sexta-feira, 19 de junho de 2026

Minhas Previsões Imprevisíveis para 2013 - Paulo Roberto de Almeida

 Antigamente eu fazia previsões imprevisíveis, mas pelo fato do Brasil ser um país totalmente imprevisível, elas perderam a graça e eu parei de fazer. Seria o caso de retomar o exercício.

Em todo caso aqui estão as previsões para 2013, feitas no final de 2012...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Revisando as previsoes imprevisiveis para 2013, e preparando as de 2014
Todo final de ano, como muitos já sabem, eu, atrevendo-me a competir com os astrólogos, videntes e outros seres preparados para o que der e vier, costumo fazer as minhas previsões imprevidentes.
Elas têm essa peculiaridade, e bizarrice, de serem concebidas para justamente não se realizar. Fico totalmente realizado quando todas elas falham, pois isso significa que eu acertei pelo contrário, ou al revés, como diria o finado presidente Hugo Chávez, que também praticava, à sua maneira, a economia política ao contrário, de que é mostra o brilhante estado da economia venezuelana.
Mas, o mundo, o Brasil em especial, sempre nos prega surpresas, e algumas previsões imprevidentes acabam se realizando, contra qualquer racionalidade.
Que seja, nem todo astrólogo acerta e este "previsor" por vezes acerta sem querer, ou seja, algumas coisas boas acabam acontecendo sem que as intenções iniciais fossem essas.
Mas, como todo cidadão honesto, também tenho de prestar contas do que acertei, e do que errei.
Nada melhor, neste sentido, do que colocar aqui as previsões feitas no final de 2012, válidas para 2013, para que todos e cada um possam verificar como eu me desempenhei e qual seria, exatamente, minha "taxa de sucesso".
Pelo que ouso chutar, acho que acertei (no caso, desacertei) 70% das previsões, o que me parece uma taxa razoável de desacertos, maior, em todo caso, do que a maioria dos videntes e astrólogos.
Quero, neste momento, agradecer ao governo dos companheiros e todos os seus aliados aloprados, que muito fizeram para aumentar a minha taxa de desacertos, sobretudo nos terrenos da corrupção, da economia, das políticas setoriais improvisadas, que continuam tão confusas quanto sempre foram.
Só faltou acertar que o pequeno Uruguai seria o país do ano, por tentar legalizar a maconha de todos os dias. Vai dar certo em 2014, ou seja, o programa vai ser um fracasso monumental. Acrescento, portanto, o experimento da maconha estatal, na lista das previsões imprevidentes de 2014.
Boa sorte, podem conferir o que escrevi no ano passado, e aguardem mais previsões imprevidentes que elas estão sempre se manifestando espontaneamente, com a ajuda do governo companheiro.
Paulo Roberto de Almeida


Minhas Previsões Imprevisíveis para 2013
(não custa continuar tentando, para ver se em algum ano dá certo...)

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 20 de dezembro de 2012.

Como faço a cada ano (salvo nos bissextos), vou continuar meu tresloucado exercício de fazer previsões ao contrário, isto é, minhas expectativas para o que não tem nenhuma chance de acontecer no ano que pronto se iniciará. É claro que, dada a múltipla natureza bizarra, sempre inovadora, criadora, simpática e decepcionante, e até mesmo surpreendente deste país surrealista que se chama Brasil, corremos o sério risco de sermos desmentidos, e sairmos humilhados, pela absolutamente inacreditável realização de algumas dessas previsões malucas. As surpresas podem ocorrer, especialmente as vindas de certas esferas da alta política, previsíveis na sua imprevisibilidade, e que costumam confirmar aquela máxima do Barão de Itararé: de onde menos se espera é que não sai nada mesmo. Mas isso fica pela conta do seguro contra acidentes não previstos, que renovo a cada ano nessa época, para evitar, justamente, ser processado por algum leitor, e aí cair naquela previsão ainda mais imprevisível de ter o caso julgado por um “auto” tribunal em menos de 20 anos, o que atrapalharia sobremaneira minha aposentadoria.
Sem mais delongas e tergiversações, vamos pois à lista atualizada das previsões imprevisíveis para 2013. Se algumas delas se realizar, os leitores podem me cobrar a conta, mas apenas em 2014, quando terei um estoque inteiramente novo de ofertas do impossível.
Começo pelo mais comum, frequente e corriqueiro: corrupção. Se não sobreviver o fim do mundo antes, vamos ficar inteiramente livres de qualquer novo caso de “malfeitos” em 2013. Tendo aprendido com sua própria experiência, na carne, por assim dizer, os companheiros vão inaugurar uma tecnologia inteiramente nova de combate à corrupção, pela simples razão de que – como a nova nota fiscal que já declara os impostos – a corrupção já virá integrada a todos os negócios públicos. O Partido dos Companheiros está criando uma Secretaria Especial de Negócios Não-Contabilizados, aqui se antecipando ao financiamento público das campanhas eleitorais, o que vai facilitar tremendamente as coisas. Transpondo a tecnologia para o nível estatal, vai ser possível nos livrarmos inteiramente da corrupção, em virtude do expediente já referido de sua integração oficial, formal e carimbada, em todas as transações que envolvem instituições e agentes públicos. Vai ser assim uma espécie de CPMF destinada inteiramente ao caixa 2, mas de forma explícita. Resolvido o problema, não é mesmo?
Fim do Mundo: parece que não deu certo desta vez, mas não custa apostar mais um pouco, inclusive porque esta catástrofe natural – ou dos deuses? – vai resolver todos os outros problemas, inclusive a obrigação deste escriba ficar perdendo tempo neste tipo de besteirol. As apostas ficaram um pouco mais caras, dada a frustração com as últimas cinco previsões e meia. Também: os maias têm aquela escrita complicada, impossível de ler, e números que não são em base decimal. Mais passons...
Economia: depois do insucesso dos quinze últimos pacotes de estímulo à economia, o governo promete que não vai mais fazer pacotinhos de estímulo à economia; pode ser um pacotão, de tempos em tempos, mas essa coisa de a presidente e o ministro da Fazenda anunciarem, a cada semana, que “estão tomando medidas para estimular a economia” vai finalmente sair de moda. E não tem mais essa coisa de improvisações setoriais; doravante só terão direito a pacotes de estímulos, pacotões, na verdade, os setores minoritários, que já gozam de várias cotas de favor. Isso muda! Os afrodescendentes, por exemplo: com base na auto-declaração, eles já são mais de 55% da população brasileira. Todos os pacotes de favor serão agora para setores minoritários e prejudicados nas políticas dos últimos anos, como os loiros de olhos azuis, coitados.
Política: o Congresso proclama sua independência, enfim! Só vai trabalhar para o governo nas quartas-feiras, quando o expediente é total. Nas terças e quintas, e só em regime de meio expediente, trabalhará para ele mesmo, que ninguém é de ferro. Estão abolindo o 14o. e o 15o. salários, mas vão criar a semana de expediente ainda mais reduzido. E já avisaram; só vão cassar companheiros legisladores em anos bissextos. O Stalin Sem Gulag, aliás, aproveita para mandar dizer que a luta continua, agora dentro da cadeia, com o apoio do PCC, que é um partido quase alinhado com suas teses.
Justiça: o Supremo diz vai parar de se meter na vida dos demais poderes; mas já avisou que não quer nenhum parlamentar se metendo na fixação dos seus próprios salários, que devem ser proporcionais aos quatro milhões de casos “a julgar”, parados há mais de oito anos nos escaninhos dessas varas que já viraram palácios de papel. Também vão modernizar o figurino: aquelas togas incomodas ficam sempre caindo e atrapalhando o movimento dos braços; vão adotar um simples avental, com os dizeres mais do que atuais: A justiça é cega...
Esporte: a Seleção de futebol da França se exila por completo na Bélgica, por razões fiscais. Os integrantes da seleção da Bélgica, por sua vez, fazem greve para não ter de pagar imposto de renda e ameaçam se exilar no vizinho Luxemburgo. A seleção brasileira adota um uniforme mais largo e mais comprido, daqueles antigos, para acomodar todas as mensagens publicitárias que a CBF negociou com importantes empresas multinacionais e várias estatais tupiniquins. Alguns jogadores vão negociar tatuagens publicitárias na barriga e no bum-bum (este mais caro). Mas, na copa das confederações, a seleção brasileira perde da seleção do Burundi por 1 a 0. Pano...
Economia mundial: a gangorra continua. Depois que o Brasil perdeu a condição de sexta economia mundial, para se converter na oitava economia, o governo reagiu e, via flutuação cambial do Banco Central, conseguiu trazê-la de volta para a sétima posição; os mercados reagem, fazem dois ataques especulativos e levam o Brasil à nona posição, mas o governo faz novo pacote e consegue trazer a economia para a oitava posição outra vez; os mercados, só de birra, provocam fuga de capitais e arrastam o Brasil para a décima-segunda posição; governo, emburrado e amuado desiste de brincar de gangorra cambial. Enquanto isso, a China e os Estados Unidos criam um programa conjunto de manipulações cambiais: pronto, era o que faltava para o governo brasileiro se enfurecer de vez; mas o seu tsunami financeiro não passa de uma marolinha...
Economia doméstica: o Ministério do Planejamento cria o PAC-III, com taxa de realização pré-programada em 35,7% dos recursos empenhados (incluídos restos a pagar...); o TCU também criou um software novo, de embargo preventivo das obras suspeitas de irregularidades: ele também vem pré-programado para embargar metade das obras, inclusive retroativamente, do PAC-I e do PAC-II, mas aí se descobre que as obras paradas são mais do que 75% do total dos volumes empenhados;
Economia sentimental: o governo cria o plano Brasil Amoroso, para distribuir beijos e abraços a quem vive sem companhia; Senadores mais sentimentais que outros, como Suplicy e Buarque, pensam instituir uma Bolsa Carinho, de meio salário de senador, para os contemplados no programa; executivo reage e cria o vale-beijo.
Cultura: as editoras brasileiras pedem proteção contra a Amazon, e querem taxa especial sobre o livro eletrônico, para compensar os custos que tem de estocar um monte de papel impresso que não vende; a Amazon resolve diversificar suas operações nacionais e começa a vender tapioca express-delivery. Deputado Aldo Rebelo reage, e diz que só pode se estiver escrito em língua nacional.
Política Externa: Cuba decide ingressar no Mercosul, antes do Paraguai voltar, e diz que tem direito a receber metade das verbas do Fundo de Recuperação e Apoio à Correção das Assimetrias Sociais Socialistas (FRACASSO), criado na cúpula do meio do ano. Guiana e Suriname reagem e dizem que também querem entrar no Mercosul para se beneficiar do maná brasileiro, à razão de 70% do total. Ministros decidem então criar uma Casa da Moeda do Mercosul (CMM), o mais novo órgão do vasto empreendimento integracionista, que não cessa de se ampliar no continente e surpreender o mundo pela sua criatividade e versatilidade. Obama diz que EUA consideram se tornar membro associado do Mercosul. É a apoteose...
Fim do Mundo, outra vez: guru de Cabrobó da Serra diz que ele descobriu um erro de cálculo no calendário maia, e atrasa do fim do mundo para meados de 2014, o que permite passar o fim de ano sem maiores preocupações com seguro de vida.
Bom ano a todos...

Brasília, 20 de dezembro de 2012.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/12/minhas-previsoes-imprevisiveis-para.html

História, Diplomacia e Comércio Internacional: uma aproximação ao pensamento de Rubens Ricupero - projeto de livro Paulo Roberto de Almeida

Em 2012 eu já pensava em fazer um livro em homenagem ao embaixador Rubens Ricupero, e tinha preparado um esquema para organizar um Festschrift. como no esquema abaixo. Demorou um bocado e só saiu em 2025, como relatado nesta postagem: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/vidas-paralelas-rubens-ricupero-e-celso_10.html

2432. “História, Diplomacia e Comércio Internacional: uma aproximação ao pensamento de Rubens Ricupero”, Brasília-Florianópolis, 5 outubro 2012, 3 p. Esquema e explicação de proposta de livro tipo Festschrift, em homenagem a Rubens Ricupero, com organização pessoal e de Gelson Fonseca e convidados selecionados. Em revisão e complementação. Título e estrutura alternativos: “Um Estadista da Nova República: ensaios em homenagem a Rubens Ricupero” (Passo Fundo, 19/10/2012); revisto em Brasília, 18/11/2012. Encaminhado a RR e a diversos correspondentes. 


História, Diplomacia e Comércio Internacional:

ensaios em homenagem a Rubens Ricupero 

 

Paulo Roberto de Almeida

Projeto de obra em homenagem a RR: em preparação

 

Organizadores: Paulo Roberto de Almeida, Gelson Fonseca

 

Esquema tentativo: 

Prefácio: Gelson Fonseca

1. Introdução: Paulo Roberto de Almeida

 

Parte I: História: a mais constante das companhias

2. Leituras de iniciação, de formação e como fontes de reflexão (Rubens Ricupero)

3. Método e reflexão aplicados à diplomacia (José Antonio Macedo Soares)

4. O exercício didático como guia para a ação (Carlos Henrique Cardim)

 

Parte II: Diplomacia: princípios, regras e valores 

5. Valores essenciais do diplomata pensador (Celso Lafer)

6. O entorno regional como circunstância do Brasil (Sérgio Danese)

7. O multilateralismo, suas regras políticas e o Brasil (Marcos Azambuja)

8. O sistema onusiano e a força do direito (Ronaldo Mota Sardenberg)

9. A diplomacia brasileira pelos pensadores e formuladores (Alberto da Costa e Silva)

 

Parte III: Políticas Públicas: formulação e execução

10. A transição para a democracia: a conciliação sem o conciliador (Sérgio Amaral)

11. Conselheiro do Príncipe: a arte de ser invisível (Luiz Felipe Seixas Corrêa)

12. No coração do Império: a relação assimétrica (José Vicente Pimentel)

13. Amazônia e Meio Ambiente (Luiz Filipe Macedo Soares Guimarães)

14. Finança e confiança: a caminho do Plano Real (Marcos Galvão)

 

Parte IV: Comércio e Desenvolvimento nos contextos regional e internacional

15. Uma diplomacia comercial para o Brasil (José Alfredo Graça Lima)

16. O desenvolvimento no plano multilateral (José Estanislau do Amaral)

17. A América Latina no sistema multilateral de comércio (Renato Baumann)

18. A Unctad: eixo conceitual dos países em desenvolvimento (Joseph Marques)

 

Parte V: Globalização: problemas e perspectivas

19. Globalização prêt-à-porter e à la carte (Richard Kozul-Wright)

20. Finanças internacionais e crises financeiras (Yilmaz Akyüz)

21. A perspectiva Norte-Sul (Martin Khor)

22. A visão do Sul (C. Raghavan)

 

23. O professor e o homem público: uma reflexão (Georges D. Landau)

24. Conclusão: vida e pensamento de Rubens Ricupero (Gelson Fonseca)

 

Bibliografia completa de RR (a cargo da FAAP)

Referências bibliográficas (PRA)

 

==============

 

(Nota explicativa)

 

Apresentação ao Festschrift

 

É comum, no ambiente acadêmico, a organização de volumes comemorativos em homenagem àqueles que se distinguiram em carreiras especialmente bem sucedidas na docência e na pesquisa de uma área qualquer; a prática, é verdade, é bem mais usual e frequente nas humanidades do que nas ciências exatas. O objetivo é justamente o de se render tributo, geralmente por parte de colegas, a quem soube exercer-se com talento e dedicação nas diversas vertentes e feituras do magistério e da pesquisa ao longo de todo um itinerário que costuma estender por uma geração inteira, senão mais, alcançando, ano a ano, dezenas de graduações acadêmicas e de cursos complementares, com possível e não rara influência fora do ambiente estritamente universitário.

Esses volumes – que na designação alemã recebem o substantivo combinado de Festschrift, na versão francesa o qualificativo de Mélanges offerts à..., e na inglesa o tradicional Essays in Honor of... – são menos conhecidos fora da academia, isto é, nas corporações de ofício que também possuem no trabalho intelectual a base fundamental de suas reflexões práticas: estas seriam, por exemplo, a magistratura, a advocacia, gestores de políticas públicas (como funcionário dos tesouros nacionais, dos bancos centrais etc.) e outras. Poderiam também merecer tais distinções algumas categorias da burocracia pública que, na maior parte dos casos, possuem instituições próprias de ensino, formação e treinamento, bibliotecas especializadas e, por vezes até um corpo de professores estável, dedicados a instruir e aperfeiçoar, nos ossos do seu ofício, os novos recrutas e os funcionários concursados da profissão em causa. 

Este deveria ser também o caso da diplomacia, uma carreira de Estado altamente intelectualizada, dotada de instituições próprias de seleção, recrutamento e treinamento, com professores designados, dentro e fora da carreira, para o processo de socialização, homogeneização e aperfeiçoamento dos ingressados na carreira. A mais forte razão, os diplomatas são, junto com os soldados e marinheiros, agentes do Estado por excelência, dos quais se exige, justamente a mais alta qualificação técnica e intelectual na defesa dos interesses do país e na consecução dos grandes objetivos nacionais. E, no entanto, não se tem notícia, no caso do Brasil, de que o Instituto Rio Branco, que exerce, desde 1945, o monopólio nessas tarefas, ou o braço editorial do Itamaraty, a Fundação Alexandre de Gusmão, tenham jamais prestado homenagem, sob a forma aqui mencionada, aos mais brilhantes mentores e profissionais da carreira, muito embora se publiquem, ocasionalmente, volumes de compilação de escritos esparsos de um ou outro diplomata que deixaram marcas em algum setor da Casa. 

Volumes comemorativos da entrada em funções, em 1902, do ícone ímpar da diplomacia brasileira, o Barão do Rio Branco, e de sua morte no exercício do cargo, dez anos depois, foram assim publicados pela Funag, em 2002 e em 2012, respectivamente, ao lado de uma série de outras coletâneas de textos esparsos de alguns diplomatas que legaram escritos de cunho meramente burocrático ou de natureza mais testemunhal do que propriamente conceitual. Mas não se trata, obviamente, de algo comparável ao espírito e ao estilo de um Festschrift, com suas características de comemoração na própria presença do homenageado. 

Um exercício vagamente assimilável a esse gênero – mais exercendo-se apenas em direção de personagens falecidos – foi constituído pela obra organizada em 2001 pelo diplomata e acadêmico Alberto da Costa e Silva, em torno da presença de figuras relevantes do “Itamaraty na cultura brasileira”, certamente título ambicioso, mas que permitiu registrar a registrar a trajetória de um número seleto de diplomatas intelectuais que se exerceram com talento nas letras e nas humanidades, em geral. Embora reconhecendo o mérito do empreendimento, foi como se a iniciativa dissesse algo do gênero: “Aos mortos, todas as nossas homenagens; aos vivos, mais um pouco de paciência: contentem-se, por enquanto, com essas medalhinhas, antes que possamos nos ocupar, no devido tempo, de seus despojos literários”. 

Talvez seja uma sábia medida, pois, por um lado, os mortos já não poderão reclamar do que se escrever sobre eles, e caso, por outro lado, os vivos fossem contemplados, correríamos o risco de cair no conjuntural ou, pior, na pressão política para que pessoas do presente, com influência, fossem entronizados como supostos arautos geniais da verdadeira doutrina diplomática e da melhor prática nesse terreno. Não há coisa pior, comparativamente aos exagerados elogios fúnebres aos que, recentemente desaparecidos, possuem todas as virtudes, e nenhum vício, do que algum tipo de panegírico aos poderosos do momento ou a ególatras compulsivos.

Por que, então, decidimos romper com essa sadia precaução e homenagear um colega de carreira ainda em intensa produção intelectual? Poderíamos alinhar parágrafos e mais parágrafos de justificativas e explicações, mas dispensamo-nos da redundância. Bastaria o atestado, informal, de quem conhece o personagem e sua produção. Quem quer que tenha acompanhado a diplomacia brasileira nos últimos cinquenta anos, quem sorveu suas aulas na Universidade de Brasília ou no Instituto Rio Branco, quem assistiu a qualquer uma de suas centenas, talvez milhares, de palestras em algum canto do mundo, quem percorreu, nas últimas décadas, as páginas dos jornais mais importantes do país, nas seções de economia ou de atualidade internacional, quem acompanhou a saga da implementação do Plano Real, ou quem cotidianamente segue a discussão bem informada e responsável, em quaisquer veículos, em torno dos temas do comércio, do meio ambiente, os diplomáticos e, de modo geral, os de relações internacionais, ou de qualquer outro assunto, quem já leu seus artigos e ensaios, ouviu suas opiniões, assistiu a entrevistas de Rubens Ricupero, qualquer um deles pode responder melhor do que os organizadores desta coletânea sobre a razão de um livro como este estar sendo editado e publicado, sendo apenas de se estranhar o atraso na tarefa. Não parece caber, assim, qualquer justificativa para o presente volume: o personagem, e suas produções, constituem sua própria mensagem e apresentação, sem qualquer campanha publicitária.

Esta tardia iniciativa, portanto, deve ser vista no sentido preciso que possui um Festschrift: uma homenagem, singela, mas sincera, de amigos e admiradores de Rubens Ricupero a um dos mais distinguidos diplomatas e homens públicos do Brasil do último meio século. Os textos aqui compilados percorrem alguns dos domínios – certamente não todos – que frequentou nosso personagem: todos os convidados possuem, em relação a ele, aquilo que Goethe chamou de afinidades eletivas; talvez pudéssemos também classificar os textos em sua homenagem, numa pequena inversão goethiana, de escolhas afetivas. Este é o sentido do livro. Desfrutem...

(...)

Paulo Roberto de Almeida

 

[Brasília-Florianópolis, 5/10/2012]

Passo Fundo, 19/10/2012;

Brasília, 18/11/2012]

A Espada e a Pluma: um poema alegórico na era das trevas - Paulo Roberto de Almeida

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A Espada e a Pluma: um poema alegórico na era das trevas - Paulo Roberto de Almeida

A Espada e a Pluma: 

um poema alegórico na era das trevas


Paulo Roberto de Almeida

 

A espada é muito mais poderosa do que a pluma, 

infinitas vezes mais poderosa, e de forma mais contundente.

A espada pode cortar quantas plumas quiser, à vontade;

a pluma não consegue vencer uma só espada, ainda que multiplicada em mil.

 

A espada corta, fere, penetra, rasga, decepa e esquarteja

a pluma não tem qualquer poder contundente nas coisas da matéria.

A espada impõe respeito, intimida, aterroriza e submete;

uma pluma mal consegue provocar cócegas nas pessoas.

 

A espada tem o poder de comandar vontades, mesmo contra a vontade;

a pluma, no máximo, só consegue influenciar as mentes, nunca os músculos.

A espada desperta a adrenalina, faz o coração bater forte, o sangue subir à cabeça;

a pluma, se tanto, conquista alguma consciência mais aberta aos conhecimentos.

 

A espada sempre vence, pelo argumento da força,

a pluma nem consegue se impor pela força do argumento.

A espada sempre tem razão, mesmo quando nenhuma razão tem,

a pluma pode até tê-la de sobra, mas a razão do mais forte é sempre a melhor.

 

A espada dobra os seres, pela sua presença cortante, definitiva;

a pluma busca converter consciências, mesmo ausente ou distante.

A espada não pede licença a ninguém: ela se instala, sem pedir permissão;

a pluma sempre tem de negociar alguma licença para se exercer.

 

A espada compra mercenários, torna os homens seus escravos;

a pluma é libertária, e quer sempre livrar as pessoas da opressão.

A espada manipula súditos, envia espiões, aprisiona os cortesãos;

a pluma pretende, apenas e tão somente, formar livres cidadãos.

 

Todos os impérios foram construídos na base da espada, do ferro e do fogo;

nenhum império ruiu apenas pela força da pluma, mesmo coalizada a outras plumas.

A soberania começa onde existe o monopólio da força por algum dono de espadas;

a pluma é anarquista, não quer deuses ou senhores; só promete autonomia.

 

A espada é o último argumento de defesa, e a última instância da liberdade;

mas ela também serve para dominar, mesmo o cidadão sem qualquer pluma.

A pluma pode gritar, mas o tilintar da espada fala mais alto, bem mais alto;

aliás, a espada não precisa dizer nada: o simples desembainhar já é um discurso.

 

A espada invade casas, destrói culturas, mata animais e outros homens;

a pluma não consegue mover um grão de centeio, não traz água, nem abrigo.

A espada impõe a ordem, lá onde reinava a mais perfeita desordem;

a pluma contribui para a desordem, ao pretender desobedecer à espada.

 

A espada serve para resguardar viúvas e órfãos, os fracos e os indefesos,

mas também desperta ambições e cobiças desmedidas, sempre crescentes.

A pluma pode falar em prol dos de menor poder, dos desvalidos e dos ingênuos,

mas ela não impede a corrupção dos costumes e o roubo da riqueza alheia.

 

A espada alicia servidores, áulicos e até mesmo conselheiros emplumados,

mas ela não consegue dominar o que lhes vai nas mentes e sentimentos.

A pluma agita os corações, desperta vontades, cria novas aspirações, 

mas ela não dá aos que a seguem qualquer alavanca ou motor de arranque.

 

A espada sempre predomina, mesmo quando o fio se desgasta e a visão fica míope;

a pluma sozinha não faz nada: precisa de um tinteiro e de um papel, ou pergaminho.

A espada é o prolongamento natural de mãos fortes, másculas, decididas;

a pluma hesita ao simples tracejar das letras, e só funciona com mentes atiladas.

 

E no entanto, e no entanto...

a espada enferruja, fica cega, e pode quebrar, num simples embate mais feroz.

A pluma é móvel, flutua com o vento, mesmo nas mais fortes tempestades,

Ela é mais durável que a espada, pois as palavras voam, e as ideias se transmitem...

 

Uma espada fere gravemente, mas uma ideia mergulha mais fundo.

A espada geralmente está nas mãos de mercenários e de esbirros a soldo,

as ideias só podem sobreviver e se disseminar na mais completa liberdade.

Espadas agridem a esmo; ideias possuem lógica, sentido, direção e propósitos.

 

Por mais fortes que sejam os braços, as pernas, por mais couraças e capacetes,

por mais afiadas que sejam as espadas, elas só podem alcançar um de cada vez.

Ideias, ao contrário, atingem todos e cada um, num raio de 360 graus,

elas perfuram os elmos mais duros, atravessam cotas do aço mais temperado.

 

Espadas enferrujam, guerreiros morrem ou ficam estropiados, desaparecem...

Ideias, se são boas, permanecem, por séculos e até milhares de anos, sempre jovens.

As ideias, finalmente, são mais fortes que as espadas, elas vencem as espadas.

Espadas deixam apenas destruição e morte; as plumas semeiam conhecimento.

 

Espadas, no fundo, têm inveja das plumas, queriam ser livres como as plumas,

não viver em coldres cheirando a sangue e a mofo, asfixiadas em couro velho.

As plumas são ágeis, leves, flexíveis; mudam de acordo com as circunstâncias;

plumas expressam o que de melhor a humanidade produziu, em todos os tempos.

 

Espadas têm ódio das plumas, pois nunca poderão ser o que estas são:

instrumentos de beleza, de saber e de conhecimento, de paixão e de ciência.

Espadas são instrumentos profundamente complexados, e com razão: 

Elas estão do lado da morte e do sofrimento; as plumas são o eterno renascer...

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 2415: 27/07/2012 


Grande estratégia e idiossincrasias corporativas: uma reflexão a partir da experiência de George Kennan - Paulo Roberto de Almeida

 2409. “Grande estratégia e idiossincrasias corporativas: uma reflexão baseada em George Kennan”, Brasília, 14 julho 2012, 7 p. Considerações sobre posturas na carreira diplomática, com base em trecho da biografia do diplomata e historiador americano por John Lewis Gaddis: George F. Kennan: An American Life (New York: The Penguin Press, 2011). Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/07/uma-reflexao-baseada-em-george-kennan.html). Postado novamente no Diplomatizzando em 2016 (link: http://www.diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/01/george-kennan-era-um-contrarianista.html) e em 2018 (https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/11/grande-estrategia-e-idiossincrasias.html).

Grande estratégia e idiossincrasias corporativas:
uma reflexão a partir da experiência de George Kennan

Paulo Roberto de Almeida


Lendo a biografia de John Lewis Gaddis, sobre o grande diplomata e historiador americano, que dominou a segunda metade do século XX, George F. Kennan: An American Life (New York: The Penguin Press, 2011), deparo-me com um trecho, relativo ao ano de 1943, quando Kennan era encarregado de negócios na legação dos Estados Unidos em Lisboa; negociações eram conduzidas na capital portuguesa para assegurar o uso, por forças americanas, dos Açores, como plataforma absolutamente indispensável para conduzir as operações europeias da Segunda Guerra Mundial em sua vertente norte-atlântica:
“[George Kennan] began to develop... a new sense of responsibility within the duties assigned to him: at several points over the next few years Kennan took risks that jeopardized his own Foreign Service career because he thought that the national interest demanded that he do so. Obliged to operate for the first time at the level of grand strategy, he found the rules oh his profession falling short. He chose, successfully but dangerously, to violate them.” [Loc 3387 of 18204 Kindle edition,  Amazon].
Gaddis informa ainda, na sequência dessa passagem, as circunstâncias em que Kennan decidiu assumir vários riscos em sua carreira, violando deliberadamente várias regras do jogo, tal como definidas por instituições excessivamente burocráticas ou muito conservadoras, quanto o Departamento de Estado ou o comando das Forças Armadas, como se pode depreender desta transcrição adicional:
“During the Azores base negotiations [com o próprio Primeiro-Ministro português Antonio de Oliveira Salazar], Kennan violated at least four rules, any one of which could have him sacked from the Foreign Service. He exceeded his instructions in a conversation with a foreign head of government. He refused to carry out a presidential order. He lied, to another government, about the position of his own. And he went over the heads of his superiors in the State Department – as well as the secretary of war and the Joint Chiefs of Staff – to make direct appeal to the White House.” (Loc 3436 of 18204 Kindle edition,  Amazon).

Estas passagens chamaram-me obviamente a atenção, ou “struck a cord on me”, como diria o próprio Gaddis, provavelmente o maior historiador vivo da Guerra Fria e o único biógrafo autorizado de George Kennan. Explico por que, já que isso tem a ver com a mesma sensação de barreiras burocráticas e conservadoras, em assuntos que demandariam uma visão mais larga dos processos diplomáticos, que eu já enfrentei na carreira. Não querendo me comparar a George Kennan, possivelmente o maior especialista diplomático americano em assuntos russos que jamais existiu nos anais daquele serviço diplomático, mas eu também adquiri, ainda antes de ingressar no serviço diplomático, uma percepção histórica e estrutural de muitos dos temas que compõem, burocraticamente, a agenda diplomática corrente.
Tendo começado a estudar os assuntos brasileiros desde muito cedo – compulsando uma bibliografia de nível universitário, ou de pesquisa especializada, ainda quando estava em meio aos estudos do ciclo médio – desenvolvi provavelmente de maneira muito precoce um cuidado com a análise do contexto, dos precedentes históricos, e dos impactos estruturais ou implicações políticas de cada um dos problemas com que me deparava em minhas leituras ou pela leitura dos jornais de maior qualidade em suas edições dominicais (invariavelmente o velho jornal conservador O Estado de São Paulo, ainda quando discordasse profundamente de seus editoriais, que julgava representativos das opiniões da “classe dominante”). Foram anos, em meados da década de 1960, em que eu lia os grandes mestres da teoria social brasileira, entre eles os representantes da “escola paulista de Sociologia” – que pouco depois se tornaria minha alma mater, ao ter ingressado no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – e através dos quais eu filtrava minhas reações aos editoriais “reacionários” do Estadão, combinando todas essas leituras para refletir sobre os caminhos do desenvolvimento econômico e político brasileiro, no quadro das crises contínuas que agitavam o período que se tinha iniciado com o golpe de 1964, e que eu imaginava combater pela via do socialismo e de um governo comprometido com a “ditadura do proletariado”.
Independentemente dessas ilusões e descaminhos ideológicos – que foram sendo corrigidos tão pronto eu deixei o país, no final de 1970, para conhecer o triste cenário do socialismo real do leste europeu e as nuances dos capitalismos realmente existentes na Europa, durante quase sete anos – eu adquiri, a partir desses hábitos juvenis de leitura, um sentido de abrangência analítica e de inserção contextual que me acompanharia pelo resto da vida, sobretudo no domínio profissional, quando ingressei na carreira diplomática, poucos meses depois de voltar da Europa em 1977. Mas o que isso quer dizer, no quadro desta seleção de trechos da biografia de Kennan por Lewis Gaddis? Explico-me agora mais detalhadamente.
Ingressei no Itamaraty ainda na era militar, quando ainda pensava em derrubar o regime, embora não mais pela via das armas e sim pela via da pressão democrática. Tampouco pretendia converter o Brasil em uma nova Cuba ou uma nova China, como talvez fosse a intenção em meados dos anos 1960; mas o modelo ainda seria algo bem próximo do socialismo democrático europeu, que eu julgava bem mais propenso a empreender a correção das tremendas injustiças sociais em vigor no Brasil, desde sempre, do que, alternativamente, a visão mais pró-mercado que não tenho hesitação em defender atualmente. Nessa época, eu ainda era obrigado a escrever artigos com algum nom de plume, já que minhas “convicções radicais” provavelmente chocariam meus colegas e superiores diplomáticos – que eu considerava todos alinhados ao regime – e chamariam a atenção dos órgãos de segurança, especialmente ativos naquela conjuntura, quando a repressão física tinha amainado, mas o controle de inteligência continuava atento a todas as manobras da oposição ao governo militar.
Tendo iniciado minha carreira no Itamaraty por uma divisão secundária, a do Leste Europeu (então todo ele dominado pela União Soviética), pude distinguir-me rapidamente em alguns trabalhos analíticos, inclusive porque, ademais dos boletins da Radio Free Europe e da Radio Liberty – ambas financiadas pela CIA, obviamente – que líamos na DE-II, eu possuía um conhecimento interno, se ouso dizer, sobre o funcionamento desses regimes autoritários, já que tinha militado na esquerda marxista durante tempo suficiente para aprender – e apreender – todos os trejeitos vocabulares e as muitas peculiaridades políticas do mundo comunista. Recordo-me, em todo caso, de uma informação que preparei sobre o quadro político no leste europeu, em especial sobre a situação da Polônia, no imediato seguimento, em 1978, da surpreendente eleição do cardeal Karol Wojtila como o novo papa, de nome João Paulo II. Ao que parece, minha análise abrangente das implicações dessa escolha para todo o leste europeu e para o poder comunista foi devidamente apreciada pelos meus superiores, para ascender ao conhecimento do Gabinete do ministro, o que constitui, no Itamaraty, uma marca de distinção a dividir os assuntos que permanecem na “senzala”—como sempre foram depreciativamente chamados os serviços setoriais das divisões, no Anexo – e os que ascendem ao conhecimento da Casa Grande, como se designavam, respeitosamente, os dois gabinetes do Palácio.
Não exatamente por esse episódio específico, mas talvez mais pelo meu jeito histórico-intelectual de interpretar cada iniciativa ou resposta do serviço diplomático brasileiro, em função de um contexto mais vasto, no tratamento dos assuntos da agenda corrente, fui sendo considerado um diplomata especial, ou diferente, talvez bizarro, em todo caso colocado num clube à parte, não necessariamente melhor, dessa tribo de elite dos servidores do Estado. De um lado, nunca tive que mendigar postos ou posições no curso da carreira, já que em geral recebia convites para servir em tal posto ou tal unidade da Secretaria de Estado; de outro lado, jamais me dediquei a “pescar” votos de colegas ou implorar apoio de chefes para ser promovido na escala funcional, o que ofenderia meus princípios pessoais, ou minha maneira de ser, mas que pode ter irritado muita gente da corporação.
Tampouco pedia permissão para escrever à minha maneira – e não naquele burocratês diplomático que tanto desprezo – ou sequer me desculpava por pensar de forma muito diferente da maior parte dos colegas ou mesmo dos superiores, e mais de uma vez ousei contestar opiniões de chefes em reuniões de coordenação, quando os fundamentos de minha posição me pareciam suficientemente sólidos para levantar o dedo e exclamar – algumas vezes na estupefação dos colegas e alguns superiores – uma frase do tipo: “Não é bem assim [Fulano]!” Acho que isso talvez não tenha ajudado no curso ulterior, ou superior, da carreira. Já ao ingressar na carreira, revoltei-me contra a exigência, que sempre julguei absurda – e anticonstitucional, em todo caso violadora dos direitos individuais, que invariavelmente coloco acima dos interesses do Estado –, de ter de pedir permissão às autoridades pertinentes para contrair matrimônio com minha esposa: um abuso e uma indignidade, a que meu espírito anarquista jamais consentiu por princípio. Numa etapa intermediária, cansado do ritual de ter de pedir permissão para publicar que fosse uma simples resenha de livro sobre temas da diplomacia, deixei de submeter textos à apreciação superior, e passei a publicar o que julgava apropriado e conveniente (ainda que exercendo algum grau de autocensura no que era cabível dizer de público sobre tão augusta Casa e tão distinguido Serviço Exterior).
De fato, se ouso julgar, agora, as características do serviço em prol do qual exerci meus talentos nas últimas três décadas e meia, eu diria que o Itamaraty tem uma cultura muito especial, em todo caso diferente das demais corporações a serviço do Estado. Confessadamente, eu nunca fui muito adepto das manias e trejeitos dos meus colegas diplomatas: trata-se de uma carreira ultra competitiva, com altas doses de autocontenção, marcada por dogmas de disciplina e hierarquia que nunca se encaixaram bem ao meu natural libertário, exigindo ainda certo enquadramento nos rituais internos para que essa competição seja bem sucedida no plano individual, ou seja, para que ela se reflita na progressão funcional, na atribuição de postos e outras distinções. Visivelmente, eu nunca pretendi me enquadrar no estilo de rigor. Sempre mantive meus hábitos de trabalho, em parte isolado, estudando e escrevendo, de outra parte falando com sinceridade aquilo que me parecia negativo do ponto de vista da pura racionalidade instrumental dos objetivos diplomáticos. Ainda que tal tipo de atitude possa suscitar admiração em certas áreas, acredito que essas não são as qualidades requeridas para se triunfar numa Casa que faz da obediência estrita aos superiores a pedra de toque para a inserção no inner circle dos premiados oficiais.
Tomando como base o que acima vai descrito, não tenho qualquer restrição mental em confessar que, em diversas ocasiões, dissenti das opiniões oficiais da Casa – ou seja, aprovadas em alguma instância superior – no tratamento de temas específicos ou na condução de algumas negociações para as quais eu me julgava especialmente preparado, em função, justamente, dos estudos que eu conduzia paralelamente à carreira, para aprofundar-me nos assuntos que me eram atribuídos. Uma atitude desse tipo não é fácil de ser assumida, quando se trata, não das preliminares para a formulação de uma posição negociadora, mas de instruções formais, consubstanciadas em telegrama da série, com base na qual a resposta invariável do diplomata obediente deve ser: “Cumpri instruções”, e o chefe do posto passa a relatar como ele se ateve fielmente às ordens emanadas da Santa Casa.
Pessoalmente, já passei por esse tipo de situação, envolvendo uma negociação internacional de um tratado multilateral. Tendo me ocupado do tema durante meses e meses, eu literalmente dominava o assunto, técnica e diplomaticamente, e as instruções formuladas em Brasília, de nítido corte tradicional, eram claramente inadequadas. Os argumentos que poderiam ser mobilizados em favor de teses diferentes ou alternativas, por mais racionais ou “probatórios” que sejam (com base numa análise histórica, nos dados da economia, numa visão de longo prazo), nem sempre são convincentes ou suficientes para “dobrar” o burocrata na outra ponta do processo ou até fazer com que a instituição como um todo se mova em outra direção. Esse tipo de situação pode ser terrível, pois aparentemente (ou concretamente) o diplomata em causa pode estar se colocando contra as instruções da sua instituição.
Não tive medo de fazê-lo, naquele momento preciso, assim como em outras circunstâncias posteriores. De certa forma, esse tipo de atitude me prejudicou, pois fiquei com fama de rebelde, de dissidente, de arrogante, de pretencioso “sabe-tudo” e outros qualificativos mais, que nem são do meu conhecimento. Se insisto em certas teses é, contudo, com base num estudo profundo das problemáticas das quais me é dado ocupar. Sou por excelência um estudioso compulsivo, e não costumo me dobrar a nenhum argumento de autoridade, e sim à autoridade do argumento. Numa casa “feudal”, como é o Itamaraty, isso é quase um crime de lesa-majestade.
Mas o assunto supera as atitudes individuais de um diplomata, para adentrar no terreno mais complicado das questões macro-políticas, ou se quisermos, no eterno debate sobre como interpretar o chamado “interesse nacional”, um conceito altamente difuso para permitir qualquer tipo de argumento não fundamentado ou especioso. Não vou tratar das bases epistemológicas do que, exatamente, constituiria o interesse nacional nos limites desta reflexão, mas vou tratar da questão no contexto da própria formação e educação dos diplomatas. Acredito, com base numa avaliação puramente subjetiva, que poucos diplomatas têm uma cultura econômica verdadeira, ou seja, o instrumental analítico de cunho histórico e econômico que poderia levá-los a analisar uma questão qualquer de política externa do ponto de vista daquilo que os economistas chamam de custo-oportunidade do capital, ou seja, a eficiência paretiana dos meios e fins, que não se restringe ao melhor emprego dos recursos, ou a um cálculo sobre o retorno dos investimentos, mas envolve todos os “fatores de produção” de um determinado assunto diplomático. Tudo, ou quase tudo, na diplomacia, é feito de forma muito politizada e, por vezes, de forma irracional, já que levando em conta circunstâncias imediatas e as preferências políticas de quem manda, não necessariamente os interesses de mais longo prazo da nação.
Teríamos inúmeros exemplos de decisões claramente absurdas, no contexto mais vasto das tradições diplomáticas brasileiras, tomadas em certo período, e que no entanto foram tomadas, ao arrepio de qualquer racionalidade administrativa ou mesmo política; eximo-me, por razões diversas, mas claramente compreensivas, de discorrer sobre elas neste momento. O fato é que, em momentos como esses, o ator em questão tem várias escolhas, todas elas difíceis: submeter-se passivamente a instruções que ele pode julgar prejudiciais ao país ou ao serviço, no contexto dos interesses de mais longo prazo; negar cumprimento e argumentar alternativamente ao que julga contrário a suas convicções ou avaliação do tema em apreço; afastar-se do processo, com prejuízo pessoal ou fricção funcional.
Minhas próprias atitudes sempre foram pautadas em função de minha trajetória habitual de estudos e de busca de coerência lógica no processo decisório, esforçando-me por manter minha indispensável integridade intelectual, em face de eventuais adversidades momentâneas, que sempre julgo devam ser afrontadas com serenidade e com a dignidade funcional que devem guiar o comportamento de membros de uma corporação como esta à qual pertenço. Em tempos difíceis de submissão a vocações autoritárias essas atitudes cobram um preço por vezes difícil em termos pessoais, mas a coerência e a honestidade na defesa de certos princípios, que reputamos mais elevados do que a acomodação servil, e a consciência de se estar defendendo causas mais altas do que as escolhas sectárias do momento constituem os prêmios mais gratificantes que se possa ter num itinerário de vida.
Vale persistir, como aliás demonstrou o próprio George Kennan, ao abandonar a carreira diplomática, para ingressar numa categoria à parte da história intelectual de seu país, como um grande pensador das relações internacionais dos Estados Unidos. Sem aspirar a tanto, e sem renunciar a uma carreira que me trouxe tantos benefícios intelectuais e pessoais, vou persistir na defesa da coerência com o livre pensamento mesmo nos tempos sombrios e tristes de um outro regime autoritário.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 2409: 14 de julho de 2012.
Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/07/uma-reflexao-baseada-em-george-kennan.html).
Postado novamente no Diplomatizzando em 4/01/2016 (link: http://www.diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/01/george-kennan-era-um-contrarianista.html).
Novamente postado no blog Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/11/grande-estrategia-e-idiossincrasias.html ).

Criminoso ou terrorista? Ou tão simplesmente debeis mentais? - Paulo Roberto de Almeida

Criminoso ou terrorista? Ou tão simplesmente debeis mentais?

Volto a um problema de política externa.

Paulo Roberto de Almeida


O limite estrito entre uma organização simplesmente criminosa — ou seja, motivada unicamente por ganhos financeiros — e uma outra de verdade terrorista — ou seja, empenhada realmente em usar do terror contra população inocente para alcançar os mesmos fins econômicos— talvez seja dificil de estabelecer no plano teórico, isto é, colocar um carimbo de criminosa numa e de terrorista em outra, e requer não o uso da IA e sim uma percepção prática, de policiais experimentados, para fazer essa distinção.

Abaixo, reproduzo o que o Gemini AI do Google (a quem eu chamo de Madame IA) escreveu sobre a minha postagem (cujo link está no início), que tenta, legitimamente, desfazer o que afirmei.

Acredito que esse tipo de distinção possa ser dificil de fazer em certos casos, pois táticas terroristas podem ser eventualmente utilizadas por grupos criminosos, para continuar tentando atingir seu objetivo principal e primordial, que é acumular dinheiro.

Não vou, portanto, resolver um problema na fronteira dos dois casos.

O que sim, eu tenho certeza, e ganho convicção, é que, independentemente da busca de ganhos financeiros por trumpistas “raiz” e por bolsonaristas idem, ambas tropas restritas — isto é, seus representantes principais, e não os idiotas que os apoiam — constituem um pequeno grupo de estúpidos crassos, de ignorantes fundamentais, de bestas irremediáveis, sendo que os dois chefes respectivos são, no fundo, no fundo, dois grandes debeis mentais, dois tipos incapazes de um pensamento um pouco mais sofisticado, por lhes faltarem conhecimento minimo para qualquer julgamento mais elaborado. Tiveram sucesso politico, não necessariamente por capacidade técnica objetiva, mas por trambiques imobiliários de um lado e por rachadinhas elementares do outro. Tiveram sorte por que o número de eleitores idiotas é muito maios do que os institutos de pesquisa conseguem medir.

O que, em conclusão, nos remete às “Leis Fundamentais da Estupidez Humana”, de Carlo Maria Cipolla. Sempre haverá estúpidos suficientes para o triunfo momentâneo de um debil mental com sorte.

É um problema psiquiátrico também, como já identificado em T e em B: são narcisistas malignos, psicopatas e sádicos, desprovidos de qualquer capacidade política elementar. Eles são destrutivos em todas as instâncias de “atividades” nas quais se metem. No terreno puramente econômico, isto é, de mercado, seriam rapidamente eliminados pelas leis objetivas da contabilidade: produzem mais perdas para si próprios do que ganhos. Mas, no terreno da política, como já sugeri, conseguem sobreviver por mais tempo, pelo número de idiotas que votam neles. 

Ditadores reais são outra história, com alguns paralelos entre esses casos de natureza meio-mescladas. Mussolini, Hitler, Stalin, Mao, Putin exibiram capacidade de liderança em eliminar adversários políticos ou os simples concorrentes. Todos personagens doentios, sempre malignos. T e B não se destacaram como chefes militares, mas contaram com um “exército de imbecis”, que votaram e continuam votando nesses dois grandes debeis mentais.

O mundo é assim: mistura as coisas, inclusive esses casos, e também essas distinções entre criminosos, de um lado, e terroristas, do outro. 

No que me concerne, eles podem atuar na política externa também, o que pode afetar a atuação de diplomatas que são normalmente sensatos, não idiotas, mas submissos, na prática, aos que mandam temporariamente.

No meu caso pessoal, creio que escapei dessa fraqueza da submissão. Deixo agora espaço a Madame IA.

Paulo Roberto de Almeida ou Paulo Roberto Almeida  (que são as minhas duas identidades no Facebook; mas não é a Santíssima Trindade, pois eu sou completamente irreligioso).

Brasilia, 19/06/2026


=========


“Grupos criminosos como organizações terroristas: posturas contra e a favor:

Governo Trump ajuda a criminalidade brasileira, ao classificá-las como organizações terroristas - minha opinião, Paulo Roberto de Almeida: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/governo-trump-ajuda-criminalidade.html 

O texto publicado pelo embaixador Paulo Roberto de Almeida no blog Diplomatizzando traz uma crítica contundente à decisão do governo dos Estados Unidos (sob a gestão de Donald Trump) de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. [1]

Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica dos pontos centrais defendidos pelo diplomata:

1. Crítica à Legitimidade da Gestão e do Corpo Diplomático Americano

Logo na introdução, o autor adota um tom fortemente opinativo e de oposição política ao classificar a gestão de Donald Trump como um governo que "não tem nada a ver com as administrações americanas normais". Ele estende a crítica à equipe que cerca o presidente, chamando-os de "tropa de incompetentes submissos". Essa postura inicial estabelece o viés de desconfiança institucional que fundamenta o restante do texto. [1, 2]

2. Descaracterização Técnica do "Terrorismo"

O primeiro grande argumento do embaixador é de natureza conceitual. Ele defende que classificar o PCC e o CV como grupos terroristas é um "atentado ao bom-senso", pois essas organizações carecem das motivações ideológicas, religiosas ou políticas que tipificam o terrorismo clássico. Na visão dele, tratam-se de organizações ligadas à criminalidade tradicional e ao lucro financeiro, e confundi-las deforma os instrumentos jurídicos internacionais de combate ao crime. [1, 2]

3. Violação de Soberania e Interferência Política Externa

Almeida argumenta que a medida unilateral dos EUA configura uma "pressão política indevida, ilegítima e desrespeitosa ao Brasil". Ele sugere que a classificação não responde a critérios técnicos de segurança de Estado, mas sim a um alinhamento ideológico com a "ultra-direita bolsonarista nos EUA" para desgastar e intervir indiretamente nos assuntos internos do atual governo brasileiro. [1, 2]

4. Os Riscos da Militarização da Segurança Pública

Uma das críticas mais profundas do texto aponta para o perigo de "militarizar" o combate a essas facções. O embaixador sustenta que o PCC e o CV devem ser combatidos na esfera da segurança cidadã, por meio de inteligência, serviços aduaneiros e investigação policial. Ele alerta que transferir essa responsabilidade para as Forças Armadas é um erro, pois o exército não possui o equipamento nem o treinamento adequado para realizar esse tipo de repressão interna. [1]

5. Prejuízo à Cooperação Bilateral Real

Por fim, o autor conclui que, em vez de sufocar o crime organizado, a medida dos EUA atua como um retrocesso que vai "atrapalhar, retardar e prejudicar" a missão prática das forças de segurança de ambos os países. Ao impor uma rotulagem burocrática e jurídica de "terrorismo", criam-se barreiras institucionais que engessam os programas conjuntos de cooperação policial e aduaneira que já vinham sendo operados tradicionalmente.

[...]

Considere alguém que discorda totalmente de PRA quanto à classificação americana em relação ao PCC e CV. Traga os argumentos [críticos e detalhados] dessa outra pessoa. 

( https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/governo-trump-ajuda-criminalidade.html ) 

Para contrapor a visão do embaixador Paulo Roberto de Almeida de forma robusta, detalhada e estritamente técnica, é preciso olhar pelos olhos dos analistas de inteligência, juristas e formuladores de políticas de segurança que defendem a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.

Abaixo estão os argumentos críticos e detalhados que sustentam essa visão contrária:

1. A Evolução para o "Narcoterrorismo" e a Insurgência Criminal

A linha clássica que separava o crime organizado (focado apenas no lucro) do terrorismo (focado em ideologia) ficou obsoleta na prática moderna. Defensores da medida apontam que o PCC e o CV ultrapassaram o teto da criminalidade comum e operam como insurgências criminais: [1]

Uso de táticas de terror: O controle territorial de favelas e periferias pelo CV, o fechamento forçado de comércios, o abate de helicópteros policiais, a detonação de carros-bomba e a execução orquestrada de agentes públicos (juízes, promotores e policiais) pelo PCC são táticas puras de terrorismo destinadas a subjugar o Estado pelo medo.

Afronta à Soberania: Essas facções criaram "Estados paralelos" com tribunais próprios, leis civis informais e controle de fronteiras, desafiando o monopólio da força e a soberania do Estado brasileiro.

2. Transnacionalidade e a Doutrina de Defesa dos EUA

Pelo ponto de vista da segurança nacional americana, o PCC e o CV não são mais problemas domésticos do Brasil; são corporações criminosas transnacionais presentes em mais de duas dezenas de países, com conexões diretas com os cartéis mexicanos (como o de Sinaloa) e a máfia italiana (como a 'Ndrangheta).

A classificação americana baseia-se no fato de que o volume de cocaína que essas facções injetam nas rotas globais financia a desestabilização de governos na América Latina, o que afeta diretamente os interesses geopolíticos e a segurança das fronteiras dos EUA.

3. Acesso a Ferramentas Financeiras de Sufocamento Global

A crítica de Paulo Roberto de que a medida traz barreiras burocráticas é rebatida com o argumento da efetividade financeira. Ao carimbar formalmente o PCC e o CV como organizações terroristas, os EUA acionam um arsenal jurídico e financeiro muito mais agressivo do que as leis de combate à lavagem de dinheiro comum permitem:

Bloqueio de bens imediato: Qualquer instituição financeira global que processe, sabendo ou não, fundos vinculados a essas facções fica sujeita a sanções devastadoras do Tesouro Americano (OFAC).

Quebra de sigilo internacional: Facilita o rastreamento de laranjas e empresas de fachada nos EUA, na Europa e em paraísos fiscais, sufocando o topo da pirâmide (os chefes que moram em mansões), e não apenas o pequeno traficante da favela.

4. O Reconhecimento da Falência da Segurança Pública Convencional

Os defensores da medida argumentam que tratar o PCC e o CV sob as regras do "processo penal comum" e da "segurança cidadã" (policiamento tradicional) é tapar o sol com a peneira.

Décadas de atuação estritamente policial e prisional no Brasil não impediram a expansão dessas facções.

A cooperação jurídica e de inteligência militarizada com os EUA (que inclui compartilhamento de dados de satélite, inteligência de sinais e interceptação cibernética avançada) é vista por esse grupo como o único nível de força proporcional ao poder bélico e financeiro atual do crime organizado.

5. Alinhamento com Modelos Internacionais de Sucesso (Exemplo da Colômbia)

O argumento histórico aponta para o Plano Colômbia. Quando os cartéis de Cali e Medellín, e mais tarde as FARC, foram sufocados pelo uso combinado de inteligência militar e classificação de terrorismo por Washington, o Estado colombiano conseguiu recuperar territórios que estavam completamente perdidos. Os defensores da medida veem a classificação atual como um passo necessário para que o Brasil receba o mesmo nível de assistência técnica avançada.

Os diplomatas intelectuais e a cultura brasileira - Paulo Roberto de Almeida

 Uma relação que sempre esteve no meu foco de atenção:


2388. “Os diplomatas e a cultura brasileira”, Antuérpia, 28 abril 2012, 3 p. Comentários sobre as relações entre os diplomatas culturais, ou intelectuais, e o Itamaraty. Postado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com/2012/04/diplomacia-e-cultura-uma-relacao-sempre.html

=========

Os diplomatas intelectuais e a cultura brasileira

Paulo Roberto de Almeida
Postado, em outra versão, no blog Diplomatizzando

        Como sempre leio os mais diversos materiais de cunho literário, atraído que sou pela cultura em geral e por questões intelectuais, em particular, acabo deparando, muito frequentemente, na internet, com artigos ou matérias que pretendem censurar o Itamaraty pela falta de apoio às atividades de cunho cultural, ou por qualquer outra deficiência nessa área. Geralmente quem escreve é alguém que se pretende jornalista cultural, ou até algum intelectual, talvez (mas não necessariamente) pretendente a algum subsídio “cultural” (que no mais das vezes é simplesmente alimentar, em causa própria, quero dizer). Tendo isso em vista, vou tratar, em primeiro lugar, da questão crucial dos recursos públicos, para em seguida adentrar na questão do relacionamento dos diplomatas, especificamente dos diplomatas que exibem esse rótulo de intelectuais, com a própria casa que os abriga, para o bem e para o mal, se ouso dizer.
Todos sabemos que a cultura é a primeira a sofrer quando as verbas se fazem curtas.         Esse é um fato. Um país, qualquer país, sempre deixa de fazer coisas quando os recursos são escassos. Como esse país não pode deixar de pagar aposentados e pensionistas, até por razões constitucionais, e como ele – ou “eles”, pois no caso em questão, o país não faz nada, e sim são os políticos, que ocupam temporariamente, espera-se, o governo, os que fazem ou deixar de fazer coisas, ditas estratégicas, ou acessórias – tampouco deixa de pagar funcionários e manter atividades correntes, onde é que o país em questão vai buscar os recursos que faltam para aquelas atividades essenciais? Respondo brutalmente: ora bolas, nas iniciativas que podem, ou não, deixar de serem feitas e que não atingem o coração do funcionamento do Estado.
        Entre essas vítimas, em qualquer lugar, estão sempre as atividades culturais, sendo que aparecem em segundo lugar as tarefas de manutenção: estradas e ruas deixam de ser entretidas, e ficam esburacadas, novos equipamentos deixam de ser comprados (e aí escolas, hospitais e outros órgãos de administração e atendimento precisam continuar trabalhando com computadores velhos, por exemplo), enfim, existe um sem número de atividades que podem – por vezes devem – ser cortadas, em nome da economia.
        Arte, cultura, lazer, exibicionismo (burguês ou não) sempre convivem com a riqueza, em qualquer tempo e lugar: são os mecenas, os ricaços, ou Estados afluentes que financiam obras de arte e subsídios a esses “reclamões” incuráveis que são os intelectuais (muitos se acham no direito de receber do Estado, sem qualquer compromisso de resultado, apenas porque, supostamente, produzem arte, cultura, entretenimento).
Pois bem, até aqui apenas para dizer que não estou de acordo com jornalistas ou pretensos intelectuais quando pretendem reclamar da falta de verbas culturais.
Mas tampouco estou de acordo quando se pretende que a diplomacia brasileira deve muito a esses intelectuais. Duvido e contesto esse tipo de opinião, que parte de uma simples identidade “locacional”, para daí extrair uma conclusão que não tem a ver diretamente com o trabalho intelectual, de um lado, e sua suposta utilidade para a diplomacia, de outro.
        Muitos dos homens apontados como grandes “servidores da diplomacia cultural” brasileira já eram brilhantes quando ingressaram no Itamaraty, ou se tornaram brilhantes concomitantemente, ou simultaneamente, talvez até competitivamente, ao seu trabalho como diplomatas, não porque precisassem do Itamaraty para criar as obras que criaram. Se formos examinar sua “ficha de serviço”, se isso existisse, raramente encontraremos produções diplomáticas estrito senso, e sim produções culturais, acadêmicas ou livres, mas que poderiam ter resultado de qualquer outra atividade que exercessem – na indústria, na agricultura, nos serviços, na academia, até na vagabundagem de elite – e não necessariamente como resultado da diplomacia ou do Itamaraty. Muitos, isso é conhecido, adentraram no Itamaraty justamente para se aproveitar do Itamaraty, não para trabalhar para ele: a possibilidade de ganhar bem, sem precisar trabalhar muito – não é mais o caso hoje, mas era até a República Velha –, de só frequentar ambientes sofisticados nas mais belas capitais do mundo – tampouco é o caso hoje –, tudo isso fazia com que homens (sim, homens) de boa família se dirigissem ao Itamaraty, não para engrandecer a sua diplomacia e beneficiar o Itamaraty de suas luzes, mas para se beneficiarem a si mesmos, e à sua produção literária.
        Que eles possam ter acrescido, e muito, à cultura do Brasil, e enriquecido o prestígio do país no exterior, isso é inegável. Que isso tenha sido em proveito da diplomacia – estrito senso – é bem mais duvidoso, e talvez até enganoso.
Em todo caso, devemos saudar os grandes homens da cultura, agradecer o que fizeram pelo nosso enriquecimento intelectual, não reclamar quando o Estado é obrigado a fazer cortes que certamente foram dolorosos – mas alguns são absolutamente necessários, como por exemplo, no caso de muitos aproveitadores medíocres que se apresentam como “produtores culturais” (como existem tantos na república dos companheiros – e, por fim, descartar essa concepção simplista que faz de todo intelectual-diplomata, ou de todo diplomata intelectual, um servidor devotado da diplomacia cultural brasileira. As pessoas cuidam, em primeiro lugar, de si mesmas, e isto é simplesmente humano.

Paulo Roberto de Almeida
Antuérpia, 28 de abril de 2012

Postagem em destaque

O Brasil caminha para um declínio econômico de meio século? - Paulo Roberto de Almeida

    O Brasil caminha para um declínio econômico de meio século?   Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. Reprodução de uma...