Flâneries cansativas, mas altamente enriquecedoras.
Em Veneza, não tem muitas alternativas: ou você é milionário, e contrata um gondoliere per la giornatta (e não tenho ideia de quanto poderia custar essa loucura), ou você fica pegando o tragheto de um lado a outro (mas cada bilhete individual custa a tarifa extorsiva de 6,50 euros, um assalto a mão armada sobre turistas ocasionais; existem tarifas mais reduzidas, mas são válidas para vários dias, uma semana talvez), ou então você sobe e desce escadas, cruzando pontes sobre os canais, se enfiando em ruelas e praças para ir de um canto a outro.
Foi o que fizemos, durante a maior parte da giornata di sole, ma non troppo caldo, ótima para caminhar e apreciar a cidade. Fomos a duas exposições, com direito a paradas para café e refrigerantes pelo caminho, e voltamos ao Hotel Marconi cansadíssimos, mas satisfeitos.
Primeiro no Ca' Rezzonico, Museo del Settecento Italiano.
Numa libreria da esquina comprei o último Norberto Bobbio, Etica e Politica: Scritti di Impegno Civile (Mondadori, setembro de 2009, ou seja, acaba de sair do forno), uma coletânea de escritos políticos e filosóficos, a cura di Marco Revelli, que fez uma excelente introdução, uma cronologia completa, e uma bibliografia resumida (uma bibliografia completa seria impossível: Bobbio tem 4.803 escritos catalogados, em todas as categorias -- livros, artigos, conferências, entrevistas -- o que daria 128 volumes, com 944 artigos, 1.452 ensaios, 457 entrevistas, 316 palestras).
Verdade que eu já tenho vários dos escritos coletados, sobretudo "Quale Socialismo?", "Democrazia e Dittatura" e "Destra e Sinistra", além de alguns outros livros de filosofia do direito, mas este volume impressionante (1.718 páginas, com notas completas e aparato referencial), pela sua importância intrínseca, pode ser considerado uma espécie de "essential Bobbio". Preço para quem quiser encomendar via www.librimondadori.it 55 euros (mas o frete, pelo peso do volume, deve sair caro).
Já comecei a ler o livro, inclusive no almoço:
Ristoteca, Osteria e Enoteca Oniga (Campo San Barnaba)
Menu a 18 euros, sem o vinho, aceitável: spaghetti alle cose (mexilhões), pesce alla griglia, polenta e café; à parte um gnocchi, e o vinho, um chardonay da região (Mosole), a 12 euros.
Bem, desde o Brasil eu estava hesitando em dizer que só vim a Itália para duas coisas: comer trufas e tomar café. Agora posso dizer que só vim para uma única coisa, tomar café: inacreditável como não existe nenhuma outra coisa parecida no mundo com o café italiano, irreproduzível, inencontrável, exclusivíssimo e gostosíssimo. Basta isso.
Antes do almoço ainda visitamos uma exposição de maquinas e modelos do Leonardo da Vinci, na Igreja San Barnaba. Interessante, mas achei caro os 8 euros de entrada. Mais caro ainda foi o museu da tarde, no Palazzo Fortuny, uma coleção única de um rico herdeiro espanhol que comprou um palácio em Veneza, como fazem tantos ricos extravagantes de par le monde...
Ruelas e mais ruelas, sobe e desce, com os gondolieri que passam cantando embaixo das pontes, e finalmente atravessamos a Ponte di Rialto, e estamos chez Marconi, outra vez.
Bem, só resta agora decidir onde vamos jantar, e também tem concerto de música, depois.
Veneza, 30 de setembro de 2009, 18h25.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Um comentário:
Nossa,
O essencial de Bobbio ... Uma pontinha de inveja e tristeza em saber que somente daqui uns anos poderei ver essa obra (as historinhas são mais rentáveis para serem traduzidas do que livros da area de politica...).
Mas parabens para o compilador dos textos ...
No mais, boa viagem professor Paulo.
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