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domingo, 20 de setembro de 2026

Não Podemos Esquecer 1948: Declaração Universal de Direitos Humanos - Armando Mariante

 Não Podemos Esquecer 1948

Direitos Humanos na Era do Algoritmo

ARMANDO MARIANTE

SEP 20, 2026

No dia 10 de dezembro de 1948, no Palais de Chaillot, em Paris, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo artigo primeiro diz:

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir, uns em relação aos outros, em espírito de fraternidade.”

(“All human beings are born free and equal in dignity and rights. They are endowed with reason and conscience and should act towards one another in a spirit of brotherhood.”)

A ONU havia sido criada apenas 3 anos antes, sob os escombros sociais e econômicos da Guerra Mundial que eliminou 80 milhões de humanos na maior matança da história.

Essa Declaração foi a resposta forte, gritante, e que se pretendia indelével e definitiva, à assustadora experiência vivida na primeira metade do século XX no qual as duas guerras mundiais, guerras civis, revoluções, genocídios, massacres e mortes por fome e doença diretamente associadas a conflitos, mataram perto de 130 milhões de pessoas.

Fascismo, nazismo, racismo com “viés” científico, antissemitismo, eugenia e totalitarismos de diversos matizes tinham algo em comum: hierarquias entre os humanos. Algumas pessoas pertenciam plenamente à comunidade; outras pertenciam “pero no mucho” e outras deveriam dela ser excluídas. Da exclusão à eliminação foi um passo.

A força e a clareza do artigo primeiro da Declaração derivam do terror que tais ideologias produziram e da crença na capacidade da humanidade em evitá-las no futuro.

Nas décadas seguintes, as gerações pré e pós guerra tinham a Declaração como verdade absoluta e óbvia embora, no mundo real, a retórica inúmeras vezes continuasse sem reflexo na realidade.

O avanço moral de 1948 chancelado pela ONU, preconizava basicamente que nenhum estado, etnia, religião, raça, classe ou partido concede por si só dignidade ao indivíduo. A dignidade vem antes de tudo isso ou, simplesmente, não vem.

O retrocesso era imprevisível e terminou sendo inevitável.

Eis que novas (ou velhas) classes de conservadores, nacionalistas e identitários emergiu com força em tempos recentes munidos com 2 poderosos armamentos de hardware e software: os smartphones e as redes sociais.

A intolerância e a desumanização do adversário encontraram terreno fértil nesse novo ambiente. A dignidade como premissa da raça humana enfraqueceu como conceito.

Surgiu além disso um agravante: as novas gerações (sobretudo a última) estão perdendo a capacidade de ler, imaginar, memorizar, refletir, argumentar. Desvanece-se a memória.

Livros demandam de nós essas habilidades. Vídeos e imagens nos “tik toks” da moda duram poucos segundos e são desenhados para tocar em emoções e promover identificação e compartilhamento, tudo rápido, sem grandes reflexões.

Num livro ou num artigo longo, a imaginação só encontra limites na capacidade criativa do leitor. O céu é o limite. No vídeo de 30 segundos, não. Não é necessário dar espaço à imaginação. O algoritmo foi desenhado exatamente para impactar, despertar emoção, identificação, pertencimento e desejo de compartilhar, tudo rápido.

Pesquisas recentes indicam que praticamente metade dos jovens de 18 a 24 anos tem atualmente nas redes sociais e plataformas de vídeo sua principal fonte de notícias. A mídia mainstream já é absolutamente minoritária na atenção de jovens até 35 anos.

Nos EUA, a mudança é impressionante: entre 2020 e 2025, o número de jovens com menos de 30 anos que dizem ter especificamente o TikTok como provedor regular de notícias aumentou de 10% para 43%.

Não se trata, simplesmente, de mudança na fonte da informação. É muito mais complexo. A mudança é na forma mental através da qual a informação é absorvida.

E aí, eis que entra em cena a IA que acelera e aprofunda essa transição porque viabiliza a produção com custo baixíssimo, de milhares de variações de uma mesma narrativa: texto, voz, fotografia, meme, vídeo, tradução, com comentários artificiais super-espontâneos e facilmente adaptáveis a públicos diferentes; um novo taylor made design.

Antes, as mensagens eram desenhadas para alcançar o maior público possível. Hoje elas são produzidas para maximizar a atenção, impactar e mobilizar o maior número de indivíduos. Mobilizado, o indivíduo passa a divulgador, passa, orgulhosamente, a influencer.

Há fortes evidências de que os movimentos populistas radicais tem sido mais hábeis na utilização dessas ferramentas digitais de massa.

A democracia liberal exige uma capacidade intelectual sofisticada que consiste, basicamente, em aceitar que fulano, ainda que tenha, a nosso ver, ideias absurdas e que esteja totalmente errado em seu julgamento, continue a ter direito de defendê-las e, eventualmente, até ganhe uma eleição. Isso parece banal mas não é, de jeito nenhum.

Esse mecanismo exige distinção entre julgamento político e julgamento moral.

As redes sociais, com frequência, induzem o oposto. Elas recompensam indignação, certeza, simplificação e pertencimento. Com frequência, são “binárias”, do tipo sim ou não, preto ou branco, amigo ou inimigo.

O adversário deixa de estar errado. Passa a ser mau. Depois passa a ser perigoso e, eventualmente, inimigo. E quando é considerado perigoso ou inimigo, emerge uma pergunta que já apareceu muitas vezes na história: Por que ele deveria ter os mesmos direitos que nós? Por que ele deveria estar entre nós?

Tem o outro lado da moeda, felizmente. A mesma tecnologia que espalha desinformação, permite acesso a bibliotecas inteiras, aulas importantes, lectures extraordinárias, documentos históricos, praticamente todo o conhecimento acumulado pela humanidade, coisa que há 20 ou 30 anos não era acessível à grande maioria dos humanos.

Pesquisa do Reuters Institute aponta a que há jovens criadores que fazem justamente o contrário da provocação midiática: apresentam assuntos complexos de forma simplificada de modo a incentivar os jovens a voltarem a ler, imaginar, elaborar mentalmente fatos históricos, assuntos científicos e notícias. Isso ainda é raro e, claro, tem limites, mas existe.

Os “vilões”, portanto, talvez não sejam, propriamente, ou isoladamente o smartphone, o TikTok, o Facebook, o Instagram ou a IA.

O problema é que essas tecnologias estão se difundindo rapidamente numa sociedade que perdeu três hábitos antigos e muito preciosos: ler demoradamente, suportar complexidade e conviver com quem discorda.

O maior risco para os direitos humanos, portanto, não é o “cancelamento” da “Declaração” de 1948. O maior risco é que nós, nossos filhos e netos esqueçamos nosso passado e com isso a compreensão da importância da “Declaração” na nossa conturbada história, das razões pelas quais ela foi construída e porque precisamos tanto, mas tanto, dela para preservar nossa humanidade no futuro.


©️ 2026 Armando Mariante

San Francisco, CA 94104

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