Tenho até certo constrangimento pelo título, pois o verdadeiro Dom Quijote era uma pessoa nobre de sentimentos, propensa a fazer o bem, por quaisquer meios, mesmo os mais irracionais. Assim era a sua tentativa de combater gigantes que ele via nos moinhos de vento.
Nosso outro quixote, com tudo minúsculo, é propriamente patético: pretende controlar os mercados, o que quer dizer os ventos, a tempestade, o tempo em geral.
Não preciso dizer qual é o destino desse tipo de desatino.
O mais curioso é que ainda se encontrem economistas para apoiar esse tipo de medida.
Congresso da Venezuela regula dólar paralelo
Flávia Marreiro
Folha de S.Paulo, 15 de maio de 2010
Chávez culpa oposição por desvalorização do bolívar e ameaça fechar bolsas. Há duas taxas oficiais do dólar no país, 2,6 por US$ 1 para importação de bens essenciais e 4,3 para o resto; paralelo já chega a 8,2.
Acossado pela escalada da inflação na Venezuela, o governo Hugo Chávez resolveu aprovar lei para regular o crucial dólar paralelo, divisa que circula legalmente no mercado de venda de títulos e bônus. O tipo de câmbio bateu recorde diante do bolívar forte nesta semana.
Na Venezuela, há controle de câmbio desde 2003 e há lenta distribuição de divisas pelo governo, de modo que é o dólar paralelo ou permuta que acaba sendo usado para pagar parte das importações -daí seu efeito direto na alta dos preços.
Ao mercado paralelo também recorrem investidores privados -de pequenos a grandes- que buscam a moeda estrangeira para proteger suas economias e capital da inflação, que fechou abril em 5,2%, a maior alta em um único mês desde 2003.
Em janeiro, Chávez baixou pacote que desvalorizou o bolívar e criou dois tipos de câmbio - 2,6 bolívar fortes por dólar para a importação de bens essenciais, e 4,3 bolívares fortes para os demais usos. Na época, prometeu que o novo esquema seria um golpe à cotação do dólar paralelo.
Apenas quatro meses depois, a modalidade de divisa que flutua só subiu e chegou a 8,2 bolívares fortes.
Na tentativa de segurar a cotação, a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou a nova lei, ainda não sancionada por Chávez. Pelo texto aprovado, o Banco Central do país terá competência exclusiva nas operações cujo objeto final seja obter para si ou para clientes a moeda estrangeira.
O texto também diz que é o BC quem vai dizer quais as corretoras que poderão atuar nesse mercado.
Para o economista Luis Vicente León, do instituto Datanálisis, uma maior regulação do mercado paralelo era necessária. Diz, porém, que só o detalhamento da nova legislação pelo BC local dirá se a medida foi acertada ou não. León explica ainda que, se o governo excluir pequenos investidores da operação, haverá mercado negro com cotação ainda maior.
Há dias Chávez faz ameaças a operadores e corretoras dizendo que especulam com o dólar paralelo para turbinar a inflação para prejudicá-lo nas eleições de setembro. Ele chegou a ameaçar fechar corretoras.
Recessão
A inflação, porém, não é o único problema de Chávez que tentará, em setembro, manter o controle da Assembleia Legislativa, dominada pelos governistas desde 2005 quando a oposição boicotou as eleições.
O país amargou recuo de 3,3% do PIB em 2009 e a projeção do FMI (Fundo Monetário Internacional) é que tenha o segundo ano de recessão -queda de 2,2%.
Recessão e inflação é um coquetel molotov para a popularidade de qualquer governo, diz León. Segundo a mais recente pesquisa do Datanálisis, 44% apoiam Chávez.
Nas últimas semanas, também tornou-se mais intenso o abastecimento de produtos básicos como leite e açúcar nos supermercados. A escassez não é tão severa como em 2007, mas pode se intensificar.
Nesta semana, o governo anunciou a aquisição forçada de mais uma empresa de alimentos: a Monaca, de capital majoritário do grupo Gruma, do México. O grupo anunciou que espera indenização rápida.
No decreto, o governo disse que a empresa, que produz farinha de milho, arroz e outros produtos, é essencial para a consolidação da capacidade de processamento socialista agroindustrial para a Venezuela do século 21.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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