Crônica de mais uma viagem turístico-acadêmica
Começou mal, meu mais recente périplo europeu: greve de pilotos da TAP, comandada desde Lisboa, para os dias 24 e 25 de setembro, o que lançou o caos sobre todas as conexões lisboetas da TAP, o que era o meu caso, com bilhete Brasilia-Lisboa-Paris.
Primeiro, não havia possibilidade de embarcar em Brasilia, pois as conexões a partir de Lisboa estavam comprometidas, depois apenas algumas, entre elas Paris. No final, fiz questão de embarcar para Lisboa, mesmo sem conexão assegurada para Paris.
Confusão multiplicada por 10, no aeroporto de Lisboa: filas quilométricas no único guichê disponível da TAP, com gente que dizia estar ali há 12hs.
Ajudei um casal de franceses, completamente desarçonnés (visivelmente desorientados), tentando se fazer entender de um jovem empregado português do aeroporto, ele manifestamente embaraçado pela enorme confusão que atingia centenas, ou mais, de turistas portugueses e estrangeiros (em várias linguas incompreensíveis para ele).
Discutimos, eu e Carmen Lícia, várias possibilidades de partir para a França: (a) outras companhias aéreas (todas devidamente assaltadas por hordas de turistas frustrados, os novos bárbaros da civilização do lazer); (b) trem; (c) ônibus, que os lusitanos chamam de autocarro; (d) carro alugado, ou uma combinação de algumas delas, como viagem a Madrid, para depois embarcar na capital espanhola. Nem tentamos resolver o assunto com a TAP, pois isso implicaria em ficar várias horas numa fila, sem promessa de solução...
As outras companhias aéreas estava regurgitando de gente, o que me levou a examinar as possibilidades de trem e de autocarro, mas isso representaria várias horas, talvez um dia e meio de viagem algo incômoda.
O aluguel de um carro oferecia a possibilidade da flexibilidade de viagem, totalmente independente, mas, por incrível que pareça, as locadoras portuguesas, supostamente atuando num mercado unificado pertencente desde alguns anos a uma união econômica (inclusive com moeda única, ao que parece), não alugam carros para devolução em outros países membros da UE, apenas e exclusivamente em Portugal, de volta. Só seria possível se houvesse algum carro francês disponível ocasionalmente, para entrega em Paris (mas neste caso seria eu que deveria exigir pagamento pelo serviço prestado, pensei cá comigo).
Enfim, eliminada essa hipótese, passei na Air France, surpreendentemente vazia, mas por uma razão muito simples: o sistema (essa entidade sempre misteriosa) tinha caído, sem previsão de restabelecimento. Essa circunstância fortuita evitou-me de pagar por um bilhete a Paris (mas apenas no dia seguinte, ou seja, amanhã, sábado 26), pela modesta quantia de 780 euros por um aller simples. Trata-se, manifestamente, de um assalto a mão desarmada em plena luz do dia (mas os preços noturnos devem ser semelhantes), apenas explicável porque a França continua a ser um país colbertista, com estatais protegidas (e quase todas falidas) que se dedicam a espoliar tranquilamente seus clientes obrigados.
Fui salvo pelo casal francês, sympathique, a quem eu tinha procurado ajudar na confusão inicial: fui alertado para a existência de uma companhia francesa (administrada por esses bravos aprendizes de capitalista magrebinos, marroquinos e argelinos), chamada Aigle Azur, que estava oferecendo vôos para Orly Sud por apenas 160 euros, uma pechincha frente aos quase 900 da Air France.
Corrida para embarcar em 1h, e assim chegamos a Orly, no começo da tarde, um pouco cansados, mas soulagés, como diriam os franceses.
Desisti de alugar um carro ali mesmo, o que me teria condenado a um belo engarrafamento no Périphérique de Paris, numa sexta-feira à tarde. Preferimos o bus Orly-Gare de Montparnasse, a 11,50 euros o passageiro, numa tranquilidade de ar condicionado e visão panoramique sobre as embouteillages dos outros... No caminho, trocando torpedos com nosso filho Pedro Paulo, doutorando em sanduiche parisiense, que nos esperou em Paris.
Por uma feliz e inesperada coincidência, o hotel ficava a walking distance da Gare de Montparnasse, ao lado da grande torre, onde também tem uma Galeries Lafayette.
Fim de tarde reparador, com direito a banho, sesta e consulta à internet. De noite, um ônibus confortável para o centro de Paris, passeio pelas livrarias do Boulevard Saint Germain, com as inevitáveis e irrecusáveis compras de livros e revistas.
Comprei, na La Hune (que recomendo, quase ao lado da igreja de Saint Germain de Près), um grande guia para um grande país que pretendo visitar proximamente, e um Schopenauer que já existe no Brasil, mas que na edição francesa, L'Art d'Avoir Toujours Raison, tem um posfácio erudito por Franco Volpi, sobre a dialética schopenaueriana.
Depois, a busca de um restaurante não muito cheio, mas agradável. Escolhemos a Taverne St Germain, onde foi possível comer bem, num estilo tipicamente parisiense. Do lado, uma família de escandinavos se deliciando com pratos franceses e mesmo um spaghetti a bolognaise. No outro lado, duas russas que deviam estar achando tórrida a temperatura de Paris (em vestidos sem manga para uma temperatura em torno de 12 ou 14, talvez), dividiam um foie gras acompanhado de vin rouge, mas que elas derramaram da carafe sobre copos altos cheios de cubos de gelo... Mon Dieu!
Acho que os garçons franceses devem estar um pouco mais tolerantes com turistas heterodoxos, pois me lembro que alguns anos atrás, ali ao lado, na Brasserie Lipp, foi difícil fazer o garçon trazer para a mesa uma Coca-Cola.
Os franceses aceitaram, ao que parece, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão...
Bem, agora toca ler e navegar, antes de dormir.
Amanhã, sábado, dia carregado de visitas culturais.
Paris, 25 de setembro de 2009.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Um comentário:
Fico feliz pela viagem prof., e muito mais pela edição francesa de schoppenhauer, pois a brasileira é péssima, a tradução do título já indica tudo e a introdução é bem fraca. Espero que leia "o mundo como vontade e representação" de schoppenhauer também (o meu favorito).
Abraços,
Fernando
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