Concordo com o Alberto Tamer: em mais de 30 anos de carreira diplomática, sempre marcada, no início, por conflitos latentes e abertos entre os EUA -- geralmente por protecionismo setorial americano, por protecionismo generalizado brasileiro, pirataria e contrafação de produtos e serviços americanos no mercado brasileiro, por excesso de terceiro-mundismo em determinadas votações da ONU e em negociações comerciais -- eu nunca tinha visto os EUA nos tratarem tão bem como nos diversos governos desde a era Clinton-FHC (que representou, definitivamente, uma mudança de postura, das duas partes), e que se prolongou, contra todas as expectativas iniciais, na era Bush-Lula. Isto a despeito de todas as caneladas que este último deu na administração americana -- oposição ultra-ativa à aventura americana no Iraque, implosão na Alca, hostilidade geral em relação à política sul-americana de Washington, a começar pela animosidade em relação à Colômbia e muita amizade em relação a caudilhos populistas e outras lideranças anti-americanas, a aventura hondurenha tão bisonha, patética e contrária à Constituição e aos tratados internacionais, enfim, a despeito de tudo isso -- e das amizades estranhas cultivadas nesse período (com uns ditadores espalhados por ai, por exemplo), com tudo isso os EUA ainda nos trataram bem, quase como gente grande (o que é difícil para os EUA, convenhamos).
Nós é que esnobamos os EUA e nos esforçamos ativamente para afastá-los da América do Sul, o que de certa forma foi conseguido. Os que sairam ganhando foram os chineses, não os brasileiros, como sonhavam equivocadamente certos "planejadores" governamentais (que aliás não planejam e nunca planejaram nada de correto). No plano do comércio internacional, justamente, a tal de "nova geografia do comércio internacional" estava plenamente de acordo com os interesses chineses, menos com os interesses brasileiros. Patético...
Vivendo e aprendendo...
Paulo Roberto de Almeida
Brasil esnobou os EUA. Errou
Alberto Tamer
O Estado de S. Paulo, Quinta-feira, Julho 21, 2011
Um estudo que levou três anos do respeitadíssimo Council of Foreign Relations, divulgado na semana passada, afirma que os Estados Unidos deveriam dar mais atenção ao Brasil, um país que desponta no cenário mundial. Não é bem assim. É meia-verdade. Os EUA têm dado muita atenção, sim, quem rejeitou até agora foi o governo brasileiro, que praticou uma política externa de fogo de artifício, brilham por segundos e desaparecem.
O Brasil apoiou o Irã na questão nuclear, se aproximou de Hugo Chávez e relegou o mercado americano a um segundo plano.
Além disso, o ex-presidente Lula manteve no cargo por oito anos Celso Amorim, talvez o pior ministro das Relações Exteriores que o Brasil já teve. Uma das nossas colunas denunciou esse fato, afirmando que "a ideologia atrapalhava o comércio brasileiro". Tudo o que vinha dos EUA era ruim para o Brasil, só que o mercado americano é apenas o maior do mundo... Eles importam anualmente US$ 1,1 trilhão! E nós exportamos para eles, no ano passado, sabem quanto? US$ 19,4 bilhões...
Esnobamos os EUA, que importam 66% de tudo que vendemos em produtos industrializados e nos apegamos agora à China que compra só commodities agrícolas, petróleo, soja, e exporta para o Brasil 90% de industrializados.
Melhorando, mas pouco. A situação está melhorando no atual governo, mas temos muito a recuperar. No primeiro semestre, as exportações para os EUA cresceram 30%, mas são apenas 10% das vendas totais do Brasil. E isso porque importam industrializados, produtos nos quais perdemos espaço para a China nos Estados Unidos, no mundo e... aqui também. E querem saber quanto? Uma enormidade!
Vejam só isso! Os números do Bureau of Economics Accounts, (BEA) dos Estados Unidos assustam . Em 2002, os Estados Unidos importaram, de todos os países, o equivalente a US$ 693,10 bilhões. Pois em 2010, passaram para US$ 1,28 trilhão. Foi um crescimento de 84,43%. A variação até 2008 foi um pouco maior, 85,75%, e é fácil compreender essa diferença, porque 2009 e 2010 foram anos de recessão e, portanto, de importações menores.
E o Brasil nisso? As vendas brasileiras para os Estados Unidos cresceram 94,1% até 2008, ano da recessão. Quando se considera a diferença entre 2002 e 2010, a expansão é de apenas 52,92%, porque a demanda americana encolheu nos últimos dois anos. No conjunto, parece um desempenho satisfatório, mas não é porque vários outros países aumentaram as vendas em mais de 100% para o mercado americano, deixando o Brasil para trás a ver estrelas.
Eles crescem mais de 100%! Apesar de sobrecarregar o leitor com números, vamos dar as importações americanas em dois períodos, 2002-2008 - ano de crise financeira - e 2008-2010, para evitar distorções entre os dois últimos anos de recessão e os anteriores, até 2002, quando eles importaram menos:importações do Brasil até 2008 - mais 94,15% até 2008. Desse ano, até o ano passado, mais 54,9%.
E vejam agora os outros. As importações da China até 2008 aumentaram nada menos que 170,58% (!!) e 191,68% (!!!) até 2010. Nos dois casos o ano base é 2002. Com crise e tudo. Quase quatro vezes mais do que o aumento das vendas brasileiras para os EUA. Pode-se ver que mesmo na fase de recessão, as importações da China quase dobraram!
O mesmo acontece com as importações da Índia, que aumentaram 118,72% até 2008 e 150,76% até 2010. De novo, crescimento enorme apesar da recessão. Conjunto das Américas Central e do Sul: 84,16% até 2008 e 78,47% até 2010. Considerando-se o período até 2010, portanto, a região teve um desempenho geral melhor que o do Brasil.
A conclusão é triste e simples: o Brasil deixou de dar prioridade ao mercado americano, em busca do sonho dos países do Sul, e perdeu espaço para outros países, mais realistas, que ocuparam o seu lugar. O Brasil errou e só agora está percebendo disso. Uma tarefa árdua e ingrata para o novo governo que pode levar anos.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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