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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Os EUA estão em declínio, já são decadentes, ou o quê? Um debate entre amigos

Um exchange entre amigos sobre questões de atualidade

Na semana passada, expressei, num exchange entre amigos, opiniões muito fortes contra o atual mandatário desequilibrado do Norte do hemisfério, e recebi comentários muito judiciosos de um desses amigos queridos.

Como eu tenho uma massa gigantesca de e-mails e outros materiais que me chegsm todos os dias, a qualquer hora, e isso vai submerginfo o estoque já presente para ler e responder (o que ainda não consigo fazer) resolvi postar esses argumentos recebidos nesta minha “biblioteca”, para ler e depois responder, o que vou fazer em algum momento. Só não identifico o amigo pois não pedi sua autorização para postar seus questionamentos e argumentos, mas a razão é que não quero ver esse texto soterrado nas dezenas de mensagens diárias. PRA

Minha mensagem se referia a uma pesquisa americana revelando bastante apoio a Trump e a suas políticas, mas isso foi, obviamente, antes da mortes, assassinatos, em Minneapolis. Vou postar primeiro meus argumentos, depois os comentários de meu amigo, que pretendo retomar.

Primeiro, meu texto: 

"Nota preliminar PRA a esta matéria:

Assunto: Aprovação americana do Trump segundo IA americano da Microsoft.
Benjamin Ernani Diaz

Recebo o texto abaixo em segunda mão de uma lista previamente circulada de forma restrita, mas repassada por um amigo, por considerá-la útil do ponto de vista da população americana que apoia as políticas de Trump de maneira geral, embora muitos discordem da forma como estão sendo aplicada ou sejam contrárias ao personagem.
Tenho, por mim e para mim, uma imagem bastante negativa, atualmente, do pensamento médio dos eleitores americanos, considerando-os excessivamente ingênuos, desinformados, ou mesmo ignorantes no sentido mais rústico da palavra.
Os EUA foram grandes, de fato, durante sua fase ascensional, após a guerra civil, quando atraíram milhões de imigrantes europeus, muitos dotados de uma cultura superior à média então prevalecente nos EUA ainda pouco "civilizado" (refiro-me à fase da "conquista do Oeste"). Muitos dos europeus eram imigrantes pobres, de cultura rural, mas grande parte também eram cidadãos urbanos, educados e dotados de títulos universitários. Continuaram a vir, em massa, desde o final do século XIX, até os anos 1920-30, quando restrições nacionalistas começaram a ser aplicadas. Ainda assim, as guerras europeias, o nazifascismo sobretudo, produziu um afluxo de pessoas altamente educadas, tangidas da Europa por perseguição política ou racial. Foi o momento de maior preeminência econômica americana – com a Europa e parte da Ásia destruídas – e de dominação absoluta na produção científica e tecnológica, justamente com a integração dessas massas e cidadãos educados e com a penetração americana no resto do mundo.
Esse impulso esgotou-se no final do século XX, o momento de maior dominação (mas apenas aparente) americana, com o fim da alternativa socialista e a intensificação da globalização.
Mas, os fatores de declínio e mesmo de mediocrização já estavam presentes, e continuaram a produzir efeitos nas primeiras duas décadas do século XXI.
A política americana tornou-se nacionalista, a cultura tacanha, os preconceitos se avolumaram (sobretudo com o crescimento do evangelismo ignorante, anticientífico), a qualidade da educação de massa declinou, e uma massa ignorante de eleitores da "caipirolândia" e dos trabalhadores industriais deslocados com o esgotamento da indústria criada na segunda revolução industrial (1870-1930) e sua disseminação pelo mundo, o que aumentou a concorrência com oferta mais barata, geralmente da Ásia Pacífico.
Em síntese, o nacionalismo ignorante dos caipiras do interior e dos novos pobres urbanos produziu políticos medíocres, que fizeram todas as más escolhas internas e externas, até chegar na irrupção de um personagem medíocre – provavelmente por influência direta do neoczar expansionista, plenamente soviético em toda a sua expressão –, que acelerou o declínio, a ignorância e a arrogância desvairada. Os brilhantes acadêmicos da costa Leste e da Califórnia foram desprezados pelos frustrados do declínio, que agora dominam o país do alto da sua estupidez.
Esta é a razão principal que vejo para a aprovação das políticas trumpistas que vão continuar acelerando a decadência americana.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5198, 24/01/2026


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Agora, os comentários de meu amigo:

 1-Querido Paulo, tua visão sobre a decadência dos EEUU e da sociedade americana é muito preocupantes e sombria, principalmente quando, além disso, olhamos para os candidatos à sucessão dos EEUU como potência ou potências hegemônicas, no tabuleiro internacional.


2-Não que isto justifique uma visão mais branda ou benevolente sobre o que ocorre nos EEUU nos dias de hoje. Mas tomo a liberdade de ser um pouco mais otimista que você no tange ao futuro dos EEUU, no combate aos males que você bem aponta.

3-A sociedade americana sempre foi majoritariamente conservadora e o recente afloramento e o protagonismo político de determinados segmentos conservadores, como os evangélicos e,em última análise do próprio Trump, se devem muito mais, segundo entendo, ao fracasso das forças progressistas em oferecer soluções inclusivas a esses segmentos. Cada vez me convenço mais  de que esse fracasso, que não é monopólio só dos progressistas americanos, tem um peso enorme nesse fenômeno que você classifica como decadência.

4-Vejo decadência sim, no front interno, em segmentos importantes do Partido Democrata, que se deixou levar por um ativismo doméstico,incompatível com sua tradição histórica na defesa da maioria do povo americano e não sòmente de LGBTs ou de segmentos do movimento dos negros nìtidamente anti-democráticos e pior, no engajamento em uma militância antissemita que afronta, entre outros, todoa a história de participação ativa dos judeus na luta pelos direitos civis, simbolizada pela imagem histórica do braço dado de Joshua Haeschel com Martim Luther King, na primeira fileira, na Marcha sobre Washington.

5- A máscara do antissionismo que tenta acobertar o antissemitismo é mais grave ainda pois sequer assume sua posição verdadeira. Não quero aqui me estender na questão antissionismo x antissemitismo, até porque o uso do termo antissionista denota, além de parco conhecimento histórico, uma posição antissemita e deslegitimizadora da existência de Israel como Nação.

6-O movimento Sionista, terminou historicamente, no momento em que Israel foi reconhecido como nação pela ONU e pelos países, à exceção dos países árabes. Diga-se de passagem, que hoje, após os Acordos de Abraão, a grande maioria dos países árabes já o reconhecem.

7-Sionismo foi um movimento social entre os judeus que defendia a tese de que a única forma eficaz de combater o antissemitismo seria a criação de um Estado Judeu. A discussão hoje é sobre o futuro de Israel e não do Sionismo, que cumpriu sua visão em 1948. Israel foi criado e a missão sionista terminou.

8-Mas o Sionismo continua  sendo instrumentalizado, entre outros, para defender teses absurdas como a de que o ressurgimento do antissemitismo se deve à ação do Sionista  Bibi. 
Combater o Bibi, para pessoas como eu e a maioria dos judeus no mundo, é fundamental para derrotar o pior governo de |Israel desde a sua criação. Daí a atribuir a ele esse poder monumental é, no mínimo, menosprezar as verdadeiras causas dessa doença milenar da Humanidade que se chama Antissemitismo e que, na realidade, visa simplismente deslegitimar Israel ao invés de atacar suas caisas estruturais. Atacar o governo de Israel é legítimo e fundamental numa democracia. 

9-Vejo decadência sim no front internacional, fruto principalmente de sucessivos governos democratas pós Clinton, que não souberam oferecer soluções eficazes para uma plêiade de problemas internacionais, como o da tensão comercial com a China,  da guerra Russia-Ucrânia, o do armamento nuclear iraniano, o da poderosa rede internacional de terror associada ao narcotráfico estruturada pelo Irã tanto no Oriente Médio( Hamas, Hezbollah e tantos outros), o da Venezuela, o do regime sírio do Assad, o gravíssimo problema da total inoperância da ONU que se transformou num mero instrumento de países ditadoriais e notadamento como um foro anti-Israel, entre outros.

10-De novo, vejo o fortalecimento do Trumpismo, principalmente, como consequência direta do fracasso dos movimentos progressistas e que, de certa forma, viabilizaram as iniciativas truculentas do Trump, a saber: os Acordos de Abraão, a aproximação de Israel com a A.Saudita,  a destruição das instalações nucleares do Irã, o apoio militar à destruição do poderio militar do Hamas e do Hezbollah,  a derrubada do Maduro, o Plano de Paz para Gaza e outros.  Fundamental observar que tudo isso denota o fracasso total da ONU como organização mundial com eficácia para atuar e enfrentar esses problemas. A viabilidade do protagonismo do Trump se deve basicamente a esse fracasso da ONU.

11-Uma palavra sobre como se antepor  ao Trumpismo diante do fracasso das forças que chamo de pseudo esquerdistas que nada tem a haver com a esquerda democrática/social-democrata onde militei e que representava a vanguarda da luta contra a injustiça social, contra as ditaduras e contra a discriminação racial que incluia o antissemitismo.
Penso que, se forças social-democratas não tiverem capacidade de mobilização política para oferecer alternativas viáveis para se contrapor ao Trumpismo, essa nova pax americana será vitoriosa. Digo social-democratas por que, infelizmente, as ações dessa pseudo esquerda, meramente verborrágicas, só fortalecerão o Trumpismo 

12-Vejam o exemplo do Conselho de Paz para Gaza criado Pelo Trump. Esse é o tipo de ação que deveria ser prerrogativa da ONU e não o é por pura incompetência e falta de vontade política de endereçar a questão de forma equilibrada, entre as partes. Como se pode admitir uma ONU militante a favor de um dos lados? Uma tragédia.

13-Qual é a situação objetiva da Venezuela, do Irã, de Gaza, antes e depois das ações do Trump e quais as perspectivas de melhoria para a população desse países antes e depois dessas ações. São questões que independem de gostar ou não do Trump  devem ser analisadas sem paixão.

14-A realidade é que o Trump é um protagonista ativo e transformador  do cenário mundial cujas ações merecem reflexões e que devem ser analisadas friamente sem os emocionalismos que preponderam entre seus opositores.É preciso transcender o emocionalismo que tomou conta da grande maioria dos analistas políticos.

15-Finalmente o rebatimento de tudo isso sobre o Brasil e sobre a Europa. Não vou entrar nessa questão mas, simplificadamente, vejo muitas semelhanças entre o PT, e o atual Partido Democrata americano.A Europa fica para outra vez mas o seu protagonismo efetivo para se contrapor a pax americana trumpista está muito aquém do desejado, como sempre.

16-Restou também uma reflexão sobre os candidatos a sucessão do EEUU em termos de hegemonia mundial. Também simplificando uma questão tão complexa, ainda acho que estamos diante de uma ainda longa hegemonia americana, função da vitalidade estrutural da sua economia e da manutenção ou até mesmo ampliação do gap de desenvolvimento científico e tecnológico, inclusive em Inteligência Artificial e poderio militar, em relação a China, à Rússia e Europa.

17-Para concluir, vejo ainda muita vitalidade na sociedade americana para reverter esse quadro. Vejo também muita vitalidade da sociedade israelense para derrubar o Bibi, que também é um produto, em grande parte, do terror de diversas facções palestinas que nada aprenderam com os sionistas quando, em 1947, decidiram renunciar ao terror na luta contra os colonialistas britânicos, o que se mostrou acertado.

18-Só sou pessimista em não ver vitalidade no mundo para efetivamente combater o Antissemitismo, com medidas que combatam o seu componente estrutural.

Desculpe a forma errática da sequência de pensamentos.

Receba um forte abraço do amigo e admirador.”

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista - Paulo Roberto de Almeida

Combatendo a extrema-direita na diplomacia brasileira, partir de agora até as eleições...

    Posso ser liberal na economia, anarquista na cultura, democrático na política, conservador na diplomacia (ou seja, em defesa dos padrões tradicionais da diplomacia brasileira (contrário, portanto à política externa partidária, ideológica e personalista tal como praticada atualmente), mas uma coisa que não suportaria contemplar seria a destruição da diplomacia e da política externa tal como foi posta em prática pelo bolsolavismo diplomático, uma vergonha para o Brasil, dada a submissão abjeta, não só aos EUA, mas ao presidente desequilibrado que voltou ao poder em 2025, e já se ativa em destruir a ordem global e o multilateralismo.
    Vou dedicar-me a relembrar o horror que foram os anos de dominação do Itamaraty e da política externa por um bando de beócios amadores, ignorantes em política externa, subservientes ao império americano e partidários da degradação das instituições multilaterais (no que seguiam o antiglobalismo imbecil da extrema-direita americana) e da integração regional.
    Começo por relembrar um trabalho daquela época:

“Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista”. Incorporado como parte de um capítulo no livro Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira (2020).

Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista

Paulo Roberto de Almeida

A diplomacia bolsolavista, formulada em grande medida fora do Itamaraty e operada apenas formalmente por auxiliares da Casa, é feita de rupturas com respeito aos padrões históricos da política externa brasileira, que sempre foi tradicionalmente caracterizada pela busca de autonomia e comprometida, antes de mais nada, com o interesse nacional. Ela é tão bizarra no horizonte bissecular de nossa diplomacia que sequer pode ser assemelhada a uma espécie de desvio padrão numa linha de tendência da política externa nacional, pois ela se situa completamente fora do quadro. Observando-se cronologicamente seu desempenho em um ano e meio de esquisitices de inspiração bolsolavista, pode-se identificar os sete pecados capitais dessa diplomacia sui generis:

1) Ignorância: não parece haver dúvidas de que os que conduzem, de fato, as relações exteriores do Brasil são profundamente ignorantes sobre as relações internacionais e sobre a própria política externa do Brasil. O filho 03 do presidente, que exerce esse papel, não tem a menor ideia de quem foi, nem nunca ouviu falar de Henry Kissinger.

2) Irrealismo: esses “decisores” começam partindo de uma fantasmagoria, o tal de globalismo – que nunca demonstram existir empiricamente – e passam daí a atacar o método por excelência da diplomacia contemporânea: o multilateralismo.

3) Arrogância: como a anterior tribo dos lulopetistas, eles acham que tudo o que existia antes deles foi errado; o chanceler acidental vive apontando distorções na política externa dos últimos 30 anos (falou até “depois de Rio Branco”), não mencionando que serviu de forma obediente todas essas distorções até com entusiasmo (existem provas disso). Ele fez uma completa reforma do Itamaraty sem jamais consultar seus colegas de carreira: por cima.

4) Servilismo: a frase símbolo desse alinhamento automático é o famoso “I love you Trump”, disparado pelo presidente a seu colega americano em setembro de 2019 na ONU. Teve início no primeiro dia de governo quando se ofereceu uma base militar americana no Brasil, prontamente rejeitada pelos ministros militares; mas tem muitos outros exemplos.

5) Miopia: já manifestada numa alegada “ameaça globalista”, tem recusado a cooperação multilateral no combate a um desconhecido, até aqui, “comunavirus”; ela se manifestou em especial na animosidade em relação à China e numa adesão unilateral ao governo de Israel, desconhecendo a complexidade dessas relações e ameaçando negócios e investimentos extremamente relevantes para o presente e o futuro do Brasil.

6) Grosseria: Ela se manifestou sobretudo em direção de líderes estrangeiros que não pensam como o presidente, com ofensas a estadistas europeus comprometidos com a defesa do meio ambiente e também a dirigentes vizinhos de outras correntes políticas.

7) Inconstitucionalidade: a primeira já está comprometida no servilismo, ou seja, a renúncia à independência nacional, para subordiná-la a um dirigente estrangeiro, mas também existe a intervenção nos assuntos internos de outros países; a mais grave é o desconhecimento do Direito Internacional, manifestado no apoio às sanções unilaterais do governo americano, o que pode concretizar-se inclusive contra o próprio Brasil, como no caso das salvaguardas abusivas (e ilegais) contra exportações brasileiras de aço e alumínio.

Todos esses pecados se revelaram abertamente na recusa do multilateralismo, na negligência de normas consagradas do Direito Internacional, no abandono da formulação autônoma da política externa brasileira, na relativização da noção de interesse nacional, na substituição da diplomacia profissional pelos preconceitos de amadores ignorantes, assim como o desprezo pelos princípios constitucionais das relações internacionais. Dois exemplos, entre outros, da subordinação aos EUA: a aceitação do candidato americano à presidência do BID e a adesão ao veto de Trump à participação da empresa chinesa Huawei no leilão do 5G.

Vou dar continuidade a esta ofensiva contra os ignorantes da política externa e destruidores da qualidade de nossa diplomacia.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 janeiro 2026



quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Trancando a porta do aviário de Trump - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 O que precisa ser dito

Trancando a porta do aviário de Trump

  • Relatório Reservado, 22/01/2026

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Na manhã de hoje foi formalizada a criação do Conselho da Paz proposto por Donald Trump numa cerimônia realizada em Davos em que estiveram presentes, além do atual ocupante da Casa Branca, chefes de Estado de numerosos países, incluindo Argentina, Catar, Hungria, Indonésia, Paquistão e Paraguai, além de altos representantes da Arábia Saudita, Emirados, Jordânia e Turquia. Segundo autoridades norte-americanas, dos cerca de 60 países convidados mais da metade já teria concordado em participar, embora muitos países ainda estudem o convite (incluindo China e Rússia) e seis já o tenham recusado (Dinamarca, Eslovênia, França, Itália, Noruega e Suécia).

Com essa formalização, deixa de ser a válida a sugestão que fiz em artigo anterior, intitulado “O aviário de Trump” (https://relatorioreservado.com.br/noticias/o-aviario-de-donald-trump/), no sentido de que o Brasil poderia condicionar sua presença no órgão a determinadas modificações (certamente inaceitáveis) no projeto de estatuto que havia acompanhado o convite de Trump a Lula. Isso porque, segundo o próprio estatuto, não são admitidas reservas ao texto depois que a entidade entrasse em vigor como acaba de ocorrer.

Nessas circunstâncias, só resta agora ao Brasil negar sua participação devido à série de graves defeitos que apontei em outro artigo neste espaço, intitulado “Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto”  (https://relatorioreservado.com.br/noticias/uma-pomba-sobrevoa-o-palacio-do-planalto/). Entre os mais obviamente impossíveis de serem aceitos pelo Brasil constavam a possibilidade de atuação do Conselho da Paz fora da Faixa de Gaza (que foi exclusivamente contemplada na Resolução 2083 do Conselho de Segurança das Nações Unidas) e o fato de que Donald Trump deterá a presidência vitalícia da nova entidade, devendo designar seu sucessor de maneira a gerar naquele território um feudo dinástico.

No entanto, como não há o menor interesse de que o Brasil hostilize o proponente do Conselho e os numerosos membros já confirmados, é recomendável que nossa recusa seja justificada por razões constitucionais. Com efeito, o artigo 4 da Carta Magna lista os princípios que regem as relações internacionais do país e, entre eles, como item quinto, se afirma a igualdade entre os Estados. Ora, o estatuto do Conselho da Paz viola esse princípio ao estabelecer diferenças frontais entre a) Estados convidados e não convidados por Trump, e b) Estados com mandato inicial de três anos sujeito a renovação por decisão monocrática de Trump e Estados com assento permanente caso paguem US$ 1 bilhão pela cadeira cativa.

Valendo-se desse argumento perfeitamente válido e correto, a ser explicitado em carta sóbria do presidente Lula ao presidente Trump, ficam nossas autoridades eximidas de declarar quaisquer outros motivos para sua decisão. Nessa comunicação, aliás, é fundamental enfatizar nosso desejo de que se estabeleça a paz duradoura na Faixa de Gaza, de que os palestinos gozem de padrões de vida condizentes com sua condição de cidadãos de pleno direito daquele território e de que as novas condições a serem ali criadas conduzam à formação definitiva do Estado palestino e à solução dos dois Estados.

Nada impedirá que possamos contribuir com o Conselho da Paz na realização de tais objetivos e até mesmo formar, com outros países que se neguem a dele participar, um grupo permanente de acompanhamento de suas atividades.

Cabe, porém uma última palavra dirigida àqueles que têm ótimas razões para crer que esse Conselho, tal como constituído, possa se transformar numa gigantesca fonte adicional de riqueza para o genro de Trump, Jared Kushner, outros membros de sua família e os multibilionários que o cercam. Os dirigentes de Egito, Catar e Turquia (conegociadores do cessar-fogo com os Estados Unidos em novembro de 2024), bem como os da Jordânia, Emirados e Arábia Saudita – em suma, todos os países árabes da região direta ou indiretamente envolvidos no conflito -, têm pleno conhecimento do que está em jogo. Se aceitam participar do Conselho é devido à convicção de que o mesmo ocorreria caso Israel anexasse a Faixa de Gaza e os palestinos que ali moram se transformassem eternamente em cidadãos de segunda classe sem qualquer respeito por suas vidas, bem-estar ou o direito de um dia criarem um Estado próprio.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O aviário de Donald Trump - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 

O aviário de Donald Trump

  • Relatório Reservado, 21/01/2026

  • (Seqüência de “Uma pomba da paz sobrevoa o Planalto”)
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Tomando conhecimento da minuta do estatuto do Conselho da Paz proposto por Donald Trump a cerca de 60 chefes de Estado, fica claro que a pomba mencionada em meu artigo anterior sobre o assunto ganha características de filhote de urubu.

São os seguintes os mais graves inconvenientes da referida Carta:

  1. ir além das questões relativas a Gaza nos termos da Resolução 2083 do Conselho de Segurança das Nações Unidas ao estabelecer como sua missão, no Artigo 1, “promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e assegurar a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”. Ora, tal amplitude de ação faria do Conselho um órgão tão ou mais importante quanto a ONU, criticada indiretamente no preâmbulo por sua falta de efetividade; e
  2. conceder poderes vastíssimos a Trump como presidente do Conselho, dentre os quais: escolher seus membros (artigo 2.1); renovar ou não a participação de qualquer membro após 3 anos caso ele não tenha contribuído com US$ 1 bilhão (2.2.c); criar, modificar e dissolver entidades subsidiárias (3.2.b); designar seu sucessor e só deixar de ser presidente por decisão voluntária ou voto unânime de incapacidade pelo Comitê Executivo cujos membros são de sua escolha (3.3); ter autoridade final com respeito ao significado, interpretação e aplicação do estatuto (7); adotar resoluções e diretivas em nome do Conselho (9); dissolver o Conselho quando achar necessário ou adequado (10.2).

Diante desses sérios defeitos do documento constitutivo do Conselho, como deve o Brasil reagir ao convite que Trump dirigiu a Lula para integrá-lo?  

O primeiro ponto a considerar é que o Conselho de Paz mandatado pelas Nações Unidas efetivamente previa a presidência de Donald Trump sem entrar em detalhes sobre a estrutura e funcionamento do órgão. Sua finalidade, porém, era de fato impedir a continuidade do genocídio conduzido por Israel em Gaza e a anexação pura e simples da Faixa. Como as forças militares israelenses ainda controlam mais da metade daquele território e limitam fortemente os fluxos de assistência aos dois milhões de seres que ali sobrevivem em condições subumanas, não surpreende que Benjamin Netanyahu e seus comparsas da direita radical estejam furibundos com a iniciativa de Trump. Mais certo ainda, uma das milhares de mães palestinas que vive numa tenda e cuida de filhos sem comida suficiente, sem remédios, sem escolas e sem perspectivas não terá um minuto de sua triste existência para dedicar-se às questões geopolíticas em jogo ainda hoje. Nada impedirá que Israel alcance seus terríveis propósitos sem uma ação internacional eficaz.

Por tal motivo, e também pelos outros elementos de juízo que expus no artigo anterior sob o título de “Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto”, não seria cabível uma negativa peremptória – coisa que até agora só foi feita pela França sem dúvida sob a influência do tratamento humilhante que Trump vem dando à Europa, ameaçando inclusive tomar a Groenlândia à força. Igualmente não caberia apressar-se com um sim sicofântico como tratou de fazer, por exemplo, o áulico Javier Milei. Na realidade, tal como já declarado pelo porta-voz do Kremlin. Putin e dezenas de chefes de Estado em todo o planeta estudam neste momento com seus chanceleres como responder a tão incômodo convite sem sacrificar o futuro dos palestinos em Gaza e sem provocar uma crise política com o vingativo ocupante da Casa Branca.

Durante esse período necessário de reflexão, os agentes diplomáticos devem estar realizando consultas urgentes a fim de tentar conhecer a posição de outros players importantes. Assim, por exemplo, o Brasil teria muito a ganhar caso esteja auscultando as opiniões de Canadá, Austrália, Reino Unido, Alemanha, Arábia Saudita, Egito e Emirados – para só citar algumas das nações que não reagirão de forma amadorística ao se verem confrontadas com situação tão desafiadora. Quem sabe pode até surgir uma resposta coletiva ou coordenada que evite a particularização aceita por Emmanuel Macron em troca de uma possível tarifa de 200% sobre os vinhos franceses nos Estados Unidos. Embora o artigo 12 diga que o estatuto não admite reservas, uma possibilidade consiste em que o Brasil aceite o convite, mas condicione sua entrada no Conselho à efetivação de determinadas alterações no texto plenamente explicadas. Caso tais mudanças sejam rechaçadas por Trump, isso faria com que nossa não participação se devesse a ele próprio.

Enquanto isso, as atenções devem continuar concentradas em buscar conhecer que outras criaturas habitam o estranho aviário de Donald Trump.


Presença deste modesto blogueiro nas bem traçadas linhas de Airton Dirceu Lemmertz, e no escrutínio de Madame IA

 Je suis comblé, como diriam os franceses. Meu amigo Airton Dirceu Lemmertz me fait plaisir, chaque jour. Talvez ele vise algum presente de aniversário, ainda a ver nas minhas emendas orçamentárias. PRA

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- Em ordem cronológica, as "participações" da Gemini (a IA do Google) no blogDiplomatizzando:

As frases mais polêmicas ditas por nossos líderes políticos: Lula, Bolsonaro, FHC, Dilma, Ciro Gomes - Airton Dirceu Lemmertz:

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, na semana de 12 a 18 de outubro de 2025, em resumo feito por Airton Dirceu Lemmertz:

50 livros mais importantes na literatura mundial (IA, via Airton Dirceu Lemmertz):

Dúvidas provocadoras respondidas pela Inteligência Artificial - Paulo Roberto de Almeida, IA, Airton Dirceu Lemmertz:

Relatório da ONU sobre torturas perpetradas pela Rússia contra prisioneiros ucranianos - Informação da IA (via Airton Dirceu Lemmertz):

Economias abertas e fechadas: Prof. Celso Grisi, PRA e Airton Dirceu Lemmertz:

Putin está perdendo a guerra de agressão contra a Ucrânia- a IA tente poderar os argumentos de minha postagem:

A internacional dos poderes totalitários no mundo: declaração do presidente do Comitê do Noble da Paz (título PRA) - Transcrição e consulta à IA por Airton Dirceu Lemmertz:

Vergonha diplomática: governo Lula se recusa a condenar o sequestro de crianças ucranianas pelo amigo Putin:

O pequeno manual prática da decadência, examinado e reconsiderado pela Inteligência Artificial, por meio de Airton Dirceu Lemmertz:

Madame Inteligência Artificial me corrige mais uma vez, na minha postagem sobre a sorte do chanceler acidental - Airton Dirceu Lemmertz, Paulo Roberto de Almeida:

Quero ver Madame IA criticar a minha postagem, dos tempos do ser asqueroso que ocupava a presidência:

Madame IA ataca outra vez: ela comenta uma defesa que fiz da dignidade dos diplomatas, atingidos por um presidente indigno do cargo - Airton Dirceu Lemmertz, Paulo Roberto de Almeida:

24 pecados da vida política brasileira examinados por Madame IA - Paulo Roberto de Almeida e Airton Dirceu Lemmertz:

O Brasil entre a segurança internacional e a sua própria segurança cidadã: resposta da IAGemini, via Airton Dirceu Lemmertz:

Madame IA tenta defender a politica pró-russa do lulopetismo diplomático: ela está errada - Paulo Roberto de Almeida:

Madame IA se ocupa do pirata DJT no seu assalto a Caracas, via Airton Dirceu Lemmertz:

Madame IA se posiciona contra minhas observações sobre as relações do governo atual do Brasil (não o Brasil) e a democracia (via Airton Dirceu Lemmertz):

Como fica a dívida da Venezuela para com o Brasil a partir de uma postagem de Vitelio Brustolin analisada por Madame IA, via Airton Dirceu Lemmertz:

Madame IA se empenha, mais uma vez, em contestar minhas provocações, via Airton Dirceu Lemmertz - Paulo Roberto de Almeida:

Crítica às ideias de Christian Lynch sobre as ideologias políticas do brasileiro - Madame IA se ocupa de fazê-la, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz:

DJT anda em busca de um Prêmio Nobel da Paz, exige um, imediatamente, do Reino da Noruega - Oliver Stuenkel comenta, Madame IA se intromete:

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- Em ordem cronológica, alguns vídeos do YouTube com links disponíveis no blog Diplomatizzando:

Paulo Roberto de Almeida: videoentrevistas constantes do YouTube (via Airton Diceu Lemmertz):
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/06/paulo-roberto-de-almeida.html

A Nação israelense: itinerário histórico - Airton Dirceu Lemmertz:

Israel: entre a tradição e as contradições do momento presente - via Airton Dirceu Lemmertz (Não É Imprensa):

Airton Dirceu Lemmertz:um mestre na transmissão de conhecimento.

Oleksandra Matviichuk, advogada ucraniana, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2022 - Roda Viva (TV Cultura, SP):

Paulo Roberto de Almeida no YouTube, coletado por Airton Diceu Lemmertz:

Um debate relevante sobre soberania e truculência imperial - Professor HOC, videos YouTube, via Airton Dirceu Lemmertz:

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- PRA (Paulo Roberto de Almeida) ou o blog (Diplomatizzando) nas mídias digitais (redes sociais, blogs, sites, etc), em ordem cronológica:

Paulo Roberto de Almeida: videoentrevistas constantes do YouTube (via Airton Diceu Lemmertz):

Uma coleção de postagens deste meu blog selecionadas por Airton Dirceu Lemmertz:

Airton Dirceu Lemmertz: um atento seguidor deste blog Diplomatizzando:

Algumas das minhas melhores postagens no Diplomatizzando, por Airton Dirceu Lemmertz - Paulo Roberto de Almeida:

Paulo Roberto de Almeida: presença física, virtual, digital nos instrumentos de busca, por Airton Dirceu. Lemmertz:

sábado, 17 de janeiro de 2026

O fim da inocência (Opinião) - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

 O fim da inocência

 Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

PRI-1701-OPINI -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
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ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista

Correio Braziliense, 17/01/2026

Mas há uma vantagem nesse novo cenário. Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio, que foi um ponto central e básico na argumentação norte-americana de como os países deveriam organizar seu mercado interno. Os chineses são mais ágeis, produzem mais e com menor preço. Se houver concorrência livre e aberta, os americanos perdem. Então, o melhor é recorrer ao poder dos formidáveis porta-aviões. Cada um com mais de 50 aviões de última geração, helicópteros maravilhosos e tripulação de 5 mil marinheiros. Essa brincadeira custa mais de US$ 1 bilhão por mês. O governo dos Estados Unidos mantém 11 porta-aviões, com suas respectivas defesas navais, em operação no mundo, ao mesmo tempo. É muito dinheiro para manter abertas as trilhas do comércio internacional.

O mundo está de joelhos diante da formidável demonstração de força, agilidade, capacidade de articulação em território inimigo ocorrida na Venezuela. Os aviões norte-americanos desligaram os radares do inimigo, apagaram a luz de Caracas, neutralizaram os sinais de geolocalização e mataram, com incrível rapidez, os cubanos que defendiam Nicolás Maduro. Material de última geração chinês e russo foi silenciado. Tudo ocorreu em questão de minutos. Vale a comparação: a poderosa Rússia está há longos e tortuosos quatro anos tentando dominar a pequena Ucrânia. Perdeu uma quantidade enorme de soldados, aviões, carros de combate, navios e até submarinos. No entanto, Volodymyr Zelensky continua no poder negociando a improvável paz. Putin não conseguiu demonstrar qualquer tipo de eficiência na sua guerra. Ele é um perdedor perante a história.

A conclusão é simples. Acabou a era da inocência. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia. No caso brasileiro, talvez os observadores acordem da letargia histórica e abram os olhos para a realidade. Os americanos estão na Venezuela. Dentro em breve, estarão na Colômbia. Muito perto da tão discutida Margem Equatorial. E de frente para a Amazônia, região que tem tudo o que eles mais desejam: terras raras, minérios em profusão, ouro em grandes quantidades, diamantes e, também, petróleo em generosos e extensos lençóis. É o paraíso capitalista na terra. 

O longo debate sobre a utilização da Amazônia, a preservação da floresta, a manutenção da grande faixa verde, tudo isso perde importância diante da possibilidade de traduzir o vasto cenário em dólares. Os norte-americanos têm larga experiência em exterminar povos originários, devastar o meio ambiente em busca do minério precioso. Nada os detém. Eles chegaram às margens da Amazônia. O Brasil não possui poder militar. O país depende da negociação possível dos diplomatas, o chamado soft power. Ocorre que a conversa agora perde espaço para bombardeios seletivos e manobras militares específicas. O sonho acabou. O Brasil desembarcou na realidade. A América Latina, que era a terra de grandes prosadores, poetas geniais, e de traficantes abusados, agora está no centro da disputa do capitalismo internacional.

A eleição presidencial que deverá ocorrer neste ano vai se processar dentro desse novo cenário. Um superpoder emergiu no Norte. Silenciou tudo o que havia ao seu redor. Ele determina o futuro no Irã, em Israel, na Ucrânia, na Groenlândia e em toda política internacional com virulência, objetividade e despreparo de um adolescente frente ao mundo. As relações de Washington com Brasília são, no mínimo, tensas. Um não gosta do outro. Americanos, que há muito namoram com a ideia de manter uma base militar no Brasil, gostariam de ter aqui um governo mais favorável a seus objetivos. Não é impossível que eles movimentem meios e modos para influenciar no resultado da eleição. Não é preciso consultar os astros para prever possível interferência estrangeira no pleito nacional.

Não é o fim do mundo. E também não é novidade. Os americanos já andaram por aqui em outros tempos. Agora, sem a fantasia e sem a alegada defesa dos princípios democráticos, a interferência poderá ser mais explícita. O jogo é objetivo e claro. É preciso ter olhos abertos. Olhos de ver. E descer das ideologias para o território da realidade. 


sábado, 10 de janeiro de 2026

Uma breve história monetária- Fausto Godoy

 AMARELANDO...LITERALMENTE...

A matéria que o Estadão publicou no seu caderno de Economia, no dia 29/12, da analista Marianna Gualter, intitulada “Diante da incerteza global, BC aumenta reserva de ouro em 33%”, revela a crescente consolidação de uma tendência global determinante nestes tempos de incerteza “trumpista”. 

Conforme a matéria, esta tendência – recente – “alinha o Banco Central do Brasil a outros pelo mundo na busca por reduzir a exposição a títulos da dívida americana”, que, como sabemos, é cotada em US dólares. Ainda segundo ela, “a participação total de ouro no nível das reservas internacionais do BC também aumentou no período de janeiro a novembro, de 3,6% para 6,5%.” Para acalmar o mercado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, observou que esta política “não tem como objetivo, no curto prazo, um retorno ao padrão ouro”... 

Para a economista Luíza Pinese, da XP Investimentos, esta política “reflete uma estratégia de diversificação das reservas internacionais alinhada a uma tendência global observada nos últimos anos....o ouro é considerado como um ativo de proteção, especialmente em períodos de maior incerteza geopolítica e volatilidade nos mercados financeiros.” Ela assinala, ainda, que “o Brasil possui hoje um colchão sólido de reservas internacionais para poder enfrentar choques externos”.

Este fenômeno não é aparentemente um caso isolado brasileiro. No levantamento feito junto aos bancos centrais das economias emergentes foi constatado que o desempenho das reservas em ouro é fator principal: ou seja, trata-se de um ativo seguro. Tal avaliação é também compartilhada por 77% das economias avançadas. Segundo os analistas “esta política ocorre em meio a um cenário de aumento da incerteza global e de recorde da alta do preço dos ativos (em dólares) considerados seguros. A mesma percepção é corroborada pelo Banco Central Europeu (BCE), o qual indicou num relatório que, “no ano passado, os BCs pelo mundo, em geral, aumentaram suas reservas de ouro em mais de 1 mil toneladas, pelo terceiro ano consecutivo...o volume representa o dobro do nível médio anual observado na década anterior.” Segundo a “London Bullion Market Association” (LBMA), “o ouro acumulou uma variação superior a 60% em 2025”.

Para alguns analistas esta tendência sinaliza que a “era do dólar” estaria paulatinamente cedendo espaço para um outro paradigma geoeconômico e refletindo as  profundas mudanças que o cenário internacional vem registrando, sobretudo desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. 

Para entender o processo recorramos, como sempre, à História. O chamado "gold exchange dollar system" nos remete a um momento conturbado na História moderna, mais especificamente a 1971, quando os Estados Unidos da era Nixon abandonaram o padrão-ouro e romperam com o sistema de Bretton Woods que “lincava” o valor das moedas internacionais ao ouro. Esta atitude deu início à política de câmbios flutuantes baseada num sistema centralizado no dólar; este foi, de acréscimo, um dos momentos mais críticos da economia mundial, sobretudo em 1973/74 quando o preço do petróleo quadruplicou devido ao embargo da OPEP em retaliação ao apoio ocidental a Israel, causando inflação global e recessão. De “positivo” estimulou o surgimento de políticas energéticas alternativas, como o Proálcool no Brasil. 

Obviamente o que segurou a política do dólar ao longo dos tempos foi a percepção, em esfera mundial, da supremacia política e econômica dos Estados Unidos, ou seja, a certeza de que o dólar e a economia americana seriam o sustentáculo sólido da ordem mundial...

Só que…o tempo passou e o processo de globalização das economias tomou um ritmo distinto. Novos atores assumiram papel protagonista no cenário planetário, sobretudo os asiáticos, com a China e a Índia liderando o processo. Grupos de países também se firmaram, isoladamente ou em grupo, como o BRICS, a ASEAN, o MERCOSUL/União Europeia, que hoje lideram o impulso desenvolvimentista da economia – e por que não – da política planetária... Cito sempre o exemplo da minha geração (nasci no final da Grande Guerra, em 1945). Desde então, ela conviveu com cinco hegemonias no prazo de oitenta anos: 1) a queda do Império Britânico, que dominara o cenário internacional desde o espraiamento do colonialismo europeu, no final do século XVII; 2) a hegemonia compartilhada a partir de então entre os Estados Unidos e a União Soviética, sob a ameaça do holocausto nuclear; 3) a supremacia absoluta americana após a queda da URSS, em 1991; 4) no início deste século, a reemergência da China - que fora a principal potência econômica mundial durante séculos -, em “tandem” com os Estados Unidos; e 5) e atualmente as hegemonias compartilhadas entre EUA, RPC, os grupos geoeconômicos -BRICS...ASEAN...- e...a Índia (?), o país mais populoso do planeta, já a 5ª maior economia, e a passos largos para tornar-se a 3ª até o final deste século, segundo as previsões.

Como sabemos os chineses e os membros do BRICS, entre outros, advogam cada vez mais que as transações entre eles se façam por parâmetros e moedas próprios. Nós, mesmos, já estamos considerando esta hipótese...Neste cenário, ainda haveria espaço para a supremacia inconteste do dólar / EUA (?), sobretudo num planeta tão conturbado???


OURO  X  US$$$$$ ? ...to be continued.

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Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...