domingo, 11 de janeiro de 2026

Um outro debate relevante: o Brasil e as grandes potências - Kurt Grötsch e Paulo Roberto de Almeida

 Apenas um grande Império consegue se contrapor a outro grande Império. O Brasil sempre teve como diretriz em suas relações exteriores não se envolver nos conflitos geopolíticos entre grandes impérios que não envolvessem imediatamente sua segurança e interesses nacionais. Creio que se trata de boa norma de conduta. PRA


A REAÇÃO DA CHINA NO CASO VENEZUELANO                                                                                                                                                              ( Autor: Kurt Grötsch)                                                                                      A China condenou veementemente a apreensão e a violação da soberania da Venezuela. Sem ostentação ao estilo de Trump e Macron, adotou uma série de medidas, compreendendo que os EUA definiram o controle do petróleo venezuelano como uma forma de deter a presença chinesa na América do Sul e interromper seu desenvolvimento imparável.

A China adotou uma série de medidas que atingem o coração do império americano porque a agressão contra a Venezuela é uma declaração de guerra contra a proposta de um mundo multipolar e contra o BRICS.

Poucas horas após a notícia do sequestro do presidente Maduro, Xi Jinping convocou uma reunião de emergência do Comitê Permanente do Politburo que durou exatamente 120 minutos. Não houve declarações ou ameaças diplomáticas, apenas o silêncio que precede uma tempestade. Essa reunião ativou o que os estrategistas chineses chamam de Resposta Assimétrica Abrangente, concebida para contrapor agressões contra parceiros no Hemisfério Ocidental, e a Venezuela é a cabeça de ponte da América Latina no "quintal dos Estados Unidos". A primeira fase da resposta chinesa foi ativada às 9h15 do dia 4 de janeiro, quando o Banco Popular da China anunciou discretamente a suspensão temporária de todas as transações em dólares americanos com empresas ligadas ao setor de defesa dos EUA. Boeing, Lockheed Martin, Raytheon e General Dynamics acordaram naquela quinta-feira com a notícia de que todas as suas transações com a China haviam sido congeladas sem aviso prévio. Às 11h43 do mesmo dia, a State Gray Corporation of China, que controla a rede elétrica, também suspendeu suas operações. A maior petrolífera do mundo anunciou uma revisão técnica de todos os seus contratos com fornecedores americanos de equipamentos elétricos, insinuando que a China está se desvinculando da tecnologia americana.

Às 14h17, a China National Petroleum Corporation, a maior petrolífera estatal do mundo, anunciou a Reorganização Estratégica de suas rotas de abastecimento globais, o que significa que a arma energética foi reativada. Isso implica o cancelamento de contratos de fornecimento de petróleo com refinarias americanas no valor de US$ 47 bilhões anuais. O petróleo que antes chegava à costa leste dos EUA foi redirecionado para a Índia, Brasil, África do Sul e outros parceiros no Sul Global, fazendo com que os preços do petróleo subissem 23% em uma única sessão de negociação. Mas o aspecto mais importante é a mensagem estratégica: a China pode estrangular o fornecimento de energia dos EUA sem disparar um único tiro.

Em outra manobra, a China Ocean Shipping Company, que controla aproximadamente 40% da capacidade de transporte marítimo global, implementou o que chamou de Otimização Operacional de Rotas. Isso significa que os navios de carga chineses começaram a evitar portos americanos como Long Beach. Los Angeles, Nova York e Miami, que dependem da logística marítima chinesa para manter suas cadeias de suprimentos, de repente se viram sem 35% do seu tráfego normal de contêineres — uma catástrofe para Walmart, Amazon, Target e outras empresas que dependem de navios chineses para importar mercadorias fabricadas na China para portos americanos. Suas cadeias de suprimentos entraram em colapso parcial em questão de horas.

O aspecto mais impressionante de todas essas medidas foi a sua simultaneidade. Elas criaram um efeito cascata que amplificou exponencialmente o impacto econômico. Não foi uma escalada gradual; Foi um choque sistêmico concebido para sobrecarregar a capacidade de resposta dos Estados Unidos 

O governo americano mal havia absorvido o golpe quando a China ativou um novo pacote de medidas: a mobilização do Sul Global. Às 4h22 da manhã do dia 4 de janeiro, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, ofereceu ao Brasil, Índia, África do Sul, Irã, Turquia, Indonésia e outros 23 países condições comerciais preferenciais imediatas, caso se comprometessem publicamente a não reconhecer nenhum governo venezuelano que chegasse ao poder com o apoio criminoso dos EUA.

Em menos de 24 horas, 19 países aceitaram a oferta. O Brasil foi o primeiro, seguido pela Índia, África do Sul e México, e esta é a manifestação prática de um mundo multipolar em ação. A China conseguiu uma coalizão anti-americana instantânea usando a arma dos incentivos econômicos.

A cereja do bolo veio em 5 de janeiro, quando Pequim ativou sua arma financeira: o sistema de pagamentos interbancários transfronteiriços da China anunciou que estava expandindo sua capacidade operacional para absorver qualquer transação global que buscasse contornar o sistema SWIFT, controlado por Washington. Isso significava que a China havia fornecido ao mundo uma alternativa totalmente funcional ao sistema financeiro ocidental. Qualquer país, empresa ou banco que desejasse negociar sem depender da infraestrutura financeira americana poderia usar o sistema chinês, que era 97% mais barato e mais rápido. A resposta foi imediata e massiva.”

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