Mostrando postagens classificadas por data para a consulta milei. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta milei. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de agosto de 2026

“Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática” diz Carlos Frederico Coelho (WW)

Especialista: Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão diplomática

Ao WW, Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme, avalia como o Brasil navega as relações com Estados Unidos e Argentina em meio à ordem internacional em transição

Da CNN Brasil07/08/26
O Brasil tem lidado de forma razoavelmente satisfatória com as tensões diplomáticas envolvendo os Estados Unidos e a Argentina, na avaliação de Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme. Ao WW, o especialista analisou os desafios enfrentados pela diplomacia brasileira no atual cenário internacional.

Questionado sobre se o Brasil estaria sabendo lidar com o presidente americano, Donald Trump, e o presidente argentino, Javier Milei — descritos como "adversários diplomáticos" —, Coelho foi direto: "Eu acho que está lidando razoavelmente bem." Para ele, o tema está intrinsecamente ligado ao próprio projeto de país e à política externa brasileira.

Ordem internacional em transição

O especialista contextualizou o cenário global ao afirmar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ordem internacional passou por renovações, especialmente após o fim da Guerra Fria. Segundo ele, o mundo vive hoje uma fase de transição cujo destino ainda é incerto.

"A gente entende que a gente está numa ordem internacional em transição, sem que a gente saiba exatamente transição para onde ou transição para o quê", afirmou.

Coelho destacou que essa fragmentação da ordem internacional abre espaço para novos arranjos e possibilidades, mas também impõe novos testes e riscos aos países. Nesse contexto, o uso de "estratégias coercitivas" por parte do governo americano torna o espaço de atuação e de escolha do Brasil mais custoso.

Tradição de não alinhamento sob pressão

O professor ressaltou que a diplomacia brasileira tem uma longa tradição de não alinhamento, postura que se mostra mais confortável em períodos de menor turbulência internacional.

"Esse não alinhamento é mais confortável em tempos mais tranquilos e muito mais caro em tempos de escolha", explicou. Para Coelho, os Estados Unidos estão cobrando do Brasil a fatura desse conforto diplomático.

Ao final, o especialista atribuiu uma nota à atuação brasileira: "Acho que o Brasil vai navegando — de 0 a 10, eu daria um 7 para como o Brasil está navegando essa situação." A avaliação sugere que, apesar das dificuldades, o país tem conseguido manter um desempenho positivo diante das pressões externas.


Trump prefere guerra ideológica com Brasil a interesse estratégico dos EUA no país, diz Anthony Pereira - Joâo Caminoto (BBC Brasil)

Trump prefere guerra ideológica com Brasil a interesse estratégico dos EUA no país, diz analista

'Se Trump olhasse Brasil de forma mais estratégica, estaria interessado em minerais críticos', diz Anthony Pereira


João Caminoto

De Paris para a BBC News Brasil, 7 agosto 2026


Em 2022, a eleição presidencial brasileira foi disputada em grande medida em torno de uma única questão: a sobrevivência da democracia. Anthony Pereira teme que 2026 seja diferente, e que isso, paradoxalmente, seja o maior risco.

Cientista político britânico, Pereira é uma das vozes de maior autoridade sobre o Brasil no exterior. Dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies, na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King's College, em Londres, que comandou por uma década.

Acompanha as eleições brasileiras desde 1989 e escreveu alguns dos livros de referência sobre o país, entre eles Ditadura e Repressão, sobre a legalidade autoritária dos regimes militares do Brasil, do Chile e da Argentina.

A entrevista foi realizada em um momento de tensão aguda entre Brasília e Washington. No mesmo dia, o governo de Donald Trump havia revogado o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, mais um capítulo de uma escalada que inclui ataques do secretário de Estado, Marco Rubio, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a indicação de um embaixador americano para Brasília feita sem a consulta prévia que o protocolo diplomático exige.

No pano de fundo regional, a viagem de Javier Milei a São Paulo, dias antes, para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), na qual o presidente argentino chamou Lula de ladrão, corrupto e presidiário, abrindo uma crise que culminaria na decisão do governo brasileiro de rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.

Para Pereira, o episódio diz menos sobre a política externa argentina do que sobre o próprio Milei, dividido entre o presidente que precisa recuperar a economia do país e a tentação de se tornar "a grande estrela global da direita".

Na conversa a seguir, Pereira fala sobre o isolamento diplomático do Brasil, a onda de direita na América Latina, o que uma direita radical internacionalmente articulada tem em comum e no que se divide, e por que, apesar de tudo, ele não é pessimista quanto ao futuro do país.

BBC News Brasil – O governo Trump acaba de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Como o senhor lê essa decisão?


Anthony Pereira – Acho que a decisão do governo Trump reflete a tendência que eles têm de ver o Brasil por uma lente ideológica, político-partidária, e não pela lente do interesse nacional.

Se tivessem olhado para o Brasil de forma mais estratégica e geopolítica, estariam interessados em minerais críticos, inclusive em terras raras. Estariam interessados em cooperar com o Brasil no combate ao crime organizado. Poderiam ter interesse mútuo na produção de etanol. Poderiam ter interesse mútuo na proteção da Floresta Amazônica.

Mas o que se vê do secretário de Estado, Marco Rubio, são ataques pessoais ao presidente Lula e uma alegação sem fundamento de que o Brasil não estaria negociando de boa-fé com os Estados Unidos. E agora vem essa revogação do visto da embaixadora brasileira.

E não devemos esquecer que o anúncio de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos no Brasil foi feito sem consulta ao Brasil, o que é protocolo, é tradicional, e não obriga o Brasil a aceitá-lo como representante dos Estados Unidos em Brasília.


BBC News Brasil – Na política de Trump para a América Latina, vê também uma estratégia ideológica?

Pereira – Eu estava falando com um ex-diplomata brasileiro sobre isso. O que ele gostaria de ver do governo Trump, e que não está sendo produzido, é uma política positiva para a América Latina. Ou seja: parar de criticar a China e a presença chinesa nas economias, especialmente na América do Sul, e propor algo positivo. Propor financiamento americano para infraestrutura, dar financiamento por meio dos bancos multilaterais e de bancos estatais, para empresas americanas investirem na infraestrutura de que a região precisa. Competir com a China positivamente.

Talvez um governo no futuro faça isso. Mas o governo Trump, para mim, é muito mais negativo. É um governo que olha para a região como fonte de drogas, de imigrantes, de coisas indesejáveis, e que tem de ser subordinada. É uma política que não víamos desde a época da diplomacia das canhoneiras, no fim do século 19 e começo do século 20, quando os Estados Unidos intervinham militarmente na América Latina para proteger seus interesses.

Não tem efeitos positivos, porque cria reação. Gera a sensação de que não se pode confiar nos Estados Unidos, porque vão impor tarifas contra a sua economia, vão deportar seus cidadãos. Não parece um parceiro confiável. A tendência natural será buscar apoio na Europa, na Ásia, com outros Estados. Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, foi para mim o expositor mais claro da posição das potências médias: é preciso contrabalançar com política multilateral para conter os danos nessas relações.

Isso é chocante. Se você produz esse tipo de reação no Canadá, que sempre foi confiável, sempre foi amigo dos Estados Unidos, imagine o efeito dessas políticas em outros países.

Foi dito abertamente que eles, a América Latina, precisam muito de nós, e que nós não precisamos deles. Quase se glorificou essa assimetria como uma coisa positiva para os Estados Unidos. Estes não são os Estados Unidos que eu conheço da minha juventude, de quase toda a minha vida até agora. É contraproducente tratar os aliados dessa forma.

Há muitas afinidades culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, muitas razões para trabalhar juntos. Vi na Flórida muitas famílias com um pé nos dois países. Há muitas oportunidades de construir coisas juntos. Mas com essa atitude, acho difícil.


BBC News Brasil – O Brasil é hoje o último grande país da América do Sul governado pela esquerda. É uma exceção ou o último dominó?

Pereira – Eu acho que o Brasil, por enquanto, é uma exceção, porque representa uma perspectiva de economia política que está desaparecendo no resto da região. Se você pega o período posterior à crise financeira de 2008, na Europa e nos Estados Unidos, a resposta foi basicamente austeridade, apesar de a crise ter sido uma crise financeira do setor privado. A reação nos dois lados do Atlântico foi cortar o setor público. E o efeito indireto desses cortes foi aumentar a desigualdade.

O Brasil, entre outros casos no chamado Sul Global, tentou outra coisa: programas sociais, atenção ao salário mínimo, acesso à educação, acesso a treinamento, políticas de expansão e inclusão. Ao longo dos anos 2000, o Brasil estava diminuindo a pobreza e até reduzindo um pouco a desigualdade. A África do Sul fazia coisa semelhante, a Índia, até a China. Mas, em geral, no mundo do capitalismo avançado, não houve esse tipo de perspectiva.

Então o Brasil, para mim, continua nessa trajetória. Não radicalmente. Eu não diria que o governo atual é um governo radical de esquerda.


BBC News Brasil – O próprio Lula já disse que não é de esquerda.

Pereira – Ele próprio falou que não é. Mas o PT, o Partido dos Trabalhadores, tem esse compromisso com políticas sociais, com as condições de trabalho e com os salários dos trabalhadores. E, apesar de um Congresso muito mais conservador, que o obriga a fazer concessões, o governo representa o que eu chamaria de uma demonstração de que a social-democracia é possível no século 21. É diferente da social-democracia clássica da Europa. Mas, para mim, é muito importante que alguns governos no mundo continuem mostrando que isso é possível.

E que sirva também de contrapeso ao discurso da extrema direita de que o globalismo é um mal perverso que está destruindo o mundo. É um grande exagero, uma grande distorção do mundo atual, e conduz esses países a políticas públicas nefastas: xenofobia, divisão das populações, uns contra os outros.

A extrema direita eleva valores que considera mais importantes do que a democracia. É uma perversão. Nessa fala sobre a civilização ocidental, os valores associados a ela às vezes são os mais atávicos, os mais violentos. E as coisas boas se perdem: as instituições, a igualdade, a cidadania, a liberdade de expressão, a liberdade de pesquisa científica, o debate público sobre os meios de governar o país. Sobram as guerras de religião, as guerras sobre pureza étnica.

Talvez eu esteja dando importância demais à eleição de 2026 no Brasil, criando uma imagem além da própria realidade dela. Mas, para mim, essa eleição é muito importante, porque pode mostrar ao mundo que não é preciso chegar a esse extremo para preservar valores que são positivos para a maioria das pessoas.


BBC News Brasil – Há algo de legítimo no diagnóstico que a direita radical faz?

Pereira – Esse é o outro lado da moeda, e é verdade: os governos do status quo não necessariamente solucionaram esses problemas. Mesmo que a gente vá criticar esses partidos de extrema direita, temos que admitir que às vezes as críticas que eles fazem têm validade. Eles estão identificando problemas reais na sociedade. E simplesmente defender o status quo não é adequado aos desafios contemporâneos.


BBC News Brasil – Milei veio ao Brasil para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro e chamou Lula de ladrão, corrupto, presidiário, lixo socialista. Um presidente em exercício atacando o vizinho dentro da casa do vizinho. Já tinha visto algo assim?

Pereira – Na história recente, não. A única coisa que talvez possa salvar a situação é que, abaixo do nível dos presidentes, eu creio que ainda há diálogo entre Brasil e Argentina, que é o eixo fundamental do Mercosul, o bloco econômico que reúne os dois países ao lado do Paraguai e do Uruguai. Há diálogo positivo e pessoas solucionando problemas em comum nesse nível, nos ministérios das Relações Exteriores.


BBC News Brasil – Qual seria o objetivo de Milei com isso?

Pereira – Eu tenho a impressão de que ele gostaria de ser a grande estrela global da direita. Está muito alinhado com as afinidades que tem com Trump. Mas Trump não é um libertário. Trump não gosta do livre mercado. Trump gosta de controlar a economia. O ideal dele são as políticas públicas dos Estados Unidos na época de William McKinley, presidente no fim do século 19, associadas ao protecionismo e à defesa da indústria americana.

Há uma tensão na presidência de Milei. Ao mesmo tempo em que ele quer ser essa grande estrela da direita e, por isso, vai ao Vox, o partido de extrema direita espanhol, criticar o primeiro-ministro da Espanha, critica Lula, aparece na CPAC, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos, e cumprimenta Trump, ele também é responsável pela recuperação da economia argentina, que precisa da economia brasileira como parceira. E precisa de investimento internacional, o que exigiria um pouco mais de cautela, um pouco mais de discrição.

Ele está dividido. Às vezes tem a personalidade do presidente responsável, tentando recuperar a economia. Outras vezes, essa tentação de ser grande estrela, grande personalidade.

Tenho dúvidas de que ele tenha convencido muitos eleitores brasileiros, ou de que Flávio ganhe votos por causa do apoio dele.


BBC News Brasil – Existe hoje uma direita radical internacionalmente coordenada e alinhada?

Pereira – Há uma rede, com certeza. Eu vi isso quando Viktor Orbán era primeiro-ministro da Hungria. Orbán financiou, por exemplo, políticos do Reform, o partido de direita radical britânico. Pagou políticos nos Estados Unidos também. Gastou dinheiro para ajudar a criar essa rede. Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, também tentou cooperar com vários movimentos na Europa.

É complexo estudar isso, porque nem todas essas redes são visíveis. Há um encontro fascinante descrito no livro de Benjamin Teitelbaum, etnomusicólogo americano que estuda a extrema direita, sobre os tradicionalistas: um encontro em Roma entre Steve Bannon e Alexander Dugin, o filósofo ultranacionalista russo próximo ao Kremlin. Os dois analisaram o mundo e concordaram que o globalismo era o grande mal. Mas, para Dugin, a origem do globalismo eram os Estados Unidos, e, para Bannon, era a China. As soluções são muito diferentes.

Às vezes os pontos principais migram de um lugar para outro. Notei isso no bolsonarismo no fim de 2019 e em 2020. A educação domiciliar, o chamado homeschooling, é um movimento forte nos Estados Unidos, e houve alguns debates no Brasil sobre promovê-la. Mas não pegou, não há tradição disso no país. Talvez a coisa mais parecida tenha sido promover escolas militares, como escolas com disciplina.


BBC News Brasil – Todo esse debate de política externa, Trump, Milei, tem impacto decisivo no eleitorado brasileiro?

Pereira – Não tenho certeza. Eu estava olhando alguns resultados de pesquisa recentes sobre as ideias do eleitorado. Acompanho várias eleições desde 1989, e os temas fundamentais são economia doméstica, segurança pública, saúde, educação, talvez transporte público. Tenho dúvidas de que essas questões geopolíticas, por exemplo, a influência possível do governo Trump, sejam cruciais para muitos eleitores no Brasil.

Acho que isso vai ser fundamental também nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro. Muitos eleitores vão lembrar que, em 2024, Trump criticou a inflação do governo Biden, que realmente subiu e era um problema. Mas, desde então, os preços não baixaram. Estão mais altos do que em 2024. Essa questão, que em inglês se chama affordability, o custo de vida, vai ser fundamental. Talvez Brasil e Estados Unidos tenham afinidades nesse aspecto: muitos eleitores estão focados nessas questões cotidianas.

Talvez por isso as tentativas do governo Lula de promover soluções para o endividamento, um problema que cresceu bastante, possam render alguns frutos. É uma tentativa de aliviar as pessoas dessas dívidas pesadas, que afetam a capacidade de compra.


BBC News Brasil – A economia brasileira não vai mal, mas isso não se reflete na popularidade do presidente.

Pereira – Não é totalmente diferente da situação de 2024, quando os dados básicos da economia de Biden não eram horríveis, mas as pessoas não sentiram isso. Estavam reclamando. Mostra como é difícil governar. Sociedades polarizadas, com fontes de informação totalmente diferentes dos dois lados, tornam muito difícil criar um consenso sobre como interpretar os dados econômicos.

Em 2025, participei de um encontro com empresários brasileiros e argentinos em Buenos Aires, e tive a sensação de que eles não têm confiança no governo Lula em relação a gastos e ao déficit fiscal, mesmo que os resultados sejam razoáveis, se você pegar a inflação e o desemprego. Talvez com outro político eles tivessem mais confiança. Essencialmente, parece que não confiam nele para conter os gastos e manter um déficit fiscal razoável.


BBC News Brasil – Você já falou da necessidade de uma direita democrática na América Latina. Com a ascensão da direita radical, ela parece ter desaparecido. É um fenômeno reversível?

Pereira – Espero que sim. Vamos ver nos Estados Unidos se, depois da eleição de novembro, vão aparecer dentro do Partido Republicano mais figuras como as do passado. Republicanos capazes de criticar os excessos de Trump, capazes, por exemplo, de criticar a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump tentaram impedir a certificação da vitória de Biden, o que a grande maioria dos republicanos não fez.

Nesse sentido, eu vejo o Brasil como um pouco mais positivo. Pelo menos em termos do establishment político, depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, os governadores dos partidos de direita, os membros do Congresso e a opinião pública em massa condenaram os ataques, a violência e os saques. Criaram um consenso muito mais amplo do que se viu nos Estados Unidos, onde a maioria dos republicanos não aceitou as críticas feitas pelos democratas.

Agora há muitas pessoas que querem anistiar os responsáveis pelos ataques de 2023 e não querem criticar a família Bolsonaro. Mas talvez depois desta eleição seja possível que algo emerja. Quem fala muito sobre isso é Sérgio Fausto, diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Ele escreveu um artigo muito eloquente sobre a necessidade de a direita democrática assumir uma postura mais firme na política brasileira. Articulou essa ideia muito bem.


BBC News Brasil – Como você está vendo a eleição brasileira?

Pereira – Estou um pouco preocupado. Diferentemente de 2022, quando houve uma sensação muito forte de que a eleição girava em torno da defesa da democracia, uma coisa emblemática, tenho a impressão de que hoje menos pessoas acham que a democracia é um tema central. Seja Flávio, seja Lula, não importa tanto. Tenho essa impressão, ainda que esteja distante.

É um perigo, no sentido de que pode haver um retrocesso depois da eleição. Por exemplo, se houver anistia, se as coisas que foram feitas forem esquecidas.


BBC News Brasil – No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro?

Pereira – Não estou dizendo que toda a agenda de Flávio seja autoritária. Mas aumenta o risco, sim.


BBC News Brasil – E um quarto mandato de Lula?

Pereira – Para mim, falta uma ideia clara do projeto do governo atual, caso ganhe outro mandato. É claro que eles não querem um Bolsonaro de volta à Presidência. Mas, além disso, é preciso mostrar ao público um projeto de quatro anos que vá melhorar o país em várias áreas.


BBC News Brasil – Muito se falou no século passado que o Brasil era o país do futuro. Vê a perspectiva do Brasil dar um salto? E o que seria necessário?

Pereira – Eu não sou totalmente negativo sobre o Brasil. Li um artigo recentemente sobre a ansiedade nos Estados Unidos, com a percepção de que a agricultura americana, que era o berço da produção de comida para o mundo, está perdendo esse papel para o Brasil. O Brasil tem muita terra, tem uma fronteira agrícola enorme um uso de tecnologia muito avançado. Há áreas como essas em que o Brasil tem um futuro muito forte.

O medo que eu tenho, não só em relação ao Brasil, mas à América Latina em geral, é que se estagne nesse patamar de fornecedor de commodities, bens agrícolas e minerais, que ao longo da história sempre foi a armadilha. O sonho de industrialização em meados do século 20 era exatamente para escapar desse papel subordinado. Acho que o Brasil e os outros países da região têm muito mais a fazer para subir na cadeia de valor agregado: a transformação digital, uma força de trabalho mais educada, mais treinada, com mais habilidades.

Não vejo isso como impossível. Os Estados Unidos têm problemas sérios e estão em decadência, na minha perspectiva, em termos de papel global. A Europa também está em declínio na sua contribuição para o PIB global, e tem divisões culturais profundas, que estamos vendo nas eleições. A Ásia está em ascensão, e o Brasil tem uma conexão com a Ásia que é muito produtiva. Então não sou pessimista em relação ao Brasil. Acho que tem capacidade de solucionar problemas.

O que falta são políticos que falem sobre o interesse nacional. Nas campanhas, o que predomina são os ataques pessoais. Um debate interessante seria: é possível reindustrializar? O que significa reindustrializar com o tipo de produção que temos hoje? Não vejo muita discussão sobre isso, infelizmente.

BBC Brasil

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Lula's Foreign Policy 3 and the Options Open to Brazilian Diplomacy - Paulo Roberto de Almeida (Revista CEBRI online) + Madame IA interpretation

 Most recent published article:

Lula's Foreign Policy 3 and the Options Open to Brazilian Diplomacy
Revista CEBRI online, July 30, 2026


        The prospects for Lula's third administration foreign policy appeared especially favorable in the immediate aftermath of the October 2022 elections: the experienced Brazilian president during the eight years of his first two terms (2003-2010), a major sponsor of his successor's victory in 2010 and 2014, and the likely winner of the 2018 elections–were it not for a political "veto" imposed by the high command of the Armed Forces, and subsequently by the Supreme Federal Court–was received by the national and international press as the "restorer" of a diplomacy deformed and tainted by the followers of anti-globalism inspired by the lunatic theories of the far-right, disseminated during Trump's presidency (2017-2020) and absorbed by the erratic governance that took over the country between 2019 and 2022. Even before taking office, Lula was enthusiastically received at a COP 27 meeting (Cairo, December 2022) and conveyed to everyone his commitment to a Brazilian policy decidedly dedicated to the energy transition, the protection of the Amazon, and other goals established in the 2015 Paris Agreement, which had been deliberately rejected during Jair Bolsonaro's government.
        The favorable forecasts for the return of the “active and assertive diplomacy” of his first two terms were further highlighted when, in the first months of 2023, Lula decided to invite his South American colleagues to two meetings in Brazil: the first was announced almost immediately after his inauguration, aimed at reviving or restructuring UNASUR, created under the auspices of Brazil and integrated by its continental neighbors, despite certain Chavista manipulations (such as removing a possible secretariat in Rio de Janeiro, as proposed by Celso Amorim in 2004, in what was still the South American Community of Nations, and financing, with Venezuelan petrodollars, the construction of a beautiful building in the capital of Ecuador, also Bolivarian, under Rafael Correa). Even before receiving the heads of state or government in Brasília, Lula hosted, in an informal State visit, President Maduro, Chávez's successor, which caused some discomfort among other guests. The meeting did not produce the expected results; instead, the decision was made to refer the "rebirth" of UNASUR to a working group composed of foreign ministers, who were supposed to produce a report within six months. That report never materialized.
        The second meeting of the member countries of the Amazon Cooperation Treaty Organization (ACTO), at the beginning of the second semester, was intended to promote potentially contradictory objectives: fulfilling multilateral commitments to safeguard the Amazon's natural resources and its biological diversity, while also being consistent with the energy transition to renewable sources, even with the potential for immediately available wealth in old fossil resources (which awaited exploration by Brazil itself near the mouth of the Amazon). The meeting ended without any coherent agreement between advocates of a preserved Amazon and pragmatic supporters of oil exploration, resulting in the same failure as the first meeting.
Immediately following this, the Hamas attack on Israeli sites near the Gaza Strip in October 2023 triggered the largest and most serious conflict between supporters of the Palestinian cause–including Iran, via Hezbollah in Lebanon and the Houthis in Yemen–and the Israeli Defense Forces, surpassing virtually all confrontations since the wars of the 1960s and 1970s or the waves of various intifadas that followed. Lula sided with the Palestinian cause, as he had done since 2010–by recognizing the Palestinian Authority as a sovereign state and establishing a Brazilian representation in Ramallah–which generated a clash with the Netanyahu government, as Lula spoke impromptu about "holocaust" and "genocide." Brazil was left without representation in Tel Aviv, and bilateral diplomatic relations have been effectively severed since then.         A new confrontation, between Israel and the US and the Islamic Republic of Iran, emerged in the immediate aftermath of the war in the Gaza Strip, amplified by Iranian bombings against Israel, followed by devastating attacks against Iran and its political leadership. Lula, for various political reasons–among them the inclusion of Iran in the BRICS+ bloc–did not hide his political stance, which, obviously, created new friction with the second Donald Trump administration, which won the November 2024 elections, before which Lula had declared his support for the Democratic candidate.
        The year 2025 saw Trump II expand the dismantling of the multilateral trading system, beginning with a tariff offensive directed against virtually all US trading partners, first in April, in a graduated "architecture" based on bilateral deficits–which left Brazil with a base tariff of 10%–but which was subsequently aggravated by new abusive surcharges, as those affected were reluctant to comply with the unilateral impositions of the American president. In the case of Brazil, the commercial offensive quickly transformed into a political blitzkrieg–driven by the Bolsonaro family–in the middle of the year, when Trump sent a personal letter to Lula demanding the dismissal of the case and the conviction of the coup plotters responsible for the January 2023 attacks on Brazil's three federal branches (very similar to the January 2021 trumpist attacks against the Capitol), while simultaneously imposing various political sanctions on Brazilian authorities, including the application of the Magnitsky Act against the Supreme Court judge responsible for the conviction of former President Bolsonaro. The tariff surcharges reached an unbelievable 50% ad valorem, effectively making new trade flows impossible.
        The new front of political and commercial warfare was partially averted by the actions of businesspeople from both countries involved in bilateral trade, and by the opportunity created by the seemingly fortuitous meeting between the two leaders on the sidelines of the UN General Assembly debates in September 2025. A second bilateral meeting, held during an ASEAN summit in Malaysia in October, helped ease the potential conflict. Still, a new reality with greater geopolitical impact emerged with the publication of the US national security strategy announced by the Trump administration in November, with a special focus on Latin America. Its proponents mistakenly equated it with the Monroe Doctrine of 1823, when it represented nothing more than a clumsy repetition of the Roosevelt Corollary of 1903.
Its practical effects were immediately translated into completely illegal attacks against boats in the Caribbean Sea and the Pacific Ocean, supposedly belonging to drug traffickers, who would answer to an imaginary Cartel de los Soles, whose leader would be none other than the Venezuelan president Nicolás Maduro himself, who was immediately kidnapped by American forces in Caracas (January 2026). Lula–who had already broken with the Chavista dictator following the fraudulent elections of mid-2024–proclaimed the obvious opposition of Brazilian diplomacy to this unusual gesture in inter-American relations since similar interventions by the Reagan administration in Grenada and Panama in the 1980s. Subsequently, Israeli and US forces launched devastating attacks against Iran, aiming to overthrow the Islamist theocratic government, opening a new war front with no prospect of a ceasefire or agreement to reopen the Strait of Hormuz, the focus of a new oil crisis as impactful as the two shocks of the 1970s.
        Most relevant from the perspective of Brazilian diplomacy and foreign policy, as well as its own domestic policy, is the political offensive of the Trump administration, partly led by Secretary of State Marco Rubio, but driven by the president himself, aimed at obtaining, through open and veiled pressure, electoral victories in several Latin American countries, to realize the "Shield of the Americas" project, a kind of coalition of right-wing governments explicitly aligned with the Trumpist empire. This offensive is directly connected to the highly polarized environment of the upcoming Brazilian presidential elections in October 2026, with Trump's undisguised support for the Bolsonaro family, not hesitating to mobilize other actors in his interventionist endeavor (as was the case with the participation of Argentine President Javier Milei in the party convention that consecrated the PL candidate, provoking the biggest diplomatic crisis between Brazil and Argentina since the 1970s conflict over the water resources of the Paraná River). Subsequently, President Trump announced a new trade offensive against Brazil, just days after imposing new sanctions under Section 301 of the US Trade Act, all of which were politically motivated, alleging "unfair trade" even for Brazilian regulations completely independent of trade exchanges (such as the PIX payment system, the alleged deforestation in the Amazon, or the use of forced labor in Brazil's trade with third parties).
        The stance of Brazilian foreign policy in the new context of escalating illegal actions and unilateral impositions by the Trump administration against the independent posture of national diplomacy in the hemispheric context, as well as in the broader framework of Brazilian regional and extra-regional relations, must be viewed within a challenging context that is relatively unprecedented in the country's current democratic situation. This is perhaps comparable only to the difficult choices made in the 1930s, amid external threats and confrontations provoked by expansionist powers, whose sequential development, uncontrolled by the nation itself, led to the country's involvement in the most terrible war known until that juncture in the mid-20th century. The world is currently experiencing instability in international relations, perhaps comparable only to the conditions prevailing at that juncture, when Brazilian leaders had to defend national interests against powers mightier than national capabilities.
        In this context, it is necessary to examine the conditions under which the country's foreign policy should ideally be defined and conducted, in accordance with the doctrinal foundations of Brazilian diplomacy and the possibilities open to defining the main guidelines that should guide foreign relations within the framework of the instability created precisely by the great powers, or at least by some of them, specifically the two great powers that are at the origin of the wars currently underway in two regions of the world, in Central and Eastern Europe and in the Middle East. The doctrinal foundations of national diplomacy were carefully constructed throughout the reigns of the Empire's statesmen, later refined and formalized by the reflective work and practical guidance of diplomats of high intellectual caliber, among whom we must recognize the figures of Baron of Rio Branco and the jurist Rui Barbosa, both providing the substantive mandate with which worked another statesman, Oswaldo Aranha, tasked with defining the best course of action for foreign policy choices during the darkest hours of the 1930s, an extremely challenging situation, both internationally and domestically, also marked by profound ideological divisions between right and left, in addition to an authoritarian government that hindered and prevented the action of centrist or more moderate political forces, in line with the nation's social structure.
        In that context, under the guidance of statesman Oswaldo Aranha, Brazilian diplomacy directed the nation's foreign relations in a way that preserved, to the maximum extent possible, the decision-making autonomy of a markedly presidential foreign policy, up to the point where practical guidelines managed to maintain the country's neutrality in the face of conflicts between the great powers. At the moment of greatest danger, when external threats materialized through direct attacks on national interests, diplomacy knew how to steer foreign policy towards the posture necessary to preserve the nation's independence, even going so far as to engage pragmatically in actions aimed at such existential objectives.
        In the current context, it is necessary to reflect on the best practices and guidelines for foreign policy, committed to maintaining the country's decision-making autonomy in the face of the challenges already posed to the preservation of national interests, in principle, impartially and independently vis-à-vis confrontations and clashes between the great powers, based on objectives linked to their strictly national or imperial goals. These are the lessons of the 1930s and 1940s, as illuminated by the doctrinal foundations of Brazilian diplomacy, which remain relevant today.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5415: July 29, 2026
Paulo Roberto de Almeida was a career diplomat from 1977 to 2021. He taught at the Rio Branco Institute and the University of Brasília (UnB), and served as the director of the Foreign Affairs Ministry’s Institute for International Relations Research (IPRI-MRE) (2016–2018). Among his many published books are Apogeu e demolição da política externa (2021) and Construtores da nação: projetos para o Brasil, de Cairu a Merquior (2022).
Received: July 29, 2026
Accepted for publication: July 30, 2026
Copyright © 2026 CEBRI-Journal. This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original article is properly cited.

============

Summary by Gemini AI:

Visão geral criada por IA:

Brazil's foreign policy under Luiz Inácio Lula da Silva's third term (Lula 3) focuses on three main pillars: active multilateral reengagement, climate and environmental leadership, and non-aligned strategic autonomy. Brazilian diplomacy operates in a deeply polarized and shifting global order, forcing the administration to balance traditional South-South cooperation with pragmatic adaptations to major power competition. [1, 2, 3, 4, 5]
Core Pillars of Lula 3 Diplomacy
  • Multilateral Re-entry: Restoring active participation in global forums like the G20 (hosting a historic presidency), the UN, and BRICS to advocate for reform in global governance. [1, 2]
  • Climate Governance: Positioning Brazil at the center of global environmental talks, leveraging the Amazon and sustainable development as key diplomatic assets. [1, 2]
  • Autonomous Neutrality: Maintaining a non-aligned stance on major geopolitical fractures, such as the conflicts in Ukraine and Gaza, while resisting pressure from traditional Western and Eastern blocs. [1, 2]
Strategic Options and Tradeoffs
  • Non-Alignment vs. Western Pressure:
    • Benefit: Preserves strategic independence and commercial ties with both the US, China, and emerging economies.
    • Risk: Can alienate traditional democratic partners or label Brazil as indifferent to acute international law violations. [1, 2]
  • Regional Integration vs. Regional Fragmentation:
    • Benefit: Pursuing ad-hoc diplomatic mediation (such as border stability agreements) avoids total institutional paralysis in South America.
    • Tradeoff: Traditional institutional bodies like Mercosur or a unified South American bloc face deep political polarization, limiting binding economic integration. [1, 2, 3]
  • Pragmatism vs. Ideological Reflexes:
    • Benefit: Deepens commercial partnerships across the Global South.
    • Risk: Risks friction when dealing with shifting authoritarian regimes or volatile regional neighbors whose domestic crises spill over into Brazilian borders. [1, 2, 3, 4]

  • The Foreign Policy of Lula 3 - CEBRI
    30 de jul. de 2026 — Seus efeitos práticos foram imediatamente transpostos em ataques totalmente ilegais contra barcos no mar do Caribe e no Oceano Pac...
    CEBRI
  • an Analysis of Government and Media Discourses on Brazilian ...
    Abstract. This study analyses whether Brazilian foreign policy under Lula successfully legitimised the country's international ide...
    Scielo.br
  • Brazilian foreign policy towards South America during the Lula ...
    The South American perspective combined with the country's international projection has gained precedence and are being pursued in...
    Scielo.br

Postagem em destaque

Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação Por Paulo Roberto de Almeida Revista Será!, ...