
O astrônomo – Vermeer
No conjunto de assuntos relevantes que
ocuparam o Brasil em 2025 e que continuarão a fazê-lo em 2026 – temas
econômicos, sociais, domésticos, regionais e internacionais – cabe um
destaque especial para o cenário eleitoral, que já foi aberto neste ano,
mas que assumirá especial importância em 2026, com destaque para as
eleições gerais e presidenciais. As eleições gerais serão, por sinal,
bem mais impactantes do que a própria eleição presidencial, uma vez que,
independentemente da escolha do próximo presidente, as eleições para o
Congresso (2/3 para o Senado Federal e a totalidade da Câmara dos
Deputados), tendem a confirmar o peso decisivo da representação
parlamentar na agenda política, social e econômica do Brasil, com uma
relevância menor na política externa. Conflitos entre os poderes são
inevitáveis, com destaque para a continuidade dos inquéritos – da PF e
do STF – sobre as emendas parlamentares, o principal foco de desvios do
orçamento para as benesses, consigo próprios, dos “representantes do
povo”, ou seja, as emendas fraudulentas.
O primeiro turno das eleições presidenciais
em 4 de outubro de 2026, colocará em disputa o atual presidente, Lula 3
– que já confirmou, às vésperas de completar 80 anos, que será, como se
houvesse alguma dúvida disso, o candidato do PT, aspirando um quarto
mandato, algo inédito na história política do país –, contra,
presumivelmente, o designado pela família Bolsonaro, que se refugiou na
solução familiar do senador Flávio Bolsonaro (pelo menos até março de
2026). O PSD, aquele partido que não é nem de esquerda, nem de direita,
sequer de centro, já passou a apoiar o filho sênior do clã, sugerindo o
governador de MG, Romeu Zema, como seu candidato a vice. É cedo ainda
para qualquer especulação, menos ainda quaisquer previsões, mas parece
consistente afirmar, desde já que, a persistir tal polarização, as
consequências para as orientações econômicas e sociais, assim como para a
política externa serão contrastantes, quando claramente opostas.
Voltaremos ao assunto no decorrer do ano eleitoral.
Dentre os eventos internos mais relevantes
no ano 2025, a “palma de ouro” – se é o caso do exagero retórico – fica
com o conjunto de processos condenatórios dos diversos núcleos da
tentativa golpista bolsonarista, que começou praticamente ao início do
governo, em 2019, com maior ímpeto a partir de 2021 e culminou na
depredação dos três poderes em janeiro de 2023. Pela primeira vez na
história republicana, na história do país independente tout court,
golpistas fracassados ou bem-sucedidos não são objeto de anistia, mas
condenados a prisão efetiva (ainda que as pressões para anistia
persistam). De certa forma, o Brasil se firmou no cenário internacional
da fragilização das democracias como o país que superou as ameaças reais
à continuidade da sua, o que se deveu inteiramente ao trabalho do STF
(ainda que vilipendiado não só por golpistas, mas por estratos
significativos da área conservadora).
No domínio externo, o principal evento
“brasileiro” em 2025 foi a organização da COP30, realizada na capital
paraense – para sinalizar o comprometimento do Brasil com a agenda da
sustentabilidade e da transição energética, ambos temas desafiados por
decisões do próprio governo Lula 3 no sentido de impulsionar a
exploração petrolífera na região. No plano concreto, a reunião, em si,
terminou sem qualquer acordo para um phase-out do uso de
combustíveis fósseis – o que já vinha sendo o caso nas duas COPs
anteriores, e será ainda o tom das próximas COPs – e sem qualquer
compromisso de financiamento compatível com os esforços de
descarbonização por parte dos países avançados (sendo que os dois
principais poluidores, China e EUA, ademais dos demais do “Norte
Global”, tampouco se alinharam com às metas prometidas no Acordo de
Paris, COP21, de 2015). Os cientistas continuam a antecipar, quase em
desespero de causa, que o mundo não será capaz de ficar abaixo do limite
de 1,5 graus centigrados acima dos níveis pré-industriais. Nesse
capítulo, o Brasil está absolutamente tranquilo, quanto à sua matriz
energética, mas continua a exibir a fragilidade do desmatamento, que é o
principal fator das emissões de carbono neste caso concreto.
No plano multilateral global, o Brasil é um
participante costumeiro, como convidado, das reuniões do G7 (deixou de
ser no intervalo esquizofrênico do bolsonarismo diplomático). É um
membro oficial do G20 financeiro, embora tenha deixado de figurar entre
as dez maiores economias do planeta, mas se trata de simples efeito
cambial. Mas, em nenhuma das reuniões de 2025 cabe registrar qualquer
convergência geral em torno dos grandes temas da conjuntura, que
continuaram a ser a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e a
guerra de destruição de Israel contra o território palestino de Gaza.
Curiosamente, a postura de Lula 3 (já implícita em posições registradas
sob Lula 1 e 2) se situa nas antípodas do que seria uma diplomacia
coerente e conectada, não apenas a seus valores tradicionais, mas também
aos grandes princípios do Direito Internacional: o governo Lula
condena, com razão, os ataques atrozes de Israel contra a população
civil palestina, mas permanece silente em relação aos ataques maciços
contra alvos civis na Ucrânia, o que é incompreensível no plano mais
elementar da agenda internacional, como por exemplo, sua abstenção na
resolução do Conselho de Direitos Humanos sobre as crianças ucranianas
sequestradas pela Rússia.
A razão dessa contradição (vergonhosa para a
diplomacia brasileira) tem nome, mas não endereço: trata-se do BRICS,
que não tem estatuto, nem existência formal, a não ser um simples acordo
quanto a reuniões anuais de cúpula, das quais resultam declarações
grandiosas e extensíssimas, mas que nos últimos encontros realizaram a
proeza de falar de tudo e mais um pouco, ignorando completamente o maior
conflito militar existente na Europa desde a Segunda Guerra. Cabe não
se enganar: Lula já apoiava, e de forma entusiasta, esse vínculo
(inédito) do Brasil com duas grandes autocracias, assim como, desde
2023, passou a apoiar objetivamente a agressão da Rússia contra a
Ucrânia, aumentando exponencialmente, por exemplo, as importações
brasileiras de combustíveis e de fertilizantes russos (sob a falsa
alegação de atender às necessidades nacionais, quando existem
alternativas comerciais).
O atual BRICS+ não tem nada a ver com o
BRIC original (2006-2011), nem com o BRICS (ao incorporar, pelas mãos da
China, a África do Sul), redundando no “inchamento” do bloco com novos
membros e associados, em geral críticos, para não dizer opositores, dos
países do Ocidente, em especial dos Estados Unidos e da UE, conformando
uma espécie de antiG7 e anti-OCDE. Ao lado dos cinco tradicionais,
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, as duas autocracias
conseguiram agregar – contra a vontade do Brasil e da Índia – o Irã, a
Etiópia, o Egito e os Emirados Árabes Unidos, ademais da Arábia Saudita
(que ainda não confirmou seu ingresso), sendo que Indonésia foi admitida
como novo membro a convite do Brasil (ingressou na cúpula realizada no
Brasil em 2025), que também tinha convidado a Argentina (mas a dos
peronistas), num gesto imediatamente recusado pelo presidente Milei.
Uma das realizações mais exitosas do BRICS em 2025 foi uma reunião com a Apec (Asia Pacific Economic Cooperation),
realizada no Vietnã, evento ao qual o presidente Lula compareceu,
embora não exista perspectiva de algum acordo prático no terreno da
abertura comercial, por exemplo, evolução que, aliás, jamais existiu no
âmbito do BRICS, pois que os intercâmbios comerciais continuam a ser
feitos ao abrigo do sistema multilateral de comércio (que é amplamente
abrangente para acomodar o intenso comércio bilateral do Brasil com a
China, assim como com os demais países do bloco e com todos os outros). O
Brasil continua recusando, por outro lado, ingressar formalmente no
programa chinês do BRI, o famoso “cinturão e rota”, que já incorporou
dezenas de outros países do chamado “Sul Global” e da própria América
Latina; o BRI promete ultrapassar várias vezes o famoso “Plano Marshall”
de reconstrução da Europa do pós-guerra (mas que incluía também
generosas doações americanas em alimentos e insumos diversos, ademais do
apoio financeiro ao retorno da Europa à conversibilidade monetária). A
China continuará a ser o parceiro econômico e comercial mais importante
do Brasil, mas junto disso vêm outros compromissos políticos.
Um dos elementos dramaticamente mais
relevantes do ano que finda foi a “desordem geopolítica” iniciada pelo
presidente Trump 2, não só representada pela guerra de agressão
tarifária generalizada contra aliados e competidores, mas também pelas
ameaças imperialistas contra o vizinho Canadá (“sugestão” de se tornar o
51º estado dos EUA), contra o Panamá (retomada do canal, “devolvido” em
1999), contra a Dinamarca (ao pretender incorporar compulsoriamente o
“território autônomo” da Groenlândia à soberania dos EUA) e outras
demonstrações de unilateralismo extremo, sobretudo e principalmente
contra a Ucrânia, uma vez que Trump e seus assessores subservientes
adotam consistentemente os desejos imperiais de um outro candidato a
imperador do mundo, Putin, do qual o presidente americano parece servir
como assistente solícito. Trump praticamente desmantelou tudo aquilo que
os EUA tinham construído desde Bretton Woods (1944) e San Francisco
(1945), ou seja, o sistema multilateral de comércio e o multilateralismo
político, e se empenha em construir um novo sistema imperial tripartite
– China no controle da Ásia-Pacífico, Rússia na Eurásia e os próprios
EUA no hemisfério americano, como aliás demonstrado pela sua nova
Estratégia de Segurança dos EUA (analisada neste mesmo veículo por
Hubert Alquéres no número 688, 19/12/2025, e por este autor, no número
687, 12/12/2025).
A guerra tarifária contra o Brasil, ao
início moderada (apenas 10% de sobretaxa adicional), converteu-se no
meio do ano, por razões unicamente políticas (“solidariedade” à família
Bolsonaro), em extorsão direta, à altura de 50% ad valorem contra alguns
produtos essenciais da dieta americana: café, carne, suco de laranja,
frutas, além de sapatos, móveis, maquinário e todo o mais. Como nos
demais casos, o efeito inflacionário das tarifas fez com que o
economicamente ignorante e desequilibrado dirigente as reduzisse
posteriormente. O lado mais impactante da “estratégia trumpista” para o
reordenamento mundial (se o termo se aplica) é um retorno à política das
grandes potências do século XIX, assim como sua meta de
“reindustrialização dos EUA” nada mais representa do que uma volta aos
padrões produtivos da segunda revolução industrial. O presidente Lula,
em todo caso, parece muito satisfeito com a sua política externa, talvez
o lado mais criticável de seu terceiro governo: viajou a dezenas de
países e promete continuar ativo nessas peregrinações. Não parece perto,
contudo, de conjurar a ameaça mais visível no plano regional: o ataque
trumpista à Venezuela do ditador Maduro, assim como não conseguiu firmar
sua liderança na América do Sul.
Paulo Roberto de Almeida
[Brasília, 5153, 22 dezembro 2025, 4 p.; revisão: 23/12/2025]