Trabalho mais recente publicado:
1641. “Prefácio” ao livro de Sergio Abreu e Lima Florencio, Um Mundo em Transformação: qual o lugar do Brasil? (Curitiba: Appris, 2026, ISBN: 978-65-250-8829-7). Relação de Originais n. 4971.
Prefácio ao livro de Sergio Abreu e Lima Florencio:
Um Mundo em Transformação: qual o lugar do Brasil?
(Curitiba: Appris, 2026)
Diplomatas escrevem muito. É do ofício. Faz parte do aprendizado da profissão, uma segunda natureza, simplesmente obrigatória. Geralmente ofícios e telegramas, antigamente cuidadosamente elaborados a bico de pena e despachados pelos navios a velas, em seguida nos barcos a vapor, já no século XX enviados por via aérea, nas malas diplomáticas ou nos cabogramas, alguns nos antigos códigos secretos, depois de datilografados mecanicamente, passando pelo telex, mas, desde as mais recentes décadas, convertidos em simples e-mails, como uma reles mensagem pessoal, eventualmente cifrada e sempre adornada pelos indexadores de arquivo e remissões adequadas.
O assunto é sempre a política externa, do próprio país, ou de outros, bilateralmente ou no plano regional ou multilateral, também sobre a política internacional, em geral, ou das grandes potências, aquelas que podem influenciar a postura do país para o qual ele é pago em sua tripla missão de representar, informar e negociar, que é a razão de nossa existência. Sempre achei curioso que, ao longo de uma carreira que geralmente se estende por mais de quatro décadas, nunca se tenha agregado, à descrição dessas três funções, burocráticas, digamos assim, a função de pensar. Sim, de pensar, o mais elementar dever de todo funcionário dedicado à defesa dos interesses externos do país que ele representa, ao qual ele informa sobre os assuntos passados e havidos nessa representação externa, e em proveito do qual ele é eventualmente chamado a negociar, e que deveria, antes de tudo, pensar nas tarefas que lhe são cometidas e opinar sobre elas, acrescentando aos deveres obrigatórios a faculdade de propor vias, meios, alternativas de ação mais compatíveis com o chamado interesse nacional.
Desde quando conheci o Sérgio Florencio, nos albores do Mercosul, até há pouco o mais importante projeto da diplomacia brasileira – ou do Brasil, tout court – encontrei um colega de trabalho que ousava pensar. Mais ainda, ousava escrever o que pensava, e fazia questão de expressar o seu pensamento de forma aberta, para o escrutínio dos colegas e de todo mundo. E assim continuou indefinidamente nas décadas que se seguiram, até chegarmos a este novo livro. Quando voltei de Montevidéu, um ano depois de assinado o Tratado de Assunção, nos encontramos trabalhando sob o mesmo chefe enérgico e inovador, o embaixador Rubens Barbosa. Aproveitei o aprendizado do Mercosul ainda de fraldas para escrever meu primeiro livro sobre o projeto de integração: O Mercosul no contexto regional e internacional (1993). Dois anos depois, Sergio Florêncio, já com o Mercosul na mamadeira do crescimento prometedor, lançava o seu Mercosul Hoje, que desfrutou de uma bem-merecida segunda edição, por justamente discutir todas as tarefas que o novo bloco deveria cumprir, para crescer grande, belo e forte, como os colegas diplomatas da União Europeia sempre almejaram.
Mas Sergio Florencio foi bem mais além, tantos nos meandros da burocracia multilateral onusiana, quanto nos caminhos sempre sensíveis da diplomacia bilateral, onde os interesses do Brasil, em cada uma das chefias de embaixadas que ele assumiu, são testados mais diretamente. E os testes foram muitos, tanto na revolução iraniana de 1979, quanto em momentos da vida política turbulenta da América Latina. Ele nunca deixou de pensar, e de escrever, em cada uma dessas oportunidades que lhe foram oferecidas numa vida diplomática sempre animada, levando consigo uma família vibrante para cada canto do planeta. Mesmo depois de aposentado da carreira, quando a maior parte dos diplomatas se dedicam a hobbies mais amenos, Sergio Florencio nunca deixou de refletir sobre tudo o que contemplou, de que eventualmente participou, e de escrever a respeito, numa combinação de pura maestria acadêmica – pois ele leu extensa e intensamente sobre tudo o que escreveu – e de grande capacidade de transformar sua experiência direta dos “causos” abordados em síntese clara em favor de seus muitos leitores. Como Rubens Ricupero, a quem ambos devotamos compreensível admiração, ele não foi só um diplomata diligente, atento ao cumprimento dos deveres burocráticos, mas sobretudo um professor, diretamente nas aulas de Política Externa Brasileira no Instituto Rio Branco, ou indiretamente nos seus muitos escritos publicados, como os artigos que aqui agora se enfeixam, divulgados em sua maior parte no portal da Interesse Nacional, dirigido por este outro grande diplomata que é o embaixador Rubens Barbosa.
Tenho orgulho de ser seu amigo, desde aqueles primeiros anos da década de 1990, mas também confesso um pouco de inveja, pela sua enorme produtividade e dedicação aos escritos de conjuntura, artigos que trazem luz e compreensão aos problemas diplomáticos mais complicados da modernidade. Sergio Florencio o faz sempre com os olhos postos na posição do Brasil em face desses desafios, através dos quais eu sempre aprendo mais um pouco sobre as qualidades que compõem um grande diplomata como ele. Estudantes, pesquisadores, simples interessados na complexidade das relações internacionais atuais poderão aprender muito mais pela leitura de mais um livro dele. Tenham certeza de que vários outros livros virão, nos anos à frente.
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Brasília, 2 de julho de 2025

Nenhum comentário:
Postar um comentário