A Economist da semana (8-14 Março) dedica toda uma matéria de três páginas inteiras (o que é uma distinção extraordinária, para os seus padrões) ao primeiro ano do papa Francisco, de onde retiro as frases abaixo, acrescentando meus breves comentários.
1) "The issue for those who do not believe in God is to obey their conscience".
Ainda que a frase pretenda demonstrar maior tolerância com respeito aos ateus, ela ainda peca (se o Papa me permite a expressão) por intolerância de fato com as "consciências". As pessoas não precisam acreditar ou desacreditar em Deus, ou deus, para seguir suas consciências respectivas; elas podem fazê-lo na ignorância total do fenômeno religioso. Colocar deus na história significa obrigar os "ateus" -- que na verdade não são ateus, já que não necessariamente eles se posicionam em relação a algo que não possui qualquer significado para eles -- a sempre se referir a algo que eles rejeitam fundamentalmente, o que é uma inacreditável ditadura mental, ou filosófica dos crentes (e não apenas dos cristãos ou católicos). Um ponto para a tolerância papal, zero para a filosofia.
2) "Today everything comes under the laws of competition and the survival of the fittest, where the powerful feed upon the powerless."
Mero preconceito do papa contra a competição, que é um dado da natureza, não um instrumento dos poderosos. Os pequenos mamíferos sobreviveram à catástrofe que vitimou os grandes dinossauros porque estavam mais adaptados aos recursos disponíveis num ambiente em transformação, e isso é competição natural, sem que haja qualquer sentido de valor nas ações, totalmente involuntárias, dos que pereceram e dos que sobreviveram. Esta pequena peça darwiniana também serve para demonstrar como o papa está enganado no seu julgamento anti-darwiniano, ou anti-darwinista, que na verdade se refere mais às simplificações que Herbert Spencer fez a respeito da obra de Charles Darwin do que da teoria da seleção natural em si. O papa está totalmente enganado quanto ao darwinismo, se apoiando numa versão simplória, e errada, do que representa a sobrevivência dos mais adaptados, não dos mais poderosos (o que os dinossauros eram, obviamente, em face dos pequenos mamíferos). Zero ponto em história natural para o papa.
3) "Just as the commandment: 'Thou shalt not kill', set a clear limit in order to safeguard the value of human life, today we also have to say 'Thou shalt not' to an economy of exclusion and inequality. (...) Not to share one's wealth with the poor is to steal from them."
Nada mais errado, o que demonstra, mais uma vez a inacreditável pobreza intelectual do papa em matéria de economia, aliás característica dos religiosos em geral, e da Igreja católica em particular. Esse preconceito contra a riqueza, o patrimônio e a propriedade é que mantém milhões de pobres na pobreza.
Em sociedades livres -- que são as que criaram o maior volume de riquezas no mundo, bastando olhar as que são livres e as que não são -- ninguém é obrigado a dividir o seu patrimônio com os que não têm nada, e isso não significa que os ricos tenham roubado algo dos mais pobres. Ladrões, geralmente, são alguns intermediários da riqueza social, como políticos e burocratas, não magnatas e milionários. Pobres são os que não tiveram educação e capacitação para se inserir no mercado de trabalho, ou em atividades diretamente produtivas, e criar a sua própria fonte de riqueza, e por vezes são obrigados a vender a sua força-de-trabalho para empresários ou os governos. Os níveis de salários obedecem, ou deveriam, às leis da oferta e da procura, salvo quando governantes malucos estabelecem níveis artificiais de salário mínimo -- o que fazem por pressão das máfias sindicais -- o que justamente deixa muitos pobres sem emprego, já que eles não possuem qualificação suficiente para assumir determinados postos de trabalho, e para o que sabem fazer, os empregadores não estão dispostos a pagar o salário mínimo que costuma ser colocado acima do equilíbrio de mercado.
A Economist termina por chamar Francisco de "papa peronista", no que ela tem inteiramente razão. O papa cresceu naquele ambiente contaminado pela ideologia peronista, e mesmo sem querer foi sequestrado pelo cadáver do homem que inviabilizou a Argentina (com a ajuda de vários outros, mas ele foi o principal). Se vocês querem ter uma receita de pobreza e de decadência durante todo o século 20, basta olhar a Argentina.
Será que o papa Francisco vai fazer o mesmo com a Igreja Católica?
Paulo Roberto de Almeida
Hartford, 13/04/2014
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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