sábado, 18 de abril de 2026

Gilberto Freyre nas notas de rodapé do livro de André Heráclio do Rêgo: "O Século XIX na obra de Gilberto Freyre" - Paulo Roberto de Almeida

5283. “Gilberto Freyre nas notas de rodapé do livro de André Heráclio do Rêgo”, Brasília, 18 abril 2026, 9 p. Uma resenha insólita do livro de André Heráclio sobre Gilberto Freyre no século XIX brasileiro a partir de suas notas de rodapé. Texto disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165754155/5283_Gilberto_Freyre_nas_notas_de_rodape_do_livro_de_Andre_Heraclio_do_Rego_2026_) e divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/gilberto-freyre-nas-notas-de-rodape-do.html). Serviu para discussão no debate online promovido por Bruno Cerqueira, no canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu”, dia 18/04/2026, 19:00hs, animado pelo historiador Bruno Cerqueira (link: https://www.youtube.com/live/SC_Wp9tGtS0?si=dd30tBNQ08QPpKjE  Relação de Publicados n. 1637.

In our latest work, we explore the footnotes of André Heráclio do Rêgo's book on Gilberto Freyre, offering a fresh perspective on Freyre's multifaceted contributions to Brazilian sociology and culture. We invite you to check out our insights and reflections, and we welcome any questions or thoughts you might have!​

Gilberto Freyre nas notas de rodapé do livro de André Heráclio do Rêgo

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre o livro de André Heráclio do Rêgo: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (2026); com base em suas notas de rodapé.
Apresentação em debate online no site de Bruno Cerqueira, “O canal História do Brasil Como Você Nunca Viu”, dia 18/04/2026, 19:00hs.

Ao preparar o prefácio para o livro de André Heráclio do Rêgo, O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026), eu comecei por examinar a obra pelo seu final: index, bibliografia, obras de referência do autor-personagem, só então indo à substância da obra, uma releitura fenomenal de muitas obras do grande mestre pernambucano da sociologia brasileira (e da sua antropologia, da história, das relações internacionais, da culinária etc.), enfim, um polímata que ainda continuará a ser estudado, citado, contestado e confirmado por anos à frente, em toda a academia brasileira e do mundo cultural lusófono de maneira geral. Os interessados em ler esse prefácio, assim como alguns outros trabalhos meus sobre Gilberto Freyre (poucos, por sinal, praticamente nada), podem consultar este trabalho, onde reuni, em menos de duas dúzias de páginas, as poucas coisas que escrevi sobre ele, tendo o prefácio como derradeiro trabalho transcrito:
5281. “Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo”, Brasília, 15 abril 2026, 3 p. (Introdução), + 21 p. Consolidação de meus escritos em torno do grande antropólogo e sociólogo pernambucano. Introdução e transcrição dos trabalhos n. 918, 4436, 4915 e 5108. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165703160/5281_Eu_e_Gilberto_Freyre_ou_Gilberto_Freyre_e_este_modesto_sociologo_2026_); divulgado via blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/eu-e-gilberto-freyre-ou-gilberto-freyre.html).

Gostaria de dar continuidade a essa prospecção em torno da interpretação de André Heráclio sobre uma parte da obra de Gilberto Freyre – a relativa à história do nosso século XX, numa perspectiva abrangente, a partir de trabalhos esparsos, não necessariamente as grandes obras pelas quais ele é conhecido –, mas dando atenção desta vez a uma espécie de resenha não comumente examinada nesse tipo de exame crítico (a não ser em grandes teses de doutoramento), pela via das notas de rodapé. Com efeito, falar de notas de rodapé, que remetem a obras citadas pelo autor do trabalho, consiste em examinar as leituras desse autor, as obras de referência de terceiros acadêmicos, que lhe serviram de suporte na construção de seus argumentos em torno da obra do personagem central, objeto do livro.
Essa consulta é facilitada pelo fato de a edição do livro de André Heráclio ter adotado a formatação contínua das notas divididas em seus sete capítulos: da página17, pela qual começa a Introdução de André Heráclio (duas notas pertencem ao meu Prefácio), elas se sucedem do número 3 até 530, na página 208, ou seja, 527 notas de rodapé. Desse número temos de descontar dezenas de idem, ibidem, que são repetições de notas e referências precedentes. Mas, vou seguir aqui os autores representativos da chamada “fortuna crítica” de Gilberto Freyre, aqueles intérpretes do mestre de Apipucos que estão todos referenciados nas páginas 218-220, que relacionam os 38 trabalhos, de aproximadamente 30 autores (alguns escreveram mais de uma obra (artigo ou livro) sobre Freyre. Antes dessa seção, cabe referir, ainda que sumariamente, as três páginas (215-217) das “Obras de Gilberto Freyre utilizadas”, e elas, listadas em ordem alfabética do título, são em um volume de 43, entre livros próprios, capítulos em livros coletivos (entre eles sua contribuição ao primeiro Livro do Nordeste, que ele mesmo organizou, editou e publicou na obra de 1925, em homenagem aos primeiros cem anos de vida do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco), artigos em revistas e jornais (entre eles no bicentenário Diário, discursos e conferências.
É esse universo que aparece nas 190 páginas contempladas com duas, três, quatro notas de rodapés por página, das quais algumas não são citações, mas complementos substantivos aos argumentos do próprio André Heráclio na sua exposição abrangente sobre como Gilberto Freyre tratou, escreveu, descobriu, opinou sobre nosso desenvolvimento social, político, constitucional e até internacional do Brasil monárquico e do início da República. O uso crítico das obras dessas três dezenas de autores (para ser exato 32) oferecem um suporte intelectual de primeiríssima importância a uma obra que, dentro do universo “gilbertiano”, ou “freyreano”, constitui um empreendimento original e muito rico, pois que combina o uso das obras do próprio Gilberto Freyre – grandes livros e trabalho não centrais – e as análises conduzidas por especialistas conhecidos e outros autores menos evocados.
A partir das notas de rodapé – e da lista das obras referenciadas ao final – é possível constatar que André Heráclio não só leu e absorveu toda a obra de Freyre e sua produção em torno do século XIX brasileiro, mas também os trabalhos interpretativos e críticos de três dezenas de estudiosos, abundantemente citados em sua introdução, uma verdadeira summa exegética dos grandes gilbertianos, entre eles Peter Burke, Elide Rugai Bastos e outros. Eu me contentei com José Honório Rodrigues, em meu prefácio, assim como fiz duas referências obrigatórias a Evaldo Cabral de Melo e a Oliveira Lima – aliás ausente das referências bibliográficas do próprio André Heráclio –, mas o próprio autor abeberou-se nos mais importantes intérpretes da magna obra do grande mestre da sociologia brasileira.
O corpo do livro, em seus sete capítulos substantivos (ao longo de 170 páginas), é dominado obrigatoriamente pelas obras do próprio Gilberto Freyre, mas a introdução merece ser lida com atenção, pois ela representa uma excelente síntese sobre como a obra total de Freyre revolucionou não só a historiografia brasileira, bastante tradicional até os anos 1930, mas a própria metodologia da “microhistória”, da história familiar, dos costumes, dos hábitos sexuais, da cultura popular que passaria a influenciar, por exemplo, a Escola dos Anais e a historiografia francesa de modo geral a partir dessa mesma época. O início dos anos 1930 é justamente marcado pelas grandes obras “clássicas” sobre a formação histórica, política, social e cultural do Brasil, a do próprio Gilberto, com Casa Grande e Senzala (quando ele tinha apenas 33 anos), Caio Prado Júnior, com Evolução Política do Brasil (ambos de 1933), e Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil (1936); ao final dessa década, Caio Prado voltaria com Formação do Brasil Contemporâneo (1939), que o consagraria como o primeiro historiador reconhecidamente adepto do materialismo histórico marxista no Brasil.
Em sua Introdução, André Heráclio faz uma exímia utilização de três grandes autores “gilbertianos” por excelência: Peter Burke, Evaldo Cabral de Melo e Elide Rugai Bastos, ademais de vários outros menos recorrentes na bibliografia. Mas ele também cita muitos outros autores de capítulos em livros coletivos, vários deles centrados exclusivamente no estudo crítico das diversas obras de Gilberto Freyre, geralmente os grandes livros, o que não é o caso dos sete capítulos sobre o século XIX brasileiro na visão de Freyre, pois que neles André Heráclio percorre não só as suas grandes obras, mas dezenas de trabalhos ditos “menores”, por vezes circunstanciais, mas não menos importantes para a confirmação da genialidade do polímata pernambucano. Ele era um verdadeiro “touche à tout”, como diriam os franceses, o que é revelado pela diversidade de assuntos abordados nos sete capítulos legitimamente freyreanos, que se dedicam ao que diz o título do livro: o Brasil do século XIX tal como retratado e discutido na produção praticamente completa do mestre pernambucano.
Já no primeiro capítulo, dedicado ao “movimento da Independência” (p. 43-63), André Heráclio faz poucas referências às grandes obras, apenas uma a Casa-Grande & senzala, embora várias a Sobrados e mucambos – que é justamente a que cobre mais extensivamente a transição da velha ordem patriarcal para a sociedade urbana do século XX, mas começa por uma referência a uma conferência de 1976, na Câmara dos Deputados, a propósito dos 200 anos da independência americana. Nossa autor retorna, então, a um trabalho de 1972, no sesquicentenário da independência do Brasil, “A propósito do Grito do Ipiranga: uma interpretação sociológica”, para depois citar Evaldo Carvalho de Mello (sobre a Restauração pernambucana do século XVII), antes de recorrer a diversos trabalhos menos conhecidos do próprio Gilberto Freyre e a um outro grande especialista, Ricardo Benzaquen de Araújo, para terminar referindo-se ao antagonismo entre “brasileiros” e “portugueses”, já tradicional, mas exacerbado a partir da chegada da Corte, “pelo privilégio dado aos lusitanos recém-chegados ao Rio de Janeiro no preenchimento de cargos públicos” (p. 63).
O capítulo 2, sobre “O processo revolucionário” (p. 64-104), evidencia a mesma amplitude de leituras feitas por André Heráclio, com poucas referências aos grandes livros de Freyre, mas começando pela mesma conferência de1976, sobre o “Grito do Ipiranga”, e depois englobando uma série de obras de historiadores conhecidos, como Kenneth Maxwell, o inevitável Evaldo Cabral de Mello e Katia de Queiroz Mattoso (com quem André estudou em Paris), e várias citações retiradas de Sobrados e mocambos. Ele menciona evidentemente as conjurações baiana e mineira, a revolução de 1817, com um destaque especial concedido a ao padre Arruda Câmara, religioso paraibano que se formou em Filosofia Natural pela Universidade de Coimbra e em Medicina pela de Montpellier (p. 75): “Tivesse sobrevivido a 1810, ano em que faleceu, possivelmente teria tido um papel marcante no movimento da Independência, e poderia ter sido de certa forma um outro ‘Patriarca da Independência’”, ao lado de José Bonifácio (p. 76). Recorrendo a Sobrados e mocambos, o parágrafo sobre Arruda Câmara evidencia sua preocupação com a igualdade entre brancos e a “gente de cor”, o que merece uma citação integral a partir de Gilberto Freyre:
Arruda Câmara, dessa forma, foi um dos doutores e bacharéis formados na Europa ao final do século XVIII que conseguiu reunir a ‘teoria europeia a qualidades de curandeiros dos nossos males sociais por processos brasileiros’. Afrancesado, o seu afrancesamento não lhe fez perder o sentido social do Brasil, um Brasil mulato e pardo, a ponto de compreender que a Independência, quando viesse, não deveria ser apenas política, mas de reconstrução inteira da sociedade, inclusive no que se refere a um melhor ajustamento de relações entre brancos e homens de cor, entre senhores e escravos. (Sobrados e mocambos, p. 719 e 721, edição comemorativa dos 70 anos, de 2006).

André Heráclio recorre ainda a um artigo de Gilberto Freyre, “Confrontos e e comentários: Revoluções gêmeas: 1817-1824”, publicado no Diário de Pernambuco em 2 de julho de 1924, cem anos depois, portanto, da primeira revolução pernambucana depois da Independência, que é resumido por André da seguinte forma, mais um parágrafo exemplar:
Nesse contexto, tanto na Revolução de 1817 quando na Confederação do Equador, de 1824, a República seria o caminho mais curto para a Independência, por ser o mais adequado à conquista de um ideal maior que uma simples mudança de forma de governo dentro de uma nacionalidade já constituída: trata-se da própria aquisição dessa nacionalidade, no contexto do estabelecimento de um regime constitucional que assegurasse os direitos imprescritíveis da cidadania. (p. 79-80)

Ambas as revoluções, como sublinhado ainda por Evaldo Cabral de Mello, agregaram aos antecedentes da inconfidência as “inspirações doutrinárias das revoluções norte-americana e francesa” (p. 80). Para esse excelente capítulo, André Heráclio remete ao Diário de Pernambuco e às suas pesquisas no Quai d’Orsay sobre as ligações de Napoleão com Pernambuco, quando o imperador derrotado intentava escapar de Santa Helena. Ele ainda se refere, nesse mesmo capítulo 2, a considerações do grande Manuel Correia de Andrade sobre as revoltas populares em diferentes regiões do país na primeira fase da independência, num estudo sobre o patriarcalismo e a vida urbana, assim como a diferentes trabalhos sobre esses primeiros “motins” da vida independente, entre eles, abundantemente citado, o de Alfredo de Carvalho, especificamente no Recife, em 1823, sem descurar as detidas observações de Gilberto Freyre em Sobrados e mocambos e em Nordeste.
André Heráclio, ao abordar essas primeiras revoltas em Pernambuco, chega à meticulosidade de citar um discurso pronunciado por Freyre em 1948, por ocasião do centenário da Revolução de 1848 (buscado num artigo publicado no Diário de Pernambuco desse ano), aventando a vinculação da revolta de 1823 com a de 1848, na qual ele lamentava que “a significação política dessa última fosse exagerada em prejuízo da social e econômica” (p. 90). O grande temor das classes proprietárias nessa primeira metade do século XIX era o de que o grande número de escravos negros, assim como o de pardos e mestiços, quase em maioria em certas localidades, provocasse uma repetição do “terror” ocorrido no Haiti. Freyre discorre sobre todos esses movimentos sociais, ressaltando suas peculiaridades nacionais, chegando a se expressar em movimentos que constituíam uma “reafirmação de valores tradicionais castiçamente brasileiros”, mas em alguns casos maciçamente antilusitanos, como examinado em Ordem e Progresso, por exemplo (p. 96 ss).
O capítulo 3, “As singularidades da Monarquia” (p. 105-122), começa as observações feitas por Freyre em um livro destinado ao público estrangeiro – New World in the Tropics (1966) –, no qual ele argumenta que, “devido à sua tradição de paternalismo e de monarquismo, havia escapado” às sinas de outras repúblicas instituídas nas Américas. O argumento merece uma transcrição dessa avaliação sobre nossa formação diferente:
Esta tradição, acrescenta Freyre, tem sempre atuado como um estímulo constante, especialmente em fases críticas da História brasileira, para a solução legalista, pacífica e civil de problemas que seus vizinhos latino-americanos resolveram por meio de ditaduras ostensivas, pela violência e pelo desrespeito às leis vigentes. (p. 105-6)

O papel de José Bonifácio é extensamente ressaltado, como “ao mesmo tempo um dom Quixote e um Sancho Pança”, tendo reunido um “equilíbrio de antagonismos, as tendências revolucionária e conservadora, a aparentemente arcaica e a potencialmente pós-moderna, ‘numa só e rara personalidade’” (p. 107). Ele teria sido, segundo Freyre, o “nexo vital” entre um “príncipe vacilante” e a “aristocracia agrária” que foi a força preponderante a favor da Independência” (idem). André Heráclio cita um trecho de Ordem e Progresso sobre ele:
Com ele só podem ser exatamente comparados um Thomas Jefferson, um Benjamin Franklin, um Alexandre [sic] Hamilton: homens públicos dos começos nacionais dos Estados Unidos da América. Nem mesmo Bolívar é da mesma rara estirpe de construtores de sistemas nacionais de organização e de convivência a que pertenceu um José Bonifácio. (p. 108)

Foi por isso, segundo Gilberto Freyre, num ensaio sobre o caráter nacional brasileiro no século XX, que “ao se tornarem politicamente independentes, os brasileiros nunca se separaram de todo de suas origens europeias, ao contrário do que havia ocorrido com seus vizinhos em relação à Espanha” (p. 110). A singularidade brasileira conviveu com anomalias como o Poder Moderador e o regime escravo durante a sua quase inteira existência, o que também foi notado por Freyre em Ordem e Progresso e outros trabalhos. Segue-se um debate sobre o tratamento dos escravos no Brasil, comparativamente aos Estados Unidos, baseando-se inclusive num livro escrito pelo famoso inglês Richard Burton, quando foi cônsul no Brasil, contemporaneamente à guerra do Paraguai. A música poderia ter aproximado brancos e negros no Brasil, como também ressaltado por Freyre no mesmo livro.
Segue-se, no capítulo 4, “Monarquia e República: continuidade e ruptura” (p. 123-152), oportunidade que Freyre aproveita para argumentar que entre um e outro regime, “as alterações de natureza sociológica foram mínimas, em comparação com as já ensaiadas pelo 13 de maio”, pois este teria provocado distúrbios sociais e sobretudo econômicos” (p. 123). Mas, o Brasil “continuava a ser uma sociedade de extremos, e nesse sentido nada se havia alterado com a Abolição e nem mesmo com a República” (p. 124). As teses de Joaquim Nabuco sobre o caráter da monarquia são discutidas na sequência, assim como as do próprio Freyre sobre as peculiaridades de D. Pedro II, um monarca burguês, quase republicano, cujo reinado foi descrito por Nabuco como uma “neocracia” (p. 139). Todo o capítulo é uma brilhante discussão sobre o caráter da monarquia, com base em diversos autores, o que se coaduna com certa “nostalgia imperial” ainda presente no Brasil.
O Brasil não era um país unificado ao início da sua fase independente, como discutido no capítulo 5, “O Império e a unidade nacional” (p. 153-167), que começa com uma citação nesse sentido retirada de uma “obra de estreia, Vida Social no Brasil nos meados do século XIX” (p. 153), constatação retomada anos depois em Sobrados e mocambos. Aqui entra a tese de Gilberto Freyre sobre a “autocolonização do Brasil”, que teria sido começada por paulistas e pernambucanos (p. 154), compatível com suas outras explicações sobre a construção da unidade brasileira, como apresentada neste trecho, apoiado em Casa Grande & senzala:
“Unidade e diversidade”, melhor dizendo, “unidade na diversidade” é um dos conceitos básicos da interpretação freyreana do Brasil. Diversidade regional num contexto de unidade nacional, que seria o segredo da identidade nacional brasileira, a de um Brasil uno e plural, em que características regionais, tão diversas e mesmo antagônicas entre si, unir-se-iam para formar um todo unitário, que é muito mais do que a mera soma das partes, constituindo uma entidade diferente, o Brasil. Trata-se talvez da consagração maior de outro dos conceitos básicos da interpretação gilbertiana, a do “equilíbrio entre antagonismos”, pelo qual se explica que a formação do brasileiro é um processo de equilíbrio de antagonismos de economia e de cultura; de cultura europeia e indígena, europeia e africana, africana e indígena. Entre economia agrária e pastoril, agrária e mineira. Entre os católicos e os hereges, os jesuítas e os fazendeiros, os bandeirantes e os senhores de engenho, os paulistas e os emboabas, os pernambucanos e os mascates. Os grandes proprietários e os párias, os bacharéis e os analfabetos, os senhores e os escravos. (p. 157)

Todo esse capítulo constitui um dos pontos mais altos e mais fecundos do livro de André Heráclio sobre a rica e lúcida interpretação freyreana do século XIX brasileiro, e deve ser lido com atenção, no qual as remissões e citações alcançam quase meia centena de notas de rodapé, como focado nesta resenha concentrada nesse aspecto da construção da obra.
O lado “internacional” desta obra sobre Gilberto Freyre e o século XIX comparece no capítulo 6, “O Oriente no Novo Mundo: os três primeiros séculos da formação brasileira” (p. 168-181), no qual a reprodução de características europeias nesta parte das Américas não impediu a influência de elementos asiáticos, vindos da formidável expansão portuguesa em várias partes do mundo: no começo do século XIX permaneciam
... costumes de fundo oriental, as casas de telhado acachapado no estilo dos pagodes da China; as colchas da Índia; as quinquilharias asiáticas e africanas; os palanquins; as esteiras; as porcelanas; os pentes de tartaruga; a árvore de fruta-pão; a caneleira; a pimenta da Índia; o cravo; a alcanforeira. Enfim, uma imensa gama de produtos, processos e costumes, que denotavam a reforçavam o que Freyre denominou um parentesco ecológico e social entre o Brasil e o Oriente pelo clima e pelo sistema de organização patriarcal da economia e de convivência entre raças e classes. (...)
Também do ponto de vista econômico, a aproximação do Brasil com o Oriente era tão grande que o comércio regular e irregular constituía, nos tempos coloniais, uma “das bases mais sólidas do sistema agrário e patriarcal brasileiro”. (p. 180, com base em Sobrados e mocambos)

O capítulo 7, o penúltimo desta obra magnífica, continua na vertente internacional: “Oriente X Ocidente: a Monarquia e a reeuropeização do Brasil no século XIX” (p. 182-197). O seu título já indica a tendência maior no período: o contato intenso com a Europa, então de um outro tipo: a Europa industrial, comercial, mecânica, a burguesia triunfante”, que foi, em certo sentido, uma reconquista, ou uma renascença, “tal como a que se processou na Europa impregnada de medievalismo, com relação à antiga cultura greco-romana. Apenas noutros termos e em ponto menor” (p. 182, com base na mesma obra). Essa impregnação se fez pela imitação de padrões ingleses, “que, espontaneamente, não teriam sido adotados”, nos planos político, econômico e sociocultural; mas também houve influência francesa, “mais romanticamente liberal, ao passo que a inglesa era de sentido mais organizador” (p. 183).
A resistência aos padrões ingleses se deu sobretudo no lado econômico-comercial (como já argumentava um artigo no Diário de Pernambuco de 1831), ao passo que a influência francesa se deu pelo lado “universalista da cultura”:
A formação intelectual brasileira foi marcada pelo espírito francês, cuja influência se exercia quase sempre sem preocupação de exclusivismo, animada de um sentimento universalista de valores humanos. (p. 184, com base em artigo de Freire no Diário de Pernambuco de julho de 1954)

Num artigo de 1925 para o livro do primeiro centenário do Diário, Freyre já apontava que a europeização do Brasil, pela imigração mais intensa no final do século XIX, teria feito do Nordeste, “um refúgio da alma do Brasil”, como anteriormente argumentado por Oliveira Lima (p. 193). Mas, no plano da indústria, “foram os ingleses, pela mão de Mauá e pelas próprias, os responsáveis pela modernização das fábricas, da técnica e do transporte” p. 195). Com base no livro de Freyre, Ingleses no Brasil, André Heráclio sintetiza:
No campo político parlamentar, os modelos dos oradores do Parlamento brasileiro era os ingleses, imitados na maneira de falar, nos gestos e no próprio feitio da barba, as suíças inglesas. As citações em inglês começaram a competir com as citações em latim. Nas academias de Direito, estudava-se a economia política de Bentham e de Stuart Mill. Mauá, Paranhos, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Oliveira Lima, Eduardo Prado, entre outros, ‘foram elegantemente anglófilos em seus métodos de fazer ou de escrever História”. (p. 195)

André Heráclio conclui assimesse capítulo: “O Ocidente, a Europa, foi desse modo se assenhoreando do Brasil, quase como de uma semicolônia” (p. 197). E no parágrafo final:
O século XIX representou assim, no Brasil, o fim do ‘primado ibérico de cultura’, que nunca fora exclusivamente europeu, mas, em grande parte, impregnado de influências mouras, árabes, israelitas e maometanas. De influências do Oriente mescladas às do Ocidente. (Idem)

O capítulo conclusivo, “Considerações e sugestões” (p, 198-214), oferece a André Heráclio a oportunidade de resumir ensinamentos a partir das muitas obras do mestre de Apipucos e as de seus comentaristas e intérpretes, tal como lidas e apresentadas nos sete capítulos substantivos. A primeira é a de que “a independência política não basta por si só para que um povo se constitua em nação autônoma. É necessário adicionalmente que ela seja acompanhada por uma autonomia cultural ou, em outras palavras, por um estilo nacional de vida” (p. 199). Seguem-se uma série de considerações que retomam a visão de Freyre nos vários capítulos anteriores, entre elas sua “decisiva defesa da monarquia como o melhor regime em 1822 e, eventualmente, em 1889, sendo capaz mesmo de combinar ‘solicitações de ordem’ com ‘solicitações de progresso’ (...) e que foi... a responsável pela unidade nacional” (p. 201-2). Pode-se ler esse capítulo final como uma descrição geral e uma apresentação sintética dos vários “Brasis” examinados, diagnosticados, explicados pelo grande sociólogo pernambucano, que pode ser visto como o maior “explicador” de um país original num hemisfério tanto europeu quanto penetrado pelas culturas as mais diversas das diferentes partes do mundo, integradas numa sociedade compósita e quase universal.
Estas observações gerais sobre o livro, com base principalmente em suas notas de rodapé, podem ser lidas na sequência de meu prefácio publicado no livro, como registrado em minha ficha de trabalhos originais:
5108. “Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil”, Brasília, 8 novembro 2025, 6 p. Prefácio ao livro de André Heráclio do Rêgo: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026; ISBN: 978-65-5252-277-1; p. 7-15). Relação de Publicados n. 1623.

Sou grato a André Heráclio por ter renovado, e certamente completado, o meu até aqui precário conhecimento das muitas obras de Gilberto Freyre, um sociólogo que me inspirou, a partir de um dos seus livros – Como e porque sou e não sou sociólogo (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968) – o prefácio a um dos meus próprios livros, numa adaptação ao métier, como registrado neste trabalho: “Como e Por quê Sou e Não Sou Diplomata: (à maneira de Gilberto Freyre)” (Washington, 4 julho 2002, 2+6 p., n. 918; in: A Grande Mudança: consequências econômicas da mudança política no Brasil (disponível neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/eu-e-gilberto-freyre-ou-gilberto-freyre.html). Foi um privilégio e um grande prazer intelectual.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5283, 18 abril 2026, 9 p.
Ler em Academia.edu:
Emissão divulgada no blog Diplomatizzando (19/04/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/gilberto-freyre-nas-notas-de-rodape-do.html

Especulando sobre o futuro extraordinário da América do Sul - George Friedman

Especulando sobre o futuro extraordinário da América do Sul


George Friedman, 17 de abril de 2026

Isto não é uma previsão. Uma previsão é uma estimativa, cuja validade é de responsabilidade minha e do meu ego. O que ofereço aqui é especulação – algo suficientemente provável para justificar um artigo, mas não tão provável a ponto de comprometer meu ego. É também algo que, se confirmado, se mostraria importante em termos geopolíticos e geoeconômicos.

Por quase um século, a economia global foi herdeira e executora da Revolução Industrial. Durante esse período, um ciclo se tornou evidente. A saúde da economia global dependia, em grande medida, de uma grande potência industrial emergente, que a sustentaria por cerca de 50 anos. O custo de produção para as potências industriais emergentes era significativamente menor do que para as economias mais maduras, o que mantinha os preços acessíveis e aliviava a pressão sobre as economias mais consolidadas e seus consumidores.

Três nações foram cruciais nesse aspecto. A primeira foram os Estados Unidos. Sua economia industrial começou a crescer exponencialmente na década de 1880. Por volta de 1890, tornou-se um dos principais exportadores de produtos industriais para a Europa, que na época era a potência industrial mais consolidada do mundo. Em grande medida, os EUA basearam seu desenvolvimento econômico nessas exportações, mais baratas que os produtos europeus e, em alguns casos, mais inovadoras. A economia americana prosperou até 1929, com o início da Grande Depressão. A Primeira Guerra Mundial havia limitado severamente as economias europeias, que não podiam mais comprar produtos americanos. Isso foi, pelo menos em parte, responsável pela depressão.

O segundo país foi o Japão. Antes da Segunda Guerra Mundial, era uma potência industrial significativa, mas o conflito devastou sua capacidade industrial, forçando-o a operar mais como uma economia emergente. As exportações, principalmente para os EUA, impulsionaram seu boom econômico no pós-guerra. O país teve um desempenho tão bom que, na década de 1970, começou a prejudicar as montadoras americanas e outras indústrias, oferecendo automóveis mais baratos e produtos superiores. A década de 1990 marcou o início de uma crise econômica conhecida como a Década Perdida, e somente após sua superação o Japão se tornou uma economia industrial mais madura.

O terceiro país foi a China. Sua economia cresceu rapidamente por volta de 1980 e teve um grande impulso na década de 1990, substituindo o Japão como o maior exportador mundial de produtos industriais de baixo custo e alto valor agregado. O crescimento agora desacelerou e, considerando o precedente dos EUA, deve atingir a maturidade na década de 2030. (Admitidamente, uma comparação entre os dois países não é exatamente a métrica mais confiável.) A China continua sendo o maior exportador mundial, mas, assim como os EUA e o Japão, chegará a um ponto em que seu crescimento econômico não poderá mais se basear apenas nas exportações, um sinal de uma economia ainda emergente e não madura.

Essas três nações tinham coisas em comum. A primeira era que ninguém em sã consciência imaginaria que elas se tornariam potências econômicas globais. Os EUA eram principalmente uma nação agrária que havia emergido de uma guerra civil devastadora 25 anos antes para iniciar seu período de crescimento vertiginoso. Em 1945, ninguém imaginaria que, cinco anos após a Segunda Guerra Mundial, a economia do Japão se recuperaria, muito menos se tornaria uma potência. Da mesma forma, na China, era impensável que apenas quatro anos após a morte de Mao, o país estaria trilhando o caminho para se tornar uma superpotência econômica.

É claro que tinham outras coisas em comum. Possuíam populações relativamente grandes com fortes bases agrárias. Tinham um perfil demográfico de pessoas com formação em tecnologias que se revelariam cruciais. Além disso, e de forma mais sutil, haviam desenvolvido ambições culturais e pessoais de desenvolvimento social e econômico. Todas compartilhavam uma tradição cultural de empreendedorismo, interrompida pela guerra, mas ressuscitada pelo fim ou declínio de ideologias que dificultavam, senão impossibilitavam, as aventuras econômicas. Todas surgiram em um momento em que as economias maduras do mundo necessitavam de importações de baixo custo e qualidade razoável. Finalmente, e o mais importante, todas emergiram de seu crescimento vertiginoso, baseado em exportações, durante períodos de relativa saúde e paz. Curiosamente, cada nação era o centro de gravidade das potências exportadoras, enquanto outras economias menores em suas respectivas regiões emergiram como exportadoras ao seu lado nas décadas que se seguiram à ascensão das grandes nações.

A China está se aproximando do fim deste ciclo, migrando para um modelo econômico amplo, porém maduro, com aumento do consumo interno e elevação dos preços. À medida que amadurece, a questão econômica mais premente no mundo é: quem ocupará o lugar da China? Há duas possibilidades, ambas difíceis de imaginar: África e Oriente Médio. O problema é que essas são regiões, não nações, portanto seus processos econômicos podem divergir. Além disso, elas são constantemente afetadas por conflitos em curso. Quem quer que substitua a China será uma nação que, à primeira vista, não parece provável de emergir, com uma grande população, uma base agrícola sólida e uma cultura empreendedora já estabelecida, além de uma camada, ainda que tênue, de tecnólogos sofisticados. Como regiões, a África e o Oriente Médio não se encaixam perfeitamente nesse perfil.

Isso deixa a América Latina, particularmente o Brasil, que possui a sétima maior população do mundo, uma forte base agrícola, uma significativa cultura empreendedora e um contingente necessário de mentes tecnológicas. A região à qual pertence já superou, em grande parte, seu período de instabilidade e conflito. O Brasil é cercado por outras nações com populações menores, mas com características semelhantes. Assim como os EUA tinham o Canadá e o México, e o Japão e a China tinham o restante da Ásia, o Brasil tem o Cone Sul da América Latina, que inclui Argentina, Chile e Paraguai. O Brasil (e a área brasileira em geral) já iniciou o processo de desenvolvimento econômico com uma força de trabalho de baixa renda, o que lhe permite se tornar um produtor de baixo custo, vital para economias mais maduras. Talvez o mais importante seja que o potencial de desenvolvimento do Brasil e do restante da América do Sul ainda seja subestimado, mesmo com o aumento do investimento estrangeiro na região.

Assim, nessa dimensão especulativa, supondo que o padrão econômico global iniciado com a ascensão dos EUA no século XIX continue à medida que a China amadurece, o Brasil e a América do Sul podem muito bem ser os mais propensos a emergir, assim como os EUA, a China e o Japão fizeram, estabilizando a economia global e se desenvolvendo ao longo das décadas até se tornarem uma grande economia madura. Se isso acontecer, e mantenho minha especulação a esse respeito, o processo já terá começado.

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George Friedman
https://geopoliticalfutures.com/author/gfriedman/


George Friedman é um analista e estrategista geopolítico de renome internacional, fundador e presidente da Geopolitical Futures. O Dr. Friedman também é autor de best-sellers do New York Times. Seu livro mais recente, A TEMPESTADE ANTES DA CALMA: A Discórdia Americana, a Crise Iminente da Década de 2020 e o Triunfo Além, publicado em 25 de fevereiro de 2020, descreve como “os Estados Unidos periodicamente atingem um ponto de crise no qual parecem estar em guerra consigo mesmos, mas, após um longo período, reinventam-se, de uma forma fiel à sua fundação e radicalmente diferente do que eram antes”. A década de 2020 a 2030 é um período assim, que trará mudanças drásticas e reformulações do governo, da política externa, da economia e da cultura americanas. Seu livro mais popular, Os Próximos 100 Anos, mantém-se relevante graças à precisão de suas previsões.

Outros livros de grande sucesso incluem Flashpoints: The Emerging Crisis in Europe, The Next Decade, America's Secret War, The Future of War e The Intelligence Edge. Seus livros foram traduzidos para mais de 20 idiomas.

O Dr. Friedman já palestrou para diversas organizações militares e governamentais nos Estados Unidos e no exterior, e aparece regularmente como especialista em assuntos internacionais, política externa e inteligência nos principais veículos de comunicação. Por quase 20 anos, antes de se demitir em maio de 2015, o Dr. Friedman foi CEO e, posteriormente, presidente do conselho da Stratfor, empresa que fundou em 1996. Friedman é bacharel pelo City College da City University of New York e doutor em ciência política pela Universidade Cornell.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

As duas primeiras décadas do século XXI: resiliência das autocracias e tropeços da globalização? - Paulo Roberto de Almeida

As duas primeiras décadas do século XXI: resiliência das autocracias e tropeços da globalização?

Paulo Roberto de Almeida

No ano divisor entre dois séculos, e entre dois milênios, 2000, eu escrevi, em Washington, um trabalho que pretendia resumir o sentido de duas décadas extraordinárias no plano das transformações estruturais da economia e da politica mundiais e portadoras da capacidade de colocar os primeiros fundamentos econômicos de uma nova era: 

As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”.

Bem, quanto ao fim do socialismo — entendido no sentido marxista de modo de produção capaz de superar o modo capitalista de produção, — creio que não existe possibilidade de uma reversão no processo histórico: kaput, c’est fini, acabou e não se fala mais nisso (Cuba e Coreia do Norte talvez devessem ser preservadas ao abrigo do Protocolo sobre espécies ameaçadas de extinção para estudo dos futuros arqueólogos políticos). Mas no seu sentido puramente político, o socialismo era a forma de dominação mais propensa a alimentar autocracias, daí a esperança de que estivéssemos numa espécie de “fim da história” e que o futuro seria radioso em termos de reforço de uma ordem liberal. Nisso fomos frustrados e continuamos a ter desafios importantes a uma ordem global liberal, sobretudo quando a principal potência criadora e defensora dessa ordem liberal se volta contra ela e passa a promover um retorno aos imperialismos brutais do passado.

Quanto à globalização, eu diria que no seu sentido micro, como indutora de inovações e de mudanças continuas no “modo de produção capitalista” (o que sobreviveu nos últimos séculos), ela não só se manteve como contínua em sua marcha transformadora do mundo. Mas, em seu sentido macro, aquela induzida ou sustentada pelos Estados e entidades multilaterais, essa enfrenta percalços no seu desenvolvimento e expansão. Mas nada que venha a obstaculizar sua essência mudancista.

Conclusão: parece que está na hora de retomar o espírito analítico e propor uma nova avaliação no sentido proposto ao início desta nota, com algum título talvez mais otimista.

O trabalho citado é este aqui:

749. “As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”, Washington, 21 set. 2000, 68 p. Revisão completa do trabalho n. 519, para servir como novo capítulo 8 do livro organizado por Flávio Saraiva, Relações internacionais contemporâneas. Publicado em José Flávio Sombra Saraiva, Relações internacionais: dois séculos de história, v. II: Entre a ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias) (Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, IBRI; Fundação Alexandre de Gusmão, FUNAG; Coleção Relações Internacionais, 2001, v. II, p. 91-174). Republicado (sem atualização) In: José Flávio Sombra Saraiva (org.), História das Relações internacionais Contemporâneas: da sociedades internacional do século XIX à era da globalização (2a. revista e atualizada; São Paulo: Editora Saraiva, 2006, p. 253-316; ISBN: 85-88270-03-X); disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42863126/As_duas_ultimas_decadas_do_seculo_XX_fim_do_socialismo_e_retomada_da_globalizacao_2006_ ). Relação de Publicados n. 292.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 27/04/2026


Contra o retrocesso e a submissão externa - Julio Benchimol Pinto

 Esta nota de Julio Benchimol, na qual solicita apenas LUCIDEZ dos eleitores, merece ser lida com atenção, pelo que representa de legítimo repudio à familia alucinada que desgraçou o Brasil, levou milhares de brasileiros à morte, por oposição a medidas profiláticas na pandemia, e praticou uma politica externa de submissão total a um tresloucado dirigente do império decadente, fazendo do Brasil e de sua diplomacia um pária internacional.

Só acho que não precisaria fazer nenhuma referência a Lula, que não vem ao caso nesta condenação da familia transgressora da ética politica e da moral publica. PRA


De Julio Benchimol Pinto:

"Não estou lhe pedindo amor por Lula; estou lhe pedindo horror à barbárie.

Estou lhe pedindo que se lembre do que fizeram com o Brasil quando tiveram poder nas mãos: transformaram mentira em método, ódio em linguagem, ignorância em programa de governo, grosseria em identidade moral. Atacaram urnas, atacaram tribunais, atacaram jornalistas, atacaram professores, atacaram a ciência, atacaram a ideia mesma de verdade.

Fizeram da política um curral de fanatismo, da pátria um disfarce, da bandeira um pano para encobrir golpismo, misoginia, racismo, homofobia, devastação ambiental, desmonte da saúde, desprezo pela educação pública, crueldade contra os pobres e servilismo diante dos poderosos.

Humilharam mulheres, insultaram negros, transformaram gays em alvo; trataram indígenas como obstáculo, a floresta como saque, a morte como detalhe.

E quando o país sofreu, quando faltou ar, cuidado, vacina, decência, luto, eles não ofereceram grandeza, mas deboche;  não ofereceram liderança, mas delírio; não ofereceram ordem, mas caos.

Eu não lhe peço entusiasmo; peço limite.

Você pode não gostar de Lula; pode criticá-lo, achá-lo aquém, votar com a mão sem alegria.

Mas há horas em que a urna não nos pergunta quem nos encanta, mas apenas se ainda sabemos distinguir civilização de barbárie.

Esta é uma dessas horas.

Vote contra o golpismo, contra a seita da violência, contra os que corroem instituições, envenenam a convivência e flertam com a treva como quem flerta com um brinquedo.

Um país sobrevive a governos ruins, mas às vezes não sobrevive ao prazer político de destruir tudo.

Não estou lhe pedindo paixão, estou lhe implorando lucidez."


PRA: Acredito que os eleitores brasileiros têm condição de escolher um candidato aceitável. Eles o farão.

Joaquim Murtinho e o primeiro programa de estabilização do Brasil - Helga Hoffmann (revista Será?)

O Déficit no DNA do Brasil?

Joaquim Murtinho: o ministro ficou com a culpa*

Joaquim Murtinho

Joaquim Murtinho

Se fosse contar a história de Joaquim Murtinho em HQ, seria o primeiro Ministro da Fazenda desta nossa República que “tirou a cerveja no meio da festa”. Ou melhor, o que conseguiu “tirar a cerveja”. E só em parte por convicção própria, ainda que ele fosse contra excessos, em especial excesso da emissão de papel moeda. Na verdade, não se encontrou outro jeito: no fim do século XIX o Brasil estava à beira da bancarrota e ele concordou com as condições dos banqueiros do Reino Unido nas negociações durante a moratória do Brasil em 1898. Nem vale a pena especular o que teria sido do Brasil se o governo de então não tivesse concordado com o que muitas décadas depois (na comparação de Gustavo Franco) seria chamado de “condicionalidades”. Já havia uma enormidade de destroços pelo salão, e haveria mais. E uma dívida insustentável e impagável. Os credores desconfiavam, até se opunham, a essa aposta de quem defendeu naqueles tempos, os dois ou três primeiros anos da República, que o certo era incentivar e proteger, botar a impressora para rodar, para que as empresas industriais surgissem ao amanhecer como cogumelos no esterco do pasto.

            Então a primeira cena seria Joaquim Murtinho de jaleco branco recomendando moderação, pois que esse Ministro da Fazenda (1898-1902) era médico de formação, começou como médico em Cuiabá, e quando atuou no Rio de Janeiro tinha pacientes de todas as camadas sociais, foi médico do Marechal Deodoro da Fonseca.

            E a paisagem dessa história em quadrinhos seria muito linda, merece e já teve bons gravuristas: escravos, libertados apenas uma década arás, carregando nos ombros pesadas sacas de café em grão, recém imigrados de olhos azuis com sacas iguais, a imensidão dos cafezais, das fileiras tão retas ou na curva da montanha; etapas da construção da Hospedaria de Imigrantes de São Paulo; palmeiras reais no Rio de Janeiro, que era o que havia de mais urbano; a Amazônia das seringueiras com riscos brancos de látex escorrendo, talvez as festas de inauguração do Teatro Amazonas; os navios no porto de Santos. Eu ficaria tentada até a ilustrar com a São Paulo Railway com vagões sobrecarregados, ainda que essa façanha de engenharia tenha sido inaugurada em 1867, e a expansão das ferrovias financiada pelos ingleses, em função do escoamento do café até o porto, já viesse de algumas décadas anteriores à Primeira República na qual Joaquim Murtinho atuou. Quem sabe, ainda, um cavalo todo apetrechado para a corrida levado de volta para a estrebaria.

            Há algum grau de injustiça nas recordações que deixou esse pedaço da história do Brasil, se queremos colocar mais drama nos quadrinhos. Pois o Ministro Joaquim Murtinho, para quem não houve outro caminho que a austeridade, ficou com a fama de quem acabou com a festa, o culpado por desacelerar a economia e a industrialização, provocando falências de empresas, recessão, desemprego e empobrecimento. Por suas medidas para estabilizar as finanças públicas mediante um ajuste fiscal severo, corte de gastos e aumento de impostos junto com renegociação da dívida, foi considerado defensor de “darwinismo social”. É fato que Murtinho, ao retirar papel moeda de circulação, deixou que falissem as empresas que só sobreviviam com rolagem de crédito irrecuperável. A economia encolheu por dois anos, há estimativas de queda de 20% no PIB per capita entre 1890 e 1900, mas não se sabe quanto foi exatamente a queda do PIB que se pode atribuir ao ajuste de Murtinho, pois contas nacionais não existiam, foram sendo construídas a partir da década de quarenta.

            Enquanto isso o ministro que provocou a crise do Encilhamento, com expansionismo fiscal que chegou a uma crise de confiança dos credores externos e suspensão de rolagem da dívida, escapou da pecha da irresponsabilidade fiscal e de responsável por criar a bolha financeira. Ruy Barbosa passou à história como um visionário que sonhou com a industrialização e o desenvolvimento do Brasil. De fato, num primeiro momento, ampliou-se a criação de empresas: o número de empresas quintuplicou de 1888 a 1891, muitas delas fabris, mas empresas de todo tipo que se aproveitaram da livre criação de crédito sem regulação, inclusive empresas fictícias. Um bom número não sobreviveu quando estourou a bolha do Encilhamento. Claro que nossa “Águia de Haia” foi bem mais que Ministro da Fazenda do governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca. Teve muitos méritos, ajudou a escrever a Constituição de 1891, e brilhou na política exterior do Brasil, como diplomata respeitado.

            E é verdade que nenhuma crise é provocada apenas pelas opções de um Ministro da Fazenda. Seria necessário examinar o modo de inserção do Brasil na economia mundial no fim do século XIX, quando a razão exportações/PIB talvez estivesse em torno de 18%, considerar as flutuações na exportação e no preço do café, preço que dependia do que acontecia com a safra no Brasil, a relação entre câmbio e café, os fluxos de capital e créditos ingleses, o serviço da dívida, por que o boom da borracha dos 1880s não evitou a crise cambial de 1889.

            É fato que houve pressão política em favor de mais emissões. Com a disseminação do trabalho livre aumentou muito a demanda por moeda, principalmente por ocasião da safra, em que se concentravam os pagamentos. Os bancos não tinham condições de atender esses picos de demanda por moeda, porque ainda não havia o hábito generalizado de comerciantes depositarem seus rendimentos em banco. Além de que bancos e depósitos estavam concentrados no Rio de Janeiro. As reclamações de escassez de meio circulante vinham de antes da República, já antes da Abolição de 1888. É preciso considerar ainda, ao examinar as pressões por mais moeda, os gastos extraordinários para conter as rebeliões localizadas, nas províncias do Rio de Janeiro (Revolta da Armada 1883), do Rio Grande do Sul (Revolução Federalista 1883-85), e da Bahia (Guerra de Canudos 1896-97), na república ainda longe de consolidada.

            Nem por isso precisamos esquecer que o primeiro Ministro da Fazenda da República, pelas emissões descontroladas, foi um dos primeiros “amigos da inflação”. A expansão monetária que promoveu foi violenta e muito rápida. Instalada a desordem financeira com a qual não soube lidar, e diante da forte oposição política, renunciou em janeiro de 1891. A renúncia de Ruy Barbosa não conteve as falências que se multiplicavam e até a Bolsa de Valores de São Paulo, que havia sido criada em 1890, fechou em 1891, com o colapso do mercado de ações.

            Seguiu-se um período de grande instabilidade, com praticamente um Ministro da Fazenda por ano. Um deles, que foi nomeado duas vezes, por presidentes diferentes, não se manteve mais que poucos meses, ainda que conseguisse alguma contenção da inflação. Não por acaso foi ainda mais acelerada a troca de Ministros das Relações Exteriores. Ainda que não se detenha nas negociações com credores britânicos na crise cambial de 1898, Rubens Ricupero mostrou as relações entre os conflitos internos desses anos e a mudança nas relações internacionais do Brasil, explicando por que então começam a ter maior importância as relações com os Estados Unidos. (Rubens Ricupero, A Diplomacia na Construção do Brasil 1750-2016, Rio de Janeiro, Versal Ed. 2017, pp. 255-316)

            Depois de sete ministros sem sucesso em oito anos de tentativas divergentes de reorganizar as finanças, foi nomeado Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, em novembro de 1898, e se manteve por todo o mandato do Presidente Campos Salles. A República mal tinha nove anos de idade. Já havíamos chegado à fase da “Republica Oligárquica”, passada a fase da “República da Espada” que se encerrou em 1894. O Presidente Campos Salles era ligado à elite cafeeira paulista, da produção para a exportação. Alguma produção manufatureira para o mercado interno, a partir dos muitos artesãos que chegavam com a imigração, começava a se desenvolver, para um mercado que era pequeno para uma produção doméstica.

            Era um Brasil agrícola. Tão rural que o período de euforia e crise do começo da República foi chamado de Encilhamento, numa analogia com a colocação dos arreios na preparação final do cavalo para a corrida. A população urbana não passava de 10% do total e a maior cidade era o Rio de Janeiro, capital, como pouco mais de meio milhão de habitantes. São Paulo começava a crescer. A abolição do regime escravagista não tinha ainda dez anos e começava a disseminação do trabalho livre no campo, com as formas de remuneração que apareceram na cafeicultura (que não eram exatamente como as do trabalho assalariado moderno, mas aumentaram muito a necessidade de moeda por ocasião das colheitas, não só no café). Pelo Censo de 1890 a população total era de 14,3 milhões, a maioria de pardos e pretos, e não será exagero afirmar que talvez 15% ou mais da população total era de ex-escravizados. No fim da década a população total chegaria a 17,4 milhões.

            E era o tempo do padrão ouro, que se consolidou no século XIX sob a liderança dos ingleses. Assim, é quase alegoria que se aponte para a irresponsabilidade fiscal ao analisar a crise do fim do século XIX. Não tínhamos dados consolidados sobre despesa e receita do governo, mas é certo que o Presidente Campos Salles recebeu o governo com espantoso déficit fiscal. Na verdade, o debate doutrinário daquela época foi entre metalistas e papelistas. Os papelistas, eram partidários da moeda fiduciária, sem lastro metálico, de modo que a moeda poderia ser emitida e usada para estimular o crescimento econômico. Já os metalistas, alinhados ao pensamento clássico britânico, consideravam que a moeda deveria ter lastro metálico, de preferência em ouro.

            Papelistas predominaram na transição do Império para a República, e Ruy Barbosa era destes o representante mais ilustre. A política de Joaquim Murtinho se insere na corrente metalista, que começava a prevalecer em 1895. Já se fizeram análises detalhadas do funcionamento da economia e da política econômica nos primeiros anos da República em termos desse embate entre papelistas e metalistas, ou seja, entre os que reclamavam da escassez de meio circulante e a orientação conservadora que queria reduzir a oferta de moeda para um utópico restabelecimento do padrão ouro à       antiga paridade de pence-réis que o país conseguira de novo ainda em 1888. (Ver Gustavo Franco em “A Primeira Década Republicana” inMarcelo de Paiva Abreu, org., A Ordem do Progresso: Dois séculos de política econômica no Brasil), Elsevier Ed.2014, pp.29-44) Das convicções de metalista de Joaquim Murtinho há notícia antes de ele se tornar Ministro da Fazenda. Mas não é um acadêmico ou autor que escreveu muita coisa, embora se saiba de artigos de várias matérias que publicou em periódicos da época. É em sua atuação na Fazenda que suas ideias encontraram expressão.

            Nos primeiros anos da República, com a enorme expansão da produção, o preço do café despencou. Em 1898, quando Murtinho assumiu, o preço médio da saca do café em libra-ouro chegara a menos da metade do que era no ano da Proclamação da República. Não foi sobre os cafeicultores que recaiu essa perda, pois o câmbio se desvalorizou mais que proporcionalmente e assim os preços em milreis inclusive subiram no período, mais rapidamente ainda após as emissões do Encilhamento. Isso trazia dificuldades para as importações, o que em tese poderia ser incentivo à indústria doméstica, e consequências para o orçamento público que dependia do imposto sobre importações. Entende-se que Joaquim Murtinho atribuísse a crise econômica a “produção exagerada em relação ao consumo”: nos seus termos, uma aplicação viciosa do trabalho nacional na produção de um gênero excessivo no mercado. A queda de preço do café talvez tivesse agravantes, seja concorrentes que começavam a aparecer, seja dificuldades econômicas nos países compradores, mas o aumento do plantio evidentemente foi estimulado pelo crédito fácil da era do Encilhamento. É a ideia da superprodução que serve de base, na década seguinte, para as chamadas políticas de valorização do café.

            Para um metalista como Joaquim Murtinho a crise não era a queda temporária de preços do café, era uma crise financeira provocada pela emissão excessiva de papel moeda, que trazia superprodução, desvalorizava a moeda e desfazia a pretendida paridade com a libra do padrão ouro. A desvalorização da moeda gerava perda de credibilidade nos bancos emissores e no governo, e desconfiança dos credores externos quando o orçamento dependia de novos créditos. Assim, Murtinho Ministro da Fazenda, controlou as emissões e, com ajuda do Congresso para leis que permitiram o fechamento de alguns bancos, tomou providências para tirar de circulação e incinerar parte da moeda fiduciária.

            Mas havia também uma crise cambial que a queda do preço do café agravou muito e que pôs em perigo o serviço da dívida. A crise de 1891-92 veio com uma enorme desvalorização cambial que dificultava importações, mas isso não resolvia o problema do déficit em conta corrente, para o qual governo brasileiro tentava obter novos créditos. Houve uma diminuição das entradas de capital estrangeiro ao longo dos 1890s. O governo brasileiro ainda conseguiu um último empréstimo de rolagem em meados de 1895. Na época, os credores chegaram a sugerir um imposto sobre importações reservado para o serviço de antigas e novas dívidas. Expedientes como a venda de parte das reservas em ouro, tentativas de apropriar parte das receitas de alguma ferrovia, e até a venda de alguns navios de guerra aos americanos depois de dominada a Revolta da Armada no Rio, pouco adiantaram.

            Em 1898 o Brasil caminhava para o default. Joaquim Murtinho e o empenho de seu presidente Campos Salles conseguiram evitar o calote mediante uma renegociação, que resultou no chamado “Funding Loan”. O governo brasileiro não encontrou outra saída que declarar a moratória, informada aos banqueiros em Londres em fevereiro de 1898, o que deu início às negociações. O acordo a que se chegou com a Casa Rotschild não foi uma rolagem da dívida como as anteriores. O Brasil deveria liquidar o pagamento dos juros dos empréstimos anteriores ao Funding com títulos de um novo empréstimo, o Funding Loan, cuja emissão se daria ao par, e podia chegar até 10 milhões de libras-ouro. As amortizações dos empréstimos incluídos na operação seriam suspensas temporariamente, de certo modo substituídas pelos novos títulos de dívida. Uma emissão ainda maior de títulos de renda fixa seria feita para trocar pela “garantia de juros” às ferrovias. Desde o Império, para incentivar a construção de ferrovias, o governo se comprometia em garantir às ferrovias um rendimento mínimo. Como as receitas de muitas das ferrovias não cobriam os custos, a Lei de Garantia de Juros trouxe para o governo considerável risco e compromisso fiscal. Com a troca pelos novos bônus, num total de 16,6 milhões de libras-ouro, foram “resgatadas” 11 ferrovias e se tornou mais previsível a despesa do governo, substituídos os contratos de garantia de juros por títulos da dívida consolidada com os credores.

            O Funding Loan teve como garantia uma hipoteca sobre as receitas em moeda forte da Alfândega do Rio de Janeiro. Isto é, o governo brasileiro dava, como garantia do pagamento aos credores internacionais, as receitas de uma de suas principais fontes de arrecadação, sobretudo em moeda forte. Além dessa garantia, havia a exigência de que o governo agisse no terreno monetário e fiscal de modo a equilibrar as contas do governo, em especial em moeda forte. De fato, houve corte de despesas, e houve aumento de impostos, sobretudo de consumo e do selo (uma espécie de imposto sobre contratos). De resto, Joaquim Murtinho agiu segundo suas convicções sobre emissões excessivas que traziam indústrias artificiais e superprodução. Foram fechados muitos bancos, que já não tinham mais poder de emitir papel moeda. As emissões foram centralizadas no governo federal. As estimativas sobre o tamanho da redução do papel moeda em circulação são desencontradas. Possivelmente a gestão Murtinho, de 785 mil contos de réis em circulação em 1889, teria conseguido retirar uns 100 mil contos de réis.

            Há mais algumas informações em Gustavo Franco (op. Cit. P. 43), mas é bastante radical a sua intepretação de que “a política econômica de Joaquim Murtinho … na verdade consistiu na execução do ‘funding scheme’.” Aí de novo temos polêmica, como já houve na época a acusação extrema de “submissão” para as medidas adotadas por Joaquim Murtinho e Campos Salles. Vale considerar a interpretação de que, dado o panorama internacional e a conjuntura política interna do momento, as decisões de Joaquim Murtinho foram as mais racionais. Ou então, as decisões possíveis.

*O artigo sobre Murtinho é parte de uma coletânea ultra eclética organizada por Roberto Luis Troster, Pensadores da Economia Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Processo, 2025), sobre a contribuição de economistas que já não estão entre nós.


O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro - Paulo Roberto de Almeida

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro

Sobre as referências ao Brasil na obra de Adam Smith e avaliação do pensamento econômico do Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa.

José da Silva Lisboa

José da Silva Lisboa

Brazils, no plural: é assim que a maior colônia da coroa portuguesa vem referida em diversas passagens do livro seminal da Economia Política, aquele que inaugurou, segundo consenso da historiografia econômica, a ciência “lúgubre” (dismal science), aquela que tem a ver com a escassez, a produção e a distribuição de bens úteis à vida em sociedade. A maior parte das citações são puramente ocasionais, como o surgimento de novos mercados nas terras descobertas pelos europeus, ou como fonte eventual do ouro tão avidamente buscado pelos exploradores em terras distantes (no caso do Brasil, em territórios “inhabited by savages nations, who had neither arts nor agriculture.” O plural tinha razão de ser: até meados do século XIX, pelo menos, a antiga colônia lusitana da América do Sul não conformava uma nação unificada, nem no plano econômico, nem no plano das ligações internas, tampouco no plano político, se considerarmos as tentativas de secessão e as revoltas regionais até o início do segundo reinado. As cortes de Lisboa, aliás, pretendiam relegar o Brasil a um estatuto semicolonial, pois que estipularam que as províncias se conectariam diretamente a Lisboa; mas quando tal dispositivo foi estabelecido na primeira Constituição portuguesa, o Brasil já tinha se tornado independente.

As referências ao ouro do Brasil aparecem diversas vezes ao longo dos primeiros livros da fabulosa obra de Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, publicada pela primeira vez em Londres, em março de 1776, ou seja, 250 anos atrás. Na maior parte dos casos, se trata dos volumes “of gold annually imported from the Brazils to Lisbon”, em outros casos ele aborda o sistema de tributação aplicado na América portuguesa ou na espanhola, fixado igualmente em 20% do valor, o famoso quinto: “The tax… of the king of Portugal upon the gold of the Brazils, is the same with the ancient tax of the king of Spain upon the silver of Mexico and Peru; or one-fifth part of the standard metal.”

Mais adiante, no capítulo VII (Das Colônias) do Livro IV, Parte II (Causes of the Prosperity of New Colonies), Smith critica acerbamente o sistema monopólico das companhias de comércio autorizadas pela via do Estado, no caso de Portugal na era de Pombal: “It has occasionally been the policy of France; and of late, since 1755, after it had been abandoned by all other nations on  account of its absurdity, it has become the policy of Portugal, with regard at least to two of the principal provinces of Brazil, Pernambucco, and Marannon.” (p. 376, segundo volume, da 6ª edição, 1791). No capítulo imediatamente anterior, VI, do mesmo livro IV, “Of Treaties of Commerce”, Smith toma apoio no famoso tratado de Methuen (1703) – que ele transcreve na integralidade dos seus três artigos – para criticar sua desigualdade inerente – admissão livre de panos ingleses contra redução de tão somente 2/3 nas tarifas aplicadas aos vinhos portugueses –, mas o erro foi de Portugal, numa época em que a cláusula de nação mais favorecida já estava estabelecida na Lex Mercatoria.

O aspecto mais importante, porém, das conexões entre Adam Smith, entre sua mais importante obra e os “Brasis” – o Brasil colonial, do ouro e das companhias de comércio, e o independente, que herdou um tratado desigual (o de 1810), legado por Portugal, e que durou até 1844, sempre sob protestos do Império – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor entre um dos intelectuais mais ativos na transição do Brasil colonial para o Reino Unido e na consolidação da independência: José da Silva Lisboa (Salvador, 1756; Rio de Janeiro, 1835). O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith pode ter ocorrido em torno de 1795, quando teve acesso a uma edição em português; mas logo em seguida, ele leu e anotou extensivamente The Wealth of Nations e aproveitou algumas de suas lições para o seu primeiro livro de economia política: Princípios de Direito Mercantil e Leis da Marinha para uso da Mocidade Portuguesa destinada ao Comércio (impressa pela Imprensa Régia, em 1798). Essa primeira obra tem uma importância crucial no nascimento do pensamento econômico em Portugal e no Brasil, complementada, já no início do século XIX, pela obra que lhe faz sequência: Princípios de economia política (publicada em 1804 pela Imprensa Régia). Logo ao início esse livro de 1804, ele confidencia aos leitores:

… para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (…), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha [tocha] de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade. (p. iv)

Tendo influenciado o príncipe regente D. João na declaração de abertura dos portos, um decreto publicado quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu imediatamente as suas Observações sobre o comércio franco no Brasil (na Imprensa Régia do Rio de Janeiro, em 1808), que foi seguido, dois anos depois, pelas suas novas Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e, no mesmo ano de 1810, as Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação, discutindo e defendendo os tratados firmados entre Portugal e Grã-Bretanha, entre eles o de comércio, que vai receber, antes mesmo de assinados e promulgados, as mais severas críticas de Hipólito da Costa nas páginas do seu “armazém literário”, o Correio Braziliense.

A despeito da importância intelectual dessa obra, Silva Lisboa não conheceu a fama que legitimamente sempre cercou Adam Smith, à qual, no entanto, ele teria pleno direito de desfrutar, inclusive pelo fato de ter inovado em relação ao escocês. Uma das razões pode ter sido o fato de que ele foi não apenas um seguidor fiel das monarquias do Braganças, mas também um espírito liberal puro, embora pragmático, numa época em que o nacionalismo e o protecionismo comercial começaram a se firmar e a se consolidar no Brasil. É possível que a pouca afeição que teve Cairu no “panteão” dos nossos estadistas da independência – vis-à-vis, por exemplo, José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos entre outros – se deva a essa fidelidade extrema aos Braganças e à união dos dois reinos, enquanto isso foi possível (mas registre-se que Hipólito e Bonifácio tinham a mesma posição até quase o momento da ruptura, com as notícias das Cortes de Lisboa).

No Brasil independente, ele se mostrou extremamente servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador desde a abertura do Legislativo. Cairu, considerado o “cronista-mor” dos Braganças, passou a ser visto, quase que unanimemente por certa historiografia, como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica, no primeiro tomo do segundo volume de sua História da História do Brasil (1988), sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”. É uma visão injusta e parcial no tocante à imensa contribuição que ele ofereceu não apenas no nascimento do pensamento econômico em Portugal e no Brasil, como um Adam Smith brasileiro, mas também do ponto de vista de uma primeira exposição sistemática sobre os fundamentos concretos da economia brasileira.

Ele não apenas fez obra teórica de economia política, como discorreu sobre os principais problemas do Brasil e sobre as maneiras de superar as dificuldades causadas por três séculos de colonização baseada no escravismo, para, enfim, colocar o país e seus habitantes numa rota de crescimento, de redução das desigualdades sociais, de progresso tecnológico e de conexão com todas as partes do mundo, via livre comércio internacional. Não obstante a novidade e a riqueza das contribuições de Silva Lisboa para a precoce preeminência das ideias liberais no Brasil, posturas protecionistas se tornaram predominantes desde meados do século XIX e estiveram no coração dos projetos industrializadores a partir da República. O regime republicano no Brasil reforçou a expansão desse tipo de política protecionista – que, no Império, tinha finalidades mais fiscalistas do que propriamente industrializadoras–, passando a adotar medidas como a Lei do Similar Nacional, que vigorou durante praticamente todo o século XX.

Ainda na época do Reino Unido, Silva Lisboa vai produzir a sua mais importante obra de economia política (programada para ter 12 volumes, mas que permaneceu incompleta), os Estudos do Bem-Comum e Economia Política, ou ciência das leis naturais e civis de animar e dirigir a geral indústria, e promover a riqueza nacional e prosperidade do Estado (Rio de Janeiro: Imprensa Régia, 1819-1820). No Prefácio a este seu último grande trabalho, ele esclarece o sentido, os propósitos e as fontes com as quais trabalhou, desde seu livro de 1804:

Vali-me com preferência das doutrinas de Smith, Malthus, Ricardo, que sobressaem, como Escritores originais, profundos e didáticos, e que se podem intitular os Triúnviros da Economia Política; por terem elevado à dignidade de Ciência esta Literatura, e contribuído para o seu progresso com rapidez, e maior número de princípios exatos, mostrando os erros das opiniões comuns. – Smith a caracterizou como um ramo da Ciência do Legislador e Homem de Estado. – Malthus afirma ser a única Ciência de que talvez se possa dizer, que a ignorância dos seus capitais aforismo não é só privação de bem, mas grande positivo mal. – Ricardo se propôs resolver o que chama Principal Problema da importante Ciência da Economia Política, o determinar as Leis, que, nos diferentes estados da Sociedade, progressivo, estacionário, ou retrógrado, regulam a Distribuição dos produtos da terra, segundo as proporções que competem às suas diferentes classes, a título de salário, proveito e renda. (Edição do Ipea, 1975, p. 7)

Silva Lisboa reconhece a genialidade de Adam Smith, que dizia que a quantidade anual de trabalho necessário à produção das “conveniências para a vida”, que uma sociedade consome, depende, em certa proporção, da perícia, destreza e tirocínio – skill, dexterity, and judgement – no trabalho que é aplicado a essa produção (1791, I, p. 1); mas foi Silva Lisboa quem sofisticou tal visão, ao propor que, na relação entre os diferentes volumes de riqueza das nações, caberia considerar a quantidade de trabalho (no sentido puramente braçal, ou manual) e a quantidade de inteligência que a fundamentam. Tal concepção se aproxima bastante da visão que, nos tempos modernos, alguns economistas inovadores possuem a respeito do conhecimento como um elemento próprio e distinto dentre os fatores de produção, a chamada knowledge economics. Com efeito, Silva Lisboa inova sobre o sistema smithiano, ao considerar que a inteligência, nas operações da sociedade, representa quase tudo para a prosperidade e a ordem própria na vida do povo.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5254, 24 março 2026, 4 p.

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Permito-me chamar a atenção para estes dois trabalhos meus sobre o Adam Smith brasileiro, José da Silva Lisboa: 

5253. “Minha homenagem a Adam Smith”, Brasília, 23 março 2026, 37 p. Apresentação dos trabalhos 3133 (“A Brazilian Adam Smith: Cairu as the Founding Father of Political Economy in Brazil at the beginning of the 19th century”, Mises: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics (2018) e 4216. (“O maior pensador econômico brasileiro, embora ainda controverso”, Brasília, 12 agosto 2022, 20 p. Introdução a uma nova edição dos Princípios de Economia Política (1804), de José da Silva Lisboa; in: Lisboa, José da Silva, Princípios de economia política para servir de introdução à tentativa econômica do autor dos Princípios de Direito Mercantil, 2022). Disponíveis conjuntamente na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165281705/5253_Hommage_to_Homenagem_a_Adam_Smith); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/hommage-to-homenagem-adam-smith-jose-da.html).


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