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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Venezuela: como o poder chavista corrompeu eleicoes e fraudou a politica - Pedro Doria

Pedro Doria - Editor Executivo do Jornal O Globo

Em outubro de 2012, quando Hugo Chávez se elegeu pela última vez presidente da Venezuela, eu estava em Caracas cobrindo o pleito para O Globo. Foi uma baita aula de eleição venezuelana.

Quando o domingo de eleição chegou, eu já havia ouvido de um dos ministros do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) seus anseios; havia conversado com demógrafos, tinha as últimas pesquisas de opinião de cor. Entendia a distribuição geográfica e social dos votos de Henrique Caprilles e do presidente. Havia assistido a comícios de ambos os candidatos, todos incrivelmente cheios, todos otimistas. Naquela manhã, qualquer um poderia encontrar uma pesquisa para seu gosto: vitória folgada de um, vitória folgada do outro. As duas pesquisas com maior histórico de acerto em pleitos passados davam uma vantagem ligeira para a oposição.

Passei uma boa parte do dia em Petare, maior favela da capital. Ali, Caprilles havia sido eleito governador de Miranda pouco tempo antes.

(Pausa: erro comum a respeito de Venezuela. Não é 'pobre vota chavismo' e 'rico vota oposição'. Muitos ricos ganharam seus Humvees e BMWs por conta da política bolivariana; vi mais carros de alto luxo em uma semana de Caracas do que em cinco anos de São Paulo ou em um ano de Vale do Silício. Na mesma toada, o chavismo piora a vida de muitos pobres. Mais sobre isso à frente.)

Mais de uma vez assisti, em Petare, a voto de cabresto. Daqueles escancarados. De o presidente da mesa acompanhar o eleitor à urna "para ensiná-lo". Duas, três, quatro. Em uma das vezes, filmei. Também escancaradamente. Eu, um repórter estrangeiro, com credencial pendurada no pescoço, o iPhone travado à frente, sem disfarce. Neste caso, era um fiscal do PSUV que ajudava a senhorinha. Nem ligou. O que estava fazendo lhe era tão natural que não parecia errado. Alguém está filmando? E daí? O vídeo, publicado no site do Globo, foi trending topics na Venezuela por uma semana e tanto.

Quando saíram as pesquisas de boca de urna apuradas até as 13h, todas apontavam vantagem ligeira de Caprilles. A turma do PSUV se trancou em silêncio, nenhum jornalista conseguia acesso ao mais reles assessor. A da oposição, por sua vez, vivia uma ansiedade de que, nem acreditam, mas parece estar próximo. Havia a possibilidade de uma eleição histórica. Já à noite, na sede do CNE, os boletins começaram a demorar. Decidi com alguns companheiros rumar para o comitê Caprilles. Se Chávez fosse reeleito, 'mas de lo mismo', tudo como dantes; por outro lado, haveria história.

Aí veio o telefone: 'Gana Chávez', me informou um colega, repórter de um diário caraquenho, com suas boas fontes no CNE. A vantagem seria apertada, o anúncio ainda demoraria uma hora. Twittei, passei a notícia para o site. E meu motorista estava chorando. Ele acreditara numa vitória Caprilles. Era otimismo só o dia todo. Agora, tinha todos os motivos do mundo para chorar. Sua filha: onze anos. Viviam em um bairro pobre. A escola pública mais próxima de sua casa era excelente. Mas, lá, a menina não conseguia vaga. Por quê? Porque o pai não andava de vermelho, não fazia o serviço do partido. Uma vitória de Caprilles, para ele, era vaga naquela escola. Uma de Chávez era 'más de lo mismo', era tudo como dantes. Para a menina, seis anos de Chávez a levavam numa escola ruim até quase o fim da adolescência. Aquela notícia era uma pequena tragédia pessoal. Sua educação seria pior. Suas oportunidades de chegar à faculdade, piores. Seu futuro era permanecer onde estavam seus pais. E o homem chorava seu vazio.

Quando a manhã do dia de eleição fechou para Caprilles, a máquina bolivariana entrou em ação. Motoqueiros, carros e ônibus foram às ruas em todo o país, na direção dos lugares onde o chavismo era mais forte. Lá, o voto não é obrigatório. E o movimento tem uma capacidade ímpar de mobilização. Os homens e mulheres do partido começaram a bater à porta. 'Já votou?', 'Então venha, Chávez conta com vc.' Fazer o quê? Foram. Seções escolhidas ficaram abertas até muito além do horário e filas ainda se formavam depois das 17h, outras seções fecharam com o rigor da lei.

Cada um daqueles votos depositados em favor de Chávez existiu.

O país estava, como está, rachado. Cindido ao meio. No tempo de Chávez vivo, uma vitória estreita seria sempre impossível para a oposição. Porque vitória estreita a máquina conseguia virar na força bruta. Só que a crise econômica está pior. Será que a margem seria ainda estreita? E Chávez não está mais vivo. De que adianta? Maduro ainda vive o primeiro anos de muitos no mandato. Um Golpe governista? Talvez. Um impeachment? Com o atual Congresso, impossível. Que nem se fale do Supremo. Uma queda por fadiga de material? Talvez. Mas com que formato? Quem assume?

À distância, cada dia desses, me bate uma certa angústia. É muito barra pesada ver em cada esquina o retrato de Chávez ou de Bolívar. O culto à imagem de um país soviético. A truculência dos motoqueiros de vermelho. Os carros de luxo na rua. O altíssimo índice de latrocínios na capital. A falta de papel higiênico no supermercado. A multa para quem consome luz em excesso. Os apagões.

Quem acha que o Brasil do PT parece a Venezuela do PSUV não tem a mais vaga ideia do que aquele pobre país se tornou.

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