terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas – Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas

Paulo Roberto de Almeida

 Revista Será? ANOXIV, n. 696, 13/02/2026

No seu artigo, Paulo Roberto de Almeida oferece uma leitura densa e inquietante da atual desordem internacional, comparando o presente a momentos críticos do século XX sem cair em paralelos fáceis. 

Ao examinar a atuação errática das grandes potências e o papel ambíguo das potências médias, o autor revela um mundo sem estratégia clara, em que pequenas disfunções podem gerar grandes rupturas. Uma reflexão lúcida sobre incerteza, poder e os riscos de um futuro ainda em aberto.

Seque o link para o artigo.

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A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor


Em 1933, o escritor britânico H. G. Wells, já famoso por ter escrito, desde o final do século XIX, romances futuristas bastante inquietantes – A Máquina do Tempo (1895), O Homem Invisível (1897) e o mais assustador A Guerra dos Mundos (1898) –, publicou um novo livro de crônicas sobre coisas mais terrenas: The Shape of Things to Come (1933), traduzido e publicado alguns anos depois por Monteiro Lobato, sob o título de História do Futuro (1940). A obra ainda era futurista, mas de feitura menos fantástica, embora relativamente pessimista, pois que combinando eventos do seu tempo, como o fascismo e o comunismo, com projeções para o século XXI: As duas primeiras partes, “Hoje e Amanhã: prenúncios do desapontamento”, seguida de “Depois de Amanhã: a era do desapontamento”, já tratavam de uma Grande Guerra, com a “interrupção do progresso”, a “falência dos velhos governos”, o “marasmo da velha educação”, e até da “liquidação da América”. As três partes finais eram resolutamente pessimistas: “Nascimento do Estado moderno” (profetas, fanáticos e assassinos); “O Estado moderno militante” (interlúdio dramático) e “O Estado moderno no controle da vida”, com algo parecido a “manejamento geogônico” (sic).
Se os três primeiros romances tinham sido publicados na era relativamente otimista da belle époque, muitos anos antes da Grande Guerra, as crônicas fantásticas de 1933 de certa forma anteciparam uma guerra ainda mais terrível, com a destruição do domínio dos grandes impérios europeus sobre os destinos do mundo. Se ele estivesse vivo no pós-segunda guerra, qual seria sua opinião sobre os últimos 80 anos? Talvez ele escrevesse que esta segunda Guerra Fria está sendo mais turbulenta do que a primeira, que foi até relativamente estável, com a “dissuasão mutuamente assegurada” entre as duas grandes potências nucleares e até acordos de contenção da proliferação entre elas.
Ainda não estamos, exatamente, numa repetição dos anos 1930, quando as três potências militaristas expansionistas deram início às preliminares de um novo conflito global: o Japão na Manchúria (1931) e depois na China inteira (1937), a Itália tentando conquistar a Abissínia (1935) e a Alemanha se expandindo na própria Europa (de 1938 em diante), já tendo estas duas testado armas e técnicas na guerra civil espanhola (1936-1939). Em outros termos, os preparativos dos anos 1930 já apontavam para uma nova conflagração global, o que ainda não está totalmente nos cenários atuais traçados por planejadores geopolíticos, generais de estados maiores, ou romancistas à la H. G. Wells.
As incertezas sobre os próximos desenvolvimentos geopolíticos derivam não tanto dos cálculos estratégicos e dos potenciais bélicos das respectivas “esferas de influência” das três superpotências, mas justamente do fato que elas não parecem propensas a guerrear entre si. Senão vejamos. Os três “donos do poder” não aparentam hostilidade entre eles, ao contrário: o Hegemon em declínio se dá tão bem com o neoczar que até parece disposto a servir seus interesses, e não apenas na Ucrânia; por sua vez, o novo “Imperador do Meio” tem interesses “universais” no plano comercial, mas, geopoliticamente, seu foco é bem mais restrito: apenas uma “província rebelde”. O fato é nenhum deles pode ser considerado um pensador estratégico. O primeiro nem de longe exibe qualquer coerência em suas confusas alocuções; o tirano de Moscou está dissipando a capacidade do “segundo exército mais poderoso do mundo” numa guerra de agressão mal concebida, mal executada, cujo resultado mais provável é a destruição econômica do seu país; o “imperador” tem, sob seu comando todo um exército de mandarins tecnocráticos, mas acaba de demitir o comandante do Exército Popular de Libertação, o que deve atrasar e pode comprometer a liberação de uma “formosa ilha”.
Difícil dizer, atualmente, quais cenários estão abertos às relações internacionais entre as grandes potências, entre elas, entre elas e as demais potências médias, entre as quais estão o Brasil, o Canadá e a Finlândia, e com todas as demais nações. Sabemos, contudo, que algumas pequenas disfunções nessa engrenagem complicada podem “empurrar” o mundo para qualquer trajetória aberta à arte e ao engenho de qualquer um daqueles três personagens complicados. Talvez não seja, exatamente, na direção da fatalidade dos anos 1930 – ou seja, uma nova guerra global entre as grandes potências – ou se ainda estamos na confusão demonstrada por H. G. Wells no seu livro de 1933.
Para sermos absolutamente vagos, como é a realidade atual, tudo é possível: Trump pode continuar destruindo o multilateralismo político e econômico até o ponto de uma difícil reversão depois de sua saída (mas ele vai sair); Putin pode continuar destruindo a Ucrânia por mais alguns meses, mas está destruindo igualmente o seu próprio país, até o ponto de algum gesto desesperado; o novo imperador pode aproveitar a “distração” oferecida pelos dois primeiros, e invadir a sua ilha rebelde, com desfecho ainda desconhecido. Nem tudo depende só dos três, mas muita coisa sim, depende.
Revisando rapidamente a lista dos atuais chefes de Estado e de governo (além e à parte desses três), só é possível identificar dois estadistas de estatura mundial, ambos de potências médias, modernas e educadas, que se situam na vanguarda de um pensamento estratégico fundamentado tanto num profundo conhecimento da história e do Direito Internacional, quanto numa antevisão esclarecida de uma nova arquitetura mundial de paz e segurança, voltadas para o desenvolvimento pacífico da humanidade, sem hegemonismos. São eles o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Vamos examinar o que, recentemente, eles andaram falando ou escrevendo.
Alexander Stubb acaba de publicar um pequeno livro no qual fornece algumas chaves para compreender os atuais cenários ainda em desenvolvimento: The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order (Nova York: Columbia Global Reports, 2026; disponível no Kindle Amazon por menos de 10 dólares). Um resumo de suas teses principais já tinha sido publicado como artigo na Foreign Affairs em dezembro de 2025: “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late” (eu o li no URL: https://www.foreignaffairs.com/united-states/wests-last-chance ; se não mais livremente disponível, tomei o cuidado de colocá-lo à disposição dos interessados: https://www.academia.edu/164575033/The_Wests_Last_Chance_Alexander_Stubb_Foreign_Affairs_).
O propósito principal do presidente da Finlândia é o de propugnar por um multilateralismo cooperativo, baseado num realismo dotado de valores, e suscetível de superar o atual triângulo de ferro de três superpotências que estão enredadas em seus interesses geopoliticamente restritos. Ele mesmo reconhece que a experiência de seu país – que enfrentou o ataque brutal da União Soviética em 1940 –, a “Finlandização” do pós-guerra, ou seja, a acomodação em face de um agressor brutal, não foi a melhor solução, pois o invasor pode sempre voltar à carga. Novo Por isso, o recurso à Otan foi o remédio encontrado para dissuadir o grande urso de um novo ataque, assim que teve início a nova guerra de agressão contra a Ucrânia (na verdade, a continuidade, pois dez anos antes já tinha ocorrido a intervenção no Donbas, seguida pela invasão da Crimeia).
Os pontos centrais de seus argumentos, tanto no artigo quanto no livro, se referem à situação atual do mundo, que caminha do multilateralismo, que é um sistema de cooperação global, baseado em regras comuns e instituições internacionais, em direção à multipolaridade, que é um oligopólio do poder. Eis um resumo de suas teses:
A competição entre os grandes poderes está de volta, à medida em que a rivalidade entre a China e os Estados Unidos estabelece o quadro da geopolítica. Mas esta não é a única força moldando a ordem global. Potências médias emergentes, inclusive Brasil, Índia, México, Nigéria, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia, se tornaram divisoras de águas. Conjuntamente, elas detêm os meios econômicos e o peso geopolítico para fazer adernar a ordem global em direção da estabilidade ou de maior turbulência. Elas também têm razão para demander mudanças: o sistema multilateral do pós-Segunda Guerra Mundial não se adaptou adequadamente para refletir sua posição no mundo e permitir-lhes o papel que elas merecem. Uma competição triangular entre o que eu chamo de Ocidente global, de Oriente global e Sul global está tomando forma. Seja escolhendo fortalecer o sistema multilateral ou buscar a multipolaridade, o Sul global decidirá se a geopolítica da próxima era se inclinará em direção da cooperação, da fragmentação, ou da dominação. (artigo na Foreign Affairs)

Aqui, Stubb parece interpretar incorretamente o peso do que ele chama de Sul Global; para ele tanto o Ocidente, quanto o Oriente estão lutando pelos “corações e mentes” do Sul Global, pois que eles entendem que é o Sul Global é que vai decidor sobre a direção que tomará a nova ordem mundial. Se o Ocidente e o Oriente possuem objetivos divergentes, é o Sul Global que teria o que ele chama de “swing vote”, ou seja, a escolha decisiva. Acredito que ele exagera nessa visão, mas não vou desenvolver agora meus contra-argumentos. Vamos continuar com Alexander Stubb.
Ele acredita que uma reforma da ordem global precisa começar pelo topo, isto é, as Nações Unidas. A primeira reforma seria fazer com que todos os continents estejam representeado no Conselho de Segurança, o que parece ser uma proposta razoável, cujo efeito, contudo, será o de aumentar a cacofonia naquele órgão supremo. Em segundo lugar, nenhum estado deveria deter poder de veto no CSNU, pois ele acredita que no mundo atual, esse poder está incapacitando sua atuação (na verdade, sempre foi assim). Em terceiro, e mais importante lugar, Stubb afirma que se um membro permanente ou provisório do CSNU viola a Carta da ONU, seu pertencimento (não ao CSNU) à propria ONU deveria ser suspenso. Este é, provavelmente, sua mais importante proposta e a mais difícil: ela significa que a Rússia deveria ter sido suspensa imediatamente após a invasão total da Ucrânia, e esta seria uma decisão a ser tomada pela Assembleia Geral, não pelo próprio CSNU, o que seria virtualmente impossível, nas regras atuais. Stubb propõe que em lugar de Yalta, como modelo de organização do mundo, Helsinque seja tomada como exemplo, mas aqui a referência não possui grande relevância mundial, pois ele está se referindo à Conferência sobre segurança e cooperação NA EUROPA (ou seja, os resultados do diálogo, desde os anos 1970, entre “socialismo” e “capitalismo”).
Quanto ao primeiro-ministro Mark Carney, seu discurso em Davos provocou, com razão, uma recepção extremamente favorável nos mais diversos meios da política mundial. Suas teses são relativamente simples, e por isso mesmo, serão resguardas para uma discussão suplementar sobre suas outras implicações não imediatamente perceptíveis neste debate preliminar. Carney parte de uma constatação evidente: vivemos não uma transição, mas uma ruptura (o que é uma dedução especialmente relevante num país que parecia prestes a ser incorporado a um grande império ao Sul). Mas ele também levanta uma questão que é crucial para uma outra potência média, um pouco mais ao Sul, que é o Brasil, assim como o são pelo menos um terço das demais economias emergentes (em meio a uma vasta maioria de países mais “modestos”).
De fato, as potências médias são maioria no mundo, em termos de população, de PIB, de comércio, embora, individualmente, elas permaneçam muito aquém, em termos econômicos, financeiros ou militares, das três superpotências. Mas isso não tem nada a ver com essa repartição “geográfica-política” de Oeste, Oriente ou Sul, e sim com outras considerações. Alexander Stubb, por exemplo, comete o equívoco de colocar o BRICS como representante do “multilateralismo do Sul Global”, o que me parece uma enorme distorção conceitual e prática. Discutiremos essas questões num próximo artigo.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5213, 11 fevereiro 2026, 5 p.
Reproduzido no blog Diplomatizzando (13/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas.html). Relação de Publicados n. 1622.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Call for Papers – Global South Studies

 Call for Papers – Global South Studies


Global South Studies is a new journal based at Northwest University (China) and published by Taylor & Francis. The journal is now inviting submissions for its inaugural issue, focusing on critical analyses of historical and contemporary dynamics shaping the Global South.
Contributions addressing Latin American issues or engaging Global South debates from a Latin American perspective are especially welcome.
Abstract deadline: March 2
For submission guidelines, please check the link below.
Please do share this call with colleagues and networks who may be interested.

https://www.pucsp.br/geci/call-papers-global-south-studies

Dúvida existencial sobre as eleições de outubro de 2026 no Brasil - Paulo Roberto de Almeida

 Dúvida existencial:

E quem não está de acordo com nenhum dos candidatos sendo oferecidos como “lava mais limpo” nas eleições presidenciais e gerais de outubro de 2026 no Brasil, faz o quê? 

Descarta todos e oferece um outro nome, mais palatável e mais conforme às necessidades do povo e do país?

E existe esse outro nome, essa pessoa, esse personagem politico?

Deve existir, em alguma parte do Brasil.

Vamos descobrir, escolher, apoiar?

Senador americano Mark Kelly na Conferência de Munique sobre Segurança Internacional

 Observations From The Munich Security Conference - Senator Mark Kelly

It took a World War and eight decades to build the strongest alliance that this world had ever seen. It took less than a year to practically destroy it. When Secretary Rubio said the “old world order was dead” during his speech in Munich he was right. It’s dead because Donald Trump blew it up. 

It wasn’t perfect, and there were opportunities missed to improve it, but Donald Trump only knows how to break things, not fix them. 

He thinks this somehow benefits us. He is wrong. Our allies no longer trust us. It was obvious in the more than a dozen meetings I had with Presidents, Prime Ministers and Defense and Foreign Ministers. And if you’re Denmark and Greenland, a “loss of trust” is a generous characterization of our new relationship. China is now more popular in Denmark than the United States. In Poland, the U.S. is 21 percent less popular than it used to be.

This means these countries are looking elsewhere for trade and security — that makes you poorer and less safe.

It will be incredibly hard to build what comes next, but we have to figure out a better path forward. Make no mistake, China is rising. Our ability to keep up with them and prevent a conflict depends on trusted, reliable alliances. So does ending the war in Ukraine in a way that keeps Putin from moving on to his next target. And so does growing our economy and protecting American workers in the age of AI. 

I know there was celebration at the end of the Munich Security Conference. Unfortunately the champagne corks were popping in Beijing and Moscow.

ZELENSKYY at the Munich Conference-2026. FULL SPEECH

 ZELENSKYY at the Munich Conference-2026. FULL SPEECH


Ukrainian President Volodymyr Zelenskyy’s speech at the 62nd Munich Security Conference, taking place on February 13–15, 2026, in the heart of Bavaria.

During his address, the President of Ukraine will outline the country’s position on the current security situation, international support for Ukraine, European and Euro-Atlantic integration, as well as broader global challenges and threats.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Um genocídio esquecido: o do povo cigano sob o totalitarismo nazista (e alguns outros também)

 

Federal funding cuts and subsequent hiring freezes have reduced our annual Job Guide revenues by 35%, just under $200,000. Thanks to the generous support of subscribers like you, the Sustain H-Net Fundraising Campaign has raised just over 50% of our $100,000 goal, but we’re still facing a significant shortfall. Will you consider making a donation to help keep our services running for another year?

Greetings Paulo Roberto Almeida,
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João Guimarães Rosa: poeta esquecido - Carlos Machado

João Guimarães Rosa, poeta 

Ana Costa dos Santos
João Guimarães Rosa

 

Amigas e amigos,

Esta é uma edição especial. Traz como autor central o celebrado contista e romancista mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), um dos ficcionistas brasileiros mais respeitados, aqui e no exterior. Mas neste boletim o grande Guimarães Rosa não aparece como prosador, e sim como poeta.

Na verdade, o primeiro livro dele, Magma, do qual foram extraídos os poemas deste boletim, foi um livro de poesia. Mas, curiosamente, essa coletânea só veio à luz postumamente, em 1996, sessenta anos após sua consagração oficial.

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Em 1936, a Academia Brasileira de Letras promoveu um concurso de poesia, no qual o livro Magma conquistou o primeiro lugar. O julgamento dos textos ficou a cargo do poeta paulista Guilherme de Almeida, que diz ter procurado “buscar e premiar poesia, poesia autêntica e completa, que é beleza no sentir, no pensar e no dizer”.

Para Almeida, o único livro da competição que obedecia a tais critérios foi Magma, de Guimarães Rosa, então com 28 anos de idade. Mas o autor, embora elogiado, nunca publicou a coletânea premiada. Em 1965, numa conhecida entrevista concedida por ele ao crítico alemão Günter Lorenz, Rosa explica por que deixou a coletânea de lado durante a vida inteira.

“(..) escrevi um livro (..) de poemas, que até foi elogiado. Mas logo (...) minha carreira profissional co­meçou a ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas (...). Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exer­cícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes”.

Como não publicou o livro, costuma-se dizer que Guimarães Rosa renegou seus poemas. Na minha opinião, a explicação do escritor é aceitável. Ele descobriu que seu negócio era a ficção. E apostou certo: mudou os rumos de sua escrita.

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Ao lado, vamos ler seis poemas de Magma, a obra “oculta” de João Guimarães Rosa. Comecemos. Em “Lunático”, o poeta empreende um passeio lírico noturno, anunciado no primeiro verso: “Vou abrir minha janela sobre a noite”. E então ele se põe a “sonhar pelas estradas noturnas” e até imagina que ouvirá “a rainha do País do Suave Sonho”.

No poema seguinte, “Paisagem”, o clima é similar. O poeta se põe a descrever o movimento de “libélulas verdes” que têm “asas nervadas” e se movem entre “reflexos de raios” que “hipnotizam muriçocas tontas”. São exercícios de criação/descrição. Guimarães Rosa proporcionava a si mesmo aulas do que hoje chamam “escrita criativa”.

Os poemas seguintes, de uma forma ou de outra, repetem a busca de domínio sobre a palavra. Em “Pavor”, constrói-se um ambiente irrespirável. “Em torno a mim / círculos concêntricos se fecham, / como as órbitas lentas de um corvo...” As reticências parecem sugerir que existe ainda algo mais por dizer.

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No poema seguinte, “Na Mantiqueira”, surge outra paisagem noturna, mais uma vez marcada pela presença da lua. De modo similar, o clima em “Revolta” é de medo e cansaço. Neste caso, porém, a resposta do eu poético faz jus ao título: “Mas não quero ir para mais longe, / desterrado, / porque a minha pátria é a memória. / Não, não quero ser desterrado, / que a minha pátria é a memória...”. O indivíduo, firme, planta suas âncoras no território das lembranças.

Vem, por fim, o poema “Reportagem”. De caso pensado, manobrei para deixá-lo por último. Em minha opinião, este é o poema em que o poeta mais se aproxima do futuro Guimarães Rosa, aquele do Grande Sertão, das veredas e das travessias. Neste poema aparecem personagens reais (o homem que desce na estação, os outros passageiros), lugares reais (o temido Leprosário), ações e reações que se desenvolvem no chão.

Obviamente, há também o medo da lepra (hanseníase). Teria o homem que saltara ficado perto de nós? Tocado de humanidade, o sujeito poético (talvez influenciado pelo médico residente no escritor) expressa a vontade de endereçar um sorriso ao homem que vai para o leprosário. Não havia clima.

Estão aí, portanto, não apenas os devaneios, mas a vida completa, com seus bolsões de receios e brutalidades, ao lado da leveza e da empatia. As palavras que Guimarães Rosa buscava na poesia foram encontradas, mais verdadeiras e mais vastas, lá adiante, na prosa. Ave, Palavra!

 

Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado

 

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Minha pátria é a memória

• João Guimarães Rosa

           


Pablo Picasso, pintor espanhol, Cabeça de mulher (1939)

 

LUNÁTICO

Vou abrir minha janela sobre a noite.
E já bem noite, a lua,
alta a um terço do seu arco,
terá de deslizar pelo meu quarto a dentro,
e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,
quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,
sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,
que levam à região dos desabrigos,..
Sonharei com mares muito brancos,
de águas finas, como um ar dos cimos,
onde o meu corpo sobrenada solto,
por entre nelumbos que passam boiando...
Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,
cantando no alto sempre o mesmo canto,
como a sereia do sempre mais alto...
E a janela se fecha, prendendo aqui dentro
o raio suave que prendia a lua...
Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,
onde remoinham as formas inacabadas,
onde vêm morrer as almas, afogadas,
e onde os deuses se olham como num espelho...

 

PAISAGEM

No quadrilátero do arrozal,
verde-aquarela,
cortam-se em ângulos retos
canais azuis de água polida.
No ar de alumínio,
as libélulas verdes vão espetando
joias faiscantes, broches de jade,
duplas cruzetas, lindos brinquedos,
nos alfinetes de sol.
Pairam suspensas, em voo de caça,
horizontal,
e jogam, a golpes da tela metálica
das asas nervadas, reflexos de raios,
que hipnotizam as muriçocas tontas...
A libelinha pousa na ponta
do estilete de uma haste verde,
que faz arco (pronto!...)
e a leva direta à boca,
aberta e visguenta, de um sapo cinzento..,
— Glu!... Muitas bolhas na escuma...
E as outras aeroplanam, assestando
para o submersível,
os grandes olhos redondos,
com quarenta mil lentes facetadas...


Pablo Picasso, Retrato de Germaine (1902)

 

PAVOR

Em torno a mim
círculos concêntricos se fecham,
como as órbitas lentas de um corvo...
Tudo é torvo e pesado,
falta de ar e de amor...
Para mim já se apagou a última cor.
E a minha alma se enfurna
em poços velhos de hulheiras,
de onde foi tirado e queimado o carvão todo.
Como um cego
que dormisse na treva, amedrontado,
para sonhar que mais uma vez cegou...

 

NA MANTIQUEIRA

Por entre as ameias da cordilheira
dormida,
a lua se esgueira,
como um lótus branco
na serra de dorso de um crocodilo,
brincando de esconder.
Dá para o alto um arranco,
repentino,
de balão sem lastro.
E sobe, mais clara que as outras luas,
quase um sol frio,
redonda, esvaindo-se, derramando,
esfarelando luz pelos rasgões, do bojo
farpeado nas pontas da montanha.





Pablo Picasso, Mulher com coque (1901)

 

REVOLTA

Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.
Não trouxe mensagem
e não me deram senha...
Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora...
Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória...

 

REPORTAGEM

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...
Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...
Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...
Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...
O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...
Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas.

Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...