terça-feira, 4 de outubro de 2011

Protecionismo patriotico (ou nao?) - Marcelo de Paiva Abreu


Protecionismo e patriotismo                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Marcelo de Paiva Abreu*
O Estado de São Paulo, segunda-feira, 3.10.2011

Há algo intrinsecamente errado com o processo de tomada de decisões que está prevalecendo na área econômica do governo. No caso da política econômica externa e, em particular, da política comercial, o primitivismo é estarrecedor.
O recente aumento de 30% da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre automóveis é bom exemplo de decisão estapafúrdia. Ao limitar o aumento a veículos importados - que não podem cumprir os requisitos relacionados a componentes nacionais e etapas da produção realizadas no Brasil -, a legislação estabelece tratamento fiscal discriminatório independentemente da tarifa de importação. Do ponto de vista da Organização Mundial do Comércio (OMC), a nova legislação é ilegal, pois implica violação de pelo menos duas regras: a que define tratamento nacional - isto é, a não discriminação da tributação interna entre importações e produtos produzidos domesticamente - e a que proíbe subsídios que dependam de conteúdo nacional. A razão para a regra sobre tratamento nacional é óbvia. Na OMC, os países registram listas de tarifas máximas de importação que resultam de negociações envolvendo concessões recíprocas. Que sentido teria isso, se fosse legal fazer incidir tributação interna de forma discriminatória apenas sobre importações?
Além dos aspectos legais, devem ser considerados os aspectos econômicos. O governo mencionou preocupação com o aumento de estoques nas montadoras e as concessões de férias coletivas a seus operários. Mas os dados da Anfavea registram crescimento da produção de janeiro a agosto de 4,4%, em relação a 2010. Isso depois de crescer 9,3% ao ano entre 2002 e 2010. É difícil caracterizar uma indústria em crise. Por que o tratamento especial dispensado à indústria automotiva? O favorecimento decorre do peso dos "interesses especiais", da capacidade que tem o setor de extrair benesses do Estado, com base em orquestração entre montadoras, produtores de autopeças e sindicatos. A conta onerará os consumidores, que pagarão mais caro pelos seus carros, importados ou não. Só na microeconomia da Anfavea essa política não terá impacto sobre os preços de carros produzidos no País. Enquanto isso, em meio a risotas de jornalistas presentes, o ministro Guido Mantega assegurava, em Washington, que a medida não é protecionista... Trata-se de espetacular episódio de captura do governo por "interesses especiais".
O estímulo à inovação tecnológica é objetivo desejável de política econômica. Há formas legais e efetivas de estimular o desenvolvimento tecnológico por meio de subsídios permitidos pela OMC. Para isso, seria necessário que o BNDES avaliasse a inovação tecnológica como condição para distribuir crédito subsidiado, abandonando critérios injustificáveis como a escolha de campeões nacionais. Tal como estão as coisas, cabem sérias dúvidas quanto aos mecanismos de controle que o governo usará para aferir inovação e distribuir benesses fiscais.
Alguns analistas manifestaram preocupação com o impacto da decisão insensata do IPI sobre a credibilidade do Brasil, exatamente no momento em que foi apresentada à OMC proposta sobre possíveis medidas de defesa comercial para contrabalançar as consequências de políticas que sustentam artificialmente taxas cambiais desvalorizadas. A preocupação, embora louvável, não procede pela simples razão de que a proposta brasileira à OMC tem escassa credibilidade. O que se propõe é que, no caso de desvios de taxas de câmbio além de limites negociados previamente, seja possível a imposição de direitos compensatórios.
A proposta faz lembrar a anedota dos náufragos que enfrentam o problema de abrir latas de comida sem ter instrumentos adequados, e ouvem do economista um tratamento teórico do problema com base na suposição de que se dispõe de um abridor de latas. O problema crucial que se enfrenta hoje quanto à coordenação de políticas macroeconômicas é exatamente o balizamento das taxas cambiais dos principais protagonistas, em particular China e EUA. É ilusório pensar que gestões na OMC possam resultar em progresso em relação ao assunto. O Financial Times, em editorial de 23/9, Brazilian feint ( Finta brasileira), qualificou a iniciativa brasileira como embromação sem nenhuma possibilidade de prosperar e sugeriu que o País recue e pense melhor sobre o assunto. É um bom conselho, mas que o governo terá dificuldade em seguir, dadas as limitações já demonstradas de sua capacidade decisória, em particular na área econômica.
A mistura de protecionismo e iniciativas de efeito que desgastam a reputação do Brasil como interlocutor com credibilidade nos foros internacionais é muito preocupante. Só é julgada aceitável por quem defende que ser "contra o protecionismo brasileiro é o discurso das nações industrializadas e dominantes". É hora de invocar a gasta citação de Samuel Johnson e lembrar que o patriotismo pode ser o último refúgio dos pilantras. Em vez de se enrolar na Bandeira Nacional tentando respaldar decisões estapafúrdias, é essencial analisar quem se beneficia e quem arca com os custos das políticas protecionistas agora adotadas. O resto é lobby, jogo de cena ou simples miolo mole.

*Marcelo de Paiva Abreu, doutor em economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular no Departamento de Economia da PUC-Rio.

O Estado brasileiro: seminario na UnB (7/10/11)


Semirio Internacional
UnB/IREL e Bildner Center
O ESTADO BRASILEIRO
Debate e Agenda

Lançamento do livro The Brazilian State: debate and agenda, editado por Mau­ricio Font e Laura Randall com a assistência de Janaína Saad, contendo capítu­los de professores da UnB e de outras universidades brasileiras e norte-americanas.

Local: FA – sala A1-04 (1º andar)
Data: 07 de Outubro de 2011
Horário: 08h30 – 12h30

O Estado Brasileiro desde Vargas
João Paulo M. Peixoto, UnB

Além das Crises: respostas e perspectivas
Eiiti Sato, Diretor do IREL

O Estado Brasileiro: debate e agenda
Maurício Font, Diretor do Bildner Center – CUNY
Ricardo Caldas, Diretor do CEAM/UnB

Estado e Trajetória no Desenvolvimento Capitalista Brasileiro
Renato Boschi, IESP/UERJ/IUPERJ

Feminismo, o Estado, e Igualdade de Gênero
Lia Zanotta, UnB

Reforma Política: uma história sem fim
David Fleischer, UnB

Financeirização, Estado e Crise: uma nova “mania” no Brasil?
Elaine da Silveira Leite, Ufscar

Reforma da Previdência no Brasil: Construindo um Pacto Social
José Roberto Ferreira Savoia, USP

O Sistema Financeiro
Fernando Sotelino, Columbia University

Comentários finais
Paulo Kramer, Senado Federal
OUTROS
Para maiores informações, favor contactar o Instituto de Relações Internacionais da UnB tel: 3107-0761

NOVA CPMF

Sem comentários...

Siria: nossos aliados do Brics (quando a Turquia ja cansou...)

Parece que a coordenação política nos Brics funciona muito bem: todo mundo tem a mesma posição, ou seja, opor-se a sanções, ou mesmo simples censura, ao regime sírio, que dentro em pouco ultrapassará a marca dos 3 mil manifestantes mortos nas cidades e aldeias da Síria...
Supõe-se que o Brasil concorda com essas posições, ou que ele as estimule. Do contrário, do que adianta ser Brics? Como não cabe veto ao Brasil, melhor mesmo ficar com a abstenção...
Paulo Roberto de Almeida 

China and Russia veto UN resolution condemning Syria



China and Russia have vetoed a UN Security Council resolution condemning Syria over its crackdown on anti-government protesters.
The European-drafted resolution had been watered down to try to avoid the vetoes, dropping a direct reference to sanctions against Damascus.
But Moscow and Beijing said the draft contained no provision against outside military intervention in Syria.
The US envoy to the UN said Washington was "outraged" by the vote.
The result is a huge blow to European and US efforts on the Syria issue, the BBC's Laura Trevelyan in New York says.
More than 2,700 people have been killed across Syria since the crackdown began in March, the UN estimates.
The government of Syrian President Bashar al-Assad says it is in the process of introducing reforms and is speaking to members of the opposition. It blames the unrest on armed gangs.
'Unacceptable'
Nine countries backed the resolution in the 15-member council, while four more abstained during the vote late on Tuesday.
But the resolution - which was drafted by France with the co-operation of Britain, Germany and Portugal - was still defeated because of the vetoes from two of the council's five permanent members.

Start Quote

China believes that under the current circumstances sanction or threat of sanction does not help resolve the question of Syria. Rather it may further complicate the situation”
Li BaodongChina's UN Ambassador
This was despite the fact that the text had been changed three times by the European allies, who had tried to accommodate Russia's and China's objections.
The resolution referred to "targeted measures" - instead of sanctions - if the clampdown in Syria continued.
But Russian Deputy Foreign Minister Gennady Gatilov earlier said the resolution was "unacceptable" because it envisaged sanctions and did not call on President Assad's government to start talks with the opposition, Russia's Interfax news agency reported.
Moscow also said that the draft contained no provision against outside military intervention in Syria, or respect for non-interference in its domestic affairs.
China's UN ambassador Li Baodong said that Beijing "believes that under the current circumstances sanction or threat of sanction does not help resolve the question of Syria. Rather it may further complicate the situation".
The Libyan conflict has sharpened divisions among Security Council members, with both Moscow and Beijing saying that the resolution authorising the use of force to protect civilians was misused by Nato to bring down Col Muammar Gaddafi's regime.
Our correspondent says Tuesday's vote exposes the deep rift at the UN between the major powers, and the completely difference of approach in how to deal with Mr Assad's government and its crackdown.
After the vote, France's UN Ambassador Gerard Araud said the veto showed "disdain for the legitimate interests that have been fought for in Syria" since the protests in the country began.
The US envoy, Susan Rice, said: "The United States is outraged that this council has utterly failed to address an urgent moral challenge and a growing threat to regional peace and security."
Washington had said before the vote that it hoped the council would send a strong message to Syria. Germany said the world had to show solidarity with Syrians on the streets.

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Agencia Estado, 4/10/11

A decisão do Brasil de, mais uma vez, abster-se em uma votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas partiu diretamente da presidente Dilma Rousseff e, desta vez, incomodou profundamente o Itamaraty. A resolução votada na noite de hoje teve o Brasil como um de seus principais negociadores e, em sua versão final, foi ainda mais branda do que o texto com o qual os diplomatas brasileiros já haviam concordado. Ainda assim, Dilma, consultada em Bruxelas, onde participava da Cúpula Brasil-União Europeia, instruiu a missão em Nova York a se abster.

A decisão foi tomada pela presidente para manter uma paridade com as posições de outros países dos BRICs, já que a Índia e África do Sul haviam informado sua decisão de se abster, e Rússia e China, sempre mais resistentes em condenar o governo sírio, avisaram que iriam usar seu poder de veto.

Na votação final, além de Índia, Brasil e África do Sul, apenas o Líbano também se absteve. O país do Oriente Médio, que ocupava a presidência do Conselho até a semana passada, sempre resistiu a condenar o regime de Bashar Al-Assad e havia impedido, na sua presidência, o avanço de um texto com sanções.

A avaliação de diplomatas ouvidos pelo Grupo Estado é que o Brasil, depois de mais esse veto, ficou em uma posição de difícil defesa, já que a missão brasileira foi uma das principais negociadoras do texto. O País já tinha concordado com uma resolução que daria um prazo máximo de 30 dias para que o governo sírio parasse com a violência ou embargos econômicos, de armas e viagens poderiam ser colocados em prática. O texto final foi desidratado para tentar conquistar pelo menos a abstenção de China e Rússia, retirando até mesmo menções aos possíveis embargos.

Conselhos de tia Dilma aos europeus: "malucos e hipocritas" (Financial Times)

Nem todo mundo se encanta com nossa extraordinária capacidade de dar conselhos sobre como arrumar a casa dos outros, mesmo a nossa sendo suja e bagunçada.
É um pouco isso que esta jornalista do Financial Times está dizendo à nossa extraordinária presidente.
Vejam só: 
- "The country that is ranked 152nd by the World Bank for its unwieldy and heavy tax system is advising against restrictive taxes".
- "...many of his fellow countrymen were a little surprised by the suggestion that Brazil should bail out countries such as Italy, whose GDP per head is three times higher than their own."
- "Aside from unrealistic, the advice coming from Brazil has also sounded somewhat hypocritical."
- "Dilma recently spoke out about the need to combat protectionism only a week after increasing the tax on foreign-built cars by a whopping 30 percentage points."
- "Even the complaints over currency manipulation are rather rich given that Brazil’s central bank has intervened in its spot currency market nearly every day since the crisis by buying dollars..."
- "...Brazil now feels it has the right to dole out so much advice — however wacky."


A jornalista esqueceu, ou parece não saber, que na semana anterior, o ex-presidente, um homem extraordinário da ciência universal, tendo contribuído com descobertas e inovações importantíssimas, que beneficiaram milhões de habitantes deste nosso planetinha redondo, ao receber seu "enésimo" (desculpem, perdi a conta) doutorado Horroris Causa, também deu extraordinários conselhos aos europeus, dizendo, genialmente, que eles não podiam confiar em mercados desregulados, e sim em Estados ultra-regulados, como o Brasil, por exemplo.
Não há dúvida: se o mundo fosse menos como o mundo e mais como o Brasil, seria um lugar muito melhor, muito mais rico, menos violento, mais justo, mais desenvolvido, menos liberal, enfim, e bem mais regulado, como compete a um país organizado como o Brasil, em lugar dessas bagunças que se vêem na Europa, EUA e adjacências...
Paulo Roberto de Almeida 


Dilma: agony aunt to the EU

“REUTERS – Brazil’s Rousseff warns EU against restrictive taxes”. Yes, you read that right. The country that is ranked 152nd by the World Bank for its unwieldy and heavy tax system is advising against restrictive taxes.
Dilma Rousseff issued the warning on Monday as she kicked off her first visit to Europe as Brazilian president.
“In our case, extremely restrictive fiscal measures only deepened the process of stagnation and loss of opportunity,” she said, in reference to Latin America’s debt crisis during the 1980s. “It is difficult to exit crisis without increasing consumption and growth.”
Brazilian politicians have recently taken it upon themselves to solve the global financial crisis, doling out advice to the developed world.
Guido Mantega, Brazil’s finance minister, has been one of the pioneers in this regard. After rising to fame thanks to his ‘currency war’ discourse, Mantega last month proposed a slightly wacky ‘Bric’ rescue package for the eurozone.
The problem was that he had failed to consult the other Bric countries such as China, which holds the majority of the bloc’s foreign exchange reserves. Even many of his fellow countrymen were a little surprised by the suggestion that Brazil should bail out countries such as Italy, whose GDP per head is three times higher than their own.
Aside from unrealistic, the advice coming from Brazil has also sounded somewhat hypocritical.
Dilma recently spoke out about the need to combat protectionism only a week after increasing the tax on foreign-built cars by a whopping 30 percentage points. Even the complaints over currency manipulation are rather rich given that Brazil’s central bank has intervened in its spot currency market nearly every day since the crisis by buying dollars (the reason behind its impressive foreign exchange reserves).
But while it is all too easy to mock, Brazil’s new-found global voice is, in itself, a sign of greater economic stability at home. After all, in the wake of the 2008 collapse of Lehman Brothers, the country was too busy trying to prop up its own finances to worry about anyone else’s.
With one of the world’s most sound banking systems, a huge capacity for counter-cyclical stimulus measures, and those hefty foreign exchange reserves, no wonder Brazil now feels it has the right to dole out so much advice — however wacky.

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