Gustavo Binenbojm (UERJ) escreveu:
O Islã Foi a Civilização Mais Avançada da Terra… Até o Dia em Que Matou o Próprio Cérebro em 1095
Imagine o Cairo do século XII. O Nilo ainda carregava as memórias dos faraós, mas o ar que se respirava era puro intelecto. Nas madrasas e nas bibliotecas de Fustat, o árabe não era apenas a língua do Alcorão, era a língua da humanidade civilizada. Era o que o inglês é hoje: o idioma em que se debatia se o mundo era eterno ou criado, se a alma era imortal ou se dissipava, se Deus obedecia às leis da lógica ou as transcendia. E foi nesse árabe cristalino que um judeu sefardita chamado Moisés Maimônides, fugindo das perseguições almóadas, escreveu o Guia dos Perplexos, não em hebraico, não em latim, mas em árabe impecável.
Por quê?
Porque o árabe era a língua de Ibn Sina (Avicena), de Al-Farabi, de Ibn Rushd (Averróis). Era a língua dos gigantes. Maimônides não escrevia para os muçulmanos. Escrevia com eles, contra algumas de suas ideias, mas no mesmo palco intelectual. O Islã, naquela época, era a civilização do conhecimento. O Ocidente cristão ainda gaguejava em mosteiros frios. O Islã iluminava o mundo.
Depois, tudo desandou.
E o responsável por virar a chave não foi um bárbaro invasor. Foi um dos maiores pensadores que o Islã já produziu: Abu Hamid Al-Ghazali.Em 1095, aos 37 anos, o homem mais respeitado de Bagdá, professor da Nizamiyya, a Harvard do Islã medieval, sofreu uma crise espiritual que o destruiu por dentro. Abandonou tudo. Trancou-se em solidão. E escreveu “A Incoerência dos Filósofos”. Com uma inteligência afiada como lâmina de Damasco, Al-Ghazali desmantelou a ponte entre fé e razão que Avicena havia construído com tanto cuidado. Deus, para ele, não era um relojoeiro aristotélico que seguia regras. Deus era o único agente real do universo. O fogo não queimava o algodão por causa de uma lei natural, queimava porque, a cada milésimo de segundo, Alá decidia queimar. A causalidade era ilusão. A filosofia, heresia velada. A razão, uma serva perigosa. Al-Ghazali não era um fanático ignorante. Era um pensador atormentado que escolheu a certeza divina em vez da dúvida científica.
E foi exatamente aí que a porta do ijtihad, o esforço racional independente, começou a se fechar para sempre. A partir de Al Ghazali, a decadência foi constante, As sociedades islâmicas nunca mais se recuperaram, e por isso sem dúvida alguma ele é um dos personagens mais influentes da história. O Irã de hoje, O wahabismo saudita, Al Qaeda, ISIS, Hamas, Hezbollah e tantos outros movimentos, todos filhos de Al Ghazali. O Islã, que havia sido o motor do progresso humano, trocou o laboratório pela mesquita, a pergunta pela resposta pronta, o perplexo pelo dogmático. A Era de Ouro não morreu de morte natural. Foi assassinada por dentro, por sua própria filosofia.
Quinhentos anos depois, o Império Otomano, último suspiro do califado desabou como um castelo de areia. Em 1924, o mundo muçulmano acordou nu. Pobre. Colonizado. Tecnologicamente analfabeto. A pergunta que ecoou de Istambul a Cairo, de Bagdá a Karachi, foi como um soco no estômago coletivo: “Se temos a fé verdadeira, por que estamos perdendo para os infiéis?” Era o trauma da inferioridade civilizacional em sua forma mais pura e devastadora. E foi nesse abismo existencial que nasceu o monstro que hoje chamamos de islamismo radical, não mais uma religião, mas um culto político totalitário. Hassan al-Banna fundou a Irmandade Muçulmana em 1928 com uma tese simples e venenosa: o Islã perdeu sua força porque se deixou contaminar pela cultura ocidental. A solução? Purificação. Retorno às origens, mas não às origens de Avicena e Maimônides. Às origens de Al-Ghazali radicalizado. Sayyid Qutb, o grande teórico da Irmandade, deu o passo definitivo e mortal. Para ele, o inimigo não era mais só o colonialismo britânico ou francês. O inimigo era o individualismo liberal.
O Ocidente havia “privatizado Deus”, colocado o ego humano no centro do universo e transformado a sociedade em um supermercado de vontades egoístas.
Israel, para Qutb, não era apenas um Estado judeu incômodo. Era o posto avançado infeccioso desse vírus que impedia o retorno ao califado coletivo, ao ummah indivisível onde o indivíduo desaparece diante da vontade divina. Nascia ali o Islã como ideologia de Estado. “O Islã é a solução” virou o novo slogan, o mesmo que substituiu o pan-arabismo de Nasser depois da humilhação catastrófica de 1967. Em seis dias, o nacionalismo secular árabe morreu no deserto do Sinai. No vácuo ideológico, o pan-islamismo tomou conta. E com ele veio a armadilha fatal que garante o fracasso perpétuo: a política da culpa.
O clássico livro “Good to Great” de Jim Collins, resume com precisão cirúrgica o mecanismo que transforma uma sociedade em doente terminal: as empresas de elite olham no espelho quando fracassam, assumem responsabilidade, corrigem o rumo, crescem. Olham pela janela apenas para celebrar vitórias. O islamismo radical, porém, inverteu o espelho. Transformou-o em janela. Cada fracasso econômico, cada fila de desempregados, cada repressão brutal, cada cérebro que foge é imediatamente atribuído ao “inimigo externo”: sionistas, ocidentais, infiéis, “entidade sionista”. Nunca ao próprio espelho. Eles ainda não entenderam que fizeram a escolha errada, a escolha histórica de ter matado Avicena em nome de Al-Ghazali.
É exatamente por isso que, com toda razão, dizemos que o antissemitismo crescente não é apenas um ódio antigo reciclado, é o sintoma mais claro de uma sociedade doente e problemática. Quando uma civilização perde a capacidade de olhar para dentro e assumir a própria responsabilidade na geração dos seus problemas, ela começa a culpar terceiros de forma compulsiva. E aí está condenada: nunca resolverá nada. Porque o problema não está fora. Está no espelho que ela se recusa a encarar. O antissemitismo de Estado, nesse sentido, não é causa, é consequência e profecia de declínio. Enquanto o ódio ao judeu servir de álibi perfeito, a nação nunca consertará o que realmente a mata por dentro.
Países que abraçaram esse culto político, Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Gaza sob Hamas, Líbano sob Hezbollah viraram museus vivos do fracasso. Economias em ruínas. Cérebros em fuga. Sociedades que produzem ódio em vez de inovação. O regime iraniano é o exemplo mais puro dessa tragédia em estado terminal. Uma revolução que, para sobreviver, precisa de um inimigo eterno. Como Micah Goodman descreve: uma revolução vitoriosa vira “chata”, burocracia, corrupção, lixo nas ruas, economia em colapso. Israel é a “bateria” que mantém essa revolução carregada. Sem Israel, o aiatolá teria de olhar no espelho e explicar por que o Irã é pobre, isolado e sangrando em protestos de mulheres sem véu. Com Israel, basta apontar para a “entidade sionista” e o ódio mantém a máquina girando. É a gestão perfeita do ressentimento. É a política da culpa elevada à categoria de religião de Estado.
Estamos vivendo, neste exato momento, o “1967 do pan-islamismo”. Assim como o sonho de Nasser morreu em seis dias, o sonho de que o radicalismo religioso islâmico levaria à vitória militar está morrendo agora, diante dos escombros do Hezbollah, do Hamas e do QG de Khamenei. Quando esses proxies forem desmantelados, a ideia de que “o Islã é a solução” militar também morrerá. E o mundo muçulmano terá de confrontar novamente a pergunta que Al-Ghazali ajudou a enterrar em 1095.
Mas há uma contradição ainda mais profunda, quase poética. Os inimigos de Israel sempre subestimaram sua força porque acreditaram na narrativa de que o Ocidente e Israel eram “moles”. Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah, chamava Israel de “teia de aranha”: fisicamente forte (bombas, tecnologia), mas socialmente fraco, mimado pelo conforto liberal. Ele acreditava que bastaria um pouco de sangue para que os israelenses fugissem para Miami.
Estavam invocando, sem saber, a teoria de Ibn Khaldun, o grande historiador árabe do século XIV: a Asabiyyah, a coesão tribal primordial, sempre vence impérios ricos e decadentes. O que Nasrallah não entendeu é que Israel realizou o impossível sociológico: tornou-se uma sociedade híbrida. Liberal o suficiente para criar o Iron Dome e o Waze, tribal o suficiente para que, em horas, 300 mil civis largassem suas vidas e corressem para o front, individualista o suficiente para questionar tudo, coeso o suficiente para morrer uns pelos outros. Israel é ao mesmo tempo moderno e antigo, democrático e clã. Uma belíssima anomalia histórica.
A raiz dessa anomalia está na humildade epistemológica judaica. Enquanto o Islã radical herdou o dogma absoluto de Al-Ghazali (e o dualismo persa zoroastriano do Irã: Luz pura contra Trevas puras, Bem contra Mal metafísico que deve ser erradicado), o judaísmo preservou a tradição talmúdica onde até as opiniões perdedoras são registradas com respeito. Hierarquicamente a pergunta sempre está acima da resposta. Incerteza acima da certeza. Ciência como subproduto da dúvida sagrada. Se você acha que já possui a Verdade Divina absoluta, você para de pesquisar. Se você é humilde diante da complexidade da realidade, você constrói o Iron Dome.
O Irã, ao contrário, vive preso ao dualismo persa ancestral: o mundo só ficará “puro” quando o Mal (Israel, América) for exterminado. Mas todo movimento que busca pureza absoluta termina em tirania e sangue, porque a realidade humana é, por definição, impura, contraditória, complexa. O judaísmo, ao contrário, aceita o mal como ausência de bem, algo a ser gerenciado, não erradicado em holocausto utópico. É por isso que o contraste é tão brutal. No mesmo momento em que mísseis iranianos cruzavam o céu de Israel durante o Sucot de 2024, os israelenses estavam sentados em sua sucah, aquela cabana frágil que simboliza vulnerabilidade. A sucah balançava com o vento. Mas dentro dela havia uma força que nem Al-Ghazali, nem Qutb, nem Nasrallah conseguiram compreender: a força de quem parou de se sentir vítima e voltou a ser ator da História. A união não era mais de trauma (como em 7 de outubro de 2023). Era a “união do sucesso”. A união de quem recuperou a iniciativa.
O Islã radical, ao abraçar o culto político da culpa e da pureza, condenou-se ao declínio perpétuo. Israel, ao preservar a humildade da pergunta e a coesão do clã, tornou-se a anomalia que desmente todas as leis da sociologia histórica de Ibn Khaldun.
E é aqui, neste exato instante da História, que o coração do Oriente Médio parece bater mais forte. Porque o que está em jogo não são apenas fronteiras ou foguetes. É o futuro da alma humana nesta região. De um lado, uma visão de mundo que escolheu o espelho quebrado, o ódio como combustível e a pureza como prisão. Do outro, uma pequena nação que, contra todas as probabilidades, escolheu manter o espelho inteiro: olhar para dentro, assumir erros, questionar, inovar, amar a vida com todas as suas imperfeições.
Que o mundo muçulmano encontre, um dia, a coragem de recolocar aquele espelho no lugar. Que ele volte a ouvir a voz de Avicena e Maimônides, em vez de Qutb e Al-Ghazali. Que ele entenda que a verdadeira grandeza não nasce do ódio ao outro, mas da honestidade consigo mesmo. Porque só então o paraíso perdido poderá, talvez, ser reencontrado. Não como sonho utópico de califado, mas como realidade viva: uma civilização que escolhe o futuro em vez do ressentimento, a pergunta em vez do dogma, a vida em vez da morte. A resposta, como sempre, está no espelho que o Islã radical quebrou em 1095, e que, até hoje, não teve coragem de recolocar no lugar. Que ele o recolha. Antes que seja tarde demais. Antes que o coração do Oriente Médio pare de bater de vez.