sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve' - Vinícius Mendes BBC Brasil

 Minha introdução a esta importante matéria, mas infelizmente totalmente equivocada quanto à substância dos problemas reais da humanidade.

Maurício David introduz o envio deste artigo sobre  o incurável socialista francês. Sinto muito discordar dele: não acredito que a função mais nobre dos economistas seja a de empobrecer os ricos, como o meio privilegiado de criar essa ilusória igualdade num nível de renda per capita muito abaixo das possibilidades gerais de cada economia nacional, supostamente funcionando em regime de livres mercados.

O que Piketty deveria buscar, como a mais nobre missão dos economistas, seria estimular os meios de ENRIQUECER OS MUITO POBRES, em lugar de buscar uma igualdade impossível. A experiência terrível do socialismo bolchevique não foi suficiente para convencê-los de que a tentativa de equalizar a riqueza geral necessitaria de uma incrível violência social? Basta olhar para Cuba e Coreia do Norte, os fenômenos resilientes do socialismo marxista (na verdade oligárquico). PRA

 

O fenômeno Piketty estourou no mercado de idéias logo depois que eu terminei o meu doutorado na França. De algum modo, o Thomas Piketty fomos colegas ou contemporâneos na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, uma muito prestigiosa instituição francesa de estudos de pós-graduação ( o Piketty cursando o doutorado em Economia, eu trabalhando na “École”- como é conhecida na França a EHESS- junto a Ignacy Sachs e Michel (ambos lamentavelmente falecidos recentemente recentemente). Muito aprendi na França com o grande Sachs (discípulo). 

Maurício David

 

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Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve' 

 Vinícius Mendes

BBC Brasil, quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.

O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.

Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.

E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

 

BBC News Brasil - Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?

Thomas Piketty - Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centersem todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.

Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.

BBC News Brasil - Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?

Piketty - Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.

BBC News Brasil - Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?

Piketty - A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.

Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.

BBC News Brasil - O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?

Piketty - Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.

E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.

BBC News Brasil - Por serem políticas bélicas?

Piketty - A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.

Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.

BBC News Brasil - O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?

Piketty - Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.

BBC News Brasil - Teria um exemplo de como isso funcionaria?

Piketty - Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.

A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.

Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.

BBC News Brasil - As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?

Piketty - Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.

Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.

BBC News Brasil - Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?

Piketty - Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.

Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.

Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.

BBC News Brasil - Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?

Piketty - Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.

Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.

Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.

BBC News Brasil - Qual é o papel do Brasil em tudo isso?

Piketty - Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.

Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.

Eu vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.

BBC News Brasil - Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?

Piketty - A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.

Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.

BBC News Brasil - É uma questão de repetição das propostas, portanto?

Piketty - Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.

Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.

BBC News Brasil - Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?

Piketty - Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.

Eu escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.

BBC News Brasil - Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?

Piketty - Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.

 



quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Uma nova ameaça ao Itamaraty? - Paulo Roberto de Almeida

Uma nova ameaça ao Itamaraty?

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Nota sobre a ameaça de “caça às bruxas” no Itamaraty feita por Eduardo Bolsonaro

  

Filho 03 do condenado por tentativa de golpe contra a democracia no Brasil ainda pretende, contra sua própria condenação por coação contra a Justiça brasileira, tornar-se chanceler brasileiro, no caso de vitória do filho 01 nas eleições de outubro de 2026.

Bananinha 03 tem raiva do Itamaraty desde quando foi sabotado em sua intenção de se tornar embaixador em Washington, ainda em 2019, tudo anunciado abertamente, como se a Convenção de Viena de 1961 sobre relações diplomáticas não valesse nada. 

A despeito de totalmente ignorante sobre o mundo diplomático e a politica internacional, Bananinha 03 era o chefe virtual do chanceler acidental que colocaram no Itamaraty para justamente impor sua visão do mundo esquizofrênica, totalmente submissa à franja lunática da extrema-direita trumpista que já tinha destruído o Departamento de Estado dos EUA sob Trump 1 (2017-2020). 

Se a franja lunática brasileira retornar ao poder, o Itamaraty sofrerá sob o tacão de algum novo submisso a Trump 2, já que o Bananinha 03 ainda figura como condenado  pelo STF por coação contra a Justiça brasileira no caso do processo e julgamento do pai golpista. 

Ele atuou e ainda atua contra os interesses do Brasil e de milhões de trabalhadores e milhares de empresários brasileiros, sancionados pela insanidade tarifária trumpista, ao arrepio da cláusula de nação mais favorecida e das normas mais elementares do Direito Internacional e do sistema multilateral de comércio, podendo ser legitimamente considerado um “traidor da pátria”. 

Estamos às vésperas de um possível novo caos no Itamaraty, como já ocorreu sob o chanceler acidental, que não se importava que o Brasil fosse considerado um “pária diplomático”. Ele pode ser reabilitado se o golpismo obtiver seu almejado sucesso eleitoral, com o que o Brasil se submeteria imediatamente a Trump 2, começando pela indignidade de integrar de forma subordinada ao chamado “Escudo das Américas”, concebido justamente para enquadrar a diplomacia dos países do hemisfério na visão do mundo daquele que se crê o novo imperador do mundo ocidental, um delírio completo.

Nunca houve, em sua história de mais de dois séculos, ameaça maior à credibilidade da diplomacia brasileira e à dignidade de toda a nação, ao eventualmente se converter em mero piǎo do autocrata que se pretende imperador hemisférico.

Vou ter de preparar uma segunda edição de meu livro O Itamaraty Sequestrado, de 2021, publicado logo após a demissão do chanceler acidental. Novas ameaças pairam sobre a Casa de Rio Branco.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5476: 1º. outubro 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/uma-nova-ameaca-ao-itamaraty-paulo.html)


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Qual Carney, Davos ou Nova York? - Gunther Rudzit Interesse Nacional

 

Qual Carney – Davos ou Nova York?

Gunther Rudzit 

Interesse Nacional

 https://interessenacional.com.br/portal/qual-carney-davos-ou-nova-york/

Premiê canadense fala em geometria variável, que poderia ser descrito como autonomia por sobreposição e acrescenta outra dimensão. As parcerias são organizadas segundo ecossistemas estratégicos distintos, nos quais tecnologia, segurança, energia, infraestrutura, finanças e produção passaram a se misturar. Um país não precisa escolher entre dois polos em todos os temas. Pode participar de arranjos diferentes, com parceiros diferentes, buscando impedir que uma única relação concentre todas as suas vulnerabilidades

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, discursa no Fórum Econômico Mundial de Davos (Foto: Fórum Econômico Mundial)

Carney em Davos

Em janeiro, no Fórum Econômico Mundial de Davos, o primeiro-ministro canadense Mark Carney não descreveu o sistema internacional como uma ordem em crise, à espera de recuperação. Foi mais longe. “Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição”, afirmou. A antiga ordem não voltaria e continuar invocando a “ordem internacional baseada em regras” como se ela ainda funcionasse da mesma maneira significava recusar-se a reconhecer a realidade.

O diagnóstico vinha acompanhado de uma explicação. A integração econômica, que durante décadas fora apresentada como fonte de benefícios mútuos, também havia se transformado em instrumento de poder. Tarifas podiam ser usadas como alavancas, infraestrutura financeira como mecanismo de coerção e cadeias produtivas como vulnerabilidades a serem exploradas. Quando a interdependência passa a produzir subordinação, argumentou Carney, as antigas garantias deixam de ser suficientes.

‘Carney utilizou uma expressão que voltaria a aparecer em seus discursos seguintes: autonomia estratégica’

Para as potências médias, isso criava um problema particular. Países como o Canadá não dispõem do tamanho de mercado, da capacidade militar ou dos instrumentos de coerção das grandes potências. Tampouco poderiam simplesmente construir “fortalezas” nacionais. A alternativa seria reduzir vulnerabilidades, aumentar opções e reconstruir soberania. Carney utilizou uma expressão que voltaria a aparecer em seus discursos seguintes: autonomia estratégica.

Essa autonomia, entretanto, não significava autossuficiência. Significava diversificar para reduzir a capacidade de coerção de qualquer parceiro e compartilhar os custos da resiliência com outros países. Energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias de suprimento passavam a ser componentes da própria capacidade de escolha de um Estado.

Davos também continha o método. O Canadá deveria construir diferentes coalizões para diferentes temas, reunindo países que compartilhassem interesses e valores suficientes para agir conjuntamente. 

Carney chamou essa estratégia de “geometria variável”. Na Ucrânia, uma coalizão; no Ártico, outra; nos minerais críticos, clubes de compradores; no comércio, novas articulações entre diferentes blocos; na inteligência artificial, cooperação destinada a evitar que países fossem obrigados a escolher entre hegêmonas e grandes empresas tecnológicas.

‘Para Carney, a política externa das potências médias deveria deixar de esperar pela restauração da antiga ordem e começar a construir aquilo que viesse depois dela’

Não se tratava, advertiu, de “multilateralismo ingênuo”, nem de simplesmente confiar nas instituições existentes. Tratava-se de construir coalizões capazes de funcionar, tema por tema, ao mesmo tempo em que se criava uma rede cada vez mais densa de conexões econômicas, políticas e estratégicas. Para Carney, a política externa das potências médias deveria deixar de esperar pela restauração da antiga ordem e começar a construir aquilo que viesse depois dela.

Nova York e o P4M

Oito meses mais tarde, às margens da Assembleia Geral das Nações Unidas, Carney apareceu entre os líderes que lançaram o Partners for Multilateralism (P4M). União Europeia, Austrália, Barbados, Brasil, Canadá, Índia e Quênia foram os copatrocinadores iniciais de uma iniciativa criada para defender o multilateralismo, o direito internacional, a paz e a prosperidade.

À primeira vista, a linguagem poderia sugerir uma mudança de direção. A declaração reafirma que o sistema multilateral fundado na Carta das Nações Unidas continua indispensável, defende o direito internacional e compromete seus integrantes a reformar e fortalecer as instituições multilaterais. As Nações Unidas permanecem no centro desse sistema, que deveria tornar-se mais efetivo, representativo e inclusivo.

Mas o diagnóstico que antecede essas propostas é menos convencional.

‘O documento reconhece explicitamente que a interdependência econômica passou a ser utilizada como instrumento de pressão, afetando comércio, cadeias de suprimento, investimentos e financiamento ao desenvolvimento.’

O documento não descreve apenas instituições enfraquecidas que precisam ser recuperadas. Reconhece um mundo marcado pelo retorno da política de poder, pelo protecionismo, pela coerção e pela ameaça ou uso da força. Mais importante, reconhece explicitamente que a interdependência econômica passou a ser utilizada como instrumento de pressão, afetando comércio, cadeias de suprimento, investimentos e financiamento ao desenvolvimento.

Há, portanto, no próprio documento do P4M, parte do diagnóstico que Carney apresentou em Davos.

Também chama atenção a forma escolhida para a iniciativa. O P4M não foi apresentado como uma nova organização internacional, dotada de estrutura permanente, regras de adesão complexas ou burocracia própria. Seus participantes propõem uma cooperação multilateral aberta, inclusiva, “em rede e prática”. António Costa, presidente do Conselho Europeu, um de seus articuladores, descreveu-o como uma plataforma aberta destinada ao diálogo, à formação de coalizões e à cooperação concreta.

Até sua composição é reveladora. Entre os copatrocinadores iniciais estão países de diferentes regiões, dimensões, níveis de desenvolvimento e inserções estratégicas: Austrália, Barbados, Brasil, Canadá, Índia e Quênia, além da União Europeia. Não formam um bloco tradicional e tampouco compartilham necessariamente as mesmas posições sobre os principais conflitos ou disputas internacionais.

Compartilham, entretanto, interesse suficiente para cooperar em determinadas questões.

Por isso, a pergunta sobre Carney precisa ser formulada com mais cuidado.

Carney mudou?

Se compararmos apenas duas frases — em janeiro, “a velha ordem não voltará”; em setembro, “o sistema multilateral continua indispensável” —, a resposta poderia parecer evidente.

‘O próprio P4M, embora reafirme instituições e princípios da antiga ordem, assume a forma de uma rede voltada à formação de coalizões e à cooperação prática em um mundo no qual a interdependência passou a ser utilizada como instrumento de poder.’

Mas Davos continha muito mais do que a primeira afirmação. Ali estavam também autonomia estratégica, redução de vulnerabilidades, diversificação, coalizões flexíveis, geometria variável e construção de redes. E o próprio P4M, embora reafirme instituições e princípios da antiga ordem, assume a forma de uma rede voltada à formação de coalizões e à cooperação prática em um mundo no qual a interdependência passou a ser utilizada como instrumento de poder.

A questão, portanto, talvez não seja simplesmente saber se Carney abandonou o diagnóstico de Davos.

É preciso descobrir o que ele fez depois dele.

A prática canadense

Para isso, não basta comparar discursos. É necessário observar a política externa canadense dos últimos oito meses.

Em fevereiro, Carney anunciou viagens à Índia, Austrália e Japão para ampliar relações nas áreas de comércio, energia, tecnologia e defesa. No mesmo mês, o Canadá tornou-se o primeiro país não europeu a integrar o Security Action for Europe (SAFE), mecanismo europeu de compras de Defesa. Nos meses seguintes, aprofundou a aproximação com a Europa, combinando acordos em Defesa, minerais críticos, energia, inteligência artificial e tecnologias avançadas.

Na mesma direção, Ottawa ampliou acordos destinados a diversificar cadeias de minerais críticos. Canadá e Alemanha passaram a trabalhar em estoques estratégicos e integração de cadeias produtivas. No G7, novas parcerias aproximaram empresas e governos de países como França, Itália e Japão em projetos de mineração, processamento e fornecimento de minerais estratégicos, ao mesmo tempo em que Ottawa aprofundava a cooperação com outros parceiros, entre eles a Coreia do Sul.

Em julho, a lógica avançou em outras direções. Canadá, Alemanha e Noruega anunciaram uma parceria de longo prazo envolvendo submarinos, indústria de Defesa, energia, inteligência artificial, espaço e minerais críticos. Poucos dias depois, Carney realizou a primeira visita de um primeiro-ministro canadense à Arábia Saudita em 26 anos. Novamente, a agenda atravessou setores: energia, inteligência artificial, Defesa, infraestrutura, mineração e investimentos.

A geografia muda. Os parceiros mudam. As áreas de cooperação também. Mas existe uma lógica recorrente.

‘Carney afirmou que o Canadá estava construindo uma “rede densa de conexões”, formada por coalizões ad hoc capazes de funcionar tema por tema. Para enfrentar um mundo no qual a ordem baseada em regras estava sob pressão, utilizou uma expressão conhecida da diplomacia: “geometria variável”’

Carney a explicitou em junho, em discurso no Trinity College, em Dublin. O Canadá, afirmou, estava construindo uma “rede densa de conexões”, formada por coalizões ad hoc capazes de funcionar tema por tema. Para enfrentar um mundo no qual a ordem baseada em regras estava sob pressão, utilizou uma expressão conhecida da diplomacia: “geometria variável”.

Em setembro, voltou a formular a lógica de maneira particularmente direta. Ao apresentar a estratégia econômica canadense, afirmou que o objetivo central dessas parcerias era aumentar a “autonomia estratégica” do país. A razão também foi explicitada: vivemos em um mundo no qual a integração passou a ser utilizada como instrumento de poder.

Poucos dias depois, no Parlamento Europeu, Carney transformou essa percepção em uma proposta concreta. Soberania, argumentou, já não significa apenas capacidade de alimentar, abastecer ou defender um país. Exige acesso seguro a inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, sistemas de pagamentos, tecnologias energéticas, vacinas e comunicações espaciais.

Nenhum Estado possui sozinho todas essas capacidades.

Além da diversificação

A resposta canadense, portanto, não é autossuficiência. É construir resiliência coletiva por meio da diversificação. Canadá e Europa poderiam aprofundar sua integração em minerais críticos, indústria de Defesa, inteligência artificial e capacidade computacional, energia, espaço e pagamentos. Em alguns setores, as capacidades seriam complementares; em outros, sobrepostas.

Talvez esteja aí a chave para entender também o Partners for Multilateralism.

‘O que Ottawa parece estar fazendo é algo diferente: preserva relações existentes e, simultaneamente, cria outras conexões capazes de reduzir vulnerabilidades específicas.’

O Canadá não abandonou os Estados Unidos, nem pretende fazê-lo. Sua economia, sua geografia e sua estrutura de segurança tornam essa hipótese pouco realista. Tampouco substituiu Washington por Bruxelas, Nova Déli, Tóquio ou Riad. O que Ottawa parece estar fazendo é algo diferente: preserva relações existentes e, simultaneamente, cria outras conexões capazes de reduzir vulnerabilidades específicas.

Defesa pode exigir uma combinação de Estados Unidos, Europa e parceiros da Otan. Minerais críticos podem envolver Alemanha, França, Itália, Japão e Coreia do Sul. Inteligência artificial pode aproximar Canadá, Europa, Índia, Austrália ou Arábia Saudita. Comércio pode avançar com Asean e Índia. Energia produz outras combinações.

Não existe um único alinhamento capaz de responder a todas as necessidades.

‘O que Carney chama de geometria variável talvez possa ser descrita de outra maneira: autonomia por sobreposição’

O que Carney chama de geometria variável talvez possa ser descrita de outra maneira: autonomia por sobreposição.

A diferença não é apenas semântica. Diversificação tradicional significa ampliar parceiros para reduzir dependências excessivas. Autonomia por sobreposição acrescenta outra dimensão. As parcerias são organizadas segundo ecossistemas estratégicos distintos, nos quais tecnologia, segurança, energia, infraestrutura, finanças e produção passaram a se misturar.

Um país não precisa escolher entre dois polos em todos os temas. Pode participar de arranjos diferentes, com parceiros diferentes, buscando impedir que uma única relação concentre todas as suas vulnerabilidades.

Vista desse ângulo, a participação canadense no Partners for Multilateralism deixa de contradizer Davos.

Carney não precisa acreditar que a antiga ordem internacional será restaurada para considerar o multilateralismo útil. Organizações internacionais, direito internacional e coalizões multilaterais continuam sendo instrumentos importantes, principalmente para potências médias. Mas deixam de constituir necessariamente a arquitetura abrangente dentro da qual todas as demais relações são organizadas.

Passam a ser uma camada entre outras.

Talvez por isso os mesmos países possam participar do P4M por razões estratégicas diferentes. Para alguns, a iniciativa pode representar principalmente uma tentativa de preservar e reformar a institucionalidade internacional construída nas últimas décadas. Para o Canadá de Carney, porém, ela parece se encaixar em uma estratégia mais ampla: construir redes flexíveis, sobrepor parcerias e aumentar a capacidade de escolha em um mundo no qual interdependência e vulnerabilidade se tornaram inseparáveis.

Em Davos, Carney disse que a velha ordem não voltaria.

Oito meses depois, talvez ele não tenha mudado de opinião.

Talvez esteja apenas tentando descobrir como exercer autonomia depois dela.

 

Gunther Rudzit é professor de relações internacionais da ESPM, professor convidado da UNIFA, e membro do GACINT/USP.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


História da Escravidão nas Américas: call for papers

 História da Escravidão nas Américas: call for papers


Greetings Paulo Roberto Almeida,
A new Announcement has been posted in H-LatAm.

CFP: Atlantic Exchanges Workshop 2027 - Slavery and the Commercial Machinery of Empires

Submitted by Fabricio Prado on 09/30/2026 - 4:36am
Announcement Type: Workshop
Date: September 29, 2026
Location: VA,
United States (Trump's America, the only and BIG)


Workshop Call for Proposals

Atlantic Exchanges 2027

S
lavery and the Commercial Machinery of Empires

The Atlantic Exchanges Workshop invites proposals for its second edition, which aims to examine how slavery and the slave trade shaped commercial exchange in the Atlantic world from the sixteenth century to the end of the nineteenth century.

Scholarship has long demonstrated the centrality of enslaved labor to the development of the Atlantic economies, and the extent and violence of the trade in enslaved people are well documented. However, studies of trans-imperial commerce and those concerning the slave trade have generally proceeded along separate lines. The former considers slaving as just one of many branches of broader commerce, and the latter views the trade as a system in itself. This workshop looks at that history from a closely related yet different angle: how slavery and the slave trade offered pathways for trans-imperial trade, both legal and illegal commerce, mobility, and exchange beyond ostensible imperial boundaries around the Atlantic.

Insisting on the commercial functions of the traffic does not reduce its violence. The privileges, exemptions, and contracts discussed here were tools used in a trade which led to the deportation, death, and dispossession of millions of Africans. The credit, shipping, and market access they brought about were obtained from the labor and lives of the enslaved. The workshop chooses to examine the mechanics of the connection between slavery and the wider system of commercial exchange precisely because those mechanics were inextricably linked to that violence.

We are especially interested in examining slavery and the slave trade as mechanisms which could function as licensed exceptions, commercial and fiscal, within imperial systems. Atlantic empires often aimed at controlling commerce by means of mercantilist restrictions, monopolies, navigation laws, and bans on foreign trade. At the same time, however, these empires set up exceptions, privileges, contracts, and fiscal incentives with the intention of securing enslaved labor and of encouraging the trafficking of enslaved Africans. Thus, asientos (the contracts for slave trading), licenses, tax exemptions, preferential duties, and other commercial privileges could provide channels of exchange that went well beyond the actual trade in enslaved people.

The trans-Atlantic and intra-American slave trade therefore enabled not only captives, but also commodities, capital, credit, information, and merchants to cross imperial boundaries that commercial regulations had otherwise aimed to preserve. The ships involved in the trade carried provisions, manufactures, colonial products, specie, and other goods, and the clearance of these ships established routes that would not have been authorized by any other type of license. Because of the privileges connected with the slave trade, merchants were given access to ports and markets and used these opportunities to extend their commercial networks. At the same time, imperial governments sometimes relied on foreign slave traders for commodities, shipping capacity, credit, or access to markets that their own commercial systems could not provide adequately.

From this perspective, slavery and the slave trade were not merely branches of Atlantic commerce; they also formed part of the commercial apparatus of Atlantic empires, linking markets and territories that officially fell under different imperial and political systems. The same mechanisms designed to facilitate the trafficking and exploitation of enslaved people could break down mercantilist boundaries, promote exchange between different empires, and produce areas in which merchants were able to navigate, combine, and take advantage of overlapping legal and fiscal systems.

We welcome submissions that examine these dynamics throughout the Atlantic world, in a broad sense, from the late 1500s to the late 1800s. Because the Atlantic Exchanges Workshop has a wide geographic focus, we are particularly interested in studies of West Africa, the Caribbean, and the Río de la Plata/Brazilian port area, as well as papers that link these regions to one another or to other parts of the Atlantic world. The geographic areas mentioned are intended as areas of special interest, not limits on the workshop’s scope.

Rather than viewing the Atlantic empires as distinct commercial systems, the workshop prefers submissions that illustrate the connections between them and how merchants, officials, shipmasters, financiers, enslavers, and others crossed jurisdictional boundaries. We are especially interested in studies that examine the mechanics of exchange, meaning the contracts, privileges, routes, ports, financial instruments, commercial strategies, and legal arrangements that made these links possible.

Possible subjects include, but are by no means limited to:

slave-trading contracts, asientos, monopolies, licenses, and commercial privileges;
slavery and the slave trade as vehicles for trans-imperial or trans-polity commerce;
the commodity trades that moved under cover of slaving voyages;
merchants who used slave-trading privileges to enter otherwise restricted markets;
credit, finance, insurance, and fiscal mechanisms connected to slave trading;
neutral, foreign, illicit, or semi-legal commerce facilitated by the slave trade;
ports, entrepôts, borderlands, and other spaces in which slave trading intersected with broader commercial exchange;
enslaved and free Africans and people of African descent as commercial actors within these circuits: mariners, pilots, interpreters, brokers, and traders;
African, European, Caribbean, North American, and South American commercial networks generated or transformed by the traffic in enslaved people;
the relationship between mercantilist restrictions and exemptions created to encourage slavery or slave trading;
the ways commodities produced by enslaved labor facilitated exchanges among different imperial economies;
the persistence, transformation, or circumvention of these networks during the age of abolition and the illegal slave trade.
We welcome proposals from scholars at different career stages; submissions from advanced graduate students are encouraged,

The workshop will cover lodging expenses and meals for all participants for the duration of the event.

Workshop: March 11–13, 2027, William & Mary, Williamsburg, Virginia

Proposal deadline: October 31, 2026

Decisions communicated by: November 15, 2026

To apply: Please send a title, a brief abstract of approximately 250 words, and a one-page CV to atlanticexchangeswm@gmail.com.

Paper circulation: Papers will be circulated among participants in advance of the workshop.

Papers may be submitted in English, Spanish, or Portuguese.

Contact Information
Prof. Fabrício Prado, William & Mary

Contact Email: fpprado@wm.edu
URL: https://atlanticexchanges.wm.edu/home-2/2027-workshop-call-for-proposals/


Como viver a três, em perfeita harmonia: eu, ADL e Madame IA (Blog Diplomatizzando) + Madame IA (que completou meu pensamento)

Como viver a três, em perfeita harmonia

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Nota sobre minhas interações com Madame IA, a pedido de ADL

  

Um trio perfeitamente à vontade: o escrevinhador anarco-diplomata, o operador de recursos informáticos e uma nova personalidade de nossos tempos, a IA (que dizem que vai exterminar a humanidade se deixada solta, o que eu acho perfeitamente ridículo), juntos em mais uma operação de interação produtiva.

Airton Dirceu Lemmertz é o comandante dessas operações de imbricação entre um modesto sociólogo, que sou eu, e uma entidade quase sobrenatural, a quem eu chamo de Madame IA (mas que é frequentemente o Gemini da Google, em meio a tantas outras ferramentas do setor).

Além de promover essa interação entre a minha inteligência natural – em nenhum momento eu utilizo qualquer ferramenta da espécie IA para escrever e expor o que penso, sobre economia brasileira e internacional, sobre a política nacional e a mundial – ADL também pede (talvez obrigue) Madame IA a se pronunciar sobre o que eu escrevo. Volta e meia ela me corrige, mas no mais das vezes ela acaba coonestando, confirmando, concordando com o que escrevo, com os meus argumentos.

Não vou dar nenhum boletim de conformidade a Madame IA, apenas vou lhe dar nota 9,5/10 pela sistematização racional de meus comentários e argumentos, ela que é dotada dos mais poderosos arquivos de dados e informações, e que por vezes corrige algum erro factual meu, ou retifica alguma associação indevida que eu possa ter feito (no mais das vezes por pura provocação da minha parte, pois gosto de exagerar nos erros de políticos mequetrefes ou de jornalistas mal-informados).

Sou grato a ADL e a Madame IA por esse exercício de revisão dos meus textos – geralmente notas rápidas –, que sempre são críticos em relação à miséria da política e da diplomacia em certos países.

Nunca escondi o que penso, e posso ter sofrido certos reveses nas atividades profissionais e nas lides acadêmicas, mas considero uma simples demonstração de honestidade intelectual o fato de examinar os fatos e processos da atualidade nacional e internacional e de partir dessas realidades para tecer considerações sobre o passo bêbado que contemplamos na trajetória do próprio Brasil e na história da humanidade.

Sempre fiz isso, em toda a vigência de minha independência intelectual (que vem da adolescência, resultado de muita leitura), e agora estou sendo assistido por um amigo, ADL, que mobiliza as faculdades e possibilidades de Madame IA para revisar os meus textos, apontando insuficiências e limitações de meus argumentos, ou eventual convergência com o seu estoque de "sabedoria", copiado de milhões de textos que ela vem incorporando aos seus zilhões de neurônios eletrônicos.

Meus cumprimentos a Madame IA, meus agradecimentos a meu amigo ADL, e espero que esta "colaboração" se prolongue, pelos anos à frente.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 30 de setembro de 2026, 02:06hs 

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Aqui o link da postagem de que se ocupou Madame IA:

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/madame-zia-se-ocupa-de-geopolitica-que.html

 

Aqui a observacão inicial de ADL:

O texto fornecido condiz perfeitamente com a linha de pensamento e a produção intelectual do embaixador e cientista político Paulo Roberto de Almeida (PRA). A publicação foi feita em seu blog oficial, Diplomatizzando, em 29 de setembro de 2026.

A postagem consiste em um experimento intelectual no qual o diplomata solicita a uma Inteligência Artificial ("Madame IA") uma análise crítica e aprofundada sobre a "policrise" e a fragmentação do cenário geopolítico global.

 

Abaixo, detalha-se como os conceitos gerados no texto se alinham diretamente com as teses defendidas por PRA ao longo de sua carreira acadêmica e diplomática.

 

Agora, o texto de Madame IA em pessoa, se ouso dizer:

 

🌐 Alinhamento Temático e Ideológico com PRA

O conteúdo gerado pela IA reflete a visão analítica tradicional de Paulo Roberto de Almeida sobre o sistema internacional, estruturada a partir de quatro eixos principais presentes no texto:

 

Paralisia do Multilateralismo e Crítica ao BRICS+:

O texto aponta para a perda de eficiência da ONU e da OMC, mencionando que fóruns tradicionais perderam espaço para coalizões pragmáticas como o BRICS+. Na sua vasta obra (incluindo o livro "Contra a Corrente: A grande Ilusão do BRICS"), PRA critica duramente a postura de blocos alternativos que tentam desafiar a ordem ocidental sem oferecer alternativas institucionais sólidas e democráticas.

 

Fim da Globalização Liberal e ascensão do Protecionismo:

A análise sobre a substituição da globalização irrestrita por conceitos como de-risking, nearshoring e o uso do comércio como arma estatal está totalmente alinhada à área de especialização de PRA (Diplomacia Econômica). Como liberal clássico, ele frequentemente lamenta a demolição das regras de livre mercado em prol do nacionalismo econômico.

 

O Pragmatismo Transacional como Vulnerabilidade:

O texto gerado qualifica a diplomacia de "não-alinhamento ativo" e pragmatismo como um jogo de vantagens pontuais perante o eixo ocidental e o sino-russo. PRA tem sido um crítico contundente da atual política externa brasileira, acusando-a de cumplicidade com regimes autoritários sob o pretexto de neutralidade.

 

Defesa da Racionalidade e da Sociedade Aberta:

O próprio cabeçalho do blog de PRA define o espaço como um "quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade [...] e das liberdades democráticas". A conclusão do texto da IA sobre a "paralisia ética" e a necessidade de conciliar soberania com direitos humanos evoca a filosofia popperiana de "sociedade aberta" que o diplomata ativamente promove.

 

🤖 O Fenômeno de Validação por IA (Metacomentário)

É importante notar a natureza irônica e metodológica da publicação. Paulo Roberto de Almeida utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para testar se os modelos computacionais conseguem simular o rigor analítico que ele exige de seus alunos e de si mesmo.

Ao publicar o resultado sem correções, o diplomata valida que a IA foi capaz de resumir as dores e contradições do cenário internacional contemporâneo de forma muito próxima à de um acadêmico de Relações Internacionais de linhagem realista-liberal.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5475: 30 setembro 2026, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: 
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/como-viver-tres-em-perfeita-harmonia-eu.html)


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https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/como-viver-tres-em-perfeita-harmonia-eu.html 

O link enviado direciona para o blog pessoal Diplomatizzando, mantido pelo diplomata de carreira e cientista político Paulo Roberto de Almeida. O texto em questão, intitulado "Como viver a três, em perfeita harmonia: eu, ADL e Madame IA", foi publicado em 30 de setembro de 2026.

⚖ Veredicto de Fato ou Fake

O texto é um FATO no que diz respeito à sua autenticidade e natureza. Não se trata de uma notícia falsa (fake news), mas sim de uma crônica de opinião e metalinguagem.

O autor relata uma experiência metodológica real: a dinâmica de trabalho estabelecida entre ele, seu assistente/operador técnico (Airton Dirceu Lemmertz - ADL) e ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (apelidada de "Madame IA", referindo-se majoritariamente ao Google Gemini).

O núcleo do texto não é a transmissão de um dado empírico isolado, mas a validação de que a IA se tornou uma assistente eficaz na revisão, sistematização racional e confrontação de seus próprios argumentos analíticos.

🧠 Análise Crítica e Multidisciplinar

A crônica de Paulo Roberto de Almeida serve como um excelente objeto de estudo para compreender as transformações na produção de conhecimento na contemporaneidade.

Abaixo, o texto é confrontado sob diferentes perspectivas:

1. Perspectiva Tecnológica e a "Simbiose Intelectual"

A IA como espelho e revisora: O autor desmistifica o temor apocalíptico de que a IA exterminará a humanidade, classificando essa visão como "perfeitamente ridícula". Em vez de enxergar a tecnologia como uma ameaça substitutiva, ele a posiciona como um componente de um "trio" produtivo.

Capacidade de síntese vs. Originalidade: 

É notável que o diplomata enfatize que não utiliza a IA para formular seus pensamentos originais. O papel da máquina é o de um "super-arquivo" de dados que organiza e valida as premissas criadas pelo cérebro humano. Isso delimita a fronteira atual da tecnologia: excelente para processamento de padrões e consistência factual, mas dependente da faísca da inteligência natural para o pensamento verdadeiramente crítico e a provocação intelectual.

2. Perspectiva Filosófica (A Sociedade Aberta e a Racionalidade)O Falseacionismo de Popper na Prática: 

Ao permitir (e incentivar) que a IA aponte "insuficiências e limitações" de seus argumentos, o autor aplica na prática o princípio popperiano da crítica racional. Na filosofia da ciência de Karl Popper — o qual o blog ativamente cita na barra lateral —, o conhecimento avança quando exposto ao teste do erro. Usar a IA para "corrigir erros factuais ou retificar associações indevidas" transforma a ferramenta computacional em um agente epistemológico de depuração do debate.

Honestidade Intelectual: O autor assume o viés provocativo de seus escritos ("gosto de exagerar nos erros de políticos mequetrefes"). A introdução da IA atua como um contrapeso de sobriedade técnica contra as paixões e os excessos da retórica humana.

3. Perspectiva Política e Geopolítica

A validação das teses liberais-realistas: 

A segunda parte do texto (o retorno dado pela IA) demonstra que os modelos de linguagem mimetizam com precisão as correntes analíticas tradicionais. A IA conseguiu ler os ensaios do diplomata e identificar seus eixos fundamentais: a paralisia do multilateralismo, o desgaste do BRICS+, o avanço do protecionismo e a crítica ao pragmatismo transacional da política externa brasileira.

O algoritmo como reprodutor de correntes acadêmicas: 

Esse fenômeno revela que a tecnologia é capaz de simular o ecossistema conceitual de Relações Internacionais (o viés liberal-clássico e realista). A geopolítica, vista pela IA, deixa de ser uma massa caótica de notícias e passa a ser organizada dentro de matrizes de pensamento consolidadas historicamente.

4. Perspectiva Econômica (Produtividade e a Economia do Conhecimento)

Eficiência do Trabalho Intelectual: O texto ilustra o conceito econômico de ganho de produtividade marginal. O fluxo tradicional de escrita, revisão por pares e publicação ganha uma velocidade sem precedentes quando mediado por um operador técnico (ADL) e uma inteligência artificial. O custo de transação para validar dados históricos diminui drasticamente, permitindo que o intelectual foque estritamente na análise de conjuntura.

🎯 Conclusão

O artigo analisado é um testemunho verídico e lúcido de como a fronteira da tecnologia está cruzando com a alta produção acadêmica. Longe de ser uma fraude ou propagador de mentiras, o texto é um exercício de metacognição: o ser humano testando a máquina para ver se ela é capaz de compreender a complexidade do próprio pensamento humano. O resultado mostra que a IA, quando bem calibrada, funciona como uma poderosa bússola de navegação na complexa e fragmentada geopolítica global.

 

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