domingo, 5 de julho de 2026

EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque - O Estado de S. Paulo

 EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

Capa do video - EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

O passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência. 

O Estado de S. Paulo, 4/07/2026

https://www.estadao.com.br/internacional/eua-250-anos-o-sonho-americano-em-xeque/?srsltid=AfmBOoqUuIfvndK4j92y1Vgt-_eMazMBugnFKMY8OeiEAepL63X692qT

 

BRASÍLIA E SÃO PAULO — Esse é o momento mais grave das relações entre o Brasil e os Estados Unidos em mais de 200 anos. O assombro e a perplexidade com a aparente falta de diálogo, a aposta no unilateralismo e as mudanças provocadas pela presidência de Donald Trump, além do comportamento do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, estão entre os ingredientes dessa situação e são descritos por diplomatas entrevistados para o projeto Memórias da Diplomacia da Brasileira, uma parceira do Museu da Pessoa e da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB).

O Estadão consultou uma dezena dessas entrevistas, feitas sob a curadoria do jornalista e historiador Mauro Malin. Os entrevistados, como o embaixador Rubens Ricupero, serviram nos EUA e contaram a sua experiência, bem como avaliaram a atual situação da relação entre os dois países após o tarifaço de Trump. “Em Washington, o êxito ou não do teu trabalho depende das condições do país que você representa e eu, quando era embaixador lá, já tinha começado no Brasil a investigação do impeachment do (presidente Fernando) Collor. E depois houve o agravamento da inflação; o Brasil estava muito mal”, disse Ricupero

Na época, segundo o diplomata, o país latino-americano mais festejado nos EUA era o México, em razão do acordo de livre comércio. “Depois, admiravam muito o Chile. A própria Argentina de (Carlos) Menem. O Brasil era visto como um país muito complicado”, contou. A solução para lidar com essa imagem foi procurar think tanks e organizar seminários na embaixada brasileira, em Washington.

“E foi uma experiência boa. Agora, eu acho que não, com esse presidente que eles têm hoje, o Trump, é o momento mais grave do relacionamento com o Brasil. Nunca vi nada parecido em 200 anos de relação”, afirmou. Para ele, não há nada que se assemelhe ao momento atual. “Porque mesmo no golpe de 1964, que eles participaram da conspiração, mas não eram ostensivos, eles faziam isso clandestinamente. Dessa vez, é público, notório, ostensivo, com declarações de apoio a (Jair) Bolsonaro. Se isso continuar, é muito grave, porque nós vamos chegar às eleições e eles vão querer influir sobre as eleições”, disse Ricupero.

Para ele, no entanto, o tiro vai sair pela culatra. “Porque vai ajudar mais o presidente Lula do que o Bolsonaro, mas é uma tensão muito grande na relação com o Brasil.” O embaixador lembrou outro momento grave das relações entre os dois países: os meses que antecederam o golpe de estado de 1964. Em dezembro de 1962, ele testemunhou a visita inesperada ao Brasil de Robert Kennedy. Irmão do presidente americano John Kennedy, Robert era o chefe do Departamento de Justiça.

“Ele veio para dar um aperto no (presidente João) Goulart, porque os americanos já estavam conspirando no Brasil contra o governo Goulart, que era um governo de esquerda.” Ricupero contou que já estava deitado, quando o ministro das Relações Exteriores, Hermes Lima, que estava no Rio, telefonou e disse: “Olha, vai chegar o Robert Kennedy, você convoca aí os automóveis da garagem e vai recebê-lo na base militar (de Brasília).”

Ricupero disse: “Mas, ministro, como é que eu vou? Eu sou terceiro-secretário, é a função mais modesta da carreira”. Lima respondeu: “Não, você diz que é o representante do governo brasileiro. Porque eu não posso, estou no Rio de Janeiro e não vou chegar a tempo”. Ricupero foi lá. Robert Kennedy chegou às 2 horas. O embaixador americano em Brasília, Lincoln Gordon, estava ali. De manhã, às 11 horas, Robert foi recebido por Goulart no Palácio da Alvorada.

“Eu nunca soube, aliás nunca ninguém soube o que aconteceu. Apenas agora, 50 anos depois, os americanos publicaram um memorando de 11 páginas em que o Lincoln Gordon conta a conversa, porque na conversa só estava o João Goulart, do nosso lado não tinha ninguém, nem intérprete. E do lado americano tinha o Robert Kennedy, o Lincoln Gordon e o intérprete americano (José de Seabra), que eu conheci até por acaso. Então ele conta, é um aperto enorme, que ele vem dizer: ‘Olha, se isso continuar, você não conta com a nossa ajuda’. Ele diz claramente, ele só não diz que iam dar o golpe, mas é bem próximo disso. É uma entrevista dramática. Eu estava do lado de fora, eu não assisti.”

A dramaticidade dos eventos lembrados por Ricupero foi traduzida para o presente pelo também embaixador Paulo Sérgio Traballi Bozzi. “Estamos enfrentando o leão da montanha. O cara (Trump) é muito poderoso, um homem que tem um porta-aviões que leva 6 mil sujeitos embarcados, e tem 160 aviões de todo tipo e tamanho e sai de casa com uma força-tarefa, um submarino nuclear. Não se pode brincar com esse cara, não dá para brincar com esse cara. Não estou dizendo que temos que nos submeter à vontade dele. Não é isso.”

Além do período que antecedeu a derrubada de Goulart, os diplomatas entrevistados para o registro da memória do Itamaraty lembraram outros momentos das relações entre o Brasil e os Estados Unidos e apontaram também o papel do Brasil nesses episódios. A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej trabalhou em Washington no tempo em que a embaixador do Brasil na capital americana era Marcílio Marques Moreira. “A simpatia pelo Brasil era tanta que o diplomata do Departamento de Estado coava cafezinho, na mesa dele, para me servir um café quando eu chegava. Não é porque eu sou bonitinha, é porque o Brasil tinha um peso, que em algum momento deixou de ter nos EUA.”

Baremboim-Salej atribuiu essa situação ao que chamou de a “politização, a ‘petização’ da diplomacia, em particular da embaixada em Washington”. Para ela, houve muita “pisada de bola” do governo Lula, como o apoio à candidata democrata Kamala Harris nas eleições presidenciais de 2024, quando ela foi derrotada por Trump. Para ela, “não tinha nada que dizer que queria que a Kamala ganhasse as eleições". “Isso é um tipo de ingerência em outros países, que não faz parte da diplomacia brasileira, não podia ter falado e pesou; é um dos fatores que criou o começo do mal-estar com o atual governo Trump.”

O embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima trabalhava em Washington em outro momento importante da história do hemisfério: quando a Argentina decidiu invadir as Ilhas Malvinas, em 1982. “Essa questão do conflito das Malvinas foi muito importante, porque o Brasil tinha um acordo, que se chamava Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Isso significava que se você tivesse uma potência de fora do hemisfério, de fora das Américas, atacando algum país (das Américas), como aconteceu, todos os países das Américas deveriam se apoiar por esse tratado”, contou.

Mas os americanos não fizeram isso. Os EUA decidiram apoiar o Reino Unido e cederam a base da Ilha de Ascensão, no Atlântico Sul, para os britânicos. O Brasil não apoiou os argentinos, mas, de acordo com o diplomata, a decisão de Washington “abalou a confiança na própria liderança americana”. “E mostrou que nós teríamos que buscar um entendimento a respeito da segurança hemisférica.”

Moreira Lima conta que o episódio ajuda a “entender o funcionamento dos poderes, entender o jogo”. “Perceber que, de repente, existe um tratado, acredita-se naquilo e que os americanos iriam apoiar os países da região, mas eles concedem todo o apoio à Inglaterra. Foi interessante. Para o Brasil foi um enorme desafio”, concluiu.

Na época, o Itamaraty adotou uma postura equidistante e conseguiu se credenciar para cuidar dos interesses dos dois beligerantes. Quatro décadas depois, o diplomata se espanta com a situação atual da diplomacia. “Nunca imaginei que fosse viver esse momento, um momento em que estamos nos afastando de uma ordem que tinha seu fundamento no direito.” Segundo ele, de repente, o mundo entrou em um terreno do unilateralismo, que significa uma desconstrução de séculos de tudo que o Brasil contribuiu – até com ajuda dos americanos – para construir.

Mário Vilalva, que foi foi cônsul-geral em Boston (EUA) entre 1996 e 1999, realçou a importância da “facilidade de acesso” para o trabalho dos diplomatas. “Se você não tiver essa facilidade, não consegue nada. Veja hoje o que está se passando aí, que ninguém consegue conversar com o governo norte-americano no momento, não tem facilidade de acesso neste momento”, disse.

O embaixador comparou a crise a partir da chegada ao poder de Trump ao momento em que viveu nos Estados Unidos. Também, naquela época, era preciso levar aos atores políticos e econômicos dos EUA “o conhecimento sobre o que era o Brasil” com o objetivo de evitar que legislações americanas comprometessem as exportações brasileiras. “Hoje, passamos por uma situação muito parecida, em que há um presidente nos Estados Unidos (Trump) que conhece pouco o Brasil e, quando você conhece pouco, você se arrisca a tomar medidas que não são justas”.

O diálogo e a estratégia de levar conhecimento do Brasil aos EUA foi o que fez o embaixador Carlos Alberto Lazary Teixeira. “Fui diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida. Ali desenvolvemos um trabalho importante de projeção do Brasil, de participação em feiras, toda a área comercial”. Esse interesse depende não apenas da diplomacia, mas do momento do País.

Teixeira conta que, após o Plano Real (1994), o interesse dos americanos pelo Brasil cresceu. “Eu fazia oito palestras por ano. No momento em que houve o lançamento do Plano Real, eu fui convidado, no ano seguinte, a fazer mais de 50 palestras. O Brasil entrou no radar com o Plano Real.”

Além da economia, temas como a proliferação de armas atômicas no hemisfério também despertavam a atenção dos americanos. E foram motivo de atritos entre os países. O embaixador Paulo Roberto Almeida, que trabalhou entre 1999 e 2003 nos EUA, contou que, naquela época, o “grande inimigo do Brasil era John Bolton”, descrito por ele como o homem forte do Departamento de Estado. Era Bolton, segundo Almeida, quem proibia a exportação de qualquer material sensível ao Brasil.

“Não estou falando de materiais militares, mas sim de supercomputadores, por exemplo, que você usa para definir clima, ambiente. Você precisa de supercomputadores para fazer a previsão de chuvas. E o John Bolton achava que os supercomputadores seriam usados para simulações de explosões nucleares clandestinas. Então, vetava tudo.” Isso ocorrido, de acordo com Almeida, porque o Brasil não havia assinado o Tratado de Não Proliferação de armas nucleares.

A reação americana ao programas nuclear e aeroespacial brasileiros começou ainda nos anos 1970, quando, durante o regime militar, o País assinou um acordo de cooperação espacial com a França para o lançamento de foguetes, mas que, para os americanos, podia significar mísseis. A mesma oposição ocorreu quando o Brasil firmou o acordo nuclear com a Alemanha Federal, em 1975, para a construção de reatores nucleares, além das pesquisas sobre a tecnologia de enriquecimento de urânio.

“Os americanos fizeram enormes pressões sobre o Brasil em 1975, 1976 e 1977, sendo contrários a esse acordo Brasil e República Federal Alemã”, disse o diplomata. Essa foi uma das causas que levou o presidente Ernesto Geisel cancelar o acordo de cooperação militar que o Brasil mantinha com os Estados Unidos. “Era uma cooperação antiga, vinha da Segunda Guerra Mundial”, lembrou.

Para ele, é preciso que o Brasil se lembre que é uma potência média, que deveria manter uma posição “imparcial, neutra, autônoma, em relação aos conflitos entre grandes potências”. Mas, segundo ele, não é o que Lula fez. Primeiro com os Brics, quando se uniu à China e à Rússia. Depois, ao apoiar “todas as eleições dos seus colegas esquerdistas na América Latina, desde 2003″. “Ou seja, interferiu nos assuntos internos de outros Estados.”

Ele citou ainda a declaração de Lula de apoio à candidata democrata Kamala Harris. Tudo isso aumentaria os desafios da atual situação. “E o Brasil, como potência média, devia estar unido a outras potências médias contra as violações do direito internacional pelas grandes potências. Infelizmente, não é o que está acontecendo hoje”, afirmou.

Seu colega, Tadeu Nascimento Valadares, afirmou que os desafios estão além dos desencontros entre a gestão de Trump e a de Lula. “Os desafios são muito claros: o que nós estamos vivendo não é só um momento; estamos vivendo uma época de grandes riscos. E por quê? Simplificando a mais não poder, vivemos uma época que os historiadores da longa duração chamam de um momento de mudança de paradigmas ou de mudança de transição de hegemonias.”

E como esse processo atinge a América Latina? Para ele, a região continua sendo dominada pelos EUA na área militar, por meio da projeção de sua força, como ocorreu na Venezuela, mas, ao mesmo tempo a “hegemonia comercial de cooperação hoje, apesar das diferenças de regime, já é chinesa”. O diplomata lembrou que “transições de hegemonia foram sempre resultantes de enormes conflitos bélicos”. “Esse é o quadro geral dos grandes desafios da diplomacia brasileira”, concluiu.

1776, lá e aqui: uma ao norte, outra ao sul do hemisfério americano - Paulo Roberto de Almeida

   1776, lá e aqui: uma ao norte, outra ao sul do hemisfério americano

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre a conjuntura histórica no Brasil, quando as 13 colônias caminhavam para a independência do colonialismo britânico. 

 

Em 4 de julho de 1776, na América do Norte, era aprovada, por uma assembleia congregando as treze colônias formalmente pertencentes ao império britânico, uma declaração de independência, primeiramente redigida por Thomas Jefferson, depois revista, corrigida e modificada por representantes eleitos dessas treze colônias, da Nova Inglaterra, no nordeste da costa atlântica, até as Carolinas, bem mais ao sul. Seguiu-se uma guerra pela libertação da dominação britânica, que foi ao mesmo tempo uma mini guerra civil, pois que muitos colonos pretendiam continuar pertencente ao já poderoso império britânico, sob o rei George III, de quem os colonos rebeldes queriam justamente se libertar, para se governar de forma autônoma. Diga-se, de passagem, que, em várias partes daquelas possessões britânicas – as quais um filósofo escocês, Adam Smith, numa obra publicada no mesmo ano, dizia que deveriam ser independentes, e empreender o livre comércio com as ilhas britânicas – já eram governadas de modo autônomo: no Massachusetts, por exemplo, muito antes da declaração, seguida, depois da guerra da independência, pela autonomia de fato, já existia uma livre assembleia, integrada por representantes eleitos, que decidia sobre assuntos locais, como em matérias de educação das crianças, entre outras matérias.

O fato é que, anos antes da declaração, e da própria Constituição, promulgada em 1787, os colonos de Sua Majestade britânica, já se governavam amplamente segundo suas próprias determinações, mas se revoltaram contra o rei inglês, quando este passou a cobrar mais impostos, sobre o chá importado, por exemplo – num esforço para arrecadar mais recursos para financiar suas outras guerras e conquistas, no continente europeu ou alhures. Os colonos “americanos” se revoltaram e foram anos de guerra, no que foram ajudados até pelo último rei francês do Ancien Régime. No Brasil, acontecia algo parecido, mas o resultado foi exatamente o inverso: o absolutismo metropolitano, sob o regime pombalino, se esforçava para arrancar mais dinheiro, isto é, ouro e diamantes das “minas gerais”, assim como taxas e impostos de importação e de exportação das demais províncias que já constituíam, então, um vice-reinado (mas apenas no papel, pois que o vice-rei não tinha quase poder algum, a não ser o da repressão, justamente, como nas “derramas” arrecadatórias).

Para evidenciar as diferenças com o processo de autonomia conquistada no último quarto do século XVIII pelas colônias americanas do império britânico, transcrevo abaixo alguns parágrafos da cronologia histórica incluída como um dos anexos de meu próximo livro: História e Historiografia das Relações Internacionais do Brasil: dos Descobrimentos ao final do Império, sendo preparado editorialmente para publicação pela Editora Appris, de Curitiba (que já publicou outros três outros livros meus). Selecionei os anos mais significativos de um itinerário histórico mais detalhado, apenas para demonstrar como, aqui abaixo do Equador, caminhamos na direção oposta àquela trajetória percorrida ao Norte, de revolução e independência da metrópole colonial, o que só foi ocorrer, de verdade, em 1817, em Pernambuco, revolução independentista severamente massacrada no nascedouro pelas tropas portuguesas (uma outra ocorreria em 1824, mas de caráter “constitucionalista” e federalista, também reprimida cruelmente por tropas do novo Império, já independente, mas ainda não reconhecido por nenhuma monarquia europeia).

Muitas entradas se referem ao pagamento de impostos e taxas, como na América do Norte, mas esse lado da sanha arrecadatória do Estado português nunca deixo de existir e de se fortalecer, apenas que já sob uma estrutura política e jurídica formalmente autônoma (e isso até os dias que correm, numa proporção bem superior ao “quinto” lusitano. Vejamos como isso se deu, numa conjuntura história de transformações que, ao sul e ao norte, derivou para estruturas políticas bem diferentes. Começo pela “fartura” das riquezas criadas nas “minas gerais”, até chegar às vésperas da transferência da Corte para o Brasil.

(Extratos da “Cronologia histórica até a independência do Brasil” no citado livro:


1713: Criação da capitania de S. Paulo e Minas do Ouro, para consolidar a administração régia na zona aurífera: estabelecidos diversos sistemas de arrecadação de impostos sobre o ouro, entre eles o dos quintos, depois combinado às derramas (1725-1735) e a proibição do ofício de ourives (1730) e finalmente a capitação (1735-1751), isto é, incidência de imposto sobre cada indivíduo, mineiros ou não, livres ou escravos. Os sistemas de controle da produção diamantífera variaram da livre extração (até 1733), ao monopólio de Estado (de 1734 a 1739) e o regime de contratos (até 1771). A corrida ao diamante supera a do ouro: 40 mil pessoas afluem ao Distrito Diamantino e Portugal adota legislação restritiva da emigração.

1715: Carta-Régia de D. João V reduz a décima para 4,5%, que se mantém nesse nível até o regime pombalino. Em 1762, depois do terremoto de Lisboa, ela volta a ser décima.

1720: Os governadores nomeados por Portugal passam a ostentar o título de vice-reis, sem que o Estado se tornasse um vice-reinado. O centralismo absolutista de D. João V começa a extinguir as capitanias hereditárias. Nesse mesmo ano, lei proíbe a emigração ao Brasil, por se estarem despovoando províncias de Portugal, como a do Minho, “que sendo tão povoada, já não tem a gente necessária para a cultura das terras, cuja falta é tão sensível...”: os capitães de navios em que fossem encontrados indivíduos sem passaporte para o Brasil pagariam 400$000 de multa, mas também se ordenava que as mulheres não voltassem do Brasil sem a permissão do Rei.

1729: Descobrimento de diamantes, que passam a ser explorados pela fazenda real, por um sistema de intendentes, guardas-mores etc. O sistema tributário sobre o ouro era muito confuso: de 1700 a 1713 o modo de tributar era por bateias, de 1714 em diante por fintas, sistema seguido até 1725, apesar de já se ter decretado o sistema dos quintos desde 1719; o quinto era pago nas casas de fundição, equivalia a 20%, reduzido depois a 10%; em 1733 adotou-se o sistema da capitação, matriculando-se os escravos que trabalhassem nas minas, mas, considerado vexatório, foi abolido em 1750.

1750: Tratado de Madri (13 de janeiro), enterrando a linha de Tordesilhas e ratificando as conquistas das entradas e bandeiras: ponto alto da diplomacia portuguesa (e do brasileiro Alexandre de Gusmão), o tratado legitima juridicamente a ocupação econômica, administrativa e militar do Oeste brasileiro. Portugal ganha os Sete Povos das Missões, mas a Espanha recupera definitivamente a Colônia do Sacramento.

1750-1777: Administração Pombal tenta modernizar Portugal e estimular indústrias, no Reino e no Brasil; consegue melhorar o aparelho fiscal (criando um “subsídio literário”, destinado à instrução pública), mas seu período coincide com a crise no Brasil, motivada pela queda na produção de ouro. Promove a criação de várias companhias de comércio: a da Ásia (1753), do Grão-Pará e Maranhão (1755), da Pesca da Baleia (1756) e de Pernambuco e Paraíba (1759). Em 1759, proíbe e expulsa dos domínios portugueses os religiosos da Companhia de Jesus [que mantinham escolas para índios e negros].

1752: Pombal, o “Colbert” português, promulga lei proibindo exportações de ouro e prata para conter o desvio das riquezas brasileiras para a Inglaterra: a lei deixa progressivamente de ser aplicada em virtude da dependência estratégica de Portugal em relação à Grã-Bretanha e, também, do prejuízo que provocou no Brasil, com o estímulo consequente ao contrabando. Cresce consideravelmente no período a pressão fiscal sobre o Brasil, que foi compelido a conceder um donativo “voluntário” para reconstruir Lisboa, destruída por terremoto em 1755. Os contratos dos diamantes, da pesca da baleia e do tabaco passaram a [a ser] rendimentos da Coroa.

1755: Dom José, por sugestão de Pombal, expede carta de lei revalidando leis anteriores, particularmente a de 1630, em favor da liberdade dos índios, acabando com o cativeiro indígena no Brasil. Alvará promove o casamento entre brancos e índios, dando inclusive preferência aos descendentes para qualquer emprego, honra ou dignidade, proibindo-se dar-lhes o nome de caboclos, que se possam reputar injuriosos; ao mesmo tempo, se reprimia as uniões com pretas.

1756: Depois do terremoto de Lisboa, é instituído novo imposto de 4% sobre todas as mercadorias e manufaturas a que se dava despacho nas alfândegas. O Brasil é chamado a contribuir com um donativo de 30 milhões de cruzados, a ser entregue durante 30 anos, à razão de 40 contos por ano: no Rio, os direitos de alfândega se elevaram por isso mais 2,5%.

1760-1808: Agrava-se a dependência econômica de Portugal do Brasil, que era responsável por 55% das exportações portuguesas para terceiros países e absorvia mais de 80% das exportações portuguesas para as províncias ultramarinas. O Brasil exportava ouro, diamantes, açúcar, tabaco e pau-brasil e importava escravos e manufaturas grosseiras. A produção e a exportação do Brasil passam por períodos depressivos, as companhias de comércio dão prejuízo e o imposto de entrada de escravos declina, com a baixa concomitante da produção aurífera. Tanto no Brasil como em Portugal, o cenário é de atrasos nos soldos e aumento das dívidas. Os cargos públicos começam a ser licitados através de leilão (o de secretário-geral do Brasil foi arrematado por 44 contos).

1761: Alvará decretou a liberdade dos escravos introduzidos depois de uma certa data no reino e nos Açores, porque privavam “os domínios ultramarinos [isto é, o Brasil] da necessária mão-de-obra para a cultura das terras e minas”.

1763: A sede do vice-reino instala-se no Rio de Janeiro. Todas as capitanias do Estado do Brasil (exceto a de S. Vicente, que sobrevive até 1791) são colocadas sob a administração real e, em 1777, o Estado do Grão-Pará e Maranhão é unificado ao do Brasil. A regulamentação das partidas das frotas do Brasil é abolida em 1765, quando se estabelece a liberdade de comércio entre o Reino e o Ultramar. A construção naval recebe estímulos e se edifica o Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo os comerciantes ingleses lamentavam-se que o envio dos seus produtos, da Inglaterra ao Rio de Janeiro, com passagem obrigatória por Lisboa, pagava 68% de direitos. Nesse mesmo ano sobem os direitos cobrados do marfim, pimenta, cacau, tabaco, açúcar, bacalhau e outros produtos.

1767: Pombal manda ao Brasil dois peritos em contabilidade, talvez os primeiros deste ramo que chegavam à colônia, com a incumbência de “por em arrecadação todos os rendimentos desta Capitania e da Administração da Junta da Fazenda, pondo tudo na conformidade do que se pratica no Erário Régio”.

1772: É instituído o “subsídio literário”, destinado a custear a instrução pública: cobrava-se, por involuntária ironia, dos atacadistas de vinho (um real por canada de vinho, 4 réis por canada de aguardente e 60 réis por cada pipa de vinagre) e dos açougueiros (um real em cada arratel de carne que se corta nos Açougues, inclusive na América).

1773: Alvará de 16 de janeiro decreta a abolição definitiva da escravidão no reino de Portugal, “considerando as grandes indecências que as ditas escravidões inferem aos meus vassalos, as confusões e os ódios que entre eles causam, e os prejuízos que resultam ao Estado de ter tantos vassalos lesos, baldados e inúteis quanto são aqueles miseráveis que a sua infeliz condição faz incapazes para os ofícios públicos, para o comércio, para a agricultura e para os tratos e contratos de todas as espécies” e que “todos os sobreditos libertados fiquem hábeis para todos os ofícios, honras e dignidades”.

1777: O comércio internacional português apresentava um déficit de 1.493 contos, com importações de 6.397 e exportações de 4.904 contos; desse total, a contribuição dos produtos brasileiros, excluídos ouro e diamantes, representava 2.715 contos (açúcar, branco e mascavo, mais de 800 contos; couros, tabacos, cacau, drogas e especiarias diversas, arroz, azeite de peixe etc.; o café representava então apenas 2 contos). O Brasil aumenta progressivamente suas exportações e o porto do Rio de Janeiro torna-se o mais importante do país. O algodão começa a assumir papel relevante na pauta exportadora, com os avanços técnicos na indústria têxtil.

1777-1792: Pombal deixa de ser ministro: administração de D. Maria I extingue as companhias de comércio do Grão-Pará e Maranhão (1778) e de Pernambuco e Paraíba (1780); tenta corrigir o déficit comercial com a Inglaterra. Reverte os processos de laicização do Estado e de retirada de privilégios da nobreza, empreendidos por Pombal. Organização de missões científicas: “Viagem filosófica ao Brasil”, de Alexandre Rodrigues Ferreira (1783); viagem de José Bonifácio pela Europa, para aprofundar-se em ciências naturais.

1777: Tratado de Santo Ildefonso fixa os limites do Brasil segundo o princípio do uti possidetis, mantendo aproximadamente os limites do Tratado de Madri e estabelecendo a paz entre Portugal e Espanha.

 

Esta era, portanto, a situação, em 1776, na “colônia americana” de Portugal, tosquiada e sugada pela Coroa portuguesa, de forma similar, ainda que não semelhante, à extração crescente de recursos da “colônia americana” do Império britânico sob o domínio de George III, o arrogante rei inglês que precipitou a revolta dos “colonos” do ultramar americano, já dotados de certa autonomia de gestão local, mas ainda submetidos ao Rei e ao Parlamento britânicos. Não foi certamente a primeira vez que exação tributária provoca a rebeldia dos “tosquiados”, mas foi a primeira vez, num mundo majoritariamente anticonstitucional, que homens educados no Iluminismo escocês e inglês, assim como adeptos das novas teorias discutidas nas “republiques des lettres” do continente europeu tomam a si a tarefa de empreender a construção de uma república liberal, caracterizada pela ampla autonomia das suas partes constituintes (as tais treze colônias), o que dificultou sobremaneira, aliás até a atualidade, a aprovação de uma legislação federal com jurisdição sobre toda a União. Muitos assuntos, como a pena de morte, por exemplo, e mais dramaticamente ainda, a legalidade da escravidão, ficaram sob competência dos estados membros da nova federação, chamada de Estados Unidos da América, mas que permaneceram desunidos sobre muitos temas, até chegando a uma guerra de secessão quase um século depois.

O Brasil caminhou para um Reino Unido ao de Portugal, por conveniência dos novos arranjos pós-napoleônicos, mas permaneceu sob a governança da mesma dinastia portuguesa da Restauração, a dos Braganças, até quase o final do século XIX. Portugal manteve a sua, com diversos arranjos constitucionais até o início do século XX, quando ambos Estados da futura Comunidade dos Países de Língua Portuguesa se reencontraram sob a forma de duas repúblicas que ainda passaram por muitas crises, golpes de Estado e ditaduras, até se reencontrarem numa democracia ainda carente de justiça social para todos os seus filhos, brancos, pretos e pardos, e para os muitos imigrantes que convivem nessa Comunidade.


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5386, 4 julho 2026, s p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (5/07/2026; link: ).

 

 

sábado, 4 de julho de 2026

1776 in the US and Latin America - Constanza Mazzina (EconLib)

1776 in the US and Latin America

We are approaching the 250th anniversary of the United States’ Declaration of Independence on July 4th, 1776. However, that same year carries a different meaning in Latin America. Rather than the beginning of a system based on limits to power and individual freedom in the United States, 1776 represented a major turning point in the opposite direction for Latin America. 

In Philadelphia, the thirteen colonies started to break away from imperial control to formalize a long-standing tradition of local self-governance. In contrast, in Latin America, the Spanish Crown reconfigured its territories by creating the Viceroyalty of the Río de la Plata and aggressively enforcing the Bourbon Reforms. This coincidence in timing highlights a significant and fundamental difference. 

In the United States, 1776 was the culmination of a grassroots movement grounded in institutional agreement. In Latin America, it was the strengthening of a centralizing, authoritarian approach aimed at modernizing imperial rule through tight economic and bureaucratic control. By the time the wars of independence reached Latin America decades later, they did not arise from a natural progression toward self-rule but rather were precipitated by an external collapse: the Napoleonic invasion of the Iberian Peninsula. 

In 1950, the Mexican writer Octavio Paz published El laberinto de la soledad, an essay that, when viewed through this historical lens, provides the best framework for understanding why liberalism thrived in the United States, while in Latin America it became little more than a footnote. Paz’s work is essential here because it moves the debate beyond economics, diving into the foundational values and cultural evolution of the region. While the United States built its liberal framework on a heritage of historical continuity and a shared civic myth, Latin American nations, as Paz argues, often adopted liberalism as an imported philosophy. It was a noble abstraction superimposed onto an underlying reality of deeply rooted traditional hierarchies and distinct communal values. The core thesis of El laberinto de la soledad is that Latin America’s historical heritage favored centralized authority and communal structures over individualistic liberalism.

That this divergence occurred is supported by the work of the 1993 Nobel laureate in economics, Douglass North. North argued that long-term economic success is shaped not just by resources or technology but by the evolution of institutional frameworks—the formal laws and informal constraints that govern human interactions. From this viewpoint, the United States succeeded because it established a resilient institutional system that ensured stable property rights, reduced transaction costs, and imposed real limits on leaders. Conversely, Latin America inherited a complicated institutional landscape where the rules favored rent-seeking over productive investment, trapping the region in the very labyrinth Paz described. 

This institutional divergence, as economic historian Deirdre McCloskey highlights, is deeply rooted in a contrast of ideas and rhetoric. She argues that wealth and liberty do not flourish from institutions alone, but from a fundamental shift in how society talks about and values individual initiative. In the United States, the ‘bourgeois virtues’—the ethical appreciation for innovation, commerce, and personal responsibility—gained widespread cultural dignity. In Latin America, however, the rhetoric never shifted. The region remained culturally tied to an anti-bourgeois ethos inherited from the Counter-Reformation, where wealth was achieved through political privilege and connection to the crown (or later, the state), rather than through market innovation

Octavio Paz believed that the main issue in Latin America was not the ongoing economic underdevelopment but a fundamental disconnect in institutions. The most apparent symptom of this disconnection is the wide gap between those who govern and those who are governed. The sudden break with the monarchy did not bring freedom to the former Spanish colonies. Rather, the break left Latin American societies in a state of deep confusion. 

The framework that had developed since the Bourbon Reforms and the blending of the Catholic Counter-Reformation—a hierarchical, authoritarian system—did not vanish with the revolution. As Paz pointed out, independent Latin America faced a serious contradiction: The region adopted legal frameworks that did not reflect its social realities, turning constitutions into mere formal masks—illusions designed to hide the persistence of the old colonial system. After independence, the Creole elites rushed to fill the legitimacy gap by importing ideas and institutions from the American and French revolutions, with the latter often feeling more familiar to them as followers of Jean-Jacques Rousseau

This forced imitation of institutions ultimately reinforced a centralized authority in which democratic practices were laid over a deeply personalist and patrimonial reality. This is why Latin American educational systems taught the French Revolution as a key moment in Western history, while the independence of the United States was often treated as a side note. In 1787, the US Constitution reflected a society that already existed—a network of merchants, landowners, and Puritans whose customs and written laws were aligned. As previously mentioned, there was no such alignment in Latin America. 

In contrast to the Constitutional Convention in Philadelphia that sought to formalize deeply rooted social and political agreements, Latin America fell into a destructive cycle of violence marked by ongoing instability and bloody conflicts. Lacking the type of shared understanding the US Constitution was able to formalize, the region became a battleground for clashing political projects without common ground. In this environment of lawlessness, caudillismo (strongman politics) and patrimonialism took the place of the absent institutional structures, resolving ideological conflicts with force instead of ballots. On these battlefields, wildly different political models fought to shape states that lacked secure foundations, where borrowed ideas of abstract liberalism collided with a strong centralist, absolutist, and authoritarian legacy. 

This conflict illustrates the tragic challenges of state-building in Latin America throughout the nineteenth century. While the United States used its post-independence years to grow its domestic market, establish legal stability, and unify jurisdiction, Latin America wasted its early post-colonial years in continual chaos and despotism. The reality that resulted from this wasted opportunity was harsh. The region struggled for over fifty years to define the basics of state sovereignty. Without a collective understanding of the rules, the state was seen not as a fair protector of rights but as a trophy to be claimed by rival factions. Political energy was consumed by the urgent task of restoring order and central control, leaving no space for building lasting legal structures. 

This prolonged institutional disconnection explains why sustainable economic development was impossible for the region during this crucial time. The high cost of Latin America’s post-independence disorder is reflected in the data provided by North et al. (2000): while the region started the 19th century with a per capita income comparable to that of the United States, by 1900 the U.S. institutional framework had propelled its per capita wealth four times higher than in Spanish American nations. 

As North emphasized, economic growth needs a framework of credible commitments that reduces the risks of long-term investments. In nineteenth-century Latin America, the complete lack of such an institutional agreement made property rights unstable, contracts unenforceable, and the threat of expropriation constant. Wealth generation depended on political favoritism rather than productive efforts. Thus, the absence of a constitutional consensus not only led to political violence but also hindered the emergence of modern capitalism, trapping Latin America in economic backwardness that no borrowed ideas or abstract laws could fix. 

This conclusion becomes most important to articulate Paz’s central political lesson, which essentially serves as a powerful precursor to modern institutional economics. Long before Douglass North formally demonstrated that formal rules fail when misaligned with informal constraints, in this novel, Paz intuitively exposed the fallacy of viewing freedom as a top-down concession. His core political lesson highlights the fundamental mistake of treating liberty as something that can be granted by a central authority. As Paz famously argued, Latin America’s founders faced a tragic disconnect where “our political programs were beautiful, but they had no relation to our reality,” effectively turning the liberal legal order into a mere cover for a persistent personalism. 

Therefore, Paz’s enduring thesis is a warning: the region’s institutions will only become stable and strong when we break free from the colonial mindset that forces us to place the law beneath the will of a powerful leader. As long as we wait for a leader to solve what each of us must build, the way out of the labyrinth will remain shut, and solitude will continue to be our only fate.

 

References

McCloskey, D. N. (2010). Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World. University of Chicago Press

North, D. C. (1990). Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge University Press.

North, D. C. (1991). Institutions. Journal of Economic Perspectives, 5(1), 97-112.

North, D. C., Summerhill, W., & Weingast, B. R. (2000). Order, Disorder and Economic Change: Latin America vs. The United States. In B. Bueno de Mesquita & H. L. Root (Eds.), Governing for Prosperity (pp. 17-58). Yale University Press.

Paz, O. (2019). El laberinto de la soledad, Postdata, Vuelta a El laberinto de la soledad (6ª ed.). Fondo de Cultura Económica. (Original work published 1950).

 


Constanza Mazzina serves as the Director of the Undergraduate Program in Political Science and the Postgraduate Program in Institutional Economics and Political Science at the Universidad del Cema in Buenos Aires. She is also a Fellow of the Friedman Hayek Center and a member of the Academic Council of Libertad y Progreso. 

 

Notícias recentes e relevantes sobre o Itamaraty, na visão de madame IA (via Airton Dirceu Lemmertz)

Notícias recentes e relevantes sobre o Itamaraty, na visão de madame IA
Em 03/julho/2026.  

O Itamaraty vive um momento de intensa atividade diplomática, marcado por uma severa disputa comercial com os Estados Unidos, acordos de segurança institucional e recepção de delegações estrangeiras. [1, 2, 3]
As principais notícias e atualizações do Ministério das Relações Exteriores envolvem:
⚠️ Defesa do Pix e contra-ataque ao "Tarifaço" dos EUA
O governo brasileiro apresentou sua defesa oficial ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) para tentar impedir tarifas que podem chegar a 40% sobre produtos brasileiros. [1]
  • O argumento: O Itamaraty protocolou um documento detalhado assegurando que o Pix opera em condições abertas e não discrimina corporações americanas (como Visa e Google, que lucram no ecossistema). [1]
  • Justiça e Meio Ambiente: A chancelaria também defendeu as decisões do STF contra plataformas digitais norte-americanas, classificando as queixas de "infundadas", e reforçou o avanço do Brasil no combate ao desmatamento ilegal. [1]
  • Tensões Políticas: O embate gerou atritos internos fortes. O Itamaraty usou as redes sociais para rebater críticas da oposição, afirmando que "traidores da pátria" deveriam pedir desculpas por tentar validar a interferência externa de Donald Trump na justiça brasileira. Em contrapartida, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou uma moção de repúdio ao órgão por postura considerada "militante e ideologizada". [1, 2, 3, 4]
🤝 Acordo Estratégico de Segurança com a Polícia Federal
A Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores assinaram um Acordo de Cooperação Técnica. O objetivo do tratado é otimizar e reforçar a segurança institucional de servidores, dados sigilosos e instalações físicas das embaixadas e consulados do Itamaraty, tanto em território nacional quanto em missões no exterior, mitigando ameaças cibernéticas e geopolíticas. [1]
🌍 Agenda Diplomática e Direitos Humanos
  • Visita da Alemanha: O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e oficiais da chancelaria recebem, entre ontem e hoje, o Ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul, para agendas bilaterais em São Paulo e Brasília. [1, 2]
  • Simore Brasil: Mauro Vieira participou do lançamento do Simore Brasil, um sistema voltado para monitorar e dar transparência ao cumprimento das recomendações internacionais de direitos humanos feitas ao país, consolidando novos pactos firmados perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. [1, 2]
💼 Movimentações Internas na Carreira
O Diário Oficial da União oficializou os decretos regulamentares de promoções de diplomatas referentes ao primeiro semestre. Diversos conselheiros e ministros de segunda classe ascenderam na hierarquia tradicional da instituição, preenchendo postos abertos por aposentadorias recentes. [1]


Em torno de uma guerra de agressão que já entrou no seu quinto ano - Paulo Roberto de Almeida

Em torno de uma guerra de agressão que já entrou no seu quinto ano:

Paulo Roberto de Almeida 


Falando como simples cidadão, não como diplomata.

Acredito que qualquer pessoa de bom senso sabe distinguir o que é correto e o que é errado na vida humana, no comportamento social, no campo do Direito Internacional, ou no conceito mais simples do Direito, ponto.

Isso se aplica à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, não apenas desde 2022, mas desde 2014.

Não consigo admitir que o governo Dilma, primeiro, não soube ou não quis admitir o que estava errado na invasão e na anexação ilegais da peninsula ucraniana da Crimeia, em 2014, considerando-a apenas uma “questão interna” da Ucrânia. Um absurdo sob qualquer critério, notadamente no plano diplomático e do Direito Internacional.

Não consigo acreditar que Bolsonaro depois, Lula no seguimento, não souberam distinguir entre o que era certo e o que estava errado na brutal invasão total da Ucrânia pela Rússia em 2022. Ficaram nas formalidades? Não viram a postura dos Estados que seguiram e acataram o que está escrito na Carta da ONU, o que era a postura tradicional da diplomacia brasileira antes mesmo da carta da ONU?

São todos néscios, ou estavam cegos por interesses político-eleitoreiros no caso de Bolsonaro, e orientações ideológico-partidárias no caso de Lula, ainda engajado no maior erro estrutural e estratégico-diplomático da política externa brasileira em décadas? 

Lula preferiu insistir no Frankenstein disforme do BRIC-BRICS-BRICS+, um monstro metafísico que rompe com os padrões doutrinários da diplomacia brasileira e com simples questões de bom senso na política externa.

Não consigo imaginar como diplomatas tão bem formados, inteligentes, em princípio sensatos, não tenham alertado todos os presidentes, desde 2005 pelo menos, sobre o tremendo erro que consistia em vincular politica e diplomaticamente o Brasil a grandes potências autocráticas, além de tudo nucleares, possuidoras de seus próprios interesses nacionais, forçosamente muito diferentes dos interesses nacionais e internacionais do Brasil, enquanto potência média e pais em desenvolvimento. 

Foram tímidos demais, constrangidos pela autoridade do chefe, impulsivo e personalista? O que os impediu de formular algum alerta ou emitir algum aviso contrário? Excesso de cautela ou apenas uma submissão aos dogmas inaceitáveis da hierarquia e da disciplina. O que os impediu de pensar?

Não ocorreu nenhuma mudança de postura nos últimos cinco anos, ou desde 2014 para ser exato.

Não compreendo e não admito certas coisas, para mim tão claras. O certo e o errado eu aprendi desde criança. Acho que eu devo ser ingênuo!

Paulo Roberto de Almeida 

Brasilia, 4 de julho de 2026


Como o culto do Estado pode inviabilizar o desenvolvimento smithiano - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

Como o culto do Estado pode inviabilizar o desenvolvimento smithiano

Adam Smith x Karl Marx

Adam Smith x Karl Marx

“Nota sobre a Grande Deformação da era contemporânea.”

O mundo político costuma ser dividido nas diferentes gradações entre dois extremos, numa tipologia herdada da Revolução francesa: esquerda e direita, com muitas variações no centro e exageros nos dois extremos. Essa é a perspectiva de um cenário dominado de forma estéril por uma luta pelo poder e pela dominação de alguns sobre muitos. Essa luta não cria riqueza ou prosperidade, apenas redistribui o estoque existente de riqueza entre os diversos contendores da luta política.

Antes da Revolução francesas, porém, um professor de Glasgow, Adam Smith, já havia delimitado alguns parâmetros sob os quais se moviam as paixões humanas, em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. Mas ele fez mais: no ano da independência americana da dominação britânica, 1776, autonomia sob o livre comércio, que ele preconizava, publicou o livro seminal da economia política, aquele que deveria guiar os verdadeiros estadistas do Estado, de qualquer Estado, na busca de prosperidade socialmente bem distribuída: Um Inquérito sobre a Riqueza das Nações, uma investigação sobre como se poderia criar e aumentar a riqueza social, ao mesmo tempo fazendo com que ela fosse bem distribuída entre os súditos ou os cidadãos de uma nação, de um Estado constituído em conformidade com as leis estabelecidas consensualmente, não pela força ou dominação de alguns poucos.

Seu livro se tornou influente nas ilhas britânicas e em alguns outros países do continente europeu (mas só chegou à China muito tempo depois, aliás “importado” por alguns comunistas esclarecidos que corrigiram os erros demenciais de Mao Tsetung, que produziram mais mortos entre os próprios chineses do que Stalin o havia feito entre seus “súditos” russos). O livro de Adam Smith foi “corrigido” por uma outra obra das mais negativas não só na história da economia politica, mas também na trajetória de boa parte da humanidade. Essa obra foi O Capital, de um radical hegeliano expatriado chamado Karl Marx. Esse livro, que pretendia colocar a economia smithiana sobre seus pés, as forças produtivas, alterava, na verdade, as bases de funcionamento da economia política pela via de uma política econômica que invertia completamente os fundamentos da criação de riqueza e prosperidade: seria o Estado, e não a liberdade dos agentes econômicos, quem deveria ordenar a organização da vida econômica, o “promotor” da prosperidade igualitária.

A mensagem era poderosa, numa fase em que o primeiro capitalismo explorava, literalmente, os esforços de trabalhadores em prol da acumulação de riqueza, criando continuamente uma desigualdade de tipo rousseauniano, pois que fundamentada no “pecado original” da propriedade privada. Estavam dadas as condições para o surgimento de uma nova forma de organização econômica baseada não exatamente na propriedade privada, mas na propriedade coletiva dos meios de produção, o socialismo dito científico, ou o coletivismo (que seria aplicado tanto por regimes supostamente de esquerda, como o bolchevismo, como por regimes declaradamente de direita, como o fascismo e o nazismo).

Estava criada a via para a implementação do “socialismo”, não exatamente nos países do primeiro capitalismo, na Inglaterra e na Nova Inglaterra, assim como em diversos países da Europa continental, mas num país autocrático, a Rússia atrasada dos mujiques e da nobreza czarista, vivendo num capitalismo incipiente, e sobretudo no despotismo brutal da aristocracia dos boiardos. Isso se deu por um pequeno “acidente” político, o famoso “trem blindado” que transportou o emigrado russo Lênine de volta à Rússia em meio a um processo revolucionário, iniciado em fevereiro de 1917: isso se fez por um ardil do Império alemão, que pretendia desmantelar a guerra no lado oriental da Prússia, para se concentrar nas frentes de batalha do lado ocidental, contra franceses, britânicos e, mais recentemente, americanos.

O putsch de outubro (ou novembro) de 1917 colocou no poder um novo regime despótico, desta vez guiado por bolcheviques que acreditavam piamente nas fabulosas teorias econômicas de Karl Marx, de que seria possível criar riqueza e prosperidade não pela via da liberdade econômica, mas pela via da monopolização total dos meios de produção nas mãos do Estado, criando um sistema imaginário, “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades”, como afirmou o mesmo Marx na Crítica ao Programa de Gotha, em oposição ao recém criado Partido Social Democrata alemão, que pretendia criar, não um sistema de estatização completa da economia, mas um regime flexível, combinando propriedade privada e meios públicos de criação de oportunidades para todos.

Lênin podia ser um gênio em política, ou pelo menos um lídes partidário astuto, mas ele era uma nulidade em economia. Seu programa de “coletivização total” da economia russa provocou de imediato uma contração terrível na oferta de bens e serviços, levando o povo a uma crise alimentar ao ponto da fome generalizada (refreada generosamente por americanos e outros europeus), com o que Lênin teve de improvisar uma “NEP”, permitindo a existência provisória de negócios privados em certos setores da economia. Imediatamente após o início da coletivização, um jovem economista austríaco, Ludwig von Mises, escrevia um “panfleto” contra os socialistas austríacos, intitulado sinteticamente O Cálculo Econômico na Comunidade Socialista, explicando que o socialismo não poderia funcionar pois que ele ignorava completamente o mecanismo de formação de preços, baseado nas leis universais da oferta e da procura, da produção e do consumo. Não podia funcionar, como um elefante não pode voar, mas Stalin fez o “socialismo” se sustentar nos ares pela via de formas modernas da antiga escravidão, ou do antigo regime servil da própria velha Rússia.

O socialismo não morreu por ter sido combatido pelo capitalismo, longe disso: os “capitalistas” ocidentais até procuraram suavizar o sofrimento dos povos “socialistas” pela via de empréstimos ou algum apoio material sempre quando necessário, mas era difícil fazer o elefante voar; o sistema se desmantelou sozinho pela força de suas próprias contradições econômicas. Mas a mensagem socialista era muito poderosa: a “igualdade” deveria, pelas mãos do Estado, passar na frente da liberdade preconizada pelos liberais, e assim se fez em diversos países em diversos continentes, inclusive na América Latina, na qual as receitas keynesianas de luta contra as crises e as depressões cíclicas do sistema foram convertidas, de meios provisórios de inversão do ciclo econômico, em verdadeira teoria do desenvolvimento; essa foi a origem do prebischianismo, a versão original do desenvolvimentismo cepaliano.

O Brasil foi o país no qual essa nova “teoria” encontrou terreno fértil, inclusive porque ele já vivia, desde os anos 1930, numa espécie de “capitalismo estatizado”, o que complementava o seu mercantilismo tradicional, um protecionismo que existia desde os tempos coloniais e que encontrou também terreno fértil no Império e da República. Nos anos 1950, o desenvolvimentismo conheceu grandes possibilidades de expansão, tanto que ganhou espaço ainda mais ampliado no regime semiautárquico da ditadura militar, perfeitamente estatizante e centralizado que o país conheceu entre os anos 1960-80. A industrialização em marcha forçada sob os anos JK foi realmente benéfica para os capitalistas amigos do Estado, contrariando as prescrições de uma política econômica com sólidos fundamentos no balanço fiscal das contas nacionais, como preconizavam economistas como Eugênio Gudin e o jovem Roberto Campos. O resultado foi a implantação de muitas indústrias, algumas estatais, outras com base no investimento direto estrangeiro, mas também uma forte aceleração da inflação, que seria a maldição do país, de toda a população, nos quarenta anos seguintes.

O bloqueio de um processo sustentado de crescimento econômico, pela via da indução estatal, já tinha sido alertado algum tempo antes, no quadro de um famoso debate econômico que, nos anos 1944-45, colocou face a face o mesmo economista neoclássico Eugênio Gudin e um industrial paulista, apreciador das teorias de Friedrich List e de Mihail Manoilescu, Roberto Simonsen. Do debate saiu-se vencedora, no plano puramente teórico, a solidez dos argumentos econômicos de Gudin, mas quem venceu, na prática, foi Simonsen, preconizando subsídios estatais à indústria, protecionismo no comércio exterior e intervenção estatal segundo os novos cânones do “planejamento para o desenvolvimento econômico”, em lugar da “mão invisível” do mercado para guiar os passos da iniciativa privada. Foi o que o Brasil conheceu desde então, combinado a um entranhado nacionalismo exclusivista, que o fez sempre desconfiar da “sanha” dos capitalistas estrangeiros, preferindo recorrer a empréstimos estrangeiros, como se fez desde a independência, do que aos investimentos diretos, sujeitos à “espoliação” dos dividendos e da remessa de lucros ao exterior (isso ficou evidente na carta deixada por Getúlio Vargas quando do seu suicídio, criando essa “herança maldita” do ódio aos capitais forâneos, sempre “sugadores” da riqueza nacional).

Na experiência concreta do Brasil do período contemporâneo o que tivemos foram acelerações esporádicas do impulso inflacionário, sempre causado por excesso de gastos públicos, combatidos oportunamente por planos bem ou mal sucedidos de estabilização econômica, e, sobretudo, um processo de desenvolvimento endógeno que resultou num crescimento dotado de baixo dinamismo sustentado, e um atraso relativo no confronto com outras experiências nacionais de abertura econômica e de liberalização comercial, no quadro de um sistema mais baseado na força do livre empreendedorismo de mercado do que na suposta eficiência da condução estatal do jogo econômico. Enfim, como síntese, sempre fomos mais estatizantes do livre-mercadistas, o que talvez explique nossa longa estagnação de mais de quatro décadas num período que foi do fim do socialismo à globalização otimista e, agora, ao desmantelamento do multilateralismo político e econômico pela ação conjunta, mas não necessariamente combinada, de dois dirigentes imperiais que se acreditam ser os imperadores de seus respectivos continentes, quiçá do mundo. Ainda estamos nisso…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5380, 29 junho 2026, 4 p.

 

Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824 - Paulo Roberto de Almeida

 Hoje é 4 de julho de 2026: 250 anos da Declaração de independência das 13 colônias americanas com respeito à monarquia britânica. Abaixo um trabalho sobre as relações dos Estados Unidos com o Brasil desde a nossa independência, sob a forma de respostas a questões de um jornalista.


Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

1) De 1824 até agora, seria possível selecionar até cinco eventos, fatos, acordos ou tratados que envolveram o Brasil e os Estados Unidos que marcaram as relações entre os dois países?

PRA: O próprio reconhecimento precoce da independência de uma monarquia constitucional pelo governo americano, em 1824, antes das monarquias europeias, e da própria metrópole, representa um gesto importante no plano político hemisférico, mas enquadrado conjunturalmente na proclamação, um ano antes, da chamada Doutrina Monroe, uma postura de oposição à eventual reconquista das antigas colônias ibero-americanas pelas monarquias europeias da Santa Aliança.
Mais adiante, a entrada pelo rio Amazonas, em 1851, sem prévia autorização do Império, de um tenente da Marinha americana foi objeto de reclamações formais por parte do governo imperial, por ter havido fraude a pretexto de “expedição científica”. Desde o final da guerra civil americana, os EUA se converteram no maior importador de café brasileiro, cuja venda sempre representou um saldo significativo para o Brasil na sua balança bilateral.
Em 1889, o Império havia respondido ceticamente à proposta americana de uma união aduaneira hemisférica, tal como formulados pelo governo americano, por desejo de conservar relações privilegiadas com países europeus. A mudança de regime, no curso da conferência, alterou as instruções da delegação brasileira num sentido americanista.
A mudança de governo e de regime, em 1889, suscitou uma primeira onda de americanização na jovem República do Brasil, tanto é assim que o novo regime passou a se chamar de “Estados Unidos do Brasil”, e sua primeira constituição republicana, em 1891, espelhou diversos dispositivos da Carta americana, sob influência do federalismo de Rui Barbosa. Um acordo de comércio favorável amplamente aos EUA foi negociado logo ao início do novo regime, mas derrogado poucos anos depois pelo protecionista McKinley.
A revolta da Armada, em 1893, no governo de Floriano Peixoto, com o bloqueio da Baía da Guanabara, contou com o apoio decisivo de uma armada americana, mobilizada para permitir a passagem de barcos cargueiros, mobilizados justamente para furar o bloqueio.
A longa gestão Rio Branco, de quase dez anos à frente da chancelaria (1902-1912), representou uma nova orientação da política externa. no sentido de refletir a ascensão dos EUA sobre os assuntos do mundo. As boas relações não impediram uma denúncia contra o Brasil em cortes americanas contra o “comércio desleal” do Brasil no setor do café, ação motivada pela política de valorização do produto, ou seja, retenção de estoques para empurrar os preços para cima. Na mesma época, bancos de NY começaram a participar na emissão de títulos externos da dívida oficial brasileira.
Os anos 1930 representaram os maiores desafios para o que se poderia chamar de primeiro envolvimento do Brasil na geopolítica mundial, com pressões dirigidas pela Alemanha e pelos Estados Unidos em prol de relações econômicas e financeiras preferenciais no quadro da Grande Depressão, e da retração protecionista em quase todos os mercados. O Brasil contraiu um acordo de comércio liquidado não em divisas, mas em mercadorias, com a Alemanha, sob protestos americanos. Ao mesmo tempo conseguia renegociar algumas de suas dívidas com os credores americanos, com o apoio do Tesouro. Mais adiante, no curso da guerra, o chanceler Oswaldo Aranha conseguiu consolidar uma precoce aliança em apoio aos EUA, logo após Pearl Harbor (7/12/1941), convocando uma reunião extraordinária dos chanceleres hemisféricos, hipotecando solidariedade ao país atacado, em janeiro de 1942. Foi também um dos primeiros beneficiários dos Lend-Lease Agreements, de cessão de material e equipamentos militares americanos e programas de apoio econômico durante a guerra, no quadro das Nações Unidas. Mesmo tendo a Alemanha oferecido ajuda na construção de uma siderúrgica, foram os EUA que viabilizaram o grande investimento da U.S. Steel na construção de Volta Redonda, um primeiro grande marco na industrialização brasileira. Roosevelt se entreteve com Vargas, num encontro em Natal, que marcou o ingresso efetivo de forças brasileiras na guerra europeia contra o nazismo.
O imediato pós-guerra representou uma segunda americanização do Brasil, bem mais afirmada, pois os EUA eram os únicos países dotados de recursos para viabilizar programas de reconstrução (nos países europeus e no Japão) e de desenvolvimento, nos aliados da primeira Guerra Fria. Uma Comissão Mista Brasil-EUA, firmada por Truman e Dutra, em 1949, oferece um primeiro mapeamento completo da economia brasileira.
Em duas oportunidades, o governo brasileiro sugere a criação de uma espécie de novo Plano Marshall para a América Latina, sem sucesso porém: na conferência de criação da OEA, em Bogotá, em 1948, e já no governo Juscelino Kubitschek, em 1958, por meio da primeira iniciativa da diplomacia multilateral do Brasil, a Operação Pan-Americana (o único resultado foi a fundação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em 1960).
Seu relatório, divulgado já no governo Vargas constitucional, sugere a criação de um banco de desenvolvimento, de um banco central e de diversos outros empreendimentos nessa área. Foi ainda no governo Vargas (1953) que se firmou um acordo de assistência militar que selou a vinculação entre os dois países, só suspendido pelo Brasil no governo Geisel (1977), por “interferência americana” nos assuntos internos do Brasil, no caso, relatório sobre direitos humanos requerido pelo Congresso para programas de ajuda. As relações, antes amigáveis, nos governos Nixon-Medici (inclusive pela participação do Brasil no golpe de Pinochet contra Allende, em 10973), se deterioram sob Geisel, a despeito de um acordo de consultas mútuas entre Azeredo da Silveira e Henry Kissinger.
Os EUA, seus bancos e funcionários do Tesouro, desempenharam um papel positivo durante a primeira crise da dívida latino-americana, nos anos 1980, quando o Brasil precisou de vários acordos stand-by com o FMI, o que continuou nos anos 1990. Os governos Lula, a despeito de uma aparente cordialidade com Bush filho, foram discretamente antiamericanos, não só formulando esquemas puramente latino-americanos de consulta e coordenação (a exemplo da Unasul, excluindo a OEA e os EUA), mas abertamente sabotadores de uma grande iniciativa americana, a Alca, sabotada em 2006 na conferência de cúpula de Mar del Plata, numa aliança Chávez-Lula-Kirchner. Antes disso, Lula se movimentou para impedir a invasão americana no Iraque, mas recebeu alertas do governo Bush para não se mostrar muito ativo nessa matéria: para realizar seu intento, o governo Bush conseguir “expelir” o diretor brasileiro da OPAQ, ainda no final do governo FHC.
As relações foram superficialmente cordiais durante o governo Obama, a despeito das revelações sobre espionagem da NSA sobre comunicações do governo e de empresas estatais do Brasil, o que causou a suspensão da visita de Estado que Dilma Rousseff pretendia fazer aos EUA em sua primeira gestão (2013). Michel Temer, por sua vez, se surpreendeu, numa de suas participações na Assembleia Geral da ONU, com um convite, formulado por Trump 1, num jantar oferecido a presidentes da América Latina, para participarem de um golpe contra o regime chavista da Venezuela: a diplomacia brasileira obviamente sabotou essa tresloucada aventura militar (que foi novamente tentada ao início de Bolsonaro).
As relações do governo Bolsonaro com Trump 1 foram de vergonhosa submissão, tanto é que nem cumprimentou Joe Biden por sua vitória em 2020, e até colocou em dúvida a lisura dessas eleições, tanto quanto o fez, sistematicamente, em relação aos pleitos brasileiros conduzidos por votação eletrônica. Altos funcionários americanos – Jake Sullivan, do NSA, e William Burns, da CIA – visitaram o Brasil em 2021 e 2022 para demonstrar abertamente a oposição do governo americano a qualquer tentativa de golpe continuísta de Bolsonaro.
Lula perpetrou o gesto indelicado, antidiplomático e até contra as regras expressas das convenções internacionais e da própria Constituição brasileira, ao interferir abertamente nas eleições americanas de 2024, apoiando a candidata democrata, derrotada por Trump 2. As relações entre ambos nunca foram de amizade, sequer de aproximação formal, no contexto das insanidades tarifárias do segundo governo Trump e da sua interferência direta no direito interno do Brasil, ao pleitear extinção do processo contra os golpistas da tropa Bolsonaro, chegando a escrever essa intromissão em carta aberta dirigida a Lula. Diplomatas e homens de negócios atuaram para permitir um primeiro entendimento para minimizar os conflitos econômicos e políticos – totalmente ilegítimos, pois que baseados em legislação unilateral dos EUA ou a expressando arrogância imperial da administração Trump – mas as ameaças de imposição de sobretaxas abusivas continuam pairando numa relação bilateral que pode ser considerada a pior possível em mais de dois séculos de relações diplomáticas. No momento presente, parece ser visível o programado apoio do governo Trump a um governo de extrema-direita nas eleições de outubro, preferencialmente o candidato ungido por Bolsonaro. Tudo indica que as relações possuem grandes chances de se deteriorarem ainda mais no futuro previsível.

2) Como o senhor avalia a qualidade e a importância atual dessa relação?

PRA: Ela sempre foi, no plano histórico, a mais importante relação diplomática, econômica, financeira, cultural e geopolítica, desde praticamente o final do século XIX, quando os EUA se convertem no principal parceiro brasileiro em todas essas vertentes, o grande fornecedor de financiamento, tecnologia e de assistência militar durante o último século, com altos e baixos no plano econômico comercial relativamente administráveis. No plano geral, elas não foram só basicamente corretas, no estrito plano diplomático, como substancialmente benéficas, aos dois países, ao permitir o acesso pelo Brasil a padrões superiores nos planos econômico, educacional, tecnológico e até “geopolíticos”, em todas as áreas abertas à cooperação bilateral e até regional, mas igualmente aos EUA, ao oferecer uma interface hemisférica que jamais representou algum tipo de ameaça aos interesses dos EUA.
A situação atual indica uma séria deterioração dessa relação, sendo que o governo Trump é o responsável direto e irrecusável pela presente situação, não exclusivamente dirigida contra o Brasil – pois que as insanidades tarifárias e o desrespeito a regras mínimas de correção diplomática, de cortesia ou de simples falta de desejo de qualquer entendimento razoável sobre as relações erga omnes, dirigidas contra todos os países, à exceção da Rússia de Putin –, mas com o potencial de atingir mais fortemente o Brasil, tanto por ser, aparentemente, o país mais irredutível do hemisfério, como pelos efeitos de uma diplomacia presidencial excessivamente personalista conduzida por Lula, em seus arroubos improvisados.
As turbulências no sistema internacional já tinham começado com as aventuras militares russas na Crimeia e na Ucrânia, em 2014 e a partir de 2022 até aqui, mas elas conheceram uma complacência pouco conhecida segundo os padrões diplomáticos do Brasil, desde o governo Dilma (invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, sem qualquer postura compatível com a doutrina jurídica nacional, de absoluto respeito às normas mais elementares do Direito Internacional), mas foram acentuadas extraordinariamente a partir do governo Lula, que não só apoiou resolutamente a postura ilegal do governo Putin, como continuou sustentando objetivamente seu esforço de guerra, ao aumentar em níveis exponenciais as importações de fertilizantes e combustíveis russos, em total desacordo com o espírito e a letra da Carta da ONU, que comanda solidariedade e apoio a um governo sujeito a uma usurpação territorial ilegal e agredido brutalmente ao longo de todos esses anos.
Pode parecer paradoxal, mas o indisfarçável desapreço do lulopetismo diplomático pelo “imperialismo americano” encontra um terreno comum de convergência entre Lula e Trump, quando ambos atuam, de modo claro, em apoio às ações e objetivos de Putin, não apenas na Ucrânia, mas em várias outras vertentes das relações internacionais, pois os dois grandes dirigentes autocráticos parecem empenhados, por vias diversas, ao objetivo de se conformar uma “nova ordem global multipolar”, consigna à qual Lula já emprestou por diversas vezes seu apoio claro e aberto. Ninguém sabe, se, como ou quando será possível alcançar tal projeto lunático, mas Trump alimenta certamente o sonho de se sentar com os três grandes líderes imperiais, numa espécie de Yalta 2, conformando uma nova divisão do mundo em zonas de influência de cada um dos “impérios”. Xi Jinping certamente não se prestará a esse tipo de paródia, mas Lula sempre buscou se aproximar dos grandes líderes do poder mundial. Não se fazem mais conferências diplomáticas como antes...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5381, 30 junho 2026, 5 p.

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