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sexta-feira, 26 de junho de 2026

O acordo de cessar-fogo: EUA, Irã e Israel - Rubens Barbosa O Estado de S. Paulo

 Opinião: 

O acordo de cessar-fogo: EUA, Irã e Israel

O Irã é a única variável que pode impedir que a doutrina norte-americana seja implementada
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 23/06/2026

Pressionado por fatores internos (inflação, crescente oposição e baixíssimo nível de popularidade) e pelo impacto global do fechamento do Estreito de Ormuz nos custos de produção pelo aumento de preço do petróleo, os EUA chegaram a um acordo de cessar-fogo de 60 dias com o Irã. Trata-se de um avanço limitado, permitindo a abertura do Estreito de Ormuz e o desbloqueio dos portos iranianos. Como parte formal do acordo, ficou entendido que Israel deveria suspender os ataques ao Hezbollah e sair do sul do Líbano. Nesse período, as negociações serão retomadas sobre a questão do programa nuclear iraniano e as contrapartidas norte-americanas. O Memorando de Entendimento assinado por Trump será uma pausa temporária para permitir o atendimento das necessidades internas nos EUA, mas é muito provável que, findo o prazo, as ações bélicas sejam retomadas, em função das prioridades da Estratégia de Segurança Nacional e da radical posição de Israel.
A guerra com o Irã deve ser entendida como um desdobramento da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A estratégia desenha um mundo dividido em esferas de influência, com dois objetivos: a defesa do território dos EUA e a contenção da China. A prioridade de Washington é o Hemisfério Ocidental, do Ártico à Antártica, passando pela Groenlândia e pelo Canal do Panamá, com a afirmação de que impedirá a presença na região de potências extra-hemisféricas, como a China, a Rússia e o Irã, e que as impedirá de manter reservas estratégicas.
O documento também prevê a existência de países-chave no resto do mundo para dividir as responsabilidades de manter a hegemonia norte-americana. Na região do Indo-Pacífico, os EUA se apoiariam no Japão, na Coreia do Sul, na Austrália e na Índia. Nas cadeias de ilhas do Pacífico, se apoiariam nas Filipinas para conter a China. Na Europa, os aliados são chamados a custear a sua defesa e, por enquanto, para uma reduzida forma de atrito com a Rússia, sem uma nova política de contenção militar. No Oriente Médio, a estratégia diminui a prioridade da região, rejeita a política de construção de nações (Palestina), e se compromete apenas com dois objetivos: proteger Israel e impedir que qualquer nação, “especialmente o Irã”, consiga tornar-se uma potência hegemônica na região.
Por esse desenho, os EUA delegam as outras áreas a nações regionais confiáveis. No Oriente Médio, o país-chave é Israel. A lógica é mútua, visto que Israel declara publicamente que pretende reformular a configuração estratégica regional e tornar-se a potência dominante (Grande Israel). Washington precisa de tal potência para que possa concentrar sua força para conter a China no hemisfério e no Pacífico, sem ter de envolver-se em novas guerras no Golfo.
Dentro desse quadro, a guerra contra o Irã é crucial para a concretização da estratégia dos EUA. O objetivo declarado inicial da guerra em 28 de fevereiro não foi a questão do urânio enriquecido, foi da mudança de regime, para eliminar a ameaça do Irã ao objetivo estratégico dos EUA. Um dos objetivos do Memorando de Entendimento foi abandonado pela reação israelense, apesar da concordância inicial em suspender as hostilidades contra o Hezbollah, por pressão de Trump.
Para tanto, deveriam ser retirados de Teerã o controle do Estreito de Ormuz, o corredor eurasiano e a possibilidade de produzir um artefato nuclear. O Irã controla um dos lados do estreito de Ormuz, passagem marítima em que transitam normalmente cerca de 20% do petróleo, do óleo liquefeito, do gás natural e dos fertilizantes globais. A capacidade de fechar, restringir ou mesmo ameaçar a passagem é uma arma estratégica, equivalente a uma dissuasão tática pelos impactos que acarreta. O corredor internacional norte-sul, criado em 2000, entre a Rússia, o Irã e a Índia se estende por cerca de 7,2 mil quilômetros, de Mumbai passando pelos portos do Irã até o Mar Cáspio e São Petersburgo. A linha ferroviária China-Irã liga Xi’an ao porto seco Aprin, no Irã , e rodovias ao redor do estreito de Málaca. Os dois corredores passam pelo território iraniano. O corredor é de grande importância para a China, pela compra de petróleo iraniano com desconto e pago em moeda chinesa, que, se perdido, representará um duro golpe à sua competitividade industrial.
A guerra, mais recentemente, ficou limitada ao controle iraniano do Estreito de Ormuz e ao bloqueio dos portos iranianos pela armada norte-americana e a ataques isolados aos corredores eurasianos, mas não em relação às centrifugas e aos locais de produção de armas, que agora serão objeto das negociações. Sem acordo, voltarão a ser atacados de forma mais pesada.
Tendo como objetivo estratégico dos EUA colocar Israel como potência principal no Oriente Médio, o Irã é a única variável que pode impedir que a doutrina norte-americana seja implementada. Com a recusa de Israel de aceitar as condições do memorando em relação ao Hezbollah e à saída do sul do Líbano e, muito menos, de atender à reivindicação dos países árabes do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, de só aceitar normalizar as relações com Israel com a criação do Estado palestino, não haverá avanço num dos aspectos da Estratégia Nacional de Segurança e ficará ameaçada a vigência do memorando que estabeleceu o acordo temporário.

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/o-acordo-de-cessar-fogo-eua-ira-e-israel/

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