O presidente acaba de decretar a morte do conceito de PIB potencial -- bem ele já extingiu várias outras coisas no Brasil, também, sem que essas coisas se tenham modificado substancialmente -- numa frase exemplar, como figura abaixo:
"Acabamos também com essa história de PIB potencial, que era uma bobagem de alguns economistas que diziam que o Brasil não podia crescer mais de 3% que a casa caía."
Para os menos versados em economia, caberia esclarecer do que se trata, exatamente, para que os mais jovens não fiquem com a impressão de que acaba de ser efetuada uma revolução na ciência econômica.
Economistas, de diferentes tendências -- e não apenas os ortodoxos, já que os supostos "desenvolvimentistas" também concordariam com os conceitos -- costumam distinguir entre o PIB real, ou seja, aquele que é efetivamente realizado na atividade econômica corrente, e o PIB potencial, que seria o PIB possível caso todos os fatores de produção fossem utilizados no limite de suas possibilidades e capacidades, sem provocar pressão inflacionária (que é quando a demanda aumenta acima das possibilidades da oferta, e a demanda só pode aumentar se existe meio circulante para tanto, o que depende em grande medida do crédito na economia).
Constata-se, portanto, que os conceitos econômicos de PIB real e potencial não configuram nenhuma bobagem, sendo uma simples realidade econômica, que pode ser constatada pelos indicadores de conjuntura, relativos a produção, capacidade instalada e sobretudo índices de preços.
Não é por outra razão que o BC acaba de elevar a taxa de juros de referência. Talvez o presidente do BC pudesse enviar a ata da última reunião do Copom ao presidente para que ele a leia (se conseguir) antes de soltar essa enorme bobagem de "matar" o PIB potencial.
Pessoas que possuem um conhecimento rudimentar de economia poderiam se informar melhor, antes de proclamar bobagens como essa referida.
Nunca é demais evitar demonstrações de incompetência econômica. Afinal de contas, o Brasil não merece ser deseducado em economia também, já que em matéria de política e de ética pública ele vem sendo deseducado há muito tempo.
Registre-se também, en passant (aliás uma palavra que o presidente se orgulha de usar), que a demanda vem crescendo devido a uma oferta mais do que necessária de crédito, o que certamente alimenta a inflação. Talvez os economistas pudessem alertar as autoridades que alimentar a inflação é uma grande bobagem, já que ela prejudica em primeiro lugar os mais pobres, de quem o governo se diz muito amigo. Ainda uma pequena aula de economia gratuita.
Paulo Roberto de Almeida
Lula inclui governo de FH na 'década perdida' da economia
Henrique Gomes Batista
O Globo, 31/05/2010
RIO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o período do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) como parte das décadas perdidas na economia. Lula afirmou em discurso na abertura do Michelin Challenge Bibendum, no Rio, que o país agora tomou gosto pelo crescimento.
- Qualquer um de vocês pode checar que poucas vezes investimos tanto em infraestrutura no país como agora. Tivemos algo próximo disso em 1975, mas na época o governo tomou dinheiro emprestado a 6% e, logo depois, os juros subiram 21%. Sabemos o que se passou com isso. Passamos duas décadas perdidas, entre 1980 e 2000 - afirmou Lula.
O presidente disse ainda que o mundo desenvolvido - que, segundo ele, sempre dizia ao Brasil o que o país deveria fazer - precisava ter humildade para vir aqui e aprender como se faz:
- Acabamos também com essa história de PIB potencial, que era uma bobagem de alguns economistas que diziam que o Brasil não podia crescer mais de 3% que a casa caía. Agora, vimos que é gostoso crescer 4%, 5%, 6%. Também não queremos crescer demais porque não queremos ser uma sanfona, que vai a 10%, volta a 2%, que vai a 10% e volta a 2%. Queremos crescer de forma sustentável.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Eleições de 2026 no Brasil: desaparecimento de partidos, de programas, de reguladores isentos - Paulo Roberto de Almeida
Eleições de 2026 no Brasil: desaparecimento de partidos, de programas, de reguladores isentos Paulo Roberto de Almeida, d...
-
O Equador, talvez "mal acostumado" com a prática de asilo diplomático em países tão instáveis e conturbados quanto os latino-ameri...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Brasil dá as costas ao futuro Editorial da The Economist (25/09/2026) Nota preliminar PRA: Não concordo inteiramente com este editorial ...
-
Uma preparação de longo curso e uma vida nômade Paulo Roberto de Almeida A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens, em ...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
PORQUE NÃO VOTAR EM FLÁVIO Artigo da revista Fórum, copiado por Walmyr Buzatto . ************************** Em 2007, Flávio Bolsonaro subi...
-
[Disponível neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/segredos-de-flavio-mulheres-negocios-um.html Segredos de Flávio: mul...
-
H-Diplo: New posted content Hume on Ludwig, 'Unwelcome Shores: Black Refugees in America' [Review] H-Net Reviews Ludwig, Bernadett...
-
Uma nova ameaça ao Itamaraty? Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor Nota sobre a ameaça de “caça às bruxas” no Itamarat...
-
O Google me ofereceu carregar o Gemini na lista de programas favoritos. Preciso primeiro testar para detectar algum erro clamoroso. Acho qu...
Nenhum comentário:
Postar um comentário