar meus "18 leitores" - Paulo Roberto de Almeida

Aproximadamente três lustros atrás, eu me interrogava sobre aqueles bravos leitores que ousavam ler, comentar e criticar, o meu "quilombo de resistência intelectual". Eis o que escrevi:

2106. “Aos frequentadores de meus blogs e site: algumas considerações”, Brasília, 29 janeiro 2010, 4 p. Tipologia dos visitantes nos blogs e site, divididos em: 1) Fiéis leitores; 2) Passantes ocasionais, leitores de oportunidade; 3) Anônimos, furiosos, ou não... e 4) Anônimos “anônimos”, ou seja, visitantes incógnitos. Postado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/01/1874-aos-frequentadores-de-meus-blogs-e.html

Aos frequentadores de meus blogs e site: algumas considerações

 

Paulo Roberto de Almeida

Blog Diplomatizzando

(http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/01/1874-aos-frequentadores-de-meus-blogs-e.html)

 

Por vezes, tenho a impressão de que estou sendo espiado por cima do ombro, enquanto trabalho, o que aliás não é apenas uma impressão, e sim a verdade.

Quem mantem um site como eu, por razões essencialmente didáticas, e diversos blogs especializados -- cada um para uma necessidade específica -- só pode se sentir espionado, pois é isso que ocorre de fato, ainda que eu apenas tenha indicações indiretas desses atos de "espionagem".

Algumas são explícitas, pois os mais corajosos fazem comentários, de diversos tipos, e só posso agradecer a atenção, mesmo quando me atacam, nesse caso anonimamente. Outras são apenas implícitas, e se revelam em comentários orais de interlocutores ocasionais.

Com base nessas impressões impressionistas, creio que posso traçar uma: 

 

Tipologia dos frequentadores dos meus blogs

 

1) Fiéis leitores

Suponho que sejam todos aqueles inscritos como "seguidores" no rodapé desses blogs, em especial este aqui. Alguns têm sua identidade totalmente, revelada, outros assumem personalidades interessantes, atores ou personagens de cinema, de histórias em quadrinho, não importa. Também suponho que sejam pessoas que, como eu, sempre querem aprender algo novo, posto que meu blog é feito basicamente para meu próprio aprendizado, ademais de servir de "depósito de materiais úteis". Muitos deles dialogam comigo, através da janela de comentários. Quero dizer-lhes que muito aprecio seus comentários, posto que eles me dão a oportunidade de saber o que vai na cabeça de meus leitores, aprender um pouco com eles, e tentar aperfeiçoar a informação ou análises que disponibilizo nesses blogs. Grato, sinceramente.

 

2) Passantes ocasionais, leitores de oportunidade

São aqueles que buscam algo na internet, estudantes desesperados para terminar, na última hora, algum trabalho acadêmico, candidatos à carreira diplomática, pesquisadores de algum tema com interface em meus focos de trabalho, que acabam tropeçando com algum post meu -- geralmente algum antigo, do qual já me havia esquecido -- e, por acaso, vencendo a timidez, acabam deixando um comentário, não necessariamente de modo anônimo, posto que seu interesse é legítimo e focado naquela objeto ocasional. Eu também lhes sou grato pelos comentários -- embora saiba que a imensa maioria, a quase totalidade, passa sem deixar traços -- pois isso representa uma espécie de gratificação moral, já que indica que meus posts, muitos deles colocados laboriosamente madrugada adentro, podem ser de alguma utilidade para algum necessitado de ocasião. Muitos deles corrigem pequenos erros em minha informação, ou reclamam de que tal coisa está incompleta. Também tem aqueles que fazem comentários de natureza política, ou moral, o que também é interessante...

 

3) Anônimos, furiosos, ou não... 

Devo dizer que a maior parte dos comentários que recebo são feitos por anônimos (enfim, alguns "anônimos" assinam o nome no corpo da mensagem, mas a maioria não o faz). Trata-se, portanto, de uma grande categoria de visitantes, alguns frequentes (que ficam me vigiando, ou seguindo), outros puramente esporádicos e erráticos (sua presença, não suas pessoas). Uma "espécie" de anônimos me descobriu por acaso e como algum post meu lhes deu prazer (quer dizer que se conformou às suas próprias opiniões) acabam escrevendo para me cumprimentar, apoiar, agradecer, whatever... Outra "espécie" de anônimos, ao contrário, fica furiosa, seja com a matéria postada, seja em relação às minhas posições; esses escrevem, então, de maneira indignada, por vezes até ofensiva, para retrucar, me chamar de idiota, ou algo do gênero. Confesso que costumo postar tudo -- de fato, provavelmente 99 por cento do me chega -- pois não me importam as críticas, a menos que sejam totalmente impertinentes ao objeto do post, ou estejam em linguagem ofensiva aos demais leitores (o que é extremamente raro, porém). Mesmo quando eles são especialmente ofensivos, ou agressivos, também creio que devo agradecer a esses anônimos furiosos, pois eles me ajudam a ser eu mesmo mais tolerante, a aperfeiçoar minhas postagens, enfim, a fazer deste instrumento livre uma fonte mais fiável e mais interessante de informações. Como esses anônimos me visitaram uma vez, existe alguma probabilidade de que o façam novamente, e não quero decepcioná-los novamente (embora eu não me incomode de decepcionar os intolerantes, os fundamentalistas, os sectários). Grato a todos, portanto.

 

4) Anônimos "anônimos", ou seja, visitantes incógnitos

Estes são uma categoria especial  que confesso não sei como classificar. Alguns são simples curiosos, outros fofoqueiros, alguns tem ciúme de minha produção, outros me detestam, de todo coração (se ouso dizer), vários percorrem meus posts simplesmente para terem motivo de me atacar, na academia, na carreira, por qualquer motivo que seja, dos mais desinteressados aos mais mesquinhos. Estou obviamente imaginando tudo isso, talvez me dando mais importância do que eu tenha, realmente, mas é o que sinto por vezes, por sinais indiretos (aquela coisa de um comentário rápido num corredor, num restaurante, numa menção de terceiros). Alguns desses comentários rápidos e muito ocasionais são até bem intencionados, do tipo: "Veja, andam dizendo por aí que você anda se expondo demais, exagerando nos seus textos, isso pode lhe prejudicar...". Outros não dizem absolutamente nada, embora eu perceba que viram alguma coisa e não dizem nada diretamente, mas vão comentar depois, geralmente de forma depreciativa ao meu comportamento. Creio que não tenho nada a agradecer a estes últimos, posto que eles não gostam de mim, mas eu pouco me importo com eles. Acho que sou indiferente ou infenso a fofocas...

 

A todos eles eu gostaria de dizer o seguinte:

Não tenho por hábito me preocupar com a opinião das pessoas sobre mim ou sobre o meu trabalho, minhas ideias, minha produção intelectual. Jamais eu faria algo para dar prazer a alguém, quero dizer, para ser Mister Nice Guy, simpático a alguém ou alguma causa, qualquer que seja ela. Eu apenas escrevo aquilo que desejo escrever, as simple as that... Não tenho por hábito pedir permissão a ninguém para expressar minhas opiniões; considero-me um ser absolutamente livre, tanto quanto possível no quadro de uma carreira burocrática que tem um pouco de Vaticano e outro tanto de Forças Armadas, ou talvez confraria maçônica. Tudo o que eu faço corresponde a uma necessidade interna, geralmente curiosidade intelectual, ou no caso dos blogs - que são por definição muito rápidos e por vezes irrefletidos -- uma simples necessidade de registro, de "depósito" de materiais para recuperar "algum dia".

Cada um deve assumir responsabilidade por seus atos, dizeres, escritos. Eu assino embaixo de cada peça terminada, e mantenho uma lista completa (ou quase) de todos os meus escritos, e não tenho absolutamente nada a esconder de ninguém. Quem não gosta de mim, ou de minhas opiniões, obviamente não é obrigado a ler meus textos ou a expelir algum comentário irritado em algum post meu.

De toda forma, creio que continuarei a agradar alguns, a irritar outros, a ajudar desconhecidos, mas sobretudo dar prazer a mim mesmo. Trata-se, provavelmente, de uma segunda natureza, esta minha, anárquica e irritante, de fato, mas não creio que deva mudar agora.

 

Em todo caso, boa noite a todos...

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 29.01.2010


Republicado em 16 junho 2026.

Governo Trump ajuda a criminalidade brasileira, ao classificá-las como organizações terroristas - minha opinião, Paulo Roberto de Almeida

A partir desta sexta-feira 19/06/2026, passa a valer a classificação do governo Trump (um governo que não tem nada a ver com as administrações americanas normais) das duas organizações criminosas do Brasil PCC e CV como grupos terroristas.
Minha opinião sobre essa bobagem:

As decisões do governo TRUMP, que não considero como representativo dos EUA ou de sua diplomacia (diminuída, espezinhada, maltratada, infelizmente), mas da tropa de incompetentes submissos que o cercam – uma tropa muito pior da que o assessorou no primeiro mandato –, constituem:
1) um atentado ao bom-senso, uma vez que esses grupos criminosos NÃO reunem as características básicas dos grupos terroristas;
2) uma pressão política indevida, ilegítima e desrespeitosa ao Brasil;
3) um prejuízo para ambos os países na conformação de iniciativas e programas conjuntos para combater a criminalidade tradicional;
4) uma rendição deplorável de uma política que deveria ser de Estado – no âmbito da Justiça, dos serviços aduaneiros e de segurança – para convertê-la numa ação política que responde a demandas da ultra-direita bolsonarista (nos EUA) contra o atual governo brasileiro, ou seja, uma tomada de posição que já representa uma intervenção nos assuntos internos do Brasil; e
5) uma militarização indesejável do combate a esses grupos criminosos, que deveriam ser investigados e perseguidos ao abrigo das legislações nacionais de segurança cidadã, e não convertidas em objeto de forças armadas, que não estão equipadas para esse tipo de repressão.
Ou seja, nada menos do que cinco razões pelas quais essa designação é um retrocesso na cooperação bilateral (regional e multilateral) no combate à criminalidade transnacional. Essa decisão vai atrapalhar, retardar, prejudicar a missão das forças de segurança dos dois países, em lugar de reforçar o combate apropriada a essas gangues.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 16/06/2026

 

Limmericks - dois poemas de Paulo Roberto de Almeida

 1721. “Limmericks”, Brasília, 4 fevereiro 2007, 1 p. Dois poemas no formato requerido por esse tipo de composição, com rimas aabba, sobre a honestidade intelectual e o meu projeto de vida. Postado no blog Diplomatizzando, n. 697 (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2007/02/697-limmericks.html


Limmericks

Como sabem muitos (mas nem todos), “limmericks” é uma forma de expressão poética contendo algum ensinamento prosaico, ou mesmo um divertimento passageiro, organizada em cinco estrofes, que sempre combina duas rimas na forma aabba.
Não sei se tenho jeito para essas coisas, mas vou tentar arriscar...


Honestidade intelectual

Honrar a palavra dada
Recusar a verdade revelada
Ser, no equilíbrio, um cético
Manter comportamento ético
É ao que aspiro, antes de mais nada


Projeto de vida

Ampliar conhecimento
É o meu empreendimento
Propagar sabedoria
Distribuir benfeitoria
Eu vivo para esse invento...

Uma previsão marxista... - Paulo Roberto de Almeida

Uma previsão marxista...

Paulo Roberto de Almeida

“A produção capitalista acarreta, com a inexorabilidade de uma lei da natureza, a sua própria negação.”
Karl Marx, O Capital.

        Marx não foi apenas um cientista social, ou um filósofo, como muitos pretendem, ou ainda um economista, como ele próprio pretendia. Ele foi também um profeta. Todos os profetas traduzem algum sentimento de insegurança que perpassa a sociedade de seu tempo; eles sempre atuam sobre os medos e as incertezas que todos ostentam quanto ao futuro – por definição, sempre desconhecido – e ousam antecipar caminhos de ruptura, antevendo, ou até prevendo, catástrofes, ou prometendo a redenção das sociedades nas quais vivem. Eles estão geralmente errados, aliás totalmente equivocados, na maior parte das vezes, o que não os impede de adquirirem fama – eventualmente fortuna, também – e de posarem de agentes da mudança, ainda que de maneira involuntária (muitas vezes de forma irresponsável, ao não anteciparem o grau de sofrimento humano e as perdas sociais trazidas pelas grandes soluções de “ruptura”, por eles propostas).
        Marx foi um desses “catastrofistas” do primeiro capitalismo, escrevendo sobre os horrores da Inglaterra vitoriana e antecipando um futuro de abundância e de bem-estar por meio do estabelecimento de um sistema que seria capaz de superar as deficiências visíveis do capitalismo do seu tempo: as longas horas de trabalho, a super-exploração do trabalho de mulheres e crianças, as condições insalubres de produção – sem falar das condições de habitação e alimentação, mas disso, pelo menos, os capitalistas não podem ser considerados responsáveis – a concentração de riquezas e de poder nas mãos de uns poucos. Marx profetizou que esse sistema alternativo, chamado de socialismo, liquidaria, simplesmente, com a “exploração do homem pelo homem”, sem explicar, porém, como seria possível organizar a produção de bens – ele preferia não falar de mercadorias para o novo modo de produção, pois acreditava, equivocadamente, que a sociedade socialista poderia prescindir de mercados – em bases igualitárias e sem qualquer linha de comando, posto que isto sempre implica uma certa desorganização do processo social de produção.
        Marx foi, também, um dos maiores profetas dos tempos presentes. Ele previu, por exemplo, a globalização capitalista. Acertou totalmente. Apenas não podia antecipar que o sistema sonhado e acalentado por ele, o socialismo estatal, iria atrasar e atrapalhar a globalização capitalista em pelo menos três quartos de século. Esse foi, paradoxalmente, o papel histórico do socialismo soviético, que, junto com os fascismos dos anos 1930 e as diversas formas de coletivismo econômico do século XX, atrasou a globalização capitalista em mais ou menos 70 anos. Os discípulos modernos de Marx, inconsequentes quanto ao sentido profundamente globalizador da sua mensagem – ela está no Manifesto do Partido Comunista, de 1848 – continuam tentando atrapalhar o itinerário avassalador da globalização capitalista, o que só pode delongar, na visão marxista, o advento tão esperado da sociedade socialista. Sim, claro: a mensagem marxista sobre a necessidade da globalização do capital é a de que, com ela, estaria sendo acelerado o processo histórico que traria, inelutavelmente, a implantação do socialismo.
        Marx foi um messiânico, um milenarista, um salvacionista, um profeta do fim dos tempos, inteiramente em linha com a tese sobre o fim da história de seu mentor e mestre repudiado: Friedrich Hegel. Ainda que os antiglobalizadores atuais – que são todos um pouco de esquerda, como convém – protestem contra a proposta de Francis Fukuyama, ela é inteiramente consistente com a escatalogia marxista, que previa o fim da história a partir do advento do socialismo. Falo em “proposta” porque os críticos mais ferozes de Fukuyama provavelmente nunca leram o seu ensaio e provavelmente nem se deram conta de que o título traz um ponto de interrogação, confirmando que o autor pretendia debater uma tese, não antecipar um resultado. Ele sequer chegou a prever (inclusive por que seria anacrônico naquele momento) o fim da União Soviética enquanto Estado centralizado e passavelmente autoritário, tendo se contentado em propor, ou até antecipar – como pequeno profeta que foi –, que a derrocada dos regimes economicamente centralizados e politicamente autoritários inaugurava uma nova era na qual escolhas fundamentais iriam girar em torno do modelo das democracias de mercado. Ele foi um “jovem hegeliano”, como Marx.
        Marx foi excessivamente pessimista quanto ao capitalismo realmente existente em seu tempo e excessivamente otimista quanto ao socialismo do futuro, que ele bosquejou, simplesmente, em duas ou três pinceladas redutoras, do tipo “de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades” (isso não quer dizer nada, não é mesmo?). Fukuyama, por sua vez, foi excessivamente otimista quanto à possibilidades de uma economia puramente de mercado e quanto a um regime político democrático-liberal, desconsiderando, talvez, todos os elementos de autoritarismo embutidos em sistemas econômicos travados pelo baixo crescimento, por imensas desigualdades sociais e por iniquidades educacionais que mantêm a maior parte das pessoas na ignorância política e na incultura econômica. Uma pequena revisão das ditaduras ainda sobreviventes neste século confirma esta constatação, a exceção – sempre existem exceções – sendo a China, com sua excepcional taxa de crescimento econômico e sua ditadura exemplar.
        Marx não se contentou em prever o fim do capitalismo; ele pretendeu fundar uma nova era, ou, pelo menos, um novo “modo de produção”, cuja inelutabilidade decorreria logicamente das contradições do capital, numa síntese dialética que constituiria o seu próprio “fim da história” hegeliano. Sua frase, colocada em destaque na abertura deste pequeno ensaio – “A produção capitalista acarreta, com a inexorabilidade de uma lei da natureza, a sua própria negação” –, oferece menos o ponto de partida de uma digressão filosófica sobre o modo de produção capitalista do que a conclusão finalística para uma tese que já estava provada de antemão: para Marx, o capitalismo iria necessariamente desaparecer – com a abolição de sua forma historicamente específica de realização, a extração de mais valia – para dar lugar a um modo superior de organização social da produção, no qual aquelas contradições já não estariam presentes.
        Marx deixou inconcluso o “manual de instruções” sobre como deveria (ou como poderia) ser construído o sistema que funcionaria, segundo seus promotores, sem qualquer extração de mais valia, isto é, sem a exploração do homem pelo homem. Os economistas da era soviética bem que tentaram estabelecer as bases de uma “economia política marxista” que fizesse a “desconstrução conceitual” da “economia política burguesa” e operasse a economia do socialismo real sobre novas bases, mas não se tem notícia de que a natureza da “exploração” tenha sido radicalmente alterada. Ao que se sabe, o esforço não foi muito bem sucedido, pois que, do contrário, se isso tivesse ocorrido, o “novo” sistema econômico socialista ainda estaria disputando, nos super-mercados da história, as preferências dos consumidores potenciais (sem ter sido reduzido, como atualmente, a dois obscuros redutos nas antípodas do hemisfério norte).
        Marx não foi feliz, portanto, em seu legado, uma vez que o objeto central de sua análise, o modo de produção capitalista, resistiu ao seu profetizado “fim da história”, inistindo teimosamente em viver e conseguindo, inclusive, enterrar o modo de produção alternativo que lhe deveria suceder. A bem da verdade, não foi tanto o capitalismo que enterrou o socialismo – para empregar a expressão utilizada por Kruschev em 1960 –, mas o próprio socialismo que demonstrou, de maneira totalmente autônoma, ser inviável enquanto organização alternativa da produção de mercadorias. Isto se deve a que Marx – e, de forma ainda mais acentuada, Lênin e seus seguidores – desprezou completamente a ação dos mercados, que ele julgava caóticos e necessariamente propensos a crises de super-produção (com o desperdício conseqüente de meios de produção e das próprias mercadorias produzidas).
        Marx e seus sucessores foram infelizes na sua grandiosa empreitada regeneradora da sociedade. A razão é muito simples: eles tentaram contrariar uma das leis econômicas mais simples que se possa conceber em toda a história da humanidade, a lei da oferta e da procura, colocando em seu lugar o planejamento centralizado. Mais grave ainda, eles ignoraram complentamente um instrumento fundamental – não da sociedade capitalista, mas simplesmente de qualquer atividade econômica – e necessário à formação de preços: o cálculo econômico, que é um sinalizador indispensável à escassez relativa de fatores e insumos de produção, substituindo-o pela atribuição administrativa, e arbitrária, de um “valor” de troca. Não contentes, eles pretenderam recusar a retribuição de acordo com o mérito – ou seja, pela quantidade de trabalho embutido numa dada atividade produtiva –, colocando em seu lugar a referida “lei de Gotha” sobre as capacidades e as necessidades. Surpreende que “intelectuais” do século XXI retomem ingenuamente essa fórmula vazia (posto que tautológica), uma vez que essa “lei” não resolve rigorosamente nada do lado da produção, contentando-se em “organizar” generosamente a redistribuição.
        Marx ainda tem muitos seguidores hoje em dia, não exatamente nas faculdades de economia – onde devem ser raríssimos aqueles que ainda pretendem extrair algum sinal de intelegibilidade de um livro gótico como O Capital –, mas mais precisamente nas ditas humanidades, onde é maior o número de professores e alunos completamente afastados dos circuitos normais da produção capitalista e que podem, talvez, se conceder o ócio (remunerado?) de pontificar sobre a “dominação do capital” e a “hegemonia burguesa” sem que alguém lhes venha cobrar um mínimo de coerência ou algum comprometimento com a realidade. Não sei o que pensaria Marx, se vivo fosse, de seus atuais seguidores. Ele provavelmente balançaria a cabeça e diria: “mas eles não entenderam nada...”
        Marx, presumivelmente, não estaria marchando contra a globalização capitalista ou contra os capitalistas de Davos e de Wall Street: ele estaria pedindo mais globalização e mais dominação do capital, no pressuposto de que isso faria avançar a humanidade para patamares mais elevados de modernização, constituindo novos exércitos industriais, os futuros “coveiros” do capitalismo. Ele certamente não estaria se alinhando com os antiglobalizadores de Paris, de Porto Alegre ou de Caracas, pois acharia suas “teses” – se é que elas existem, pois ainda não se viu quais propostas poderiam se abrigar sob esse conceito – muito confusas e impregnadas de proudhonismo romântico: ele tenderia a considerar esse ajuntamento heteróclito de jovens idealistas e de velhos esquerdistas reciclados um bando de anarquistas incuráveis, de bakuninistas irrecuperáveis, aos quais faltam organização e princípios claros para se oferecerem como a vanguarda da classe do futuro.
        Marx, provavelmente, viajaria regularmente a Davos (a convite, com tudo pago), para dialogar (unilateralmente, claro) com os capitalistas globalizados da atualidade, que já não usam mais aquelas cartolas rombudas do seu tempo, mas que continuam a fumar charutos e a contar dinheiro (agora bem mais virtual). Não é certo que ele recorresse a alguma versão modificada do “esqueçam o que eu escrevi”, mas existem indícios de que ele estaria colaborando regularmente com o Financial Times e com a The Economist – que já existia na sua época –, defendendo a globalização capitalista dos ataques mais irracionais dos bakuninistas enraivecidos e dos proudhonianos confusos que tentam convencer os cidadãos de boa vontade de que “um outro mundo é possível”.
        Marx nem precisaria escrever qualquer panfleto vitriólico sobre a “miséria da antiglobalização”. Ele simplesmente pediria aos antiglobalizadores que, em lugar de slogans pouco esclarecedores, eles fizessem o que ele já tinha feito, em seu tempo: sentar os traseiros em alguma cadeira de biblioteca e produzir, com base em relatórios sobre o funcionamento do modo de produção capitalista e suas realizações efetivas, a “economia política” desse “outro mundo possível” que eles tanto pregam. Quaisquer alternativas, finalmente, têm de ser apresentadas, no mínimo, com as “instruções de uso”. Marx poderia hipoteticamente dizer que, sem que se consiga vislumbrar um mínimo de consistência nas “idéias” exibidas pelos antiglobalizadores, fica muito difícil entender quais seriam, exatamente, as críticas que eles pretendem fazer ao atual ciclo do modo capitalista de produção, que aparentemente ainda está em sua juventude.
        Marx, num ponto, poderia parafrasear, um século e meio depois, sua afirmação em epígrafe: “A globalização capitalista acarreta, com a inexorabilidade de uma lei da natureza, a sua própria negação”. Os antiglobalizadores estão aí, para provar o acertado desta tese. Mas, como ele mesmo afirmou, na abertura do seu Dezoito Brumário: a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Aparentemente, o circo da antiglobalização está se repetindo como uma comédia de equívocos, já que não consta que, dos seus encontros ruidosos e perfeitamente globalizados, alguma proposta coerente e factível, para superar o atual ciclo da globalização capitalista, esteja sendo forjada pelos arautos do movimento alternativo.
        Marx disse uma vez que, do seu ponto de vista, ele não se considerava marxista. Caso pudesse retornar ao nosso convívio, ele talvez ele pudesse acrescentar que já não se “fazem” mais marxistas como antigamente...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 de setembro de 2006.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Comentários interpretativos de Madame IA à minha entrevista no BM&C Talks - Paulo Roberto de Almeida

Comentários interpretativos de Madame IA à minha entrevista no BM&C Talks 

5355. Brasil perdeu o rumo na diplomacia? Embaixador expõe bastidores do Itamaraty”, São Paulo, 12 maio 2026, 54 ms. Entrevista concedida ao professor Carlo Cauti (Ibmec-SP), no quadro do programa BM&C Talks (link: https://www.youtube.com/watch?v=AueVj0TmxmY). Divulgado nos meus canais de comunicação social: Facebook, X, Threads, Linkedin, blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/brasil-perdeu-o-rumo-na-diplomacia.html). Transcrição dos comentários de Madame IA, comandados por Airton Dirceu Lemmertz, que resumiu bastante bem o conteúdo de minha entrevista, conformando assim, um substitutivo a um texto original; comentários postados no blog Diplomatizzando (link: ). Relação de Publicados n. 1651.


Brasil perdeu o rumo na diplomacia? Embaixador expõe bastidores do Itamaraty

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Transcrição dos comentários de Madame IA, comandados por Airton Dirceu Lemmertz, que resumiu bastante bem o conteúdo de minha entrevista, conformando assim, um substitutivo a um texto original.

 

 Brasil perdeu o rumo na diplomacia? Embaixador expõe bastidores do Itamaraty”, São Paulo, 12 maio 2026, 54 ms. Entrevista concedida ao professor Carlo Cauti (Ibmec-SP), no quadro do programa BM&C Talks (link: https://www.youtube.com/watch?v=AueVj0TmxmY). Divulgado nos meus canais de comunicação social: Facebook, X, Threads, Linkedin, blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/brasil-perdeu-o-rumo-na-diplomacia.html). comentários postados no blog Diplomatizzando (link: ). Relação de Originais n. 5355. Publicados n. 1651. 

Transcrição dos comentários de Madame IA: 

 

Brasil perdeu o rumo na diplomacia? Embaixador expõe bastidores do Itamaraty - entrevista a Carlo Cauti, Paulo Roberto de Almeida (BM&C Talks, 12/05/2026):

YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=AueVj0TmxmY

Blog Diplomatizzando (15/06/2026);

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/brasil-perdeu-o-rumo-na-diplomacia.html 

 

*Abaixo, a análise de Gemini (IA do Google), considerando os parâmetros/comandos previamente estabelecidos, em relação ao conteúdo do vídeo no YT:

 

Capítulo I: Análise Crítica da Trajetória e das Posições de Paulo Roberto de Almeida frente aos Espectros Políticos

O programa BM&C Talks promoveu uma discussão aprofundada a respeito dos rumos da política externa brasileira, tendo como figura central o embaixador Paulo Roberto de Almeida. O diplomata, cuja trajetória confunde-se com a própria história contemporânea do Itamaraty, apresenta uma identidade intelectual marcada por uma contundente independência analítica (1:49). A biografia do embaixador revela um padrão de enfrentamento e subsequente tensionamento com variados regimes políticos que governaram o país nas últimas cinco décadas (1:49). Durante o período da ditadura militar, mesmo após ter sua ficha avaliada como limpa para o ingresso na carreira, Almeida acabou classificado como um elemento subversivo pelos órgãos de repressão devido ao seu posicionamento contrário ao regime autoritário (1:40). [1, 2]

A transição para o regime democrático não arrefeceu a postura crítica do diplomata, que veio a sofrer ostracismo institucional durante os períodos sob a égide do lulupetismo e, posteriormente, do bolsonarismo (2:41). O embaixador relata que sua remoção para funções burocráticas na biblioteca da instituição decorreu do fato de as administrações daquela época considerarem sua postura analítica excessivamente autônoma em relação às diretrizes partidárias (2:41). Sob a égide do bolsonarismo, o isolamento aprofundou-se quando ele se posicionou contra a condução que transformou o Brasil em um pária no cenário internacional (3:26). Essa sucessão de punições e afastamentos, oriunda de governos situados em polos opostos, evidencia que o pensamento do embaixador recusa o enquadramento nas matrizes ideológicas simplistas da polarização política contemporânea (4:26).

 

Capítulo II: Decodificação das Práticas Diplomáticas e os Desvios Ideológicos na Formulação da Política Externa

Subcapítulo II.I: O Surgimento dos Cacoetes Militares e a Subversão do Pensar Diplomático

A análise do funcionamento interno do Itamaraty traz à tona termos estruturantes que demandam decodificação conceitual. O embaixador aponta que a corporação herdou do período ditatorial dois elementos organizacionais denominados cacoetes militares, os quais são a hierarquia e a disciplina (13:05). Enquanto esses fatores se revelam indispensáveis para o cumprimento de ordens táticas no teatro de operações das forças armadas, sua transposição mecânica para o corpo diplomático produz uma paralisia nociva (13:15). A decodificação dessa dinâmica revela que o bom diplomata não deve se equiparar a um soldado executor, visto que suas funções de informação, representação e negociação exigem, prioritariamente, a capacidade autônoma de pensar a coerência das instruções recebidas em face do real interesse nacional (13:45).

 

Subcapítulo II.II: O Chanceler de Fato e a Deformação das Alianças Estratégicas

Outra expressão codificada pelo debate refere-se à atuação do assessor especial para assuntos internacionais, caracterizado historicamente no governo do Partido dos Trabalhadores por figuras como Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim (21:27). Na prática operacional, esses assessores atuaram como o chanceler de fato, esvaziando a autoridade técnica do Ministério das Relações Exteriores em benefício de uma agenda marcadamente partidária (10:13). Essa interferência resultou no alinhamento com regimes autoritários na América Latina e na adesão ao que o diplomata classifica como um antiamericanismo anacrônico (10:23). A conversão do BRICS de uma plataforma estritamente econômica para um bloco diplomático engessado exemplifica essa distorção, atrelando o Brasil aos interesses geopolíticos de duas grandes autocracias nucleares, a China e a Rússia (10:57).

 

Capítulo III: O Desmantelamento da Ordem Multilateral e a Crise de Governança das Instituições Mundiais

Subcapítulo III.I: O Estado Terminal da Organização Mundial do Comércio

O cenário internacional contemporâneo expõe a falência progressiva das estruturas que garantiram a estabilidade global no pós-Segunda Guerra Mundial (5:34). A Organização Mundial do Comércio, que teve seu ápice nas rodadas de negociação do final do século passado, encontra-se atualmente em um estado terminal de paralisia operacional (16:02). O desmantelamento dessa estrutura decorre diretamente do assalto aos fundamentos doutrinais do livre comércio, impulsionado pelas práticas tarifárias unilaterais iniciadas no primeiro mandato de Donald Trump e consolidadas em sua segunda administração (21:45). Essa postura chauvinista destruiu o princípio de nação mais favorecida e forçou o sistema global a retroceder para um emaranhado de acordos bilaterais impositivos, onde a truculência das superpotências anula a segurança jurídica dos países médios (21:57).

 

Subcapítulo III.II: A Ineficácia do Conselho de Segurança e a Ilusão do Assento Permanente

De igual maneira, a Organização das Nações Unidas demonstra uma incapacidade crônica de mediar e conter os conflitos geopolíticos modernos, falhando sucessivamente em impedir agressões unilaterais na Ucrânia e no Oriente Médio (27:30). Diante desse quadro de obsolescência, a histórica reivindicação diplomática brasileira por um assento permanente no Conselho de Segurança é avaliada de forma altamente crítica (26:57). O embaixador argumenta que a ampliação do colegiado para dez ou quinze membros permanentes apenas aprofundaria a paralisia decisória já existente devido às divergências irreconciliáveis entre as potências (30:31). A busca por tal prerrogativa é vista como uma obsessão de caráter puramente ideológico e de prestígio abstrato, afastando o Brasil de suas prioridades reais, que deveriam focar no desenvolvimento socioeconômico interno e na cooperação internacional prática (30:47).

 

Capítulo IV: O Isolamento Econômico e os Gargalos Estruturais do Desenvolvimento Nacional

Subcapítulo IV.I: O Modelo Substitutivo e o Enimesmamento Comercial

O subdesenvolvimento relativo do Brasil é explicado por uma perspectiva histórica que remonta ao clássico debate econômico entre Eugênio Gudin e Roberto Simonsen (46:13). Embora Gudin detivesse o rigor teórico ao defender as vantagens comparativas, a modernização agrícola e a austeridade fiscal, foi o modelo industrialista e protecionista de Simonsen que acabou adotado de forma sistemática pelas elites políticas desde a Era Vargas (46:33). Essa escolha resultou em um severo isolamento econômico do país em relação às grandes correntes de valor globais (45:57). O coeficiente de abertura externa da economia brasileira permanece flagrantemente medíocre, equivalendo à metade da média registrada por outras nações em estágio similar de desenvolvimento, o que perpetua o aprisionamento do parque produtivo nacional em um ambiente introvertido e dependente de subsídios estatais (47:11).

 

Subcapítulo IV.II: O Déficit Educacional Centenário e o Custo do Estado Patrimonial

O principal entrave à inserção soberana do país no cenário internacional não reside nas barreiras tarifárias externas, mas sim em uma severa crise de governança interna e na ausência crônica de uma população educada (49:02). Sob o ponto de vista qualitativo, as instituições de ensino brasileiras situam-se mais de um século atrás das potências avançadas (50:02). Esse cenário de precariedade educacional é agravado por uma estrutura estatal de caráter prebendalista e patrimonialista, que drena os recursos da sociedade para sustentar os privilégios financeiros da alta tecnocracia e da aristocracia do poder público (45:41). A carga tributária brasileira atinge patamares absurdos e asfixiantes, comparáveis aos índices de nações desenvolvidas, sem que haja o retorno correspondente em infraestrutura, produtividade ou inovação tecnológica (51:51). O debate encerra-se com uma perspectiva sombria a respeito da polarização política, que condena o país a repetir continuamente os equívocos do passado (53:35).

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5355, 12 maio-15 junho 2026, 4 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (15/06/2026; link: Comentários interpretativos de Madame IA à minha entrevista no BM&C Talks - Paulo Roberto de Almeida).

 

 

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