terça-feira, 17 de março de 2026

China: Viagens de uma Historiadora no País do Dragão - livro de Carmen Lícia Palazzo

Novo livro de Carmen Lícia Palazzo:

China: Viagens de uma Historiadora no País do Dragão 

 https://a.co/d/00W9FHDX 

Ormuz, a arma do Irã - Yan Boechat

Ormuz, a arma do Irã

Por Yan Boechat

Nas águas turquesas e estreitas que separam as montanhas escarpadas do Irã das planícies áridas de Omã, o mundo assiste ao que analistas já chamam de a maior ”armamentização da geografia” da história moderna. O Estreito de Ormuz, uma artéria vital por onde flui um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do planeta, tornou-se o epicentro de um conflito que ameaça mergulhar a economia global em uma recessão profunda e imprevisível. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o regime de Teerã respondeu com o fechamento efetivo deste canal de apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. O que tem se seguido é um choque de oferta de energia sem precedentes e mais de três vezes maior do que o embargo petrolífero árabe de 1973, forçando o mundo a enfrentar uma volatilidade que muitos economistas acreditavam ter ficado no passado, em uma escala que desafia tanto a supremacia militar americana quanto a estabilidade das prateleiras de supermercados em São Paulo , das bombas de gasolina em Nova York e de farmácias em Nova Déli.

Ormuz tem sido um elemento estratégico nas campanhas militares iranianas desde que aquela região do mundo era conhecida como Império Persa. Ele funciona como a jugular nesta que talvez seja a rota marítima mais importante da economia mundial. Ao ameaçar “incendiar” qualquer embarcação que desafie suas ordens, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reduziu o tráfego marítimo entre 70% e 90%, mergulhando a frota mercante global em uma paralisia nervosa. Em seu primeiro pronunciamento, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, voltou a reforçar a estratégia de manter o estreito fechado. Hoje, cerca de 200 navios estão presos no Golfo Pérsico, 150 deles superpetroleiros, estão sob ameaça de serem atacados caso tentem fazer a travessia. Navios com destino à China e a outros países parceiros do Irã, no entanto, têm sido autorizados a cruzar o estreito.

O estreito é palco de todo tipo de disputa há séculos. Uma das mais longevas aconteceu exatamente entre potências ocidentais e orientais. Portugal e o Império Otomano lutaram por quase um século por este que era um ponto estratégico pelo controle das rotas comerciais do Oceano Índico. Após conquistar Goa em 1510, os portugueses passaram a ocupar portos-chave da região e consolidaram o domínio sobre Ormuz em 1515, buscando monopolizar o comércio que percorria o Golfo Pérsico. Em 1552, o almirante otomano Piri Reis lançou uma ofensiva contra posições portuguesas, capturando Mascate e atacando Ormuz, mas acabou recuando para Basra, no atual Iraque, após saquear a região. Sua retirada foi considerada um fracasso em Istambul, e ele acabou executado. Nos anos seguintes, os otomanos tentaram reforçar sua presença naval no Golfo, mas derrotas sucessivas às forças portuguesas impediram a conquista definitiva do estreito. Apesar de novos confrontos esporádicos, o controle de Ormuz permaneceu nas mãos portuguesas, consolidando um equilíbrio de poder que limitou a presença naval otomana no Oceano Índico.

Agora, o combate não é em mar aberto, entre caravelas, galeões e galés. A eficácia do bloqueio iraniano reside em uma estratégia de guerra de assimetria brutal que Washington parece ter subestimado. Enquanto o governo de Donald Trump assegurava que a guerra seria “facilmente vencida”, os estrategistas militares americanos se depararam com uma realidade tecnológica desconcertante. O Irã assimilou as lições do conflito na Ucrânia e passou a usar enxames de drones Shahed-136 — aparelhos movidos por motores de motocicleta, muitas vezes feitos de isopor e custando cerca de 30 mil dólares — para saturar e cegar os sistemas de defesa aérea mais sofisticados do planeta. Radares americanos THAAD e Patriot, projetados para interceptar mísseis balísticos de milhões de dólares, lutam para distinguir essas pequenas aeronaves lentas de pássaros ou de voos civis. Em ataques coordenados, drones iranianos já atingiram centros de comando da Quinta Frota no Bahrein e radares de alerta precoce na Arábia Saudita, criando verdadeiros pontos cegos na vigilância aliada.

As dificuldades militares americanas são agravadas por uma lacuna logística crítica: a escassez de navios caça-minas. Ironicamente, os Estados Unidos desativaram seus últimos navios especializados na remoção de minas na região pouco antes do conflito, e a capacidade britânica — outrora essencial — encolheu drasticamente. Com o Irã dispondo de um arsenal estimado em até 6 mil minas marítimas, a tarefa de limpar o estreito sob constante ameaça de mísseis antinavio tornou-se, para muitos especialistas, um pesadelo tático que pode levar semanas, talvez meses, para ser resolvido. Há, ainda, o desafio de operar em águas tão próximas da costa iraniana e de extrema vulnerabilidade. Entre os americanos, ganha força a ideia de que, para controlar Ormuz, os EUA terão que enviar soldados para garantir uma espécie de “buffer zone” costeira (ou “zona-tampão”, uma área neutra estabelecida entre dois exércitos para evitar confrontos diretos). Acontece que, para estabelecer uma zona-tampão os Estados Unidos precisariam mobilizar milhares de soldados para ocupar um pedaço do território iraniano extremamente hostil. Com as eleições de meio termo se aproximando, essa não parece uma estratégia com apoio político doméstico, porque pode ampliar significativamente as baixas, hoje contabilizadas em 11 soldados mortos.

Águas turbulentas

As ondas de choque desse impasse já atravessaram os oceanos. O mundo enfrenta agora o que analistas classificam como o maior choque de oferta de energia da história. Os preços do petróleo Brent dispararam, rompendo a barreira psicológica de US$ 100 e alcançando picos próximos de US$ 120 no final de semana passado. Para a Europa, que apostou no gás natural liquefeito como alternativa ao gás russo, o fechamento de Ormuz tornou-se um desastre. Com a produção no Catar suspensa após ataques de drones, os preços do gás no continente subiram 75%, levando os governos a cogitar racionamentos e pacotes emergenciais de subsídios. Para os Estados Unidos os preços são sentidos nas bombas e nas cadeias de distribuição, mas não da mesma maneira que na década de 1970.

Hoje os EUA são os maiores produtores de petróleo do mundo. Desde que os americanos passaram a produzir petróleo a partir do fracking, uma tecnologia que retira óleo e gás presos nas rochas, o país passou a ser autossuficiente. Foi uma virada importante no jogo. A partir dos anos 2010, o petróleo do Oriente Médio deixou de ser vital para a economia americana, apesar de ela ainda flutuar ao sabor das cotações internacionais, como agora. Na Europa, o jogo se inverteu. Extremamente dependente do gás russo após a adoção da política de reaproximação com a União Soviética nos anos 1970, os europeus passaram a buscar opções novas depois da invasão da Ucrânia por Moscou. Estava se tornando crescentemente dependente do gás natural vindo do Catar, que agora se mostra uma fonte tão instável quanto a russa.

A dor econômica, porém, é profunda e desigual. No Brasil, seus efeitos se manifestam em múltiplas frentes. Como um dos principais destinos das exportações farmacêuticas da Índia, o país enfrenta o risco concreto de desabastecimento de medicamentos genéricos e vacinas. A logística indiana — responsável por produzir cerca de 60% das vacinas do mundo — depende de Dubai como centro estratégico de distribuição e de manutenção da chamada “cadeia de frio”. Com o porto de Jebel Ali e o aeroporto de Dubai danificados por ataques iranianos, o transporte de remédios essenciais para o mercado brasileiro tornou-se um percurso caro e imprevisível.

No campo, a agricultura brasileira, motor fundamental do PIB nacional, acompanha com apreensão o aumento dos preços dos fertilizantes. O bloqueio de Ormuz retirou do mercado um terço do suprimento mundial desses insumos, justamente quando a China, maior exportadora de fertilizantes nitrogenados, restringiu suas exportações para proteger o mercado interno. O salto nos preços, em alguns casos de mais de 35% em apenas uma semana, antecipa um aumento inevitável no custo dos alimentos, que deverá chegar às mesas brasileiras em um prazo de 1 a 3 meses. Para conter o impacto imediato nos transportes, o governo brasileiro decidiu zerar os impostos sobre o diesel — uma tentativa de estabilizar a economia antes que o choque petrolífero comprometa o crescimento. No entanto, a Petrobras ampliou o preço do combustível em R$ 0,38 nas distribuidoras a partir de hoje. No Ministério da Fazenda, a expectativa de inflação para esse ano já mudou de 3,6% para 3,7%.

Enquanto isso, a geopolítica das matérias-primas passa por uma transformação acelerada. Os Estados Unidos, pressionados a reduzir a dependência da China e da instabilidade do Oriente Médio, dão sinais de que pretendem ampliar a ofensiva bilionária para garantir acesso aos minerais críticos do Brasil. Metais como cobre e níquel, essenciais para a transição energética e para a indústria de semicondutores, tornaram-se ativos de segurança nacional, especialmente diante da escassez de enxofre — subproduto do refino de petróleo do Golfo necessário para o processamento desses minerais — que já paralisa indústrias da Indonésia à África.

As próximas semanas prometem volatilidade e incerteza. O mercado de energia permanece em alerta permanente, reagindo a cada sinal vindo da Casa Branca ou de Teerã. A liberação coordenada de 400 milhões de barris das reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia foi recebida com alívio, mas também com inquietação: trata-se de uma medida de alcance limitado, incapaz de compensar os cerca de 20 milhões de barris diários que deixaram de circular. Nesta sexta-feira, o preço do petróleo seguia em alta, superando a casa dos US$ 100 o barril do Brent e a US$ 99 o barril do WTI.

Analistas trabalham com dois cenários principais. Em um cenário de bloqueio prolongado, o barril de petróleo poderia alcançar entre US$ 150 e US$ 200, empurrando o mundo para uma recessão global marcada pela estagflação — um fantasma dos anos 1970 que muitos acreditavam superado. Países mais pobres da Ásia, como Paquistão e Bangladesh, já enfrentam os primeiros sinais dessa crise, fechando escolas e lidando com protestos por combustível. Em um cenário de abertura parcial do estreito, possivelmente sob escolta naval americana, a estabilidade ainda seria frágil, com custos de seguro elevados e o risco permanente de derramamentos ambientais mantendo os preços altos e a inflação persistente.

O que emerge desse conflito é a percepção de que a infraestrutura que sustenta a prosperidade global é muito mais vulnerável do que se imaginava. O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas um corredor geográfico para se tornar o ponto de ruptura de uma ordem internacional que, por décadas, dependeu do fluxo livre de energia e de mercadorias. Hoje, cada navio parado ao largo das costas de Omã é um lembrete de que, em um mundo profundamente interconectado, um choque em uma estreita faixa de água no Oriente Médio pode redesenhar o destino econômico de países a milhares de quilômetros de distância — do agronegócio do Mato Grosso às indústrias de tecnologia de Seul. E o Irã, ao que tudo indica, parece disposto a ditar o ritmo desse abalo, consciente de que mantém nas mãos o termômetro da estabilidade global e de sua própria sobrevivência como uma república islâmica que insiste em se contrapor aos desejos coloniais das potências ocidentais. Não é, como se sabe, uma história nova. Yan Boechat

Nas águas turquesas e estreitas que separam as montanhas escarpadas do Irã das planícies áridas de Omã, o mundo assiste ao que analistas já chamam de a maior ”armamentização da geografia” da história moderna. O Estreito de Ormuz, uma artéria vital por onde flui um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do planeta, tornou-se o epicentro de um conflito que ameaça mergulhar a economia global em uma recessão profunda e imprevisível. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o regime de Teerã respondeu com o fechamento efetivo deste canal de apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. O que tem se seguido é um choque de oferta de energia sem precedentes e mais de três vezes maior do que o embargo petrolífero árabe de 1973, forçando o mundo a enfrentar uma volatilidade que muitos economistas acreditavam ter ficado no passado, em uma escala que desafia tanto a supremacia militar americana quanto a estabilidade das prateleiras de supermercados em São Paulo , das bombas de gasolina em Nova York e de farmácias em Nova Déli.

Ormuz tem sido um elemento estratégico nas campanhas militares iranianas desde que aquela região do mundo era conhecida como Império Persa. Ele funciona como a jugular nesta que talvez seja a rota marítima mais importante da economia mundial. Ao ameaçar “incendiar” qualquer embarcação que desafie suas ordens, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reduziu o tráfego marítimo entre 70% e 90%, mergulhando a frota mercante global em uma paralisia nervosa. Em seu primeiro pronunciamento, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, voltou a reforçar a estratégia de manter o estreito fechado. Hoje, cerca de 200 navios estão presos no Golfo Pérsico, 150 deles superpetroleiros, estão sob ameaça de serem atacados caso tentem fazer a travessia. Navios com destino à China e a outros países parceiros do Irã, no entanto, têm sido autorizados a cruzar o estreito.

O estreito é palco de todo tipo de disputa há séculos. Uma das mais longevas aconteceu exatamente entre potências ocidentais e orientais. Portugal e o Império Otomano lutaram por quase um século por este que era um ponto estratégico pelo controle das rotas comerciais do Oceano Índico. Após conquistar Goa em 1510, os portugueses passaram a ocupar portos-chave da região e consolidaram o domínio sobre Ormuz em 1515, buscando monopolizar o comércio que percorria o Golfo Pérsico. Em 1552, o almirante otomano Piri Reis lançou uma ofensiva contra posições portuguesas, capturando Mascate e atacando Ormuz, mas acabou recuando para Basra, no atual Iraque, após saquear a região. Sua retirada foi considerada um fracasso em Istambul, e ele acabou executado. Nos anos seguintes, os otomanos tentaram reforçar sua presença naval no Golfo, mas derrotas sucessivas às forças portuguesas impediram a conquista definitiva do estreito. Apesar de novos confrontos esporádicos, o controle de Ormuz permaneceu nas mãos portuguesas, consolidando um equilíbrio de poder que limitou a presença naval otomana no Oceano Índico.

Agora, o combate não é em mar aberto, entre caravelas, galeões e galés. A eficácia do bloqueio iraniano reside em uma estratégia de guerra de assimetria brutal que Washington parece ter subestimado. Enquanto o governo de Donald Trump assegurava que a guerra seria “facilmente vencida”, os estrategistas militares americanos se depararam com uma realidade tecnológica desconcertante. O Irã assimilou as lições do conflito na Ucrânia e passou a usar enxames de drones Shahed-136 — aparelhos movidos por motores de motocicleta, muitas vezes feitos de isopor e custando cerca de 30 mil dólares — para saturar e cegar os sistemas de defesa aérea mais sofisticados do planeta. Radares americanos THAAD e Patriot, projetados para interceptar mísseis balísticos de milhões de dólares, lutam para distinguir essas pequenas aeronaves lentas de pássaros ou de voos civis. Em ataques coordenados, drones iranianos já atingiram centros de comando da Quinta Frota no Bahrein e radares de alerta precoce na Arábia Saudita, criando verdadeiros pontos cegos na vigilância aliada.

As dificuldades militares americanas são agravadas por uma lacuna logística crítica: a escassez de navios caça-minas. Ironicamente, os Estados Unidos desativaram seus últimos navios especializados na remoção de minas na região pouco antes do conflito, e a capacidade britânica — outrora essencial — encolheu drasticamente. Com o Irã dispondo de um arsenal estimado em até 6 mil minas marítimas, a tarefa de limpar o estreito sob constante ameaça de mísseis antinavio tornou-se, para muitos especialistas, um pesadelo tático que pode levar semanas, talvez meses, para ser resolvido. Há, ainda, o desafio de operar em águas tão próximas da costa iraniana e de extrema vulnerabilidade. Entre os americanos, ganha força a ideia de que, para controlar Ormuz, os EUA terão que enviar soldados para garantir uma espécie de “buffer zone” costeira (ou “zona-tampão”, uma área neutra estabelecida entre dois exércitos para evitar confrontos diretos). Acontece que, para estabelecer uma zona-tampão os Estados Unidos precisariam mobilizar milhares de soldados para ocupar um pedaço do território iraniano extremamente hostil. Com as eleições de meio termo se aproximando, essa não parece uma estratégia com apoio político doméstico, porque pode ampliar significativamente as baixas, hoje contabilizadas em 11 soldados mortos.

Águas turbulentas

As ondas de choque desse impasse já atravessaram os oceanos. O mundo enfrenta agora o que analistas classificam como o maior choque de oferta de energia da história. Os preços do petróleo Brent dispararam, rompendo a barreira psicológica de US$ 100 e alcançando picos próximos de US$ 120 no final de semana passado. Para a Europa, que apostou no gás natural liquefeito como alternativa ao gás russo, o fechamento de Ormuz tornou-se um desastre. Com a produção no Catar suspensa após ataques de drones, os preços do gás no continente subiram 75%, levando os governos a cogitar racionamentos e pacotes emergenciais de subsídios. Para os Estados Unidos os preços são sentidos nas bombas e nas cadeias de distribuição, mas não da mesma maneira que na década de 1970.

Hoje os EUA são os maiores produtores de petróleo do mundo. Desde que os americanos passaram a produzir petróleo a partir do fracking, uma tecnologia que retira óleo e gás presos nas rochas, o país passou a ser autossuficiente. Foi uma virada importante no jogo. A partir dos anos 2010, o petróleo do Oriente Médio deixou de ser vital para a economia americana, apesar de ela ainda flutuar ao sabor das cotações internacionais, como agora. Na Europa, o jogo se inverteu. Extremamente dependente do gás russo após a adoção da política de reaproximação com a União Soviética nos anos 1970, os europeus passaram a buscar opções novas depois da invasão da Ucrânia por Moscou. Estava se tornando crescentemente dependente do gás natural vindo do Catar, que agora se mostra uma fonte tão instável quanto a russa.

A dor econômica, porém, é profunda e desigual. No Brasil, seus efeitos se manifestam em múltiplas frentes. Como um dos principais destinos das exportações farmacêuticas da Índia, o país enfrenta o risco concreto de desabastecimento de medicamentos genéricos e vacinas. A logística indiana — responsável por produzir cerca de 60% das vacinas do mundo — depende de Dubai como centro estratégico de distribuição e de manutenção da chamada “cadeia de frio”. Com o porto de Jebel Ali e o aeroporto de Dubai danificados por ataques iranianos, o transporte de remédios essenciais para o mercado brasileiro tornou-se um percurso caro e imprevisível.

No campo, a agricultura brasileira, motor fundamental do PIB nacional, acompanha com apreensão o aumento dos preços dos fertilizantes. O bloqueio de Ormuz retirou do mercado um terço do suprimento mundial desses insumos, justamente quando a China, maior exportadora de fertilizantes nitrogenados, restringiu suas exportações para proteger o mercado interno. O salto nos preços, em alguns casos de mais de 35% em apenas uma semana, antecipa um aumento inevitável no custo dos alimentos, que deverá chegar às mesas brasileiras em um prazo de 1 a 3 meses. Para conter o impacto imediato nos transportes, o governo brasileiro decidiu zerar os impostos sobre o diesel — uma tentativa de estabilizar a economia antes que o choque petrolífero comprometa o crescimento. No entanto, a Petrobras ampliou o preço do combustível em R$ 0,38 nas distribuidoras a partir de hoje. No Ministério da Fazenda, a expectativa de inflação para esse ano já mudou de 3,6% para 3,7%.

Enquanto isso, a geopolítica das matérias-primas passa por uma transformação acelerada. Os Estados Unidos, pressionados a reduzir a dependência da China e da instabilidade do Oriente Médio, dão sinais de que pretendem ampliar a ofensiva bilionária para garantir acesso aos minerais críticos do Brasil. Metais como cobre e níquel, essenciais para a transição energética e para a indústria de semicondutores, tornaram-se ativos de segurança nacional, especialmente diante da escassez de enxofre — subproduto do refino de petróleo do Golfo necessário para o processamento desses minerais — que já paralisa indústrias da Indonésia à África.

As próximas semanas prometem volatilidade e incerteza. O mercado de energia permanece em alerta permanente, reagindo a cada sinal vindo da Casa Branca ou de Teerã. A liberação coordenada de 400 milhões de barris das reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia foi recebida com alívio, mas também com inquietação: trata-se de uma medida de alcance limitado, incapaz de compensar os cerca de 20 milhões de barris diários que deixaram de circular. Nesta sexta-feira, o preço do petróleo seguia em alta, superando a casa dos US$ 100 o barril do Brent e a US$ 99 o barril do WTI.

Analistas trabalham com dois cenários principais. Em um cenário de bloqueio prolongado, o barril de petróleo poderia alcançar entre US$ 150 e US$ 200, empurrando o mundo para uma recessão global marcada pela estagflação — um fantasma dos anos 1970 que muitos acreditavam superado. Países mais pobres da Ásia, como Paquistão e Bangladesh, já enfrentam os primeiros sinais dessa crise, fechando escolas e lidando com protestos por combustível. Em um cenário de abertura parcial do estreito, possivelmente sob escolta naval americana, a estabilidade ainda seria frágil, com custos de seguro elevados e o risco permanente de derramamentos ambientais mantendo os preços altos e a inflação persistente.

O que emerge desse conflito é a percepção de que a infraestrutura que sustenta a prosperidade global é muito mais vulnerável do que se imaginava. O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas um corredor geográfico para se tornar o ponto de ruptura de uma ordem internacional que, por décadas, dependeu do fluxo livre de energia e de mercadorias. Hoje, cada navio parado ao largo das costas de Omã é um lembrete de que, em um mundo profundamente interconectado, um choque em uma estreita faixa de água no Oriente Médio pode redesenhar o destino econômico de países a milhares de quilômetros de distância — do agronegócio do Mato Grosso às indústrias de tecnologia de Seul. E o Irã, ao que tudo indica, parece disposto a ditar o ritmo desse abalo, consciente de que mantém nas mãos o termômetro da estabilidade global e de sua própria sobrevivência como uma república islâmica que insiste em se contrapor aos desejos coloniais das potências ocidentais. Não é, como se sabe, uma história nova.

Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump? - Sergio Abreu e Lima Florencio (Portal Interesse Nacional)

Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump?

Sergio Abreu e Lima Florencio

Portal Interesse Nacional, 15/03/2026

A ofensiva contra o país persa nasce da convergência entre a busca de Donald Trump por afirmar a supremacia militar dos EUA e a pressão estratégica de Israel. Embora o conflito represente risco limitado para Tel Aviv, pode se tornar uma nova derrota para Washington: guerra longa, impopular internamente e enfrentando a histórica resistência iraniana, com impactos energéticos, geopolíticos e econômicos globais

A guerra contra o Irã resulta da confluência de duas forças: a obsessão de Trump em demonstrar a supremacia militar dos EUA ao mundo e a crença fundamentalista de Netanyahu de que o regime iraniano é ameaça existencial para Israel. 

A guerra traz riscos limitados para Israel, por sua indiscutível superioridade militar diante de um Irã fragilizado após dois anos de conflagração. 

Ao contrário, para os EUA, o conflito tem potencial para ser um novo Vietnã, dada a histórica resistência da civilização iraniana à dominação das grandes potências. 

‘Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial’

“O tempo é o senhor da razão”.  Essa conhecida máxima  precisa ser adaptada, no caso, para “o tempo é o senhor da guerra”. Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial, pois conta com a oposição de cerca de 70% da população. Também exige vitória antes das eleições de meio de mandato em novembro próximo. 

Ao contrário, o regime teocrático-militar iraniano exibe maior resistência ao tempo. A infraestrutura está sendo devastada pelas forças armadas de Israel e EUA, mas o país conta com três poderosos pilares de defesa e de ataque: 

(i) grande arsenal de mísseis de médio alcance e milhares de drones capazes de destruir parte da infraestrutura física e das instalações petrolíferas dos vizinhos; 

(ii) bloqueio do Estreito de Ormuz, rota de 20% do petróleo do mundo; e 

(iii)  imaginário coletivo moldado tanto pelo espírito de luta e martírio do xiismo, como pela histórica resistência à dominação das grandes potências.

Esses fenômenos eram bem conhecidos por todos. A pergunta relevante é: Por que os EUA decidiram se aventurar numa guerra em que  poderiam se transformar na principal vítima? A resposta tem ao menos três dimensões: geopolítica, regional e o imaginário iraniano. 

Dimensão Geopolítica 

A obsessão de Trump em demonstrar supremacia militar ao mundo é uma tentativa de compensar o declínio relativo dos EUA, em contraste com a ascensão da China. 

Em 1970, os EUA representavam 28% do PIB mundial, e a China, menos de 3%. Em 2025, os indicadores foram, respectivamente, 27% e 17%. 

Nos últimos 15 anos, os EUA cresceram em média 2,5%, e a China, 7%. Desde 1978, com as reformas de Den Xiaoping, a China manteve taxas de crescimento econômico entre 8% e 10%. 

A participação no comércio mundial dos EUA, em 1980, era 13%, e a da China, inferior a 1%. Em 2023, a equação se invertia: EUA com 8% e a China, com 15%. 

‘A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países’

A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países. A China forma por ano cerca de 1,5 milhão de engenheiros, em comparação com 200 mil nos EUA. Em papers científicos, a China responde por 28,5% do total, em contraste com 13% dos EUA.

Apesar desses indicadores de declínio relativo, os EUA são a maior potência militar e a única capaz de atuar em todos os continentes. Para compensar o relativo declínio norte-americano no campo econômico, comercial e tecnológico, Trump tenta demonstrar ao mundo a supremacia militar dos EUA. O intervencionismo é o instrumento dessa estratégia compensatória.


Dimensão regional

Na esfera das Américas, as intervenções foram bem-sucedidas e de baixo custo. No Panamá, obrigou o país a romper contratos firmados com a China para exploração do Canal. Na Venezuela, após o sequestro de Maduro, preservou a ditadura chavista, mas o regime de exploração de petróleo e a política externa passaram a ser ditadas por Washington. 

No Oriente Médio, os resultados foram muito mais controvertidos. Apesar da morte de cerca de 700 mil palestinos, da destruição de mais de 70% da infraestrutura da Faixa de Gaza e da tragédia humanitária, o Hamas ainda sobrevive. Mas esses funestos resultados, produziram saldo militar positivo para Israel, que consolidou indiscutível supremacia na região. O Irã saiu inferiorizado em termos militares, nucleares e com proxies enfraquecidos – Hamas, Hezbollah, Houthis, milícias na Síria e no Iraque. 

Israel reafirmou superioridade com os ataques cirúrgicos, de junho último, contra as instalações nucleares e, sobretudo, com a tímida represália iraniana. 

‘Essa sequência de exitosas intervenções militares convenceu Trump a dobrar a aposta’

Essa sequência de exitosas intervenções militares cirúrgicas (Venezuela e Irã) convenceu Trump – sob decisiva influência de Netanyahu – a dobrar a aposta e se engajar na política de regime change. 

Foi a estrada do fracasso.

A dimensão do imaginário coletivo iraniano

Desde 1979, o Irã é uma república revolucionária cercada por monarquias conservadoras. Essa condição explica muito do radicalismo, consolidado em dois momentos decisivos – a tomada dos reféns na embaixada norte-americana e a guerra Irã-Iraque. 

Apesar desse traço estrutural, o regime viveu diversas fases que sinalizavam abertura econômica, liberalização de costumes e flexibilização política. 

‘O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, o Líder Supremo, e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica’

O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, eleito pelo voto popular; o Líder Supremo, escolhido pela Assembleia de Peritos de 88 clérigos; e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, com cerca de 200 mil membros, que controla a milícia Basij e responde diretamente ao Líder Supremo. 

Ao longo de quase cinco décadas de Revolução, grandes rebeliões populares foram ocorrendo a cada dez anos. Era a resposta indignada da sociedade a um regime que gastava mais com armamento e ajuda financeira aos proxies do que com seu povo. O divórcio entre Estado e sociedade refletia frustração e fadiga com a Revolução.

Esse quadro doméstico, somado à inferioridade militar resultante dos ataques israelenses aos proxies e ao território iraniano na Guerra de 12 dias, fragilizou o país. 

‘Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea’

Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea. O objetivo era derrubar, com bombardeios aéreos cirúrgicos, um regime com meio século de existência, com forte aparato teocrático-militar, contestado pelas classes médias, mas com apoio das camadas mais pobres e de milícias financiadas pelo governo.  

Foi uma sequência de desastrosos erros anunciados. 

Primeiro, ignorar a histórica trajetória iraniana de luta contra grandes potências – Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos. 

Segundo, subestimar a ousadia iraniana de asfixiar o mercado mundial de petróleo com o fechamento do estreito de Ormuz. 

Terceiro, ignorar as advertências das monarquias do Golfo para não atacar o Irã, diante da provável retaliação, com desastrosas consequências para suas dinâmicas mas frágeis economias. 

Daí surgiu o erro fatal – colocar o mundo em crise de muitas dimensões – econômica, militar, energética e geopolítica. Refém de Israel, os EUA insistiram na guerra. 

A Revolução Iraniana derrotou Carter. A guerra contra o Irã poderá ser o Vietnã de Trump.   

Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.

Eleições brasileiras 2026: Bolsonaro martir? - Felipe Krause

Eleições brasileiras 2026: Bolsonaro martir? 

Felipe Krause 

Linkedin, 15/03/2026


Jair Bolsonaro is currently in the ICU with severe pneumonia. If he were to die in the coming weeks, the electoral implications for Flávio Bolsonaro would likely operate through several possible mechanisms.

First, a short-term sympathy effect. In tightly balanced races — recent polls place Luiz Inácio Lula da Silva and Flávio Bolsonaro at roughly 41 percent each — even small emotional shocks can produce measurable shifts. Bolsonaro remains the central symbolic figure of the Brazilian right, and his death could generate a temporary consolidation of support around his political heir.

Second, elite and voter coordination on the right. Bolsonaro’s leadership has historically structured the conservative coalition. His death could reduce internal fragmentation and reinforce a “legacy vote,” increasing turnout among Bolsonaroist voters and clarifying the election as a referendum on the continuation of Bolsonaroism.

Third, counter-mobilization. Bolsonaro is also one of the most polarizing figures in Brazilian politics. His death could equally intensify mobilization among anti-Bolsonaro voters aligned with Lula or the broader center-left, offsetting any sympathy effect.

Fourth, sympathy fatigue among moderate voters. Attempts to frame the campaign too heavily around mourning or political martyrdom could alienate centrist voters who prefer a return to programmatic debate rather than emotionally charged narratives. See my earlier post about the importance of moderate voters.

Fifth, fragmentation within Bolsonaroism. Bolsonaro’s personal authority has long functioned as the movement’s organizing anchor. In his absence, internal rivalries among conservative elites could intensify, potentially weakening the coherence of the Bolsonaroist coalition over time.

One thing is certain: timing would be decisive. Sympathy effects tend to be short-lived. A shock closer to the campaign’s peak or the vote itself could shift the race at the margin. Earlier shocks often dissipate. Brazil’s two-round system further moderates these effects, as the runoff typically re-centers competition on coalition breadth rather than emotional momentum.


Projeto Brasil: queremos viver num país digno - Instituto Etica e Democracia

PRA: Estou envolvido neste Projeto Brasil, que simplesmente significa para mim que a MORAL é indissociável da política:

https://eticademocracia.org/projetobrasil/


“*Projeto Brasil

O Brasil atravessa um tempo de grandes desafios e profundas transformações. 

Mais do que diagnósticos, é hora de pensar o país com responsabilidade e formular propostas para o seu futuro.

A Revista Será?, o Instituto Ética e Democracia, o Movimento Roda Democrática e o Ateliê de Humanidades lançam o Projeto Brasil, uma iniciativa voltada à reflexão e à formulação de propostas de políticas públicas para o desenvolvimento democrático do país.

Convidamos intelectuais, pesquisadores, lideranças e instituições a contribuir com ideias e propostas para enfrentar os grandes desafios nacionais.

Leia o texto inaugural e saiba como participar:

https://eticademocracia.org/projetobrasil/


 *Os Coordenadores* 

Contato: info@eticademocracia.org

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Três candidatos e uma eleição: o três do PSD no Canal Livre da BandNews TV

Encaminho um estudo interessante que analisa as respostas dos três pré-candidatos no Canal Livre (dom15mar26). Vale a leitura.

Postado no Diplomatizzandohttps://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/tres-candidatos-e-uma-eleicao-o-tres-do.html


ANÁLISE DAS RESPOSTAS DOS PRÉ-CANDIDATOS NO CANAL LIVRE

UMA AVALIAÇÃO COMPARATIVA DAS PROPOSTAS E DA CONSISTÊNCIA DAS RESPOSTAS


A entrevista do programa Canal Livre, que reuniu os governadores Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, apresentou um formato interessante: três pré-candidatos à Presidência discutindo temas estruturais do país em sequência de perguntas diretas dos jornalistas.

Para avaliar o desempenho de cada participante, foi realizada uma análise baseada em quatro critérios objetivos:

    1. Aderência à pergunta – se o candidato respondeu diretamente ao que foi perguntado.

    2. Consistência técnica – se a resposta apresentou raciocínio estruturado ou argumentos compatíveis com debates acadêmicos e institucionais.

    3. Viabilidade institucional – se as propostas são compatíveis com a Constituição e a estrutura política brasileira.

    4. Precisão factual – se houve exageros ou dados incorretos.


Com base nesses critérios, as respostas foram classificadas como de alta consistência, consistência moderada ou consistência fraca.

A seguir estão as dez perguntas da entrevista, as respostas de cada candidato e a análise comparativa.

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1. QUALIDADES PARA SER PRESIDENTE


Pergunta: (Rodolfo Schneider)

“Quais qualidades o senhor coloca na mesa para o eleitor e quais diferenças em relação aos outros candidatos para ser presidente?”

Respostas:

Ronaldo Caiado destacou sua longa trajetória política, afirmando ter mais de quatro décadas de atuação pública. Apontou resultados de sua gestão em Goiás, especialmente nas áreas de segurança pública, educação e regionalização da saúde.

Ratinho Júnior enfatizou os resultados econômicos do Paraná e afirmou que seu governo aplicou modelos de gestão inspirados em práticas internacionais, com foco em planejamento e desburocratização.

Eduardo Leite destacou sua experiência em governar um estado que enfrentava crise fiscal severa e polarização política, citando reformas administrativas e previdenciárias realizadas no Rio Grande do Sul.


Análise:

Essa pergunta tem caráter mais político do que técnico, pois trata de credenciais pessoais e experiência administrativa. Todos responderam de forma direta e dentro do esperado.

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2. COMO QUEBRAR A POLARIZAÇÃO POLÍTICA


Pergunta: (Fernando Schiler)

Qual é a estratégia ou mensagem para quebrar a polarização no Brasil?


Respostas:

Ratinho Júnior afirmou que o caminho seria abandonar disputas ideológicas e focar em soluções práticas para a vida das pessoas, citando valores como liberdade econômica e estabilidade institucional.

Eduardo Leite defendeu que o debate político deve voltar a tratar dos problemas concretos do país e sugeriu reformas institucionais, como o fim da reeleição, como forma de reduzir tensões políticas permanentes.

Ronaldo Caiado enfatizou a necessidade de combater simultaneamente corrupção e violência e afirmou que a eleição não deveria se transformar em uma disputa baseada em conflitos passados.


Análise:

Na literatura de ciência política, três caminhos costumam ser citados para reduzir polarização: reformas institucionais, coalizões amplas e deslocamento do debate para políticas públicas concretas. A resposta de Leite se aproxima mais desse terceiro modelo, enquanto as demais foram mais discursivas.


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3. COMBATE AO CRIME ORGANIZADO


Pergunta: (Fernando Mitre)

Como combater o crime organizado com integração nacional sem retirar autonomia dos estados?

Respostas:

Eduardo Leite defendeu um modelo de cooperação federativa baseado em compartilhamento de dados e coordenação entre forças de segurança.

Ratinho Júnior afirmou que os estados deveriam ter maior autonomia para legislar sobre crimes violentos, enquanto o governo federal deveria focar principalmente no controle das fronteiras.

Ronaldo Caiado defendeu medidas mais duras contra facções criminosas e sugeriu classificá-las como organizações terroristas.


Análise:

As três respostas representam visões diferentes de organização da segurança pública. O modelo cooperativo defendido por Leite se aproxima mais de experiências internacionais. A proposta de autonomia legislativa estadual exigiria mudanças constitucionais relevantes. Já a classificação de facções como terrorismo enfrenta obstáculos jurídicos na legislação brasileira.


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4. REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL 


Pergunta: (Rodolfo Schneider)

Esse projeto de redução da maioridade penal, o senhor é favorável? Em que sentido?


Respostas:

Eduardo Leite disse ser favorável à responsabilização em crimes graves, mas condicionou qualquer mudança a reformas no sistema prisional.

Ratinho Júnior afirmou que jovens de 16 anos deveriam responder penalmente como adultos em crimes violentos.

Ronaldo Caiado defendeu posição semelhante, afirmando que crimes contra a vida justificariam punição penal mais severa.


Análise:

A criminologia internacional aponta que a redução da maioridade penal isoladamente tem impacto limitado na redução da criminalidade e pode aumentar reincidência. A resposta de Leite buscou incorporar essa preocupação, enquanto as demais foram mais diretas e punitivas.


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5. POLÍTICA ECONÔMICA E FISCAL 


Pergunta: (Rodolfo Schneider)

Qual é a sua política econômica, especialmente na área fiscal?


Respostas:

Ratinho Júnior defendeu alinhamento entre política fiscal e monetária e afirmou que o país precisa de previsibilidade econômica.

Ronaldo Caiado afirmou que o controle da dívida pública em relação ao PIB deveria ser a principal referência fiscal.

Eduardo Leite destacou a necessidade de reduzir despesas obrigatórias e realizar reformas estruturais no orçamento.


Análise:

Os três diagnósticos refletem debates comuns na economia brasileira atual. O foco nas despesas obrigatórias, mencionado por Leite, aparece frequentemente em análises de economistas sobre a rigidez orçamentária do país.


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6. SUPERMINISTRO DA ECONOMIA 


Pergunta: (Eduardo Oineg)

Teremos um super ministro da economia ou uma equipe econômica mais distribuída?


Respostas:

Eduardo Leite afirmou preferir uma estrutura separando planejamento estratégico e gestão fiscal.

Ratinho Júnior defendeu uma equipe composta por especialistas em diferentes áreas da economia.

Ronaldo Caiado rejeitou a ideia de concentração excessiva de poder em um único ministro.


Análise:

O modelo de concentração extrema da política econômica em um único ministério, adotado no Brasil em 2019, gerou debates sobre problemas de coordenação. As respostas dos três candidatos indicam preferência por estruturas mais distribuídas.


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7. REFORMA ADMINISTRATIVA 


Pergunta: (Fernando Mitre)

Como produzir condições políticas para aprovar uma reforma administrativa?


Respostas:

Eduardo Leite defendeu avaliação de desempenho no serviço público e revisão de benefícios automáticos.

Ratinho Júnior mencionou redução de vantagens funcionais e ampliação de parcerias público-privadas.

Ronaldo Caiado destacou a necessidade de meritocracia e valorização de servidores produtivos.


Análise:

Todos apresentaram propostas gerais, mas nenhum detalhou como construir maioria política no Congresso para aprovar mudanças constitucionais.


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8. REFORMA DO STF 


Pergunta: (Fernando Schiler)

Qual perfil de ministros do Supremo os senhores indicariam?


Respostas:

Eduardo Leite defendeu mandato fixo para ministros e limites a decisões monocráticas.

Ratinho Júnior afirmou preferir magistrados com carreira consolidada no Judiciário.

Ronaldo Caiado também defendeu mandatos temporários e regras éticas mais rígidas.


Análise:

Propostas como mandato fixo para ministros do STF e restrições a decisões individuais aparecem em debates institucionais e em propostas de emenda constitucional.


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9. PORTA DE SAÍDA DO BOLSA FAMÍLIA


Pergunta: (Eduardo Oineg)

Como criar uma porta de saída do Bolsa Família?


Respostas:

Ronaldo Caiado citou programas de qualificação profissional e apoio produtivo em Goiás.

Ratinho Júnior afirmou que o benefício social deveria ser compatível com ingresso no mercado de trabalho.

Eduardo Leite defendeu políticas focadas em educação, infância e ensino integral.


Análise:

Estudos internacionais indicam que educação e qualificação profissional são fatores centrais para mobilidade social, o que aparece de diferentes formas nas respostas.


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10. ESCALA DE TRABALHO 6X1 


Pergunta: (Fernando Schiler)

Qual a visão de vocês sobre a mudança da escala 6 por 1?


Respostas:

Eduardo Leite argumentou que o principal problema brasileiro é a baixa produtividade e que reduções de jornada dependem de crescimento econômico.

Ratinho Júnior criticou a proposta afirmando que ela poderia aumentar custos para pequenos negócios.

Ronaldo Caiado afirmou que mudanças abruptas poderiam ampliar a informalidade.


Análise:

Experiências internacionais mostram que reduções de jornada costumam ocorrer em economias com maior produtividade e renda per capita.


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COMPARAÇÃO QUADRO GERAL DAS RESPOSTAS 


Alta consistência | Moderada | Fraca


Eduardo Leite

6 | 4 | 0

Ronaldo Caiado

0 | 8 | 2

Ratinho Júnior

0 | 9 | 1


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FALAS DE ENCERRAMENTO 


Eduardo Leite:

A essência da fala está na defesa da ordem moral e da responsabilização institucional. O candidato enfatiza que ninguém deve estar acima da lei — seja presidente da República, ministro do Supremo ou qualquer autoridade. O foco é restabelecer a credibilidade das instituições e garantir a punição de desvios no alto escalão do poder público. 


Ratinho Júnior:

A essência de sua mensagem está na modernização do Estado e no planejamento de longo prazo. O candidato defende que o Brasil precisa superar práticas políticas antigas e adotar modelos de desenvolvimento já testados por países que prosperaram, com foco em gestão eficiente, crescimento econômico e melhoria da vida das famílias. 


Ronaldo Caiado:

A essência da fala está na liderança política forte e na responsabilidade do eleitorado na escolha de seus governantes. O candidato destaca a necessidade de um presidente com autoridade, independência e coragem para governar, além de reforçar a importância da unidade política e da defesa de ideias e princípios na condução do país. 


Análise:

De modo geral, as considerações finais dos três candidatos foram coerentes com o que defenderam ao longo de toda a entrevista.

Cada um reforçou um eixo central de sua visão política: Eduardo Leite enfatizou a necessidade de ordem moral e responsabilização institucional; Ratinho Júnior destacou a importância do planejamento e do desenvolvimento econômico de longo prazo; e Ronaldo Caiado reforçou a ideia de liderança política firme e autoridade na condução do país.


Assim, os encerramentos funcionaram como uma síntese clara das prioridades e estilos de cada candidato, sem contradições relevantes em relação às posições apresentadas durante o programa.


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CONCLUSÃO 

A entrevista revelou três perfis políticos distintos.

- Eduardo Leite apresentou respostas mais estruturadas em temas institucionais e econômicos, frequentemente associando suas propostas a diagnósticos sobre produtividade, estrutura fiscal e funcionamento das instituições.

- Ronaldo Caiado adotou um discurso mais político e enfático, especialmente em temas de segurança pública e combate ao crime, com propostas de caráter mais duro.

- Ratinho Júnior apresentou uma abordagem pragmática focada em resultados de gestão e políticas administrativas, embora algumas respostas tenham sido mais gerais.


No conjunto da entrevista, os três candidatos responderam à maioria das perguntas de forma direta e demonstraram experiência administrativa relevante. As diferenças entre eles apareceram mais no grau de tecnicidade das respostas e no tipo de abordagem política adotada do que em divergências profundas de agenda.


A análise comparativa indica que Eduardo Leite apresentou o maior número de respostas tecnicamente estruturadas, enquanto Caiado e Ratinho Júnior concentraram suas respostas em argumentos políticos e experiências de gestão.


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CONSIDERAÇÕES FINAIS: 


Olhando o conjunto das respostas, dá para perceber algumas diferenças claras no estilo de cada candidato.

Algumas falas de Ronaldo Caiado, principalmente na área de segurança pública — como a ideia de tratar facções criminosas como terrorismo — acabam flertando mais com um discurso mais duro e de forte apelo popular, algo comum em momentos de maior polarização política.

Algo parecido aparece na defesa direta da redução da maioridade penal, posição defendida por Caiado e também por Ratinho Júnior. Esse é um tema que costuma dividir muito a opinião pública e frequentemente aparece em debates políticos mais polarizados.

Ratinho Júnior, de modo geral, adotou um discurso mais voltado para gestão e resultados administrativos, falando bastante de programas e experiências do Paraná. No entanto, algumas respostas foram mais genéricas e menos aprofundadas.

Já Eduardo Leite se destacou como o candidato com a postura mais moderada e menos polarizadora ao longo da entrevista. Em vez de apostar em propostas mais duras ou slogans políticos, ele procurou enfatizar soluções institucionais e reformas estruturais, falando sobre produtividade, responsabilidade fiscal e mudanças graduais nas políticas públicas.

Além disso, quando tratou de temas mais sensíveis — como segurança pública ou maioridade penal — Leite tentou apresentar respostas mais condicionais e cautelosas, evitando simplificações e reconhecendo a complexidade dos problemas.

No conjunto da entrevista, essa postura faz com que Eduardo Leite apareça como o candidato mais moderado e com o discurso mais voltado à redução da polarização, enquanto Caiado e, em menor grau, Ratinho dialogam mais com temas que costumam gerar divisões mais fortes no debate político.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Eleições brasileiras 2026 - Diogo Dutra (Revista ID)

 

Quando o sistema trava

Polarização, atratores políticos e o lock-in da democracia brasileira

Introdução — um sistema que não conseguimos mais enxergar de dentro

Talvez estejamos nos aproximando do quinto ou sexto ciclo eleitoral consecutivo no qual o Brasil convive com um fenômeno que, no início, parecia episódico, mas que ao longo do tempo foi se consolidando como uma estrutura permanente da vida política: a polarização radicalizada. Passamos por momentos de enorme tensão pública. Assistimos a crises institucionais, a rupturas profundas no tecido social, a relações pessoais que se deterioraram sob o peso de disputas políticas cada vez mais agressivas. Famílias se dividiram, amizades se romperam, ressentimentos se acumularam silenciosamente em muitas camadas da sociedade.

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Ao longo desse período, muitos de nós experimentamos uma mistura estranha de indignação, cansaço e resignação. Houve momentos de raiva coletiva, momentos de medo real, momentos em que parecia que qualquer coisa poderia acontecer. Algumas das coisas que temíamos aconteceram; outras, felizmente, não aconteceram. Mas o que talvez seja mais intrigante — e, para mim, cada vez mais perturbador — é perceber que, mesmo depois de atravessarmos tantos ciclos dessa dinâmica, ainda parece não ter caído a ficha coletiva sobre o quão profundamente danoso é esse padrão de organização da vida política.

Observando o cenário que começa a se desenhar para mais uma eleição nacional, algo me impressiona profundamente: mesmo antes do primeiro turno acontecer, já estamos operando mentalmente dentro da lógica de um segundo turno polarizado. As pessoas discutem cenários eleitorais como se fosse inevitável que o sistema político brasileiro continue organizado em torno de dois polos que se antagonizam mutuamente. Comentários, análises e até conversas cotidianas parecem aceitar como natural que, ao final do processo, estaremos novamente diante da mesma estrutura binária que tem organizado a política brasileira nos últimos anos.

Esse fenômeno é tão naturalizado que raramente paramos para fazer uma pergunta fundamental: e se estivermos presos dentro de um sistema que reproduz continuamente essa estrutura?

É justamente essa pergunta que me levou a tentar observar o fenômeno político a partir de uma lente um pouco diferente daquela que costuma orientar o debate público. Em vez de interpretar eleições e disputas ideológicas apenas como fenômenos institucionais ou morais, tenho me interessado cada vez mais por compreendê-los como expressões de sistemas complexos. E quando olhamos a política dessa maneira — como um sistema dinâmico composto por milhões de interações entre indivíduos, instituições e fluxos de informação — alguns padrões começam a emergir.

Um desses padrões é o que a literatura sobre sistemas complexos chama de atrator: um estado relativamente estável para o qual o sistema tende a convergir repetidamente. E quando um sistema entra nesse tipo de configuração, ele pode permanecer ali por muito tempo, reproduzindo continuamente a mesma dinâmica [1].

Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo.

Talvez estejamos presos em um lock-in político.

Este ensaio é uma tentativa de dar um passo para trás e olhar para esse fenômeno sob a perspectiva de sistemas dinâmicos. Não para justificar a polarização, mas para compreender por que ela persiste, por que ela captura inclusive aqueles que não se identificam com os polos mais radicalizados e, sobretudo, por que ela só será superada se certas perturbações ocorrerem dentro do próprio sistema social.


I — Atratores, lock-in e sistemas sociais

Na literatura sobre sistemas complexos e economia evolucionária, o conceito de lock-in descreve uma situação em que um sistema entra em uma trajetória histórica que passa a se auto-reforçar. Uma vez estabelecida determinada configuração institucional, tecnológica ou organizacional, cada decisão subsequente tende a reproduzir as condições que mantêm essa estrutura em funcionamento. O conceito tornou-se particularmente conhecido a partir dos trabalhos de Brian Arthur, que demonstrou como tecnologias ou instituições podem tornar-se dominantes não necessariamente porque são superiores, mas porque um conjunto inicial de escolhas cria um caminho do qual se torna progressivamente mais difícil escapar [2].

Em sistemas desse tipo, pequenas perturbações raramente são suficientes para alterar a trajetória dominante. O sistema tende a absorver essas variações e retornar à configuração anterior. Para que uma transformação estrutural ocorra, normalmente é necessário algum tipo de distúrbio suficientemente intenso para deslocar o sistema para outro atrator.

Essa dinâmica aparece em diversas áreas do conhecimento. Ilya Prigogine mostrou que sistemas físicos complexos frequentemente permanecem em estados metaestáveis até que flutuações internas ou externas criem condições para reorganizações estruturais profundas [3]. Na teoria de redes, pesquisadores observaram que interações sociais tendem a produzir agrupamentos densos — clusters — nos quais identidades coletivas e padrões de comportamento se reforçam mutuamente [4].

Quando aplicamos essa lente à política contemporânea, começamos a perceber que certos fenômenos aparentemente contingentes podem refletir estruturas sistêmicas relativamente estáveis. Polarização política intensa é um desses fenômenos.


II — A polarização como atrator político

Conflitos políticos sempre existiram. Divergências ideológicas, disputas eleitorais e confrontos de visões de mundo fazem parte da própria dinâmica das democracias. O que parece ter se alterado nas últimas décadas, no entanto, não é apenas a intensidade desses conflitos, mas a forma como eles estruturam o sistema político como um todo.

No Brasil — assim como em diversos outros países — a polarização deixou gradualmente de ser apenas uma característica episódica da competição política para tornar-se uma espécie de mecanismo organizador do próprio sistema político. A lógica que orienta a mobilização eleitoral passa a depender cada vez mais da criação de identidades antagônicas relativamente estáveis. Em vez de múltiplos projetos disputando preferências em um campo plural, o sistema passa a gravitar em torno de dois polos que se alimentam mutuamente.

A lógica desse processo é relativamente simples. Criar um campo de pertencimento emocional — o “nós” — e simultaneamente construir uma rejeição intensa ao “eles”. Essa estrutura reduz a complexidade do sistema político e torna a mobilização mais eficiente. Eleitores passam a tomar decisões menos com base em programas e mais com base em identidades.

Esse mecanismo tem um efeito curioso: cada lado passa a depender da existência do outro para sustentar sua própria mobilização. Ataques reforçam identidades. Conflitos ampliam o engajamento. Episódios de indignação coletiva aumentam a coesão interna dos grupos.

Com o tempo, essa dinâmica tende a produzir um verdadeiro atrator político. Uma configuração que passa a organizar grande parte das interações dentro do sistema.

Uma vez que esse padrão se estabelece, praticamente todas as forças institucionais começam a reforçá-lo. Estratégias de comunicação política privilegiam narrativas polarizadas. Redes sociais amplificam conteúdos que despertam emoções intensas. E até instrumentos que deveriam ajudar a compreender a realidade política — como pesquisas eleitorais — acabam frequentemente reforçando essa estrutura ao enquadrar o debate quase exclusivamente como uma disputa entre dois polos.

Talvez o dado mais relevante — e menos discutido — seja que, no caso brasileiro, os níveis de rejeição entre campos políticos atingiram patamares historicamente elevados. Ou seja, a polarização deixou de ser apenas competição eleitoral e passou a incorporar uma dimensão emocional de rejeição ao adversário.

Do ponto de vista sistêmico, esse é um indicador clássico de um sistema que entrou em lock-in.


III — Quando o centro é capturado pelo sistema

O aspecto mais intrigante dessa dinâmica talvez seja o seguinte: ela não depende apenas dos atores mais radicalizados do sistema político. Na verdade, sistemas polarizados tendem a capturar progressivamente também aqueles que inicialmente se posicionam fora dos polos.

Em termos de sistemas dinâmicos, quando um sistema possui dois atratores dominantes, elementos que se aproximam do campo tendem a ser puxados gravitacionalmente para uma dessas regiões de estabilidade. Traduzido para a política, isso significa que atores moderados frequentemente acabam sendo absorvidos pela lógica da polarização, mesmo quando não compartilham plenamente das posições ideológicas dos extremos.

Esse fenômeno aparece de diversas maneiras. O medo do adversário leva eleitores moderados a votar estrategicamente. Candidatos que inicialmente tentam ocupar posições intermediárias acabam adotando discursos mais polarizados para sobreviver eleitoralmente. A própria narrativa pública passa a tratar posições centristas como ingenuidade, ambiguidade ou falta de coragem.

O resultado é um processo curioso e profundamente distorcedor. Mesmo quando existe uma parcela significativa da população que não se identifica plenamente com nenhum dos polos, o sistema continua produzindo segundos turnos cada vez mais radicalizados. Em vez de escolhas entre projetos consistentes de país, o eleitorado se vê diante de decisões motivadas principalmente pela tentativa de evitar aquilo que considera o pior cenário possível.

Esse fenômeno produz uma ilusão política perigosa. Governos eleitos dentro dessa dinâmica frequentemente parecem possuir legitimidade majoritária, quando na realidade foram escolhidos por um eleitorado fragmentado, que muitas vezes votou movido mais pelo medo do adversário do que pela adesão ao projeto vencedor.

É exatamente assim que sistemas em lock-in operam: empurrando todos os atores para dentro da estrutura existente.


IV — sair da inércia do sistema

Talvez o aspecto mais fascinante — e ao mesmo tempo mais inquietante — dos sistemas complexos seja o seguinte: quando estamos dentro de um atrator, frequentemente temos a impressão de que aquela configuração é inevitável. O sistema parece natural. Parece inevitável. Parece que sempre foi assim e que sempre continuará sendo assim.

Mas sistemas dinâmicos não funcionam dessa maneira.

Eles permanecem estáveis até que alguma perturbação relevante altere o padrão das interações. Pequenas mudanças acumuladas podem, em determinado momento, deslocar o sistema para outra região do espaço dinâmico.

O que me inquieta profundamente neste momento é perceber que talvez estejamos vivendo exatamente o oposto desse processo. Em vez de produzir perturbações capazes de alterar a dinâmica da polarização, muitos atores sociais parecem simplesmente aceitar sua inevitabilidade. Pessoas que não se identificam com os polos mais radicalizados continuam sendo puxadas para dentro dessa lógica pela força gravitacional do sistema.

E aqui está talvez o ponto mais importante deste ensaio.

Se existe hoje uma parcela significativa da sociedade que não deseja viver dentro dessa estrutura de antagonismo permanente, então essa parcela precisa compreender que a inércia também é uma forma de participação no sistema. Aceitar passivamente a lógica da polarização significa, na prática, reforçá-la.

É por isso que talvez seja urgente produzir um tipo diferente de movimento.

Não apenas institucional.

Mas social, cultural e relacional.

Pessoas que se identificam com posições mais moderadas ou que simplesmente rejeitam a lógica de inimização da política precisam começar a se posicionar de forma mais clara — nas conversas privadas, nos espaços públicos, nas redes sociais, nas organizações em que participam.

Isso significa recusar a lógica do “nós contra eles”.

Significa não amplificar narrativas que reforçam a polarização.

Significa defender explicitamente a existência de alternativas políticas fora desse binarismo.

Significa também, eventualmente, estimular alianças entre candidaturas que tentam ocupar esse espaço intermediário — em vez de contribuir para a fragmentação que frequentemente inviabiliza esse campo.

E, se mesmo assim o sistema insistir em reproduzir apenas escolhas polarizadas, talvez seja necessário sinalizar de forma clara que essa estrutura não é aceitável.

Mesmo que isso implique, em determinadas circunstâncias, recusar participar da lógica binária que o sistema tenta impor.

Não como gesto de indiferença política.

Mas como um sinal explícito de que parte da sociedade não aceita mais ser arrastada pela dinâmica de um sistema que produz continuamente inimigos políticos em vez de adversários democráticos.

Se existe algo que a teoria dos sistemas complexos nos ensina é que atratores não são eternos.

Mas eles também não desaparecem sozinhos.

Eles desaparecem quando novas interações começam a reorganizar o sistema.

A pergunta que fica — e que talvez seja a pergunta política mais importante deste momento — é se estamos dispostos a produzir essas novas interações ou se continuaremos aceitando, ciclo após ciclo, a gravidade de um sistema que parece cada vez mais difícil de abandonar.


Notas

[1] Stuart Kauffman — At Home in the Universe (1995).

[2] W. Brian Arthur — “Competing Technologies, Increasing Returns, and Lock-In by Historical Events” (1989).

[3] Ilya Prigogine — Order Out of Chaos (1984).

[4] Duncan Watts — Six Degrees: The Science of a Connected Age (2003).

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.

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