segunda-feira, 5 de outubro de 2009

1407) Petroleo do pre-sal: uma analise sobria e fundamentada

Pré-sal e suas ameaças: imaginárias e reais
Gunther Rudzit & Otto Nogami
Mundorama, 2 de Outubro de 2009

Nos últimos dois anos a mídia brasileira deu muito destaque às descobertas das novas reservas petrolíferas nas Bacias de Santos e Campos, mais conhecidos como a área do pré-sal. Muito também tem sido falado sobre os interesses estrangeiros, mais especificamente o norte-americano, por esta gigantesca reserva, que até o momento não se sabe ao certo qual o tamanho e conseqüente potencial de produção.

Sem dúvida alguma, esta descoberta terá a capacidade de modificar a percepção acerca do Brasil no sistema internacional, tanto do ponto de vista político, quanto econômico. Contudo, a fim de se elaborar uma análise mais próxima da realidade e não de meras especulações, faz-se necessário examinar as análises do próprio governo americano, para se poder determinar se as nossas análises estão corretas ou não.

A economia capitalista é movida a energia, e, sem dúvida alguma, a americana é baseada no petróleo. Por isso mesmo este tema faz parte das agendas econômica, diplomática e de segurança nacional de Washington. Contudo, partir deste princípio e aludir que os norte-americanos vêem as novas descobertas com a ganância suficiente para tomá-la, é temerário, principalmente quando estas afirmações são dadas por representantes do Estado brasileiro. Em um espaço de tempo de três dias duas afirmações neste sentido se destacaram, como o diretor de exploração e produção da Petrobrás, Guilherme Estrela, diz que a volta da quarta frota pode ser considerado uma ameaça (TEREZA, PAMPLONA e LIMA: 2009), ou então o próprio Presidente da República, que o País tem grandes patrimônios como a Amazônia e o pré-sal e precisa defendê-los.[2]

Diante de tantas insinuações acerca das intenções do governo norte-americano em relação à nova descoberta petrolífera em nossa zona econômica exclusiva (ZEE), há uma forma mais fácil e direta. Para saber se o governo americano realmente percebe as reservas petrolíferas brasileiras como uma fonte de energia estratégica para manter sua economia funcionando, o primeiro órgão que se deve pesquisar é a Energy Information Administration (EIA). [3] Este órgão tem como responsabilidade oferecer dados primários, estatísticas e análises sobre o setor de energia como um todo para o governo americano, tanto para o executivo quanto para o legislativo. Sem dúvida alguma, o setor de petróleo é um dos mais importantes, e representa a grande preocupação da administração do governo norte-americano.

A primeira constatação deste órgão é que o consumo mundial de petróleo deverá passar de 85 milhões de barris/dia para 107 milhões/dia em 2030. [4] Deste crescimento, 80% serão dos países não-membros da OCDE (sigla em inglês da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) na Ásia, principalmente China e Índia. O setor de transportes será o maior responsável por este aumento.

A partir destes dados, a EIA apresenta três cenários prospectivos. O primeiro deles é com o preço do barril chegando ao ano de 2030 com o preço de U$ 200 o barril, o segundo cenário, que é o referencial, chegando à mesma data com preço em US$ 130, e o último cenário com o valor de U$ 50. Seguindo o cenário referencial, a previsão é de que a partir de 2013 o preço mantenha-se sempre acima dos US$ 100 o barril.

Para manter o mercado abastecido, é previsto que tanto os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) quanto os não-membros devem aumentar suas produções. Contudo, dois países membros devem, segundo a EIA, ter problemas para manter este aumento a partir de 2015. São eles o México e a Venezuela, que, devido às políticas setoriais adotadas até agora, não se vislumbram os incentivos necessários para que empresas privadas invistam no aumento de suas produções.

As principais bacias petrolíferas que apresentam condições de aumentar suas produções são as do Mar Cáspio e da América do Sul, sendo que os países não-membros da OPEP que devem ter aumento na sua produção são representados pelo Brasil, Cazaquistão e Rússia. Além disso, os próprios Estados Unidos devem aumentar também sua produção doméstica, principalmente nas águas ultra profundas do Golfo do México. O Canadá também será um grande exportador, mas de petróleo extraído de rochas betuminosas.[5]

Dentro deste contexto, atenção especial é dada ao Brasil, definido como o país que apresentará o segundo maior aumento na produção até 2030, devendo ficar atrás somente dos Estados Unidos. O relatório anual da EIA destaca as recente descobertas no pré-sal, referindo-se diretamente aos campos gigantes de Tupi, Guara e Iara, mas também faz menção às mudanças regulatórias que começam a ser estudadas pelo governo brasileiro.

Assim, a agência americana faz duas projeções em relação ao caso brasileiro. O primeiro tem como premissa o alto preço do barril e grande restrição ao capital privado, o que faria a produção crescer 3% ao ano e chegar em 2030 com 2,1 milhões de barris/dia a mais do que produção atual. Já o segundo cenário tem como premissas preços baixos e a manutenção da abertura ao capital privado, o que faria a produção crescer 5% ao ano e chegar em 2030 com produção adicional de 4,1 milhões de barris/dia.

Além do petróleo, a produção de etanol também é analisada. Para este combustível há o destaque de que o etanol brasileiro é o mais produtivo e competitivo hoje em dia, e que a produção deverá continuar a crescer mais do que o consumo interno, fazendo com que as perspectivas para as exportações cresçam. Mas, novamente, dois cenários são apresentados, o de alto preço do petróleo beneficiaria a produção de etanol, que chegaria em 2030 a 1,3 milhão de barril/dia, enquanto que no cenário de preço do petróleo baixo, a produção chegaria no mesmo ano a somente 0,8 milhão/dia. E para o Brasil há um fato muito importante, nenhuma menção é feita em relação a possíveis exportações para os Estados Unidos.

Outro relatório muito interessante desta mesma agência é a lista dos maiores exportadores de petróleo para os Estados Unidos no mês de agosto de 2009.[6] As importações são cotadas em milhões barris/dia, e em ordem decrescente, são: Canadá com 2.001; Venezuela com 1.119; México com 1.099; Arábia Saudita com 902; Nigéria com 769.

Um fato interessante nesta lista, é que o Iraque só aparece em sétimo lugar, com importações de 374 mil barris/dia. Por outro lado, fica claro também que, mesmo se colocando com o inimigo dos Estados Unidos, a Venezuela é segunda fonte de petróleo dos Estados Unidos, sendo que só o presidente Hugo Chávez é vê ameaça nessa relação. Ainda mais que as exportações de petróleo e refinados ao mercado americano equivalem a 60% do total, além de que, a estatal petrolífera venezuelana a PDVSA (Petróleos de Venezuela, S.A.) é proprietária de quatro refinarias e participação acionária em outras quatro (ALVAREZ e HANSON: 2009).

Portanto, em uma relação econômica tão forte e importante como é a de Estados Unidos e Venezuela, com grande interdependência econômica, é muito pouco provável que um presidente americano tente usar a força a fim de ter acesso ao petróleo venezuelano. Esta ação causaria mais prejuízos econômicos do que qualquer ganho relativo, o que torna tal hipótese muito fraca.

Com a possibilidade de acesso a outra fonte de petróleo de boa qualidade e de um fornecedor estável política e economicamente como o Brasil é, pode-se extrapolar duas hipóteses. Primeira, que haveria o interesse te trocar a dependência parcial em relação à Venezuela pelo petróleo brasileiro; e a segunda, de que a mesma impossibilidade de uso da força seria aplicada à nova relação. E esta não poderá ser ameaçada pela tão propalada quarta frota.

Esta estrutura militar existe somente no organograma do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Ela não tem nenhum navio designado e nem forças expedicionárias permanentemente e muito menos nenhum porta-aviões, como os outros comandos militares têm. Desde que foi relançada, teve aumento de staff de quarenta pessoas, passando a contar com cento e vinte militares. O que mais chama a atenção é que no seu quartel general a quarta frota tem oficiais de ligação do Brasil, Chile, Colômbia, Equador e Peru, além de representantes de Argentina, México e Uruguai na Naval Telecomunications Network (IANTN), o sistema de tráfico de mensagem compartilhado entre todas as marinhas da América latina.[7] Portanto, tendo a presença de militares sul-americanos, e em especial um brasileiro, na sua sede, seria de se supor que estes possam perceber qualquer motivação estratégica no Comando Sul, o que até agora não foi noticiado.

Portanto, se existe uma ameaça, ela está na esfera econômica. Quando toda a gigantesca infra-estruturar de exploração comercial estiver pronta, o que deverá acontecer em dez ou quinze anos, o grande mercado americano poderá estar caminhando para a substituição do petróleo como fonte de energia de transporte.

O presidente Barack Obama tem planos para buscar a independência americana do petróleo, com três ênfases, desenvolvimento de novas formas de energia, estabelecer padrões de eficiência de combustível e regular emissões de fases de efeito estufa (WASHINGTON POST: 2009). E esta nova política já começou, com a discussão sobre a efetividade do plano e, principalmente, pelo aumento de um novo ingrediente, a preocupação com o aquecimento global (MUFSON: 2009). Tanto que, dia quinze de setembro o presidente assinou a nova lei que determina o aumento da economia de combustível em 5% ao ano até 2016 (FAHRENTHOLD & EIPLERIN, 2009).

Estas decisões vão de encontro com uma parte das propostas feitas pela RAND Corporation (RAND:2009, 19). Dentre as políticas propostas destacam-se a de incentivar o surgimento de novas formas de energia a fim dos Estados Unidos aumentarem sua segurança nacional, reduzir o consumo de petróleo e apoiar o bom funcionamento do mercado global de petróleo.

Se existe alguma ameaça ao pré-sal, ela não virá de estruturas militares, ela virá das lógicas política e econômica. A busca pela independência de fornecedores externos de petróleo e seus derivados tem sido um objetivo de várias administrações americanas, mas hoje as alternativas tecnológicas existem ou estão muito próximas, o que fará com que as reservas do pré-sal descobertas na Zona Econômica Exclusiva do Brasil não seja ameaçadas militarmente, mas sim por esta nova realidade. Principalmente levando-se em conta que empresas americanas, através de contratos de risco, tem prospectado a existência de petróleo na camada pré-sal nas costas africanas, a profundidades bem menores que a do Brasil.

Bibliografia

* ALVAREZ, Cesar J. and HANSON, Stephanie. (2009). Venezuela’s Oil Based Economy. New York: Council on Foreign Relations. Disponível em: [http://www.cfr.org/publication/12089/]. Acesso em 20/09/09.
* FAHRENTHOLD, David A. & EIPLERIN, Juliet. (2009). White House Is Prepared to Set First National Limits on Greenhouse Gases. Washington, DC: The Washington Post. Disponível em: [http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/09/15/AR2009091503146.html?wpisrc=newsletter&wpisrc=newsletter&wpisrc=newsletter]. Acesso em 16/09/09.
* MUFSON, Steven. (2009). Will Obama’s Revolution Deliver Energy Independence? Washington, DC: The Washington Post, 2009. Disponível em: [http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/04/03/AR2009040302794.html]. Acesso em: 05/04/09.
* RAND, Corporation. (2009). Imported Oil and U.S. National Security. California: Rand Corporation, 2009.
* TEREZA, Irany, PAMPLONA, Nicola e LIMA, Kelly. (2009). Fornecedor dita ritmo de exploração do pré-sal. São Paulo: Agência Estado, Caderno Economia, 09/09/09, p. B 6.
* ASHINGTON POST, The. (2009). Obama Announces Plans to Achieve Energy Independence. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/01/26/AR2009012601147.html]. Acesso em: 26/09/09.

Gunther Rudzit é Doutor em Ciência Política pela USP. Coordenador do curso de Relações Internacionais da FAAP- SP, Professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e do MBA do IBMEC-SP (grudzit@yahoo.com).

Otto Nogami é Mestre em Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutorando em Engenharia pela Universidade de São Paulo – USP. Professor do IBMEC-SP (OttoN@isp.edu.br).

[2] http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/09/18/lula-defende-que-brasil-aumente-seu-poder-de-defesa-767669637.asp
[3] www.eia.doe.gov
[4] www.eia.doe.gov/oiaf/ieo/pdf/liquid_fuels.pdf
[5] Este processo se dá quando o xisto betuminoso, que é uma rocha sedimentar e tem de 5% a 10% de petróleo na sua composição, é aquecido fazendo com que o óleo se separe e possa ser refinado, fazendo com que seu custo seja muito mais alto do que o petróleo extraído normalmente.
[6]www.eia.doe.gov/pub/oil_gas/petroleum/data_publications/company_level_imports/current/import.html
[7] http://www.southcom.mil/AppsSC/factfiles.php?id=55

from → 1. Boletim Mundorama, Brasil, Política Externa

domingo, 4 de outubro de 2009

1406) Turismo academico: encerrando uma etapa da viagem em Paris, novamente

De Torino a Paris, via Lyon

Hoje foi dia de viagem, e de despedidas. Acordei cedo, tomei um bom café no Best Western Genova, de Torino, e seguimos para a autoestrada do Frejus, o túnel de passagem entre a Itália e França na altura da Haute Savoie, que dá na altura de Chambéry.
Viagem agradável e tranquila, apesar de já estar fazendo frio no alto dos Alpes, o que parece uma banalidade dizer...
Pedágios e tarifa de travessia de tunel são bastante caros na Europa, que aliás se caracteriza pela cobrança de pedágio nas estradas. Creio que com exceção da Alemanha, da Bélgica e da Holanda, todos os demais países cobram pedágio pela utilização das boas estradas que cortam seus países, o que é eminentemente justo e democrático: o usuário é quem deve pagar por serviços de interesse restrito.

Almoçamos já na França, numa parada da rede Courtepaille. Comi um magret de canard, que estava apenas razoável.
Entramos em Lyon em torno das 15h00, e deixei Pedro Paulo e Carmen Lícia no Hotel Le Phenix, à beira do rio, no Quai de Bondy.
De lá segui direto para a autoestrada A6, a caminho de Paris, onde estou agora, depois de ter deixado mala e livros no hotel e ter ido devolver o carro.

Pelo cômputo de minha caderneta de viagem, deixei Paris no último domingo dia 27 de setembro, com o marcador a 7.830 kms. Devolvi-o neste domingo 4 de outubro, com o marcador registrando 10.736kms. Foram, portanto, quase 3 mil kms, mais exatamente 2.906kms, o que parece muito mas não é quase nada nas dimensões do Brasil (com a diferença da qualidade das estradas e dos serviços disponíveis). Basicamente, Provence, Piemonte, Veneza e Torino.

Jantei na estrada, antes de enfrentar pequeno engarrafamento do domingo de rentrée, no pedágio (mas não na entrada de Paris, como era o meu temor).

Amanhã, uma visita a um escritório internacional para uma pesquisa histórica de meu interesse e depois direto para o aeroporto, de volta ao Brasil, via Portugal.
Espero não ter as mesmas tribulações da vinda, quando tive de comprar nova passagem para contornar a greve dos pilotos da TAP.

No resto, foi tudo muito bem, uma viagem praticamente perfeita (mas ainda não fiz a soma de quanto gastei; em todo caso, este não era o critério).
Bye, bye...
Paulo Roberto de Almeida
Paris, Domingo, 4 de outubro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

1405) Turismo academico: ultima experiencia na Torino gastronomica e alguns passeios livrescos

Sábado, 3 de outubro de 2010
Helàs, la stada italiana prende fine, senza che il piacere del buon mangiare e gli passegiatte in cità hanno preso fine.
Passeio na cidade, primeiro no Palazzo Madama, museo di arte, um pouco barroco demais para o meu gosto, mas também atinha paratodos os gostos, peças da Idade Média, tapessarias, tecidos (inclusive uma história e a tecnologia do veludo), um bom café (ma questo non è bisogna da dire...).
Depois, pelas galerias, negozzi, restaurantes da cidade. Depois do excelente pranzo da sera, ieri, decidimos não voltar a um restaurante que conhecíamos da tempo, Il Cambio, que vem dos tempos de Cavour e do movimento contra a dominação austríaca, pela liberação e unificação da Itália.

Comemos mais rapidamente no centro, apenas para frequentar por mais tempo as livrarias, numerosas, e o comércio. Compramos mais dois ou três livros, alguns presentes, e voltamos ao hotel, arrumar malas e preparar a viagem de volta à França, neste domingo. Também aproveitar para ler outros livros nas livrarias.

De noite, uma última incursão gastronômica, próxima do hotel onde estávamos, Best Western Genova, na via Paolo Sacchi 14.
Fomos à Trattoria La Conca (ânfora), de cozinha degli Abbruzzi: Linguine ai Frutti di Mare, Pesce Spada ai Ferri, Branzino al forno, patate fritti, vino bianco, macedonia di frutta, café. Eccelenti, como sempre.

Tenho de trabalhar em alguns textos agora, aproveitando as numerosas notas que fiz durante todo o dia, no café do museo, nas livrarias, no próprio hotel...

Addio Torino, 3 de outubro de 2009.

1404) Turismo academico: Torino gastronomica

Uma sexta-feira de visitas a monumentos históricos, a livrarias e, soprattuto, dedicada à gastronomia, que é para isto que viemos parar nesta cidade.
Uma visita rapida à igreja do santo sudário, pois já conhecíamos a relíquia de passagem anterior, e um détour pela grande basílica de Superga, no alto de uma colina que domina toda a região. Livrarias aqui e ali, com livros de viagens e relatos de viajantes.

De noite, um retorno ao ponto alto da nossa atual estada (e ponto alto das despesas gastronômicas, também): Ristorante Al Gatto Nero, que existe no mesmo lugar desde longos anos, e ao qual tinhamos vindo possivelmente vinte anos atrás. Uma carta bastante variada, mas o ideal, para quem gosta da boa comida italiana, era experimentar o menu assaggini, ou seja, a modalidade da degustação, em que prova de tudo um pouco ao modesto preço de 55 euros por pessoa, sem vinho.
Descrevo a sucessão de pequenos pratos, para uma idéia do que comemos:
1) antipasto: insalata tiepida de frutti di mare (lulas, gamberetti);
2) antipasto: baccalà amantecato com purê de batatas;
3) antipasto: anchovie com alcaparras e tomates em cubos;
4) pasta: tagliolini ai funghi porcini;
5) pasta: rigatone con ragu di carne;
6) principale: chateaubriand con faggiolini

Carmen Licia comeu o bacalà de entrada e um peixe (sogliola) com batatas depois.
Para acompanhar tomou meia garrafa de Soave Pieropan 2008.
Eu e Pedro Paulo fomos de Brunello do Montalcino Riserva, Poggio Al Vento, 1998 (76 euros, como informação).
Sobremesas: gelatto de gianduia con pessegos; eu fui de parmigiano reggiano com peras.
Café; brincadeira total, 261 euros, sans regrets...

Torino, 2 de outubro de 2009.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

1403) Turismo academico: da Venezia a Torino, senza sbagliar niente, tutto piacere...

Museo Ebraico, a Venezia, Il Gato Nero a Torino...

Despedida de Veneza nesta quinta-feira, 1 de outubro. Acordamos cedo, eu alias, antes das seis, para redigir um trabalho para minha palestra no seminário da UnB sobre a queda do muro de Berlim (ver dois posts abaixo, ou seja, 1401), e depois um café saboroso.
Saimos para nossa última visita antes da partida, desta vez no quartiere ebrei, Vecchio Ghetto, Nuovo Ghetto e Museo Ebraico.
Ao contrário do que muita gente pensa, eles não estão da ilha de Giudeca, cujo nome não vem de judeu, mas sim de giurisdizione, ou seja, uma região atribuída aos judeus na Idade Média, mas que depois se moverem para uma ilha mais ao norte, um verdadeiro pântano, situado longe do centro (Piazza San Marco e o Palácio dos Doges). Por esse pântano, eles pagavam um aluguel acrescido de um terço, apenas porque eram judeus, além de serem obrigados a usar um barrete amarelo, que ficou nos costumes até tempos mais odiosos...
Tudo isso, e muito, muito mais, aprendemos ao visitar o Museo Ebraico, que retoma a história do povo judeu, com especial atenção para os que se instalaram na região de Veneza, vindos tanto da Europa setentrional (askenazis), como da peninsula ibérica (sefardins del ponente), sefardins do Oriente Médio (sefardins del levante) e de outras regiões (norte da África, por exemplo). Todos concentrados no ghetto, que era o local da antiga fundição, de onde vem o nome, cujas portas eram fechadas todas as noites, para serem abertas apenas na manhã seguinte.
Excluídos da maior parte das profissões e de acumularem patrimônio fundiário, os judeus tiveram de concentrar-se, como uma das poucas opções, no comércio de moedas e nas operações usurárias, daí sua identificação equivocada com o capitalismo, preconceito que também Marx exibiu no seu menos conhecido Judische Frage (A Questão Judaica, 1844).
Napoleão libertou os judeus de Veneza e os fez quase cidadãos, mas a história foi madastra com eles, posto que as perseguições continuaram, tanto dos papas quanto, mais tragicamente, dos nazistas.

Comprei um livro de Riccardo Calimani, um engenheiro eletrotécnico, autor de vários livros sobre o povo judaico e sua história italiana, inclusive este: Non è Facile Essere Ebreo: L'ebraismo spiegato ai non ebrei (Mondadori, 2004). Já comecei a ler, no barco de volta ao hotel...

Recuperamos o carro no parchegio (60 euros pelos dois dias e meio) e tocamos para a estrada de Padova, pelo canal della Brenta, para visitar alguns palácios palladianos.
De volta à autostrada, foi tranquilo, com apenas um pouco de concentração de carros na região de Milão.
440 kms de viagem, em pouco mais de sete horas, com várias paradas no começo, para as visitas mencionadas.

Propositalmente, vim para um Best Western Hotel próximo do Corso Felippo Turatti, onde fica um restaurante absolutamente extraordinario. Il Gato Nero (numero 14; telefono 59-0414), onde pretendemos enfrentar um menu degustazzione, nesta sexta ou sábado de noite...

Comemorações absolutamente oficiosas, e aborrecidas, pelo 60. aniversário da revolução comunista na China, e um pouco de tragédias ambientais na TV: terremoto em Sumatra, tsunami em Samoa, terríveis perdas humanas.
Olimpíadas de 2016 ainda não decididas, mas não vou esperar. Prefiro ler...

Torino, 1 de outubro de 2009.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

1402) La Serenissima Venezia (não mais tão tranquila assim)

A cidade de Veneza sempre foi chamada de Sereníssima República, pela tradição histórica, e pelo seu estatuto de cidade livre, abrigando todos os perseguidos do mundo (os primeiros ghettos de judeus se estabeleceram aqui).

Já Francesco Petrarca, em uma carta a um suo amigo seu de Bolonha, em agosto de 1321, descrevia assim a Sereníssima República de Veneza:
« [...] quale Città unico albergo ai giorni nostri di libertà, di giustizia, di pace, unico rifugio dei buoni e solo porto a cui, sbattute per ogni dove dalla tirannia e dalla guerra, possono riparare a salvezza le navi degli uomini che cercano di condurre tranquilla la vita: Città ricca d'oro ma più di nominanza, potente di forze ma più di virtù, sopra saldi marmi fondata ma sopra più solide basi di civile concordia ferma ed immobile e, meglio che dal mare ond'è cinta, dalla prudente sapienza dè figli suoi munita e fatta sicura »

Excelente como instituição de liberdade, e continua assim, tão livre quanto no tempo dos tiranos em outras partes do mundo, mas não sei se tão serena e tranquila como antigamente. Agora, o que se vê pelos canais, vias, viales, becos, impasses e corredores da cidade é uma fauna variada de cidadãos do mundo, cada um com seus trajes e maneiras características, e música barulhenta da per tutti.
Em todo caso, a estada foi gratificante.
Ainda saímos para passear noite adentro, e depois nos instalamos no mesmo Ristoranti de ontem, Gran Canale, pois que a comida era boa e os preços convidativos.
Nesta noite enfrentamos pollo arrosto e fegato alla veneziana, acompanhado de Chianti classico. Apetitoso,d eixou saudade.
Antes, algumas compras pelas lojas ainda abertas pela noite.
Piazza Goldoni, com sua máscara de teatro, e outros locais igualmente memorabili.
Nada como uma cidade sereníssima para inspirar ideias de novos ensaios sobre a liberdade.
Como não sou nenhum Isaiah Berlin, vou mesmo preparar uma palestra sobre a queda do muro de Berlim...

Veneza, 30 de setembro de 2009, 23h40

1401) Muro de Berlim: vinte anos de seu final

Todos se preparam para comemorar, vinte anos depois, o final de uma história de tragédias em torno do muro de Berlim. Mais abaixo um artigo sobre sua existência.
Aproveito para informar sobre um seminário que será realizado na UnB, conforme notícia provisória aqui postada:

Seminário “Além do Muro” - UnB
Quinta-feira, dia 12 de novembro de 2009
Auditório da Reitoria

Programa provisório:
9.00: Abertura
9.15: Palestra do Prof. Dr. Edgar Wolfrum, Universidade de Heidelberg:
Breves comentários dos professores Estevão Martins e Wolfgang Döpcke (UnB)
14.30:Mesa Redonda I: Muros simbólicos e reais
Hartmut Günther (UnB): “(I)mobilidade e (des)apego: Reflexões sobre um muro”.
Gustavo Lins Ribeiro (UnB): “A queda de todos os muros”.
16.30: Mesa redonda II: O mundo após a queda
Paulo Roberto Almeida: “Outros mundos possíveis: processos históricos alternativos, antes e depois do muro de Berlim”
Virgílio Caixeta Arraes (UnB); “Estados Unidos: da liderança eufórica à crise de confiança (1989-2009)”.
18.00: encerramento

Berlim 1989-2009: As tragédias do muro
Histórias das travessias proibidas que acabaram bem-sucedidas, e das fugas desesperadas que não tiveram o mesmo destino.
Hugo Souza.
Opinião e Notícia, 29/09/2009

No dia 15 de agosto de 1961 Conrad Schumann foi designado para cuidar que ninguém atravessasse a cerca de arames farpados da Bernauer Strasse, em Berlim, nos idos em que o muro ainda não era muro, mas apenas uma rede de alambrados provisórios, que desde então, e literalmente, dividiam a cidade em metades politicamente antagônicas. Soldado da República Democrática Alemã (RDA), a comunista, Schumann não pensou duas vezes quando se viu sozinho montando guarda na fronteira em construção: jogou seu fuzil para o lado e escapuliu para a metade ocidental. Parece piada, mas foi realmente uma das primeiras fugas da RDA pelo Muro de Berlim, antes mesmo de o muro propriamente dito estar completamente de pé.

Naqueles tempos pré-muro, ou de muro cheirando a cimento fresco, as tensões da divisão de fato da Alemanha em Alemanhas apenas começavam, mas a linha divisória mais famosa da história já servia de palco para algumas das maiores tensões da Guerra Fria, como as semanas a fio em que tanques norte-americanos e soviéticos permaneceram estacionados frente a frente no Checkpoint Charlie, o mais famoso posto de controle do Muro de Berlim.

Em seguida, muitas outras fugas, algumas célebres, repetiram-se ao longo dos 28 anos de 155 quilômetros de concreto que separavam um povo em dois. Em 1963, um grupo começou a construir sob o muro um túnel de 145 metros de extensão e 80 centímetros de diâmetro, pelo qual nos dia 3 e 4 de outubro de 1964 nada menos do que 57 pessoas deixaram a RDA antes que a polícia do regime descobrisse o vazamento, por assim dizer. Muitos anos mais tarde, duas famílias da Alemanha Oriental passaram despercebidas pelos guardas a bordo de um balão de ar quente, cruzando a fronteira pelo céu na noite do dia 16 para o dia 17 de setembro de 1979.

Muitos outros não tiveram a mesma sorte. Pelo menos 136 pessoas foram mortas em incidentes que aconteceram entre 1961 e 1989 junto ao muro de Berlim. A maioria era de homens jovens, com idades entre 16 e 30 anos. Noventa e nove delas foram mortas enquanto tentavam passar do lado oriental para o lado ocidental. Os dados são do Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Potsdam.

Assim como as fugas, houve também vítimas célebres dos guardas de fronteira. A primeira vítima fatal dos disparos de soldados da República Democrática Alemã chamava-se Günter Litfin, alvejado no dia 24 de agosto de 1961. Outro caso de maior repercussão foi o de Peter Fechter, que tombou morto perto do Checkpoint Charlie no dia 17 de agosto de 1962, quando tentava ir para o lado ocidental a fim de procurar a irmã. Tinha 18 anos de idade.

Entre os mortos estão também oito guardas de fronteira da RDA, como Reinhold Huhn, assassinado também em 1962, no dia 18 de junho, por um Fluchthelfer (pessoas que ajudavam cidadãos do leste a atravessar a fronteira ilegalmente). Em fevereiro de 1989, nove meses antes da queda, o Muro de Berlim fazia sua última vítima fatal, um jovem de 20 anos chamado Chris Gueffroy, que tentou fugir acreditando na informação passada a ele por um soldado de que a ordem para atirar havia sido suspensa.

Não havia. A Schiessbefehl (”ordem de atirar”, em português) persistia. Esta determinação da cúpula do regime comunista da Alemanha Oriental rendeu processos judiciais que se arrastaram até o ano de 2004. Os chamados “processos de Schiessbefehl”, de responsabilização pelas mortes por disparos saídos dos fuzis dos guardas do muro, terminaram com 11 condenados à prisão e 35 absolvidos, entre militares e políticos da RDA.

Hoje, na frente do museu do Checkpoint Charlie — o posto de controle onde Peter Fechter perdeu a vida enquanto tentava resolver um drama familiar — um berlinense chamado Wolfgang Kolditz ganha a vida se fantasiando de guarda de fronteira e carimbando postais comprados por turistas que visitam aquela que permanecerá para sempre como a mais famosa cidade partida da história, ainda que atualmente os muros pós-Guerra Fria continuem fazendo vítimas que já não gozam de tanto glamour póstumo.
Escrito por: Hugo Souza

Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...