Cerimônia de posse de meu amigo e colega, embaixador Sergio Abreu e Lima Florencio, como novo membro do Instituto Histórico e Geográfico do DF, em 29/05/2026, 19hs.
Saudação a Sergio Florencio, cadeira San Tiago Dantas, no IHG-DF
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Para breve leitura na cerimônia de posse, em 29/05/2026.
Minha amizade com o embaixador Sergio de Abreu e Lima Florencio tem mais ou menos a mesma idade que o Mercosul. Um ano depois da assinatura do Tratado de Assunção, eu estava retornando de Montevidéu, onde havia trabalhado como conselheiro na Delegação do Brasil junto à Associação Latino-Americana de Integração, sob a batuta do embaixador Rubens Barbosa, quem, ao assumir a chefia do setor de integração latino-americana na Secretaria de Estado convidou o então ministro Sergio Florencio para chefiar o Departamento do Mercosul. Eu me ocupava da informação sobre o processo de integração, possivelmente o mais importante empreendimento estratégico da diplomacia brasileira, em décadas. Não sei se continua sendo, mas a minha amizade com Sergio Florencio só se fortaleceu desde então.
Além e acima das características que definem os diplomatas, intelectualmente e operacionalmente, o que eu sempre valorizei acima de tudo na carreira foi a companhia de pessoas inteligentes, perfeitamente à vontade na defesa dos valores e princípios que embasam os fundamentos doutrinais e o modus operandi da diplomacia profissional. Sempre ouvimos, nos frequentes discursos dos chefes da Casa, que a função tripartite dos diplomatas é de informar, representar e negociar. Nunca concordei com essa limitação, pois considero que, acima e além dessas tarefas básicas, está, em primeiro lugar, a função de pensar a diplomacia, na sua relação com a sociedade brasileira e com os interesses nacionais. Não só pensar, mas também expressar livremente suas reflexões aos colegas e chefes da Casa sobre o conteúdo mesmo, a substância, da informação, da representação e das negociações a que somos levados ao longo de uma carreira muito diversificada e enriquecedora.
Nunca concordei, tampouco, com um dogma aparentemente sacrossanto, que parece ter sido herdado da ditadura militar, segundo o qual os diplomatas devem, imperativamente, respeitar a hierarquia e exibir disciplina nas suas funções. Esse binômio autoritário pode valer para o soldado na linha de frente, que não pode evidentemente interromper uma ordem de combate para discutir Kant ou Clausewitz com o seu tenente ou capitão, mas nunca para um diplomata, que tem o dever de refletir sobre os assuntos dos quais se encarrega, medir suas implicações para o Brasil, com base numa avaliação ponderada e fundamentada, e discutir, sim, com o seu chefe e superiores, a razões de ser adotada tal postura em lugar de outra.
Pois, ao trabalharmos nos primeiros passos sobre o projeto de integração regional, logo detectei em Sergio Florencio essa capacidade de não só pensar sobre os temas na pauta, como também de argumentar sobre o melhor caminho a seguir pelo Brasil para atingir os objetivos inscritos no Tratado de Assunção; mais ainda, de escrever de forma inteligente sobre os assuntos de que trata profissionalmente ou até por diletantismo intelectual. Pouco antes de sair novamente do Brasil, em 1993, para sofrer alguns anos em Paris, deixei um livro sobre o Mercosul, que preparei com base no meu trabalho em Montevidéu e em Brasília. Mas, só teve uma edição: hoje está livremente disponível na minha página em Academia.edu.
Dois anos depois, Sergio Florencio também publicava o seu livro Mercosul Hoje, que teve bem mais sucesso, teve pelo menos duas edições e é constantemente citado nas bibliografias sobre a fase inicial do mais importante projeto de integração do Brasil. Mas, o que mais distingue Sergio Florencio é sua capacidade de colocar no papel, e divulgar, suas reflexões sobre as agendas mais importantes da diplomacia brasileira das quais tenha tomado conhecimento, tenha trabalhado sobre, ou simplesmente capture sua insaciável curiosidade.
Ao voltar de Paris, elaborei uma tese para o Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, sobre as relações sobre o Brasil e a OCDE, e me vali, justamente, de um relatório sobre a primeira missão efetuada pela diplomacia brasileira junto à organização do Chateau de la Muette, em Paris, da qual Sergio Florencio participou, em 1992, no governo Collor, e sobre a qual ele elaborou, ou colaborou na sua elaboração, um relatório que deveria figurar nos anais históricos do Itamaraty, a respeito de um projeto talvez tão importante para o Brasil, ou até mais, do que o processo do Mercosul, ainda hoje inconcluso.
Depois continuei seguindo seus escritos, seu livro sobre Os Mexicanos, publicado numa importante coleção da mais importante editora universitária brasileira, a Contexto, e inumeráveis artigos publicados de forma intensa na mídia brasileira. Mais recentemente, ele tem participado de emissões da grande mídia, na TV e nos debates online, sobre os temas do momento, entre eles a guerra demencial de Trump contra o regime iraniano, regime que ele viu nascer, em 1979, quando estava lotado na embaixada do Brasil em Teerã. Sobre esses episódios momentosos sobre a mais importante revolução social da era contemporânea, uma espécie de reprodução explosiva da Grande Revolução francesa do final do século XVIII. Sobre suas aventuras iranianas, inclusive familiares, e muitas outras coisas mais, retraçando um itinerário singular na vida diplomática, na vida familiar, nas amizades, recomendo a leitura de seu livro Diplomacia, Revolução e Afetos (editora Appris), no qual eu mereci um carinhoso capítulo, na condição de Ombudsman do Itamaraty.
Mais recentemente, ele publicou uma coletânea de artigos de atualidade, e de análise dos mais importantes eventos do Brasil e do mundo, no livro Um Mundo em Transformação: Qual o Lugar do Brasil? (também pela Appris), para o qual eu tive o prazer e a honra de escrever um prefácio. Em retaliação, como diriam os militares americanos, eu o convidei para escrever o prefácio de meu próximo livro, sobre a historiografia das relações internacionais do Brasil (mais um pela Appris, de Curitiba). Nosso chefe de várias aventuras diplomáticas, Rubens Barbosa, faz a apresentação, que diz muito sobre o caráter e o intelecto deste novo colega que hoje recebemos no Instituto Histórico e Geográfico. Ele teve a sorte de ter à sua disposição, a cadeira San Tiago Dantas, possivelmente um dos grandes chanceleres, também ministro da Fazenda, que o Brasil teve a felicidade de tê-lo no comando de duas importantes pastas do governo do Brasil, na República de 1946, infelizmente por pouco tempo.
Caro amigo, irmão, camarada Sergio Abreu e Lima (sim, ele tem parentesco com o insurreto de 1817 e general das revoluções libertárias na América hispânica) Florencio, seja bem-vindo ao nosso convívio. Obrigado!
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5334, 29 maio 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/saudacao-sergio-florencio-cadeira-san.html
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Saudação a Sergio Florencio, cadeira San Tiago Dantas, no IHG-DF - Paulo Roberto de Almeida
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