Transcrevo do Blog do ex-prefeito Cesar Maia:
DECÁLOGO DA ANOMIA NA ARGENTINA! BOA PARTE SERVE AO BRASIL!
20.11.2009
Trechos do artigo de Eduardo Fidanza (La Nacion, 19/11/2009), Sociólogo da Consultora Poliarquia. Anomia significa ausência de normas para regular a vida social. Minha análise consta de dez fatores de anomia argentina.
1. O primeiro e talvez o mais grave definiu o historiador Tulio Halperín Donghi: "Se há um elemento que caracteriza a vida política argentina é a recíproca negação de legitimidade das forças que nela se enfrentam, agravada porque estas não coincidem nem nos critérios aplicáveis para reconhecer essa legitimidade".
2. O segundo fator, que é consequência do anterior, chamarei de demarcação de territórios. As elites argentinas, como os animais, fixam obsessivamente os limites de seus espaços de ação e pretendem reinar ali sem intromissões nem limites.
3. O terceiro fator é o descolamento entre poder e autoridade Como ninguém reconhece legitimidade ao outro, na Argentina cada setor se dedica a exercer o poder. O poder sem legitimidade se reduz à pura força. Há que ser prepotente, avançar, apertar, atropelar, ocupar espaços, depredar.
4. O quarto fator é a falta de consenso a respeito do perfil institucional do país. A classe dirigente argentina não se põe de acordo acerca de que tipos de instituições deveriam reger a sociedade.
5. O quinto fator é a utilização do Estado para fins partidários. Esse fenômeno é, em geral, uma tentação irresistível, alcançou na Argentina níveis intoleráveis. Implica, como tantas vezes se tem repetido, numa confusão entre Estado, Governo e Partido. Chegar ao governo supõe apropriar-se do Estado como instrumento arbitrário de acumulação de poder.
6. O sexto fator deriva do anterior. É a deserção do Estado de suas funções básicas. Lá se vão duas décadas que nossa classe dirigente discute se o Estado deveria intervir ativamente na economia ou deveria limitar-se a garantir serviços essenciais. Tivemos uma década para cada posição.
7. O sétimo fator é a fragmentação e perda de identidade das forças políticas. A decadência dos partidos, o uso arbitrário do poder estatal, as máscaras do peronismo, os problemas da UCR para governar, a inexistência de uma direita e esquerda apresentáveis, entre outros infortúnios, produziram a atomização e a dissolução das identidades políticas.
8. O oitavo fator é o autismo. As elites argentinas, enrascadas em suas lutas facciosas, perderam a noção de que vivem em uma região do mundo, com graves problemas. Com isso há uma perda de tempo (se não uma imbecilidade) em viver dilapidando oportunidades, debatendo temas do passado, praticando a desunião e dando as costas à realidade internacional.
9. O nono fator é a desigualdade. É certo que se trata de um problema mundial de difícil solução, mas a Argentina é o país da região que se tornou mais desigual em menos tempo.
10. O décimo fator é um signo de governos irresponsáveis. Quando a economia vai bem, se gasta e reparte sem prever tempos piores. Se induz a crer que não há limites. Quando o bom tempo termina, cada setor se crê com o direito a seguir reclamando a quota prometida.
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Permito-me remeter a outros fatores sobre a decadência de um país, em trabalho que fiz de maneira genérica, mas que também se aplica inteiramente ao Brasil:
“Pequeno manual prático da decadência (recomendável em caráter preventivo...)”,
número especial sobre “O Brasil que saiu das urnas”, da revista Digesto Econômico, revista da Associação Comercial de São Paulo (ano 62, nr. 441, jan-fev 2007, p. 38-47; ISSN: 0101-4218; disponível em duas partes no site da revista; links: (a) primeira parte ; (b) segunda parte).
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Um comentário:
Bom dia,
Só hoje conheci o seu blog, apreciei-o bastante.
Mas quanto ao facto de os partidos pensarem que o Estado é seu também acontece deste lado do Atlântico.
Quanto ao Brasil á medida que for diminuindo a pobreza há de alcançar a sua posição de potência média na cena mundial - penso que a grande superpotência há de ser inevitavelmente a China.
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