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domingo, 15 de março de 2026

Direita e Esquerda possuem algum significado maior? - Paulo Roberto de Almeida

Direita e Esquerda possuem algum significado maior?

Leio este “ensinamento” no Threads:
“Durante a Revolução Francesa, na assembleia:
Os defensores da MONARQUIA e da tradição se sentavam à DIREITA do presidente da assembleia.
Os revolucionários que queriam MUDANÇAS profundas se sentavam à ESQUERDA.”

PRA: Pois bem, imaginemos que poderia ter ocorrido o contrário, isto é, que os conservadores, reacionários, defensores dos privilégios de classe, de estamento, dos “direitos” da aristocracia, dos títulos de nobreza, e da isenção de impostos para os membros da elite, tivessem por acaso se sentado À ESQUERDA do presidente da Assembleia Nacional, e que os revolucionários, progressistas, defensores de direitos iguais, independentemente de educação, condição social, status de origem, posição politica na sociedade e no Estado, abolição de quaisquer privilégios e distinções, enfim que todos fossem tratados exatamente iguais em direitos e obrigações, que estes tivessem se sentado À DIREITA do presidente da Assembleia, que diferença isso faria?
Aparentemente NENHUMA: a Direita (isto é a ESQUERDA atual) seria reacionária, atrasada etc., e a chamada Esquerda, ou mutatis mutandis, a DIREITA, seria progressista e avançada.

Serviu para alguma coisa este exercício?
Aparentemente NADA, apenas para confirmar certos preconceitos e clichês arraigados na sociedade e na política.

Pois bem, leio também no Threads que o recentemente falecido filósofo alemão Jürgen Habermas, tinha chamado a atenção para o “FASCISMO DE ESQUERDA”, uma realidade mais comum do que se pensa, o que significa que representantes da Esquerda atual, isto é, da DIREITA trocada no exercício que fizemos, estão tendo um comportamento que seria, teoricamente, do outro “lado”, compreenderam? Isso é mais possível do que se pensa.
Mas isso não tem nada a ver com o outro “exercício” que tinha sido feito por aquele “chanceler acidental” (lembram-se dele?) que, acompanhando a visita de um nefando presidente (por ser reacionário, negacionista, inimigo de indígenas, quilombolas etc.) a Israel, tinha dito que o Nazismo era de Esquerda, o que obrigou até a Embaixada da Alemanha no Brasil a soltar uma nota dizendo que o Nazismo era de Direita, e que partidos nazistas estavam PROIBIDOS na Alemanha, ao contrário, por exemplo, dos EUA, onde é perfeitamente possível ser nazista, fazer propaganda nazista, fundar um Partido Nazista e defender TODAS as ideias e medidas NAZISTAS, em total conformidade com o Hitlerismo factual e histórico.
Desculpem se confundi vocês um pouco, mas foi intencional, apenas para mostrar que a realidade por vezes é mais complexa do que se pensa e que certas coisas se confundem e se misturam entre si.
O que as separam?
Conhecimento histórico, reflexão ponderada e julgamento MORAL.
Grato pela atenção.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5245, 15 março 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (15/03/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/direita-e-esquerda-possuem-algum.html).

sábado, 14 de março de 2026

Uma peça de conhecimento histórico sobre o Islã: - Gustavo Binenbojm

Uma peça dd conhecimdnto histórico sobre o Islã:

 Gustavo Binenbojm (UERJ) escreveu:

O Islã Foi a Civilização Mais Avançada da Terra… Até o Dia em Que Matou o Próprio Cérebro em 1095

Imagine o Cairo do século XII. O Nilo ainda carregava as memórias dos faraós, mas o ar que se respirava era puro intelecto. Nas madrasas e nas bibliotecas de Fustat, o árabe não era apenas a língua do Alcorão, era a língua da humanidade civilizada. Era o que o inglês é hoje: o idioma em que se debatia se o mundo era eterno ou criado, se a alma era imortal ou se dissipava, se Deus obedecia às leis da lógica ou as transcendia. E foi nesse árabe cristalino que um judeu sefardita chamado Moisés Maimônides, fugindo das perseguições almóadas, escreveu o Guia dos Perplexos, não em hebraico, não em latim, mas em árabe impecável.

Por quê?

Porque o árabe era a língua de Ibn Sina (Avicena), de Al-Farabi, de Ibn Rushd (Averróis). Era a língua dos gigantes. Maimônides não escrevia para os muçulmanos. Escrevia com eles, contra algumas de suas ideias, mas no mesmo palco intelectual. O Islã, naquela época, era a civilização do conhecimento. O Ocidente cristão ainda gaguejava em mosteiros frios. O Islã iluminava o mundo.

Depois, tudo desandou.

E o responsável por virar a chave não foi um bárbaro invasor. Foi um dos maiores pensadores que o Islã já produziu: Abu Hamid Al-Ghazali.Em 1095, aos 37 anos, o homem mais respeitado de Bagdá, professor da Nizamiyya, a Harvard do Islã medieval, sofreu uma crise espiritual que o destruiu por dentro. Abandonou tudo. Trancou-se em solidão. E escreveu “A Incoerência dos Filósofos”. Com uma inteligência afiada como lâmina de Damasco, Al-Ghazali desmantelou a ponte entre fé e razão que Avicena havia construído com tanto cuidado. Deus, para ele, não era um relojoeiro aristotélico que seguia regras. Deus era o único agente real do universo. O fogo não queimava o algodão por causa de uma lei natural, queimava porque, a cada milésimo de segundo, Alá decidia queimar. A causalidade era ilusão. A filosofia, heresia velada. A razão, uma serva perigosa. Al-Ghazali não era um fanático ignorante. Era um pensador atormentado que escolheu a certeza divina em vez da dúvida científica.

E foi exatamente aí que a porta do ijtihad, o esforço racional independente, começou a se fechar para sempre. A partir de Al Ghazali, a decadência foi constante, As sociedades islâmicas nunca mais se recuperaram, e por isso sem dúvida alguma ele é um dos personagens mais influentes da história. O Irã de hoje, O wahabismo saudita, Al Qaeda, ISIS, Hamas, Hezbollah e tantos outros movimentos, todos filhos de Al Ghazali. O Islã, que havia sido o motor do progresso humano, trocou o laboratório pela mesquita, a pergunta pela resposta pronta, o perplexo pelo dogmático. A Era de Ouro não morreu de morte natural. Foi assassinada por dentro, por sua própria filosofia.

Quinhentos anos depois, o Império Otomano, último suspiro do califado desabou como um castelo de areia. Em 1924, o mundo muçulmano acordou nu. Pobre. Colonizado. Tecnologicamente analfabeto. A pergunta que ecoou de Istambul a Cairo, de Bagdá a Karachi, foi como um soco no estômago coletivo: “Se temos a fé verdadeira, por que estamos perdendo para os infiéis?” Era o trauma da inferioridade civilizacional em sua forma mais pura e devastadora. E foi nesse abismo existencial que nasceu o monstro que hoje chamamos de islamismo radical, não mais uma religião, mas um culto político totalitário. Hassan al-Banna fundou a Irmandade Muçulmana em 1928 com uma tese simples e venenosa: o Islã perdeu sua força porque se deixou contaminar pela cultura ocidental. A solução? Purificação. Retorno às origens, mas não às origens de Avicena e Maimônides. Às origens de Al-Ghazali radicalizado. Sayyid Qutb, o grande teórico da Irmandade, deu o passo definitivo e mortal. Para ele, o inimigo não era mais só o colonialismo britânico ou francês. O inimigo era o individualismo liberal.
O Ocidente havia “privatizado Deus”, colocado o ego humano no centro do universo e transformado a sociedade em um supermercado de vontades egoístas.

Israel, para Qutb, não era apenas um Estado judeu incômodo. Era o posto avançado infeccioso desse vírus que impedia o retorno ao califado coletivo, ao ummah indivisível onde o indivíduo desaparece diante da vontade divina. Nascia ali o Islã como ideologia de Estado. “O Islã é a solução” virou o novo slogan, o mesmo que substituiu o pan-arabismo de Nasser depois da humilhação catastrófica de 1967. Em seis dias, o nacionalismo secular árabe morreu no deserto do Sinai. No vácuo ideológico, o pan-islamismo tomou conta. E com ele veio a armadilha fatal que garante o fracasso perpétuo: a política da culpa.

O clássico livro “Good to Great” de Jim Collins, resume com precisão cirúrgica o mecanismo que transforma uma sociedade em doente terminal: as empresas de elite olham no espelho quando fracassam, assumem responsabilidade, corrigem o rumo, crescem. Olham pela janela apenas para celebrar vitórias. O islamismo radical, porém, inverteu o espelho. Transformou-o em janela. Cada fracasso econômico, cada fila de desempregados, cada repressão brutal, cada cérebro que foge é imediatamente atribuído ao “inimigo externo”: sionistas, ocidentais, infiéis, “entidade sionista”. Nunca ao próprio espelho. Eles ainda não entenderam que fizeram a escolha errada, a escolha histórica de ter matado Avicena em nome de Al-Ghazali.

É exatamente por isso que, com toda razão, dizemos que o antissemitismo crescente não é apenas um ódio antigo reciclado, é o sintoma mais claro de uma sociedade doente e problemática. Quando uma civilização perde a capacidade de olhar para dentro e assumir a própria responsabilidade na geração dos seus problemas, ela começa a culpar terceiros de forma compulsiva. E aí está condenada: nunca resolverá nada. Porque o problema não está fora. Está no espelho que ela se recusa a encarar. O antissemitismo de Estado, nesse sentido, não é causa, é consequência e profecia de declínio. Enquanto o ódio ao judeu servir de álibi perfeito, a nação nunca consertará o que realmente a mata por dentro.

Países que abraçaram esse culto político, Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Gaza sob Hamas, Líbano sob Hezbollah viraram museus vivos do fracasso. Economias em ruínas. Cérebros em fuga. Sociedades que produzem ódio em vez de inovação. O regime iraniano é o exemplo mais puro dessa tragédia em estado terminal. Uma revolução que, para sobreviver, precisa de um inimigo eterno. Como Micah Goodman descreve: uma revolução vitoriosa vira “chata”, burocracia, corrupção, lixo nas ruas, economia em colapso. Israel é a “bateria” que mantém essa revolução carregada. Sem Israel, o aiatolá teria de olhar no espelho e explicar por que o Irã é pobre, isolado e sangrando em protestos de mulheres sem véu. Com Israel, basta apontar para a “entidade sionista” e o ódio mantém a máquina girando. É a gestão perfeita do ressentimento. É a política da culpa elevada à categoria de religião de Estado.

Estamos vivendo, neste exato momento, o “1967 do pan-islamismo”. Assim como o sonho de Nasser morreu em seis dias, o sonho de que o radicalismo religioso islâmico levaria à vitória militar está morrendo agora, diante dos escombros do Hezbollah, do Hamas e do QG de Khamenei. Quando esses proxies forem desmantelados, a ideia de que “o Islã é a solução” militar também morrerá. E o mundo muçulmano terá de confrontar novamente a pergunta que Al-Ghazali ajudou a enterrar em 1095.

Mas há uma contradição ainda mais profunda, quase poética. Os inimigos de Israel sempre subestimaram sua força porque acreditaram na narrativa de que o Ocidente e Israel eram “moles”. Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah, chamava Israel de “teia de aranha”: fisicamente forte (bombas, tecnologia), mas socialmente fraco, mimado pelo conforto liberal. Ele acreditava que bastaria um pouco de sangue para que os israelenses fugissem para Miami.
Estavam invocando, sem saber, a teoria de Ibn Khaldun, o grande historiador árabe do século XIV: a Asabiyyah, a coesão tribal primordial, sempre vence impérios ricos e decadentes. O que Nasrallah não entendeu é que Israel realizou o impossível sociológico: tornou-se uma sociedade híbrida. Liberal o suficiente para criar o Iron Dome e o Waze, tribal o suficiente para que, em horas, 300 mil civis largassem suas vidas e corressem para o front, individualista o suficiente para questionar tudo, coeso o suficiente para morrer uns pelos outros. Israel é ao mesmo tempo moderno e antigo, democrático e clã. Uma belíssima anomalia histórica.

A raiz dessa anomalia está na humildade epistemológica judaica. Enquanto o Islã radical herdou o dogma absoluto de Al-Ghazali (e o dualismo persa zoroastriano do Irã: Luz pura contra Trevas puras, Bem contra Mal metafísico que deve ser erradicado), o judaísmo preservou a tradição talmúdica onde até as opiniões perdedoras são registradas com respeito. Hierarquicamente a pergunta sempre está acima da resposta. Incerteza acima da certeza. Ciência como subproduto da dúvida sagrada. Se você acha que já possui a Verdade Divina absoluta, você para de pesquisar. Se você é humilde diante da complexidade da realidade, você constrói o Iron Dome.

O Irã, ao contrário, vive preso ao dualismo persa ancestral: o mundo só ficará “puro” quando o Mal (Israel, América) for exterminado. Mas todo movimento que busca pureza absoluta termina em tirania e sangue, porque a realidade humana é, por definição, impura, contraditória, complexa. O judaísmo, ao contrário, aceita o mal como ausência de bem, algo a ser gerenciado, não erradicado em holocausto utópico. É por isso que o contraste é tão brutal. No mesmo momento em que mísseis iranianos cruzavam o céu de Israel durante o Sucot de 2024, os israelenses estavam sentados em sua sucah, aquela cabana frágil que simboliza vulnerabilidade. A sucah balançava com o vento. Mas dentro dela havia uma força que nem Al-Ghazali, nem Qutb, nem Nasrallah conseguiram compreender: a força de quem parou de se sentir vítima e voltou a ser ator da História. A união não era mais de trauma (como em 7 de outubro de 2023). Era a “união do sucesso”. A união de quem recuperou a iniciativa.

O Islã radical, ao abraçar o culto político da culpa e da pureza, condenou-se ao declínio perpétuo. Israel, ao preservar a humildade da pergunta e a coesão do clã, tornou-se a anomalia que desmente todas as leis da sociologia histórica de Ibn Khaldun.

E é aqui, neste exato instante da História, que o coração do Oriente Médio parece bater mais forte. Porque o que está em jogo não são apenas fronteiras ou foguetes. É o futuro da alma humana nesta região. De um lado, uma visão de mundo que escolheu o espelho quebrado, o ódio como combustível e a pureza como prisão. Do outro, uma pequena nação que, contra todas as probabilidades, escolheu manter o espelho inteiro: olhar para dentro, assumir erros, questionar, inovar, amar a vida com todas as suas imperfeições.

Que o mundo muçulmano encontre, um dia, a coragem de recolocar aquele espelho no lugar. Que ele volte a ouvir a voz de Avicena e Maimônides, em vez de Qutb e Al-Ghazali. Que ele entenda que a verdadeira grandeza não nasce do ódio ao outro, mas da honestidade consigo mesmo. Porque só então o paraíso perdido poderá, talvez, ser reencontrado. Não como sonho utópico de califado, mas como realidade viva: uma civilização que escolhe o futuro em vez do ressentimento, a pergunta em vez do dogma, a vida em vez da morte. A resposta, como sempre, está no espelho que o Islã radical quebrou em 1095, e que, até hoje, não teve coragem de recolocar no lugar. Que ele o recolha. Antes que seja tarde demais. Antes que o coração do Oriente Médio pare de bater de vez.


quarta-feira, 11 de março de 2026

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL - Embaixador Jorio Dauster

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL


O embaixador Jorio Dauster efetuou uma palestra em 10/03/2026 no Departamento de Defesa e Segurança da FIESP sobre as vulnerabilidades do Brasil e a necessidade de urgente fortalecimento da Base Industrial de Defesa. [PRA: o link para o texto mencionado logo ao início figura ao final.]



Em carta aberta à nação com o título de “Brasil, país indefeso”, publicada no número de dezembro da revista Inteligência/Insight, eu e o embaixador Rubens Barbosa afirmamos que o mundo surgido em 1945, depois da Segunda Guerra Mundial, favoreceu o liberalismo econômico, a livre iniciativa, a globalização e as instituições multilaterais. Mas tudo mudou com a chegada pela segunda vez de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, pois ele vem desmontando sistematicamente essa ordem mundial e utilizando de forma abusiva recursos comerciais a fim de sujeitar antigos aliados e adversários políticos.
Não bastasse isso, Trump mais recentemente passou a empregar todo o imenso poderio bélico dos Estados Unidos para sequestrar o chefe de Estado venezuelano e atacar o Irã em parceria com Israel. Por mais criticáveis que sejam esses dois alvos, não podemos aceitar tranquilamente o desrespeito ao princípio da soberania nacional e às normas da convivência entre nações. O fato inexorável é que, a partir de então, passou a imperar neste novo mundo a lei da selva e que o Brasil precisa com urgência rever sua política de defesa e suas posturas diplomáticas de modo a se adaptar a esses tempos turbulentos.
O Brasil não pode continuar a ser um país indefeso.
Numa breve porém esclarecedora perspectiva histórica, podemos ver que o mundo ocidental já conheceu três períodos em que uma nação exerceu papel hegemônico sobre as demais. A chamada Pax Romana durou do reinado de Augusto, em 27 a.C., ao reinado de Marco Aurélio, até 180 d.C. Tivemos bem depois a Pax Britannica, que durou de 1815, com o fim das guerras napoleônicas e o Congresso de Viena, até o início do século XX, período em que a poderosa marinha da Grã-Bretanha sustentou o império em que o sol nunca se punha. Finalmente tivemos a Pax Americana em que os Estados Unidos exibiram uma posição ambígua: por um lado, exerceram o chamado “soft power” ao liderar a criação de uma série de organismos internacionais que davam certa organicidade ao relacionamento entre as nações; por outro lado, aplicaram o “hard power” ao atuar como gendarme mundial, executando diversas incursões militares e travando guerras na Coreia, no Vietnã, no Golfo, no Afeganistão e no Iraque (várias delas, cumpre notar, com resultados negativos).
O que estamos vivendo hoje é uma fase perigosa em que essa hegemonia norte-americana se vê fortemente ameaçada pelo poderio nuclear da Rússia e, mais relevante, pela ascensão extraordinária da China à condição de superpotência no curtíssimo espaço histórico de um quarto de século. Esse declínio da supremacia dos Estados Unidos, que Trump tenta deter inclusive mediante a destruição do sistema multilateral, conduz ao que eu costumo chamar de Segunda Grande Guerra Fria, em que, como ocorre no encontro entre placas tectônicas, vamos conviver por um período de tempo impossível de estimar com terremotos, vulcões e tsunamis geopolíticos.
Na realidade, o país pacífico que somos já nem se recorda da única guerra que lutou contra o Paraguai, nos idos de 1865. Todos os nossos conflitos de fronteiras foram resolvidos em entendimentos bilaterais ou por arbitragem sobretudo ao longo do século XIX. Com tal pano de fundo, não admira a falta de uma cultura de defesa no Brasil equivalente àquela que existe nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, cujos povos verteram e ainda vertem muito sangue nos campos de batalha. Ademais, os 21 anos de autoritarismo e numerosas intervenções militares na política interna contribuíram para empanar a inquestionável importância das forças armadas na vida nacional. É compreensível, portanto, que durante o período de hegemonia norte-americana o Brasil passasse a depender quase inteiramente de material bélico comprado dos Estados Unidos e de outros países da OTAN, não se esforçando de modo efetivo para criar uma indústria nacional de defesa que lhe concedesse qualquer capacidade de proteção autônoma.
As vulnerabilidades do Brasil ficam evidentes quando se pensa na inexistência de meios adequados para assegurar a soberania nacional na defesa das fronteiras, para proteger as plataformas de petróleo no imenso mar territorial, para impedir eventuais ambições externas sobre os extraordinários recursos biológicos, minerais e hídricos na Amazônia, para defender o país de ataques cibernéticos e para preservar as comunicações privadas e governamentais (inclusive militares) dependentes de satélites operados por companhias estrangeiras.
Ademais, existe hoje uma série de novas ameaças que precisamos enfrentar, como o tráfico de armas e de drogas, o terrorismo e a guerra cibernética. E, a esses velhos e novos desafios, vem se somar agora o impacto da Inteligência Artificial, capaz de substituir os recursos humanos em numerosas funções militares e até mesmo em definições estratégicas, como estamos vendo ocorrer no Irã. Se o Brasil não dispuser de capacidade para utilizar as novas tecnologias e a IA, estará em grande desvantagem no que tange ao seu poder de dissuasão perante outras nações.
Não obstante, para um observador desavisado pareceria que nosso sistema de proteção armada é muito bem amparado pois o Ministério da Defesa recebe a quarta maior dotação da Esplanada, com fabulosos 141,9 bilhões de reais no orçamento do ano em curso que representam cerca de 6% do total. Mas, na realidade, os gastos discricionários correspondem a pouco mais de 10% desse montante porque uma grande parcela do resto é consumida com pessoal e encargos sociais, sobretudo inativos e pensionistas. Em números aproximados, as três forças têm 350 mil homens e mulheres na ativa, 170 mil como inativos remunerados e 250 mil como pensionistas (das quais 140 mil são filhas de militares falecidos que até há pouco tinham direito a pensões vitalícias caso permanecessem solteiras e não tivessem empregos públicos). Quando comparadas essas cifras com os cerca de 25% gastos nos Estados Unidos com salários e pensões no orçamento do seu Ministério da Defesa, é fácil entender porque nossas forças armadas são hoje muito mais um instrumento de amparo social do que uma máquina bélica.
Diante dessa carência de recursos para fins de investimento, recentemente foram liberados cerca de R$ 30 bilhões adicionais para as Forças Armadas ao longo de cinco anos, com recursos fora da meta fiscal e protegidos de contingenciamentos. Esses fundos deverão ser alocados em projetos prioritários que estão com seus cronogramas de implantação muito atrasados, porém tais valores são irrisórios e, infelizmente, agravam o desequilíbrio das contas públicas por não se submeterem às já pouco confiáveis metas fiscais.
Assim, fica claro que é necessário criar uma agenda positiva para o setor de defesa que envolva medidas de curto, médio e longo prazo, mas cujo primeiro e fundamental obstáculo consiste em responder à pergunta que se faz qualquer executivo no setor privado: com que recursos posso contar a fim de expandir minha parcela no mercado, desenvolver uma nova linha de produção ou construir mais uma planta para a empresa? E uma coisa é óbvia: as Forças Armadas brasileiras NÃO PODEM contar com verbas orçamentárias para responder aos múltiplos desafios acima listados pois já absorvem parcela muito substancial de um orçamento público que precisa atender aos imperiosos reclamos sociais em matéria de saúde, moradia, transporte e segurança na vida cotidiana de milhões de cidadãos.
De onde virão então os bilhões de reais por ano que se fazem necessários? A sabedoria popular há muito respondeu: do couro sai a correia. Isso significa simplesmente que as próprias Forças Armadas terão de gerar uma parte adicional dos recursos de que necessitam para investir em seu fortalecimento. E isso exigirá uma nova mentalidade no governo e no Ministério da Defesa, porém principalmente no seio do alto comando das três forças, que precisarão se mirar no exemplo do grande brigadeiro Ozires Silva cuja visão de empreendedor nos brindou com a criação desse orgulho nacional que é a EMBRAER.
Do ponto de vista instrumental, já existem hoje empresas controladas pelas três forças que podem perfeitamente servir para gerar os lucros a serem empregados por elas próprias, tais como a ENDEFORTE, no caso do Exército, e a EMGEPROM, no caso da Marinha, sem prejuízo de que outras sejam estabelecidas se e quando necessário. Ademais, é fundamental que os recursos que venham a ser obtidos por essas atividades empresariais não caiam na vala comum da Receita Federal, o que tornará necessária, mediante legislação específica, a implantação de fundos que garantam o uso desses recursos apenas para fins de investimento no setor de defesa.
Mas as Forças Armadas de nenhum país podem existir num vazio econômico ou apenas com algumas empresas estatais, uma vez que, sem o suporte de uma ampla estrutura produtiva interna, acabariam sendo meros instrumentos ancilares das potências que lhes forneçam equipamentos e insumos logísticos. Tendo em vista o necessário propósito de obter o máximo de autonomia possível, como ocorreu na Turquia no curto período de dez anos, as Forças Armadas devem associar-se a empresas privadas nacionais que já compõem e venham a fortalecer nossa Base Industrial de Defesa, podendo igualmente fazer o mesmo com empresas estrangeiras que transfiram tecnologia para o Brasil e/ou garantam mercados no exterior. Além disso, o Governo deveria estimular, como faz o da Índia, a criação de “joint ventures” entre empresas brasileiras, que entrem com o capital, e estrangeiras, que tragam tecnologia, a fim de aqui produzir materiais de defesa. Esse foi o modelo pelo qual a Taurus, levando apenas seu “know-how” e ficando com 49% do capital de uma empresa destinada a produzir de pistolas a fuzis, se associou a um dos maiores conglomerados de aço da Índia para criar uma fábrica já em operação naquele país.
Mas o que temos hoje efetivamente como Base Industrial de Defesa? Seu conceito foi estabelecido pela primeira vez na Política Nacional de Defesa (PND) de 2005, que a definiu como “o conjunto das empresas estatais e privadas, bem como organizações civis e militares, que participem de uma ou mais das etapas de pesquisa, desenvolvimento, produção, distribuição e manutenção de produtos estratégicos de defesa”. Outros textos oficiais, como a Estratégia Nacional de Defesa (END), atualizada com frequência, vinculam a BID não só ao planejamento da defesa nacional, mas também ao desenvolvimento econômico e ao avanço tecnológico do setor produtivo pois os investimentos no setor resultam em crescimento econômico, maiores exportações e geração de empregos qualificados graças ao alto valor agregado e componente tecnológico dos produtos de defesa, gerando spillovers de inovação para toda a indústria nacional. Entre os pontos de destaque para desenvolver a BID, a END coloca o domínio de tecnologias duais e a importância da tríplice hélice – governo, setor privado e academia. A END também identificou três setores estratégicos: espacial, cibernético e nuclear, ainda muito carentes de avanços significativos.
A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil é composta por cerca de 80 empresas exportadoras e algumas outras, tanto públicas quanto privadas, especializadas em pesquisa, desenvolvimento e manutenção de equipamentos estratégicos, contribuindo com cerca de 3,5% do PIB. Exemplos notáveis incluem a Embraer, Taurus, Helibras, CBC e Ares. O setor gera aproximadamente 3 milhões de empregos diretos e indiretos, com efeito multiplicador sobre outros segmentos industriais. Apesar dessas cifras positivas, o número de empresas ativas no setor é ainda muito pequeno e suas áreas de atuação demasiado restritas diante do que seria necessário para superar as múltiplas vulnerabilidades apontadas anteriormente.
Nessas condições, como medida preliminar e imediata, é essencial que o programa de compras de equipamento militar no exterior seja totalmente repensado de modo a beneficiar os produtores nacionais que aqui geram renda e emprego. Não faz sentido que as três forças continuem eternamente a manter em Washington e Londres comissões de compra de equipamentos com a presença de dezenas de oficiais e praças, gastando milhões de dólares anuais para manter caras estruturas quando sem dúvida uma parcela crescente dessas aquisições necessita ser substituída por produtos nacionais.
Como eventuais medidas restritivas nesse novo mundo poderão ser aplicadas a diversas tecnologias inseridas em produtos que adquirimos no exterior, é igualmente imprescindível que as Forças Armadas, valendo-se de nossas universidades e centros de pesquisa, concentrem sua atenção em produtos de uso dual como equipamentos de telecomunicação e de tecnologia da informação, produtos eletrônicos, chips, sensores e lasers. O Governo, juntamente com o setor privado, precisa desenvolver uma infraestrutura própria de armazenamento de dados e de comunicação para eliminar a dependência de empresas estrangeiras, uma vez que o país não está preparado para responder à ameaça cibernética no tocante à segurança e proteção de dados sensíveis. O Centro de Defesa Cibernética, no âmbito do Exército, deveria interagir com o Banco Central, ministérios e empresas privadas, desde bancos até cadeias de bens de consumo, para melhorar a capacidade de defesa contra os ataques de hackers que, como se viu em outros países, podem afetar a infraestrutura de energia, de transporte das cidades e mesmo a segurança nacional. Neste setor em que as ações do governo têm sido historicamente muito insatisfatórias, vale destacar o importante papel que vem sendo desempenhado pela FINEP no apoio ao desenvolvimento tecnológico da indústria de defesa com crédito barato e até mesmo recursos não reembolsáveis.
Na definição das novas estratégias que devem comandar a cooperação entre as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa, é necessário também que o Governo dê solução definitiva aos conhecidos problemas de tributação do setor, eliminando as vantagens de que gozam atualmente os produtos importados nas licitações de armamentos mesmo que isso implique modificações na Constituição. Cumpre igualmente aperfeiçoar os mecanismos de financiamento pelo BNDES das exportações das empresas que compõem a Base Industrial de Defesa, hoje fortemente concentradas nas vendas externas de produtos da EMBRAER tais como o KC-390 e os Super Tucanos. Nesse sentido, como pude observar nos 11 anos em que ocupei a presidência do Conselho de Administração da Taurus, muitos governos estrangeiros preferem adquirir armas no Brasil por saberem que elas não estarão sujeitas a eventuais (e prováveis) condicionamentos arbitrários quando seus fornecedores são potências com mutáveis interesses geopolíticos.
Por fim, e com o objetivo de mostrar que não estamos tratando de metas ilusórias, relaciono a seguir, a título de mero exemplo, algumas atividades que no curto prazo poderiam gerar substanciais recursos de investimento. Para as Forças Armadas como um todo, a monetização das imensas áreas por elas ocupadas em todo o território nacional e que já não têm utilidade estratégica, matéria de que trato no meu projeto intitulado MODERFAR (disponível para quem tiver interesse no assunto). No caso do Exército, a venda de créditos de carbono das vastas florestas atualmente sob sua jurisdição. No caso da Marinha, a exploração de minerais no fundo do oceano em diversas áreas já identificadas no nosso mar territorial. No caso da Aeronáutica, o lançamento oneroso de satélites na Base de Alcântara.
Em conclusão – e voltando ao artigo que mencionei no início da palestra –, reitero que um país com mais de 210 milhões de habitantes e de dimensões continentais não pode e não deve se dar ao luxo de ignorar as vulnerabilidades em áreas estratégicas que podem afetar seus interesses concretos e prejudicar seu desenvolvimento. Urge uma discussão franca entre o setor privado e o Governo para a definição de estratégias a fim de que o Brasil ganhe autonomia em áreas essenciais e reduza ou elimine a dependência externa em segmentos críticos para resguardar a segurança do país. A Base Industrial de Defesa precisa ser vista como uma prioridade pelo Governo e principalmente pelas próprias Forças Armadas. Num mundo em rápida mutação, a grande maioria dos países está colocando seus interesses nacionais acima de alinhamentos automáticos com base na ideologia ou na geopolítica. Esse é o caminho mais seguro para o Brasil nos próximos meses e anos.


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Segue o link para acessar o número da revista Insight/Inteligência em que consta, como artigo de capa, a Carta Aberta à Nação redigida pelos embaixadores Jorio Dauster e Rubens Barbosa com o título “Brasil, país indefeso”:
https://insightinteligencia.com.br/pdfs/111.pdf

terça-feira, 10 de março de 2026

Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026 - Maria Luiza Falcão (Brasil 247)

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Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026

Maria Luiza Falcão
Brasil 247, 09 de março de 2026, 15:37 h

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto

A eleição presidencial de 2026 se aproxima em um momento particularmente complexo da história brasileira e internacional. Não se trata apenas de mais um ciclo eleitoral em uma democracia consolidada. O pleito brasileiro ocorre em meio a uma combinação rara de fatores: uma transição turbulenta da ordem internacional, a erosão do sistema político que estruturou a Nova República e um ambiente doméstico marcado por conflitos institucionais e disputas de narrativas permanentes.

Em circunstâncias normais, eleições nacionais refletem principalmente dinâmicas internas — desempenho econômico, popularidade do governo, capacidade de articulação das forças políticas. O momento atual, no entanto, parece escapar a essa lógica tradicional. 

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto. A eleição de 2026 poderá ocorrer justamente no cruzamento desses dois movimentos históricos.

Alguns observadores já percebem esse ambiente como um momento de transição. O economista e escritor Paulo Timm sugere que estamos diante de um período que lembra outros momentos de inflexão histórica — como 1954, 1961 ou 1989 — quando mudanças profundas estavam em gestação antes mesmo de se tornarem plenamente visíveis. A sensação de que algo estrutural está se transformando, ainda que sem contornos completamente definidos, atravessa hoje o debate político em várias partes do mundo.

Essa percepção não é infundada.

A crise da ordem internacional

Desde o fim da Guerra Fria, o sistema internacional foi amplamente organizado em torno da hegemonia dos Estados Unidos. Durante três décadas, a chamada Pax Americana sustentou instituições multilaterais, cadeias globais de comércio e um padrão relativamente estável de governança econômica internacional. Durante algum tempo, chegou-se a acreditar que essa ordem teria caráter quase permanente. Hoje sabemos que não.

A reeleição de Donald Trump representa um dos sinais mais claros da crise desse modelo. Trump não é apenas um líder controverso ou uma anomalia política circunstancial. Ele expressa tensões profundas dentro da própria sociedade americana — desigualdades regionais, conflitos culturais, ressentimentos econômicos e desconfiança crescente em relação às instituições tradicionais.

A política externa americana sob Trump também revela mudanças importantes. O uso agressivo de tarifas comerciais, o abandono de compromissos multilaterais e a retórica nacionalista indicam uma inflexão significativa no comportamento da potência que durante décadas se apresentou como garantidora da ordem internacional liberal.

Esse movimento não representa apenas uma mudança de estilo político. Ele expressa uma transformação mais profunda na própria lógica da liderança americana. A chamada Pax Americana sempre combinou poder militar, influência financeira e legitimidade institucional. O trumpismo, ao contrário, opera frequentemente pela ruptura dessas mesmas engrenagens: enfraquece instituições multilaterais, transforma aliados em alvos de pressão comercial e introduz um grau de imprevisibilidade que fragiliza a própria arquitetura internacional construída após 1945. Em vez de estabilizar o sistema global, Washington passou a ampliar as tensões que já atravessam a economia e a política internacional.

Sob o comando de Donald Trump, o ataque recente ao Irã pelos Estados Unidos em conluio com Israel de Benjamin Netanyahu, lança o mundo numa situação de apreensão pelo risco de ser deflagrada uma Terceira Guerra Mundial. A morte do aiatolá Ali Khamenei no conflito — líder supremo do irã desde 1989, autoridade máxima do sistema político e controlador das Forças Armadas, da Guarda Revolucionária, do Judiciário, e das principais diretrizes da política externa e nuclear — é de gravidade incomensurável. Seu filho deverá sucedê-lo. 

O Irã contra-ataca. Ameaça com o fechamento do estreito de Ormuz, por onde circula um quinto do transporte do petróleo consumido no mundo, eleva o preço do petróleo a US$ 100 o barril, com perspectivas de aumentos ainda maiores, na casa de 50%. 

O Brasil não passaria ileso por uma escalada mais grave no Golfo Pérsico. Cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente atravessa o estreito de Ormuz, o que torna qualquer ameaça à navegação nesse corredor marítimo capaz de provocar choques imediatos nos preços da energia mundo afora. Para uma economia como a brasileira, os efeitos seriam múltiplos: aumento dos custos de transporte, pressão inflacionária e encarecimento de insumos estratégicos, especialmente fertilizantes, dos quais o país continua fortemente dependente das importações. O setor agropecuário — pilar das exportações brasileiras — sentiria rapidamente esses impactos, seja pelo aumento dos custos de produção, seja pela volatilidade nos mercados internacionais de commodities agrícolas. Em um mundo já marcado por incertezas geopolíticas, crises energéticas e disputas comerciais, um conflito ampliado no Golfo teria repercussões que ultrapassariam em muito as fronteiras da região.

Os Estados Unidos continuam a dispor de extraordinários recursos econômicos, tecnológicos e militares. Mas a estabilidade da ordem que ajudaram a construir tornou-se claramente muito mais frágil. Tensões comerciais, conflitos regionais e disputas estratégicas entre grandes potências se multiplicam.

Para países de renda média e democracias emergentes como o Brasil, esse ambiente internacional mais incerto cria desafios adicionais. Volatilidade financeira, mudanças nos fluxos de comércio e realinhamentos geopolíticos passam a influenciar diretamente as condições internas de crescimento econômico e estabilidade política. Afetam, sem dúvidas, processos eleitorais.

O esgotamento de um ciclo político no Brasil

Se o cenário internacional se torna mais turbulento, o sistema político brasileiro também atravessa uma fase de transição.

A geração que estruturou a política nacional desde a redemocratização praticamente desapareceu. Lideranças como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Fernando Henrique Cardoso foram figuras centrais na construção da Nova República. Representavam projetos políticos distintos, mas compartilhavam uma legitimidade derivada da experiência histórica da reconstrução democrática do país.

Hoje esse ciclo parece chegar ao fim.

O único líder nacional que ainda permanece no centro da política brasileira é Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), cuja trajetória se confunde com algumas das transformações sociais mais importantes ocorridas no país nas últimas décadas, já que está no poder por três mandatos e é candidato a um quarto. Mas a própria longevidade política de Lula também revela o vazio de lideranças estruturantes que caracteriza o momento atual.

Enquanto antigas referências desaparecem, novas lideranças ainda não se consolidaram plenamente. O sistema partidário permanece fragmentado e frequentemente dependente de arranjos regionais ou coalizões parlamentares de curto prazo. O resultado é um ambiente político mais fluido e menos previsível do que aquele que predominou nas primeiras décadas da redemocratização.

Essa recomposição incompleta do sistema político cria incertezas adicionais para a eleição de 2026.

As pesquisas de opinião já começam a refletir esse cenário de tensão política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda aparece à frente nas intenções de voto, mas a diferença em relação ao principal candidato da direita vem diminuindo. Esse candidato é o senador Flávio Bolsonaro, escolhido para representar politicamente o campo bolsonarista após a condenação e prisão de seu pai, Jair Messias Bolsonaro, sentenciado a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional no país.

O avanço gradual de Flávio nas pesquisas indica que o bolsonarismo permanece uma força política relevante. Mais do que um fenômeno doméstico, ele se conecta a uma onda internacional de nacionalismo autoritário que ganhou novo impulso com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. A convergência política entre o trumpismo e setores da direita brasileira sugere que a eleição de 2026 também poderá refletir disputas ideológicas mais amplas que atravessam o cenário internacional.

Guerra política permanente

Outro elemento que marca o ambiente institucional brasileiro é a persistência de um clima de confronto político contínuo.

Desde a década passada, episódios sucessivos de judicialização da política, vazamentos seletivos e disputas institucionais intensificaram a polarização do debate público. O jornalista Luis Nassif observa que esse padrão continua a se reproduzir, com investigações e disputas políticas atravessando instituições-chave do Estado.

O episódio recente envolvendo o banco Master ilustra bem esse ambiente de tensão institucional. As investigações sobre as atividades do banqueiro Daniel Vorcaro, que se encontra preso, e suas conexões políticas rapidamente passaram a atingir diferentes esferas do Estado, incluindo segmentos do Judiciário e do sistema financeiro. 

Independentemente do desfecho jurídico das apurações, o impacto político é imediato: suspeitas, vazamentos e interpretações concorrentes passam a circular intensamente no espaço público, alimentando um clima de permanente disputa narrativa.

Esse ambiente torna-se ainda mais complexo quando combinado com a dinâmica das redes sociais. Rumores, acusações e escândalos — muitas vezes baseados em informações parciais ou não verificadas — circulam com enorme velocidade e alcançam milhões de pessoas antes mesmo de qualquer verificação factual.

O episódio envolvendo o filho do presidente Lula, conhecido como Lulinha — no caso, a reativação nas redes de antigas acusações sobre seus negócios empresariais durante os governos do PT — ilustra como temas antigos podem ser reativados estrategicamente no período pré-eleitoral. Independentemente da consistência das acusações ou de sua relevância jurídica, esse tipo de narrativa tende a ganhar enorme visibilidade nas redes digitais, alimentando ciclos de suspeita e desinformação difíceis de controlar.

O que estará realmente em jogo em 2026

A eleição de 2026 se aproxima em um ambiente de elevada tensão política. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta sustentar uma frente democrática que preserve as instituições reconstruídas após a crise política da década passada. De outro, o campo da extrema direita busca reorganizar-se em torno da candidatura do senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de Jair Bolsonaro e alinhado internacionalmente ao projeto político representado por Donald Trump.

Nesse contexto, as eleições brasileiras deixam de ser apenas uma disputa doméstica. Elas passam a refletir um confronto mais amplo entre dois projetos políticos distintos: de um lado, a defesa de instituições democráticas e de uma inserção internacional cooperativa; de outro, a afirmação de um nacionalismo autoritário que encontra eco em movimentos semelhantes em diversas partes do mundo.

O pleito de 2026 será um momento de redefinição do projeto nacional brasileiro. O desafio será impedir que essa escolha histórica seja obscurecida por uma sucessão interminável de crises fabricadas, escândalos amplificados e disputas narrativas que pouco dizem sobre o futuro real do país.

As pesquisas mais recentes indicam que o risco de vitória de um projeto de direita não pode ser subestimado. Embora o presidente Lula ainda apareça à frente nas intenções de voto, a distância em relação ao senador Flávio Bolsonaro vem diminuindo gradualmente. Isso mostra que a extrema direita, longe de desaparecer após os acontecimentos que levaram à condenação e prisão de Jair Bolsonaro, mantém uma base social significativa e capacidade real de disputar o poder pelas urnas. 

A eleição de 2026 poderá, portanto, tornar-se um teste decisivo para a democracia brasileira: não apenas sobre quem governará o país, mas sobre até que ponto o sistema político e a sociedade serão capazes de resistir ao retorno de um projeto autoritário de direita que continua presente no cenário político nacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

segunda-feira, 9 de março de 2026

A Strategic Learning Deficit: Western Military Institutions Ignored Ukraine War Lessons - Mick Ryan (Futura Doctrina)

The Big Five

A Strategic Learning Deficit: Western Military Institutions Ignored Ukraine War Lessons.

The Big Five, Futura Doctrina, 8 March edition

My weekly update on war and strategic competition. This week, ignoring Ukraine war lessons hurts, battlefield and long-range strike, PLA operations in the Pacific and my Big 5 reading recommendations.

Mick Ryan

Futura Doctrina, Mar 08, 2026 - https://mickryan.substack.com/p/a-strategic-learning-deficit-western

Ukrainians have been fighting against “shahed” drones for years now, and everyone recognizes that no other country in the world has this kind of experience. We are ready to help, and we expect that our people will also receive the support they need. Protecting life must be a shared priority, and it is very important to coordinate for security both in Europe and in the Middle East. President Zelenskyy, 8 March 2026.

The week of 2–8 March 2026 continued to show that the war in Ukraine has a level of dynamism that is not reflective of the ‘frozen conflict’ narratives popular in some areas. On the frontline, Ukrainian ground forces demonstrated a quiet resurgence while continuing to hold the line against the Russian offensive machine. Long range strike forces executed one of the most operationally significant maritime strikes of the war.

Diplomacy collapsed under the weight of a new Middle East war. 300 Ukrainian prisoners of war returned home, and, President Zelenskyy visited his frontline soldiers again - something Putin has shown no inclination to do, and no courage to do, in the past four years.

In the Pacific, Taiwan is focussed on integrating its defences within a larger First Island Chain defensive strategy, and China halted its aerial incursions into Taiwan’s airspace for a week.

Welcome to this week’s update and Big Five!

Ukraine

Image: Wild Hornets

Interceptor Drones and the Systemic Learning Deficit in Western Military Institutions. This week revealed fully just how poor western and Middle East military institutions have been at learning from the war in Ukraine. I have written several times about how western military organisations have shown a lack of humility in learning from Ukraine, but the past week has provided the best evidence yet of that phenomenon.

Therefore, it was an extraordinary development this week when the United States formally asked Ukraine for help defeating Iranian drones. When the U.S. and Israel launched their attack on Iran on 28 February, Iran responded with a barrage that included over 500 ballistic missiles and approximately 2,000 unmanned aerial systems in the first five days, according to US Central Command. American air defences — designed for the threat environments of the late 20th century — struggled with the volume of cheap, slow-moving Shahed-type drones. A strike in Kuwait killed six American servicemembers. Drone strikes damaged the US Fifth Fleet headquarters in Bahrain. The Washington Post reported on 5 March that both the United States and its Middle Eastern allies had approached Ukraine seeking expertise and practical support in countering Iranian drones.

Zelenskyy responded shrewdly. He confirmed that Ukraine would provide assistance, directed officials to present options, and announced that Ukrainian specialists and technology would be deployed to the region. He then offered a proposition that was equal parts pragmatic and diplomatically elegant: Kyiv offered to send its best drone interceptors to the Gulf — in exchange for Patriot air defence missiles. ‘It is an equal exchange,’ Zelenskyy said.

Image: @DefenceU

The irony is huge. Ukraine has been defending itself against Shahed drones since 2022. Russia initially imported them from Iran; Iran has since supplied an estimated 5,000 to 10,000 of the weapons to Moscow, with Russia also producing modified variants (the Geran) domestically. Ukraine has built a layered, cost-effective counter-drone architecture over four years of trial and error. For at least a year, Ukraine has employed low-cost drone interceptors, which are an order of magnitude cheaper than Shaheds, as part of this air defence system. It is exactly what the United States and some of its partners lack in the Gulf. CNN reported on 7 March that the US had also decided to deploy its Merops anti-drone system — proven in combat against Russian drones in Poland and Romania — to the Middle East, citing lessons learned from the Ukrainian theatre.

This was a highly predictable threat from Iran which was not paid sufficient respect by the Americans and others, and as a result, they were unprepared. But at least the U.S. military demonstrated some capacity for learning by using Shahed copies (the LUCAS drones) against Iran. The situation is much worse in other countries (particularly Australia), where these has been a systemic effort to downplay or ignore learning from Ukraine. It is an example of a systemic learning deficit in western military organisations which has bitten America and countries in the Middle East.

Just in case we are led to believe that the drone interceptors are the only example of a lack of learning, there was another good example of this systemic learning deficit during the week. A British politician visiting Ukraine tweeted from a previously undeclared maintenance site for British military equipment. For four years, both Ukraine and Russia have employed simple and widely available geolocation from social media posts (and images / videos in those posts) to prime their targeting process. How had they not learned this? As a result, it is highly likely the Russians will target this location, and more lives might be put at threat. At the minimum, the site will have be relocated.

In conclusion, ignoring lessons of modern wars - in an era when war has never been more visible - will hurt you at some point. America and Middle East nations found this out the hard way during the week. What other nations out there have also engaged in willing ignorance of what Ukraine can teach us?

Image: @DefenceU

Ukraine Armed Forces Strategic Research Priorities 2026. This week, the Ukrainian Armed Forces released its research priorities for the coming year. The briefing provided a look back at 2025, noting that:

The main change in 2025 is the transition from chaotic developments to a holistic state system…Last year, the Armed Forces of Ukraine completed the formation of a holistic system that allows them to respond instantly to the challenges of war. The key principle is feedback.

The key priorities for research funding (and percentage of research funding received) in 2025 were:

  • UAV – 28%.

  • Robotic systems (RCS) – 15%.

  • Communication and information protection – 11%.

  • Electronic warfare and countermeasure systems – 8%.

This year, the Ukrainian Armed Forces will focus on four strategic areas:

  1. Improvement of the innovation management system.

  2. Scaling of research activities.

  3. Deep implementation of Artificial Intelligence technologies.

  4. Further development and integration of unmanned systems in all branches of troops.

Reckoning in the South: The Ground War. This week Ukraine’s Commander-in-Chief, General Syrskyi reported that Ukrainian forces captured more territory in February 2026 than Russian forces were able to seize during the same period. This represents the best relative territorial performance for Ukraine’s ground force since the Kursk operation in August 2024. He described it as having survived a ‘difficult battle of the winter.’

This matters because the pattern of Russian winter advances has been consistent (and often demoralising) in the past couple of years. The Ukrainian gains have broken that pattern, at least for 2026. According to Russia Matters, which cross-references ISW data, Russian forces gained just 46 square miles of Ukrainian territory in the period from 3 February to 3 March 2026 compared with 123 square miles in the previous four-week period. Russian monthly gains of Ukrainian territory have nearly collapsed from their late-2025 peak.

The most consequential Ukrainian gains occurred in the south — in the Zaporizhzhia and Dnipropetrovsk oblasts. ISW’s assessment of 6 March assessed that Ukrainian forces have liberated 244 square kilometres in the Hulyaipole and Oleksandrivka directions since 1 January 2026, while Russian forces seized 115 square kilometres in the same region and time period. This is a net Ukrainian gain of nearly 130 square kilometres on this axis of advance. Ukrainian forces cleared Russian positions west of the Haichur River and likely liberated the settlements of Ternuvate and Kosivtseve.

Along the northern and eastern regions of the frontline, the picture was mixed. ISW’s daily assessments throughout the week tracked Ukrainian advances in the Kostyantynivka-Druzhkivka tactical area and near Kupiansk, while Russian forces continued to press their advance on the Pokrovsk and in the Slovyansk axes of advance. The grinding combat on the ground in Donetsk continues.

Long Range Strike. Russia has probably failed to achieve the objectives it set for its Winter 2025–2026 long-range missile and drone campaign against Ukrainian energy infrastructure. This assessment is supported by an ISW report from the week, which also noted that the Russian military command ‘continues to operate in an alternate reality, setting wildly unrealistic deadlines that do not match Russia’s actual battlefield capabilities.’

President Zelenskyy also warned this week that Russia intends to shift its strike campaign toward Ukrainian logistics and water infrastructure as spring arrives — a potentially significant escalation that could threaten civilian supply chains and Ukraine’s ability to sustain frontline forces. He issued that warning in ISW’s 2 March assessment, and Ukrainian authorities have since been taking steps to harden railway junctions and water facilities against attack.

The most significant long range strike event of the week occurred on 2 March, when Ukrainian forces executed a large-scale drone strike against the Russian Black Sea Fleet’s primary operating base at Novorossiysk. It was a complex, large-scale attack of a type we must all learn from.

According to Ukrainska Pravda, citing sources within the Security Service of Ukraine (SSU), the operation involved approximately 200 aerial and maritime drones, coordinated across multiple Ukrainian agencies including Special Operations Forces, the State Border Guard Service, Defence Intelligence, and the Unmanned Systems Forces. The Ukrainians claim to have hit Russian naval vessels, air defence systems, as well as energy infrastructure at the Sheskharis oil terminal.

The key strike was against the frigate Admiral Essen, which is a Burevestnik-class warship carrying eight Kalibr cruise missilesUNITED24 Media reported that the frigate’s midsection superstructure was hit, triggering an 18-hour fire. The SSU stated that: ‘The ship sustained critical damage that significantly limits its ability to use Kalibr cruise missiles. At present, the frigate cannot carry out strikes on the territory of Ukraine.’

This is a good outcome. The Admiral Essen has been a persistent source of Kalibr strikes against Ukrainian cities since 2022. Its effective removal from the Russian strike fleet — even temporarily — has operational consequences. The same strike also damaged the minesweeper Valentin Pikul, the anti-submarine corvettes Yeysk and Kasimov, hit a guidance radar from an S-300PMU-2 air defence system, and set fire to six of seven oil loading arms at the Sheskharis terminal.

Later in the week, the Ukrainians hit a key Russian Shahed drone hub near Donetsk Airport. The site was used to store, prepare, and launch strike UAVs against Ukraine.

The broader strategic significance of these strikes is that another Russian Black Sea Fleet refuge is no longer a safe harbour for the Russian Navy. Ukraine’s ability to strike deep into Russian rear areas with significant air, missile and drone defences by using complex multi-domain drone swarms represents one of the most important military developments of this war. The Ukrainian long range strike capability, something I have written about for three and a half years, continues to mature.

And it offers many insights for other military institutions – if they are willing and humble enough to learn.

Diplomacy Interrupted. The diplomatic track of the Ukraine War, which had been dragging on with little progress across the Coalition of the Willing summit in Paris in January and three rounds of US-brokered talks, came to an abrupt halt this week as the war against Iran commenced.

A fourth round of trilateral talks between Ukrainian, Russian, and American representatives had been scheduled for 5–6 March in Abu Dhabi. Bloomberg reported on 5 March that Zelenskyy formally confirmed the talks were postponed indefinitely. “For now, because of the situation with Iran, the necessary signals for a trilateral meeting haven’t come yet. As soon as the security situation and the broader political context allow us to resume the trilateral diplomatic work, it will be done.”

The venue for the talks was part of the problem. The UAE, which had hosted two prior rounds of talks, had largely closed its airspace as Iranian ballistic missiles and drones targeted Gulf states. Indeed, as I write this, another strike against the Dubai airport occurred. Modern Diplomacy reported this week that Ukrainian officials were exploring alternative venues for the talks, including Turkey and Switzerland, both of which have previously hosted negotiations related to the conflict. But the deeper problem with the talks now is not geography — it is political bandwidth.

The Trump administration, which had been the primary diplomatic driver of the Ukraine peace process, is now absorbed by its war against Iran. American attention, American assets, and American political capital have been redirected. Zelenskyy was direct about the risk: speaking to Novaya Gazeta Europe, he warned that a prolonged U.S.-Iran war could deprive Ukraine of key air defence systems it needs to intercept Russian missiles, as Washington would prioritise supplying the Middle East with Patriots and other interceptors.

The Kremlin quickly exploited the disruption. ISW’s 5 March assessment noted that Kremlin officials are ‘using the escalation in the Middle East to set conditions to blame the United States for any future failures in negotiations for a peace in Ukraine.’ Russian officials are working to rhetorically place Russia and the United States in opposition, attempting to discredit U.S.-led mediation efforts by painting Washington as an aggressive power unfit to serve as a neutral broker.

Peace in 2026 is looking even more unlikely – and I began the year with low hopes for this.

Despite the war in Iran, the war in Ukraine continues. Image: @ZelenskyyUa

Strategic Assessment. Ukraine is performing better on the battlefield than the narrative of inevitable victory from Russia describes. As I noted in a piece this week, strategic narratives are not strategy. Russia, likely to launch its spring offensives soon, will be doing so having failed to achieve its strategic objectives for winter. Diplomacy, interrupted by the war in Iran and a global security environment that is changing rapidly, is unlikely make significant progress in the short term.

Three conclusions are worth noting.

First, Ukrainian military performance is holding up and in some areas improving. The Novorossiysk strike, and the counter attacks in the south (now largely halted because of clearer weather) all point to a force that is learning, adapting, and finding ways to strike the Russians in new ways. This is an army that continues to take punches but remains standing and continues hitting back. We can learn from that.

Second, the diplomatic window is narrowing. The Iran War has not killed the Ukraine peace process, but it has disrupted it at a critical point. Russia still shows no signs of genuine compromise on the territorial question that is the heart of any potential settlement, however. The United States remains a crucial broker but is currently otherwise occupied.

Finally, the new Iran War shows that Ukraine’s hard-won expertise has global strategic value. Kyiv is leveraging it intelligently to extract air defence resources from Middle East nations, and to maintain its relevance in a Washington increasingly consumed by a different war. Whether this translates into meaningful gains — Patriot systems, continued military support, sustained American diplomatic engagement — remains to be seen.

The Middle East

Because I have published a few articles on this topic throughout the week, I will focus on the statistics of the war for this section of the update. The first is an update from the UAE Ministry of Defence (as at 7 March) that covers the drone and missiles strikes against the country since the start of the new Iran War.

Next, is the update from Saudi Arabia that contains similar data. Attacks on Saudi Arabia are an order of magnitude lower than those in UAE. However, just a few well placed drones and missiles hitting oil production facilities can reverberate around the world.

Finally, the latest info-graphic from The Institute for the Study of War covering where U.S. and Israeli forces have conducted strikes against Iran in the past 24 hours.

The Pacific

Image: @INDOPACOM

First Island Chain Integration Strategy. Taiwan Foreign Minister Lin Chia-lung’s interview with The Japan Times articulated a diplomatic strategy acknowledging changed strategic circumstances. Lin argued that effectively deterring China’s expansion into the Pacific requires embedding Taiwan more fully into Indo-Pacific security frameworks, particularly with First Island Chain partners. This represents not just political announcements but recognition that Taipei cannot rely solely on bilateral U.S. security commitments given contemporary American strategic ambiguity.

Foreign Minister Lin called for enhanced cooperation in intelligence-sharing, joint exercises, defense-industry tie-ups, data links, and dealing with hybrid threats such as China’s grey-zone activities. The emphasis on mini-lateral frameworks reflects Taiwan’s assessment that distributed deterrence through multiple partnership nodes offers greater resilience than dependence on a single alliance relationship.

Yet this strategy confronts structural constraints: Taiwan lacks formal diplomatic recognition from most First Island Chain states, limiting the depth and transparency of security cooperation.

China’s Low Tempo Air Operations Around Taiwan. This week, PLA aircraft activity near Taiwan showed a fascinating pattern. After an eight-day absence of detected flights—the longest such stretch since systematic tracking began—Chinese military aircraft resumed operations on 7 March. The pause has generated speculation about causes ranging from mechanical maintenance cycles to deliberate strategic signalling. Taiwan’s Defense Minister Wellington Koo cautioned legislators that absence of air incursions should not imply absence of PLA activity, noting that sea-based operations continued without pause.

An analysis of this lack of PLA aerial activity by the Taiwan Security Monitor noted that:

This pause naturally sparked speculation, however many popular theories are as of yet unsupported by observable patterns and regional events. Observers have forwarded several possible explanations, to include the ongoing operations in Iran, the upcoming summit between President Trump and Xi, an inability to operate routinely following a series of major officer purges, and domestic politics in Taiwan.

You can read their full analysis on this pause (which is now over) at this link.

Monthly Update on PLA Air and Maritime Maneuvers Around Taiwan. During the week, @KTristanTang released his latest monthly update on Chinese activity around Taiwan. His conclusion: “PLA air and maritime activity around Taiwan has declined, but this does not necessarily imply that combat readiness has been seriously weakened by the recent purges. Rather, it appears to reflect a shift in training planning toward exploring joint operational modes.”

Middle Power Security and Carney’s Asia-Pacific Visit. This week the Canadian Prime Minister visited the Pacific region, including stops in Australia, India and Japan. Pitching a middle power approach to regional security, he seeks to address the fundamental question confronting Pacific security affairs. Is a network of distributed, minilateral security agreements a viable substitute for weakened bilateral alliance credibility. Manila, Tokyo, Canberra, and Taipei are building networked relationships precisely because long-standing hub-and-spoke arrangements in the region, of which America is a critical component, appear insufficient.

Yet networked resilience of the type discussed this week depends on each nations’ individual capability and collective coordination. The transition from American-guaranteed stability to a more distributed form of deterrence against Chinese aggression will either produce more robust security or dangerous gaps. This week suggests allies and partners understand the challenge, but have not yet invested in solving it.

Japan’s defence spending has doubled from 1% to 2% of GDP, and the current Japanese PM is looking at further enhancements to the budget as well as constitutional change. Unfortunately, few other countries in the region, including Canada or Australia, have shown an inclination to drastically increase defence spending or a willingness to take more strategic risk in seeking to deter China.

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This week, I published a couple of articles on Futura Doctrina.

First, I published an article on 2 March which examined initial insights and questions from the initial phase of the new U.S.-Israeli military campaign against Iran. You can read that article here.

Next, I published a piece yesterday that explored what Putin and Xi might be learning from the war in Iran. Called Selective Belligerence and Unconditional Surrender, you can read this article at the following link.

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It’s time to explore this week’s recommended readings.

In this week’s Big Five, I have included an excellent new report from RAND that examines Chinese perspectives on the military applications of AI. There are also articles on how the Chinese leader might approach his upcoming summit with President Trump, insights into how AI will impact on army officers and a good piece of FICINT from Peter Singer and August Cole.

As always, if you only have the time available to read one of my recommendations, the first is my pick of the week.

Happy reading!

1. PLA Perspectives on AI

In this new report from RAND, the authors explore integration into the PLA from the perspective of Chinese military leaders. The review indicates that the PLA will use AI to enhance its kill chains by strengthening joint AI integration, multi-agent collaboration, and improved, secure data transmission. There is also examination of the use of AI in military logistics. Finally, the authors propose several targetable vulnerabilities in the PLA approach to AI implementation. You can read the full report at this link.

2. Will China Overplay Its Hand?

In this article published by Foreign Affairs, the author examines how the Chinese leader might approach the forthcoming summit with President Trump. The author notes that “the most significant factor that will shape the upcoming Trump-Xi meetings will be Beijing’s perception of its own apparent success in 2025 in responding to U.S. threats with resolute counterthreats…Many Chinese experts believe that Beijing, unlike other capitals subjected to Trump’s threats, managed to back Washington into a corner and that this outcome signaled China’s arrival as a global power on par with the United States.” How this will influence the coming summit remains to be seen. You can read the full article here.

3. Effects of Private Quantum Encryption

Peter Singer and August Cole have been working with Defense One this year to produce a series of short stories that examine key national security and military issues. This FICINT (fictional intelligence) is designed to be an accessible yet thought-provoking means to drive conversions in government and beyond about the impacts of new technologies on national security and societies more broadly. The latest story, The Quantum Curtain, has just been published and can be read at this link.

4. The Impact of AI on Army Officers

A new report was released by the Special Competitive Studies Project (SCSP) that explores the impact of AI on Army officers and the army profession more generally. As the author of the report notes, “these changes will affect not only which jobs warfighters perform, but how they perform them, requiring the U.S. military to rethink how it organizes, trains, and equips its future workforce, as well as how it designs its forces.” You can read the full report at this link.

5. Responsible Procurement of AI in Military Institutions

This report from the Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) explores the intersection of military procurement and responsible use of military AI. The authors propose that procurement process can be a mechanism for states to implement political commitments and legal obligations, and therefore, also a mechanism for implementing responsible use of AI in military institutions. You can read their full report here.

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