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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Brasil: brincando com o protecionismo (seriamente...)

O setor de brinquedos no Brasil foi o primeiro a provocar medidas de salvaguarda, barreiras tarifárias e vários tipos de iniciativas defensivas, protecionistas, subvencionistas, discriminatórias, no início do governo FHC, em 1995, e no início, portanto, do que seria a fase "permanente" do Mercosul, adotando medidas em total desacordo com a política comercial do bloco e até com regras do sistema de comércio internacional. O mesmo personagem que reclama que o governo não fez nada, deveria se lembrar que o governo deu proteção indevida, e subsídios generosos a todo o setor, mas eles ainda assim foram incapazes de se tornar competitivos, e de obter ganhos de produtividade.
Pode-se dizer que a culpa não é exatamente do setor -- a do protecionismo sim -- pois as condições gerais para a atividade empresarial no Brasil são pavorosas. Mas a culpa é do governo, não dos chineses.
Enquanto os empresários não mudarem sua atitude, vai continuar o mesmo cenário: reclamações, protecionismo, subvenções, novas reclamações.
Paulo Roberto de Almeida 

Cristiane Bonfanti
Correio Braziliense, 21/05/2012

Itens estrangeiros respondem hoje por 45% do faturamento anual do setor e indústria nacional quer apoio para reagir

A indústria de brinquedos brasileira não tem mais o brilho que irradiava até os anos 1990. Do início artesanal marcado por bonecas de pano e carrinhos de madeira até a grande revolução do plástico e a febre dos eletrônicos, ela viveu fases de glória, mas entrou em declínio após a abertura do mercado realizada pelo ex-presidente Fernando Collor para produtos importados. O movimento, além de baratear o custo dos brinquedos, trouxe a China para a disputa direta pelos consumidores nacionais. Hoje, nada menos que 45% de um faturamento anual de

R$ 3,4 bilhões do setor no Brasil vêm dos itens estrangeiros.

As fábricas nacionais não pararam, mas nenhum investimento tem sido suficiente para que  avancem na mesma velocidade da entrada de importados. Dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq) mostram que, entre 2006 e 2011, enquanto o faturamento das peças produzidas no país cresceu 106%, de R$ 856 milhões para R$ 1,76 bilhão, o dos importados aumentou 106,3%, de R$ 822 milhões para R$ 1,69 bilhão. A China é senhora quase absoluta: ela envia 87,66% do total de importações. A Indonésia fica em segundo lugar, com 2,13%, e a Malásia, em terceiro, com 2,50%.
Synésio Batista da Costa, presidente da associação, observa que um dos principais pontos de perda de competitividade é o custo da mão de obra. Enquanto na China um trabalhador médio fica em US$ 327 por mês, no Brasil, ele sai por US$ 1 mil. "Além disso, o brasileiro trabalha 44 horas por semana e o chinês, 70 horas por semana. É uma diferença que não dá certo. É preciso melhorar o câmbio, os portos, acabar com essa substituição tributária que beneficia o importador. Precisamos parar de ser roubados", revolta-se.

Com uma trajetória que se confunde com a história da indústria de brinquedos no Brasil, a Estrela também sentiu o baque e tem recorrido à China para sobreviver. Desde os anos 1990, a companhia começou a amargar deficit e hoje tem um prejuízo acumulado de R$ 222,3 milhões. Se, antes, Estrela era sinônimo de boneca, hoje ela nem sequer faz parte do imaginário de muitos pequenos, que encontram nas vitrines um leque muito mais variado de opções. Para afugentar a crise, desde 2007, a empresa também passou a produzir na China, por meio de empresas terceirizadas. Nas contas do presidente da marca, Carlos Tilkian, entre 30% e 40% do faturamento anual já vêm de produtos importados. "Esse índice depende fundamentalmente do câmbio. Essa é uma forma de mantermos posição de competitividade até que mudanças macroeconômicas aconteçam", afirma. Agora, ele estuda, inclusive, passar a exportar a partir da China, o que eliminaria o chamado Custo Brasil, o conjunto de fatores que encarece o investimento no país.
Além de questionar as vantagens oferecidas pelo Brasil para a entrada de importados, como a redução de impostos, a Abrinq está em negociação com o Ministério da Fazenda para que o setor entre na lista dos ramos beneficiados por uma alíquota entre 1% e 2% sobre o faturamento bruto em substituição aos 20% de contribuição patronal do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) cobrados atualmente. "Há um elenco de vantagens para os importados. Estamos tentando ganhar essa guerra centavo a centavo", diz Costa. "O governo não tem feito nada para impulsionar o setor", reclama.

Alternativas
Motivos não faltam para tanta lamúria. Dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostram que o total desembolsado para a fabricação de brinquedos passou de R$ 6,6 milhões em 2007 para R$ 18 milhões em 2010. Em quatro anos, o montante chegou a R$ 37,2 milhões. No entanto, o valor representa ínfimos 0,008% do total de R$ 460,5 bilhões repassados pelo banco de fomento no mesmo período. Não à toa, os fabricantes procuraram uma alternativa e, nos últimos cinco meses, lançaram 1,2 mil produtos. A meta é reduzir para 40% a participação dos itens estrangeiros no faturamento do setor até o fim do ano. "Não podemos esperar o governo", frisa o presidente.
Para Felipe Queiroz, analista da Austin Rating, a crise vivida pelos fabricantes de brinquedos apenas reflete a realidade econômica brasileira. "Essa lacuna é muito maior quando você analisa o setor têxtil, que está quase acabando por causa da concorrência avassaladora dos países orientais. O governo tem aberto os olhos para o risco de desindustrialização do país, mas não bastam medidas pontuais", alerta. Na opinião do economista, o mais eficiente seria uma reforma tributária, com efeito contínuo. "Além disso, temos o gargalo da infraestrutura. Os aeroportos estão acima de seu limite operacional e as estradas, sucateadas", destaca.

Falta de critérios
Professor de estratégia empresarial do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Sergio Lazzarini considera que o grande problema do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é a falta de critério na hora de conceder empréstimos. A seu ver, isso impede que o Brasil priorize a infraestrutura e áreas de impacto social, como a educação e o saneamento básico. "Ele tem aumentado o montante repassado, mas não analisa se o empresário realmente precisa do dinheiro. Muitos têm condições de captar dinheiro no exterior a taxas menores", observa.

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